sábado, 31 de maio de 2008

Velocidade nas ruas (17 de março de 1956)

Se existem motoristas (profissionais ou amadores) côncios de grande responsabilidade que deve nortear os atos de quem se senta atrás de um volante, existem também aquêles que desconhecem por completo essa necessidade.

Se existem “chauffeurs” cuidadosos, atenciosos, responsáveis e meticulosos no dirigir, existem também aquêles outros, que, na direção de um veículo, entendem que o mundo lhes pertence.

Estamos vendo isso a tôda hora. Aqui, em São Paulo, no Rio, na China. A crônica policial das grandes cidades, registra um índice verdadeiramente assustador, no que tange a atropelamentos e mortes de trânsito.

Não queremos aqui lançar sôbre as costas de todos os motoristas, a responsabilidade de todos os acidentes de trânsito, onde se apresentam mortes e ferimentos. Os pedestres, por suas vezes, também têm a sua responsabilidade e necessitam atenção e cuidado ao andar ou atravessar vias públicas.

Mas, uma coisa é irretorquível: a pessoa que dirige um carro, deve ser cuidadosa e dedicada. Deve pensar também pelo transeunte descuidado ou pela criança indefesa que anda pelas ruas da cidade. Por isso, a velocidade em vias públicas não é aconselhável. Além dos sustos e de danos materiais que poderão acarretar, destaque-se o risco de vida que oferece ao próprio povo.

Muitos motoristas – muitos motoristas, frisamos –, esquecem-se de que existem sêres humanos transitando pelas ruas, que circulam crianças escolares e ciclistas que ignoram regulamentações de trânsito, “mão” e “contra mão”. Cabe então ao motorista zeloso e consciente, cuidar também dêsse pormenor. Cabe ao profissional do volante ou ao motorista amador, atender para êsse fato. As altas velocidades em vias públicas – principalmente centrais e de movimento e em esquinas de trânsito mais ou menos volumoso, devem ser condenados.

Aqui deixamos um apêlo aos motoristas da cidade: corram menos, senhores! Compreendam o significado dêste pedido – êle significa vidas e representa a segurança do próximo.

Extraído do Correio de Marília de 17 de março de 1956

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Uma luta nóbre (16 de março de 1956)

Numa das últimas sessões da Câmara Municipal de Marília, o vereador Raul Pimazoni ofereceu à edilidade mariliense, o seguinte requerimento:

“Requeiro, ouvido o plenário e em regime de urgência, que se oficie ao exmo. sr. Governador do Estado, Jânio Quadros, que tanta amizade tem demonstrado por Marília, a fim de que sua excia. determine a criação de cursos ginasial e normal noturnos, no prédio do Ginásio do Estado local, pois, como bem disse o nobre colega reverendo Álvaro Simões, em sua brilhante “Crônica do Dia”, publicada no conceituado jornal CORREIO DE MARÍLIA, de 4 do corrente, inúmeros são os meninos pobres que trabalham durante o dia a fim de auxiliarem seus progenitores e a outros que, por serem órfãos, são obrigados desde a infância a assumirem a direção e manutenção de seu pobre lar, sem poder com isso prosseguir em seus estudos e ser útil, no dia de amanhã, aos seus familiares e, sobretudo, à Pátria. A mocidade de Marília aguarda com ansiedade e confiança ao apêlo ora dirigido ao exmo. sr. dr. Jânio Quadros. Em anexo, o recorte do jornal acima mencionado, bem como do CORREIO DE MARÍLIA desta data, que novamente tratou do assunto”.

Tal requerimento teve origem em comentários feitos por êste órgão, acerca da criação e instalacao de cursos ginasial e normal noturnos, mantidos gratuitamente pelo govêrno do Estado, para favorecer a uma infinidade de estudantes pobres de Marília, maximé aquêles que labutam durante o dia e só podem estudar à noite.

Das mais nobres é a luta em casa. Tanto assim, que o referido vereador, juntamente com mais dois – reverendo Álvaro Simões e Nasib Cury –, levaram a efeito na última sexta-feira uma reunião pública na Avenida Sampaio Vidal, que contou com a participação de dezenas e dezenas de estudantes, além de outras autoridades e representantes da imprensa. Na ocasião, um abaixo assinado foi providenciado, que será entregue ao sr. Governador do Estado, representando o anseio do público mariliense a respeito dêsse motivo e solicitando ao Chefe do Executivo bandeirante as providências a respeito.

A luta é das mais nobres.

Que os encabeçadores da contenda não esmoreçam, levando avante a idéia, propugnando pela sua consumação, para que não aconteça como a nossa decantada Faculdade, são os nossos votos.

Extraído do Correio de Marília de 16 de março de 1956

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Dona de Casa... E Então? (15 de março de 1956)

E então, senhoras donas de casa? A Associação das Donas de Casas de Marília vai ficar indiferente a essa verdadeira crise que vivemos com referência aos constantes abusos que se verificam nos preços das coisas e gêneros de primeira necessidade?

Entendemos ainda que a A. D. C. M. não principiou a agir, conforme prometeu aos marilisenes. As providências dêsse órgão estão se fazendo sentir, de há muito. O sr. Governador do Estado, pessoalmente, correu a estender a sua mão a essas senhoras, dando-lhe o seu apôio. O público mariliense recebeu com aplausos os primeiros trabalhos e a constituição da A. D. C. M.. E esperou, com alguma confiança, as suas providências, as suas ações. Estas, no entanto, estão tardando. Estão fazendo falta.

Senhoras, agi!

Fazei alguma coisa. Procurai intimidar, pelo menos um pouco, aos que se prevalecem de condições especiais, para esfolar o povo. Vinde a público, para demonstrar à própria COMAP, como se deve agir.

O povo ainda está esperando as ações que a A. D. C. M. prometeu.

Senhoras, fazei alguma coisa. O povo vos agradecerá. E vos apoiará. E vos dará forças.

Elaborai um plano de ação. Verificai bem aquilo que está errado – que é muita coisa – e fazei alguma coisa. Com justiça e com ânimo. Sem esmorecimento. Sem complacências.

Senhoras donas de casa, vinde em socorro do povo, vinde em defesa de vossos próprios maridos. Fazei alguma coisa. Agí, senhoras!

Muita coisa anda fóra dos eixos por aí. Muita coisa anda a exigir providências, ações. Muita coisa deve merecer um dique, para estancar uma série de abusos e desconsiderações.

“Já que a montanha não vem a Maomé, Maomé vai à montanha”. Assim, senhoras, já que muita gente não se preocupa em compartilhar com as dificuldades e misérias do povo mariliense, que êste próprio povo vá até essa parte que suga, através da A. D. C. M.. Mormente agora, quando a COMAP dorme sem acordar.

Senhoras donas de casa, o povo espera alguma ação, em seu benefício.

Agi, senhoras!

Extraído do Correio de Marília de 15 de março de 1956

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Rapazes, cuidado! (14 de março de 1956)

Cuidado, rapazes casadoiros! Muito cuidado, porque o mundo de nossos dias anda de pernas para o ar. Homens “virando” mulheres... Mulheres “virando” homens...

O que pensariam nossos austeros antepassados, aquêles homens que tinham um orgulho imenso em bater nos peitos e que consideravam um fio de barba como um documento? E aquelas mulheres que eram tipicamente femininas? Que não usavam decotes, que não vestiam calças compridas e jamais mostravam as pernas acima dos tornozelos?

Pois bem, o “negócio” hoje é diferente... Modernismo? Sinal dos tempos? Não sabemos... O que nos consta é que parece que a moda “pegou”. A três por dois, muda-se de sexo, como a coisa mais natural do mundo. Sim, natural, pois a própria medicina explica a causa como um fenômeno dos mais naturais.

Acontece que ôntem passávamos os olhos por sôbre um jornal da Capital e líamos, estupefatos, o caso da mulher que “virou” homem, dois meses após casada! E o caso não aconteceu em Nova Iorque, não. Nem na Alemanha Ocidental. Foi ali em São Paulo, na São Paulo da garôa...

Ela, Sandra. Êle, Ângelo. Ela, aeromoça. Êle, comerciário. Encontraram-se, namoraram-se. Noivaram. Casaram. Tiveram, como todos os casais, a sua lua de mel. Montaram o lar. Pouco depois, Ângelo notou que sua espôsa gostava muito de usar e abusar de trajes masculinos. Modificava gradativamente as suas atitudes. Seus beijos – é o jornal que descreve – já não tinham aquêle dulçor tipicamente feminino, aquêle langor emolente, que desperta uma quebradeira gostosa nos nervos, uma lassidão, uma antevisão do paraiso. Nada disso. O beijo de Sandra, era então, algo dominador. Sua boca não se oferecia como antes – diz a notícia. Arrecadava, a tempo e a horas, nos ímpetos que ela e só ela criava. Nenhuma passividade de mulher que se faz conquistar. Ao contrário, ativa e absorvente, não escondia o sabor acre de um beijo dado e não colhido.

