terça-feira, 28 de junho de 2011

Destaques Diversos (28 de junho de 1959)

Em entrevista coletiva concedida a vários deputados federais da legenda do P.S.D., o Ministro da Guerra, Marechal Teixeira Lott, declarou que “qualquer que seja o candidato eleito tomará posse”.

O Marechal-Ministro fez empenho em frizar a legalidade da luta sucessória, com o manifesto desejo de que esta ocorra em têrmos elevados, tanto no campo ideológico como no pessoal, respeitando-se mutuamente os adversários. Disse que uma disputa fora desses termos só poderá prejudicar o país, que precisa de um ambiente de tranquilidade e confiança para superar sua crise.

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Segundo um jornalista chinês, atualmente visitando São Paulo, “a corrupção foi uma das causas que precipitaram a queda de Chang-Kai-Chek, engrossando as aguas revoltas do rio da revolução”.

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O cardeal Dom Jaime de Barros Camara abençoará a estátua de São Pedro do Mar, que será erguida, no “Dia do Pescador”, na enseada da Urca, pela Associação Brasileira dos Caçadores Submarinos.

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O sr. John Cabot, novo embaixador norte-americano no Brasil, chegará ao Rio no dia 16 de julho (de 1959). Frisa-se que os problemas que o esperam, logo em seguida à entrega das credenciais, figurarão, sem exagero, entre os mais importantes (e complexos) que já foi obrigado a enfrentar em seus 33 anos de carreira diplomática.

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“Dizer que a lepra não é contagiosa é faltar com a verdade ao povo, pois ele passa de individuo para individuo, como o bacilo de Koch na tuberculose”, declarou à imprensa o medico Guilherme Malaquias, diretor do Departamento de Higiene da Prefeitura e ex-diretor do Serviço de Lepra do Distrito Federal.

Segundo adiantou ainda o sr. Guilherme Malaquias, existem 900 enfermos internados no Hospital de Curupaiti, dois e quinhentos em tratamento em dispensários e 1.300 “desaparecidos”, que não se tratam e constituem grave perigo para a população.

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Segundo noticia o “Jornal do Brasil”, do Rio de Janeiro, o sr. Juscelino Kubtschek já dispõe do plano completo dos estudos referentes ao reatamento das relações comerciais com a Russia.

A posição a respeito, por parte do Conselho de Segurança Nacional, continua idêntico à do ano passado, isto é, favorável às relações comerciais e contra o reatamento das relações diplomáticas. Considera validos os argumentos que apresentou a respeito há um ano.

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Para os “experts” em concurso de beleza feminina, as medidas de Vera Ribeiro, a nova “Miss Brasil”, estão mais próximas do titulo de “Miss Universo” do que as de Adalgisa Colombo, classificada em segundo lugar em Long Beach. Eis as medidas de ambas: Adalgisa: altura, 1,70; busto, 90; quadris, 90; cintura, 60; coxa, 57; peso, 55. – Vera: altura, 1.71; busto, 94; quadris, 95; cintura, 58; coxa, 57; peso, 59.

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O primeiro submarino construído na Itália para a Marinha militar, desde o fim da última guerra, foi lançado, domingo, nos estaleiros navais de Tarento. Trata-se do “Bario”, que desloca 800 toneladas. É dotado de dois motores térmicos, dois motores elétricos e um motor silencioso.

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Por falar em submarinos, o Sr. Dewey Short, Secretário Adjunto do Exército Norte-Americano, declarou recentemente que “os 500 submarinos soviéticos representam a mais séria ameaça sôbre a existência dos Estados Unidos”.

A publicidade dada aos “Sputniks”, disse ele, no congresso da “Associação Nacional Ucraniana”, levou os norte-americanos a negligenciar o potencial naval dos soviéticos, e então os submarinos podem chegar junto às costas norte-americanas e as bombardear com a ajuda de foguetes balísticos”.

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Deverá ser apresentado à Câmara Federal pelo deputado Carlos do Lago, projeto de lei criando o Fundo de Pesquisas da Moléstia de Chagas, destinado a assegurar recursos para estudos da terrível enfermidade. O Fundo terá verba inicial de 70 milhões, distribuída por dois exercícios e será dirigido por um Congresso pelo diretor do Instituto Osvaldo Cruz e composto de mais três membros representantes do Ministério de Saúde, das Universidades de São Paulo e de Minas Gerais.

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A Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, acaba de dar parecer contrário, ao projeto de lei que visava isentar a franquia postal e telegráfica aos partidos polícicos.

E nem poderia mesmo, razoavelmente, ser outra a atitude dessa Comissão.

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O deputado Josué de Castro (“Geografia da Fome”, “Geologia da Fome”) foi um dos oradores na manifestação ao presidente da República, ante-ontem. Depois de afirmar que “os trusts internacionais já principiam a temer o Brasil”, o parlamentar frisou:

- “Os brasileiros estão divididos entre os que não comem e os que não dormem com medo dos que não comem”.

Extraído do Correio de Marília de 28 de junho de 1959

domingo, 26 de junho de 2011

Notícias Várias (26 de junho de 1959)

Há poucos dias, em plena Capital da República e já perto do anoitecer, diversas pessoas observaram, nos céus de Copacabana três fócos luminosos. O fenômeno vario de intensidade, cortando o céu lentamente, em direção norte-sul, tendo sido observado por muito gente, pelo espaço de 15 minutos, quando desapareceu no horizonte.

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O Serviço de Meteorologia, do Ministério da Agricultura, anunciou uma onda de ar frio para terça feira última. A massa gelada, entretanto, não se apresentou. Pergunta: Será que vem pela Central do Brasil?

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E por falar na Estrada de Ferro Central do Brasil, esta aconteceu de fato, aqui em Marília e não é piada: O deputado federal Raineri Mazzili, ofertou, como de conhecimento público, uma viagem pedagógica ao Centro Acadêmico “Roberto Simonsen”, da Faculdade de Ciências Econômicas. Os alunos deverão visitar a Usina de Volta Redonda. Sucede que a condução, de São Paulo até a “Cidade do Aço”, deverá ser feita pela Central. Assustada com os últimos desastres ferroviários da E.F.C.B., a “turma” da Faculdade “saltou na parece”: nenhum acadêmico quer saber da Central.

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Ainda, outra da Central: E.F.C.B., significa Estrada de Ferro Central do Brasil. Sabem como alguém já interpretou êsse prefixo?

“Empresa Funerária Caveira de Burro”!

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E o feijão em Marília, continua com o preço elevadíssimo, apesar de ter o Sr. Presidente da República afirmado, em entrevista à imprensa, que o custo de vida baixou!

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Milhares e milhares de cruzeiros, são gastos anualmente, pelos magnatas do turfe e proprietários de cavalos do Joquei Clube, só em aveia e leite em pó. Enquanto isso, no mais desumanos dos contrastes, centenas de crianças morrem anualmente, por falta de recursos dos pais, para comprar leite!

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No próximo dia 2 (de junho de 1959), o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, comemorará o 108º aniversário de fundação.

Tambem em Marília, dentro em pouco, comemoraremos o 3º aniversário das promessas do Comando do C. B., de instalar o Corpo de Bombeiros de Marília. Que tal?

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Em São Paulo, ante-ontem, o operário Agenor Silvério da Silva, casado, de 44 anos de idade, quando assistia a Missa de 7º dia, mandada celebrar em intenção de um seu parente, sentiu-se mal. Removido da Igreja de São Benedito, em Vila Formosa, para o Pronto Socorro, ali chegou sem vida.

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O Juiz Souza Neto, do Distrito Federal, figura de relevo focalizada por David Nasser no famoso “caso Aida Cury, acabou de exonerar-se de suas funções. De nossa parte, respeitamos a sua decisão e as razões ponderadas, mas não há dúvida, de que, nessa atitude, existiu uma boa dose de covardia...

