domingo, 28 de junho de 2009

A Segunda Vara Judicial (28 de junho de 1957)

Não sabemos porque cargas d’gua, tudo que tem o cunho oficial é tão dificil de ser consignado à Marília, mesmo em se tratando de assunto urgente e de necessidade indiscutivel.

Todos conhecem, por exemplo, a verdadeira odisséia vivida pelos marilienses, com referência ao decantado curso oficial de ensino superior, hoje, graças a Deus, quase traduzido em realidade.

Enquanto em alguns centros, pretensões justas são atendidas num abrir e fechar de olhos, aqui as coisas são diferentes. Parece que jamais se levam em conta as fabulosas verbas que o município carreia anualmente para os cófres do Estado e da União; igualmente, parece que não se dá ao povo mariliense, êsse mesmo povo que foi capaz de construir em menos de trinta anos, ésta vertigem de progresso que se chama Marília, a devida guarida, o necessário éco aos seus clamores reivindicatórios. Fato digno de nota, é que Marília jamais aspirou aquilo que não estivesse em condições de continuar, aquilo que não condizesse com suas necessidades, que não se casasse com seu dinamismo e progresso, com o bem estar e as carências do próprio povo. Como cidade-chave da Alta Paulista, uma das mais ricas e exuberantes zonas do Estado, Marília deveria merecer maiores e melhores atenções das autoridades constituidas, nas duas esferas – federal e estadual.

Volta-se agora a adicionar mais algumas achas de lenha, no fogo reivindicatório da criação da Segunda Vara Judicial para Marília. Fogo êsse que foi aceso ha tempo e cuja necessidade ninguem poderá discutir ou contradizer. A luta é velha e dela tem conhecimento o Tribunal de Justiça do Estado e o próprio Governador. Por todos os meios, Marília já corroborou com dados e números, éssa necessidade. Parece que existem interesses terceiros na abst(r)ação déssa urgência inegável.

Em nossa edição de ontem, o vereador pedecista Dr. Geraldino Furtado de Medeiros, num brilhante artigo, elaborado por quem conhece integralmente o assunto, abordou a questão. Demonstrou, inclusive, a verdadeira disparidade e descaso que a respeito se verifica, provando, com dados estatísticos, relacionados com a população municipal de diversas cidades, a desigualdade flagrante com que as autoridades competentes olham para Marília nêsse setôr.

Para reforço do que estamos afirmando, transcrevemos a seguir, os municípios paulistas e suas populações, onde existem duas ou mais Varas Judiciarias, conforme compilação divulgada pelo citado edil. Ei(-)los:

Santos, com 203.000 habitantes com 8 varas;

Campinas, 152.000 habitantes com 5 varas;

MARILIA, 117.000 habitantes com 1 vara;

Ribeirão Preto, 92.000 habitantes com 4 varas;

S. J. do R. Preto, 65.000 habitantes com 3 varas;

P. Prudente, 60.000 habitantes com 2 varas; e

Botucatú, 41.000 habitantes com 2 varas.

No plenário da Câmara Municipal, por inúmeras vezes, o assunto foi abordado e discutido, em especial pelos vereadores-advogados, conhecedores do “metier” forense e das necessidades do assunto. Foi inclusive revelado, que um único Juiz de Direito, acumulando os mais variados setores jurídicos da grande Comarca, têm necessidade de desdobrar-se em atividades extraordinárias, apegando-se abnegadamente ao trabalho e mesmo a(s)sim o andamento dos processos não chega a corresponder, no referente ao espaço-tempo que seria de esperar-se. Acrescente-se, por outro lado, o despreendimento e operosidade do Juiz de Direito, que não fica cingido apenas no horário funcional, estendendo suas atividades muitas vezes, durante 10 ou mais horas seguidas.

“O pior cego é aquele que não quer ver”, diz um antigo brocardo. No caso, póde o adágio aplicar-se perfeitamente àqueles que são responsáveis, e, que de ha muito, fazem ouvidos moucos aos brados à respeito.

Extraído do Correio de Marília de 28 de junho de 1957

sábado, 27 de junho de 2009

Nóbre missão (27 de junho de 1957)

Procura nosso apreciado colaborador, reverendo Álvaro Simões, reavivar uma campanha que representa um objetivo de antigas lutas dêsse mesmo educador: o aprimoramento do nível geral do ensino secundário na cidade.

No passado, através de suas brilhantes crônicas diárias, o reverendo Simões, já manifestará seu pensamento, expondo com propriedade e conhecimento de causa, alguns dos muitos motivos que estão contribuindo para o baixo gráu de aproveitamento dos estudos secundários. E externava, na oportunidade, idéias de congraçamento entre as autoridades educacionais, no sentido de que fossem tomadas as providências mais viáveis e plausíveis, para atingir-se o objetivo colimado.

A missão é sobretudo nobre. Tanto assim, que a repercussão já principiou a manifestar-se, através de gente interessada, que está disposta a colaborar com a campanha óra preconizado pelo mencionado educador. Cogita o mesmo, estabelecer uma assembléia entre mestres, alunos e pais de alunos, dentro em breve, em cuja ocasião sejam ouvidos pareceres e pontos de vista acerca da questão.

Pelo contacto que tivemos com diversas pessoas ligadas diretamente ao assunto, pudemos perceber que o brado lançado pelo reverendo Simões, encontrou guarida e éco por parte de muita gente. Isto significa que é palpável o fundamento e as razões do movimento óra em curso.

Efetivamente, tal campanha é de toda necessária e patriótica. A luta pela educação e mobilissima; igualmente, a contenda pela melhoria e aprimoramento do ensino, mormente hoje, quando existem tantas desigualdades de métodos, tantas facilidades de métodos, tantas facilidades uma vezes, e, tantas oportunidades para a indesejável “cóla”.

