segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Curso de jornalismo (29 de novembro de 1958)

Às vezes, acontece. Numa circunstância qualquer, uma pergunta qualquer, de aparência simples ou inocente, pode embaraçar um indivíduo.

Sucedeu conosco tal fato, ainda há poucos dias.

Uma pessoa nos parou na rua. Pessoa que embora conhecêssemos de vista, jamais soubemos o nome e onde trabalha, ou quem é a sua família. Enfim, um mariliense comum. Desculpando-se pela interrupção de nossa caminhada, nosso interlocutor fez questão de confessar-se ledor de nossos escritos e nos atirou, “de corpo presente”, uma carroçada de elogios. Pela abundância de adjetivos com que fomos mimoseados, quase chegamos a crer que David Nasser, Assis Chateaubriand e outros “cobras” fossem “café xicrinha” perto de nós.

Mas, como dizíamos, as perguntas às vezes embaraçam, mesmo sendo banais. Nosso amigo espontâneo, em dado momento da palestra nos perguntou: “Como você aprendeu a escrever?”

Pensando que se tratasse de brincadeira, uma vez que a pergunta nos deixara em situação um tanto esdrúxula, levamos o caso pelo lado que o interpretamos e respondemos que tínhamos aprendido a escrever no grupo escolar.

O homem não se deu por achado e esclareceu melhor seu pensamento: quís saber qual o curso de jornalismo que ostentamos e quando e onde começamos a escrever. E foi mais adiante, dizendo que nós (o autor destas linhas) deveríamos fundar em Marília um curso de jornalismo!

Percebendo que a pessoa falava sério, apressamo-nos em esclarecer-lhe que um curso de jornalismo, embora de duração inferior aos estudos universitários, equipara-se e ultrapassa em certas ocasiões os citados cursos. E que, da mesma maneira que a medicina, engenharia, advocacia, etc., nem todos os que realizam tal curso conseguem sair bons jornalistas, assim como muitos médicos, advogados, engenheiros, etc., que embora diplomados por escolas de renome, jamais deixam de apresentar a condição de profissionais medíocres ou de apagada projeção. Portanto, a questão no caso tem muita relatividade. Ademais, no Brasil, poucos cursos de jornalismo funcionam e poucas pessoas dispõem de meios, vontade e abnegação para realizá-los. A maioria dos bons jornalistas já nasceu feita, embora seus diplomas profissionais, quase geral, sejam de advogados, professores, médicos, engenheiros, etc..

Nosso interlocutor mostrou admiração quando lhe afirmamos que nós nem de vista conhecemos uma escola de jornalismo. E que a maioria dos profissionais de imprensa, especialmente no interior, assim é. No futuro, as coisas tendem a mudar um pouco, porque hoje em dia, infelizmente, estamos vendo muitos jornalistas envergonhando esta pobre, sacrificada e nem sempre bem compreendida profissão.

Nosso amigo não se deu por satisfeito e continuou a afirmar que pelo medo e variedade de assuntos que focalizamos, tendo-se em conta a facilidade de expressão que empregamos, que deveríamos instituir um curso de jornalismo em Marília, mesmo que fôsse de caráter particular, para propiciar aos que alimentam entusiasmo pela arte, o ensejo de aprenderem também um pouco dessa profissão.

Pobre coitado, como está iludido! Querer ser jornalista, para passar necessidade. Jornalista honesto, principalmente do interior, se viver exclusivamente da profissão é capaz de passar fome. Proprietário de jornal, embora reconheça e deseje, não pode remunerar bem seus auxiliares. Jornalismo é um poço de sacrifício, “uma cachaça”, como dizemos em nossa gíria. A incompreensão é muita e a integridade física de quem escreve é uma só. Escrever é quase sempre indispor-se com alguém, porque o que agrada a 50 não deixa de desagradar a 10 ou 20. Toda gente gosta de ser elogiada, todo mundo gosta de “confetis”. Ninguém aprecia ser censurado, mesmo que em têrmos, mesmo que suave ou indiretamente, que logo vem com ameaças de “pegar na esquina”, processar, etc..

Em todo o caso, se êsse amigo tem vocação para o malabarismo de servir como nós, que somos chamados de jornalistas, que vá adiante, que tente. O curso de jornalismo, mesmo particular, apesar das argumentações e insinuações de nosso amigo, não poderá ser feito, pelo menos por nós. Por vários motivos, difíceis de explicar num só escrito. Em todo o caso, para que o mesmo não venha a pensar que ao procurar-nos dispensando-nos ilimitada confiança deixamos de ampará-lo moralmente, de encaminhá-lo pela estrada direita, recomendamos-lhe que procure outra pessoa. Existem muitos jornalistas em Marília mais capacitados do que nós e como professores ou detentores de cursos universitários, talvez possam corresponder aos anseios dessa pessoa.

O dr. Geraldino Furtado de Medeiros é velho jornalista, fundador da Associação Paulista de Imprensa. Dr. Coriolano de Carvalho, reverendo Álvaro Simões, dr. Laércio Barbalho e muitos outros, talvez estejam dispostos a “pegar o pião na unha”... procure-os.

