segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Importante entidade de classe (30 de janeiro de 1960)



Existe em Marília uma entidade de classe que apresenta importância suma e capital na própria vida de Marília. É a Associação Comercial, advogada legítima das classes comércio industrial, os sustentáculos do progresso de um centro, o ponto discriminativo do dinamismo de uma “urbe”.

Longe de nós qualquer sentimento pejorativo ou depreciativo com respeito aos dirigentes pretéritos da mencionada entidade. No entanto, justo é reiterarmos, que o chamado “sangue novo” representa mesmo a seiva do dinamismo e da operosidade dentro de um núcleo, metamorfoseando-o radicalmente, fazendo-o ganhar personalidade nova e atitudes dinâmicas mais constantes, com inovações intermitentes.

Isso vimos na gestão diretora anterior da ACM, sob a presidência do Sr. José Rojo Lozano. A entidade, conforme todos sabem e de acordo com o que provam os próprios documentos contábeis da ACM, terminou 1958 de um módo e um 1959 de outro. Para melhor, completamente melhor. Reencontrou-se positivamente. Ganhou seu verdadeiro lugar, deixando para traz um marasmo crônico que apresentava e que tantas reclamações ocasionava dentro os próprios associados, cujo número até fins de 1958 éra incrivelmente ínfimo.

Segunda-feira última, operaram-se as eleições para a escolha dos novos dirigentes da mencionada Casa. Satisfeitos os associados e assistidos pela ACM, com a gestão profícua do Sr. Lozano, e, não tendo este pretendido continuar segurando o leme da entidade, chamaram a comandar a nau comercial, uma outra plêiade de moços capazes, dinâmicos e bem intencionados capitaneados pelo sr. Athos Fragata.

O novo presidente da Associação Comercial é jovem, operoso, empreendedor. Conta com um grupo de auxiliares dignos e competentes. Está, portanto, em condições próprias não só para prosseguir nas pegadas do antigo presidente, como igualmente, para imprimir novos rumos, novas orientações e nova vida ao organismo importantíssimo que é a Associação Comercial de Marília.

Dissemos que a ACM é uma importante entidade de classe. E de fato o é. Sabem todos que o comércio e a indústria são os verdadeiros sustentáculos de uma cidade. Eles é que pagam os impostos, canalizando para os cofres públicos da União, do Estado e do Município, o suficiente para ocorrer às despesas das Forças Armadas, do funcionalismo público, das realizações oficiais de interesse geral. O comércio e a indústria, principalmente o comércio que é mais vasto, sustentam as demais entidades de classe. Sem êles não haveria futebol, outras entidades sociais ou assistenciais, porque o valor do quadro associativo de quaisquer entidades, é na realidade representado pela colaboração do comércio e da indústria.

Daí o justificar-se que êsse mesmo comércio e éssa mesma indústria, que significam esteios incontestes na própria vida de Marília e “peso ouro” na balança do dinamismo da “cidade-menina”, tenham a sua real entidade de classe à altura de representa-los e representa-los bem. Sua força é imensurável, porque representa a união dos comerciantes e industriais. Com uma direção diligente, essa força ganha ainda formas maiores, prestígio indestrutível.

A substituição de Lozano por Fragata, operou-se em boa ocasião, com perspectivas excelentes de um progresso sempre mais crescente para essa importante entidade de classe que é a Associação Comercial de Marília, a legitima “Casa do Comerciante”.

Não há, portanto, menosprezo aos dirigentes anteriores daquele simpático, útil e eficiente organismo. Mas é inegável que o chamado “sangue novo” erradica a pusilanimidade de um corpo.

Ao ensejo deste registro, congratulamo-nos com os associados da ACM, pela feliz escolha de seus novos dirigentes, ao mesmo tempo que formulamos a estes, os propósitos de continuidade de ações em prol das classes que tão condignamente representam.

Extraído do Correio de Marília de 30 de janeiro de 1960

domingo, 29 de janeiro de 2012

Pingos e respingos esportivos (29 de janeiro de 1960)



Domingo vindouro (31/1/1960), o alvi-rubro mariliense dará combate ao alvi-anil sorocabano, pela segunda rodada do returno do Torneio dos Campeões. O São Bento, que não apresenta o mesmo plantel que iniciou ou concluiu o certame da “segundona” pela série “Paulo Machado de Carvalho”, onde obteve brilhante segundo lugar, não apresentou muita felicidade no super-certame óra em vigência. Sem Zizinho, Paulinho, Ceninho, Gelson, Pedro e ultimamente mesmo Paulo Rezende, o alvi-rubro teve que “fazer das tripas coração” e lançar mão de elementos reservas e amadores. Essa, dizem, é a primordial justificação dos insucessos seguidos do quadro mariliense no atual campeonato.

Como se sabe, o São Bento, de Sorocaba, é também um time considerado fraco. O alvi-rubro deverá bater o esquadrão sorocabano por larga margem de gols, a fim de prestar aquilo que poderia chamar-se de “homenagem do clube” à sua “torcida”. Isso é o que todos esperam.

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Por falar em fragilidade de plantél, sabido é que o alvi-rubro não cogitou de fazer novas contratações para suprir as faltas deixadas por alguns jogadores que já debandaram e que acima foram citados, porque o quadro não poderia apresentar no Torneio dos Campeões, jogadores outros que não os foram convenientemente inscritos no campeonato recentemente findo. Essa situação, portanto, perdurará até o término do atual certame, pois mesmo que o S. Bento contratasse o próprio Pelé, êste não poderia defender o São Bento no Torneio dos Campeões.

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Mesmo assim, a direção sambentista, na ocasião de renovar o plantél para o próximo campeonato da primeira divisão não deve esquecer de prestigiar os elementos da terra. Assim é que Afrânio, Pompeu, Geraldo, Nenê e outros.

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Já que falamos em prestígio, justo é que se reconheça, mesmo face à contingências especiais, que Amauri e Zequinha foram os elementos que maiores “chances” e oportunidades tiveram no plantel sambentista!

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Bassú, o extraordinário médio esquerda sambentista, um dos jogadores mais firmes e harmoniosos do plantel alvi-rubro, desde que realizou o primeiro ensaio sambentista frente ao XV de Novembro do Jaú, até hoje está no time, não tendo ficado fora um jogo sequer, seja de campeonato, seja amistoso. Bassú é merecedor, por isso, de muitos louvores.