Embora não sejamos autoridades no assunto, estamos convictos de que atualmente o nível do ensino secundário, regra geral, apresenta um rosário de deficiências discentes, caracterizadas na realidade, pelo baixo nível de conhecimentos apresentado por muitos concluentes de cursos secundários. Que existam, como é lógico, alunos de maior e menor facilidade de armazenamento de conhecimentos, é perfeitamente natural; mas que exista, via de regra, um pequeno número que se destaca, chegando a ser considerado como “fenômeno” ante os demais, é um êrro. Êsse pequeno número, a nosso ver, nada tem de extraordinário; apenas soube melhor aproveitar os ensinamentos ministrados, o que não chegou a acontecer com a maioria referida anteriormente, que muita gente considera como “normal”. Ninguém poderá contestar isso. A menos que estejamos equivocados, parece-nos que quinze em vinte anos passados, a pessoa que concluía o ginásio (coisa difícil na época), era considerada erroneamente como “bacharél”. Em realidade, êsses “bacharéis” apresentavam um índice muito mais acentuado de capacidade do que os concluentes do mesmo curso em nossos dias. Até os cursos de professor normalista ou contador (no passado, guarda-livros), quer nos parecer que eram mais aperfeiçoados, mais eficientes, embora de menor duração. Não temos meios técnicos, para confirmar ou comprovar tal assertiva; apenas destacamo-la como fruto de observação, devida ao contacto diário que mantemos com contadores, professores normalistas e finalistas de cursos ginasiais.

Por certo, o movimento óra encetado pelo reverendo Álvaro Simões, eterno preocupado com o problema do bom ensino, irá arregimentar maior número de legionários, e, poderá mesmo servir, conforme escreveu o reverendo ôntem, como o marco inicial de um movimento que poderá arraigar-se por todo o país.

O reverendo Simões está empunhando uma gloriosa bandeira, que deverá, sem dúvida, ser seguida por muitos marilienses. Oxalá isto venha a acontecer de fato, para a melhoria e o aprimoramento do nível geral do ensino secundário entre nós.

Extraído do Correio de Marília de 27 de junho de 1957

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O herdeiro de Lollobrígida (26 de junho de 1957)

Na segunda quinzena do próximo mês, deverá ocorrer a chegada da “cegonha” ao lar do casal Milko Stofic-Gina Lollobrígida. Jornais de diversas partes do globo, ao terem ciência da “novidade”, mandaram à Ischia, em Roma, seus mais sagazes reporteres, para entrevistarem a famosa “estrela” e reportar o acontecimento.

Parece o fim do mundo, o fato de que a famosa “Lollô” vai ser mãe. Pelo jeito, dá até a impressão de que será a primeira vez na história, que u’a mulher vai dar à luz. De todos os quadrantes do mundo, chegam diariamente à bela mansão da fenomenal artista, os mais ricos e variados presentes, destinados à fatura mãe e ao rebento riquíssimo, mesmo antes de abrir os olhos para o mundo.

Casualmente, liamos ontem, num dos jornais da Capital, num longo radiograma procedente de Ischia, uma reportagem acerca do “mundão” de riquíssimos mimos com que o futuro herdeiro de Milko e Gina está sendo brindado. Dentro da exagerada relação de presentes consta o de um industrial paulistano, que enviou à gestante um berço de alto valor comercial, todo de marfim, com rendas venezianas importadas, classificado como o melhor e o mais caro de todos os berços remetidos ao futuro filho de “Lollô”. O presente foi remetido por via aérea, acompanhado de um bilhete assim redigido: “À mais bela mulher do mundo, o mais modesto dos berços”.

Modesto, em realidade, foi êsse industrial, conforme destaca o conteúdo do despacho radiotelegráfico, uma vez que se trata de peça de alto valôr.

Ao lermos o fato, ficamos pensando em como se exagera sem necessidade entre nós. Não que o casal ou o futuro pimpolho não mereçam “honras de estilo”; mas pensando sobre o assunto, procuramos interpretar se êsse mesmo industrial, ao envés de dispender o valor dêsse utilíssimo objeto, para o futuro herdeiro de Milko Stofic, daria tambem uns outros tantos berços para tantas e tantas criancinhas pobres e necessitadas entre nós.

Quando nasceu o herdeiro da Rainha Elizabeth, aconteceu o mesmo; quem menos precisa, mais recebe. Entre nós, o nascimento de um rebento, quando muito faz com (que) os parentes e amigos levam ao recém-nascido uma latinha de talco, um estojo “Johnson” ou um objeto de lã.

Gostaríamos, efetivamente, de saber se êsse presenteador patrício, teria voltado alguma vez entre nós, as suas vistas para a infância desamparada, se teria levado até a clínica infantil do Hospital do Câncer, às creches e associações assistenciais, presentes de tamanho vulto material. Com todo o respeito que nos merece o fato, bem como o reconhecimento da alegria que tal acontecimento significará para os futuros pais déssa criança, que estando para vir ao mundo já é alvo de tanta propaganda e estima universais, desaprovamos o envio de tão vultuoso mimo, uma vez que entre nós, muito temos que fazer no campo assistencial, principalmente no setor infantil.

Poderá alguem responder-nos que o dinheiro é do homem, o gosto é dele tambem e nada temos com isso. De fato, nada temos com o fato. Acontecimento dêsse jaez, não são da conta de ninguem e sim da própria consciência!

Extraído do Correio de Marília de 26 de junho de 1957

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Uma crônica tipo J.J. (25 de junho de 1957)

Aqui está uma crônica tipo João Jorge, isto é, mais de um assunto comentado num só escrito. Para início de nossa conversa, abordaremos a decisão do Governador Jânio Quadros, em proceder estudos para a cessão por arrendamento, a pequenos lavradores, da ex-Fazenda Revoredo.

O Secretário da Agricultura, de conformidade com o clássico “bilhetinho” do Governador, tem 60 dias de prazo para apresentar o relatório dêsses estudos. Ora, depois de sessenta dias a contar da data, o que é que estará em tempo de plantar?

E tem mais outra: consequência da decisão do Sr. Governador não será bem o resultado da invasão indevida das terras; pelo contrário, significa a apreciação de uma solicitação legal, traduzida num grande abaixo assinado de representação, que foi encabeçado pelo Presidente da edilidade local e assinado por dezenas de outras pessoas.

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Já que estamos falando em Governador, ficamos há dias “matutando” muito sôbre a propalada visita do sr. Jânio Quadros à Inglaterra. Pelo noticiário inicial da imprensa, soubemos que a Rainha Elizabeth convidara oficialmente o Governador de São Paulo, a visitar aquêle país. Agora, a mesma imprensa nos dá conta de que o Consulado Inglês em São Paulo, acaba de dirigir um ofício ao sr. Jânio Quadros, comunicando ao Chefe do Executivo bandeirante, que “já que o mesmo pretende visitar a Inglaterra, a “Queen” Elizabeth concederá ao mesmo, hospedagem oficial de oito dias”!