Extraído do Correio de Marília de 29 de novembro de 1958

domingo, 28 de novembro de 2010

Um problema educacional (28 de novembro de 1958)

Nosso companheiro de redação, reverendo Álvaro Simões, eterno preocupado com os problemas de ensino, tendo dado já, sobejas provas de seu acendrado amor pelas causas educacionais, abordou outro dia, na Câmara Municipal, um problema assaz interessante. Diz respeito à necessidade de extinção do chamado tresdobramento dos cursos primários, mantidos pelo Govêrno.

Sabido é que o autor destas linhas não é professor e nem poderia, ante isso discutir a questão dentro de alicerces sólidos e irrefutáveis. Entretanto, por dever de ofício, temos a preocupação natural de apreciar as questões diversas, que digam respeito aos problemas gerais e de interêsse público. No que tange aos problemas de educação, sempre tivemos o interêsse de advogar em suas causas, pela grandeza extraordinária que tais questões encerram em nosso país. Assim é que sempre formamos ao lado daqueles que batalharam ou venham a batalhar sob qualquer forma, pela melhoria ou aperfeiçoamento das coisas educacionais.

Isto posto, resta-nos emitir nosso ponto de vista, que nada mais é do que um endosso ao ideal preconizado pelo ilustre vereador mariliense, cujas idéias seguidamente ilustram as páginas de nosso jornal.

O tresdobramento do ensino primário chega a ser prejudicial à criançada escolar, porque apresenta diversos inconvenientes.

O primeiro deles é de fundo moral e alimentar, pois com a diminuição das horas de ensino e o acréscimo de um terceiro funcionamento de cursos, a garotada integrante do segundo período é amais sacrificada. Os que residem mais distante dos estabelecimentos, por exemplo, terão que almoçar lá pelas 10 horas e sabido é que nesse horário, a alimentação não se casa bem com o organismo de quem vive na cidade e levanta, por isso mesmo, mais tarde (o que não sucede ao adulto, trabalhador rural, que se alça bem cedinho e já toma seu almoço por volta das 10 horas). As crianças assim, se almoçam cedo demais, fazem-no geralmente de modo suficiente (principalmente entre nós e mui principalmente entre as classes pobres e média, onde o número de calorias da alimentação normal fica aquém do exigido pelos dietistas); se deixam para almoçar depois das 14 horas, prejudicam mais ainda o próprio organismo em formação. Além disso, convém frizar que tais cursos não oferecem “recreio” aos alunos que permanecem nas salas de aulas durante três horas consecutivas.

O correto mesmo é o funcionamento desses cursos em dois períodos e não em três, com a assistência de quatro horas de aula, incluindo-se o descanso representado pelo natural “recreio”.

Nossas autoridades escolares devem, portanto, analisar a questão em fóco, pois, parece-nos (falamos como simples pais de alunos e não como entendidos no assunto), é este o processo que melhor se coaduna com os interêsses gerais e com o próprio bem estar da garotada estudantil. Por outro lado, uma vez que os programas letivos são estandardizados, lógico é que os estabelecimentos que funcionam pelo processo de tresdobramento têm que apertar o programa, uma vez que idênticas matérias que seriam normalmente ministradas num período de quatro horas diárias, ficam obrigatoriamente cingidas a três horas apenas.

Estamos com o ponto de vista do nosso companheiro e com ele nos solidarizamos na defesa desse ideal, digno, por todos os sentidos, de merecer uma atenção das autoridades responsáveis pelo ensino primário em nosso Estado.

Extraído do Correio de Marília de 28 de novembro de 1958

sábado, 27 de novembro de 2010

O Divórcio (27 de novembro de 1958)

Por mais de uma vez, foi feita no Brasil a tentativa da instituição do divórcio entre nós. Por mais uma vez também, frustrada foi a idéia, que movimentou inúmeros intelectuais e estudiosos, com o acarretamento de discussões, polêmicas e apreciações sôbre âugulos diversos.

O problema é complexo, dizem.

Encontramos em nossa redação, correspondência dirigida ao autor desta coluna, solicitando nosso pensamento a respeito. Certo é que a carta veio com endereço errado, pois seríamos nós os menos capazes de emitir uma opinião segura sôbre tão arrebatadora questão.

Não nos furtaremos, entretanto, em atender o pedido. Exato seja, representará uma opinião puramente pessoal, de competência lógica de qualquer cidadão. Como dissemos, o assunto jamais nos apaixonou de fato. Sempre ficamos à sua margem, como expectadores dos mais neutros possíveis.

Isso não nos impede, entretanto, de formarmos um juízo próprio, de conformidade com nossa própria razão.

Em princípio, somos anti-divorcistas, por convicção religiosa. Entendemos o divórcio, não como um remédio preconizado para sanar o mal do imoral desquite, mais como uma agravante ainda pior. Concebemos o divórcio, como uma prostituição oficializada, porque facilita aos que desejam, possuírem gradativamente, quantas mulheres ou homens pretenderem.

Alegam os que são partidários dêsse processo, que o desquite faz no país mais divórcios do que na própria Inglaterra. Acontece que no Brasil o desquite significa um freio. Os que alegam que o desquite é um convite ao cumcubinato não estão certos, porque as citadas relações existem de maneira assustadora hoje em dia, até entre solteiros!