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Domingo próximo, a A. A. São Bento deverá defrontar-se com o Rio Preto E.C., em peleja de campeonato. A “torcida” mariliense terá o ensejo de ver em ação, em contenta oficial, pela primeira vez em Marília, o fabuloso Mestre Zizinho. O jogo, em sí, é de enorme responsabilidade para os pupilos do “príncipe” Danilo.

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Já se encontra no Rio o eng. Alberto Henry Pearce, da firma Thomas de La Rue, da Inglaterra, que montou uma fabrica em Bonsucesso. O início da produção deverá dar-se a partir de fevereiro de 1960. A fabrica está em condições de produzir qualquer quantidade de dinheiro não só para o Brasil, como também para outras nações sul-americanas. A matéria prima tôda será nacional. Portanto, não há mais perigo de qualquer preocupação com a desvalorização do cruzeiro... Dentro em pouco teremos uma Fábrica de Dinheiro... inteirinha prá nós!

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Hoje, em Roma, deverá ocorrer o encontro Jânio-Jango.

Daqui mais alguns dias teremos muita coisa a divulgar e já estamos antevendo “marmelada” grossa...

Extraído do Correio de Marília de 26 de junho de 1959

sábado, 25 de junho de 2011

Tratamento visual de crianças (25 de junho de 1959)

O “Lions Club” de Marília, entidade que se tornou realmente simpática em nosso meio, mercê de suas altruísticas e efetivas campanhas em pról dos desfavorecidos, ensaia agora nova iniciativa beneficente de grande alcance.

A exemplo do que foi feito pelo clube congênere de São Paulo, os “leões” de Marília promoverão entre nós, uma campanha de fundo eminentemente útil. Trata-se de campanha de exames visuais das crianças póbres, matriculadas nos grupos escolares da cidade.

Na Capital, dita iniciativa, redundou no conhecimento de centenas de casos graves, que estavam ocultos e que prejudicavam a saúde e os estudos da infância escolar da paulicéia. Assim ficaram conhecidos diversos defeitos visuais, casos de miopia e até de tracoma, mercê da realização em aprêço, levada a efeito pelos “leões” e “domadoras” paulistanos. Todos os casos dêsse jaez, foram devidamente corrigidos e os alunos necessitados de óculos, foram dotados dêsse auxílio, através do próprio “Lions”.

Conclui-se que muitos estudantes, tidos como negligentes ao curso primário, nada mais eram do que vítimas ignorantes de algum mail visual, em tempo corrigido, em virtude dessa benéfica iniciativa do “Lions” de São Paulo.

Em Marília, pretende o “Lions Club” local, seguir idênticas pegadas, em pról de nossa classe estudantil primária. A idéia, por si só, é digna dos mais rasgados elogios, principalmente se atentarmos para o fato de que o “Lions Club” de nossa cidade, mal completando seu primeiro ano de vida, já realizou nada mais nada menos do que onze vitoriosas campanhas de altruísmo, em pról de necessitados, póbres, doentes e entidades assistenciais. Essa, agora, do exame visual dos estudantes primários, completará o número de uma dúzia, o que dá a idéia de uma campanha social de grandes méritos e efeitos, em cada mês do primeiro ano de existência dessa nobilíssima entidade.

Os estudos estão sendo elaborados, mas o entusiasmo é grande e a vontade de ser útil dos “leões”, uma realidade marcante. Assim é que estamos seguramente informados, que o “Lions Club” procurará contar com o apôio dos médicos oculistas de Marília, na medida do possível, algumas horas diárias, para o atendimento dêsses exames oftalmológicos. Isso será feito, de maneira equânime, sem um sacrifício exagerado dos facultativos que se incorporarem à campanha e de modos que cada médico, de per sí, atendar um número limitado de candidatos em horários diversos. Os casos de necessidade de uso de óculos, serão atendidos à parte, com o fornecimento desses objetos, as expensas do “Lions”.

Por aí, poderá aquilatar-se a importância dessa campanha que está prestes a ser lançada em Marília e que deverá juntar-se ao rosário de altruístas realizações dos “leões” marilienses.

Nós, que sempre tivemos a irretorquível preocupação em destacar tudo o que é feito em Marília, que signifique benefícios para o seu povo pondo em relevo o espírito de iniciativas dos marilienses, sentimo-nos a cavaleiro, para louvar essa benéfica providência, digna de elogios por todos os meios.

Parabéns, portanto, ao “Lions Club” de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 25 de junho de 1959

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A pena de morte (24 de junho de 1959)

Empolga hoje em dia a sensibilidade brasileira, os motivos focalizados no Rio de Janeiro, objetivando implantar-se entre nós, a pena de morte. Assunto complexo, de vários prismas, sem sombra de dúvidas. As opiniões divergem, de acôrdo com a formação religiosa e de conformidade com o quilate de interpretação de direito jurídico de cada um.

Presentemente, a revista “O Cruzeiro”, está realizado uma “enquete” a respeito, ouvindo as mais renomadas autoridades, auscultando individualmente, diversos pontos de vista. Psicanalistas, professores, magistrados, catedráticos, advogados e sacerdotes, foram as primeiras pessoas a expender opiniões sôbre o palpitante assunto. Divergiram, entre sí, os conceitos emitidos. Todos explendidamente fundamentados, deixando transparecer, não só o gráu de interpretação de cada autoridade ouvida, como também, acima de tudo, o índice de pensamento pessoal da pessoa entrevistada.

Se da discussão nasce a luz, de todo êsse movimento deverá surgir, certamente, alguma claridade do assunto, tão melindroso e tão importante. De fato, pesará sôbre os ombros dos legisladores, além do próprio Govêrno que sancionar o diploma legal que porventura venha a instituir tal regime entre nós, elevadíssima responsabilidade.

Pelo visto, é necessário uma seguridade muito sólida e um ponto de vista perfeitamente galvanizado, para se emitir uma opinião acêrca dêsse problema. Daí o fato de estarem sendo ouvidos, os mais capazes, os mais insuspeitos. Isso, entretanto, não impedirá, talvez, que pessoas de menor projeção literária ou representativa, opine também em tôrno dessa questão. A situação obteria, pensamos, a firmeza do ponto de vista representando a maioria, se fosse realizada uma pesquisa mais ampla, uma espécie de plebiscito. O assunto é por demais sério, extraordinariamente melindroso.

Das opiniões ouvidas, que rapidamente lemos na revista citada, percebemos que o assunto mais diretamente aventado como contrário ao pretendido, ocorreu em consequência do espírito eminentemente cristão dos brasileiros. Foi invocado o 5º Mandamento da Lei de Deus. Foi dito que o Estado, que não dá a vida a ninguém, não tem também o direito de tirá-la. Essas foram as razões mais fortes, apresentadas pelo grupo contra a lei da morte. Em contra-partida, os que se encontram favoráveis à implantação do aludido regime, contra-põem o ponto de vista bíblico citado por Moisés, que afiançou, mais ou menos: “Aquêle que derramar o sangue de um homem, deve morrer”. E fecham a questão, dizendo ser preferível o Estado tirar a vida de um homem continui a tirar vidas de outros.

É certo de que não são apenas êsses os pontos de vista defendidos ou argumentados; são, entretanto, os mais fortes, em torno dos quais tem girado a argumentação, em redor dos quais se têm procurado a maior lógica.

Como pensar sôbre o caso?

Como se manifestariam os leitores, caso fossem chamados a opinar sôbre tão palpitante questão? É, portanto, um verdadeiro drama de consciência, o emitir-se um conceito sôbre dito assunto. Principalmente tendo o povo brasileiro, conforme se diz, o coração “mole”.

Quem não se recorda, por exemplo, de que por ocasião da última guerra mundial, dois “pracinhas”, na Itália, cometeram grave delito, a ponto de, em situação de beligerância, terem sido os mesmos condenados à morte? Pois quase todo o Brasil se levantou na ocasião e o então Presidente Getúlio Vargas perdoou a decisão do Conselho de Guerra, tendo decretado a prisão perpétua dos mesmos.

