terça-feira, 31 de julho de 2012

Retornando... (31 de julho de 1973)



Reaparece esta coluna, após uma ausência compulsória de pouco mais de duas semanas, espaço-tempo em que me distanciei de Marília, anuindo à convite do Departamento de Educação Física e Desportos, do Ministério da Educação e Cultura.

Nesse período, participei como integrante da Comissão Administrativa dos V Jogos Estudantis Brasileiros, que reuniu em Brasília, mais de 5.000 atletas, representantes de 26 Estados e Territórios nacionais.

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Um certame poli-esportivo, de cunho oficial, onde modalidades do esporte amador tiveram presente e disputas renhidas. Voleibol masculino e feminino; basquete masculino e feminino; xadrez masculino e feminino; handebol feminino e masculino; arco e flexa, também dos sexos; hipismo; ginastica olímpica e moderna; e judô.

Fez-se presente também, como elemento de ilustração e diversão, o folclore representativo de todos os Estados participantes.

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Dentre atletas, dirigentes, técnicos, elementos da imprensa e árbitros de variadas modalidades, a Capital Federal acolheu, por ocasião dessas competições, aproximadamente 6.000 pessoas, vindas de todas as partes do Brasil.

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De minha parte, como já participara dos jogos anteriores em Alagoas, deparei com um ambiente de sadio companheirismo, tanto por parte das delegações disputantes, como por parte dos técnicos e dirigentes do DED.

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O trabalho executado foi assaz difícil e diuturno. Não é fixinha assistir a tanta gente, com problemas surgindo seguidamente, aumentando a cada minuto, como gente aproximando-se de um comício.

Mesmo assim “dei sorte” e consegui sair-me bem da empreitada, felizmente. Tanto isso é verdade, que já perpetuou o convite para próximas competições desse jaez, no ano vindouro, que deverão realizar-se no Recife, ou Florianópolis ou então em Porto Alegre.

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A direção geral do V JEBS, funcionou no prédio da Escola Normal de Brasília, um monumento com uma área construída de mais de 8.000 metros quadrados. Nesse prédio onde funcionam quatro núcleos educacionais, deparei com um mariliense, que cursando o sexto ano de medicina, ocupa o cargo de vice-diretor da Escola.

É ele Otavio de Almeida Lignelli.

Em próximos escritos, deter-me-ei sobre a referida Escola Normal e os leitores terão uma ideia aproximada, de qual grande e importante esse citado estabelecimento de ensino oficial de Brasília.

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E, como não poderia deixar de acontecer, acabei lá também, por meter-me (para variar), no afã do jornalismo.

José Catarino dos Santos, um pracinha da FEB, funcionário do DED, diagramador e desenhista do jornal oficial dos jogos, o “Oi, Bicho”, acabou farejando-me e levando-me para a redação, onde, todas as madrugadas, andei dando uma “demão” na redação do mencionado órgão.

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Ausente, portanto, nesse período, vou começar a tomar pé nos acontecimentos citadinos, para dar continuidade à publicação desta Coluna, reencetando seu ritmo normal e costumeiro.

Todavia, em futuros escritos, focalizarei alguns aspectos dessa viagem e transmitirei pormenores e impressões desse certame poli-esportivo oficial e nacional.

Extraído do Correio de Marília de 31 de julho de 1973

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Misturança que confunde (11 de julho de 1973)


É irretorquível, sucinto, claro, indiscutível, real!

Ninguém, em boa razão, aprecia ser confundido com aquilo que não é ou nunca foi.

Ressalve-se aqui o embuste, a falsa ideologia, o uso indevido de condição, credencial ou autoridade. Sim, pois há os que não sendo, intitulam-se em proveito próprio, titulares fajutos de postos, qualidades ou condições.

Esta hipótese, tem muito de covardia, de ostentação, de empavonamento, de vantagens pessoais de ilusão, além de constituir crime.

No primeiro aventamento, no entanto, prevalece o bom senso, de que ninguém gosta de ser confundido com o que de fato não é.

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O médico não pode gostar de ser confundido com o enfermeiro. O dentista não gosta de ser confundido com o farmacêutico.

O mecânico não gosta que o confundam com o ferreiro.

O soldado não pode ser confundido com o coronel.

Ninguém deve confundir o investigador com o delegado de polícia.

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O Jornalista não pode ser confundido com o jornaleiro.

Nem o cozinheiro com o faxineiro.

O vilão não pode ser confundido com o galã.

Ninguém deve confundir um violoncelo com um saxofone.

Não se confunde o coxão mole com o filé “mignon”.

É muita burrice confundir o gato com o sapato.

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O pintor de telas é uma coisa, o pintor de paredes é bem outra.

E uma coisa é o telegrafo e é outro o rádio-telegrafo.

Molho de pimenta é uma coisa; pimenta ao molho é outra.