E o marido, que vivia dando tratos ao bestunto, para atinar com aquela transformação, teve provas da realidade: Sandra tinha amantes! Sim, amantes. Mas do sexo feminino. As cartas que ela remetia a sua “adorada” Carmélia, regressaram, porque a outra mudara de endereço. E o marido ficou numa “sinuca” dos diabos. Interpelou a mulher. Esta não respondeu e fugiu de casa. Agora o caso está na Justiça. Ângelo pede anulação do casamento. Os magistrados incumbidos do manuseio do processo irão decidir.

Ângelo agora deve, com certeza, desconfiar de tôdas as mulheres.

Também, depois de uma “Experiência” dessas, não é para menos...

Extraído do Correio de Marília de 14 de março de 1956

terça-feira, 27 de maio de 2008

Isso é progresso (13 de março de 1956)

A revista mensal “Seleções”, apresenta sempre um compêndio de relatos interessantes para ler. Trabalho meticuloso no que diz respeito à escolha de seus artigos, apresentação gráfica impecável e um serviço perfeito de informações referentes ao progresso da técnica e da ciência, fazem com que a aludida revista agrade a gregos e troianos.

Agora, por exemplo, passando uma vista d’olhos por sôbre o número do mês em curso, deparamos com um artigo interessante. Faz referência comparativa ao progresso atual – o progresso da era atômica – com a vida rudimentar dos camponeses da Idade Média.

Em síntese, o escrito diz mais ou menos o seguinte:

Os homens da Idade Média, que viviam emergidos no analfabetismo, sem noções de progresso, de higiene, de cultura, sem amparo social de qualquer natureza, sem pagar “iapês”, seguros etc., sem conhecer cinemas, circos, futebol ou televisão, utilizavam para cozinhar o carvão vegetal. Isso, porque dentro de sua rudimentar inteligência, entendiam os nossos antepassados, que aludido combustível era o mais acessível, prático e econômico. Agora, depois de tantos e tantos anos de progresso, quando o homem de nossos dias encontra um restaurante moderno, que cobra preços astronômicos, que diz apresentar uma super-cozinha de luxo, a justificativa “está na cara”: o restaurante emprega carvão vegetal! Assim, pagamos hoje, com coisas de luxo, aquilo que nossos antepassados mais pobres consideravam normal.

As mulheres primitivas vestiam-se com as peles dos animais que seus homens abatiam para comer. Hoje em dia, os maridos dedicados lutam muito, se esforçam e se sacrificam, fazendo planos de economia, para comprar às “caras metade”, as coisas que os homens do pretérito atiravam com pouco caso às suas companheiras!

E os homens de hoje em dia, o que é que fazem quando arranjam uma folga ou tiram umas férias? Vão caçar e pescar. Gastam dinheiro com material especializado, andam às vezes centenas de quilômetros para isso. No entanto, os primitivos faziam tal, com a maior naturalidade e após, tendo das cavernas abastecidas, tratavam de descansar!

O artigo é encerrado, com a seguinte pergunta: “Será que os nossos antepassados não estão rindo de nós?”

É provável que sim – responderemos.

Extraído do Correio de Marília de 13 de março de 1956

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Problemas e demagogia (10 de março de 1956)

Nos balões de ensaio que se processam nos Estados Unidos, para a reeleição do presidente Eisenhower, alguma coisa está parecendo com a situação política cá no Brasil.

Vejam os leitores, a respeito, o que publicou há pouco o jornal “Diário de Notícias”, do Rio de Janeiro:

“A ‘miséria agrícola’, expressão algo exagerada, constitui um dos temas da campanha do Partido Democrata dos Estados Unidos, em luta com o Partido Republicano, que elegera o general Eisenhower no pleito de 1952. Visam os “democratas” penetrar nos meios rurais, onde cinco milhões de agricultores sofrem as conseqüências e prejuízos da superprodução de 1955, não correspondida pela exportação nem pelos auxílios nem “estoques do govêrno”. O rendimento dos agricultores, que tem diminuído, acusou baixa ainda mais danosa em 1955. As somas recebidas pelos agricultores, na venda dos produtos ou por empréstimos da “Commodity Credit Corporation”, foram de 4% inferiores a do ano anterior.

“Poderão os “republicanos”, em defesa do govêrno do general, observar que a situação dos que cultivam o solo tem decaido desde a última guerra, e não decorre do govêrno atual, visto que a renda “per capitã” na agricultura é, atualmente, inferior a quase um quarto da anterior à conflagração, conforme “Survey of Currente Busines”.

“Mas, como já observara Laski, em “The American Presidency”, a campanha contra o govêrno é mais compensadora, nos Estados Unidos, para a conquista de popularidade. E atacar o presidente constitui o melhor meio para atrair notoriedade (... “to fight the president is the high road to notoriety”). Acrescente-se que os “democratas”, adversários de Eisenhower, pregam manutenção de preços agrícolas em 90% do valor de paridade, contra o plano presidencial, que preconiza a inutilização de parte das terras atualmente destinadas à agricultura, como meio de extinguir a superprodução.

“O plano preferido por Eisenhower, com intervenção estatal mais profunda na economia privada, exigirá enormes somas para desapropriações, mesmo temporárias, em diversas regiões dos 48 Estados federados, e terá como consequência maior êxodo populacional para as cidades e grande aumento de desempregados, agravando ainda mais dois dos grandes problemas que esperam solução nos Estados Unidos.

“Êsses fatos e as circunstâncias que os envolvem desiludem, talvez, os adeptos do liberalismo econômico. E desapontam aquêles que vêem tudo róseo na opulenta Federação, onde tudo é maior, inclusive a demagogia eleiçoeira, que agora encontra motivos e “slogans” na crise decorrente da superprodução e no que os “democratas” lá denominam de “miséria agrícola”.

Extraído do Correio de Marília de 10 de março de 1956

domingo, 25 de maio de 2008

Intenções de Paz (09 de março de 1956)

Não se sabe porque cargas d’água, a paz mundial vive tanto ameaçada ultimamente! Curioso: Eisenhower quer a paz; Bulganin, idem. No entanto, as coisas parece que se distanciam cada vez mais da almejada tranquilidade dos povos.

Lutas, confabulações, entendimentos, etc., são realizados à miude “em pról da paz”!

Os dois países – Estados Unidos e Rússia – que se supõe estejam mais bem armados do globo, inclusive com bombas atômicas, de hidrogênio, cobalto, etc. vivem discutindo a questão. Agora, o presidente americano enviou uma carta ao ministro vermelho Nikolai Bulganin, na qual pede à Rússia que coopere nos novos esforços para o desarmamento.

A carta do presidente rejeita também, diplomaticamente, o segundo convite feito por Buganin, para a conclusão de um pacto de amizade de 25 anos de duração, entre os Estados Unidos e a União Soviética. Mas, ao mesmo tempo, segundo se informou, a carta é escrita num tom amigável, “para que possa continuar a correspodencia com Bulganin”. Segundo informes recebidos pela “United Press”, a carta de Eisenhower ia ser entregue esta semana, em Moscou, pelo embaixador norte-americano, Charles E. Bohlem, mas uma dificuldade de ordem técnica no sistema de comunicações, entre Washington e a capital russa, impediu a transmissão, de acordo com os planos originais. Por isso é que a carta em apreço será entregue em princípios da semana e, em seguida, seu texto será dado a conhecer à imprensa.

O que é certo, é que com tantas “lutas pela paz” entre os dois países, nós, por aqui, é que sentimos a sensação de estar sentados sôbre um barril de pólvora!

O caso dos dois países, nessa “luta pela paz” está apresentando um fenômeno que se apresenta como bastante esquisito: um país confia, desconfiando do outro (“faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço” devem pensar ambos).

Pelo jeito, os entendimentos “pró paz”, acabarão resultando ainda num conflito. E de proporções imensuráveis, frisa-se bem...

Extraído do Correio de Marília de 09 de março de 1956

sábado, 24 de maio de 2008

Novo Cinema (08 de março de 1956)

Informaram-nos que a Empresa Teatral Pedutti, proprietária de uma grande cadeia de cinemas no interior, inclusive os dois locais, irá em breve construir uma casa dêsse gênero de diversões, na Vila São Miguel.

Indiscutivelmente, tal medida é oportuna e virá em muito, beneficiar os moradores do mais populoso bairro da cidade. O povo da Vila São Miguel, principalmente aquela parte que trabalha na cidade, dificilmente tem ensejos de assistir às sessões cinematográficas dos outros cinemas, pois aquêles que estão sujeitos a trabalhos de horário comercial, jamais conseguem tempo suficiente para isso. Na primeira sessão o horário entre o deixar do trabalho e o início do espetáculo torna-se diminuto; na segunda sessão, aquêles que devem iniciar as atividades pela manhã, não podem ir, de vez que necessitam repousar relativamente cedo, para trabalhar no dia imediato.