Por aí, é de esperar-se muitas discussões e muitos dúvidas até chegar-se a uma conclusão sôbre tão grande objetivos.

Extraído do Correio de Marília de 24 de junho de 1959

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Brasil, país deficitário (20 de junho de 1959)

Não, pelo amor de Deus, não nos chamem de maus brasileiros.

Em verdade, somos muito patriotas e por êsse motivo é que nos preocupamos em demais pelas causas nacionais. Preocupamo-nos mais intimamente, porque as razões de nossa apreensão, nenhum efeito conseguiriam encontrar nas altas esferas administrativas do país. Sucede, que, desfrutamos dêste desabafo, que é o rabiscar umas linhas diariamente e divulgá-las através desta coluna. Já é alguma coisa, porque conforme provou certa ocasião renomado psicanalista, “aquele que escreve, interpreta ou representa, exterioriza um pouco do próprio Ego, deixando transparecer a índole oculta”.

Daí o não ser, algumas vezes, compreendido o jornalista. Daí o confundir-se o profissional de imprensa, com algum fuxiqueiro ou alcoviteiro contumaz, desmerecendo-lhe o devido valor. Ainda outro dia, em plena Avenida do Fundador, um amigo comum, no intervalo de um cafezinho, após demonstrar ter “analisado” uma série de artigos que escrevemos sôbre a nova Capital Federal, chamou-nos, sencerimoniosamente, de “inimigos de Brasília”!

Ficamos compadecido dêsse amigo e de seu fraquíssimo espírito de razão e não menos de sua nula perspicácia de interpretação dos fatos. Não somos, absolutamente, contrários à Brasília, como, igualmente, nada temos contra a pessoa do sr. Juscelino Kubitschek. O que somos aversos, visceralmente aversos, é contra a forma pela qual Brasília está sendo construída. Somos contrários ao espalhafato arquitetônico que se chama Brasília, plantado no meio da selva, separando por mais de uma dezena de quilômetros a “Brasília dos brasileiros”, hoje conhecida como “cidade livre”. Somos contrários aos desmandos e às facilidades de enriquecidos com pouco trabalho. Somos contra o emprego de verbas fabulosas numa obra gigantesca, pretensiosamente preparada, enquanto incontáveis pontos básicos da própria vida nacional, definham e parecem por falta de dinheiro suficiente para a sua manutenção. Somos contrários, isto sim, às emissões extraordinárias do Tesouro, que enfraquecem ainda mais o já debilitado organismo de nossas finanças e que tanto contribuem para a desvalorização de nossa moeda.

O Brasil é um eterno país deficitário, mas atualmente ultrapassou todos os “records” anteriores.

Só num ano, o “deficit” orçamentário da União, teve um “aumentozinho” de 2 bilhões de cruzeiros! Em fins de maio de 1958, o saldo “descobert” éra de 15,7 bilhões de cruzeiros e no mesmo mês do ano em curso, essa “maravilha” acusou a estrambólica cifra de 17,7 bilhões!

Isso, entretanto, não tem importância. O que importa é que Brasília está sendo construída. Depois, quando se gritar contra a situação de uma quasi falência das finanças nacionais, os economistas regiamente pagos pelo próprio Tesouro, poderão ter uma saída excelente: dirão, como das vezes passadas, que a culpa cabe ao funcionalismo federal, que absorve quasi toda a arrecadação do país!

Extraído do Correio de Marília de 20 de junho de 1959

domingo, 19 de junho de 2011

Mais “uma” contra os “pracinhas” (19 de junho de 1959)

Problema melindroso êsse dos “pracinhas” brasileiros. Sua análise é feita como o aço de uma faca de dois gumes; uns interpretam-na de u’a maneira, outros de modo diverso. É necessário que o crítico conheça a condição dêsse atropêlo de idéias e de muitos ex-combatentes, para não incorrer no erro de uma dedução precipitada ou ilógica, além de injusta.

O que é, afinal de contas, um “pracinha”? Claro, para os que são patriotas de fachada, para os que não têm a suficiente capacidade de aquilatar a crueza e a realidade de uma guerra armada, um “pracinha” é apenas um cidadão que cumpriu seu dever para com a Pátria. Mas que a cumpriu. Nada mais, porque os que assim pensam, já pensam em demasia, sendo incapazes de qualquer outro raciocínio mais lógico, mais plausível, mais humano.

Para a mãe e para a esposa do “pracinha”, a situação é diferente. Para o médico analista, o “pracinha”, regra geral, visto sob o ponto de vista clínico, é um desditoso, um sêr que jamais voltará a ser, biologicamente, aquilo que fôra antes do embarque para a guerra.

Nosso comentário de hoje tem um endereço certo:

Dirigimo-nos, especialmente, ao sr. João Silvério Sobrinho, Diretor Geral da Guarda Civil de São Paulo. É o fazemos humildemente, na condição de “pracinha” que também somos, com o intuito de tentar chamar a atenção de seu espírito de patriotismo e solidariedade humana. Estamos tentando modificar um pouco uma sua decisão, que frontalmente prejudicou um nosso companheiro, pobre e honesto, exemplar chefe de família e pai de cinco filhos menores.

Habituados que somos a respeitar os que são dignos de respeito, mas valendo-nos de nossa belíssima democracia (democracia que os “pracinhas” auxiliaram a preservar, de armas em punho), endereçamos nosso apêlo ao sr. João Silvério Sobrinho, dirigente máximo dessa orgulhosa corporação que é a Guarda Civil de São Paulo.

O sr. João Silvério Sobrinho, dispensou há pouco, das fileiras da Guarda Civil, um “pracinha” que há oito anos emprestava seus serviços ao aludido organismo. Sem um maior profundo conhecimento da realidade dos fatos, sem atentar para uma condição diversa psicologicamente. Dispensa, sob certo aspecto, pura e simples. Desumana até, se formos passar numa peneira, os motivos originários dêsse ato, que deveria ser substituído por uma punição disciplinar tão sòmente, uma vez que existiu um erro de fato (não de direito) por parte do “pracinha” referido.

Até aí, nada estaria de mais, com referência ao caso. Sucede que o motivo da dispensa do “pracinha” Raul Neves (que representou Marília no Campo de Honra da Itália), encontrou uma repercussão de lógico descontentamento entre os ex-combatente e entre aqueles que são realimente amigos e reconhecedores do sacrifício pago à Pátria pelos “pracinhas”. Centenas de cartas, ofícios e telegramas, assinados por prefeitos, vereadores, bispos, deputados e associações de ex-combatentes, chegaram até o sr. Governador do Estado e sr. Secretário da Segurança Pública, solicitando revogação dêsse ato. O prof. Carvalho Pinto, justo como é, razoavelmente extraordinário e digno como sempre foi, encarou com simpatia e até compaixão o caso em téla. O mesmo deve ter sucedido, como respeito à pessoa do sr. Secretário da Segurança Pública.

Com o diretor geral da Guarda Civil, o caso já foi diferente: mostrando-se inimigo frontal de 25 mil ex-combatentes, o sr. João Silvério Sobrinho “deu o contra”, manifestando-se virtualmente desfavorável no reaproveitamento dêsse “pracinha”, que hoje se encontra na rua da amargura.

Ao sr. João Silvério Sobrinho, fazemos publicamente mais êste apêlo: Reconsidere o ato, conceda a readmissão dêsse expedicionário, porque sendo S.S. um elemento auxiliar do próprio Governo do Estado, estará, em nome de São Paulo e em nome de todos os paulistas, auxiliando o Brasil a pagar a mais sagrada dívida de nossa Pátria: a DÍVIDA DO TRIBUTO DE SANGUE!