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Adhemar de Barros está “brigando” com o pessoal das “Folhas”. O motivo é o seguinte: Roubaram (ou melhor, tiraram na “marra”), de um fotógrafo da citada empresa jornalística, um filme fotográfico, em cuja película existiam flagrantes do Prefeito da paulicéia, dormindo dentro da Catedral de São Paulo, por ocasião da última Páscoa dos Militares!

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Em benefício do Lar da Criança, essa instituição assistencial que abriga algumas dezenas de meninas órfãs ou desamparadas, os artistas da Rádio Dirceu de Marília realizaram ontem à noite, no palco-auditório da mencionada emissora, uma interessante festa junina. A festa esteve bastante animada, da qual participaram todos os elementos do “cast” artístico da cidade rádio-difusora, não tendo faltado o apoio público ao altruístico ato.

Extraído do Correio de Marília de 25 de junho de 1957

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Ainda o candidato de Marília (22 de junho de 1957)

Leitores indiscutivelmente bem intencionados, verdadeiros amigos de Marília, escrevem-nos solicitando a continuidade de escritos acerca das próximas eleições estaduais, quando nossa cidade deverá, sem desculpas ou delongas, eleger seu representante próprio.

Realmente, é ainda um pouco cedo para o avivamento dêsse brado de alerta, infelizmente necessário a muita gente de nossa terra. É preciso que o povo vá se apercebendo dos êrros do pretérito, para que possa corrigí-los em tempo, a fim de que Marília não continue a sua condição de “órfã” nos parlamentos. Verdade seja dita, temos contado vez por outra, com apoios de parlamentares ilustres, que têm procurado voltar suas vistas para Marília e seu povo. Mas tais fatos não têm deixado de ser favores, inegavelmente.

Pessoalmente, várias pessoas nos fazem o mesmo apêlo, para prosseguimento dessa lembrança, a fim de que fique a necessidade perfeitamente incutida no espírito e no patriotismo de todos os eleitores da cidade.

Como já dissemos anteriormente, o número de eleitores inscritos em nosso município e a porcentagem dos que compareceram às urnas nos últimos pleitos, autorizando-nos a acreditar em meios e forças para que Marília “faça” no mínimo um deputado estadual e um federal. A dispersão de votos entre nós, distribuida para diversos candidatos de fora, alguns que jamais souberam existir nossa cidade e desta só lembraram em épocas das campanhas eleitorais, é a prova disso.

Se contássemos com um lídimo advogado mariliense no Palácio 9 de Julho ou no Palácio Tiradentes, não estaríamos à mercê de uma série de exigências progressistas para nós próprios, muitas das vezes de direito. Assisti-nos-ia, nessas condições, a faculdade de exigir tais trabalhos em pról do povo mariliense, ao invés de estendermos o chapéu para solicitar favores.

Continuamos ainda com nosso ponto de vista, de que a eleição de no mínimo um deputado estadual é a obrigação geral dos marilienses. Dispomos de meios irrefutáveis para tal. Contamos, por outro lado, com gente capaz de bem representar-nos em qualquer parlamento nacional. O que até aqui tem sido verificado, tem sido a incompreensão geral e um certo indiferentismo pelas coisas da cidade.

Não pararemos; se nosso deputado não for eleito, a culpa não será nossa.

Extraído do Correio de Marília de 22 de junho de 1957

sábado, 20 de junho de 2009

Marília e o gosto artístico (20 de junho de 1957)

De há muito, notamos em nossa cidade, pouca preocupação ou pouco gosto pelas artes lírico-musicais; pouco apoio, pouca simpatia, especialmente pela chamada “música fina”. Confessamos que em matéria musical, por exemplo, não somos apenas leigos; somos completamente cegos. Acontece, que, em decorrência de nossas obrigações de órgão informativo, temos comparecido aos poucos concertos de importância que aqui têm sido realizados.

A julgar pelos valores que vez por outra se exibem em nossa cidade, e, por outro lado, considerando o número relativamente pequeno do público que habitualmente frequenta audições desse jaez, ficamos convencidos do que acima afirmamos.

Não queremos dizer com isto, que um artista de renome ao apresentar-se ao público mariliense, o faça sòmente “às paredes”; sempre existe um pequeno número de apreciadores do gênero, número êsse que ao contrário de bem representar o gosto artístico dos marilienses, traduz sem dúvida, a indiferença da maioria.

A música fina, executada por autoridades na questão, ouvida com paciência e silêncio, faz bem ao espírito, tornando-se um lenitivo, tornando-se um lenitivo mental. A maioria dos marilienses ignora o fato.

Essa nossa observação data de há muitos anos. Muita gente deve ter percebido êsse fenômeno, com tôda a certeza, inclusive o Tenis Clube, a União dos Treze e a Luso-Brasileira. Confessava-nos certa ocasião, uma consagrada pianista, que tôdas vezes que se exibia em Marília, ficava decepcionada com a pequena assistência. E ia mais além, dizendo que outros artistas, tiveram de nossa cidade, ao aqui apresentarem-se, a mesma opinião.

A música popular e a música sertaneja estão invadindo a cidade e cantores dêsse gênero, entre nós fazem excelentes negócios, auferindo bons lucros. Acontece que nem todos os representantes da boa música sertaneja aqui se apresentam; até verdadeiros “vigaristas” ludibriam o gosto dos marilienses.

Terça-feira à noite as senhoritas Maria Tomoko Nishi e Lúcia Tetsuko Nishi, alunas do sétimo ano do curso de piano (classe do prof. Mário de Souza), do Conservatório Musical “Santa Cecília”, apresentaram um magnífico recital no palco-auditório da Rádio Dirceu. Foi uma audição de músicas selecionadas, dos mais famosos autores internacionais, executada com maestria e agrado ímpares. O aludido estabelecimento artístico distribuira com antecipação, mais de 250 convites-familiares, inclusive a tôdas as autoridades do município, tendo comparecido apenas um suplente de vereador e mais umas vinte pessoas.