País divorcista apresenta condições piores do que a separação desquital. No desquite o separado não pode casar-se novamente, enquanto as duas partes viverem; portanto o vínculo matrimonial, perante a Lei, continua a ser respeitado, queiram ou não os que se sentem prejudicados. O desquitado tem um freio nêsse particular e ações correlatas, dizentes a aproximação de corpos de sexos diferentes não encontram apoio em Lei. Já com o divórcio é diferente. Vemos o degradante fato de mulheres que se casaram e divorciaram diversas vezes, possuir filhos oficialmente de três ou mais homens e não sabemos como o espírito do brasileiro poderia aceitar semelhante situação.

Não sabemos como o nacional aceitaria a condição de possuir no futuro alguns irmãos, filhos de pais ou mães diversas.

Poderá algum contra-argumentar que pelo menos no país divorcista, os filhos têm os nomes dos pais. Acontece que aqui também, embora com a condição de “naturais” e a êsse respeito, já se movimentaram legisladores, tentando anular essa disposição, para que sôbre os ombros daquêles que assim nascem, não tenham, no futuro, pejo perante a sociedade, vergonha por um crime em que êles são inconscientemente as vítimas diretas, muitas vezes encarnecidas pela sociedade.

Perguntamos agora ao nosso leitor e missivista, numa comparação grosseira: Se você, amigo, tivesse duas irmãs, uma casada nos Estados Unidos e uma no Brasil; se a que aqui residisse, por motivo qualquer, viesse a desquitar-se e ficasse, por isso mesmo, impossibilitada de casar-se novamente; se a que residisse nos USA, tivesse casado e divorciado três vezes e disso lhe apresentasse três sobrinhos de três diferentes cunhados; perguntamos então a você, para que nos responda, não baseado em argumentações dos que falam bonito sôbre a questão, mas para que nos informe com a sua própria consciência: qual das suas duas irmãs lhe seria mais desditosa? A que estava impossibilitada de casar-se ou a outra, a que poderia casar-se quantas vezes entendesse e ter filhos de quantos homens desposasse?

Mais uma outra coisa ainda: Como o espírito próprio do brasileiro, o divórcio no Brasil seria um verdadeiro cáos moral. Você já imaginou êsses magnatas, êsses brasileiros ricaços e esbanjadores, êsses mesmos que sentem até vergonha de apresentar as esposas em público, quanto tempo permaneceriam casados? Quantas vezes se casariam, mesmo que o divórcio custasse caro?

Extraído do Correio de Marília de 27 de novembro de 1958

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mais telefones para Marília (26 de novembro de 1958)

Êste jornal em especial e esta coluna em particular, sempre debateram a questão da insuficiência de telefones em Marília, maximé nos últimos tempos, quando o vertiginoso progresso ultrapassou as expectativas mais otimistas, dos marilienses e dos observadores forasteiros.

Efetivamente, nossa cidade, pelo vulto de seu progresso, pelo calor de seu dinamismo, pela voragem de sua expansão em todos os sentidos, reclama, de há muito, melhor serviço telefônico, não no sentido técnico propriamente dito, porém sob o ângulo de arraigamento.

No ano passado, ao conhecermos o plano da Companhia Telefônica Brasileira, no sentido de aumentar o número de telefones na cidade, manifestamos nossos aplausos pela intenção, cumulados de nossos protestos pelo modo com que se pretendeu realizar a idéia. Discordamos dos planos da CTB, porque os entendemos prejudiciais e contrários aos interêsses dos marilienses. Buscamos elementos justificativos e os encontramos na cidade de Araraquara, onde o contrato fôra firmado em condições mais favoráveis do que as pretendidas em Marília, em ocasião semelhante. Prometemos mesmo a divulgação da minuto do contrato assinado na Capital da Alta Araraquarense e não o fizemos por motivos alheios à nossa vontade.

Um ano após, reavivar-se o problema. Estiveram há pouco reunidos, justamente com o sr. Prefeito e pessoas gradas de Marília, dirigentes da mencionada Companhia. O assunto foi o mesmo, o processo foi o mesmo, com a modificação do sistema de concretização, em cujo esboço a Prefeitura, sob a condição de proprietária percentual, teria responsabilidade enorme, sem meios de fiscalização direta, sem técnicos competentes, sem departamentos especializados, ficando dona sem capital, dum dinheiro público respeitável. A municipalidade, no caso, poderia fazer uso de uma faca de dois gumes: ser proprietária sem dinheiro e obter, conforme o caso, lucros à custa do próprio povo necessitado. Isso sucedendo, tudo acabaria bem; o contrário acontecendo, surgiria fatalmente um dilema de proporções inesperadas: a Prefeitura poderia responder diretamente pelas responsabilidades, por não ser, à rigor, proprietária, por ser administradora; a Companhia poderia facilmente “descalçar as botas”, alegando sua administração apenas, como participante à base de percentagem.

Existem outros fatores mais graves ainda. No ano passado, cogitou-se o preço do aparelho telefônico na base de 22 mil cruzeiros, amortizáveis em prestações, para ligação após o pagamento, com a condição de variações aceitáveis em caso de mutações oficiais de câmbio. E, pelo plano anterior, os aparelhos só seriam instalados após pagos, ou seja, após um ano da vigência do contrato que não foi assinado.