E não se olvide o sr. João Silvério Sobrinho, que “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”. Raul Neves cumpriu o seu, lutando pelo sacrossanto Pavilhão Verde-Amarelo, de armas em punho, numa guerra moderna. Viu companheiros caírem, estraçalhados por estilhaços de granada ou varados por balas inimigas. Foi um homem, foi um brasileiro e foi um herói. Não é digno de tamanha injustiça, tão simples de reparar, mas tão difícil de sanar, pelo capricho frontal de um único homem: o sr. João Silvério Sobrinho.

Concluímos: esperamos que a benevolência e o espírito de gratidão em pról daquêle que nada mais tinha a perder do que simplesmente o própria vida, encontrem guarida no próprio coração e na razão do sr. João Silvério Sobrinho, tornando sem efeito o ato que dispensou o “pracinha” Raul Neves.

Extraído do Correio de Marília de 19 de junho de 1959

sábado, 18 de junho de 2011

Uma virtude como poucas (18 de junho de 1959)

A caridade é uma virtude como poucas. Deixada pelo exemplo do próprio Filho de Deus, continua a demarcar átos dos que pódem e são possuidores de corações bem formados, dignos daquilo que se chama solidariedade humano.

É praticada sob diversos aspectos e fórmas entre nós. Existem até os que tiram proveito dessa condições, para fazer uma caridade de fachada, ocultando interesses terceiros, que chega a ser até ostensiva à quem a recebe. Claro é que nem todos assim praticam o aludido expediente, pois existem incontáveis proporções de pessoas que praticam o gesto da caridade humano, da maneira piedosa e verdadeiramente cristã como deve ser executada.

O povo brasileiro é caridoso por excelência, demonstrando sempre seu espirito de solidariedade humana. Basta chama-lo a colaborar com qualquer iniciativa de interesse social e beneficente, basta convoca-lo a solidarizar-se com a miséria do próximo e ele se fará presente incontinenti.

É uma graça divina essa que possuímos nós, os brasileiros. E inúmeras situações, temos dado sobejas mostras desse espírito de compreensão e colaboração com os necessitados.

Em Marília mesmo, temos exemplos frisante desse pormenor. Nós, especialmente, como elementos de imprensa, habituados por ciência e dever de ofício, a auscultar tudo, a procurar conhecer tudo, a “meter o nariz” em tudo o que ocorre na cidade, cientificamo-nos seguidamente das ocorrências desse quilate. E o que mais apreciamos nesses gestos, são as intenções daqueles que procuram fazer a caridade sem estardalhaços, sem publicidade, de maneira quasi anônima. Que praticam esse nobilíssimo dever cristão, da maneira que ensinou o exemplo sacrossanto, de que “a mão esquerda deve ignorar o que a direita dá”.

Entretanto, existe um outro número diverso ao das condições que estamos referindo. Existem os que fazem a caridade pública de maneira mais pública ainda. Que fazem questão cerrada (embora afirmem o contrário), que todos saibam, que tomem conhecimento do gesto. Gostam de dar ciência de átos desse jaez, para aumentar um suposto “cartaz” ou uma inexistente “personalidade”. Tais pessoas são fracas de espírito, antes de mais nada. Fazem comércio com a miséria humana, procurando tirar proveito, de uma ou outra maneira, de uma situação ou de uma desgraça – porque os que entendem a mão à caridade pública, que necessidade lógica e honesta, não são apenas infelizes; são mais do que isso: são desgraçados.

A caridade é uma virtude como poucas.

Se muitos a sabem respeitar ao pratica-la, porque sua prática exige respeito inconteste, não se olvidem que existem os que não sabem respeita-la, porque deturpam seu real sentido e verdadeiro espirito cristão.

Extraído do Correio de Marília de 18 de junho de 1959

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Estão explorando os bois? (17 de junho de 1959)

O caso parece anedota, mas não é.

Sob certo aspecto, está a merecer atenções do próprio Governador Carvalho Pinto, uma vez que tem sua parcela de responsabilidade, frente aos preços elevadíssimos de importante alimento comum. E em se tratando de questões inerentes à economia popular, justo é que o maior magistrado do Estado líder da Federação, encare o assunto com cuidado e interesse. Trata-se do seguinte:

O custo do transporte de cada cabeça de gado vacum, pela Estrada de Ferro Sorocabana (que é ferrovia estatal), equivale-se, de qualquer distância, ao preço de uma passagem de primeira classe, considerada do mesmo ponto de embarque de gado.

Óra, parece-nos que a cotação desse transporte está assaz elevadíssima, pois equiparando-se ao custo de uma passagem de primeira classe, já se vê que deverá custar uma pequena fortuna.

Pode parecer, à primeira vista, que está explorando os bois e as vacas, justo no momento extremo; isto é, quando são conduzidos para o matadouro. Sucede, entretanto, que a exploração não incide propriamente sôbre os bois, porque os bois (e não as vacas) não arcam com as citadas despesas. Quem está sendo explorado, nesse caso, é o próprio povo, como sempre, porque o “móto contínuo” da inflação ricocheteia sempre sôbre os costados do “zé povinho”. Senão, vejamos: Custando caro o transporte, o intermediário alega pagar mais alto ao pecuarista; as pecuárias também tiram “uma casquinha” da situação, seguidos pelos distribuidores e pelos marchantes. Quando um “pezinho” de carne chega à cosinha de uma residência, para ser temperado e ir para a frigideira, o custo em cruzeiros, tomando-se por base aquelas gramas registradas pela balança, mais os “cálculos rápidos” do açougueiro e multiplicando-se tudo isso, verificar-se-á com extraordinária facilidade, que o boi foi embarcado custando o preço “x”, terminou com seu custo multiplicado por algumas vezes mais!

E o pior disso tudo, é que o boi paga o preço de uma passagem de primeira classe, viajando em vagão de boi mesmo. De pé, sem leito, sem direito a ir ao carro-restaurante! Será que estão explorando os bois?

Uma coisa, justiça seja feita, a Sorocabana procede nesse particular, ao transportar os bois em vagões de boi mesmo, apesar de cobrar o custo equivalente de uma passagem de primeira classe: é que os bois darão, certamente, pouco trabalho para serem abatidos, pois chegaram em São Paulo como nós, os homens: mais mortos do que vivos!

A pergunta continua a ser repetida: Será que estão explorando os bois? Ou será que nós, o povo, é que estamos sendo indiretamente explorados?

Extraído do Correio de Marília de 17 de junho de 1959

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Algumas respostas (16 de junho de 1959)

Habitualmente, recebemos de nossos leitores, cartas de conteúdos múltiplos, de sentidos poliformes. Gostaríamos de atender a todos os que nos procuram ou que apresentam sugestões das mais variadas. Nem sempre, entretanto, possível é o aproveitamento das idéias que nos são transmitidas; uma vezez, escapam ao objetivo do jornal ou a ética profissional; outras, embora pareçam importante para os missivistas, destituem-se de interesse geral. De qualquer maneira, resta-nos agradecer a todos os que, de uma ou outra fórma, nos prestigiam e tentam ofertar-nos algum motivo com intenções de fácil aproveitamento.

Recebemos recentemente três cartas. Iremos aborda-las, para que os leitores póssam melhor aquilatar aquilo que dissemos anteriormente e vejam que temos nossas razões em não atender, muitas vezes, as correspondências que nos endereçam alguns leitores. Vejamos!

J. A. F., A. A. Santos e Darcily, são os signatários das cartas em fóco.

Nenhuma trouxe endereço identificador. Olhem como se manifestaram tais missivistas: O primeiro, pede-nos um comentário (?) sôbre um acontecimento desairoso que abalou a sociedade mariliense recentemente. Não sabemos se o Sr. (ou sra.) J.A.F. é muito ingênuo ou acredita que nós é que o sejamos.

