segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Um gesto simpático (29 de setembro de 1956)



Temos por feitio, abordar nesta crônica diária, os assuntos que se nos afiguram mais palpitantes no momento, dando preferência especial às coisas diretamente ligadas à Marília e seu grande povo. Assim é que temos registrado, gostosamente, nesta coluna, tudo aquilo que merece um destaque ou que seja passível de uma crítica construtiva. Sempre nos preocupamos com os átos e os efeitos, jamais mirando suas origens, evitando sempre individualizar de onde partem, pois entendemos como nosso dever primordial, o colocar em relevo tudo o que seja digno de divulgação e que diretamente se relacione com os interesses dos marilienses.

Por vezes, os destaques ou as críticas que procuramos fazer, não podem escapar à citação de nomes ou pontos originários. Em todo o caso, quando criticamos, não nos preocupamos em combater homens e sim idéias ou átos e quando elogiamos, não nos move o desejo de sermos gentis, e sim, unicamente, o de sermos justos em nossos conceitos e informações.

Assim é que temos a registrar um gesto simpático do sr. Emílio Pedutti (foto), na pessôa do sr. Ezequiel Bambini, quando cedeu, por mais de uma vez, as salas de espetáculos de seus cinemas, a fim de auxiliar diversas entidades assistenciais da cidade. A cessão dos cinemas, como têm acontecido, para espetáculos de fundo beneficiente e a projeção de películas cinematográficas com o mesmo objetivo, destinadas a entidades filantrópicas da cidade, representam, sem dúvida, uma excelente colaboração do proprietário da Emprêsa Teatral Pedutti ao povo mariliense, uma vez que tem sido cooperação direta com elementos que se preocupam e trabalham em setores assistenciais em Marília. Temos conhecimento de vários casos em que a organização de festas de objetivo beneficente custam fortunas, que quase absorvem a maior parte das rendas. Nos casos referidos, a contribuição do Sr. Pedutti veio proporcionar arrecadação líquida maior; em consequência, os benefícios tem sido inestimáveis para os dirigentes das entidades assistenciais que mereceram as atenções do Sr. Emílio Pedutti nêsse sentido.

É por isso, pois, que fazemos um destaque especial ao fato. Porque, o Sr. Pedutti, com esse gesto, que aliás é bastante simpático, contribui tambem com sua parcela em beneficio dos marilienses, como uma retribuição à preferência e aos lucros que êste mesmo povo lhe dispensa.

Fatos como êsse, talvez tenham passado despercebidos por muita gente; no entanto, são dignos de um registro pelo que, em efetivo, traduzem para centenas de infelizes, que, em Marília, vivem da própria caridade dos marilienses.

Extraído do Correio de Marília de 29 de setembro de 1956

domingo, 28 de setembro de 2008

A mais jovem mãe do Brasil (28 de setembro de 1956)

Segunda-feira última, dia 24, realizou-se o enlace matrimonial da menina Helena Aparecida, de 11 anos de idade, já mãe de um filho. Segundo notícia o jornal “Folha do Brasil”, de Nossa Senhora do Ó, de São Paulo, edição de 16 do mês em curso, o fato passou-se na paulicéia e resume-se no seguinte:

Numa das favelas de Santo Amaro, subúrbio de São Paulo, mora a mais jovem mãe do Brasil: Helena Aparecida, de 11 anos de idade e filha do lavrador Manoel Messias. A menina foi seduzida por um rapaz de 18 anos, de nome Adolfo Rosembault, que morava e ainda mora com a família. Teve uma gestação normal e um parto sem complicações; a criança nasceu lá mesmo no barracão, com a assistencia de duas pessoas: a mãe de Aparecida e uma “curiosa”. Helena Aparecida está felicíssima com o filho e brinca o dia inteiro com ele como há bem poucos dias brincava com sua boneca de trapo. Como a família é paupérrima e Aparecida não teve leite para o bebê, a vizinhança acorre de todos os lados com oferecimentos. Adolfo, o pai, está disposto a casar. Aliás, já no passado pedira consentimento ao Juiz de menores, que o negou. Agora, o magistrado parece disposto a consentir no casamento de Adolfo e Aparecida, mas mediante separação de corpos, pois, segundo os médicos, Helena é “incapaz” para o matrimonio”.

O fato, em sí, inédito entre nós, é digno de compaixão. Em que pese as boas intenções do rapaz, em querer casar-se para reparar o erro, não deixa de ser doloroso, pois precipitou o lançamento de uma criança, com o corpo e o intelecto ainda em formação, para as grandes responsabilidades da vida, para as lutas cotidianas da tão sacrificiosa existência de nossos dias.

Essas menina-mãe, embora tenha praticado o erro sem a responsabilidade que poderia ser atribuída à uma moça adulta, se tiver amanhã possibilidades de raciocínio suficiente, para aquilatar a gravidade do procedimento, talvez venha a sofrer, moralmente, até seu último dia, um peso enorme de consciência, pela prática realizada. O mesmo poderá suceder ao rapaz e o mesmo deverá acontecer aos pais dessa criança, que, mesmo tendo tudo decorrido já de maneira a apresentar a única solução viável para o caso, nunca apagará dentre a infeliz família, a memória do acontecimento citado.

A conformação é tudo o que deverá restar à mencionada família, na contigência dolorosa e na provação por que passou.

Extraído do Correio de Marília de 28 de setembro de 1956

sábado, 27 de setembro de 2008

O custo de vida em Marília (27 de setembro de 1956)

O fenômeno está de tal forma arraigado entre nós, em todos os quadrantes do Brasil, que se tornou uma problemática insolúvel, a desafiar a argúcia, a competência e as boas intenções de muita gente investida em poderes governamentais.

São Paulo é conhecida como “o paraiso dos “tubarões”. Acontece, que, de modo geral, a vida em Marília chegar a ser mais cara do que na paulicéia. As bases desordenadas dos alugueis de casas, em Marília, relativamente, são superiores às da Capital. O toucinho em São Paulo é vendido a 38 cruzeiros o quilo e aqui a 45 “pratas”. Um frango, em Marília, 70 a 75 cruzeiros, enquanto na Capital, nos açougues a mesma ave é vendida à razão de 60 cruzeiros. O preço do pão, de farinha pura, em São Paulo, é de 14 cruzeiros a unidade de quilo. Aqui não existe medida para aquilatar o preço dêsse produto, mas, se formos considerar o seu custo, a rigor, em comparação com o peso, temos a convicção que andará pelo preço de 20 e tantos cruzeiros. E, na maioria dos casos, o pão não é lá grande coisa em Marília, quando muitas vezes se apresenta mal amassado, de farinha misturada, mal cozido, etc..

Um pé de alface, custo o absurdo de 3 cruzeiros. Frutas e outros legumes, andam por preços proibitivos. A respeito, conversávamos outro dia com um fiscal estadual, no Mercado Municipal. E o funcionário nos observava um fato curioso. Em alguns momentos de permanência defronte a uma banca de verdura, notou que a maioria dos fregueses que adquiria verduras e frutas, em proporções normais para uma família média, gastava aproximadamente 70 cruzeiros, que pouco volume fazia nas sacolas destinadas às compras. No entanto, nos contava o funcionário, as vendas à vista do aludido comerciante, registravam um movimento de 45 a 70 cruzeiros diários!