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Partida excepcional disputou o goleiro Celso, domingo último em Guaratinguetá. O “Gilmar preto” está atravessando uma forma espetacular e se constituindo num ponto alto do plantel alvi-rubro.

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Pacheco não correspondeu domingo passado, jogando como “ponta de lança”. Estranhou a crônica, que sendo Pacheco um profissional experimentado, não tivesse o mesmo pelo menos procurado colocar-se nas proximidades da área contrária, com a intenção que fôsse de “atrapalhar” no mínimo o centro médio ou o zagueiro central da Esportiva de Guará.

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Cumprindo pena imposta pelo TJD da FPF, o estupendo meia Waltinho não atuará contra o clube de Sorocaba domingo vindouro. Waltinho só será lançado no dia 7 de fevereiro, contra o S. C. Corinthians, na cidade de Presidente Prudente.

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Oia, o massagista (suplente de Manja), é colecionador de pedras. Os fãs do São Bento e do Oia, poderão brindá-lo com objetos dessa curiosa coleção. Oia coleciona pedras de qualquer tipo, mesmo paralelepípedos. As únicas pedras que o massagista não aprecia são as pedras de rins e de bexiga.

Extraído do Correio de Marília de 29 de janeiro de 1960

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

B.B. teve um Bebê (23 de janeiro de 1960)



O epígrafe supra não é de nossa autoria. É de um jornalista de escól embora provinciano: Ruy Menezes, diretor do jornal “Correio de Barretos”.

Numa das últimas edições do mencionado diário, Ruy Menezes focalizou em sua coluna de fundo, o fato do nascimento do primogênito de Brigitte Bardot, a fabulosa e famosa BB. E o fez de maneira como deveria mesmo ser feito. Analisou, não o nascimento de mais um pimpolho, mas a mãe deste, a BB. Nessa apreciação, Ruy Menezes deixou claro o sentido moral da questão toda, detendo-se na conduta das exibições cinematográficas de Brigitte Bardot, sua fama, suas formas, sua beleza (?), seu porvir e inclusive a sua dignidade de mulher vulgar e de mãe real.

O artigo, gostoso de ser lido, sensato em sua vasa, oportuno, merece ser difundido. Isto vamos fazer, transcrevendo-o “in totum”.

Vejamo-lo:

“Com bastante estardalhaço, como se êsse negócio de dar à luz fosse coisa muito difícil para as mulheres, noticiaram os jornais do mundo inteiro, em primeira página, ao alto das “manchetes”, que Brigitte Bardot teve o seu primeiro filho.

Mas, afinal quem é essa senhora? Nada mais que uma artista cinematográfica muito medíocre e feia, que não penteia os cabelos, que tem a boca estofada para fora, como se um maribondo tivesse mordido seus lábios, e que, tendo inegavelmente um corpo bem feito, se notabilizou por expô-lo à vista das plateias do mundo todo. Por qualquer coisinha a Brigitte bota as nádegas à mostra!

Não é preciso dizer que, com isso, por via dessa falta de vergonha, é, hoje, mulher famosa, tanto que seu casamento com um gajo qualquer deu trabalho inclusive no glorioso exército francês. É que o marido, convocado para as fileiras após seu consórcio com BB, foi tomado de doença grave e séria: dizem que a nostalgia determinada pela distância da bem-amada, coisa que, atacando, de comum, todos os maridinhos do mundo, sòmente no caso do esposo de BB foi que mereceu consideração. E o pior é que o rapaz já se conformou com o seu novo apelido: o marido de BB – destino inglório reservado a todos quantos caem nessa tolice de desposar mulheres celebres. Perdem a personalidade por via disso. Ah! se esses trouxas soubessem como é bom um sujeito casar-se com uma mulher feia e conservar, no entanto, a personalidade, ser êle mesmo e não, aquele que tem uma mulher cobiçada por brancos, pretos, amarelos e vermelhos, como se tudo aquilo não tivesse dono, fosse terra-de-ninguém, a ser utilizada a vontade, sem um pedido de licença a quem quer que seja!

Mas, voltemos: a BB teve um bebê! Que os tenha às dúzias, são os meus votos, mas, que os traga à luz dentro daquele recato indispensável à importância e grandeza da maternidade, que é coisa séria, bem que Deus concede sob certas e árduas condições. Que os filhos, que forem nascendo agora, façam daquela mãezinha da pá virada uma criatura compenetrada da nova missão que lhe foi confiada, do novo papel que deverá representar, não mais em suas fitas escandalosas, mas, na tragédia da vida, na luta pela reprodução da espécie e nessa caminhada angustiosa do homem pelo planeta.

Que se esqueça ela de fazer beicinhos para endoidecer os parvos que se refestalam nas poltronas dos cinemas e grudam os olhos ávidos na téla para o nú provocante de BB, sem pudor, imoralíssima, como se as flôres da graça feminina não mais se valorizassem com o perfume do recato e da humildade. Que não mais se dispa para o público do mundo inteiro, porque, a continuar dessa forma, um dia, BB terá notícia, daqui a alguns anos, que, numa “reprise” sensacional de seus “films” indecentíssimos, na plateia, um jovem escondeu o rosto envergonhado, mergulhado entre os ombros e o corpo todo escorregando pela cadeira abaixo – o seu próprio filho, que pretendeu vêr para orgulhar-se da “arte” de sua mãe, glorificada pela voracidade dos apetites da humanidade tôda!”

Extraído do Correio de Marília de 23 de janeiro de 1960

domingo, 22 de janeiro de 2012

Ontem e hoje (22 de janeiro de 1960)



Existem coisas que obrigam a “dar tratos à bola” mesmo. A divergência do “modus vivendu” dos brasileiros de 20 anos para cá, por exemplo, é uma delas.

Muita gente diz por aí, que no passado, a vida era bem melhor, muito mais fácil, etc.. Outras pessoas, cinquentonas, por hipótese, recordam saudosas o chamado tempo da “vaca gorda”, quando se comprava um saco de pura farinha de trigo marca “Buda” por 16 mil réis, uma fazendola por 15 contos de réis e um garrafão de cachaça, dentre outras coisas, por 400 réis.