A. A. Santos, solitita-nos que alertemos quem de direito, com respeito à carestia da vida. E argumenta-nos um arrazoado sobejamente “batido” por todos, inclusive por nós, nésta coluna. Só uma coisa nos chamou a atenção na carta de A. A. Santos: foi seu clamor com referência aos preços das roupas de frio. Supomos que A. A. Santos seja chefe de família e sinta, como todos nós, nas próprias carnes, as dificuldades para aquisição de agasalhos para os filhos. Infelizmente, porém, nossas forças são nulas frente aos desgovernos destes Brasis e nada poderemos fazer sôbre o caso, a não ser partilhar do sentimento desse missivista, incorporando-nos à sua desdita.

A terceira carta é de Darcily. Péde-nos que sejam intérprete junto à Cia. Telefônica, de seu apelo, por sinal simples de atender: Reclama Darcily contra o reflexo que o sól produz, ao incidir sôbre diversas placas de metal, existentes nos postes da mencionada emprêsa. Sugere a missivista, que a Companhia ao envez de deixar tais objetos reluzentes, que passa sôbre os mesmos uma camada de tinta, deixando-as opacos, de maneira que não produzam os reflexos referidos.

Para nós, sempre passou despercebido tal fato e só constatamos êsse pormenor, ao verificar o assunto em aprêço, após o recebimento da carta em referência. Nada podemos dizer, portanto, a respeito.

Como vêm os leitores, coisas assim, acontecem à miude na redação de um jornal, receptáculo por excelência, de clamores e repercussões de pensamentos, como intérprete fiél do próprio módo de pensar de uma coletividade. Nem todos os rôgos que se nos fazem presentes, podem, portanto, merecer divulgação, pois alguns chegam a ser ridículos, pela puerilidade que apresentam.

Temos ainda uma outra carta que nos chegou às mãos há dias, sem assinatura ou endereço. Não seria tomada em consideração, mas já que respondemos às três citadas, e, tendo em vista o objetivo plausível da mesma, aqui passaremos a referi-la: um leitor que deve, pelo jeito, ser “habitué” dos cinemas locais, solicita-nos que interfiramos junto ao sr. Ezequiel Bombini, no sentido de que seja instalado no Cine Marília, à exemplo do São Luiz, um bebedouro público. Com a palavra, portanto, “seu” Ezequiel.

Extraído do Correio de Marília de 16 de junho de 1959

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Pontos de vista divergentes (13 de junho de 1959)

Positivamente, o mundo “não teria graça”, se os homens todos, entre sí, pensassem de idêntica maneira e concordassem mutuamente em todos os pontos e sôbre todos os sentidos.

É mesmo necessária a divergência de pontos de vista entre os homens, para que do acompanhamento dessas duplas ou múltiplas idéias, uma parte (que deve representar a maioria), possa melhor concluir sôbre um aspecto, uma idéia ou uma providência. Faz isso parte da própria natureza humana e, no caso de nossa gente, tem as suas razões de maior e melhor acentuação, mercê do democrático clima em que vivemos.

Sucedem, entretanto, com frequência aliás, motivos de caracterizada insensatez, por parte de muita gente. São as pessoas que adotam a caturrice crônica, a teimosia desenfreada, os eternos “do contra”. Vejamos um caso recente, por exemplo: a contratação do jogador Zizinho, para as cores do futebol profissional da cidade. Alguns “técnicos de botequim”, sem a menor cerimônia, “meteram a colher torta” no assunto, fazendo as “análises” do gesto dos paredros sambentistas. E disseram “cobras e lagartos” do veterano profissional, afiançando que o negocio foi mau, que o jogador “não irá querer nada com a bola” e muitas outras arengas sem lógica.

Respeitamos o ponto de vista de quem-quer-que seja, da mesma maneira que nos agradam os demais, quando respeitam nossos conceitos. Entretanto, forçoso é que condenemos os contumazes caturras, eternos “cabeças de pau”, aqueles que sentem um prazer mórbido em achar “tudo errado”, teimar seguidamente, sem concluírem que se expõem ao ridículo, “dando murros em ponta de faca”.

Um dos apanágios da democracia é a condição de cada qual poder pensar, agir e falar como bem entende, de acordo com a própria consciência. E, em nosso caso, devemos render graças a Deus por essa magnânima felicidade. É justo, entretanto, que exista razão na emissão de conceitos, que se aquilate com imparcialidade um ponto de vista, que se procure um “intermezzo” de razão o mais possivelmente neutro, para que se não incorra em deslizes de opiniões, sem se fazer voltar contra si, a ojeriza ou antipatia gerais.

“Da discussão nasce a luz”, reza antigo brocardo. Antigo e sábio, pelo elevado espírito democrático e liberal que apresenta. Portanto, não se devem agastar, no caso em fóco, os mentores do São Bento, tem como aquela outra parte favorável à contratação do citado jogador. Deixem os “entendidos” e eternos descontentes que falem aos ventos, que se utilizem de nossa bela e cara democracia. No caso, o que vale é a opinião da maioria, maioria que representa, indubitavelmente, os nossos lúcidos, os mais razoáveis.

Pensando bem, é até bonito isso tudo, onde cada mente pensa de um jeito e defende seu ponto de vista. O que não é bonito, é a teimosia intransigente e desarrazoada, maximé quando no caso se aplica perfeitamente o adágio que muito bem afirma: “o pior cégo é o que não quer ver”.

Sempre existiram as pessoas chamadas “do contra” da mesma maneira que sempre existiram trouxas no mundo. Se assim não fôra, repetimos, a vida “não teria graça”...

Extraído do Correio de Marília de 13 de junho de 1959

domingo, 12 de junho de 2011

Tempinho, “chato”, sim senhor! (12 de junho de 1959)

O homem nunca está satisfeito plenamente. Se vivendo modestamente de um ordenado mensal, aspira, é certo, uma chance de melhorar pecuniariamente, cogitando trabalhar por sua própria conta em qualquer futura ocasião. Se tal consegue, principia lógo a descortinar idéias mais avantajadas, objetivando progresso e projeção. Nunca está de todo contente e poucos são os que se habituam a aceitar como dificuldades e tropeços de uma atividade, os chamados “ossos do ofício”.

Se é sapateiro, queixa-se da vida, comparando seu amigo alfaiate como pessoa de mais sorte e de maiores possibilidades de bem viver. Este, por sua vez, pensa o contrário com relação ao mecânico, o mecânico faz uma idéia diversa do prático de farmácia, êste do médico, o facultativo do advogado, e assim por diante. Isso prova que o homem é um eterno descontente.

Se for perguntado ao próprio Conde Matarazzo se ele está satisfeito com a vida, é provável que o mesmo apresente uma série de razões de insatisfação; poderá alegar a enormidade de sua responsabilidade, as atenções para com suas centenas de departamentos e industrias, obrigações para com o fisco e empregados, etc.. Até o Rockefeler poderá dizer o mesmo.

Regra geral, uma pessoa aspira uma coisa na vida. Às vezes, custa para conseguir e objetivo e outras não o consegue. Mas alcançando o desiderato colimado, acomodando-se no plano anciosamente cogitado, ao envés de ficar tranquilo e satisfeito, começa lógo a antevisar uma nova vida ou uma nova providência. Se vai bem nos negócios e o dinheiro “entra” regularmente, o conformismo céde lugar à maior ganância e a pessoa passa a dar mais elasticidade aos desejos, pretendendo e tudo fazendo para ganhar mais. Se tem um caminhão de transporte, procura lógo adquirir o segundo e também o terceiro. Se possui duas casas de aluguel, esforça-se para conseguir a de número três. E assim, indefinidamente.

Como se vê, a insatisfação é própria do homem, alguma coisa assim da própria natureza. Significa o desejo de progredir, fóra de dúvida e deve ser elogiado todo aquele que assim pensa, ao contrário de conformar-se “marcando passo” eternamente. Sucede, porém, que entre esse desejo lógico e plausível, não se póde ocultar, na maioria dos casos, o desmedimento inconteste, característico do homem de nosso mundo e de nossos éras.