O custo de vida é um despropósito em Marília. Se fôssemos comparar tudo, chegaríamos à conclusão de que cá entre nós, as coisas custam mais do que em São Paulo, mesmo aquilo que é produzido no município. Em Botucatú, com o novo aumento autorizado pela COFAP, o leite pasteurizado é vendido à razão de 6 cruzeiros o litro.

Existem opiniões divididas acerca de a COMAP poder ou não fazer alguma coisa em benefício do povo, se reorganizada. Nós entendemos que o referido organismo será útil e necessário, se constituído à base de elementos que venham de fato a representar os interêsses do próprio povo e não de classes potenciais, como tem acontecido no passado. Se a COMAP for integrada por elementos que representem, não os industriais e os comerciantes, porém os industriários e os comerciários, com vontade de trabalhar e com interêsses reais de impedir muita barulheira que existe por aí, as coisas melhorarão um pouco.

O sr. Prefeito Municipal anunciou há tempos, a reorganização do citado órgão controlador de preços. No entanto, as providências, ao que parece, não foram além do anúncio, para azar do povo mariliense.

Extraído do Correio de Marília de 27 de setembro de 1956

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Cerrar fileiras (26 de setembro de 1946)


José Padilla Bravos

Decididamente, não houve preâmbulos de desânimo, na ação governamental do Presidente Gaspar Dutra (Cuiabá/MT, 18/5/1883 + Rio de Janeiro, 11/6/1974, na imagem ao lado), na luta hostil da radicada e bem arraigada roubalheira em que viviamos.

Felizmente, podemos dizer, já nos sentimos um bocado mais aliviados da corja dos exploradores que açambarcavam a própria vida nacional.

Até a economia do próprio patrimônio da União, estava insegura, jogando os “magnatas dos lucros”, com todos os trunfos, centralizados, ramificados e dominantes, refutando e dissimulando as convenções constituidass, burlando leis e governos, sugando insaciáveis e criminosamente, o suor dos que trabalham realmente, dos que produziam, no duro, de sol a sol.

Não deixemos fugir tambem, ao nosso reconhecimento, que o General Eurico Dutra ascendeu ao poder numa éra crítica na história brasileira.

Uma verdadeira turba e um imenso ról de cometimentos, cobravam soluções, soluções essas que não podiam ser resolvidas num abrir e fechar de olhos, em virtude do grande foco de responsabilidades que chamavam à si, a própria nau do país.

O povo, principalmente o nosso, tem entalhado o vício secular, de tudo esperar do governo. Nem sempre nos mexemos e acertamos uma cadência, para marchar com os interesses da nação e, quase nunca, nos colocamos de atalaia, como sentinelas de hora, na vanguarda dos interesses pátrios.

O próprio povo está agora compreendendo isso.

Os governos, sejam eles quais forem, - o Paulo que X prefere ou o Pedro que Y admira – não podem sosinhos, impedirem o grassamento do mal e do ilícito entre nós, como vinha acontecendo e como ainda sucede em parte.

Está bastante reduzido, - mercê de Deus e da boa vontade dos homens – o número gigantesco dos exploradores deshonestos, que rondavam nossos passos e que conspiravam contra nós e nossas economias.

Isso constatamos, depois que nos decidimos cerrar fileiras em volta do mesmo mastro de necessidade patriótica, e, colaborar com nossos governos e com nossas autoridades.

É preciso que reflitam iguais, as ações dos governos e os anseios do próprio povo, na mesma homogeniedade de sentimentos pátrios. Só assim haverá confiança e só assim teremos um clima seguro, uma garantia das nossas próprias vidas.

Já principiamos a compreender isso, e, já sentimos tais efeitos, nessa campanha empreendida contra a gravidade da carestia da vida e do “cambio negro”. Formando nós, com os interesses do governo, só teremos de atingir a meta dos nossos desideratuns.

O numero dos traficantes impudicos e criminosos decresceu, e, se perseverarmos como é preciso, baixará a zéro. Agora, mais do que nunca, urge nossa constancia e acatamento do lema: “um por todos e todos por um”. Só assim sobreviveremos como podemos e devemos viver!

Extraído do Correio de Marília de 26 de setembro de 1946

Viagem à lua (26 de setembro de 1956)


O cientista argentino Teófilo Tabanera (1909 + 1981, retratado por Ramón Columba), discursando na VIII Conferência Internacional de Aeronáutica, realizada em Roma, declarou, perante mais de 400 homens de ciência de vários países do mundo, que somente daqui a 15 anos será possivel mandar o primeiro avião-foguete à lua. E foi mais longe, declarando que o referido veículo inter-planetário conduzirá passageiros humanos.

Até aí, nada de mais. O povo, ao que parece, mostra-se ainda um tanto cético com referência às futuras viagens para o desconhecido satélite. O que nos causou certa espécie, ao ler o telegrama que dá conta dos pormenores desses estudos, foi a ciumeira que já propiciou a surgir em torno dessas eventuais viagens à lua! Os leitores duvidam? Pois o fato é verdadeiro mesmo. Sob um certo aspecto, curioso, uma vez que partiu de homens que queimam as pestanas sobre livros e que cançam o pescoço de tanto olhar pelos gigantescos telescópios. “O espaço não deve pertencer a ninguem” – declarou Tabanera. E mais adiante: “Vênus e Marte não devem pertencer a nação alguma”. Haley e outros cientistas presentes, declararam que os russos têm guardado silêncio completo, quanto aos seus planos e progressos na mencionada matéria.

Um astrônomo norte-americano comentou que ninguem sabe o que estão fazendo os russos, mas que com certeza terão planos para domínio de Marte e da Lua. Tabanera retrucou que os Estados Unidos estão interessados em apropriar-se do espaço, a considerar pelos progressos nesse campo, que são presentemente maiores e mais perfeitos do que os de seu país, a Argentina.

Vejam os leitores, atentando bem para tais tipos de conversações: Numa conferencia de cientistas internacionais, para tratar de um assunto que deve ser mais sério do que se pensa, saindo com “fanfarronadas” dessa espécie! Criando uma ciumeira dos diabos, já por uma conquista, que ninguem tem muita certeza de que venha a ser viável!

Parece até brincadeira própria de crianças e não de homens de estudos! Estudam-se condições atmosféricas, densidade do gráu do oxigênio, se ha ou não água, vegetação ou vida da Lua, quais os tipos de aparelhos que lá poderão chegar, como isto poderá acontecer, etc.. E os homens já se desentendem, atribuindo-se, entre si, interesses de domínio de uma coisa cuja possibilidade real ainda está no terreno das cogitações. É até para rir, mesmo. Se as conversas a respeito partissem de um “joão ninguem” num bar da cidade ou num campo de futebol, vá lá. Mas numa conferência cientifica, onde se reuniram os mais renomados homens da ciência respectiva, surgir questões como a que acabamos de citar, é para se perder a esperança em muita coisa neste mundo! E em muita gente também.

Pelo amor de Deus!!!

Extraído do Correio de Marília de 26 de setembro de 1956

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Nós não moramos em Niterói... (25 de setembro de 1956)


Os leitores conhecem aquela anedota atribuída ao lusitano, que foi abordado no Rio de Janeiro, por um gaiato, que lhe disse sua casa em Niterói estar pegando fogo e sua morrendo queimada? Pois segundo reza a piada, o bom português, dentro de sua natural boa fé, tomou a barca e rumou para a capital do Rio de Janeiro. Só lá chegando é que se recordou que não era casado, não tinha mulher e nem casa e nem morava em Niterói...