Agora a cotação subiu para cêrca de 33 mil cruzeiros, havendo a possibilidade de atingir mesmo 40 mil e ninguém garantindo a sua instalação imediata ou dentro de curto prazo.

Se a CTB sempre serviu o povo sem a consumação de programa semelhante, estranhável é, por todos os sentidos, a pretensão óra cogitada.

Não estivemos, por motivo de força maior, presentes à última reunião à respeito realizada, da qual participaram o sr. Prefeito, vereadores, dirigentes da Telefônica e outras pessoas gradas. Procuramos nos inteirar do resultado da assembléia e confessamos que não apreciamos o que sentimos, porque consideramos prejudicial aos marilienses a pretensão da CTB.

Se isso vier a ser efetivado, podem estar certos os nossos amigos que a situação continuará a mesma e daqui há 5 anos, um telefone custará por volta de 100 mil cruzeiros, o que representará, não um comércio, mas verdadeiro absurdo!

Se a CTB, de acordo com a lei e a assinatura do contrato legal não cobra nada por um telefone no momento (embora a “fila” seja grande, grande seja a esperança e pequena a possibilidade de conseguí-lo), não sabemos porque, no futuro, se vigorar o absurdo projeto óra em referência, que um cidadão há de comprar um aparelho por 30 e tantos contos, se a Companhia o cederá gratuitamente, desde que haja número desocupado e principalmente se o interessado puder usar o privilégio da “prioridade” legal. Resumindo: se o desta coluna tiver que vender o seu telefone, comprado por 33 mil cruzeiros no novo plano, à você, leitor; e se você tiver a chance de obtê-lo sem ônus (apenas as taxas de ligação e instalação), perguntamos a você se você dispensaria a condição legal de obtenção e iria comprar o outro.

Ademais, é um absurdo, processo oneroso o que se pretende fazer agora, na questão dos telefones em Marília.

O sistema que a CTB pretende realizar é bom, em causa própria. Pelo processo referido, o autor desta coluna é capaz de comprar a Fazenda do Montolar, a Fazenda Bonfim e muita “cosita más”. Se vocês duvidam: “entrem” antecipadamente com a “gaita”. Depois vocês ficarão como “sócios” e terá lucros... Mas não se esqueçam: A partir de leão já terá dono...

Extraído do Correio de Marília de 26 de novembro de 1958

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O colunismo Social (25 de novembro de 1958)

Noticiar fatos ocorridos dentro da sociedade, é missão imprescindível de todo e qualquer órgão de divulgação. Seja jornal ou rádio, é veículo tem o dever de noticiar o que acontece, dentro do raio de suas ações. Entretanto entre o noticiar e o nortear e insinuar, existe uma diferença enorme.

O colunismo social de hoje em dia, principalmente nos órgãos de imprensa de São Paulo e Rio de Janeiro, em que pese a força e os resultados comprovados, constitui-se num verdadeiro cancro, prejudicial à própria moral e índole de nosso povo.

Revolta a qualquer sêr, especialmente aquêles que constituem a maioria e que não se incluem na “panelinha”da absurdamente chamada “gente bem”, as notícias dêsse timbre. Só interessam, de fato, a u’a minoria (minoria pequena, sem redundância, sem pleonasmo). Só interessa de direito, a um grupo de boas vidas, não afeito ao “batente”, desconhecedor do “basquete”, ignorante da luta cotidiana pelo ganha pão do pobre, “boa vida” habituada ao “dolce far niente”, acostumada a dispor de milhões em bacanais e noitadas inúteis, sem tentar perceber a miséria que impera por todo o país, a fome negra, o cáos econômico. Porque quanto pior a situação para o pobre, melhor a condição do rico, uma vez que a inflação beneficia os potentados, valorizando seus patrimônios, os preços de produção, os gigantescos estoques.

O colunismo social, chega hoje a prejudicar até o pobre. Dita normas e norteia, cujos reflexos atingem tôda a nação. Determina a maneira do homem ou mulher (principalmente a mulher) vestirem-se. Escolhe na dura, sugerindo na aparência ou no conceito, os trajes diversos em face das estações do ano, das solenidades ou do local. Influi diretamente na vida geral do nosso povo.

Determina modêlos, padrões, espécies. Brincos, jóias, sapatos e até decotes, o colunismo social especifica com autoridade que êle mesmo se outorgou. E a gente é quem sofre com isso. No casamento, entra direta a opinião da “moda”, muitas vezes ditada por um sofisticado colunista social, cuja condição de bom homem há quem ponha em dúvida. E o resultado alastra-se como um óleo sôbre a correnteza de um rio. Tanto assim, que a maioria das noivas, preocupa-se hoje em dia mais com o vestido da cerimônia do que propriamente com o futuro, com o caráter do noivo, com o dia de amanhã. Gasta-se verdadeira fortuna, com o feitio de um vestido que será usado especificamente poucas horas e que do uso do mesmo só restará uma fotografia.

Os colunistas sociais, descrevendo e insinuando detalhe por detalhe da “toilette” da “Madame Abóbora” ou “Srta. Recalque”, registrando sencerimoniosamente, com “grande contentamento” ou “sincero desprazer” num espírito de observação que ultrapassou o “paralelo 38” da curiosidade natural, transformam-se em “Raio X” sôbre a espôsa e filha dos outros e em líderes absolutos e orientadores incontestes do que é exato.