O recital foi indiscutivelmente completo e agradabilíssimo, pois as moças souberam desincumbir-se a inteiro contento da apresentação, que agradou em cheio. A assistência local, propriamente dita, foi algo decepcionante, em comparação à beleza do concerto, esplendidamente selecionado e maravilhosamente executado.

O prof. Mário de Souza referia-se ao fato, algo aborrecido com a indiferença pública, para manifestar o mesmo ponto de vista por nós ora externado. E êle tem razões. Se em lugar de um recital de músicas finas, o Conservatório referido (ou outra entidade qualquer) patrocinasse uma audição sertaneja, não haveria necessidade de convites especiais; poderiam ser cobrados os ingressos e a lotação excederia à expectativa... Quer duvidar, dirija-se aos auditórios das três emissôras locais, por ocasião das apresentações dos programas caipiras...

Extraído do Correio de Marília de 20 de junho de 1957

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A imoral “lei cadillac” (19 de junho de 1957)

Enquanto o Govêrno raciona ou nega divisas oficiais, para a importação de hidrômetros, vacinas “Salk”, tratores, implementos para a lavoura e muitos outros objetos úteis e necessários ao progresso do Brasil e à vida do próprio povo brasileiro, principiam a surgir os efeitos degradantes da imoral e vergonhosa “lei cadillac”.

Um punhado de salafrários, que, mercê da ingenuidade e da boa fé do nosso povo, ostenta hoje o privilégio de polpudos vencimentos, imunidades parlamentares, “chapas brancas” e campos de vasão à negociatas escandalosas e antipatrióticas, advogou em causa própria, em detrimento da economia nacional, êsse imoral diploma.

Pelo navio “Mor Macyork”, chegaram quarta-feira última, ao Rio de Janeiro, catorze carros de luxo, importados ao câmbio oficial, destinados aos deputados “beneficiados” pela desavergonhada lei. Imediatamente acorreram ao cáis do porto, lampeiros e desbriados, doze proprietários dessa leva de automóveis, importados com o suor do próprio povo, em prejuizo da economia nacional, oferecendo meios e margens de que os deputados federais possam comerciar com os interêsses financeiros da própria Pátria, vendendo automóveis, com um lucro de mais de 900 mil cruzeiros. São êstes, leitores, os primeiros doze maus brasileiros, que trataram de retirar seus veículos, veículos êsses que deverão deixar, pelo asfalto das ruas cariocas, a marca da pouca vergonha e de afronta inominável ao povo brasileiro: Seixas Dória, Ítrio Correia da Costa, Ostojo Roguki, Athaide Bastos, Adail Barreto, Ivan Bichara e Plínio Lemos, todos da oposição; Vasconcelos Costa, Ulisses Lins, Unirio Machado, Luiz Carlos Dourinho e Benjamin Mourão, da chamada “maioria”.

Os gritos de angústia, os protestos, os apêlos do próprio povo, para que o projeto referido não fosse convertido em lei, não encontrou guarida no sentimento pátrio de muitos deputados. Os interêsses dessas pessoas, são idênticos a fome do leão da fábula: para si a maior parte.

Cada carro de luxo, último tipo, chega ao Rio, na importância total de 30 mil dólares, ou seja, aproximadamente 210 mil cruzeiros. O valor comerciável de carros dêss(e) tipo, no Rio, é de 1 milhão e 200 mil cruzeiros; a diferença é de cerca de um milhão de cruzeiros, que representará, indiscutivelmente, o “lucro” de cada venda, que os maus representantes do povo embolsarão, à custa e sacrifício do próprio povo e contrariando frontalmente os interêsses econômicos do país.

Não estamos sendo lúgubres ou exagerados nesse conceito, que para ninguém deve ser segredo. Jornais cariocas já publicaram entrevistas, de muitos dêsses deputados e seus planos de venda dos veículos importados!

O próprio povo que anote devidamente os nomes dessa gente, dêsses maus brasileiros, dando-lhes, no futuro, especialmente nas épocas eleitorais, o pagamento merecido.

Extraído do Correio de Marília de 19 de junho de 1957

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Marília e a Faculdade (18 de junho de 1957)

Vencida, mercê de Deus, dos trabalhos dos marilienses e da classe estudantil, ao lado dos esforços do deputado Maurício dos Santos e da sinceridade de propósitos do sr. Governador, mais uma etapa da luta de todos nós, acerca da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília.

Foi intenso e perfeitamente justificado, o ânimo de júbilo incontido, que na noite de anteontem, dominou todos os marilienses, principalmente aquêles que vinham acompanhando com carinho e interêsse, a contenda local, pró instalação dêsse curso oficial de ensino superior, recentemente criado em nossa cidade.

Foi uma grande vitória, sem sombra de dúvida. Contaminou-nos o acontecimento, porque sempre procuramos nos ombrear à essa luta bem mariliense, legitima aspiração de tôda gente de nossa terra e da própria Alta Paulista, diretamente beneficiada.

Os poderes constituidos da cidade, emprestaram a melhor boa vontade à bandeira desfraldada pela classe estudantil. O sr. Prefeito Municipal, pessoalmente, dispendeu esforços orientadores, no sentido de que a delegação de Marília fosse bem recebida e plenasse o fim da viagem à São Paulo. Por outro lado, quase todos vereadores, emprestaram também o seu quinhão, através dos meios a seus alcances.

Aqui deixamos, publicamente, nosso contentamento, justamente com as congratulações aos estudantes marilienses, pela conquista dessa magnífica vitória, que é indiscutivemente, a vitória de nossa gente de amanhã, constituindo-se no orgulho de nossos filhos.

Simultaneamente, nossos aplausos ao insigne Governador do Estado, pela maneira democrática, fraternal e carinhosa, com que se dignou receber nossos moços (representantes intransigentes do desejo de haurir as luzes da ciência), dispensando-lhes cordial recepção e ordenando a fixação de verba de cinco milhões de cruzeiros, no orçamento do próximo ano, para a instalação da Faculdade de Filosofia de Marília.

Dizem os nossos avós, que são mais saborosos os quitutes difíceis de preparar e mais apreciáveis seus paladares. O mesmo diremos nós, agora, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Representa tal conquista, o fruto de lutas titânicas, iniciadas há mais de uma dezena de anos, onde participaram soldados de tôdas as condições, irmanados no mesmo ideal, nos mesmos propósitos, objetivando o mesmo desiderato; dar aos marilienses da nova geração e às gerações futuras, a oportunidade de estudar sem o sacrifício de correr para outros centros ou para as capitais.