Conosco, agora, poderemos dizer o mesmo, com a questão do Canal de Suez. Em verdade, o que é que temos com isso?

No entanto, o Brasil já está prevendo que vai ser convidado a emitir a sua opinião a respeito do tormentoso problema, que, ao que parece, é barril de pólvora da terceira guerra mundial.

Apesar dos noticiários a respeito, temos a impressão de que não estamos ainda bem informados acerca dos acontecimentos que envolvem política internacional e interêsses comerciais de alguns países. Ainda os ovos se encontram na frigideira e ninguém sabe a gordura que vai sobrar.

O chanceler Macedo Soares (José Carlos de Macedo Soares, foto, chefe do Itamaraty de 1955 a 1958) já tem o seu ponto de vista formado a respeito da questão, que será o parecer oficial do Brasil, para ser apresentado na ONU, caso o Egito interpele nosso país. Tal parecer já é de conhecimento do Presidente da República e espera o Brasil ser interpelado naquela assembléia, a respeito dessa questão.

Acrescentou o chanceler Macedo Soares que “a resposta brasileira ao apêlo do Egito será baseada, apenas no aspecto jurídico do caso, deixando de lado qualquer ponto de vista de ordem política”.

O que pensar a respeito? Se o negócio “pegar fogo”, como parece que vai acontecer, estaremos moralmente comprometidos, pois nossa opinião não deixará de fazer peso na balança das opiniões e das discussões a respeito. O parecer do Brasil por certo terá que pender, mesmo sob o aspecto jurídico, para uma das partes. Se a parte em tela vencer a questão, o Brasil sairá airosamente do “abacaxi”. Se, ao contrário, constatar-se prejudicada, nosso país terá contra si, as atenções da parte perdedora.

Pensando bem, será um autentico “imbroglio” para nós. Daí, o parodiarmos o português da anedota e dizermos também: Não moramos em Niterói; o que é que temos com isso?

Extraído do Correio de Marília de 25 de setembro de 1956

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O peixe morre pela boca (23 de setembro de 1956)

Surpreendeu-nos a “secção livre” estampada neste jornal, em sua edição de ontem. Surpreendeu-nos, que fique claro, porque em nosso artigo do dia 21, sob o epígrafe “Fato Estarrecedor”, nada mais fizemos do que analisar um comentário de nosso colaborador Álvaro Simões. Analisamos o artigo do reverendo, como poderíamos ter analisado um discurso do vereador Guimarães Toni, do Senador Assis Chateaubriand, do técnico Lula ou mesmo do Presidente Kubitschek. Apenas isso. E falamos em tese. Não citamos Pedro, nem Paulo. Porque não tínhamos conhecimento dos praticantes e porque não nos interessamos saber seus nomes. O que falamos, confirmamo-lo. De modo geral, o que aconteceu com essa questão, acontece à miude nestas terras que se chamam Brasís.

Se a carapuça foi lançada, não fomos nós que a lançamos. Se erro existiu, em repetição, foi quem o apanhou e colocou na cabeça. Não nos insurgimos contra nenhum estabelecimento comercial e muito menos contra nenhum comerciante. Comentamos o fato, repetimos, porque o consideramos doloroso, no sentido humano. Pouco se nos dá que alguem deva a alguem. O fato é que, de acordo com o que noticiou o reverendo Simões, até a polícia foi notificada a respeito. Que mal haveria em que o cronista responsável por esta secção analisa-se a questão?

O signatário da “secção livre” é que foi precipitado. “Pegou o pião na unha”, sem necessidade. Segurou “rabo de foguete”, ingenuamente. O caminho mais certo, seria o mesmo ter procurado o reverendo Álvaro Simões e ter esclarecido a questão; ou combatido o ponto de vista do articulista, como um direito que o assiste. Nunca reincriminar quem analisou um artigo escrito e assinado, principalmente um artigo de pessôa capacitada irretorquível e de conduta irrepreensível. Temos a certeza de que se os fatos não são verdadeiros, o reverendo Álvaro Simões seria muito capaz em vir a público e retificar o acontecimento. Dizemos isso, porque conhecemos sobejamente a personalidade e as bôas intenções do mencionado pastor, que representa, inegavelmente, em Marília, uma bandeira da moralidade e de bôas ações. Conteste quem quiser.

O fato de contas em Banco, foi força de expressão; poderíamos ter dito dinheiro em caixa ou outra qualquer coisa. Mas que existem comerciantes que “têm pedras em lugar de coração e cifrões em lugar da massa encefálica”, isso não ha dúvida. Só que não nos referimos ao signatário da “secção livre” e nem a ninguém. Falamos de modo geral e não dissemos nenhuma novidade. Pelo menos para os sensatos. Desta maneira, fica prejudicado o desafio que nos foi lançado para provar contas em bancos de quem-quer-que seja.

Nada temos contra nenhum comerciante, que fique bem nítido. A prova é que não citamos nomes e nem indiretamente demos a conhecer a parte atingida, porque, em verdade, não existiram intenções de atingir ninguem.

Para sermos francos, não somos “o pai da criança”. Mais francos ainda: “o peixe morre pela boca”.

Extraído do Correio de Marília de 23 de setembro de 1956

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A mentira está generalizada (22 de setembro de 1956)

Hoje em dia, a mentira, a terrível mentira, está mesmo generalizada. Todos mentem, cada qual em doses maiores ou menores. Mesmo os mais bem intencionados.

No comércio, principalmente, a mentira chega a ser “caso de polícia”. A deslealdade é alguma coisa de palpável, incrível, fantástica. Denunciou há pouco a imprensa, os processos de alguns laboratórios farmacêuticos, impingindo ao público, drogas fraudadas e absolutamente inócuas. Compra-se casimiras “made in São Caetano” por legitimas inglesas. Adquirem-se bugigangas de matéria plástica, de fabricação nacional, como autênticas americanas.

A gente, às vezes, encontra na rua alguém a quem não aprecia. E, no entanto, ao cumprimentar o indivíduo, diz, sencerimônia “prazer em vê-lo”, quando intimamente está dizendo “não vou com a sua cara”. Diz-se “bom dia”, mesmo quando o tempo está ameaçador e carrancudo. “Feliz viagem e breve regresso”, diz-se a alguém que vai viajar e que não nos é “persona grata”, quando se faz votos íntimos para que a pessoa nunca mais retorne ao nosso convívio. “O sr. é um colosso, um homem admirável”, dizemos ao político, quando na realidade, pensamos: “você é um salafrário de marca maior”. E assim por diante.

Em política, no entanto, a coisa é diferente. Principalmente por parte dos carcomidos políticos profissionais. “Ora, não se incomode; eu vou dar um “jeitinho” no seu “negócio”... É mentira deslavada que essa casta prega aos ingênuos, pois, na realidade, jamais se preocupam com o povo. “Farei em cinco meses, cinco anos de progresso no Brasil” – declarou o sr. Juscelino Kubitschek em sua campanha eleitoral. “A carne, de 14, baixará para 6 cruzeiros” disse uma ocasião o sr. Adhemar de Barros. “Nove entre 10 “estrelas” de cinema usam o sabonete X”. “O petróleo é nosso”, apregoam os comunistas. O MAC vencerá o Tupã”, diziam os marilienses, antes do último domingo. “Eu jamais roubei o governo”, declara o comerciante que tem a escrituração duvidosa.