O mesmo acontece agora com a temperatura que domina há dias a nossa cidade. Não há quem não reclame contra o friozinho impertinente ou contra o vento incomodativo e cortante. Não há quem não deseje um sól quente. Entretanto, quando o tempo é diverso, ou quando sentimos de fato os rigores do verão, fazendo-nos suas bicas e abusar de gelados, sem dormir bem durante a noite em virtude da canícula, não há também que não deseje um dia frio ou noite gelada...

Acontece que as coisas não se fazem, não caminham e não se desenrolam, conforme todos nós queremos. Se tal fôra, isto seria u’a maravilha para muitos e uma desgraça para outros, pois se tudo acontecesse como todos pretendem, vocês não acham que sempre haveria os que pretenderiam mais do que os outros, sendo, portanto, mais poderosos?

Acontece que o friozinho está mesmo incomodativo e nós, como não constituímos excessão à regra, bem que desejaríamos hoje um dia de bastante calor.

Tempinho “chato”, sim senhor!

Extraído do Correio de Marília de 12 de junho de 1959

sábado, 11 de junho de 2011

Precisamos de um Hotel grande e moderno (11 de junho de 1959)

De há muito luta-se em Marília, para que a cidade seja dotada de um hotel grande e moderno em todos os sentidos, um estabelecimento que condignamente represente o progresso da “urbe” em circunstâncias especiais.

Não quer dizer isso que Marília esteja desservida de casas de pasto e pouso; apenas que o numero de estabelecimentos dêsse gênero não corresponda às necessidades do dinamismo de nossa cidade e nós, que labutamos na imprensa sabemos por ciência própria a existência dessa lacuna, pois um órgão de divulgação é, por sua natureza específica, um receptáculo onde convergem queixas ou encômios e um lugar onde repercutem falhas ou motivos de descontentamento comum.

Os próprios poderes municipais já perceberam isso, existindo mesmo lei pela Câmara, que consigna uma verba-auxiliar à quem se designar construir um prédio amplo e moderno, destinado a acomodar um hotel e ostentar diversas casas congêneres, cujos proprietários se interessam e se esforçam para bem desincumbirem-se desses serviços de atendimento social dos mais relevantes.

O fato é que, apesar desse pormenor que jamais passou despercebido para ninguém, a lacuna existe, a falha é patente. Comentam-nas de preferência os viajantes profissionais, conhecedores profundos do “meiter” e habituados a andejar por centenas por centenas de cidades interioranas.

Recentemente, tivemos mais uma prova disso que estamos assegurando, quando da realização da 1 Jornada Odontológica da Alta Paulista, ocasião em que os promotores do citado certame se viram em dificuldades para acomodar os congressistas que para cá convergiram. E, em oportunidade dessas é que a falta se faz sentir de maneira mais diréta e mais acentuada. Não foram poucos os comentários que a respeito se ouviram. E não há negar que todas as reclamações acêrca do assunto tiveram (como continuarão a ter) a sua indiscutível procedência.

Cogita a Associação Paulista de Medicina, pela sua Secção Regional local, em promover um grande congresso médico em nossa cidade. Por incrível que pareça, dentre os incontáveis problemas que demandarão uma providência de tão elevado alcance científico, despontou em primeira plana, conforme nos asseverou o presidente da entidade, Dr. Pedro Teruel Romero, a questão do alojamento para milhares de facultativos, uma vez que Marília não possui hotéis em número suficiente ou perfeitamente modernos.

Os “pracinhas”, igualmente, estão planejando congresso inter-regional de ex-combatentes em Marília, para novembro próximo e igualmente já se preocuparam com dito problema, pois, no caso, milhares de veteranos da última guerra aquí convergeriam na ocasião. Conforme a época, dificilmente um hotel poderá acomodar mais do que vinte elementos extraordinários, além de seus clientes normais. Fazendo-se o cálculo de quantos hotéis na cidade se encontrariam nessas condições, fácil é deduzir qual será o numero de pessoas a serem acomodadas nessas casas e também fácil será o perceber-se os problemas com o número excedente.

Urge, portanto, que se estudem novos processos ou novas fórmulas, no sentido de encontrar-se uma solução de providência para solver-se esse problema, de há muito reclamado pelo dinamismo de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 11 de junho de 1959

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Salada de Notícias (10 de junho de 1959)

Amanhã (11/6/1959) à tarde, uma comissão de marilienses, capitaneada pelo prefeito Argollo Ferrão, deverá avistar-se com o Governador Carvalho Pinto e com o Secretário da Saúde, Dr. Fauze Carlos.

O motivo dêsse colóquio prende-se ao momentoso assunto do pretendido desvirtuamento do plano original, referente ao Hospital das Clínicas em Marília.

É de esperar-se, que, após a conversa entre o Governador e o Secretário da Saúde com os marilienses, seja encontrada uma formula capaz de superar o “impasse” referido.

Esses são os nossos votos, confiando na comissão mariliense e na manifesta boa vontade do Governador Carvalho Pinto para com nossa cidade e nossa gente.

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Repercute ainda na cidade, o extraordinário feito do ciclista colombiano Célimo Zuluaga, batendo em Marília, o “record” internacional de resistência sôbre uma bicicleta.

Zuluaga fez 155 horas consecutivas, superando a marca anterior que se encontrava em poder do brasileiro Josa e que éra de 150 horas e 35 minutos.

Falando à nossa reportagem, o novo campeão do pedal, teve palavras encomiosas com referência ao prestígio ininterrupto do público mariliense.

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Mortos e feridos em quantidade, deixando órfãos e famílias desamparadas, além da vultuosa monta de prejuízos materiais, é o resultado do trágico desastre da Central do Brasil.

A E.F.C.B., sem dúvida, é recordista em tirar vidas humanas. Até nos lembra o dito jocoso de uma dupla caipira, que contou a seguinte sátira:

“Um homem, desesperado e sem recursos, não tendo para quem apelar socorro, resolveu dirigir-se por carta ao Paí do Céu e da Terra. Escreveu a missiva, fechou o envelope e subscritou: “Ilmo. Sr. Deus. Céu.” O funcionário do D.C.T., na expedição, chamou o colega, admirado, perguntado: “Qual a entrada que vai para o Céu?” Então o outro examinou a carta, franziu o sobrôlho e respondeu: “Não sei; deve ser a Central, pois é a única estrada que sempre manda gente para o céu...”

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Ainda não se definiu o P. D. C. local, acêrca do candidato à sucessão do prefeito municipal. Os “fogos” foram anunciados para o dia 30 do mês pretérito...

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Enquanto isso, os dois candidatos oficialmente lançados, continuam trabalhando sem descanço. Léo e Tatá estão demonstrando que “quem dorme no ponto é “chaufeur”...

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Até o próximo dia 10 de julho, a alta administração do IAPC deverá transferir-se para Brasília.

Essa alternativa foi feita à imprensa, pelo próprio presidente da autarquia, Sr. Eraldo Lemos. Aguarda-se, tão somente, a ordem de execução da mudança, já estando os planos respectivos em poder do Presidente da República.

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Esteve nos Campos Elíseos o deputado federal Cunha Bueno, que é, também, um dos diretores da Willys Overland do Brasil. Depois de ter conferenciado com o governador Carvalho Pinto, informou ter tratado com o chefe do Executivo da possibilidade de ser isenta de imposto estadual a exportação de veículos fabricados em nosso Estado.

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Notícias de Torrance, Califórnia, dão conta de que o Exército norte-americano possui um avião de observação que é um misto de helicóptero e de avião comum. O aparelho, que se chama “Doak 16” possui asas curtas que transportam em sua extremidade um motor à hélice. No momento da decolagem, as hélices são dirigidas em sentido vertical relativamente ao solo, à maneira de um helicóptero. Em vôo, o piloto vira as hélices que ficam, então, em posição normal.