E obtém os resultados, porque o número dos trouxas (e das trouxas, principalmente), é bem grandinho por aqui nestes Brasís.

Com êsse negócio todo, surgem absurdos em modêlos, chamados pelos que possuem “água de côco” na cabeça, de verdadeiras obras de arte.

Sentimos um certo asco ao lermos os noticiários a respeito... “A senhora Y, apresentando um vestido de organdí salpicado, com um sobrepôsto imitando um “V” a descer-lhe além da cintura, manga “raglam”, decote triangonal e aberto nas costas em forma de lozango, com dois brincos portugueses em estilo chinês, três colares, sendo um de pérolas naturais, um incrustado em brilhantes e outro, muito gracioso e delicado em ouro e platina. Nas mãos, cinco riquíssimos anéis, um relógio coberto de diamantes, um leque de finíssima confecção japonesa, sapatos de couro de castor, polvilhados com pequenas pedras de duas cores e lindíssimas meias de vidro nylon importadas dos Estados Unidos...”. Por aí já se viu que o colunista adivinhou até a roupa de baixo da senhora Y...

E o sofisticado colunista continua: “...acompanhada de seu esposo, o Comendador Balduino, que trajava um elegantíssimo costume de “frescotine” inglês legitimo, com camisa de gorgorão original da Itália e peitilho de linho do Panamá, gravada de seda japonesa, botões de ouro na camisa, cinta de legítimo crocodilo africano, sapatos de couro de castor dos Andes, meias de naylon inglês e legas filadas de ouro, fabricadas na Inglaterra...” Já se viu também: o colunista advinhou a marca, o número e côr das cuécas do focalizado!

E, na realidade, o Comendador Balduino e a Senhora Y, casados no civil e no religioso, são, em casa, como “cão e gato”...

Extraído do Correio de Marília de 25 de novembro de 1958

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Mundo de mentiras (22 de novembro de 1958)

Desde pequenos, todos ouvimos a mesma cantilena de fundo sinceramente doutrinário, de que “é feio mentir”. Nas aulas de catecismo, nos ensinaram também que “é pecado mentir”. Mais tarde, no Exército, incutiram-nos na “massa cinzenta” de que “o homem não mente”. E assim por diante.

Não foi preciso chegar à idade que temos, para perceber que todos fazem exatamente o contrário. Todos mentem, só que alguns mais descaradamente do que os outros.

O combate à mentira é um fato e deve ser velhinho. A mentira deve ser mais antiga ainda, pois originou êsse mesmo combate.

A criança mente quando faz uma travessura ou quando come um doce escondido, ou ainda, quando pratica uma peraltagem. Mente quando não estuda e mente quando “gazeteia” as aulas. Seja homem, seja mulher; o ser humano só não mente enquanto não fala e não raciocina.

Todos mentem.

O namorado mente à namorada e esta mente mais ainda ao candidato a sua mão – mão que traz um corpo para vestir, para tratar e uma boca para comer.

O dentista mente dizendo que “não vai doer nada”. O barbeiro mente, dizendo, com um sorriso todo especial, que “não vai demorar”. O negociante mente, dizendo que “é o preço de custo”.

Mente o corretor, dizendo-nos que é um “bom negócio”. Mente o motorista, quando diz que a “corrida” a 50 cruzeiros, mesmo que seja num percurso de três quarteirões, “dá prejuízo”. O açougueiro mente, quando nos diz que pescoço de vaca é filé “mignon”. Mente o médico, quando o paciente já está com as malas prontas “para embarcar”, dizendo que “não é nada”. Mente o gerente do cinema, afixando o cartaz de “um filme”. Mente o time de futebol, formado à base de “medalhões” e que se deixa “golear” por um time pequeno. Mentem o Hélio Gracie e o Waldemar Santana em suas “lutas livres”.

Os jornais mentem, as rádios mentem. Anunciam remédios miraculosos, que não passam de simples preparados inofensivos. Mentem as mulheres quando declaram a idade. Mentem os menores quando os cinemas exibem filmes “impróprios”.

Até para os pastores protestantes e para os padres os que se religiosos mentem. Mentem os “cardápios” dos hotéis chamando de “dourada” à mais comum e vulgar das abóboras.

Mentem as fábricas de “whisky escocês” e de “casimira englesa”. Mentem os manufaturadores de “cachaça pura”, oferecendo ao público u’a mistura de água, álcool, pimenta do reino e fumo de corda. Até o nosso pacato lavrador mente hoje. Já vende cachorro por cabrito, já aquece e “amadurece” a banana em estufa.

Todos mentem. Mas os políticos mentem mais!

E como sabem mentir!

Até o Presidente da República mente no Brasil. Disse que o país progrediria 50 em 5 anos. E o disse com tanta habilidade, com uma teatral sinceridade que quasí todo mundo acreditou.

“O sabonete “X” é usado pela artista tal”. “O jogador Beltrano comprou um terno na loja do João”. “A esposa do coronél Dito usa somente sapatos da Casa Sfolla”. E outras bobagens mais, que vão por aí afóra. Tudo mentira, mentira deslavada.

Remédios para calos, drogas para fígado, preparados para nascer o cabelo, para engordar, para emagrecer, para depilar, etc.