A vitória é do próprio povo mariliense, porque Marília é uma só e única família, que trabalha e constrói, nesta fábrica de progresso que abismou o mundo, tendo sua grandeza sido citada com abundância de pormenores pelo jornal “Times” de Londres.

Numa entrevista ontem, concedida à Rádio Dirceu, o estudante Décio Villela declarou à certa altura: “os estudantes marilienses ainda não despiram o uniforme de campanha; a luta continuará, para que a Faculdade de Filosofia, ora conquistada, seja o marco inicial de futuras lutas, para que Marília tenha no futuro, a sua própria universidade”. Traduz, sem dúvida, tal afirmativa, o pensamento de todos aquêles que são bons marilienses, que pulsam por estas plagas e que dedicam amor verdadeiro à nossa querida cidade.

Também, há dias, quando aqui esteve o sr. Secretário da Saúde, o ilustre professor Carlos Gama, s. s. declarou , em certos trechos de seu discurso por ocasião da inauguração do Curso Auxiliar de Enfermagem, que “oxalá êste acontecimento seja o início da criação de uma Faculdade de Medicina em Marília”.

O fato é, que tal acontecimento veio premiar dois lustros de lutas bem intencionados dos marilienses. A vitória acenou-nos com seus louros, após tanto desprendimento, tanto trabalho, tanta disposição e insistência. Que nos sirva a conquista para a continuidade de novas batalhas, sempre dignas e honradas como essa, sempre patrióticas e bem marilienses como fora nas contendas encetadas pela Faculdade de Filosofia.

Extraído do Correio de Marília de 18 de junho de 1957

domingo, 14 de junho de 2009

Ainda o prédio do IAPB (14 de junho de 1957)

Abordamos, não ha muito, nesta coluna, assunto referente à projetada construção de um grande “arranha céu” pelo IAPB em Marília, destinado a residências de bancários locais.

Para tal existe terreno próprio, em ponto magnífico, ou seja, na Rua 9 de Julho, quase na esquina da Av. Santo Antonio.

Numa das últimas sessões da edilidade mariliense, o vereador Fernando Mauro propôs, em requerimento aprovado por unanimidade, que se oficiasse a direção do Instituto de Aposentadoria e Pensões Bancarias, no sentido de apressar-se a construção déssa óbra, que, ao par do beneficiar a numerosa classe, aliviando a muitos do angustiante problema da moradia, viria, por outro lado, trazer para Marília mais um impulso no seu já vertiginoso e incontido progresso.

O IAPB respondeu ao mencionado edil pedecista, que o departamento especializado do Instituto estava ultimamente certas providências pertinentes a planta do edifício e que tão logo tal acontecesse, seria iniciada a aludida construção.

Não duvidamos da sinceridade de propósitos do sr. Enos Sadock de Sá Mota, presidente do IAPB, do sr. José Barbosa, diretor da carteira de inversões da citada autarquia; pelo contrário, confiamos em que Ss. Ss. cumpram o mais urgente o prometido. No entanto, interessados que somos na realização desse empreendimento, não diretamente, mas como bons marilienses, voltamos a fazer ao IAPB, na pessoa do sr. Sá Mota, o apêlo esperançoso para que a medida seja efetivada o mais breve possível.

A propósito, recordamos que tal iniciativa já teve começo na bela cidade de Franca, tendo, sábado último, com a presença dos srs. referidos, prefeito francano e diversas outras autoridades daquele centro, sido lançada a pedra fundamental do edifício dos bancários naquela cidade.

O áto, segundo noticia o “Comércio da Franca”, revestiu-se de entusiasmos ímpar, traduzindo o desejo do povo e bancários francanos. O início das óbras referidas está marcado para breve.

Nós, aquí, enquanto isso, ficamos no aguardo das informações prestadas ao vereador Fernando Mauro, pela carteira de inversões do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários. Se o sr. Enos Sadock de Sá Mota olvidar a promessa, estaremos em condições e interessados em relembrar o fato.

Extraído do Correio de Marília de 14 de junho de 1957

Parlamentarismo e pugilismo (13 de junho de 1957)

Não poucas vezes, têm registrado a imprensa, átos reprováveis por parte dos parlamentares brasileiros, especialmente no que diz respeito à verdadeiras cenas de pugilismo em plenários.

Agora, vem a situação de repetir-se, através de um engalfinhamento e tróca de sopapos, entre os deputados Araripe Serpa e Dante Perri. E a briga, désta vez, aconteceu em plenário, quando os dois parlamentares se desavieram, passando para o terreno do deforço pessoal, na ocasião em que um outro deputado ocupava a tribuna!

O Sr. Araripe Serpa, por sinal o mais jovem deputado do Brasil, é, ou melhor, éra, o líder da Frente Parlamentar Situacionista no Palácio 9 de Julho. O Sr. Dante Perri, do Partido Repúblicano, sentiu-se ofendeido por determinas críticas assacadas pelo representante da situação, acerca de irregularidades que existiriam no Departamento de Estradas de Rodagem. Como ex-engenheiro daquela autarquia, o Sr. Perri revidou às afirmativas do sr. Serpa. Do revide ao acaloramento da discussão e ao bofetão, tudo foi rápido. O deputado situacionista apanhou primeiro e não teve ensejo de tirar a fórra, porque entrou a turma do “deixa disso”.

A briga em sí e nem tampouco seus motivos, não nos interessa. O que interessa no caso, são as verdadeiras vergonheiras que somos obrigados a presenciar, por parte daqueles que mereceram o conceito e a confiança públicas, para representar o próprio povo.

Cenas de pugilato, hoje em dia, são infelizmente, partes integrantes do parlamento nacional. Não foi a primeira vez e não será por certo a última, que tal acontece. Palavrões e até armas de fogo, volta e meia quebram aquilo que deveria ser a importância e o respeito de certas câmaras.