Também existe diferença entre papel higiênico e papel-lixa.

Telha e tijolos são diferentes.

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Relojoeiro é uma coisa, vendedor de relógios é bem outra.

Jogador de futebol é bem diferente do que jogador de xadrez.

A tesoura do alfaiate é bem diferente da “tesoura” do praticante de luta livre.

Vinagre e azeite são coisas diferentes também.

Há o sêlo de carta e o sê-lo do verbo ser.

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Cobra não se confunde com lagarto. Jacaré é diferente de camaleão. Macaco não parece elefante, cavalo não é igual a cachorro. Risco é diferente de risca. Poluição não é população. Gafanhoto não é sapo. Minhoca não tem asas. Papagaio não é arara. Carroça não é charrete. Aval não é endosso. Sacristão não é padre. Pirolito não é pé-de-moleque. Mulher velha não é “broto”.

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Velho não é novo. Furado não é rasgado. Careca não é cabeludo. Baiano não é paulista. Linho não é algodão. Sabonete não é sabão. Nem esperança ilusão.

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Transcorreu há pouco, 9 de julho, o dia do Soldado Constitucionalista, data comemorativa à Revolução de 1932.

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No dia 8 de maio, comemora-se no Brasil, o Dia da Vitória, data que marcou o término da II Grande Guerra Mundial na Europa, em cujo conflito do Brasil se fez presente através de sua Força Expedicionária Brasileira.

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O soldado constitucionalista, participou de uma luta nobre e patriótica. Mas uma luta política, intestina.

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O pracinha da FEB, como soldado do Brasil, membro do Exército Brasileiro, participou de uma guerra armada, no exterior integrante de tropa organizada e comandada, lutando paralelamente com forças armadas dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia, Marrocos e outras nações.

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O soldado constitucionalista, tem hoje em dia, mais de 60 anos, considerando-se tenra idade, quando partiu para o Túnel ou Itararé.

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O pracinha da FEB, tinha em 1932, pouco mais de 9 anos de idade em média quando partiu para o Teatro de Operações da Itália, em 1944.

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Representam duas classes nobres e patrióticas, porem distintíssimas, praticamente sem a mínima analogia ou correlação.

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Não se deve confundir, portanto, o Soldado Constitucionalista de 32, com o pracinha da Fôrça Expedicionária Brasileira.

São coisas diferentes!

Extraído do Correio de Marília de 11 de julho de 1973

terça-feira, 10 de julho de 2012

Batendo no mesmo prego (10 de julho de 1973)


Nada aqui, de dar uma no prego e outra na ferradura.

Vou continuar a bater no mesmo prego, por saber muito bem, que pão é pão e queijo é queijo.

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Jamais fui contra aquilo que se chama oposição partidária, por entendê-la como necessária e apêndice, do próprio regime de uma democracia.

De minha parte, nunca classifiquei tal sistema, de “mal necessário”, como já fizeram outros.

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Quem não sabe distinguir um carretel de linha de um elefante corre o risco de ir ao bazar comprar um carretel de linha e se o bazarzeiro lhe deum elefante, acabará levando o paquiderme para casa!

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Num quartel, o sargento-de-dia viu e estranhou, um vaso com flores sobre a mesa do comandante. Chamou o soldado de plantão da Casas das Ordens e esbravejou:

- Quem foi o burro que mandou colocar aquelas flores ali?

O praça respondeu:

Foi o coronel, meu sargento.

E o sargento, saindo do lance:

- Fica preso, por chamar o coronel de burro!

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Quando a “chaufese” descuidou-se do volante e acabou “entrando” na trazeira daquele “1.800”, jogou a culpa no homem que dirigia o carro que estava à sua frente. Alegou que ele havia freado repentinamente.

Mas o homem do carro vitimado, esclareceu ao guarda de trânsito:

- Não é bem isso, seu guarda... é que a madama, ao invés de usar o breque, usou só a busina...

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Um vereador, ocupando a tribuna da Câmara Municipal, defendendo ardorosamente um ponto de vista que nenhuma razão tinha de ser, saiu-se com esta:

- O que está “estragando” o projeto de lei, é justamente o artigo que diz “revogam-se as disposições em contrário”!

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Já pensaram, que coisa esquisita, seria o caso de um distinto ir ao hospital para extirpar uma hérnia e o médico extrair as amigdalas, deixando a hérnia “em paz”?

Ou o cara que chegou no botequim e pediu um sanduiche de presunto. O bar-man disse que sentia, mas que o pão havia acabado. O freguês pediu, então, um sanduiche de queijo. O homem do balcão voltou a esclarecer, que não tinha pão. O outro pediu, então, um sanduiche de mortadela. Nova resposta negativa, por falta de pão. E o distinto, enfezado:

- Então me dá só pão, bolas!