No tópico anterior principiamos a falar em mentiras na política e, no entanto, fugimos ao objetivo, tendo enveredado por outro caminho. Foi pena. Entretanto, foi inevitável. É impossível falar-se simultaneamente em mentira e política – pleonasmo.

Extraído do Correio de Marília de 22 de setembro de 1956

domingo, 21 de setembro de 2008

Fato estarrecedor (21 de setembro de 1956)


Para muitos, pode ter passado como comum, o conteúdo da crônica de ontem estampada por esta folha, assinada pelo nosso colaborador revdo. Álvaro Simões (mostrado na imagem publicada pelo Correio de Marília em 1948). Pode mesmo ter-se perdido no trivial das coisas corriqueiras, maximé nestes dias, quando existe pouca vergonha e muita ganância por parte de inúmeros brasileiros indignos.

O fato, em si, é algo estarrecedor. Veio provar o espírito malévolo e egoístico de um cidadão, negando-se a vender um produto essencial à alimentação de pequeninos sêres, crianças infelizes que mal nascem já arcam com sua parcela de sacrifícios, inocentemente.

A pessoa que procedeu conforme denunciou ontem o revdo. Álvaro Simões, deve ter um pedra em lugar do coração e muitos cifrões em lugar da massa encefálica. Deve, sem dúvida, pensar mais no estômago e na conta do Banco do que na própria humanidade.

Não sabemos quem é, nem tampouco isso nos interessa. Estamos já habituados a manusear casos estarrecedores como o referido, onde o sentimento de humanidade, hoje em dia, cede lugar a interêsses condenáveis e contrários à própria economia popular.

Os jornais das capitais andam cansados de tanto denunciar fatos de igual jaez. O assunto, a respeito, quase passa a ser uma coisa natural na vida de nossos dias. Ainda há pouco, comentando sôbre um assunto de um colega de Sorocaba, o mesmo dizia da necessidade de promulgar-se a famosa lei de Capistramo de Abreu, obrigando todos os brasileiros a ter vergonha. De fato, além do espírito de humanidade, a questão já é de vergonha, de brios, de moral.

Ninguém pensa mais no próximo hoje em dia. Nem mesmo aquêles que podem e devem. Pensar em causa própria, é muito mais cômodo e muito mais lucrativo. O próximo que vá para o diabo. Nos dão os exemplos os “tubarões” desalmados, os monopolistas, os intermediários, êsses que enriquecem à custa da miséria do nacional.

Sabemos que nada adiantam os clamores da imprensa, que as denúncias em sua maioria das vezes perdem-se no deserto da pouca vergonha que impera, em grande escala, nesta terra de Santa Cruz. Mas aqui, fazemos como a mulher citada pelo humorista Vão Gogo: ela sabia o que a aguardava indo visitar o “gostosão” em seu apartamento; sabia, mas ia. Nós, por nosso lado, sabemos que nada adiantarão nossas queixas, nossas denúncias; sabemos, mas continuaremos gritando. Quem sabe se um dia as coisas mudam...

Extraído do Correio de Marília de 21 de setembro de 1956

sábado, 20 de setembro de 2008

A Camara e a Constituição (20 de setembro de 1956)

Reuniu-se anteontem a Câmara Municipal de Marília, em sessão solene, para render publicamente um preito de regozijo ao transcurso do décimo aniversario da promulgação da Carta Magna de 1946.

Foi um gesto dos mais democráticos, que veio provar, o espírito de reconhecimento dos marilienses, através de sua edilidade, o cultuar-se a efeméride grandiosa, o render-se um sentimento de respeito à passagem do 18 de setembro, data importante na atual vida nacional. Data importante, frise-se, pois representa o natalício da promulgação do diploma legal que rege os direitos e deveres dos brasileiros, sob o aspecto intrínsecamente democrático.

Como oradores oficiais da edilidade, usaram da palavra os Drs. Geraldino Furtado de Medeiros e Aniz Badra, que discorreram sobre a data e sobre a Constituição, seu significado, o labor belíssimo da Constituição de 1.946 e a interpretação sintetizada de seus preceitos. Igualmente, por ocasião da abertura dos trabalhos, o Dr. José Guimarães Toni, Presidente da Câmara, abordou com propriedade, em análise prática e natural, as finalidades e os efeitos da Carta Magna da Federação.

Lembrou-se, com inteira justiça, a participação de São Paulo, em sua apoteótica luta de sangue de 1932, quando se bateu de armas em punho pela constitucionalização do Brasil, tendo sido rememorado os átos gloriosos dos paulistas a respeito, numa das mais ricas e belas páginas da História de São Paulo. Falaram ainda os vereadores Dr. Durval Sproesser e Sr. Bernardo Severiano da Silva.

O presidente da Edilidade, fez menção tambem a participação dos gloriosos soldados da Força Expedicionária Brasileira, que, no último conflito mundial, içaram nas íngremes montanhas do classicismo italiano, o Auri-Verde Pendão, símbolo da liberdade, liberdade essa prevista pela Constituição de 1.946.

Oportuníssima, foi, portanto, a manifestação da edilidade mariliense, rendendo um tributo de respeito à passagem da grande data. Principalmente no momento presente, quando tanto se fala em reformar a Carta Magna, em atitudes que não deixam de ser de todo reprováveis , pois as prováveis reformas óra em discussão, deixam transparecer, antes de tudo, um estado geral de desorganização do próprio sistema democrático nacional.

A afluência pública ao recinto do Legislativo mariliense, na noite do último dia 18, demonstrou claramente que o público local participou das homenagens justíssimas que a Câmara Municipal de Marília tributou ao transcurso do 10º aniversário da promulgação da Constituição dos Estados Unidos do Brasil.

Extraído do Correio de Marília de 20 de setembro de 1956

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

“Presente de Grego” (19 de setembro de 1956)

O que o Brasil está sentindo, a esta altura, com referência ao estado inflacionário presente, sem precedentes em nossa história, é o reflexo indiscutível do autêntico “presente de grego” que nos legou o sr. Presidente da República, com o decantado novo salário mínimo.

Os líderes sindicais, quando intentaram os movimentos reivindicatórios do reajustamento dos níveis salariais, tiveram em objetivo, unicamente, oferecer ao operariado do Brasil, melhores condições de subsistência. Mas, não resta dúvida que laboram um êrro que teve no próprio Presidente da República o maior responsável, quando sua excia. anunciou, com incrível antecipação, e, sem qualquer medida acauteladora e necessária, a concessão do aumento dos ordenados mínimos, dando tempo, margem e oportunidade, a que se pusessem em campo aquêles que, agora ficou provado, trabalharam e trabalham contra o próprio Brasil em defesa de suas próprias burras e interêsses condenáveis.

Naquela ocasião, quando foram lançados os primeiros “balões de ensaio” dos aumentos dos salários, deveriam os dirigentes sindicais, interessados diretamente na questão, ter ao menos sugerido ao poder central o norteamento da situação, com providências concretas e imediatas, destinadas a estabilizar o custo de vida. Agora a situação tornou-se difícil e desafia a argúcia, a capacidade de trabalho e mesmo o sentido de brasilidade de muita gente do govêrno. E, confessamos, temos as nossas dúvidas de que ainda exista alguém com “peito” suficiente para debelar o mal.