Além de vinte anos pretéritos, não temos nós a mínima lembrança de como eram as coisas; o que sabemos foi por ouvir dizer. Mesmo assim, notamos que apesar de tudo isso, de modo geral, a vida melhorou, embora isso pareça um paradoxo.

Vejamos:

Há vinte anos passados, nenhum operário ou lavrador (mesmo colono), tinha um bom terno de casimira, um bom par de sapatos “para passeio”, um rádio elétrico ou a pilha, e, muitas outras coisas que significam conforto e adiantamento. Quanto muito, a pessoa tinha um terno de brim cáqui para os “dias santos”, missas ou casamento; o “sapato de passeio” era sempre a botina ringideira mais nova. Ninguém viajava de primeira classe, ninguém comia em restaurante a não ser em caso extremo.

Hoje, não. Em que pese toda a miséria que campeia por aí, qualquer caboclo vem à cidade com seu terno de casimira; se perde a “jardineira” para o regresso, não titubeia em alugar um “biriba” ou um automóvel; tem seu rádio à pilha; viaja de primeira classe (no passado, os carros de primeira classe viajavam quase vazios; hoje é o contrário). Procura depositar dinheiro em Caixa Econômica. Geralmente é alfabetizado e até sabe preencher um cheque.

No passado, poucos tinham a “felicidade” de conhecer São Paulo, de dar “u’a olhadinha” no Prédio Martinelli. Hoje é rara a pessoa que não conhece a Capital, que não esteve em Aparecida cumprindo um voto, que não visitou o Paraná e não viu o mar em Santos! A porcentagem é grande, não tenham dúvidas.

Entretanto, hoje ninguém compra um saco de farinha “Buda” por 16 mil réis e nem outras coisas baratíssimas como no tempo da “vaca gorda”.

Melhorou ou piorou o tempo entre ontem e hoje?

Parece, é lógico, que melhorou.

Médico, por exemplo, ninguém procurava a não ser em último caso; doencinhas de aparência comum eram “resolvidas” por “benzedeiras” e “curandeiros” ou pelo boticário. Hoje a gente procura o médico até por um simples resfriado, mesmo sabendo que vai tomar penicilina e alguns comprimidos anti-gripais! Naquele tempo, dizem, as consultas médicas custavam cinco mil réis, no máximo dez.

Ninguém tomava siquer um cafezinho em bar, que custava 100 réis. Caboclo olhava tudo e não gastava nada a não ser o necessário, o estritamente necessário. Hoje o homem, mesmo o da lavoura, tornou-se exigente. No restaurante reclama, na condução, idem. “Está pagando e tem direito” – é o que afirma.

Caboclo hoje entende e acompanha futebol e política. Tem até amizade pessoal com alguns “cobrões”.

E a gente na cidade? No passado, até u’a macarronada éra um prato finíssimo, que nem todos os domingos era preparado. Sobre-mesa nem todos sabiam o que éra. Móveis bons, colchoes de móla, vitaminas, bons filmes falados, som estereofônico, etc., não existiam.

A gente se queixava da vida no passado e continua a queixar-se no presente. Ontem, dizem, as coisas “andavam ruins”. Hoje, repete-se, as coisas caminham mal.

Pensando bem, mas pensando bem mesmo, com toda a ruindade, com toda a miséria, com todas as dificuldades, mesmo assim, parece que hoje é bem melhor do que ontem.

Extraído do Correio de Marília de 22 de janeiro de 1960

sábado, 21 de janeiro de 2012

Vai funcionar a Câmara Municipal (21 de janeiro de 1960)



Hoje deverá “debutar” a nova Câmara Municipal de Marília. Os vereadores reeleitos e os recém-eleitos, deverão na noite de hoje, pela primeira vez na atual legislatura, reunirem-se na hora regimental.
Dez processos estão pautados na chamada ordem do Dia da sessão que terá lugar hoje noite. Com menor ou maior importância, todos apresentam, de uma ou outra fórma, motivos de apreciação, de discussão, análises, aprovação ou não. Isto é, dizem respeito ao interesse geral.

No corpo legislativo municipal, alguns nomes passarão a integrar, pela primeira vez, o responsável cargo de vereador. Outros, pelo contrário, já se apresentarão com a necessária bagagem legislativa, conquistada em período pretérito.
Em época pré-pleito eleitoral, repetidas vezes nos ocupamos através desta mesma coluna, com respeito ao fato de que os então candidatos a vereadores, deveriam ter em mente, antes e acima de tudo, que a vereança, antes de mais nada, maximé nos municípios onde realmente se enquadra na condição de “múnus público”, é um encargo e não propriamente um cargo. Assim, apelamos para os marilienses que se mostravam propensos a disputar uma poltrona na Câmara Municipal, que só o fizessem se de fato estivessem bem intencionados, se dispusessem de tempo suficiente e se de fato estivessem propensos a trabalhar por Marília e sua coletividade.
É chegada a hora portanto, de ver-se concretizada éssa necessidade.
É aprazado o momento, pois, de conhecer-se esse modo de proceder.
Ao ensejo em que registramos o início das atividades legislativas do município, neste ano da graça de mil novecentos e sessenta, formulamos aos senhores vereadores marilienses, os nossos votos sinceros de uma grande, feliz e sadia inspiração de trabalhos honestos, profícuos e bem intencionados em prol de nossa cidade e de nossa gente.
Simultaneamente, auguramos aos senhores edís, o capeamento de um clima de harmonia total entre todas as camadas políticas com assento na edilidade, com a caracterização do respeito mútuo e da compreensão recíproca, a fim de que o povo, especialmente a parte que acompanha os trabalhos do Corpo Legislativo local, não venha a alimentar a idéia que domina a maioria das gentes, de que os bons políticos são exclusivamente aqueles que melhor se xingam e se “gozam” entre sí.
Marília, cidade que cresce vertiginosamente, depara um problema angustiante: face ao seu dinamismo, os problemas gerais, sempre aumentantes, nem seguidamente se mantem no mesmo ritmo das Providencias saneadoras; isto é, quando se estende a iluminação pública, por exemplo, a determinada rua de determinado bairro, dezenas de outras vias já estão a reclamar dito melhoramento e quando se atende a necessidade destas, um número maior, lá na frente, reclama com insistência idênticas providências.
São problemas naturais, próprios dos centros progressistas. Como tal, exigem dos administradores, preocupações constantes, providencias acomodadores seguidas, trabalhos ininterruptos.
Daí a necessidade de harmonia de trabalhos, coordenação de atividades e de ações, desprendimento, e, acima de tudo, capacidade e boas intenções.
Isto é o que esperamos da nova Câmara Municipal que, na noite de hoje deverá reunir-se pela primeira vez na atual legislatura.
Em repetição, nossos votos sinceros de toda a felicidade e sábia inspiração aos senhores vereadores marilienses.
Extraído do Correio de Marília de 21 de janeiro de 1960