Até para “remoçar” as fórmas plásticas da mulher, inclusive “fazendo desaparecer” os “plissês” do rosto de quem é feia naturalmente e pretende ser bonita artificialmente!

Os políticos, quase todos, como dizíamos, são os que mentem mais. Mentem nas leis, mentem nos discursos, sentações, mentem nas promessas de empregos, mentem em tudo. São artistas para mentir. “Dona” Ivete prometeu-nos as Casas Populares, nu’a mentira descolorida e depois de levar os marilienses “no bico” durante quatro anos, ainda vem aqui e encontra mais de mil trouxas para votar nela! “Seu” Lucianinho, que nunca fez nada por Marília, arquiteta um projeto de lei de um tal de pontilhão e acaba arrancando centenas de votos de centenas de trouxas!

Qual! Isto é mesmo um mundo de mentiras!

Extraído do Correio de Marília de 22 de novembro de 1958

domingo, 21 de novembro de 2010

A questão de querer compreender... (21 de novembro de 1958)

Recebemos, há muitos dias, uma carta. Foi antes de interrompermos as nossas atividades, em virtude da mudança de endereço dêste jornal. A carta abordou alguns de nossos escritos, acêrca da administração do atual Presidente da República. Continuou a deixar-nos em dúvida: ou existem muitos fãs do sr. JK em Marília, ou existe um apenas, com a condição de teimoso, que se utiliza de todos os métodos, inclusive do disfarce, para nos contradizer.

Nós não somos contra o sr. Juscelino Kubitschek, repetimos. Somos contra o atual Govêrno da República, cargo e não homem.

Não somos estudiosos no assunto. Não somos matemáticos, financistas, observadores atinados. Somos apenas, uma pequena fração do povo. Sentimos como todos, os dissabores, as angústias, as decepções, o clima de insegurança, a ameaça do cáos moral e econômico. Sentimos que alguma coisa não está bem. Sentimos que essa “coisa que não está bem” é uma consequência direta da má rota do atual govêrno, ou melhor, do desgovêrno atual.

A carta que nos referimos é delicada. Bonita mesmo. Gentil, para sermos mais claros. Gostamos do seu teor, mas não concordamos com seu conteúdo. Não nos convenceu e acreditamos não nos convencerá.

Repetimos o que já dissemos: o sr. Juscelino Kubitschek foi, e está sendo, em nosso entender, o pior Govêrno que o Brasil já teve desde que usufruiu a condição de República; isto é, desde 1.889.

Não que tenhamos ojeriza pelo antigo prefeito de Belo Horizonte. Mas é uma coisa “que não entra”, como se diz vulgarmente. Não vimos um motivo sequer que nos autorizasse a pensar o contrário.

O que é o atual Govêrno do Brasil?

A construção de Brasília (que nós combatemos, não em sua idéia ou essência, mas no processo com que se pretendeu), é um absurdo. O povo terá um palácio, um aeroporto, cercado de choupanas, e misérias ao mesmo tempo.

A instabilidade financeira do país, com a “quebra” de diversos bancos, é o reflexo direto da má orientação governamental e a insegurança do patrimônio privado.

O reintegramento de um oficial que foi espião nazista, com os mesmos direitos daquêles que permanecem nas fileiras do Exército já 30 ou mais anos, é alguma coisa de desastroso, principalmente tendo-se em conta que sargentos da FEB não podem ser reincluidos e promovidos a oficial, para nos prejudicar antigos militares.

Os banquetes governamentais faustosos, num país onde o povo passa fome, organizados pelo próprio Presidente da República, são sinal indiscutível de desumanidade.

As viagens constantes (no mínimo vinte em cada mês), deixando ao abandono o leme da nação, não nos credenciam a aceitar o sr. JK como um bom e bem interessado Govêrno, afeito aos interêsses do povo brasileiro e auscultando e estudando suas misérias e suas necessidades.

Os movimentos grevistas, surgidos em diversos Estados, autorizam-nos a responsabilizar o próprio sr. Juscelino Kubitschek pela desordem, desarmonia e desorganização imperante.

Os aumentos inequânimes de funcionários públicos e militares, igualmente, nos dão o direito de crer que o atual Presidente da República, em que pese o têrmo preceitual da Constituição de 1946, não manda ou não quer mandar (democraticamente, bem entendido), no Brasil que Pedro Álvares Cabral descobriu por um simples acaso da própria sorte.

Sinceramente, até hoje, não vimos nada que nos convencesse a julgar o sr. JK como um bom govêrno. Talvez possamos ver êsse desejo ainda no futuro, porém, até agora êle se encontra “no tinteiro”.

A questão é querer compreender. Nós a compreendemos. Pena é que os fanáticos e apaixonados não pensem assim e como tal não a compreendam e nem tentem interpretá-la.

Fala-se agora da providência governamental, congelando e estabilizando o custo dos gêneros de primeira necessidade. Oxalá o sr. Kubitschek consiga fazer isso em pról do povo brasileiro.

Oxalá.

Extraído do Correio de Marília de 21 de novembro de 1958

sábado, 20 de novembro de 2010

Retornando... (20 de novembro de 1958)

Bom dia, leitores!