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Em Messina, Itália, o marujo Paulo Laimo, de 37 anos de idade, tem um conceito muito “avançado” sobre o casamento. Para ele, um homem pode perfeitamente casar-se até com três mulheres, fazendo-as todas felizes. Assim pensava, assim agiu. Casou-se com uma italiana de Messina, uma norte-americana de Filadelfia e uma grega do Pireu. Durante oito anos, ou seja, de 1945 a 1958, viveu feliz alternando-se nos vários lares, instalados respectivamente na Sicília, nos Estados Unidos e na Grécia. Mas, em 1953, todos os seus casamentos foram conhecidos pela polícia e esta, naturalmente, não concordou com a opinião de Laimo, o qual está agora cumprindo pena na prisão, depois de uma série de apelações.

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Segundo um jornal carioca, o apoio de Jango à candidatura do sr. Carvalho Pinto, como solução de união nacional, teria sido assegurada, constituindo-se num dos lances fundamentais de uma jogada que envolve ampla área do Catete.

Antes de viajar para Genebra, o sr. João Goulart teria credenciado, por escrito, o deputado Santiago Dantas para assegurar ao governador Carvalho Pinto o apoio do PTB à sua candidatura.

Está o sr. João Goulart convencido da inviabilidade desta formula. Mas ela teria a vantagem de fortalecer a retaguarda para a luta contra o sr. Jânio Quadros dentro do PTB. Esta versão foi colhida em alta fonte do PTB.

Extraído do Correio de Marília de 10 de junho de 1959

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Hospital Regional das Clínicas (9 de junho de 1959)

Justifica-se perfeitamente o movimento de revolta, de caráter pacífico e eminentemente democrático óra surgido na cidade, com vistas ao descontentamento criado entre os marilienses, em face do pretendido disvirtuamento do projeto original do prédio do Hospital das Clínicas de Marília.

Como todos sabem, o anelo referido, foi acalentado durante vários anos pelos marilienses e representa a vitória parcial de muitas lutas. Justificamos perfeitamente as razões dessa pretensão, em todos os sentidos. Quer no que tange a situação demográfica de Marília, quer no que se refere ao ponto geográfico da cidade, em relação à vasta região da Alta Paulista. Tão lógico foram os pontos dessa contenda, que o ex-Governador Jânio Quadros, reconheceu os motivos dessa luta verdadeiramente necessária aos marilienses e ao próprio povo da região, dando-nos o importante nosocômio. A colaboração de Marília, não se fez esperar igualmente. A Câmara e Prefeitura, em harmonia e com a máxima rapidez, desapropriaram a respectiva área de terreno, fazendo a respectiva doação pura e simples (para o ponto previamente colimado) ao Govêrno do Estado. A planta fôra aprovada e as óbras iniciadas, após a consignação da primeira parcela da verba respectiva.

Quando tudo caminhava bem, eis que a cidade foi abalada com a notícia de que por conviniências de ordem governamental, seria disvirtuado o projeto original do prédio, para ali, em lugar do Hospital Regional das Clínicas, serem acomodadas diversas outras repartições sanitárias do Estado.

A notícia desagradou a todos e imediatamente a própria Associação Paulista de Medicina, pela secção regional local, com a credencial de autoridade no assunto, conhecedora “de visu” das necessidades e efeitos desse Hospital, colocou-se a campo, encabeçando movimento de apêlos ao Governador Carvalho Pinto e ao Secretário da Saúde, no sentido de que fosse mantida a idéia e os planos originários do prédio óra em construção. A idéia foi seguida e acompanhada de imediato pela Associação Comercial de Marília e pela Associação dos Ex-Combatentes do Brasil e novas entidades engrossaram esse cordão de reclamações, protestos e apêlos.

Hoje, às 16 horas, será realizada uma passeata-monstro, de protesto ao pretendido áto governamental. À noite, um comício público será levado a efeito; enquanto isso, um abaixo-assinado contendo milhares de assinaturas, será levado em mãos ao sr. Governador do Estado, possivelmente amanhã, por uma comissão de marilienses, da qual participarão o sr. Prefeito, o Presidente da Câmara de Vereadores, presidente da Associação Paulista de Medicina (regional de Marília), de diversas outras entidades de classe e mais autoridades e o povo.

Pensamos que o Governador do Estado, que sempre se mostrou amigo de Marília, ao ser inteirado das razões dessa reivindicação, há de, por certo, atender nossos apêlos, ordenando “última fórma” ao gesto pretendido, que tanto desagradou nossa cidade e nossa gente.

Ademais, deverá o atual Chefe de Executivo bandeirante, atentar para o fato de que o Hospital das Clínicas de Marília nos foi concedido pelo seu antecessor, Sr. Jânio Quadros, o que representa um régio presente à Marília, constituindo para nós, uma gravíssima indelicadeza, a efetivação desse gesto do prof. Carvalho Pinto, em desfazer uma providência do governo anterior para com uma grande cidade e um grande povo.

Extraído do Correio de Marília de 9 de junho de 1959

terça-feira, 7 de junho de 2011

Futebol feminino (7 de junho de 1959)

Consta ser proibida no Brasil, a prática do futeból pelo elemento feminino. Não sabemos se a proibição obedece lei específica ou é consequência de regulamentação apenas, emanada por autoridade desportivas. O cérto é que o citado esporte, bem como o “hockey” e o “baseball” não podem ser praticadas entre nós pelo sexo fraco.

Mesmo assim, na cidade de Araguarí, em Minas Gerais, fundou-se um clube de futebol feminino. Onze moças dispuzeram-se a praticar o aludido esporte e não se preocuparam muito com a necessidade de usarem pesadas chuteiras. Após os primeiros ensaios coletivos do esquadrão que foi batizado com o nome de “Araguarí”, surgiu uma equipe adversária, na mesma cidade: o “Fluminense”. Aí o assunto “pegou fogo”. As duas representações principiaram a exibir-se ao publico araguariense, lotando os estádios e conseguindo excelente arrecadações, pois o interesse despertado em vista da originalidade do fato foi deveras acentuadíssimo. As esquadras principiaram a jogar também em outras diversas cidades do Triângulo Mineiro. O “Araguarí” mostrou desde o início maior entusiasmo e maior harmonia de conjunto, com maior persistência e resistência. Por sua vez, o “Fluminense” não conseguiu encontrar sua melhor formação por diversos motivos e a equipe “tricolor” acabou por desaparecer. Não tendo adversárias, as moças do “Araguarí” viram-se na contingência de provocar a constituição de outra equipe e como esta não surgisse, formaram elas próprias mais um “team”, ficando com os times “A” e “B”. Assim, as duas esquadras puderam continuar a jogar e a realizar suas excursões, atingindo também o interior do Estado de Goiás, onde ser exibiram provocando excepcional concorrência pública aos estádios.

Tudo ia indo muito bem, mas a Federação Goiana de Futeból proibiu em sua jurisdição esportiva, a realização de partidas de futeból pelo elemento feminino. Justificou a proibição na própria fisiologia da mulher sem ter tocado na parte da originalidade ou do aspecto formal da prática, sem ter ainda se preocupado se os jogos eram realizados com o espírito comercial ou não. A proibição foi pura e simples.

Depois disso, a notícia despertou interesse, como não poderia deixar de ser. E esses interesses em tôrno da proibição do futebol feminino atingiram o estado montanhês e neste a cidade de Araguarí, que teve a primazia em organizar e manter um quadro de futeból feminino. Então surgiram opiniões divergentes; os que apoiam o ponto de vista da Federação Goiana de Futeból, em que justifica a proibição em vista da própria biologia da mulher, cujo organismo é completamente diverso ao do homem e a outra parte, a que continua favorável e defendendo a prática do esporte das multidões pelas representantes do sexo chamado frágil.

As coisas estão nesse pé, até o momento. Mesmo assim, as duas equipes do “Araguarí”, continuam, vez por outra, a realizar as suas partidas de “pé bóla”. As vitórias são comemoradas entusiasticamente e até “bichos” são distribuídos às jogadoras; igualmente, as derrotas são choradas copiosamente pelos elementos do quadro derrotados.