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Homens públicos no cinema (20 de janeiro de 1960)


Nós, confessamos, nada entendemos de cinema. Sabemos apenas apreciar um filme de conformidade com nosso gosto pessoal; isto é, podemos gostar de um filme tecnicamente fraco, ao mesmo tempo que podemos não apreciar um enredo extraordinariamente notável. O que nos prende na sala de projeção de um cinema, é o gênero da história do filme. Nada mais. Assim como existem as pessoas que gostam de filmes policiais, de revistas, de filmes de “far west”, de romances de amor, etc., nós também temos as nossos predileções. E, ao nos enquadrarmos na apreciação de uma película de nosso gosto, deixamos de analizar a parte técnica, as luzes, o sistema de fóco, etc., para observarmos, como leigos, apenas o enrêdo do filme. Aliás é isto mesmo que fazem quasi todos, com a diferença apenas que alguéns, sem entender patavina de arte cinematográfica, se dão ao luxo de comentar minúcias técnicas da película apreciada.

O assunto que nos levou a ocupar o espaço de hoje neste jornal não é bem êste. Vamos nos referir ao fato de que o ex e atual vice-governador do Estado deverá, brevemente, participar de um filme cinematográfico, “A Primeira Missa”, que dentro em pouco será rodado sob a direção do cineasta Lima Barreto. O general Porfírio da Paz participará desse filme, fazendo o papel de farmacêutico (como é) do celuloide, devoto sincero (como é também) de N.S. da Conceição Aparecida.

Segundo se sabe, o general Porfírio da Paz aquiesceu em emprestar essa colaboração ao Sr. Lima Barreto e também à firma “Campos Elíseos Cinematográfica” (que nada tem a ver com o governo, segundo consta, apesar do nome).

Acontece que Lima Barreto não ficou só no convite formulado ao vice-governador do Estado. Dirigiu-se também ao ex-governador Jânio Quadros pedindo ao atual candidato ao Catete, a sua participação num filme a ser rodado brevemente. Jânio concordou, conforme foi noticiado. Será também artista.

Para muitos, poderá causar espécie esse fato de que dois eminentes e famosos homens públicos do Estado, tenham concordado em se apresentar nas telas, como participantes dirétos de películas cinematográficas. Principalmente quando todos conhecem as peripécias e as odisséias que empreendem muitas pessoas, ao afã de galgar as escadarias da cinematografia, sofrendo no início, experimentando desilusões seguidas, ocasiões em que nem todos alcançam com facilidade, os píncaros da fama e da preferência pública.

Em verdade, não deixa de apresentar a causa em questão, um saborzinho de esquisito, uma coisa assim “sui generis”. Pensamos nós que está cérto. Está exato e não merece comentários de desastre ou mesmo de gozações, esse particular. Isto porque vem a atestar um dos mais exemplos da existência de nosso regime democrático, embora eivado de falhas. É mesmo confortador, o sabermos que dois homens públicos consagrados, tenham concordado em igualar-se neste pormenor, aos simples ou famosos artistas e aos humildes “pontistas” da cinematografia nacional, de igual para igual, sujeitos as mesmas exigências técnicas, de horários, de contratos, etc..

Não é mesmo um motivo de satisfação, o sabermos que no Brasil ainda desfrutamos do benfazejo ar democrático, tom bem expresso na Constituição, que nivela todos os brasileiros perante a lei e perante os homens?

Foi assim que vimos os convites formulados aos srs. Porfírio da Paz e Jânio Quadros, para a participação dêstes em filmes cinematográficos.

Assim é que respondemos o pedido do nosso leitor A. Alves, acêrca de como vimos nós, jornalistas, essa futura interpretação de Porfírio e Jânio.

Extraído do Correio de Marília de 20 de janeiro de 1960

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Novo Prefeito... Velhos problemas (13 de janeiro de 1960)





O epígrafe parece conter uma intenção segunda, mas tal não acontece. Efetivamente, o prefeito novo terá que enfrentar problemas velhos.



Em Marília ocorre o fenômeno de que a cidade, moderna e dinâmica, cresce ascensorialmente. Crescendo ascensorialmente, apresenta necessidades urgentes, imediatas, intermitentes. Nem sempre póde haver, portanto, um perfeito equilíbrio e uma justa equanimidade entre a receita e a despesa, uma vez que os gastos urgidos são aumentativos, em relação mais acentuada do que as rendas.



Daí uma série de dificuldades; quando se leva a luz num bairro já o outro está exigindo o mesmo melhoramento e outro, surgindo, clama pela mesma melhoria. Dota-se de esgôto uma rua e quando serviço está prestes a terminar, já outras inúmeras vias públicas exigem o mesmo. Lógico está que os problemas existem, existem sempre. Tornam-se velhos. Razão pela qual, encimamos o artigo com o título em téla.



De tudo isso, uma coisa é certa, pelo menos para nós: É bom a gente ser neutro, independente, ano ter compromissos com partidos ou homens políticos. É o nosso caso.



Por exemplo, dentro de nossas observações de cronistas, estivemos analisando as primeiras passadas do atual Prefeito de Marília, Sr. Octávio Barretto Prado. E vimos que o homem está bem intencionado, está disposto a trabalhar bem e a fazer um bom govêrno. Desde o dia primeiro até ontem, o Sr. Tatá não descansou. Esteve sempre onde foi reclamada a sua presença. Atendeu a milhares de pessoas, concedeu audiências especiais, andou, trabalhou de fato. Dezenas de pequenos pedidos foram dirigidos ao novo Prefeito. E ele atendeu a todos, dentro de suas possibilidades, sempre com a melhor boa vontade.