Enquanto isso, o descrédito público, ao invés de crescer, arrefece cada dia mais. Hoje, não se póde culpar o povo por não dispensar aos parlamentares, aquele respeito que seria primordial, aquela consideração que seria a primeira condição de crédito aos que desfrutam de mandatos eletivos. Quem causa tal estado de coisas? Claro que são os próprios deputados, senadores e vereadores. Existem, é lógico, exceções honrosas. Mas a maioria encobre átos daqueles que comungam a sensatês e gestos comedidos, com verdadeiras palhaçadas, pancadarias e cenas de pugilato.

É realmente desagradável, o registro de tais ocorrências. Mas é pena, tambem, que os deputados briguentos, não disponham de meios e elementos para sondar a opinião pública, conhecendo o que a respeito pensam desses átos e dessas pessoas, aquilo que eles próprios chamam de “massas”...

Extraído do Correio de Marília de 13 de junho de 1957

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Cinemas para Marília (8 de junho de 1957)

Soubemos existir interesse e um movimento algo vivo, por parte de um grupo de capitalistas locais, para construir-se em Marília um novo cinema, amplo, moderno e confortável, que nada fique a dever as melhores casas do gênero existentes nas Capitais e grandes centros.

Realmente, a notícia é bastante alviçareira para todos. A cidade está exigindo já, pelo seu desenvolvimento e pelo modernismo de seus dias, maiores ampliações nesse setor de diversões públicas. Os dois únicos cinemas que temos em Marília, indiscutivelmente, não são suficientes para atender as exigências do público local. Vimos isso ha pouco, por ocasião do I Festival de Cinemascope, levado a efeito no Cine S. Luiz. Vimos gente permanecer em filas durante uma ou mais horas e vimos muitas pessoas que não conseguiram presenciar as películas de predileção.

Além déssa idéia, que dizem ser viável e para breve, cumpre registrar tambem que o Sr. Emílio Pedutti, proprietário da Empresa Teatral Pedutti, prometeu construir novo cinema na vila São Miguel, um dos mais populosos bairros da cidade. A lembrança do cumprimento déssa promessa feita pelo vice-presidente da Associação Paulista de Municípios, partiu oficialmente da Câmara Municipal, através de requerimentos aprovados pela edilidade e subscritos pelos vereadores Sebastião Mônaco e Antonio Marissael de Campos.

Se efetivadas as duas iniciativas, teremos logo o número de quatro cinemas em Marília, número de quatro cinemas em Marília, número esse que se não for suficiente, pelo menos não será exagerado, conforme póssa parecer de chofre ao leitor menos avisado. Baurú conta com cinco casas de diversão de tal gênero e dizem algumas pessoas que “ainda ha lugar” para mais um.

Oxalá a notícia póssa tornar-se realidade, para gaudio dos cinemeiros habituais e para representar mais uma pedra no edifício de nosso vertiginoso progresso.

O grande cinema, por certo, demandará ainda inúmeros estudos, apesar de ter-se já uma idéia do provável local onde poderá o mesmo ser construido. Por outro lado, o cine “São Miguel”, que deverá ser construido pela Empresa Pedutti no bairro desse nome, exige, já, menores providencias e ausencia de entendimentos entre várias pessoas. Apenas o Sr. Pedutti e o proprietário do terrreno ou prédio.

Esperamos, pois, que o assunto óra focalizado venha a tornar-se realidade em breve. Enquanto isso, fiquemos por aquí “torcendo”.

Extraído do Correio de Marília de 8 de junho de 1957

domingo, 7 de junho de 2009

General Craveiro Lopes (7 de junho de 1957)

O general Francisco Higino Craveiro Lopes, Presidente de Portugal, encontra-se presentemente entre nós. O Chefe de Estado Português está sendo alvo de merecidíssimas homenagens, que o povo brasileiro está tributando, com justiça, ao grande estadista luso.

Solenidades especiais foram programadas, no sentido de cercar o ilustre visitante do mais fraternal carinho e conforto. É para nós, brasileiro, honra grandiosa, hospedar tão insigne visitante, externando-lhe os mais puros sentimentos de nossa simpatia, admiração e respeito, ao lado da gratidão reconhecida pelo espírito secular de fraternidade e amor que identifica os dois povos.

Não ha muito, quando éra Presidente da República o Sr. Café Filho, visitando o país amigo e irmão, mereceu o Brasil as mais efusivas demonstrações de apreço e amizade do povo lusitano. O mesmo sentimento foi tributado ao Sr. Juscelino Kubtschek, quando êste visitou Portugal, como Presidente eleito de nossa Pátria.

Brasil é Portugal e Portugal é Brasil. Se aquí os portugueses são considerados verdadeiros nacionais, lá os brasileiros são tidos como autênticos portugueses.

O próprio Governador Jânio Quadros, que, segundo consta, está doente e deveria afastar-se temporariamente do leme do Estado, só o fará após recepcionar condignamente o ilustre visitante amigo.

Déssa honrosa visita, tiramos um proveito extraordinário: Está irretorquivelmente manifesta, a real política que tanto bem faz aos povos – a política da fraternidade e do respeito mútuo, do amor recíproco e da consideração comum.

Esse sentimento que sempre existiu entre brasileiros e portugueses, onde não se imiscui nenhuma eiva de maldade ou interesses mesquinhos, nenhum resquício de inveja ou domínio, nenhuma demonstração de supremacia egoísta de não sobre nação, deveria servir de espelho a outros povos. Essa é realmente a política que poderá salvar o mundo e identificar gentes, dentro do respeito, do amor e da consideração ideal, ditados pelo senso comum.

Essa é, em verdade, a política que está fazendo falta no mundo de hoje, para garantir aos povos dias tranquilos de amanhã.

Nessa oportunidade, em que os brasileiros rendeem as mais sinceras homenagens ao grande estadista português, conferindo-lhe os mais honrosos títulos de “persona grata”, cercando-o do mais irrestrito calor fraternal, desejamos nós, tambem, através désta coluna, congratulamo-nos com os portugueses de todo o Brasil, especialmente aqueles que são verdadeiramente marilienses por adoção, pelo motivo grande e honroso para nós, em hospedarmos o Presidente de Portugal, general Francisco Higino Craveiro Lopes um verdadeiro e inegável amigo do Brasil e dos brasileiros.