A respeito, vejamos o que escreve a “Folha Popular”, da cidade de Sorocaba:

“Não é também o simples congelamento de preços, ou a estabilização impossível de sete gêneros de primeira necessidade, que constitui a raiz de tôda essa problemática. Sabe-se que para o govêrno evitar a espiral dos preços, deverá por iniciar debelando a inflação, quer dizer, cortando os males na sua causa. Mas a inflação é um mal que não pode ser curado com um simples decreto governamental, como é óbvio, pois isso seria o mesmo que votar a lei Capistrano de Abreu, obrigando a todo brasileiro ter vergonha.

Não estamos ante fatos que podem ser resolvidos com simples penadas de gabinete, principalmente quando são elas demagógicas, como foi o caso do novo salário mínimo, ou quando visem adiar apenas a soluços dos problemas.

A situação para ser resolvida, depende de medidas amplas e conjuntas, a serem estudadas e postas em prática. O desequilíbrio do orçamento federal, consequentemente em grande parte do empreguismo que tem imperado no país nos últimos dez anos, os gastos supérfluos do govêrno, o aumento constante dos impostos e taxas, de tarifas e de tudo que o presidente da República usa para contrabalançar suas despesas, responde pela anomalia da situação. Há outras razões, também, que diretamente não estão afetas ao govêrno, embora indiretamente estejam, como é o caso do especulismo.

Se os líderes sindicais, e todos aquêles que tomaram parte no movimento nacional pró elevação dos níveis de salários, dispendessem o dinheiro que gastaram com suas sucessivas reuniões, e inúmeras viagens à Capital Federal, usando-o para elaborar um plano racional, submetendo-o ao chefe da Nação e exigindo o seu cumprimento, talvez hoje já estivessem colhendo melhores resultados”.

Extraído do Correio de Marília de 19 de setembro de 1956

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Marília industrial (18 de setembro de 1946)


José Padilla Bravos

Vi ha pouco, num matutino paulista, uma demonstração estatística das industria no Estado de São Paulo.

Foi pena, entretanto, que a referida exposição se prendesse ao exercício findo em 1944, sendo que nós já avançamos cerca de dois anos dessa alusão. Eu disse “foi pena” porque gostaria que o citado relato, dissesse respeito ao exercício cadente e mitigasse a natural curiosidade, que em mim nasceu no mesmo sentido.

Por tal compêndio estatístico, póde se avaliar e estimar a elevação do nosso próprio nivel industrial.

Relativamente, é fantastico. Marília é uma “cidade-menina”, que se apoia agora, na tentativa difícil dos primeiros passos. Principia a florecer, desabrochando agora, acordando para o próprio e vertiginoso progresso.

Disso, todos nós nos ufanamos, com um orgulho justíssimo e profundo, e estamos helmeticamente certos, de que, ser mariliense, autêntico ou não, é um motivo impendivel de satisfação e orgulho.

E é mesmo, incontestavelmente. Qualquer pessoa que arfa com estes ares, pugnará por estas paragens acolhedoras e exuberantes.

Marília deixou atraz, quase a totalidade de suas irmãs mais velhas. Em quase todos os angulos de suas atividades. Está escrito no próprio livro da evolução de nosso hinterlandio, que nada deterá a marcha de Marília, para o apogeu metropolitano do progresso de nossos dias.

Pela demonstração em apreço, Marília, como cidade industrial paulista, coloca-se sobressaentemente, em quinto lugar, com quatrocentos e dezenove estabelecimentos industriais!

Precedem-na a Capital Bandeirante, com 11.491 estabelecimentos industriais; depois Santos com seiscentos e trinta, Santo André com quinhentos e oitenta e quatro e Campinas com quatrocentos e vinte e quatro!

A própria Sorocaba, alcunhada de “cidade industrial”, apezar de aconchegar mais de dezessete mil operários, está em nono lugar no Estado!

O número dos operários industriais marilienses, de acordo com a estatistica em tópico, é de cerca de seis mil.

Para uma cidade de apenas vinte anos de vida, isso é progresso, na real concepção da palavra!

Extraído do Correio de Marília de 18 de setembro de 1946

“Descanso” forçado (18 de setembro de 1956)

Uma pequena “ferrugem” em nossa saude, obrigou-nos a ficar fora da circulação” por alguns dias. Por isso estivemos ausentes desta coluna no fim da última semana. Agora, embora não totalmente “recuperado”, voltamos a luta, procurando tomar pé com os principais acontecimentos da cidade.

Não estivemos na Câmara Municipal, na última quinta-feira. Não ouvimos, portanto, os ataques que foram dirigidos ao CORREIO DE MARILIA por um vereador coadjuvado por outro edil. No entanto, tivemos conhecimento, embora não tivessemos ouvido a irradiação da “tempestade”. O que nos confortou, foi marilienses que jamais nos visitaram, irem até nossa humilde casa para levar-nos o conforto de sua solidariedade e repulsa aos átos impensados desses dois vereadores. Por outro lado, confortou-nos tambem a atitude dos demais vereadores, que protestaram contra a atuação a respeito dos citados legisladores.

Não ficamos agastados, pois sempre esperamos pedras e não flores de pessoas insensatas. O jornal é uma arma muito mais poderosa do que alguem possa pensar. Tanto pode servir para o bem, como para o mal. O “Correio” só serve para o bem, porque sua orientação é firme, patriótica e bem intencionada. Seus colaboradores são imbuídos do maior espírito de cavalheirismo e senso de trabalho comum, em servir Marília e seu povo. E isso temos feito, acompanhando a vida da cidade, desde os primórdios. Temos prestigiado autoridades e poderes públicos, acompanhando “pari passu” todos os desenvolvimentos deste orgulho que se chama Marília. Temos criticado, construtivamente e continuaremos a criticar, sem que ninguem tenha forcas para impedir-nos tal proceder, porque além do direito que desfrutamos, desfraldamos a bandeira da razão, do bom senso, das boas intenções e do amor a Marília e suas causas.

Todo mundo gosta de levar alguns “confetis”. Os insensatos, gostam disso, de vez em sempre. Ser censurado é que não. Ninguem quer. Quando isso acontece, o jornal não presta, é pasquim, não tem personalidade, etc.

Mas a imprensa que não divulga, que não notícia, que não relata os fatos como eles são, que se acomoda, que aceita pedidos para fazer “cartaz” individualista, que recebe propinas, que engana seus leitores, apresentando como bom um artigo que é mau, que se submete ao servilhismo, que teme grupos ou pessoas, que se curva à situação ou à prepotencia, não é imprensa: é simulacro de imprensa. Então, sim; então é que passa a ser pasquim, não ter personalidade, etc.

Jamais tivemos prevenções contra aqueles que nos atacaram. Apenas tivemos em mira apontar erros, quando foram cometidos. E o temos feito. E continuaremos a fazê-lo. No entanto, agora, depois de tantas chumbadas, somos forçados a parodiar aquele caboclo mirralho lá das margens do rio do peixe: “Agora nóis drómi cum us zóio aberto...”

Extraído do Correio de Marília de 18 de setembro de 1956

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Gesto louvável (15 de setembro de 1946)


José Padilla Bravos (foto)

Nesta hora de asfixias, dificuldades e crises variadas em que vivemos, é urgente que cerremos fileiras em torno do mesmo pedestal de brasilidade e senso, numa luta denodada contra o famigerado “câmbio negro”.