Assuntos diversos reclamaram a presença de Tatá em diversos pontos da cidade; erosões, estradas, água, etc.; e o Prefeito ali compareceu. Estudou assuntos vários, esmiuçou problemas velhos. Gostamos destes primeiros dias de trabalho do atual prefeito.



E nós podemos dizer que gostamos, porque apreciamos a conduta do Sr. Octávio Barreto Prado, exclusivamente do lado critico. Não somos políticos e muito menos adhemaristas. Não temos compromisso com Tatá, não pedimos favores pessoais e nem fizemos favores ao novo Prefeito. Afirmamos isso publicamente, em alto e bom som.



Pelo que vimos, Marília terá muito a lucrar. Terá benefícios inumeráveis, benefícios que reverterão em pról do próprio povo. Isso nos alegra, porque (não podemos negar) somos extraordinariamente bairristas e cem por cento marilienses.



Para completar essa idéia, éssa observação, temos a destacar a atuação gentilíssima da bancada udenista na Câmara Municipal, traduzida na palavra eficiente e sensata do vereador Guimarães Toni, quando afirmou que a UDN não fará oposição sistemática ao atual Prefeito, e, pelo contrário, prestigiará os atos de S.S., visando unicamente os interesses de Marília e de seu povo.



O Prefeito novo, repetimos, deparará com problemas velhos. Com boa vontade, com a colaboração diréta de seus auxiliares imediatos e com o prestigio de todos os marilienses, o Sr. Octávio Barretto Prado poderá cumprir fielmente as suas obrigações.



Extraído do Correio de Marília de 13 de janeiro de 1960

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Salada de notícias (9 de janeiro de 1960)





Quarta-feira última (06/01/1960), à noite, muita gente ficou “presa” durante bastante tempo, em diversos lugares, face ao período chuvoso. Frente a uma vitrine de uma casa comercial, um grupo de homens, impacientes com o temporal, “matavam o tempo” em conversas variadas. Em dado momento, uma das pessoas daquela “reunião compulsória”, comentou com o vizinho:



- Esta chuva vale ouro!



Só assim, no ano em curso, é que poderemos ter feijão e arroz por preços mais baratos.



E o outro, que até ali permanecera calado, retrucou:



- De fato, a chuva é mesmo boa para a lavoura. Teremos mesmo melhores colheitas. Mas isso não significa que as coisas baratearão, não; os intermediários comprarão tudo, por preços mais baratos, estocarão tudo, “amoitarão” os gêneros e farão como sempre; só que desta vez, ganharão ainda mais dinheiro à custa dos brasileiros pobres!



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Na maternidade dos Afogados, no Recife, nasceram 3 gêmeas, para alvoroço da imprensa local, que em grande número compareceu para as inevitáveis fotos e entrevistas. As garotinhas estão passando bem, e chamar-se-ão respectivamente, Maria de Jesus, Maria de Fátima e Maria Luiza. Nas três Marias de Recife não há, com certeza, qualquer alusão às Três Marias de JK. O mesmo não se pode dizer, entretanto, da maternidade onde nasceram, cujo nome é uma alusão clara ao pai das garotinhas, que sendo pobre, agora mais do que nunca andará “afogado” em dívidas!



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O deputado Tenório Cavalcanti arrolou mais 4 testemunhas que irão depor no caso Sacopã, ultimamente um pouco fora do cartaz e em perigo de cais em ponto morto. Com mais essas testemunhas, Tenório irá alimentando o caso, e evitando que o seu nome saia das colunas dos jornais, que lhe dão publicidade gratuita!



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Telegrama de São Paulo dá conta de que um empregado da Empresa Funerária “São Luiz” compareceu à polícia, solicitando garantia de vida sôbre o pretexto de que está sendo ameaçado de morte por um dos próprios patrões. Caso algo curioso esse, que, sem sobra de dúvidas, dá margem ao seguinte pensamento: “Será que a citada empreza funerária está assim com tanta falta de clientes?”



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Justificando perante o funcionalismo municipal o seu gesto vetando o projeto que concedia abono de Natal, o prefeito Adhemar de Barros afirmou que não podia pagá-lo pois encerrou o ano com apenas três milhões de cruzeiros em caixa, e o abono exigia 160 milhões para ser pago. E como ele não entende nada de magica, só podia fazer o que fez!



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Interessa-se o novo prefeito pela construção do novo Mercado em Marília. A julgar pelo fato, dentro de mais alguns anos teremos mercado novo com preços mais novos ainda.



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O brigadeiro Adamastor Cantalise, presidente do inquérito sobre a catástrofe do Viscont da Vasp, anunciou que vai convocar a imprensa para uma entrevista coletiva, a fim de dar a conhecer a opinião pública as causas daquele desastre. A medida já foi tomada em face dos protestos de alguns jornais contra o arquivamento do inquérito. Adiantando o seu pensamento, aquela autoridade afirmou que a prática da aviação militar nesta capital está se tornando um verdadeiro inferno, pois o tráfego aéreo comercial é muito intenso! E como não pode haver sinalização de tráfego no espaço, de vez em quando alguém dá uma trombada!



Extraído do Correio de Marília de 9 de janeiro de 1960

domingo, 8 de janeiro de 2012

A reorganização da COMAP (8 de janeiro de 1960)


Está acéfalo o organismo controlador e fiscalizador de preços da cidade.

A Comissão Municipal de Abastecimentos e Preços precisa ser reorganizada e entrar em ação imediatamente. Precisa, é bem o têrmo, pois uma série de abusos vem se verificando a miude entre os marilienses, em diversos setores.

O novo prefeito mariliense, deverá, com urgência, interessar-se pelo assunto, reorganizando a COMAP e pondo-a a trabalhar. Na oportunidade dêste lembrête, sugerimos ao sr. Octávio Barretto Prado, que integre o organismo referido, de preferência com alguns elementos da camada popular, aqueles que mais diretamente sentem os efeitos das altas e os ricocheteios da ondulação inflacionária. Sobretudo, por pessoas dispostas a trabalhar e que possam dedicar alguns momentos diários nessa fiscalização, pois, verdade é, nem todos os integrantes das gestões anteriores dêsse órgão, puderam ou souberam bem cumprir essas faculdades.