Assim, os moradores da Vila São Miguel, via de regra, só conseguem assistir filmes aos domingos. E, para isso, considerando-se a “enchente” que se verifica no único cinema em funcionamento na cidade, precisam sair de suas casas lá pelas 17 horas ou antes.

A construção de um cinema na Vila São Miguel é uma aspiração já velha dos moradores daquêle bairro, que há muito deveria ter sido atendida.

Fazemos votos para que de fato o sr. Emílio Pedutti torne em realidade as notícias a respeito, de vez que, em outras ocasiões, tal assunto foi abordado e estudado e acabou “ficando no tinteiro”.

O povo residente na Vila São Miguel – em sua maioria industriários e comerciários –, bem que merece possuir o “seu” cinema.

Divertimento de pobre, como dizem por aí, é mesmo cinema e futebol. Futebol, por exemplo, apesar de ser o esporte da maioria, não é da totalidade. Assim, é justo que os moradores daquêle grande bairro da cidade tenham o direito a um cinema mais próximo de suas residências, mais “à mão”, como se diz na gíria.

Por falar em cinema, os marilienses terão à sua disposição – tudo leve assim crêr – o Cine São Luiz, remodelado, já próximo mês. Depois de sua reforma, onde serão introduzidas poltronas estofadas, tela panorâmica, ar condicionado e outros melhoramentos.

Extraído do Correio de Marília de 08 de março de 1956

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Ainda o caso dos preços (07 de março de 1956)

Em nosso artigo de ôntem, fizemos alusão aos preços vigentes em Marília, dedicando um capítulo especial ao custo de verduras e frutas em Marília.

Muitas vezes temos dito, através desta mesma coluna, que nem sempre os culpados diretos são os pequenos comerciantes. A liberdade que gozam os intermediários, os descontroles nesse setor, podem ser as causas principais.

A respeito de nossa nota de ôntem, um chacareiro nos procurou, para esclarecer que dentre outras coisas, o abandono dos poderes competentes – a Secretaria da Agricultura, no caso –, com a não distribuição de sementes, adubos e inseticidas, obriga aos verdureiros-plantadores a recorrer a comerciantes particulares. O aludido chacareiro informou-nos então que os preços de inseticidas, adubos e sementes, custam preços astronômicos. Por exemplo, um quilo de sementes de berinjela custa a “insignificância” de três mil cruzeiros!

Ao par das explicações que nos fornecia o referido chacareiro, registramos também a sua queixa contra o órgão competente estadual – que no caso, em Marília, deve ser a Casa da Lavoura.

Assim, pois, através dêste nosso artigo, fazemos um lembrete aos senhores vereadores municipais, para que êstes, através da Câmara, dirijam-se aos poderes constituidos, principalmente ao sr. Secretário da Agricultura, no sentido de que o abastecimento dos plantadores de legumes e frutas, no que diz respeito a sementes, inseticidas e adubos, seja fornecido por aquêle órgão. Assim, sem recorrer os lavradores a comerciantes particulares e seus fabulosos preços, haverá possibilidade de, em breve, dispormos de verduras e frutas a preços mais acessíveis. Pelo menos, essa foi a justificação dêsse leitor do “Correio”.

Aqui fica o registro. E a lembrança dos senhores edis, para que se interessem pelo assunto.

Extraído do Correio de Marília de 07 de março de 1956

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Abusos e mais abusos (06 de março de 1956)

Abusos e mais abusos verificam-se pelo Brasil afóra, no que tange aos preços dos artigos de primeira necessidade. Gritar não adianta mesmo. No entanto, a imprensa, que sempre acompanha vigilante o decorrer dêsse indesejável e humilhante estado de coisas, tem mesmo que vir bater seguidamente na questão, embora seus clamores percam-se no deserto da indiferença daquêles que manejam os cordéis dos preços ditados de acordo com os interêsses próprios.

Desejaríamos que os responsáveis por essa situação, se dessem ao trabalho de verificar, pessoalmente, os abusos e mais abusos que aqui se verificam.

Os preços dos gêneros de primeira necessidade, as verduras e frutas vendidas no Mercado Municipal e nas Feiras Livres, são verdadeiramente estarrecedores. Não existe uma semana que os preços não se alterem. Às vezes sofrem elevações diariamente. O pobre, que já vive quase passado fome, está agora na contingência de não poder comprar nem sequem um pé de alface, pelo absurdo preço como é vendido em Marília. As frutas, aqui, ao que nos parece, ostentam preços maiores do que na própria paulicéia, onde a exploração é digna de nota.

Que fazer, então?

Sabemos que não poderemos nós, modestos “escribas” do interior, modificar a ordem dessas contingências. Mas sempre estaremos cumprindo o nosso dever, denunciando aquilo que está “fóra dos eixos”. A COMAP deverá ser reorganizada. O sr. Prefeito Municipal, sempre carinhosamente interessado pelos problemas da cidade e de seu povo, deve voltar as vistas para êsse lado. Não é mais possível viver no clima em que vivemos. São verdadeiros roubos o que se praticam em Marília, contra a economia mariliense, principalmente os infelizes operários e tôdas as famílias pobres!

Extraído do Correio de Marília de 06 de março de 1956

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Até o Milho? (03 de março de 1956)

Rapidamente ouvimos o locutor anunciar, através do microfone de uma poderosíssima emissôra paulistana, que a COFAP estaria estudando meios e condições, para importar milho dos Estados Unidos.

A princípio, duvidamos daquilo que ouvíramos. Seria possível? Importar milho dos Estados Unidos? Um produto que no Brasil não tem preço por ocasião das colheitas e que para o produtor continua sempre oferecendo o mais baixo preço do mercado?

O milho é um cereal de primeira grandeza, indispensável para o tratamento de animais. Para os racionais, seu emprego é ilimitado – no Brasil, infelizmente, quase ninguém sabe utilizar as suas propriedades nutritivas. Seu plantio é fácil; não carece de adubagens, de terrenos especiais. Quase não dá trabalho ao lavrador. Depois da semente lançada ao chão, apenas uma carpa é suficiente – às vezes, nem isso.

O milho, uma grande riqueza da lavoura nacional, jamais foi colocado em seu devido lugar. Ninguém se interessou – uma ocasião sequer –, pelo incentivo de sua cultura. Pela garantia de seus preços mínimos. Pela fixação de seu preço “teto”. Ninguém...

Por isso, hoje em dia, o lavrador só planta milho “para o gasto”. Quem planta o cereal aludido em quantidade que exceda ao consumo próprio, é porque se utiliza de “um talhão” ou o faz intercaladamente com outros produtos. Ninguém, jamais, no Brasil, procurou cuidar exclusivamente de uma roça de milho, para vender a colheita. Ninguém.

Ora, nessas condições, um dia a própria economia nacional teria mesmo que sentir a ausência dêsse produto no mercado. Teria, e está sentindo agora. E o que aconteceu? Aconteceu o que sempre sucede em tais ocasiões: os responsáveis, ao invés de tratar de resolver a questão tratando-a desde a origem e suas causas, foram pelo meio mais fácil – para êles. Entenderam que deslocando divisas e importando o produto dos Estados Unidos a situação ficará resolvida.

Francamente! Ou a COFAP é muito ingênua, é muito inepta... ou mal intencionada!

Extraído do Correio de Marília de 03 de março de 1956

terça-feira, 20 de maio de 2008

O estudo e seu preço (02 de março de 1956)

Nos dá conta a imprensa paulistana, de um caso “sui gêneris” no Brasil: a luta de determinados estabelecimentos educacionais, pelos canais jurídicos, com o objetivo de arbitrar os preços das matrículas e taxas escolares, a bel prazer.

Certas escolas, que demonstraram sobejamente o grande espírito comercial, ganharam, nas barras da Justiça, a infausta causa. Em detrimento do próprio povo estudantil.

Não compete a nós, analisar a resolução do órgão controlador de preços que fixou o “teto” das taxas e matrículas escolares. Também não pretendemos insinuar qualquer coisa a respeito da ganha de causa referente ao mandato de segurança impetrado pelas escolas e provido pela Justiça. Procuramos, nesta apreciação, analisar apenas o que diz respeito à maioria – estudantes e os pais dêstes, aquêles que arcarão agora, com maiores pagamentos de taxas e matrículas escolares.

Dos muitos absurdos que existem no Brasil, o problema da educação é um dêles. Gritante e grandioso, infelizmente.

Revelou-nos o último censo que é bem grandinha a porcentagem de analfabetos no Brasil. Inúmeras são as causas. O estudo em nosso país, é difícil, desde seus primeiros dias. Agora mesmo, esbraveja a imprensa nacional, clamando atenções das autoridades competentes e apontando a cifra assustadora de crianças em idade escolar, sem matrícula nos estabelecimentos respectivos, por deficiência de vagas. O curso intermediário e superior, hoje em dia, não é para qualquer pessoa. Além do custo das taxas e das matrículas, a despeito dos preços do material escolar, existe aquêle outro problema que é um verdadeiro fantasma, uma barreira às pretensões de muito estudante pobre: as dificuldades de matrícula, o limitadíssimo número de vagas.