Esse nefasto meio de vida, se alastrava de tal maneira no seio mariliense, que não tínhamos siquer um setor de qualquer atividade, que não estivesse dominado por suas garras ilícitas e gananciosas.

No ângulo que dizia respeito as revendas de jornais e revistas, Marília causava compaixão a quem quer que fosse. O mariliense éra obrigado a pagar os olhos da cara, por um jornal que tinha seus preços taxados claramente, e que os revendedores e concessionários já tinham sua base de lucros razoáveis. Moléstia velha, já se vê.

Agora, mercê duma conciliação de sensos e duma consorciação justa das exigencias de nossos dias, as bancas de jornais e revistas de Marília vendem tais objetos aos preços estipulados pelas próprias empresas editoras.

É um gesto que não podemos escapar de elogiar e que condiz com o verdadeiro alvo da autentica unidade democrática.

E não é só: As mesmas bancas, ostenta(m) cartazes visíveis e suscintos, prevenindo o povo para só pagar os preços de capa. Atitude digna de nossos louvores, portanto.

Só restam alguns vendedores teimosos, que continuam vendendo os jornais e revistas pelos preços que lhes convem, o que nós podemos e devemos evitar, só adquirindo jornais e revistas nas bancas que estão do lado da razão.

Com essas providencias, salvaguardaremos nossos próprios interesses, defenderemos os interesses da nação e colocaremos mais uma pedra no edificio que óra se levanta, contra a carestia da vida no Brasil.

Depende, portanto, de nós, que podemos nos vangloriar dessas atitudes-exemplos, que ainda não nos foi dado a presenciar. Começamos bem, e devemos prosseguir, com a mesma ombridade e decisão que já nos caracterizou quando lutamos contra o nazismo.

Combatamos o “cambio negro” e denunciemos seus praticantes, se quizermos evitar uma catastrofe sem precedentes no Brasil, um autentico cáos, uma verdadeira guerra civil.

Já temos vários pontos de partida, sendo que o aludido é um, magnífico e indesprezavel. Avancemos sem esmorecimentos, nós próprios que somos os precursores das nossas próprias sobrevivencias.

Extraído do Correio de Marília de 15 de setembro de 1946

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A nova “Casa de Carnes” (12 de setembro de 1956)

É de nosso feitio, o abordar nesta coluna, sempre que possível, fatos e coisas que se relacionam com Marília, seu progresso, o trabalho de seu povo.

É por isso, que vamos nos referir, hoje, a mais um grande melhoramento óra introduzido na vida mariliense, com a instalação oficial em data de ôntem, da “Casa de Carnes Carvalho”.

Sem favor nenhum, o estabelecimento comercial referido, em data de ôntem entregue ao público mariliense, é merecedor de um registro especial. Moderno, completo, suas instalações nada ficam a dever, aos maiores e mais modernos estabelecimentos congêneres, das grandes capitais. Sua representação é uma obra de vulto. Localizada em ponto central, com um equipamento meritório de admiração, a mencionada casa é digna de ser apresentada a qualquer forasteiro, como um trabalho magnífico de um homem de Marília, que, ao par dos normalíssimos interêsses comerciais, teve a elogiável lembrança de oferecer ao povo mariliense um estabelecimento comercial condizente com a pujança do progresso da cidade.

Efetivamente, trata-se de uma grande obra. E pensamos nós, que se outros marilienses, que já deram provas sobejas de seu amor por Marília, se dispusessem, em setores diversos, realizar o que acaba de fazer o sr. José Carvalho Teixiera, por certo, essa febre de progresso da “cidade menina” seria ainda mais elevada, mais incontrolável.

Não há dúvidas, de que tal empreendimento representa um marco grandioso no progresso do comércio mariliense. Para breve, para o arrojado comerciante, vender ali aves e ovos, além de carnes de outras espécies que não as de uso normal (porco e vaca). Cabritos, carneiros, perús, etc., estarão à venda, dentro em pouco, na citada “Casa de Carnes”, que ôntem foi entregue ao público.

O acontecimento é de um significado que envaidece todos aquêles que sentem aquêle frêmito de amor por Marília. E é por isso, que nós, nos propusemos hoje, registrar o fato. A presença de um estabelecimento comercial dêsse porte, em nossa cidade, é mesmo alguma coisa notável. E não há exagero de nossa parte.

Ao fazermos o aludido registro, desejamos congratular-nos com o sr. José Carvalho Teixeira, pela realização efetivada, e, com o povo mariliense, por dispor de mais êsse magnífico e confortável estabelecimento comercial.

Extraído do Correio de Marília de 12 de setembro de 1956

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A Faculdade para Marília (11 de setembro de 1956)

Todos sabem das lutas empreendidas pelo povo mariliense, através de suas autoridades, entidades representativas e imprensa, objetivando a criação e instalação de um curso oficial de ensino superior em Marília.

Há dias, noticiamos que o projeto de lei do deputado estadual Maurício dos Santos, criando a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras em nossa cidade, passara em segunda discussão, na Assembléia Legislativa.

Através de um editorial publicado pela “Folha da Manhã”, ficamos sabendo da existência de cerca de 700 pedidos idênticos, para diversas cidades do interior.

Vejam o que diz o aludido editorial:

“A notícia de que, na Assembléia Legislativa, cerca de 700 projetos que dispõe sôbre a criação de novas escolas estão na iminência de voltar a plenário, depois de inútil e longa permanência na Comissão de Educação e Cultura, coincide com a divulgação de parecer do prof. Almeida Júnior, aprovado pelo Conselho Estadual de Ensino Superior, a propósito da criação de uma Faculdade de Medicina em Campinas. Porque a verdade é que agora as escolas superiores é que estão em moda. Pertence ao passado a fase de reivindicações de instalação de ginásios, escolas normais e até institutos de educação. Hoje, todo município que se preze solicita logo uma Faculdade – seja lá qual for – e encontra sempre quem, na Assembléia, apadrinha sua pretensão.

O prof. Almeida Júnior, no seu parecer, coloca bem a questão. Para se saber da conveniência, é essencial um levantamento quanto possível completo das necessidades do Estado no setor assistencial, “o grau de saúde das populações, o nível de sua cultura, a densidade demográfica, as facilidades de transporte, a difusão das vias de comunicação, a existência ou não de institutos hospitalares”, etc.. Após o exame de dados relacionados com todos êsses índices, aquêle educador conclui que, pelo menos até 1956, não é aconselhável que o “Estado onere as suas finanças com a caríssima instalação de mais uma Faculdade de Medicina”.

Não pretendemos ser melhor do que outros centros da hinterlândia paulista. No entanto, reconhecemos que existem pedidos de instalação de escolas superiores, em número assustador, alguns representando as pretensões (louváveis, diga-se de passagem), de cidades que, por suas localizações próximos a grandes centros, que, por seu número diminuto de habitantes, por sua situação demográfica e outros motivos, poderão prejudicar os interêsses e a consecução irretorquível dêsse melhoramento, aspirado por cidades maiores, como, por exemplo, Marília.

A dedução disso tudo, pode atribuir-se àquilo que bem poderia ser chamado de “gentileza política”, isto é, deputados apresentando projetos a torto e a direito, para se mostrarem agradáveis a algumas pessoas. O número elevado dos projetos congêneres, que deverão ser apreciados pela Assembléia, talvez dê origem a prejuízo para muita gente!