Depois de meio mês de ausência, aqui nos encontramos novamente. Estivemos com nosso jornal fóra de circulação durante o lapso de tempo dispensado durante os trabalhos de mudança de nossa redação e oficinas.

Encontramo-nos agora em novo endereço. Depois de permanência de cinco anos ali na Rua 9 de Julho, junto à “Casa das Novidades”, instalamo-nos agora no prédio n. 500 da Avenida Carlos Gomes.

Nosso jornal deixou de circular durante 15 dias. Meio mês ficamos, contra nossa vontade, sem difundir e divulgar as causas e coisas de Marília, sua corrida louca de progresso, sua vertigem de dinamismo, as ações de sua gente. Nem por isso, entretanto, deixamos de acompanhar o andamento da engrenagem dessa máquina fabulosa que se chama “Marília”. Ao par das atribuições dificílima de mudança de nosso diário, estivemos também observando e presenciando o desenrolar dos acontecimentos gerais. E isso tudo, damos um pequeno resumo dos principais fatos, dos primordiais cometimentos que não tivemos a oportunidade de divulgar em época hábil, pelo fato referido.

Para alguns, pode parecer estranho, que tanto tempo tenha urgido para essas providências. No entanto, aquêles que melhor conhecem fatos ligados aos serviços de imprensa e bem aquêles que têm noção das dificuldades oriundas da desmontagem, transporte, remontagem e regulamentação de máquinas complicadas e pesadas, facilmente desculparão essa interrupção.

Nosso jornal reinicia hoje seu ritmo normal, sua identidade trajetória de atividades em pról dos interêsses de Marília e seu povo.

Durante o período de nossa ausência de circulação, não estivemos parados. Os serviços do transporte de nossas máquinas demandaram sacrifícios insanos, exaustivos. Não foi sopa o transporte de uma impressora cujo peso calcula-se em treze toneladas. Difícil foi também a mudança do linotipo, sua nova instalação, regulagem e acerto. Igualmente o material coadjutor das oficinas, como as mesas, cavaletes, caixas de tipo, mesas de mármore e aço, coleções do jornal, papéis, arquivos, clichês, documentos, material de escritório, etc..

Como tôda a mudança, é difícil o acerto. Uma coisinha aqui, uma diferença ali, um objeto acolá, demandam tempo, tempo que a gente não vê passar.

Agora, tudo normal, tudo legal. Já retornamos às atividades. Já reencetamos nossa caminhada, cujo palmilhar iniciamos há cêrca de 31 anos.

Embora com um trabalho diferente executado durante êstes dias, em que todos os elementos que compõem a família do CORREIO DE MARÍLIA se uniram e trabalharam indistintamente, em serviços diversos de mudança e adaptação, estávamos com saudades de nosso labor normal, de nosso público leitor, amigo e prestigiador.

Animou-nos a confiança demonstrada por milhares de marilienses, que não soube esconder a simpatia pelo nosso jornal, cercando-nos nas vias públicas ou telefonando-nos, manifestando o sentimento saudoso da circulação de nosso matutino.

Essas demonstrações de apreço, nos deram ainda a maior certeza de que conquistamos, mercê de nosso trabalho de 31 anos, a simpatia, o carinho, a confiança e o respeito de nosso bom e laborioso povo mariliense. Tais fatos nos obrigaram naturalmente, a apressar a volta de nosso jornal, a reencontrar a meta primordialmente iniciada pelo nosso saudoso fundador Alfredo Augusto de Araujo e continuada sabiamente pelo nosso atual diretor Raul Roque de Araujo.

E aqui estamos. Se Deus quiser, continuaremos a caminhada em pról dos motivos de divulgação de tudo e de todos os acontecimentos desta cidade que vimos crescer e que com ela crescemos.

Nossos agradecimentos às manifestações de confiança que tão a miude nos chegaram, durante êsse período de interrupção compulsória e justificada. Nossa gratidão, igualmente, a centenas de leitores, assinantes e anunciantes, que, com amigos sinceros, estiveram acompanhando nossos trabalhos de transferência e percebendo de perto a luta de nossa mudança.

Muito obrigado, leitores amigos.

Extraído do Correio de Marília de 20 de novembro de 1958

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

“Prata da Casa” (4 de novembro de 1958)

Nésta coluna, conforme sabido é, sempre tivemos a preocupação desinteressada de realçar e ressaltar tudo o que se refere à Marília e seu povo. Quando isto não sucede, focalizamos assuntos reputados de momento e de importância e interesse geral.

Não escondemos a predileção especial que nos imbui, quando se nos oferece a oportunidade de colocarmos em evidência fatos e coisas locais, objetivo que se casa perfeitamente com os propósitos de nossa missão e com os interesses de destaque das coisas citadinas.

Assim é que abordaremos hoje um fato sumamente auspicioso para nossa cidade, relativamente ao campo musical. Temos valores conhecidos em Marília dentro desse setor, como todos sabem. Sem menosprezo aos demais, justo é que se destaque a sensibilidade artística de um mariliense como o violonista e compositor Octávio Lignelli. O apreciado professor de violão, cuja arte todos apreciam pela maneira fácil, escorreita e penetrante como é difundida, acaba de marcar mais um belíssimo tente néssa sua caminhada artística. Escreveu, compôs e acaba de gravar duas páginas musicais bastante belas e sugestivas, nas quais se destaca a bela e pouco difundida música sul americana.