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Claro que o distinto não fazia o carro “pegar” depois de ter enchido o tanque.

O carro sempre fora movido a gasolina, mas o “inteligente” homem do posto de serviço havia enchido o tanque de óleo crú!

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Se meu amigo Doretto Campanari, sair candidato a deputado pela situação, irei privar-me de um grande oftalmologista, se um excelente vereador, do convívio de uma figura personalíssima e estimada.

Mas restar-me-á o consolo, de que nossa querida Marília passará a ter um legitimo advogado de suas causas e interesses, no Palácio do Ibirapuera.

Um grande conforto.

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Parece-me, que isso não acontecerá.

Doretto, segundo me consta, sairá candidato pela oposição.

Sou obrigado a aceitar o inevitável:

Doretto continuará em sua clínica, em Marília, nas ruas da cidade, sentindo o calor de seus amigos marilienses.

Extraído do Correio de Marília de 10 de julho de 1973

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Noticiazinhas (7 de julho de 1973)


Jean Paul Mendel é um cidadão que reside em Liége, na Bélgica. Está com idade de 91 anos e há 72 é casado.

Conversando com um jornalista americano, Jean declarou que a felicidade conjugal reside no fato de um casal falar o menos possível.

E citou como exemplo:

Ele e a esposa, apesar de 72 anos de vida em comum, só se dirigem um ao outro quando não há mais remédio...

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Governador Laudo Natel, em almoço com onze prefeitos de cidades-sedes de regiões administrativas, comunicou uma providencia que encarna o verdadeiro espírito de municipalista: de quinze em quinze dias, um grupo de três titulares de Secretarias de Estado, despacharão nas referidas cidades.

Muito ótimo.

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Impressionante o surto de construções novas em nossa cidade. Quem ainda não deu ao ensejo de fazer tal observação, que procure fazê-lo.

É o novo espírito de Marília/73.

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Nisso falando, contaram-me alguns construtores que está patente em nossa cidade, a falta de mão de obra especializada. Em outras palavras, estão faltando pedreiros, serventes e outros profissionais, em comparação ao vulto da exigência desses serviços na cidade.

Aí está uma oportunidade, para atrair profissionais de fóra.

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Ponte do Rio do Peixe, com suas obras iniciadas, no local conhecido como balneário, ligando Marília ao distrito de Amadeu Amaral, a conhecida “Água de Cobra”.

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O ex-maqueano Itamar, acabou indo para o tricolor do Morumbi. De minha parte, a “torcida” para que o rapaz acerte. Não só para sua própria conveniência e nome profissional, como também para ver a “cara” de certos “corneteiros” marilienses.

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De catorze a vinte e oito do mês em curso, serão realizados em Brasília, os Jogos Estudantis Brasileiros, de cujo certame oficial, participarão representações de todos os Estados e Territórios, inclusive o longínquo Fernando de Noronha.

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Câmara Municipal em recesso, mas sua secretaria trabalhando ativamente, com os funcionários em ativo exercício profissional.

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Este ano, teremos em nossa cidade, duas “primeiras turmas” de formandos. A Faculdade de Direito, formará sua primeira turma de advogados e a Faculdade de Educação Física, também diplomará sua primeira turma de professores.

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Está encontrando excelente repercussão entre os leitores do “Correio”, a secção dominical do jornal, “Há 20 anos...”, abordando acontecimentos citadinos que aconteceram exatamente há vinte anos passados, na mesma semana que coincide com a que se encerra aos domingos.

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Em agosto próximo, teremos em Marília, o acontecimento que irá registrar a instalação da Delegacia Regional de Polícia da 11ª Região Administrativa do Estado de São Paulo.

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Uma sociedade comercial que deverá ser fundada em Marília, reunindo um grupo de capitalistas locais, é exigência das necessidades advindas da 11ª RA.

Uma firma que se disponha a construir três ou mais “arranha-céus” para locação de apartamentos residenciais.

Será que ninguém vai pensar nisso?
 
Extraído do Correio de Marília de 7 de julho de 1973

O humor dos outros (6 de julho de 1973)


Estas tiradas não me pertencem e também não me interessei em saber quem foram seus autores.

Como gostei do “sal”, passo-as adiante:

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Tem o caso daquele viajante, que no momento em que preenchia a ficha de hospede, no hotelzinho de uma pequena cidade, viu sobre o balcão da portaria, um percevejo que se locomovia em direção à ficha.

Gozou:

- Essa, não! É a primeira vez que vejo um percevejo vir ver o número do quarto em que vou ficar!

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Também tem o caso de um distinto, que caminhando por uma estrada em pleno sertão africano, deu de cara com um leão. Desarmado e apavorado, teve a idéia de tocar uma flauta que trazia consigo, na tentativa de acalmar o animal. Deu resultado. O leão ficou ouvindo a musica da flauta. Dali há pouco, foram surgindo outros leões, todos ficando embevecidos com a musicazinha. Nisso apareceu um leão retardatário e sem mais nem menos apanhou o flautista pelo pescoço.