As pessoas que não puderam desenvolver essas funções de maneira direta, eficiente e sincera não devem ser indicadas e nem nomeadas. Trata-se de serviços gratuitos, é lógico. Mas serviços relevantes, de verdadeira utilidade pública, de interêsse direto das famílias marilienses. Precisamos, em Marília, estabelecer algumas coordenadas mais objetivas e que deixem de dar margem ao campeonato de abusos diversos. Urge, por outro lado, que o próprio comércio, maximé o varejista, se digne também a emprestar essa colaboração (que tem o seu fundo patriótico, diga-se de passagem) ao presidente da COMAP, sem a imposição de alevações quase diárias e exageradamente percentuais, em diversos produtos, gêneros e coisas.
A boa vontade, no caso, deve ser de todas as partes: da COMAP, do comércio e do próprio povo.
As funções da COMAP são múltiplas, difíceis mesmo. Mas são legais e sobretudo, justas. Daí os motivos a justificarem a necessidade de sua reorganização. Reorganização e operosidade, frise-se. Mercado, feiras livres, vendedores ambulantes, diversos estabelecimentos comerciais precisam sentir êsses efeitos e seus responsáveis perceber a importância e a necessidade de uma colaboração mais apertada, de modo geral. Estamos vendo muita coisa errada nesse campo em Marília. Tanta coisa, que se torna até difícil de enumerar.
Portanto, necessário é que o sr. Prefeito Municipal e seus novos colaboradores atentem bem para êsses pormenores. A COMAP deve, urgentemente, ser reorganizada. E trabalhar. E não autorizar aumentos sôbre aumentos, mediante simples justificativas das partes interessadas, sem u’a análise pura, direta, técnica, das razões apresentadas. Em beneficio geral, destaque-se.
Por certo, o sr. Prefeito Municipal já pensou sôbre essa questão, que, embora de aparência insignificante em relação ao ról dos vários problemas municipais, é também assunto que encerra responsabilidade, pois diz respeito direto aos interêsses dos munícipes.
Ao deixar aqui a presente lembrança, deixamos também consignados os nossos votos para que tudo possa ser concretizado conforme esperam os marilienses, especialmente os marilienses menos favorecidos pela fortuna.
Extraído do Correio de Marília de 8 de janeiro de 1960

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Notícias avulsas (6 de janeiro de 1960)




Tivemos mau início de ano, no que diz respeito aos preços dos gêneros de primeira utilidade. Tudo subiu, incrivelmente a partir do dia 1º de janeiro: carne, arroz, cafezinho, feijão, etc., etc..

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Nova Odessa, néo município paulista, desmembrado de Campinas, empossou seu primeiro prefeito no último dia 1º. Até aí, nada de mais; acontece que o prefeito nova-odessense tem o curioso nome Alexandre Vassoura.

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Pela segunda vez, os direitos da revista “Time” elegeram o presidente Eisenhower como “o homem do ano”.

Diz a revista que as relevantes realizações de Eisenhower, em 1950, foram: fazer popular a economia nos Estados Unidos e fazer-se popular na sua recente viagem por países da Europa, Ásia e África.

“Eisenhower destaca-se como o cidadão melhor conhecido e que mais agrada em todo o mundo”.

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O advogado do sr. Milton Freitas de Souza, ex-diretor do SESC, acusado de haver dado um desfalque de 37 milhões de cruzeiros àquela autarquia, conseguiu provar que seu constituinte não deu desfalque, mas apenas “emprestou” aquela importância a si próprio. Foi um “empréstimo” sem a vontade do dono, mas foi empréstimo!

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Com o fito de emprestar colaboração ativa à campanha pró eleição de Jânio, o marechal Juarez Távora filiou-se ao PDT, secção do Estado do Rio de Janeiro.
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Divulga a imprensa carioca as previsões do “celebre” astrólogo Mirakof, para 1960. Garante o homem que no ano em curso haverá vários suicídios no rádio nacional, onda de desquites na alta sociedade, novas visitas de esquadrilhas de discos voadores, inundações, fome e miséria por vários Estados do Brasil, descida de pilotos soviéticos na lua, mudança do Governo Federal para Brasília, e para arrematar, derrubada de Nikita Kruchev do Governo soviético e de Frondizi na Argentina.

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Domingo vindouro a A. A. São Bento enfrentará, em peleja programada pelo calendário do Torneio dos Campeões, a representação do Catanduva F. C.. O prélio terá lugar na Avenida Vicente Ferreira, esperando-se ampla, total e cabal reabilitação dos alvi-rubros marilienses, agora mais credenciados ainda, face a belíssima “performance” apresentada domingo último em Batatais.

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Destacado cientista americano apoiou a teoria de que existe vida em outros planetas, mas advertiu contra a tentação de pensar que “nossos próximos do espaço” – quando os encontrarem os aeronautas terrestres – se parecerão com o homem da Terra.

“Seu aspecto será completamente diferente de qualquer coisa que possamos imaginar”.
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Moradores da Vila Jóquei Clube reclamam que por ocasião da última campanha eleitoral, candidatos à vereança e mesmo à Prefeitura, prometeram um telefone público para aquele bairro. A necessidade é indiscutível, pois é um dos pontos mais afastados do centro e dificuldades inúmeras deparam os habitantes da citada vila, por ocasião de necessidades de socorros de urgência, tais como em casos de incêndios, roubos, doenças, etc..
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O Governador Leonel Brizola, em entrevista à imprensa, desmentiu as notícias que circularam na Capital da República, segundo as quais êle estaria tramando um atentado contra os srs. Jânio Quadros e Carlos Lacerda, quando da próxima visita dêsses próceres políticos ao Rio Grande. Afirmou o sr. Leonel Brizola que não deseja a morte do sr. Carlos Lacerda. Ao contrário disso, deseja que êle viva muitos anos ainda, para pagar seus grandes pecados.
Extraído do Correio de Marília de 6 de janeiro de 1960

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Banda Municipal (5 de janeiro de 1960)





Inúmeras vezes temos focalizado nesta coluna, a urgência de a Corporação Musical Mariliense ser reorganizada e melhor amparada pelos poderes públicos.