“Minha vida em suas mãos” e “Flôr do amôr”, as duas músicas óra lançadas ao mercado, através do acetato de renomada gravadora. Todos conhecem a harmonia da letra e a beleza da música constantes das páginas referidas, hoje difundidas em nossa cidade. Um outro valor apresentam as aludidas gravações, qual seja, a preocupação do professor Lignelli, em difundir as citadas melodias, através de gente mariliense. Clarice Sanches e Francisco dos Santos (o popular Chico Alves), são os responsáveis pelas vozes; Valdevino Dias e seu Conjunto respondem pela parte rítmica.

Assim, demonstrou o Sr. Octávio Lignelli, uma prova insofismável de prestígio aquilo que se chama de “prata da casa”, oferecendo oportunidade de aparecimento maior a gente de valor de nossa cidade. Este fato deve merecer atenção, pois o compositor poderia ter-se valido, se o quizesse, de orquestra ou regional de “cartaz” e da mesma maneira de cantores renomados. Preferiu, entretanto, destacar Marília e sua sensibilidade artística, fazendo com que as suas músicas referidas fossem interpretadas e gravadas por gente de nossa cidade.

Bonito gesto esse, digno, por todos os sentidos, de figurar no espaço que hoje ocupamos e que nos é reservado diariamente para que abordemos assuntos relacionados, de preferência, com Marília e sua gente.

Nossas congratulações, portanto, ao professor Octávio Lignelli e aos rapazes que tão bem se desobrigaram déssa missão, destacando tão magistralmente o nome artístico de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 4 de novembro de 1958

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dia dos Mortos (1 de novembro de 1958)

Hoje, Dia de Todos os Santos.

Amanhã, Dia dos Mortos, dobrarão os sinos à Finados. Contritamente deverão todos reverenciar a memória e a saudade de entes queridos e amigos saudosos, hoje desaparecidos.

Coroas, ciprestes, velas e flores...

Ao lado disso, corações apertados, rememorando a vida daqueles que partiram.

Finados!

Dia de respeito, de reverência, de saudade. Data de recordações, de visitas às campas onde repousam o sono eterno, aqueles que conviveram conosco ontem e cujas lembranças nos são tão caras.

Movimentos característicos da prosperidade da data, verificar-se-ão em todos os Campos Santos. Pelas ruas das cidades dos mortos, caminharão gente de todas as idades, sexos e posições sociais. Tôdas estarão igualadas em pensamentos, tôdas estarão equiparadas em idênticos propósitos, porque tôdas estarão prestando análoga homenagem a uma lembrança saudosa, a um nome querido.

Terços desfilarão, dedilhados por mãos ágeis ou dedos trêmulos. Rostos contritos não poderão esconder a tristeza e nem disfarçar a compenetração da respeitosa data. Velas acesas marcarão pontos cintilantes, lutando contra o vento ou a chuva, qual estrelas terrestres brilhando à luz do dia. Genuflexões. Gente pobre, gente rica, gente até miserável, misturar-se-á amanhã, no cemitério da Avenida da Saudade.

Tanto nas simples valas comuns, como nas suntuosas sepulturas, o aspecto será o mesmo, porque os corações não dissemeneiam ou não distribuem, como não diferenciam sentimentos de saudade por um morto querido. Todos se igualarão, porque todos aqueles que aqui não existem, igualaram-se na hora da morte, embora fossem distanciados em vida.

Finados!

Dia de respeito profundo, nos últimos anos com uma apresentação desvirtuada. Desvirtuada, em tese, porque, aparentemente menor tem sido o número de pessoas contritas e honestas (para consigo mesmas), em relação ao valor, significado e importância das visitas aos túmulos de parentes ou amigos. Desvirtuada em parte, porque as concentrações aos campos santos, já chegaram a servir de motivos para saudações efusivas e espalhafatosas, para conclusão ou entabolamento de negócios e para namoricos até!

Amanhã será o dia consagrado aos mortos. Mortos pobres ou ricos, mortos bons ou maus.

Cada túmulo, cada vala, cada capela, receberá a sua visita. Muitas permanecerão olvidadas, sem parentes, sem amigos, sem uma coroa, uma flor, uma vela.

Ao Cruzeiro da necrópole, acudirão também milhares de pessoas. As que renderão um preito ao morto distante, parente ou amigo. É outra forma de homenagem de memória, de rememoração de saudade, de reavivamento de uma lembrança.

Dobrarão os sinos à Finados. Dir-se-ão orações aos mortos. Queimar-se-ão velas em intenção da lembrança daquêles que desapareceram mas que continuam vivos na memória e na saudade das gentes. Flôres enfeitarão túmulos, coroas desenterrarão saudades.

Dia de Finados.

Dia dos Mortos.

Reverenciemos todos, indistintamente, a lembrança daqueles que nos foram caros. Olvidemos as atribuições cotidianas e a contenda pró subsistência. Esquecemos as dificuldades momentâneas, os problemas pessoais e particulares, os deveres comerciais. Dediquemos nossos pensamentos aos que são dignos dêles, principalmente no Dia de Finados.

Extraído do Correio de Marília de 1 de novembro de 1958