Entram e saem govêrnos, mas ninguém até agora conseguiu solver êste tormentoso problema nacional. As coisas cada vez mais pioram.

Não discutimos a legalidade da atitude das escolas que foram a Juizo, defender o direito de cobrar maiores preços. Censuramos, isto sim, a ação em si. Consideramo-lo mencantilista. Consideramo-la contrária à classe estudantil, porque, desta vez, mais do que nunca, veio demonstrar, que a sagrada missão de ministrar conhecimentos, hoje em dia, para muita gente e para muitas escolas, perdeu aquêle sentido de sacerdócio, aquela missão de patriotismo, para dar lugar a interêsses puramente comerciais.

É de se lamentar!

Extraído do Correio de Marília de 02 de março de 1956

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Cães Vadios (01 de março de 1956)

De uns tempos para cá, Marilia tornou-se um centro de cães vadios. As ruas andam infestadas por um verdadeiro exército de cachorros sem dono. Principalmente os bairros. À noite, as ruas da cidade, mormente das vilas, tornam-se verdadeiros canís sem limites. “Vira latas” de todos os tipos, tamanhos e cores, perambulam por aí, latindo ensurdecedoramente aos veículos que passam, perseguindo ciclistas e pedestres.

Outras vezes, proporcionam espetáculos degradantes e condenáveis, principalmente às vistas de senhoras e crianças.

Faz tempo que a “carrocinha” não percorre as vias públicas, fazendo a limpeza dos cães vadios.

É verdade que êsses animais não têm culpa. É verdade também que não se deve adotar medidas drásticas, como, por exemplo, o abate dos cachorros que perambulam pelas ruas da cidade, causando transtornos, encenando fatos condenáveis, atrapalhando a própria limpeza pública com a entornação das latas de lixo e latindo aos automóveis e bicicletas.

Qual seria a solução, nesse caso?

Parece-nos que a “carrocinha” deverá continuar as suas rondas periódicas e que os cachorros presos aos ser retirados pelos legítimos donos, obriguem êstes ao pagamento de u’a multa mais pesada. Por outro lado, urge a colaboração dos próprios marilienses. Da seguinte forma: Todos aquêles que tiverem cachorros – por gosto ou à guisa de guarda –, evitem que os cães vivam soltos pelas ruas da cidade. E, para isso, tenham em suas casas, apenas o número de cães que podem sustentar.

A julgar pelo número de cães que vemos constantemente pelas ruas da cidade, podemos supor que no mínimo cada duas famílias possui um cachorro. Já se vê que é u’a média respeitável e que o número de cães existentes em Marília não é pequeno. Se os donos dos cachorros tiverem em seus quintais ou presos à corrente tais animais, não se verificaria tais degradantes acontecimentos. Nesses casos, o número de cachorros vadios seria bem menor e então a Prefeitura poderia solver o problema com facilidade.

Extraído do Correio de Marília de 01 de março de 1956

domingo, 18 de maio de 2008

Um Comércio Curioso (29 de fevereiro de 1956)

Como se já não bastassem os “picaretas” estrangeiros que infestam São Paulo e o interior, vendendo bugigangas, santinhos e quinquilharias, trabalhando contra os próprios interêsses da Fazenda – pois não pagam impostos, em sua maioria –, surgiu agora entre nós, um empreendimento curioso. Um verdadeiro comércio ilegal, que deverá dar bons resultados para aquêles que do mesmo se valem.

Trata-se, de um fato que conhecemos apenas por reclamações de alguns de nossos amáveis leitores, pois não temos outros elementos para argumentar melhor e mais amplamente.

O que é certo, é que muita gente “vai levando a vida” à custa de uma infinidade de incautos, entregando um envelope contendo u’a medalhinha de Nossa Senhora Aparecida, que, materialmente não chegará a valer um cruzeiro, por ter sido confeccionada de péssimo material. Juntamente com a medalha, a pessoa recebe um cartãozinho impresso, onde o autor ou autores da “novidade” aplicam a “cantada”: Cr$ 20,00!

As “finalidades” apregoadas são muitas: auxílio p’ra isto e p’ra aquilo. No entanto, percebe-se que a renda, que não deve ser gigantesca porém respeitável, deverá destinar-se ao bolso de algum sabido. Duvidamos que alguma igreja tenha autorizado tal expediente. Aliás, conforme nos informaram, nos dizeres dos aludidos cartões que acompanham as medalhas, não se notam “visto”, “ciente” ou “autorizo” de nenhuma autoridade eclesiástica. Por isso pensamos que se trata de um comércio ilegal.

Os referidos envelopes estão sendo distribuidos, quase sempre, por mocinhas bem falantes, bem vestidas e, regra geral, bonitas. Quer nos parecer, ainda, que não se tratam de moças da cidade e nem tampouco jovens filiadas a nenhuma organização religiosa local.

Tudo leva a crêr que se trata de um comércio. Curioso e atrevido, ao que parece. Por certo, quem de direito, tratará de verificar a legalidade dêsse expediente. Se fôr uma coisa legal, permitida, estará bem. Se não, precisa ser combatida. A “colheita”, pelo jeito, não tem sido das piores. Quase todo cidadão que recebe o envelope e lê o conteudo do cartão impresso, fica em situação um tanto esdrúxula para devolver sem comprar, pois a redação do cartãozinho chega a ser quase uma imposição. Ademias, 20 cruzeiros, muita gente dá. E sucede que vinte daqui, vinte dali, no final do dia significam alguma coisa. Se o fim não é honesto, se tal proceder não tem cunho da legalidade, precisa ser combatido.

Vamos acabar com muitas “mamatas” de “sabidos” entre nós.

Extraído do Correio de Marília de 29 de fevereiro de 1956

sábado, 17 de maio de 2008

Um problema, uma Calamidade (28 de fevereiro de 1956)

Repetidas vezes temos dito, daqui dêste cantinho do “Correio”, da necessidade urgente em que nossas autoridades deverão lançar mão, para solver o angustiante problema existente em Marília, no que tange à imiscuidade de meretrizes e famílias em determinados trechos de nossas vias públicas.

Por lei, parece-nos que a chamada “zona do meretrício” em Marília é delimitada. Não sabemos, agora, quais os limites do núcleo. Ignoramos se as decaídas estão invadindo a zona residencial ou se as famílias estão adentrando em seara alheia. O que é certo – e indiscutível – é que numa cidade moderna e progressista como Marília, essa salada, calamitosa e degradante – frise-se bem –, está a exigir as atenções de quem de direito.

Não estamos contra as infelizes mulheres que adotaram a profissão de mercantilizar o amor. Pela nossa experiência da vida, entendemos que o meretrício é aquilo que se possa chamar “um mal necessário”. Mas pensamos que as atividades das messalinas, oficializadas deverão cingir-se a um trecho isolado, delimitado. De preferência afastado de zonas residenciais.

Em Marília, tal coisa não acontece. As mulheres de vida fácil residem intercaladamente, em grande parte, onde moram outras pessoas. Estamos vendo aqui, uma imiscuidade lamentavel de crianças, senhoras, senhoritas e meretrizes, como se o fato fosse uma coisa muito natural. No entanto, o fato é degradante. E condenável.

Quem transita pelas Ruas D. Pedro, Prudente de Moraes, 9 de Julho, Campos Sales e outras, antes e depois da Rua Bonfim – a via do pecado –, constatará o que estamos afirmando. Aliás, isso não é segredo para ninguém.

Está errada, a nosso ver, a situação.

O problema está a exigir providencias, pois já é uma calamidade.

Extraído do Correio de Marília de 28 de fevereiro de 1956

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Corpo de Bombeiros (25 de fevereiro de 1956)

Na sessão de anteontem, da Câmara Municipal de Marília, o vereador Nassib Cury apresentou à Mesa, um requerimento sugerindo a nomeação de uma comissão de vereadores, para estudar, juntamente com o sr. Prefeito Municipal, as possibilidades de constituir-se em nossa cidade, o Corpo de Bombeiros Municipal.

O edil, justificando a necessidade dessa instituição, como um complemento ao próprio progresso da “urb”, sem cingir-se muito em apontar os próprios benefícios que tal corporação trará à cidade, abordou, com dados estatísticos, o “quantum” em cruzeiros, é carreado para fora, como pagamento de prêmio de seguros contra fogo.

E foi mais além o vereador em apreço, demonstrando, com cifras (que não conseguimos apanhar), que de acordo com a Lei, se existindo em Marília tal organismo, grande porcentagem dessas somas ficariam entre nós, sendo suficiente para a própria manutenção do aludido serviço de extinção de incêndio.