Extraído do Correio de Marília de 11 de setembro de 1956

domingo, 7 de setembro de 2008

Vamos apertar o cinto? (07 de setembro de 1956)

Em Botucatú, com o novo aumento do preço do leite, autorizado pela benevolência de “dona” COFAP, o produto foi para Cr$ 6,00 o litro. Em Baurú, o pão foi fixado em Cr$ 14,00 o quilo, numa atitude de bom senso, em que entraram em acordo mútuo a Prefeitura e as padarias da “Capital da Terra Branca”. Em quanto isso, em Marília, o pão deve andar aí pela casa dos vinte ou mais cruzeiros o quilo, se considerarmos o peso e o preço do produto distribuído na cidade. O leite em Marília... bem o leite “são outros quinhentos cruzeiros”.

O açucar embora continue a ser vendido para o exterior por preço irrisório, “subiu” em média 50%, para nós.

O aspectro do “salário mínimo” criou um verdadeiro caso de vergonha e de consciência no Brasil, onde ficou provada a inépcia das autoridades incumbidas de controlar e fiscalizar os preços dos gêneros alimentícios. O descontrole, nesse sentido, é verdadeiramente abismador.

O pior é que não ficará só nisso. Com o propalado aumento de imposto de vendas e consignações, que em breve vai “estourar”, poderemos, desde já, ir apertando o cinto em mais um furo. Os preços dos calçados e das roupas, atualmente, são o que se podem chamar, verdadeiramente, de imorais.

Perspectiva, as mais sombrias para o dia de amanhã. As coisas não andam boas, não. O brasileiro, que sempre foi subalimentado, raquítico, faminto, está fadado a ser o único povo do mundo que o transcorrer do tempo não o faz progredir nesse particular. Pelo contrário, regride, pois a cada dia que passa, maiores são as suas dificuldades. Culpa de quem? Do autor destas linhas, por certo não serão. Nem do Baltazar do Corinthians, nem dos motoristas de praça.

Gritar não adianta – disseram-nos outro dia. Bem o sabemos. Já temos a experiência própria, de que espernear nada vale. O remédio é pagar e “não bufar”, conforme diz o conformado caboclo.

“Está tudo errado”, dizia ha pouco o Dr. Aniz Badra. E está mesmo.

Os nordestinos continuam a chegar, nos chamados “pau de arara” e ficam a mercê da própria sorte, dormindo nas vias públicas, pedindo para comer. A política anda mais confusa do que o ataque da Ferroviária de Botucatú – ninguém entende nada, porque os próprios “jogadores” também não se compreendem entre sí, não sabem o que querem.

Enquanto isso, êstes Brasis vão caminhando para o mais tenebroso cáos econômico que nos dá conta a própria história.

O povo, hoje em dia, chega a ser “marionete”, dançando em cordéis manejados com amestría por um pequeno número de “bons” brasileiros.

E “viva a valsa”!

Só nos resta um consolo: apertar o cinto...

Extraído do Correio de Marília de 07 de setembro de 1956

sábado, 6 de setembro de 2008

Não haverá uma solução (06 de setembro de 1956)

Sim. Esta é a pergunta que dirigimos ao sr. Prefeito Municipal e ao sr. Delegado Regional de Polícia: Não haverá uma solução pacífica, para o problema angustiante da imiscuidade de meretrizes e famílias na cidade de Marília?

Temos repetido, inúmeras vezes, que consideramos o meretrício, como um mal necessário. Temos também dito, que não somos, em particular, contrários àquelas que mercantilizam o amor, vendendo o próprio corpo. Mas a questão, no pé em que está situada, carece de urgentes providências das autoridades responsáveis.

A zona do meretrício, que é delimitada por lei, aqui em Marília não obedece nenhuma restrição. Os forasteiros, muitas vezes, batem em casas de família, pois não há meios possíveis de identificar as casas chamadas suspeitas e as residências familiares. A mistura é incrível e chega a atentar contra os foros de civilidade de nossa culta população. Intercalam-se as casas das meretrizes, com as das famílias, sem que nenhuma providência se tome a respeito. Crianças, moças e senhoras, são obrigadas, constantemente, a passar por vexames de tôda a espécie, em consequência dessa anomalia, que reclama ações.

Existe um plano de mudança da zona do “bas-fond”. Enquanto isso não acontece, por motivos de ordem normal de andamento das providências a respeito, bem seria que os poderes responsáveis providenciassem, no sentido de centralizar as decaídas num só trecho, evitando, para melhor viver, tanto dessas mulheres, como da própria população, os dissabores que estamos percebendo.

Confirmamos o nosso ponto de vista: Nada temos contra as mulheres que praticam o meretrício. Apenas não podemos concordar com os olhos grossos que fazem a respeito, nossas autoridades. A zona referida deve ser delimitada. Existe lei a respeito. O que não pode continuar, é o estado de coisas que se está verificando em Marília, dia a dia mais agravado, com a imiscuidade crescente de famílias e meretrizes.

Vai aumentando o problema, com as famílias “entrando” nas proximidades da região citada, em consequência da crise de habitações e com as mulheres de vida facil “entrando” nas zonas residenciais, sem a menor cerimônia. O problema é muito mais grave do que possa parecer. Pergunte-se a quem reside nas proximidades da mencionada zona ou a quem, por motivos imperiosos, tem necessidade de transitar pela aludida região.

Será que não haverá uma solução?

Extraído do Correio de Marília de 06 de setembro de 1956

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Curioso projeto de lei (05 de setembro de 1956)

Curioso projeto de lei, foi apresentado num dia do dia do último mês de junho, no plenário da Câmara dos Deputados, pelo deputado federal sr. Elias Adaime. É a seguinte à íntegra do citado projeto de lei, que foi justificado da tribuna, pelo autor:

“Artigo 1º - A lei número 2.130, de 7 de dezembro de 1953, publicada no “Diário Oficial” de 12 de dezembro de 1953, é lei mesmo, devendo pois, ser cumprida.

Artigo 2º - Revogam-se as disposições em contrário”.

Vejam os leitores, a confirmação irretorquível daquilo que era mito e hoje em dia é, em grande parte realidade, traduzido na expressão chamada derrotista do nacional, quando afirma: “no Brasil existem leis para tudo; falta apenas uma; falta uma lei, que obrigue a execução das leis existentes”.

Pode parecer que o deputado Elias Adaime entendeu de glosar os poderes constituidos, Legislativo e Executivo, com a apresentação do citado projeto de lei. Tal, no entanto, não se deu. O parlamentar procurou, publicamente, alertar seus companheiros e a própria Nação, acerca da displicência com que o brasileiro encara um preceito de lei, indiferença com que os órgãos fiscalizadores e responsáveis pelo cumprimento de um diploma legal demonstram, à saciedade, aqui no Brasil, onde as leis quase só servem para os pequenos.

O que significa isso? Simplesmente, desleixo e desorganização. Quando uma lei deixa de ser cumprida, exigindo um acontecimento “sui generis” como êsse, em que um legislador se vê obrigado a apresentar um curioso projeto de lei, obrigando o cumprimento de lei já existente, a questão não é para rir. O assunto chega a entristecer aquêles que pulsam por estas plagas, que sentem orgulho imenso ao olhar o pavilhão Verde e Amarelo e que se empolgam com a leitura das belas páginas da História do Brasil, sentindo no íntimo um frêmito incontrolável de brasilidade, de patriotismo.