Extraído do Correio de Marília de 7 de junho de 1957

sábado, 6 de junho de 2009

Leitores e sua opinião (6 de junho de 1957)

Não raro, recebemos cartas de nossos leitores, apreciando ou depreciando nossos modestos escritos, sugerindo idéias ou interpelando-nos sobre determinadas questões. Nem todas as cartas pódem mesmo ser levadas em consideração; umas, porque não trazem assinatura, outras porque “metem o paú” em certas autoridades municipais, instigando-nos a patrocinar campanhas nem sempre dignas e representativas da maioria das opiniões.

Mesmo assim, damo-nos ao cuidado de conhecer os motivos originários de certos “desabafos”, que periodicamente chegam às nossas mãos. Quando procedem os clamores, a idéia não deixa de encontrar guarida em nossas intenções e preocupações de servir à cidade e seu povo e o assunto é abordado diretamente e em têrmos.

Recebemos ontem, carta de um leitor, cujo nome omitimos a pedido, chamando-nos a atenção para a verdadeira “enxurrada” de leituras do tipo “em quadrinhos”, atualmente em vóga em nossa cidade. Reclama o missivista, o tipo dessa modalidade de publicação. De fato, o Brasil de hoje vive inundado pela leitura “em quadrinhos”. As historietas são verdadeiros absurdos, sendo as fantasias de seu conteúdo alguma coisa chocante ao próprio espírito do povo, pelas aberrações e mentiras que apresentam. Por outro lado, a mentalidade infantil, não totalmente curada e pronta para receber os impactos da realidade dos fatos, deixa-se iludir pelas hipóteses incríveis contadas em tais publicações. A mente infantil empolga-se, vivendo as fantasias e os absurdos déssas historietas fabulosas.

Ha quem atribua, ser índice de delinquência infantil de nossos dias, especialmente nos Estados, a consequência diréta déssas publicações. Não vimos até hoje, nenhuma autoridade de ensino ou religiosa, recomendar tais tipos de leitura. Pelo contrário, todas as combatem.

A referida leitura, acarreta, por outro lado, conseqüências imprevisíveis; o descaso pelo gosto de leitura sadias e históricas. Talvez estejamos enganados, mas temos a impressão de que antigamente, os diversos cursos educacionais, desde o primário até o universitário, apresentavam melhor índice de aproveitamento dos alunos, colocando na sociedade gente mais capacitada. Temos visto hoje em dia, professores e contadores embasbacados ante comezinhos temas, e, apesar de ostentarem pergaminhos, apresentar um índice de cultura muitas vezes inferior ao que acontecia vinte anos passados.

É a verdadeira preguiça mental, ocasionada pelas histórias “em quadrinhos”, onde as crianças de hoje quase não leem, acompanhando o desenrolar dos fatos pelas figuras incríveis.

Sugere nosso amigo, providencias da Câmara Municipal, do MM. Juiz de Direito e de outras autoridades. Dizemos ao referido missivista que as providências nesse sentido seriam relativas, pois estas deveriam partir do Governo federal, em primeiro lugar. Sem isso, nada feito. Os interessados, caso fosse suspensa a venda em nosso município, poderiam adquirir tais revistas nos três ou nos municípios visinhos; ou mesmo diretamente na capital, pelo correio ou por intermédio de pessoas conhecidas.

Estamos com o missivista que nos escreve; infelizmente, o caso, enquanto outras providências não forem tomadas, deve ficar a critério dos pais de família e expontaneamente dos próprios professores.

Extraído do Correio de Marília de 6 de junho de 1957)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A Nova Capital Federal (5 de junho de 1957)

Péde-nos um leitor dêste jornal, opinião pessoal acerca da nova Capital Federal e da chamada Operação Brasília, alegando que ao par das referências pró mudança da administração federal para o centro do país, têm lido comentários de certo modo desairosos, alusivos ao processamento da medida.

Não estaríamos em condições de atender ao apêlo dessa pessoa, caso não se tivesse frizado o têrmo “opinião pessoal”. Aquí vai o que a respeito pensamos:

A mudança da Capital Federal para o Estado de Goiás, num ponto relativamente bem central do Brasil, é uma urgência que deveria ter sido posto em prática ha mais de um século passado. Desde seu descobrimento, o progresso do país têm sido marcado “à câmara lenta”, por motivos vários, difíceis de enumerar em poucas palavras. O Brasil, praticamente, resumiu-se em São Paulo, Rio, e, ha poucos anos, no norte do Paraná. Todos sabemos, que o restante dos quilometros quadrados de nossa Pátria, continua praticamente abandonado, distanciado da evolução natural e do dinamismo, ausente praticamente dos recursos exigidos pela atual época.

A capital do país centralizada no miolo da nação, por certo faria irradiar o bafejo do desenvolvimento à paragens até então quase totalmente desconhecidas.

Entendemos, no entanto, que o processamento a respeito está apresentando mais falhas do que aquelas que seriam normais em qualquer empreendimento de vulto. Percebemos mesmo, uma certa insensatez, no querer se construir uma nova capital, num abrir e fechar de olhos. O próprio governo cometeu erros sobre erros, em tal proceder. Brasília, é hoje, um fóco de inflação, com um progresso artificial, como se fôra um anuncio a “gaz néon”, adaptado à fachada de um prédio antiquado. Colocou-se o “luminoso”, sem ter sido procedida a caiação, às vezes comezinhas até. E, nessas condições, surge a nova Capital do Brasil: um amontoado de casas de madeira, em pleno sertão, onde a ligação a contento só póde ser feita no momento, por via aérea.

Confessamos que somos pouco estudiosos da questão. O que sabemos é aquilo que nos dá ciência a impressa ou as informações que nos prestaram os que alí já estiveram. Daí, tirarmos as conclusões que estamos esplanando.

Justificou, não ha muito, um grande jornalista carioca, que a inflação dominante em Brasília é consequência de que a produção e o trabalho não acompanham o desenvolvimento vertiginoso do progresso. Não estamos de acordo com esse módo de pensar, porque entendemos que nenhuma produção e nenhum trabalho, pódem, jamais, equiparar-se ou correlatar-se com um dinamismo artificial, de fachada.

A mudança da Capital Federal, a nosso ver, deveria ter sido processada gradativamente; com verbas próprias nos orçamentos anuais, devidamente aplicadas e não consumidas por milhares de funcionários pouco honestos. O traçado amplo, o asfaltamento, a àgua, o esgôto, o telefone, a luz e força, as estradas, etc., antes de tudo. Por outro lado, um freio aos monopólios imobiliários, nem sempre honestos e nem sempre comedidos em suas bases de lucros.