Não há dúvida de que o requerimento do vereador Nassib Cury – por sinal aprovador por unanimidade pela Câmara e constituída a comissão referida –, encerra objeto de estudos e interêsses para o próprio município.

A respeito, lembramos aqui, que o autor destas linhas, há tempos, muito se bateu pela criação do Corpo de Bombeiros Municipal, a exemplo das corporações congêneres, existentes em outras cidades interioranas, algumas de menores possibilidades que Marília.

Birigui, Araçatuba, Campinas e outros centros, são dotados dêsse melhoramento imprescindível. Sorocaba conta também com seu corpo de bombeiros voluntários, que é constituído de funcionários municipais, treinados e dirigidos por um oficial do Corpo de Bombeiros de São Paulo. As dúvidas, as dificuldades, seriam apenas os apetrechos próprios, já que são utensílios e veículos caros, em sua maioria importados. Mas, com um pouco de boa vontade, estamos certos, o problema poderá ser solucionado. Mesmo que de início seja uma coisa algo incompleta, como se é de esperar, pelas inúmeras questões e dificuldades que acarretará.

Depois que a comissão nomeada se avistar com o sr. Prefeito e conhecermos o resultado dos entendimentos, voltaremos ao assunto.

Extraído do Correio de Marília de 25 de fevereiro de 1956

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A “Operação Santarém” (24 de fevereiro de 1956)

Todo crime, por mais hediondo que possa parecer, tem, lá no fundo, um resquício de razão de ser. Embora, de forma alguma, possa justificar a sua prática.

Assim entendemos, agora, a rebeldia demonstrada pelos oficiais da FAB, Veloso e Lameirão. Essas duas patentes militares de nossa gloriosa Força Aérea, ao fugirem – êste é o termo – do cumprimento do dever, conduzindo um bombardeiro da FAB, praticaram um ato condenável de indisciplina, infringindo vários preceitos do regulamento militar. Verdadeiro ato de insubordinação.

A rigor, não conhecemos os pormenores dos motivos que devam os rebelados ter se estribado, para tal proceder. De qualquer maneira, o gesto merece as mais ríspidas censuras, pela loucura que significa.

Os rebelados, segundo informam despachos telegráficos procedentes de Belém, teriam já arregimentado um contingente de 150 homens, na luta infausta que esposaram. Êsses homens, que óra fazem parte do movimento de rebeldia, por certo “não sabem com quem casaram as filhas”.

Lamentável, sem dúvida, o ato do major Veloso e do capitão Lameirão. Como se já não chegassem os desassossegos que temos sôbre nós, como se já não bastassem as responsabilidades grandiosas das Forças Armadas, agora damos um exemplo condenável aos olhos do mundo, com a contingência imposta pelos dois insubordinados, criando no Brasil, a chamada “Operação Santarém”. Quer dizer, Forças Armadas lutando contra elementos dessas mesmas Forças Armadas, que ocuparam três localidades da mesma Pátria. Melhor sintetisando, luta de irmão contra irmão dentro do próprio lar.

Doloroso exemplo!

Santarém, Belterra e Itaituba, as três localidades perdidas no sertão nortista, pacatos centros onde a civilização e o progresso registrado no sul não devem ser muito chegados, estão agora ocupados por rebeldes nacionais. O comandante e os integrantes da aludida operação, visam, como é obvio, capturar os oficiais indisciplinados, sem derramamento de sangue. Duvidamos, no entanto, que os rebeldes não estejam preparados para repelir, pelos modos mais condenáveis e mesmo extremos, a aproximação das Forças que integram a “Operação Santarém”.

Vamos aguardar os acontecimentos, a única solução que resta a esta altura.

Extraído do Correio de Marília de 24 de fevereiro de 1956

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Agora Também o Arroz (23 de fevereiro de 1956)

Várias vezes temos dito, nesta coluna, dos desgovêrnos que imperam no setor do descontrole dos preços, principalmente dos gêneros de primeira necessidade. E, para isso, temos citado aquilo que é um verdadeiro absurdo, uma autêntica afronta ao nacional: pagarmos o açúcar a razão de 10 cruzeiros o quilo, quando êsse mesmo produto é exportado para o Japão ao preço de Cr$1,60 por unidade de quilograma.

Agora, também o arroz entrou na dança.

Enquanto apodrecem nas fontes, toneladas dêsse precioso e indispensável cereal, segundo noticia a imprensa guanabarina, por motivos de falta de transporte, cogita-se resolver a situação, exportando o produto por preços inferiores ao que paga o consumidor brasileiro, êsse eterno sacrificado.

Despe-se um santo, para vestir outro.

Por outro lado, informa-se que as autoridades do Ministério do Trabalho estão estudando uma forma de contar com a colaboração das autoridades municipais, estaduais e federais, no sentido de que façam estudos para a extinção do impôsto de venda e consignações, atualmente cobrado sôbre as vendas de gêneros alimentícios. A idéia está sendo acolhida com entusiasmo pelas classes produtoras, tendo sido, mesmo, classificada de patriótica pelo Sindicato do Comércio Atacadista de Gêneros Alimentícios. Argumentam os representantes do comércio que de nada serve o referido impôsto, porquanto a sonegação é desproporcional e, para exemplificar, revelam que sòmente num determinado trecho da rua do Acre a sonegação vai alem de 15 milhões de cruzeiros.

O presidente do Sindicato do Comércio Atacadista de Gêneros Alimentícios também se pronunciou a respeito da extinção do impôsto em apreço.

Disse êle:

– “Talvez esteja na extinção dêsse impôsto a salvação do Brasil e do seu povo, forçando o barateamento do custo de vida em todo o território nacional”.

A medida inicialmente aventada parece um contrasenso. Enfim, já estamos acostumados e de sobejo sabemos que tudo é possível nestes brasís. Inclusive o arroz seguir o caminho do açúcar...


Extraído do Correio de Marília de 23 de fevereiro de 1956

terça-feira, 13 de maio de 2008

A Eterna Maratona (22 de fevereiro de 1956)

As classes representativas do operariado nacional estão se movimentado, a fim de conseguir nova elevação do salário mínimo atualmente vigente.

Fundamenta-se tal movimento no absurdo aumento do custo de vida, como não poderia deixar de ser.

Como sempre, antes de que tal perspectiva – bem intencionada, aliás – chegue a bom têrmo, estará o Brasil e a inúmera classe dos construtores da grandeza pátria, em condições iguais ou piores. Isto, porque o descontrole existente no setor da desproporção dêsses gigantescos e pirotécnicos aumentos, não têm limites. Demandará tempo o estudo a respeito. Se chegar ao fim e o novo aumento for decretado, nada adiantará.

A eterna maratona entre o aumento dos salários e dos preços é coisa velha. E os salários sempre sempre na “rabeira”, sem vantagem, sem qualquer “handicap”.

O que falta é um controle governamental mais perfeito. Uma ação mais positiva. Uma guerra declarada aos “tubarões” e intermediários. Sem isso, nada feito.

Hoje em dia, tal é o estado de coisas que apresenta êsse fenômeno incrível do vertiginoso custo de vida, que os trabalhadores que percebem o salário mínimo não podem mesmo se alimentar de modo conveniente. Mal alimentados não podem desempenhar com eficiência as suas obrigações. Em consequência, além do enfraquecimento próprio e o aniquilamento gradativo de seus descendentes, o depauperismo reflete-se na própria vida nacional.

Até as gerações futuras principiam a ser vitimas dêsses malefícios, que, desde o ventre materno começam a sentir o aniquilamento, que arrasta atrás de si, um cortejo imenso de males e a própria degradação moral de um povo.

Êsse círculo vicioso precisa ser estancado.

O sr. Presidente da República deverá voltar suas vistas para essa questão, que é, sem dúvida, de primeira grandeza dentro os problemas nacionais – os inúmeros problemas do povo brasileiro.

Nessa eterna maratona entre aumento de custo de vida e elevação de salários, o povo é que leva a pior. Aumenta o número dos sacrificados – que representa a maioria – e enriquecem aquêles que são a minoria e que já andam com as burras empanturradas.

Extraído do Correio de Marília de 22 de fevereiro de 1956

segunda-feira, 12 de maio de 2008

COMAP, onde estás? (21 de fevereiro de 1956)

Não sabemos de a COMAP está ou não em atividades. Pelo visto, se constituída, está submergida num mar de inércia, de sonolência, de pusilanimidade. Está inativa.

Muita coisa existe de errada por aí, a reclamar a presença de uma fiscalização alguma coisa enérgica e persistente. Como se já não bastassem os preços elevadíssimos de tudo o que é necessário à subsistência do mariliense, os abusos se repetem a cada momento. Quem se der ao trabalho de ir consultar os preços de verduras e frutas no Mercado Municipal e nas Feiras Livres, convirá conosco.