Em verdade, o mal apontado pelo ilustre parlamentar, significa uma chicotada em regra e bem dada, na face de muita gente. E êsse deputado não deve merecer censuras de quem-quer-que seja, pelo fato apontado. Pelo contrário, deve ser credor de simpatia, pelo gesto desassombrado, em chamar as atenções dos poderes constituidos para uma anomalia gravíssima entre nós. E convenhamos, nenhum outro meio, embora com essa aparência cômica, seria melhor e mais adequado, para bolir com os brios de governantes e governados neste Brasil.

Não procuramos conhecer o teor da citada lei e nem sabemos sôbre o que se refere. No entanto, é uma lei e pelo que se percebe no projeto apresentado e óra em referência, não está sendo cumprida.

Embora pareça brincadeira, embora o fato se assemelhe aos acontecimentos quase incríveis que comumente sucedem nos Estados Unidos, foi oportuníssimo o aludido projeto de lei apresentado pelo deputado federal Elias Adaime. Como reza um antigo brocardo, “para os bons entendedores, meia palavra basta”.

O diabo é que nem todos, entre nós, são bons entendedores...

Extraído do Correio de Marília de 05 de setembro de 1956

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O “negócio” é o seguinte (04 de setembro de 1956)

O atual estado de democracia em que vivemos, nem sempre é bem interpretado cá entre nós, os brasileiros. Verdadeiros atos de desrespeito público, são hoje em dia generalizados, entre o povo, com alusão aos poderes constituidos. Acontece que essa desconsideração mútua, é, quase sempre, votada entre si, por muitos daquêles que ocupam posições de relevo nas esferas colaboradoras do próprio estado governamental. Se, por um lado, intimamente ou publicamente, condenamos tal proceder, vamos aceitando a contingência, em nome da democracia.

Não há muito, verificou-se um incidente entre duas personagens importantes em nosso mundo político. O deputado Aliomar Baleeiro e o ministro José Maria Alkimin. O incidente evoluiu tanto, a ponto de ultrapassar os limites da ética e da elegância, tendo descambado para impropérios. O sr. Baleeiro, em entrevista concedida a um matutino da Capital Federal, assim se expressou:

- “Quando eu sei de determinados escândalos, costumo revelar apenas 20 por cento dêles. Tenho vergonha dos juízos que os estrangeiros possam fazer sôbre nós. O ministro ignora êstes meus escrúpulos, porque não me conhece bem, apesar de sermos ambos deputados. Aguardo a publicação do seu discurso no “Diário do Congresso” para convidá-lo a aparar a ponta da sua língua, quando quiser chamar de leviano a um homem que nunca arguiu um fato a quem quer que fosse, a não ser quando o fato é puramente verdadeiro. Ninguém, até hoje, teve a coragem de chamar-me de leviano. O sr. Alkimin não a terá impunemente. Assim que puder, na Câmara, responderei às palavras temerárias que contra mim foram assacadas pelo ministro da Fazenda, de cuja existência eu nem me daria conta, tão pouco ela significa para a solução dos problemas nacionais. Por piedade para com o sr. Alkimin evitei até agora acusá-lo diretamente. Mas já que ele se mostra tão iracundo, vou mostrar-lhe, com os documentos na mão, quem é o leviano: se sou eu ou é êsse incrível ministro, que como homem público está procedendo da maneira como vou mostrar. Só não o mostrarei se os cartórios já estiveram falsificando documentos. Por isto, em vez dos 20 por cento habituais, vou dizer tudo o que sei – e que posso provar – sôbre o sr. Akkmin”.

Vejam os leitores, os têrmos utilizados pelo aludido homem público. Por outro lado, as expressões a respeito, do sr. ministro da Fazenda, não andaram mui distantes, na equiparação geral do respeito mútuo.

A gente, que tem aquêle orgulho imenso de bater no peito e dizer “sou brasileiro”, sente um certo mal estar, quando tem conhecimento de fatos dêsse jaez. Há muita individualização em atos daquêles que têm sôbre seus ombros grande parcela de responsabilidade, dentro dos limites da própria vida da Nação. Existe muito desrespeito à Lei, partido de esferas elevadas.

Como se portarão os historiadores, para transportar à posteridade, os atos de homens públicos dessa natureza?

O “negócio” é o seguinte: Ou nós estaremos errados ou os srs. Alkimin e Baleeiro...

Extraído do Correio de Marília de 04 de setembro de 1956

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Roubo num cemitério (01 de setembro de 1956)


Ladrões existem muitos neste mundo de Deus: O garoto que rouba quase inocentemente a laranja do quintal de outrem; o vulgar ladrão de galinhas; o ladrão abusado que penetra nas residências alheias; o larápio de automóveis; o ladrão do erário público, que é oficialmente “gente de bem”; etc., etc.. Ladrões de cemitérios, são coisas raras. Mas existem. Isso nos dá conta o jornal “O Progresso” editado em Duartina. Em reportagem a respeito, o aludido órgão, relata, em síntese, o seguinte:

Constatou-se o desaparecimento de uma Imagem do Sagrado Coração de Jesús, que ornamentava o túmulo de um cidadão duartinense, no cemitério municipal daquela cidade, avaliada em mais de 17 mil cruzeiros. Avisada a polícia, pôs-se a campo, localizou as pistas necessárias e descobriu o suspeito, que algumas horas mais tarde viria a ser preso e confessar o sacrilégio. Um motorista de praça de Baurú, transportara para Duartina, um cidadão de origem nipônica. O homem deixou o carro esperando, enquanto tratava “de um negócio”; voltou depois com a imagem embrulhada, tendo solicitado ao motorista que rumasse para nossa cidade. Pagou o chofer, dando ao mesmo uma “gorja” de cinquenta cruzeiros. De Marília, rumou de ônibus para Lins onde é comerciante estabelecido. A polícia de Duartina, à medida que ia acompanhando o desenrolar dos acontecimentos, cada vez mais ia se convencendo de que estava no caminho certo. E foi ter à casa do larápio, que é o japonês Hissao Satani, residente em Lins. Na morada do suspeito, informaram que o mesmo não estava, quando, na realidade, se encontrava em casa. Só no dia seguinte, o homem “deu a cara”, saindo às 7 horas. Aí, a polícia deitou-lhe a mão. Inquerido, o nipônico “deu o serviço”, como se dia na gíria policial; isto é, confessou o crime. Foi preso e reconduzido para a cidade de Duartina, bem como o produto do roubo.

Aí está, em resumo, o acontecimento.

Um fato curioso, sem dúvida. O homem roubou uma imagem, que se encontrava enfeitando um túmulo, num cemitério. Para que, teria o indivíduo procedido essa espécie de roubo? Respondemos: desonestidade. Desonestidade comercial. A quase comum desonestidade, que impera em muitos setores do comércio de nossos dias. O homem, marmorista, entendeu de aumentar seus lucros, roubando imagens de túmulos em cemitérios de outras cidades, para vendê-las a outras pessoas, novos fregueses. Ganância do vil metal, em despeito do próximo, o ponto principal da questão. Desrespeito à memória de um morto, à saudade da família dêste, aos seus futuros clientes comerciais, à sociedade, enfim.

Um roubo dessa espécie, raro, “sui generis”, deve ser passível de uma pena também rara, também “sui generis”.

Extraído do Correio de Marília de 01 de setembro de 1956