Sabemos constar do plano de ação do prefeito Barretto Prado, interêsses e providências no sentido de solucionar vários impasses existentes e de há muito pendurantes no mencionado organismo, cuja vida, há bastante tempo, deve-se exclusivamente à boa vontade do maestro Jorge Galati.

A Banda Municipal está “entregue às traças”, diga-se a verdade. Não possui instrumental condigno; não possui sequer um local para guardar as suas estantes, que ficam amontoadas em plena Praça Saturnino de Brito, expostas ao sol e à chuva. Seus músicos, não possuem o tradicional uniforme, apesar de que um movimento particular foi feito neste sentido, com a angariação de 33 mil cruzeiros, quantia insuficiente para atender o “quantum” das despesas de 15 trajes especiais. A sala destinada aos ensaios da Corporação, cedida pela municipalidade é uma aberração contra tudo, inclusive contra os mais elementares princípios de higiene (sem água e sem instalações sanitárias) e está prestes a desabar.

Os músicos percebem u’a ninharia perfeita. Um ordenado variável, que às vezes não chegar a somar sequer a quantia de 400 cruzeiros “per capita”! Ganhar essa insignificância para tocar aos domingos e ensaiar duas vezes por semana, convenhamos, é até ridículo.

Além disso, os abnegados componentes da Banda, executam as suas retretas, todos os domingos, em pé, desacomodados, por falta de um corêto, ou, pelo menos, um local condizente com a situação.

Conversávamos na noite de domingo último, com um dos componentes da Banda Municipal. Nos mostrava o aludido músico completa descrença na continuidade da Corporação, pelos motivos citados, os principais. E nos afiançava que a Banda deixaria de executar as suas costumeiras retretas, tão apreciadas pela criançada e também pelos adultos, pelo menos por enquanto. Dizia que estavam os dirigentes da Corporação, aguardando quaisquer atenções por parte do novo Prefeito Municipal.

Efetivamente, o sr. Octávio Barretto Prado e a nova Câmara Municipal, devem, com urgência, interessar-se pelo assunto referido. Não poderemos permitir o desaparecimento da Banda Municipal de Marília, sòmente por falta de amparo da municipalidade. Para não irmos longe, mencionaremos a Corporação de Vera Cruz, município de posses financeiras inferiores às de Marília, mas que sabe colocar a sua Banda Pública no lugar de devido destaque, prestígio e confiança.
Como dizíamos, na conversa com êsse músico, nos afiançava o mesmo que Marília tem possibilidades e facilidades de organizar uma Banda excelente, até com 30 figuras, pois existem em nossa cidade músicos bons e em número suficiente para tal. Sucede que nas contingências atuais e com as gratificações tão ínfimas, ninguém, a não ser o pequeno número dos componentes da Banda, se animará a formar o referido aumento.
Aí está, portanto, um assunto que deve interessar de perto o novo Prefeito Municipal e nesse sentido, deixamos aqui o lembrete.
Extraído do Correio de Marília de 5 de janeiro de 1960

domingo, 1 de janeiro de 2012

Aconteceu na Itália (1 de janeiro de 1960)





Fatos pitorescos (oriundos do imprevisto, da coincidência ou da ignorância), marcaram a passagem dos brasileiros na Itália, na última guerra mundial.



De momento, recordamo-nos de alguns, que, nesta oportunidade, vamos transmitir aos nossos leitores:



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Dirigir veículos na FEB não importava possuir carteira de habilitação e sim uma “carta-autorização-especial”. O autor destas linhas não possuía nem um nem outro documento.



Certa feita, com algum abuso, conseguimos sair com um “jeep” de nosso Pelotão. Ao estacionarmos (na mão) na rua principal da cidade de Porretta Terme, ficamos estarrecidos quando um “MP” (“Military Police – Policia Militar) veio em nossa direção. Procuramos logo tentar um disfarce, pois para nós o “MP” era americano e os “MP” americanos sempre foram intransigentes em questões de policiamento. Com um sorriso amarelo, dirigimo-nos ao “MP” e indagamos: “Do not stop here?”. O “MP” olhou desconfiado. Insistimos e perguntamos: “No parking here?”. Ai o “MP” “estourou”:



- “Velhinho”, pode fala o português, pois eu sou brasileiro...



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O terceiro batalhão do 6º regimento de infantaria, sem exagero, foi uma das unidades militares brasileiras mais sacrificadas em combate. Certa feita, transferindo-nos de 3º para o 4º “front” (quatro meses sem descanso e em combate permanente), em marcha de estrada, deparamos com quatro bonitas donzelas. Os soldados todos, há vários meses não viam u’a mulher nem em figuras de revistas. Todos ficaram “assanhados”, mas nenhum podia abandonar as “colunas” que caminhavam nas duas margens da estrada. Gonçalves, um soldado “metido a galã”, não se conteve e “deu a nota”, dirigindo-se às moças, certo, como das vezes anteriores, que as mesmas não entendiam o português:



- Eh, loira! Se eu te pegar eu faço...



E a moça, para espanto geral, retrucou num bom português:



- Pega, nada, seu bôbo; eu também sou brasileira, tá bem?



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Um soldado, de nome David, levara um colóte para a Itália. Tinha sobre a citada peça vestuária, incrível estimação. Mandou lavá-la para guardar no fundo da mochila. Certa tarde, foi buscar a roupa. Mal falando o italiano acabou por meter-se numa “barafunda” dos diabos.



É que “culote”, em regionalismo, significa “calça de mulher” e “lavar” em italiano é o mesmo que “tirar” em português. Pois bem: o David, vendo que toda sua roupa não estava ainda pronta, insistiu com a mulher, em lavar (tirar) o culote (calça). E a mulher deu uma “bronca” que os leitores bem podem imaginar...



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Metido a conquistador, o companheiro Luiz, de uma cidadezinha da Central do Brasil, tinha pouca sorte com as mulheres e pouca facilidade em assimilar o italiano. Para êle, acrescentar a sílaba “re” no final de cada palavra, resolvia perfeitamente a questão.



Certa vez, com o responsável por êstes escritos, Luiz foi parar numa pequena choupana. Para nosso espanto, havia sinal de gente (fumaça na chaminé). Acercamo-nos da casa. Espiamos pela janela (aberta). Vimos u’a moça “estirando” (passando) roupa com um ferro em braza. O Luiz idealizou logo mais uma de suas fracassadas conquistas. E ordenou (êle era sargento e o autor desta história, apenas cabo): “Te guenta, que eu vou salivar a bicha”. Colocou o carão na janela e disse: “Buon giorno”. “Buon giorno”, respondeu a moça.