Antigamente, mesmo antes da existência da COMAP, a Prefeitura fazia afixar em lugar visível no próprio Mercado Municipal, um quadro negro com os preços de tudo o que ali se adquire. Hoje, com o referido “placard” mudo, o mariliense está à mercê das arbitragens descontroladas e pirotécnicas dos preços das coisas. Muitas vezes, os comerciantes do Mercado não têm tôda a culpa. Os intermediários indesejáveis têm a maior responsabilidade. O que é certo é que as coisas andam de desesperar quaisquer chefe de família. Um quilo de tomates, a 30 cruzeiros! Até o xuxú, que há pouco até os porcos recusavam, custa os olhos da cara! Bananas, frutas, um absurdo. Tudo, enfim.

Recomendamos aos responsáveis pela COMAP, que se dêem ao trabalho de auscultar os preços dessas coisas. E, que, ao par dessa providência, se coloquem no lugar de um chefe de família, um operário, por exemplo, que perceba o salário mínimo, pague aluguel de casa e tenha três ou quatro filhos para sustentar.

A COMAP deverá entrar em ação, em beneficio do povo mariliense. Se possível seus membros deverão ser representantes do povo e não integrantes de grandes firmas ou indústrias, para melhor sentir nas próprias carnes, a necessidade de trabalhar e melhor apreciar as coisas, pelo lado que devem ser apreciadas: o lado do povo.

COMAP, onde estás?

Extraído do Correio de Marília de 21 de fevereiro de 1956

sábado, 10 de maio de 2008

“Museu de Cera” (18 de fevereiro de 1956)

Estivemos no “Museu de Cera”, instalado na Avenida Sampaio Vidal, onde funcionava o Banco Brasileiro de Descontos. Fomos apreciar o espetáculo, mais um dever profissional do que propriamente como expectadores.

E gostamos do que vimos, referente à ciência e arte. Um trabalho perfeito de 80 figuras executadas em cera, apresentando uma lição digna de elogios, em tôda a sua realidade. Não existe ali, apesar da impressão que possa causar à primeira vista ao apreciador menos avisado, o sentido propriamente dito daquilo que se chama “impróprio”. O s trabalhos são um conjunto étnico de ciência e arte, executados por cientistas e artistas alemães e mostram uma excelente aula anatômica, prevenindo ainda alguns perigos decorrentes de moléstias e de fenômenos anormais da própria natividade.

Deve ser visto por aquêles que se interessam um pouco pelas coisas úteis, sôbre o ângulo da seriedade. Trata-se, realmente, de um serviço cientifico, elevado.

Não resta dúvida de que é um pouco dura a lição. Mas é uma lição de ciência, sem contestação. Todos os jovens deveriam ter, de vez em quando, oportunidades de presenciar aulas cientificas como a que oferece o “Museu de Cera”, para melhor saber interpretar uma série de coisas que muita gente vê por um lado falso e irreal.

No próximo dia 20, a empresa que óra exibe tal espetáculo em Marília, oferecerá mais uma apresentação destinada exclusivamente a senhoras e senhoritas, atendendo a inúmeros pedidos que tem recebido.

Tôdas as figuras, encerradas em urnas de vidro, dispõem de verdadeiras aulas explicativas de sua representação. É só o expectador dar-se ao trabalho de bem apreciá-las e compreendê-las.

Extraído do Correio de Marília de 18 de fevereiro de 1956

sexta-feira, 9 de maio de 2008

A fumaça dos ônibus (17 de fevereiro de 1956)

Não há muito, tínhamos escrito um artigo, abordando o inconveniente das fumaças dos ônibus circulares (e outros também), deitada pelos canos de escapamento, em linha horizontal, rente ao chão. Até sugerimos, na ocasião, que o sr. Pedro Sola, proprietário da Empresa que serve a cidade, modificasse tal sistema, pelos canos tipo chaminé, lançando ao ar o fumo originário do óleo “Diesel”. Por um motivo qualquer, êsse artigo cedeu lugar a outro, ficou “para amanhã” por algum tempo e acabou indo para o cesto.

Agora, numa das sessões da Câmara Municipal de Marília, o vereador dr. Fernando Mauro, ofereceu à mesa da edilidade mariliense, interessante projeto de lei, obrigando a todos os ônibus que servem a cidade, em carater permanente (urbano e municipal), a modificar o referido sistema, a exemplo do que se verifica em São Paulo, Rio de Janeiro e outros grandes centros.

Justificou o aludido edil o projeto de lei, apontando os inconvenientes da fumaça lançada para trás pelos coletivos, tendo mencionado, com propriedade (como médico que é), alguns malefícios que tal fumaça acarreta à saúde pública.

Um interessante projeto, sem dúvida alguma. Oportuníssimo mesmo. Já estamos cientes, de que o sr. Pedro Sola, responsável pela “Circular Cidade de Marília” vai introduzir em todos os ônibus de sua empresa, a referida modificação. O mesmo deverão fazer os demais proprietários de ônibus.

Fazendo votos para que o projeto seja aprovado e sancionado, entendemos ainda que o mesmo deveria servir de modelo para outros municípios, que, igualmente, deveriam copiá-lo e adotá-lo.

A fumaceira negra e de cheiro desagradável, além de ser prejudicial à saúde, conforme afiançou o ilustre médico-vereador, dificulta a visão dos motoristas de carros que seguem de perto os veículos que expelem a fumaça rente ao chão para a retaguarda; dificultam o trânsito de pessoas que cruzam as ruas, após a passagem dêsses veículos e chegam mesmo a sujar a roupa, além de tornar negro e escorregadio o calçamento, onde as paradas são mais constantes.

O projeto é oportuníssimo. Oportuníssimo e necessário.

Extraído do Correio de Marília de 17 de fevereiro de 1956

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Carnaval em Decadência (16 de fevereiro de 1956)

A julgar pelo tríduo (que é quatríduo) carnavalesco que findou, não há dúvidas de que o carnaval está mesmo em decadência. Pelo menos em Marília.

O chamado carnaval de rua, apresentou êste ano um autêntico fracasso. Verdade é que as três primeiras noites tiveram o andamento normal das folias momisticas um tanto prejudicadas pela chuva que caiu insistentemente sôbre a cidade. Mesmo assim, muito mariliense abandonou o aconchego do lar e postou-se ao longo da Avenida Sampaio Vidal, para apreciar aquilo que se chama corso e que, desta vez, não passou de um desfile de veículos.

Não fosse o espírito brincalhão de Consuelo Castilho, o popular “C.C.”, com seu elefante fabuloso a percorrer as ruas, a presença do Cordão IV Centenário e um ou outro grupo improvisado de foliões desarmoniosos, teríamos visto, nas ruas, apenas um desfile de veículos.

Não vimos as batalhas de confetis e serpentinas e nem tampouco o uso alargado de lança-perfume. O lança-perfume, desta vez, foi substituído por água (muitas vezes suja), esguichada por bisnagas de matéria plástica. Processo mais barato sem dúvida, porém muito inconveniente.

Nos salões, as três primeiras noites estiveram desanimadas. Muito longe dos carnavais anteriores. A última noitada contou com maior animação, sem, no entanto, ter atingido o “clímax”.

Neste ano, o carnaval em Marília, ao que nos parece, registrou o “record” de usa frieza, E, considerando isso, poderá dizer-se, sem receio de êrro, que o carnaval está mesmo em decadência.

Extraído do Correio de Marília de 16 de fevereiro de 1956

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O grito de carnaval (11 de fevereiro de 1956)

Os clubes locais, os cordões carnavalescos e as “escolas de samba” já deram os seus gritos para o carnaval dêste ano.

Muita gente aguarda o “larga” que será, oficialmente dado amanhã, pois como dissemos há poucos dias, o “tríduo” carnavalesco é de há muito um “quatríduo”.

Lança-perfumes, confetis, serpentinas, fantasias, cuicas e tamborins, além da vontade de pular de muita gente (gente bem e gente mal, como diriam o Sued e o Thormes), eis o “material” indispensável para as folias momescas. Álcool e gelados, o complemento.

A cidade, como nos anos anteriores, “vai pegar fogo”. Muitos irão fazer até sacrifícios para “brincar o carnaval”. Para outros, as loucuras carnavalescas serão indiferentes, como sempre.

De uns anos para cá, está desaparecendo o chamado carnaval de rua. Não mais se verificam aquêles carros elegóricos ou enfeitados, os “ranchos” e os cordões entusiásticos. Ultimamente, a não ser o “Cordão IV Centenário”, as extravagâncias dos “bichos esquisitos” do conhecido folião “C.C.” e um ou outro carro com alguns enfeites, alguns grupos improvisando blocos, o que se vê na Avenida do Fundador é um desfile de automóveis e muita gente apreciando aquilo que denominam “corso”.

O “fogo”, mesmo, só nos clubes. Desde os mais granfinos até as conhecidas “gafieiras”. Ali o barulho aprofunda-se noite a dentro, cessando em altas madrugadas.