Os “impasse” perdura ainda e não sabemos como será o seu desfecho, uma vez que as duas correntes, a pró e a contra, aumentaram agora. A força contrária justifica o impedimento com uma série de fundamentos de ordem fisiológica, quasi “virando no avêsso” o próprio organismo feminino. A parte favorável apenas para o sentido da originalidade, invocando o espírito do desporto sadio, a prática leal, justificando a igualdade de forças (uma vez que as moças só enfrentam moças no campo) e concluindo que as jogadoras passas pelos mesmos testes clínicos que os homens que jogam futebol.

Quem vencerá a parada? Isso é que não sabemos, mas, de qualquer maneira, a cidade de Araguarí está sendo agora bastante movimentada, segundo uma notícia que vimos num jornal de Belo Horizonte. O fato é que o assunto tem o seu sabor de “sui feneris” e nós, que temos visto tanto futeból e tantas “peladas”, bem que gostaríamos de ver vinte e duas moças de unhas cortadas, cabelos presos, de calções e chuteiras, correndo e “driblando” num quadrilátero de futeból. Deve ser interessante, mesmo a título de curiosidade, não acham?

Extraído do Correio de Marília de 7 de junho de 1959

domingo, 5 de junho de 2011

Iniciativa Estudantil Louvável (5 de junho de 1959)

Limos há pouco, num órgão de imprensa, a notícia de que um grupo de estudantes de determinado estabelecimento de ensino, acaba de adotar u’a medida digna dos mais entusiásticos encômios. Propuzeram-se tais alunos, mediante um compromisso firmado, a desfraldar a bandeira da lealdade, contra a “cóla” e outras safadezas estudantis.

Uma espécie de pacto de honra, sem sombra de duvidas. Um compromisso mútuo, que revela a firmeza de caráter de uma plêiade de jovens bem intencionados e que deverá servir de exemplo a milhares de outros estudantes de nossa terra.

Sabem os leitores que nós próprios, através desta mesma coluna, vez por outra temos focalizado o grave problema da “cóla”, analizando os efeitos morais dêsse abjeto emprêgo, que, antes de ludibriar os mestres e os examinadores, engana vilmente as pessoas que desse expediente se utilizam. Os “coladores” denotam negligência de saber e negatividade de aproveitamento de letras ou ciências. Atestam, inegavelmente, eivas de covardia ante a realidade dos fatos, demonstrando a franqueza da capacidade de recepção frente aos conhecimentos ministrados. O uso da “cóla” corrobora o espírito preguiçoso de uma pessoa que só se preocupa em “passar de ano”, sem atentar para a repercussão futura que fará seu próprio nome, ao exibir um pergaminho ou a propor-se a executar uma profissão liberal.

O comodismo, a preguiça e a deslealdade andam de mão juntas com aqueles que não possuem auto-confiança, não estudam, não apresentam grande noção de responsabilidade estudantil, mas que procuram por um método excuso, compensar tais falhas, utilizando o sistema de “colar”.

Pensando assim, é que resolvemos comentar êsse gesto verdadeiramente elogiável, óra pôsto em prática por um grupo de bons estudantes. Esses rapazes devem servir de espêlho, onde os “coladores” contumazes deverão mirar-se.

Temos a impressão de que um pai de família, desde que seja honesto com sua própria consciência, há de preferir que seu filho leve “bomba” por qualquer circunstancias lógica dos estudos, a ver o rebento “passar de ano” pouco ou nada sabendo, mas passar à custa de “cola”. Não que estejamos insinuando que o pai do aluno ficará satisfeito e soltará foguetes se o estudante “levar pau”; absolutamente, estamos fazendo a comparação entre o obter ou não a promoção de ano escolar de maneira lógica e leal e a “passar de ano” em virtude do escuso processo de “colar”.

De qualquer maneira, fazemos questão de abordar êsse assunto, detalhando a importância dessa elogiável iniciativa. E aqui estamos, para aplaudir publicamente êsse gesto louvável por todos os modos, impregnado que está do mais puro e sadio sentimento de auto-confiança, domínio do saber e honestidade. Honestidade, acima de tudo; para com eles próprios e para com os mestres que os auxiliam a haurir as luzes da ciência.

Não servirá o caso presente de exemplos para muitos estudantes marilienses?

Extraído do Correio de Marília de 5 de junho de 1959

sábado, 4 de junho de 2011

Isso é “técnica moderna” (4 de junho de 1959)

O progresso dos últimos anos, o propalado dinamismo do século XX, carrega consigo uma válvula de escape perfeitamente oposto ao sistema antigo. Em vários setores das atividades dos homens, êsse mesmo progresso trouxe alguns processos com os quais acabamos por nos habituar, mas que não deixam de atenuar dentro de suas “técnicas modernas”, um verdadeiro espírito de safadeza de muita gente.

Difícil seria o citar-se a infinidade de processos na condição que óra referimos. Alguns apresentam até aspectos dos mais graves, embora corriqueiros e aparentemente “normais”; outros denotam a evidência de uma incontestável preocupação de lucros comerciais, onde tudo se faz e tudo se procura fazer, para objetivar-se lucros pelo meio e mais fácil e pela condição mais rápida.

Alimentos ou não, muitas coisas se apresentam com essas características, despercebidas pala massa. Vejamos o caso das bananas, por exemplo: O “processo moderno” de amadurecimento dêsse produto, tem alguma coisa de criminoso; ninguém se dá ao trabalho de esperar que as referidas frutas atinjam “o ponto” de acordo com a própria lei da natureza. A corrida dos interesses comerciais e a malícia do comércio “moderno”, atingiu o nosso homem rural, o trabalhador comum. Em vinte e quatro horas, qualquer pessoa é capaz de “amadurecer” toneladas de bananas, por mais verdes e impróprias para o consumo que possam estar. Basta possuir uma estufa para o aquecimento geral e um pouco de carbureto para forçar o amadurecimento da casca do produto. Não somos de medicina e nada disto entendemos; apenas pensamos que tudo o que é feito em contra posição da bela natureza tem lá o seu lado de prejudicial. No caso, para a saúde, é logico.

Em consequência, as bananas perderam aquele sabor tradicional e característicamente delicioso, aquela aparência de amadurecimento normal e as pintinhas pretas da casca; e o que é mais importante, o gosto verdadeiramente doce e agradável. Hoje o paladar das bananas “amadurecidas” pelo sistema de “na marra”, perecem mais u’a massa de cortiça e estopa, numa comparação grosseira.

Em tudo isso, se vislumbra a corrida da pequena espera no sentido da preocupação comercial, no cuidado inequívoco de “fazer dinheiro”. E, neste sentido, muita coisa mais existe hoje em dia, em virtude da “técnica moderna” que estamos referindo. Diversos produtos são lançados no mercado, com aspcetos e paladares realmente tentadores; após terem ganho o prestígio e a preferência pública, modificam-se gradativamente, de maneiras que o público consumidor pouco ou nada venha a perceber. Essas modificações, não há dúvidas, devem-se a alteração dos próprios produtos, diminuindo o custo da produção, mantendo a cotação das vendas, e, em consequência, significando maior de margem lucros para os manufaturadores. Temos visto isso em qualidades de cigarros, de sabonetes e de outras coisas.

Daí, o afirmar-se que todo o progresso de nossos dias, tem também o seu lado de errado com aparência de certo; alguma coisa assim de criminoso, porque é, de qualquer maneira, um embuste generalizado.

Acontece que a gente vai se habituando a tudo e com tudo se conformando, porque não ha outro solução; e não ha outra solução, porque nem sempre e nem em todos os setores das atividades humanas, existe aquele apanágio da decência que se chama lealdade.

De qualquer maneira, resta-nos o consôlo de que vivemos no século XX e desfrutamos da “técnica moderna"

Extraído do Correio de Marília de 4 de junho de 1959