Não conhecemos Brasília, mas pretendemos faze-lo quando for possível. Talvez estejamos equivocados, mas acreditamos que teremos a pior das impressões, vendo naquilo que se chama a nova capital do país, um montão de casas de madeira, a ausência de recursos exigidos pela civilização de nossos dias, e, dentre o número de pessoas bem intencionadas, constarmos a presença de uma boa percentagem de verdadeiros aventureiros.

Esta é a nossa opinião pessoal acerca do assunto.

Extraído do Correio de Marília de 5 de junho de 1957

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A política e a instalação da Faculdade (4 de junho de 1957)

Na manhã do último domingo, no Salão Nobre da Associação Comercial, um grupo de estudantes, representando os diversos estabelecimentos de ensino da cidade, realizou uma reunião onde foram discutidos assuntos relacionados à instalação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras recentemente criada em nossa cidade.

O número estudantil, pensamos, poderia ser maior do que aquele que se verificou, embora todas as escolas alí estivessem representadas, como acima ficou dito.

Foram pormenorizados aos presentes, os motivos de como se encontram as providencias a respeito, bem como estudados os próximos passos junto aos poderes públicos, no sentido da efetivação urgente da medida, de maneiras que o mencionado curso oficial de ensino superior óra criado em Marília, póssa funcionar, como é o desejo de todos, já no próximo ano.

Os dirigentes do citado movimento, cujas intenções merecem nosso irrestrito apoio, no entanto, preocuparam-se demasiadamente com uma outra questão: a política. De início, ao serem abertos os trabalhos do conclave, o Sr. Nelson Zambom, secretário da Mesa diretora da assembléia referida, fazendo rápida alocução, deixou claro o ponto de vista dominante dos convencionais, de que “de maneira alguma seria tolerada interferência ou injunção política na questão”.

Erraram, nesse ponto, os estudantes marilienses. Sem a política, não teria sido sancionado o diploma legal que institui a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras em nossa cidade. Sem a política (é mistér que se reconheça), não consignará o município a verba de um milhão e duzentos mil cruzeiros, destinada a conclusão do prédio onde deverá funcionar a aludida escola. Sem a política, ainda, não poderá constar no orçamento estadual, para o próximo ano, a verba própria para a instalação e funcionamento da Faculdade de Filosofia.

Somos forçados a fazer um pequeno reparo néssa questão: A política, queiram ou não, não pode ser prescindida. Somente que existe dentro da real amplitude da palavra “política”, um pormenor que deve merecer as atenções dos estudantes. Eles precisam da política, porque sem ela não ultimarão a luta verdadeiramente sagrada em que óra se empenham, para o apressamento da instalação do curso referido. Os estudantes marilienses, o povo, enfim, carecem da política. Uma política de trabalhos, de realizações, de sinceridade de propósitos, de interesses pela questão. Uma política real, que póssa influir nas diversas bancadas partidárias com assento na Assembléia Estadual (principalmente), convencendo com clareza a urgência dos motivos em téla. Em resumo, uma política limpa, bem intencionada e bem praticada. Isso é inegável.

Temos a impressão, de que a preocupação a respeito que tanto apoquentou a classe estudantil, não será a política, na verdadeira acepção do têrmo, e, sim, a politicalha e a politicagem. Contra estes sistemas, nós tambem estamos com os estudantes marilienses.

Extraído do Correio de Marília de 4 de junho de 1957

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Precisamos de mais semáforos (1º de junho de 1957)

Já nos ocupamos anteriormente, da questão de mais sinaleiros luminosos para o trânsito de Marília. Centralizando a cidade um acentuado volume de veículos próprios e servindo, por outro lado, de ponto de passagem obrigatório de veículos de outras regiões que por aqui transitam, a colocação de no mínimo mais oito semáforos, de preferência automáticos, está urgindo mais do que nunca.

A respeito do assunto, recebemos manifestações de algumas pessoas, aplaudindo a idéia e convindo conosco dessa necessidade. Apesar de contarmos com uma excelente corporação da Guarda Civil de São Paulo, que tem como missão precípua a fiscalização do trânsito em nossa cidade, não podemos e não devemos prescindir dêsse melhoramento há muito reclamado pelo próprio desenvolvimento da “urbe”.

Não fôssem as atenções dos milicianos da Guarda Civil e a noção de responsabilidade de centenas de motoristas, poderíamos registrar, com mais frequência, desastres de várias espécies em plena cidade, especialmente nos cruzamentos. Se bem que o índice dêsses acontecimentos possa ser considerado relativamente pequeno em nossa cidade, pelos motivos acima apontados, temos a impressão de que com a colaboração de maior número de sinaleiros luminosos, a situação ainda melhoraria mais.

Cidades de menor movimento urbano de veículos, como Lins, Araçatura, etc., estão perfeitamente completas nesse particular.

Algumas guardas civis nos solicitaram que continuássemos a chamar a atenção do sr Prefeito e da Câmara Municipal para que a cidade fôsse dotada de mais semáforos. Instrumentos indispensáveis ao trânsito de nossos dias. Por outro lado, nos pediram também que iniciássemos uma campanha esclarecedora ao público mariliense, de como deve proceder para atravessar uma via pública dotada dêsse melhoramento. Isto, porque, nem todos se dão ao cuidado de observar a luz do semáforo, atravessando quando não deve e esperando quando poderiam passar. Êsses esclarecimentos, no entanto, só poderão ser feitos quando tiverem uma justificativa, isto é, quando Marília possuir mais de um dêsses apetrechos orientadores do trânsito.

Dias mais, dia menos, os poderes públicos terão que instalar tal melhoramento. Se tivessem os mesmo sido adquiridos quando reclamamos a necessidade anteriormente (e já faz um tempinho!), a própria Prefeitura teria economisado um bom punhado de cruzeiros, eis que tais objetos, como tudo nestes Brasís, também sobem de periodicamente. E, se deixarmos o caso mais para a frente, maiores serão os preços futuros e maior será a onerarão do dinheiro público.

Extraído do Correio de Marília de 1º de junho de 1957