Que todos os que participam dos folguedos momescos se divirtam de modo satisfatório, são os nossos votos. Que se não verifiquem abusos de nenhuma espécie, principalmente atentados contra a moral, o condenável vício de esguichar o éter contra os olhos dos outros e que ninguém beba o líquido dos vidros de lança-perfume.

Que tôdas as “brincadeiras” carnavalescas não passem na realidade dos limites da decência estipulados pelo “paralelo 38” do bom senso e da vergonha, são os votos que fazemos ao público e aos foliões marilienses.

Feliz carnaval, leitores!

Extraído do Correio de Marília de 11 de fevereiro de 1956

terça-feira, 6 de maio de 2008

Marilia de Dirceu (10 de fevereiro de 1956)

A data de hoje, marca o 103º aniversário da morte de Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, a imortal Marília de Dirceu, cantada nos versos de Tomás Antônio Gonzaga, poeta e inconfidente mineiro.

Ninguém sabe ao certo, o dia e ano em que nasceu a maior musa de todos os tempos na história da literatura brasileira. Presume-se que Marília tenha vivido oitenta e quatro anos. Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, morreu sem casar, apesar de sua beleza estonteante. A respeito, no livro “Brasileiras Célebres”, de J. Norberto S. S., encontra-se a seguinte descrição de seu físico: “A rival da mãe do amor na beleza, diz uma testemunha ocular, a deidade mortal que inspirara ao deleitoso Gonzaga tantas liras imortais, a formosura peregrina que lhe despertara o gênio pelos estímulos do amor”... E ainda: “Tomás Antônio Gonzaga, que eternizou a história de seus amores em suas liras, primando na suavidade de suas rimas, que depois foram publicadas com o título de “Marília de Dirceu”, a delineara em seus versos, como a arcádia dessas cenas campestres , de quem se fez pastor, para poder falar uma linguagem menos ostensivas e mais própria de sua modéstia, tomando para si o nome de “Dirceu” e dando à sua amante, a mulher que devia ser sua esposa, o nome de “Marília”, com que a imortalizou”.

Beatriz Francisca Brandão, poetisa e prima de Marília, conta, num depoimento de 1853: “Era completa beleza. Era de estatura mais que mediana, esbelta sem ser magra, alva de neve, faces de rosa, olhos grandes e negros, bôca pequena ornada de belos dentes”.

Em 10 de fevereiro de 1853, faleceu Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, a Marília de Tomás Antônio Gonzaga, em cuja bela história e não menos belo nome, foi inspirada a denominação de nossa cidade.

Registrando o centésimo terceiro aniversário de seu falecimento, estamos prestando uma singela homenagem à sua memória.

Hoje os restos mortais de Marília, encontram-se no Museu dos Inconfidentes, em Ouro Preto, ao lado de Dirceu, seu eterno enamorado, o inconfidente mineiro que foi encarcerado nu’a masmorra da Ilha das Cobras e depois, em 22 de maio de 1792, levado em degredo para Moçambique, onde casou, enviuvou e morreu, só voltando à Pátria depois de morto.

O nome da “cidade menina”, inspirado na maior das musas de nossa história, foi um acontecimento feliz. Porisso, nós, que somos de Marília, rendemos hoje nossos respeitos à Marília de Dirceu, a imortal Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, nesta data de mais aniversário de sua morte.

Extraído do Correio de Marília de 10 de fevereiro de 1956

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O preço dos aluguéis (9 de fevereiro de 1956)

A vida não anda nada côr de rosa, é bem verdade. Tudo caro, tudo difícil, tudo escasso, principalmente para os pobres, pois para aquêles que têm recursos, tudo é facil, mesmo a altos preços.

Ao par das dificuldades imperantes em vários setores da própria vida mariliense, existe um problema tenebroso, para aquêles que não possuem o lar próprio: é o preço dos aluguéis. Em Marília, êsse problema é dos mais cruciantes. Chega, por vezes, a constituir-se num autêntico abuso, um verdadeiro roubo.

Todos sabem, perfeitamente, que uma casa que seja construida nos dias de hoje, fica mesmo numa fortuna, tal o custo do material – tijolos, cal, cimento, telhas, etc.. Concordamos mesmo que uma residência recém-construida, não poderá ser mesmo locada por um preço razoável, porque assim não compensaria, nem em parte à porcentagem de um por cento do capital empregado. No entanto, à miude, em casos dêsse jaez, verificam-se abusos sem conta.

O pior, todavia, está nos preços atuais das construções antigas. Uma casa de madeira, por exemplo, localizada num bairro distante, sem conforto, sem forro, e, na maioria dos casos sem esgoto, que há dez anos passados não custou mais do que 10 mil cruzeiros, em Marília é alugada por mil e quinhentos cruzeiros mensais! Isto está errado.

Não conhecemos bem a Lei do Inquilinato. Não podemos, por isso, discutir o referido diploma legal. No entanto, pensamos que deveria da alçada municipal, a instituição de uma comissão destinada a arbitrar os preços dos aluguéis em Marília. As coisas, do jeito que andam, representam uma calamidade. Com um salário mínimo teto de mil e novecentos cruzeiros, é incrível o preço de um rancho de madeira, desconfortável e mesmo anti-higiênico, custar o aluguel de mil cruzeiros. É também um desproposito, uma casinha de tijolos, de construção antiga e muitas vezes rudimentar, construida nos fundos de outra residência, custar o aluguel mensal de dois a três mil cruzeiros.

Em Marília, muita gente vive por aí, batendo cabeça atrás de uma casa para alugar. No entanto, quem se der ao trabalho de percorrer as ruas da cidade, poderá verificar que não são poucas as residências – desde as mais modestas até as mais confortáveis – que se encontram fechadas à espera de oportunidades para obtenção de aluguéis imorais, elevados, absurdos.

É um problema que diz respeito ao público em geral. Principalmente ao público pobre, que representa a maioria. Deve ser objeto de estudos por parte do sr. Prefeito Municipal e se fôr da competência do Chefe do Executivo, deverá, de pronto, ser atacado.

Aqui fica o registro. As reclamações que a respeito temos, são incontáveis.

Extraído do Correio de Marília de 9 de fevereiro de 1956

domingo, 4 de maio de 2008

Vejam só! (8 de fevereiro de 1956)

Não há muito, dizia um colega da imprensa local, que o jornalista, principalmente o do interior, vez por outra desagrada a alguém, quando, no exercício de seu mistér de informar ou criticar, diz aquilo que se choca diretamente contra a vontade ou o interêsse de qualquer pessoa.

O jornalista, assim como o artista de cinema ou teatro, o jogador de futebol e todos aquêles que se exibem ou apresentam qualquer coisa para o público, está mesmo sujeito a críticas. Da mesma maneira que suas ações desagradam a alguns, obtem boa receptividade e encômios por parte de outros. No entanto, muita gente não sabe bem interpretar o direito de critica do profissional de imprensa. Todos gostam de ser elogiados, todos apreciam “alguns garavetos”, mas ninguém se conforma em ver seu nome ou sua ação analisados pela crônica, seja esta escrita ou falada.

Outros, todavia, pensam de modo bastante errado: entendem que a pessoa que escreve num jornal é “um testa de ferro” e que aquêlo órgão, para agradar um, pode ir de encontro a todo mundo. Puro engano. A missão do jornalista é um pouco mais elevada. Muitíssimo mais elevada do que alguém a interpreta. Por exemplo, esta coluna diária, tem lá seus leitores. Ontem, por motivo de força maior, não foi publicada. Muita gente quis saber a razão. Muitas pessoas telefonaram para informar-se das causas. É sinal de que muitos leitores a apreciam e isto nos desvanece. Mas o que queríamos referir, neste escrito, é o fato de que o jornalista interiorano nem sempre é bem interpretado. Muitos acreditam que a obrigação do “escriba” é fazer sensacionalismo, “meter o pau”. Volta e meia, um leitor ou um amigo, nos procura, para nos solicitar alguma “descascada” contra determinada coisa ou pessoa. “Escreva contra o Prefeito que fez isto, etc.” – dizem. “Desça a lenha” na Paulista... – nos pede outro. Alguns, mais insensatos, chegam a nos solicitar diatribes contra outros, por meros caprichos pessoais. Vejam só! E dizem, como se em nosso mistér estivéssemos errados: “Se fosse eu que escrevesse, você veria”.

Nossa missão, no entanto, é bem outra. Hoje em dia, na imprensa democrática, mesmo a interiorana, não há lugar para irresponsáveis e sensacionalistas. O “tarimbeiro” da imprensa que é honesto em seu proceder, é livre em seu ponto de vista para noticiar ou criticar. Aliás, é êste o principal ponto-base da profissão. Não podemos nos prestar, como nenhum homem de imprensa, a serviços de terceiros, a agradar uns em detrimento de muitos e, em absoluto, a servir de “tábuas de bater roupa” para outros – isto é, atacar pessoas ou grupos de pessoas, por conta daquêles que não tem coragem e ombridade para ir até os mesmos, “colocar em pratos limpos” os seus desentendimentos.