Habitualmente, as pessoas nessas condições, nos convidavam a entrar, sentar e conversar, mas a moça em questão continuou a “estirar” a sua roupa. E o Luiz voltou à carga: “Buon giorno”. A moça respondeu novamente, sem dar a mínima atenção: “buon giorno”. Aí o Luiz julgou entrar com o seu “jogo” e saiu com esta:



- Io podere pulare janelare e beijare voi?



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Ou do italiano, ou do alemão que dominou a Itália por cinco longos anos na última guerra, a palavra “fique-fique” significava alguma coisa de pejorativo, assim como uma proposta desonesta. Nós ignorávamos o fato.



Certa ocasião, no porão de uma casa onde deveríamos passar a noite, aproveitávamos o ensejo para escrever uma carta para o Brasil. Abrimos a mochila, tiramos uma folha de papel e principiamos a escrever sôbre os próprios joelhos. Da mochila aberta, além da marmita e algumas peças de roupas brancas, contávamos com medicamentos de urgência (sulfa, esparadrapo, etc.) e um vidro de óleo para evitar as picadas dos mosquitos transmissores da malária e outras doenças.



U’a mulher ficara impressionada com o vidrinho referido e julgara tratar-se de algum preparado para o cabelo. E, insistentemente, nos solicitava o referido objeto, exatamente no momento em que estávamos preocupados com nossa correspondência. Tanto a mulher pediu e tanto nos aborreceu, que, num momento qualquer, dissemos explosivamente: “Fique, fique, não amole mais”. Foi a conta. A mulher xingou-nos, destratou-nos, chamou-nos de “maleducato”, “sensavergonha”, etc., dizendo que era u’a mulher séria, u’a mulher casada e muitas outras coisas...



Só mais tarde, uns três meses depois, é que viemos a saber a razão da “bronca” referida...



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Um pracinha, na presença do Papa Pio XII, ao vê-lo todo de branco, alto e magro, cotucou o outro e disse: Puxa, que vara de virar tripa”. Quando repreendido pelo companheiro, retrucou: “Conversa, “velhinho”, êsses italianos não entendem o português. Para espanto seu, o Santo Padre declarou: “Esses italianos podem não entender, mas eu entendo muito bem o português e você está perdoado”.



Extraído do Correio de Marília de 1 de janeiro de 1960

Ano Novo, Vida Nova (1 de janeiro de 1960)






A própria história, em suas diversas facetas, nos garante uma espécie de compromissivo, compulsando todos os exultamento, à euforia, ao contentamento exteriorizado de uma alegria ímpar, pelo transcurso da efeméride do Ano Novo. E afirma, com sabedoria ou não, que em “Ano Novo, vida nova”.



A idéia é boa, convenhamos. Pelo menos para muita gente, especialmente aqueles que viram no ano que ontem findou, uma série de percalços, um ról de dificuldades ou de maus conhecimentos, aguardam ansiosos uma vida nova, uma vida diferente, modificada, metamorfoseada.



O fato é que 1959 findou. A realidade é que 1960 está “tinindo”, começando, prenunciando um conteúdo incógnito de acontecimentos enigmáticos, desconhecidos, imprevistos, desconhecidos, imprevistos. Nós, como todos os homens de bom senso, deixamos de bom grado que o manto do otimismo nos cubra da cabeça aos pés. A vida anda muito ruim, muito difícil, muito problemática ultimamente e o aceitar os bafejos de uma onda de otimismo, otimismo lógico, normal, natural, plausível, traduz os efeitos de um bálsamo, de uma oração reconfortante, uma esperança, uma sensação clara de que amanhã virá um dia melhor.



Precisamos disso, realmente. 1959 foi um ano negro para a maioria dos brasileiros. Maioria que sofreu, que penou, que expiou até seus pecados. Os “tubarões”, os atravessadores, os intermediários, os monopolistas e outros diversos tipos de ventosas da vida brasileira, não sabem ou não querem saber disso; mas essa realidade existiu, palpável, indestrutível, inquestionável, isso existiu. O custo de vida subiu exageradamente, desmedidamente. Os govêrnos, quer dos Estados, quer da União, tentaram estancar o dique da indecência e da imoralidade pública e não o conseguiram. E o nacional sofreu, penou. Esperneou, mas nada valeu. Gritou, mas nada adiantou. Protestou, mas nada serviu.



Enquanto isso, u’a minoria enriqueceu. Ganhou mais em 1959 do que em dezenas de anos anteriores.



Talvez o motivo de que a vida nova do ano novo tenha num dêsses fundamentos (que são fatos), a sua própria razão de ser. É justo, portanto, que todos aguardem esperançosos o transcorrer de 1960, não tão sòmente como um “ano novo”, mas, antes e acima de tudo, como o horizonte desenhado de uma “vida nova”.



Pactuamos e compartilhamos com êsses pensamentos. E vamos mais adiante: auguramos a todos, indistintamente, que 1960, traga em seu bojo, as venturas que os brasileiros merecem, a felicidade e a paz (social e de espírito) que somos dignos. Que Deus, o Divino Mestre, inspire aos nossos governantes, no sentido de que possam, saibam e consigam cumprir os seus deveres. Que realizem pelo menos a metade daquilo que prometeram nas campanhas eleitorais.



Que haja paz permanente no mundo. Que os homens se entendam, se confraternizem, se amem como irmãos. Que se não explorem entre si, que se não odeiem. Que sejam menos ambiciosos, menos gananciosos, mais humanos, mais cristãos. Assim, teremos todos uma “vida nova”, porque teremos as bênçãos dos Céus.



Ano novo, vida nova.



Sim; um ano novo, vida nova... mas seremos nós, todos nós, dignos de uma vida nova, diferente, diversa, modificada?



De nossa parte, leitores amigos, deixamos hipotecados aqui, os nossos votos sinceros de que o Ano Novo que hoje se inicia, traga a cada um dos marilienses, a felicidade que de fato cada qual merece.



Extraído do Correio de Marília de 1 de janeiro de 1960