Assim, sim; mas assim, também não...

Extraído do Correio de Marília de 8 de fevereiro de 1956

sábado, 3 de maio de 2008

Mais uma escorcha (4 de fevereiro de 1956)

Os poderes públicos continuam pusilânimes no que tange aos preços dos gêneros de primeira necessidade. Igualmente as manobras dos intermediários e controladores são ignoradas pelos homens de govêrno e desconhecidas as ações de entidades destinadas a “controlar” estoques e preços de mercadorias imprescindíveis ao consumo do povo.

Tais organismos representativos, como dissemos há dias, são mesmo aquilo que se pode chamar de “inimigos oficializados”.

Usineiros poderosos estão “cozinhando” o malfadado Instituto do Açucar e do Álcool, insistindo perante dito órgão, para conseguir mais um aumento de preço do açucar. Na verdade, tal produto já foi aumentado, sem razão justificável. O I. A. A. fez exportar quatro milhões de sacas do precioso e indispensável alimento, sob a alegação de excesso de produção. À razão de Cr$1,60 por unidade de quilo, onde o usineiro recebe mais taxa de compensação de 3 cruzeiros e um pouquinho. O consumidor porém, é obrigado a pagar o preço de Cr$9,60 pelo quilo dêsse produto. Em alguns lugares já está sendo vendido por preços superiores.

O consumo de açucar para o Estado de São Paulo, está, presentemente, garantido. O estoque existente dá com sobra. Pernambuco e Alagôas fornecerão, até maio próximo, tôda a cota de açucar que o Estado lider da Federação desejar.

Por que, então, novos aumentos? Por que, então, mais uma escorcha ao povo?

Nestes últimos dias, a farinha de trigo atingiu nova elevação. O povo principia já a sentir essas consequências. Por certo o pão será aumentado. Em última análise, o aumento será indireto, com a diminuição do peso do produto, porque não temos uma fiscalização capaz de ver essas coisas em Marília. Em consequência, o macarrão, biscoitos, bolachas e outros produtos industrializados com a farinha de trigo, irão às nuvens também.

Urge a necessidade de alguém tomar as providências devidas. É preciso que alguém se interêsse um pouco mais pela bolsa do povo, êsse povo que se sacrifica e trabalha para engrandecer Marília, e, conseqüentemente, o Estado de São Paulo, que traduz sem qualquer dúvida, o progresso do próprio Brasil.

Mas, qual! Enquanto nossos govêrnos não voltarem mais as vistas para os problemas do povo, não se interessarem mais de perto pela vida cruciante dos construtores da própria grandeza nacional, as coisas ficarão nesse pé. Em verdade, estamos à mercê dos “tubarões” e dos monopolistas, dos polvos humanos que dominam a situação a bel-prazer e dominam tudo como se fôssemos marionetes. Dançamos de acordo com o movimento imposto pelas mãos que seguram os cordéis!

O Presidente da República, que em bonitos discursos confessou-se partidário dos sofrimentos dêste grande povo brasileiro, terá, no setor do controle dos preços das coisas úteis, um motivo para provar suas boas intenções.

Já estamos cansados de sofrer.

Já estamos cansados de tantas escorchas.

Extraído do Correio de Marília de 4 de fevereiro de 1956

sexta-feira, 2 de maio de 2008

“Golpe Feio” da Paulista (3 de fevereiro de 1956)

Desde o dia 1º do mês em curso, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro colocou em real evidencia, mais uma elevação no custo de tôdas as suas tarifas. Fretes, passagens, leitos e cabines, suplementos, “pulmanns” foram aumentados em seus preços, que já eram bem “crescidinhos”.

Sem dados estatísticos, sem cálculos de ponta de lápis, poderemos dizer que de há uns 10 anos para cá, a Paulista está aumentando os preços de tôdas suas tarifas, numa base aproximada de vinte por cento. E quase sempre, com um único pretexto: majoração de salários.

Todos sabem que a Cia. Paulista de Estradas de Ferro é um legítimo orgulho no setor de transportes ferroviários do Brasil. Mas, ao par dessa condição, a quase infalivelmente pontual Cia. Paulista está aplicando um autêntico golpe contra o povo em geral. E um “golpe feio”, podem estar certos.

A poderosa ferrovia “lascou” um aumento de vinte e dois por cento em suas tarifas “justificando” a atitude com um necessário aumento de salários de seus disciplinados auxiliares. Acontece que o tal aumento salarial, andará aí pela casa de menos de 10 por cento e do total que será arregimentado para seus cofres, em consequência dessa elevação de tarifas, a própria organização terá um lucro de perto de 14 por cento. Isto é, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro utiliza-se do nome de seus próprios empregados, que são os obreiros dessa grande empresa, para aumentar sua própria renda.

Esse “golpe feio” significa um método indireto de melhorar suas finanças, em detrimento da própria economia popular e às custas da própria classe ferroviária.

Nesse ritmo, as coisas caminham mal. Daqui há 10 anos teremos mesmo que gastar verdadeiras fortunas para realizar uma viagem ferroviária daqui a São Paulo. E, nesse mesmo ritmo, daqui há 10 anos, a Paulista estará “um pouquinho” mais rica e seus empregados um tanto mais pobres.

Desconhecemos as justificações apresentadas pela alta direção da poderosa empresa, para obter a autorização dêsses aumentos descomunais. A rigor, ignoramos também as bases dos aumentos salariais que a sociedade anônima se propôs dispensar a seus auxiliares. Estamos nos baseando para êste escrito, primeiro em nosso dever jornalístico de noticiar e criticar aquilo que se choca com os interêsses do público; segundo, estamos considerando a questão, de acôrdo com a opinião de vários ferroviários, que se mostram descontentes com tal atitude, de vez que a grande classe servirá, nessas condições, como escudo a uma autêntica manobra de obter, para os próprios cofres da Cia. Paulista, maiores lucros anuais.

Assim, pois, não há dúvida. A Paulista aplicou um autêntico golpe. E um “golpe feio”...

Extraído do Correio de Marília de 3 de fevereiro de 1956

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Feliz Govêrno “seu” Juscelino! (2 de fevereiro de 1956)

Na ocasião em que começou a ferver o caldeirão da intriga e da confusão nacional, quando principiaram a se conhecer oficialmente os resultados das eleições de 3 de outubro, viemos a público, com nossos despretenciosos escritos, defender a legalidade do regime democrático, o respeito à Constituição e a posse do Presidente eleito.

E o fizemos perfeitamente à vontade, porque não tínhamos votado no atual Presidente da República. Em um de nossos artigos, citamos alguns fatos que não são novidade para ninguém. Referimo-nos a certas manobras que campeavam pelas hostes políticas e que desejavam anular as eleições. Pretendiam usar o ilegal, sob a aparência da legalidade. Não viemos acusar ninguém. Apenas comentamos a questão, sob o ponto de vista jornalístico. Tal comentário desagradou alguns de nossos leitores, que nos interpretaram como enamorados de partido político que indicou ou apoiou o então candidato Kubitschek.

No entanto, tal representa a verdade. Jamais empunhamos qualquer bandeira política. O que sucede, é que somos daquêles que se ufanam da democracia nacional, apesar das falhas que apresenta. E, nessas condições, nos manifestamos pela sua vigência. Nos pronunciamos pela posse dos eleitos, que representou a vontade da maioria dos brasileiros.

Aconteceu, então, o que tinha mesmo que suceder. Os que foram sufragados pelo povo, em voto secreto e democrático, foram empossados anteontem.

Em seu discurso de posse, o ex-Governador das alterosas jurou servir com todo o empenho e com a melhor da boa vontade, ao povo brasileiro. Prometeu interessar-se e atacar os problemas principais da vida nacional. Transporte, energia elétrica, educação, alimentação, etc..

Nós desejamos ao sr. Juscelino Kubitschek, novo Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, um govêrno de paz social e harmonia, de trabalhos, de garantias ao povo do interior, de ausência de políticas e politicagens nos círculos governamentais, de melhor financiamento à lavoura, de uma reforma cambial, de estradas, e muitas coisas mais, tanto prometidas pelos govêrnos anteriores e tão grandemente relegadas ao esquecimento.

O povo brasileiro, que cerre fileiras em torno do novo Chefe de Govêrno, dando-lhe apoio integral, confiança e solidariedade. Com estas condições, terá o novo Presidente da República um grande estímulo para desincumbir-se da missão difícil que lhe pesa sôbre os ombros. E maiores facilidades para executar suas promessas e planos governamentais.

Feliz Govêrno, “seu” Juscelino!

Extraído do Correio de Marília de 2 de fevereiro de 1956