Então, um leão cutucou o outro dizendo:

- Eu sabia que o “surdinho” ia acabar arrumando confusão. 

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No tribunal:

- Em vista da evidencia apresentada pela polícia, segundo a qual as impressões digitais encontradas no cofre pertencem ao acusado, declaro-o culpado e condeno-o a dois anos de prisão.

E, dirigindo-se ao réu, acrescentou o magistrado:

- Espero que isso lhe sirva de lição!

- Servirá, sim, “seu” Juiz. Da próxima vez, o papai aqui vai usar luvas!

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Um português e um alemão eram vizinhos.

Certa ocasião, o cachorro que o português tinha no quintal conseguiu entrar na casa do alemão para brigar com o cão-pastor de estimação que o germânico possuía. Foi uma luta feroz e o cachorro do lusitano acabou matando e estraçalhando o cachorro do vizinho.

O alemão tinha um espírito esportivo e compreensivo e ao envés de enraivecer-se disse:

- Esses cachorros ser muito bom para brigar... vamos levar elas para o meu fazendas, para ver se elas brigar com outras cachorro que eu ter lá.

O português concordou e levaram o cachorro para a fazenda do alemão. Chegando, soltaram o cão, que imediatamente atacou, matou e estraçalhou os outros três cachorros do alemão. Este, admirado, disse:

- Essa cachorros ser muito valente... matar todas os cachorros meus... qual raça dessa cachorros?

Resposta do português:

- Num sei lá diqui raça é u danado... certo dia tinha um circo lá perto di casa e foi quando o cão apareceu nu meu quintais... mas como ele tinha muito cavelo no pescoço, eu pelei u pescoço deli i ficou assim...

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Conversa de caçador:

- Quando passei a pinguela, topei com duas onças me esperando. Voltei correndo e vi mais quatro onças. Quis correr de lado e tinha umas oito. Do outro lado, umas seis. Ao todo, umas 20 onças.

- Como então você saiu dessa enroscada?

- Fácil. Fui passando entre as onças, devagarinho, dizendo: “Olha as patinhas, olha as patinhas, dá uma licencinha...!”

Extraído do Correio de Marília de 6 de julho de 1973

Coisas que são coisas (5 de julho de 1973)


Quem, há cêrca de vinte e oito anos passados, em Marília chegou, sem a cidade conhecer, “com uma mão atraz e outra na frente”, aqui radicando-se aqui casando-se e constituindo família, conseguindo arregimentar um ról imenso de amizades, deve, forçosamente, de gostar e amar Marília.

Assim sou eu.

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Chegou à redação. Um tanto atrasado. Talvez por causa do friozinho destes últimos dias. Ou quiçá pelo fato do gerente-amigo Anselmo (Scarano), não ter chamado minha atenção.

Deparo, sobre minha mesa, um livro: “Educação Brasileira Temas e Problemas”. Autoria, professor-doutor José Antonio Tobias. Com uma dedicatória pessoal, que muito me desvaneceu. Muito agradecido, ilustre mestre, lídimo orgulho do magistério superior de nossa cidade.

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Velho mariliense, conceituado comerciante, que há mais de 20 anos conheço. Confessou-me, de maneira franca, que até me confundiu:

- Pôxa, leio sua coluna diariamente, sou seu fã, conheço você pessoalmente... mas não sabia que era de sua autoria, a secção “De Antena e Binoculo”!

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Comerciante outro, dizendo-me outro dia, que no passado teve até ímpetos de agredir-me. Foi além, afirmando-me, que se não fôra minha habilidade de trabalho, como Comissário de Menores, ele hoje não seria um homem integrado à sociedade, casado, chefe de família e trabalhador. Confessou, perante outros amigos que de minha orientação e conselhos, havia conseguido sair dos caminhos do erro da juventude, para enveredar pela senda do bem e (não) do mal.

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Ano passado, permaneci uma regular temporada em Maceió, capital alagoana. Executando serviços especiais e de confiança, por solicitação de alto funcionário do Ministério da Educação e Cultura.

Recebo, agora, telefonema interurbano de Brasília, com novo convite: para leva à cabo, análogas atribuições, desta vez na Capital Federal.

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Funcionário municipal, em palestra casual, outra noite, rememorava fase difícil de sua vida: trabalhando durante o dia, com salario de fome, auxiliando no sustento do lar, pretendia desistir de estudar à noite. Durante anos, persisti em conselhos para que não parasse o curso noturno, para que fosse até o final. Fê-lo. Como disse, fês questão de afirmar que em parte, o estímulo recebido fôra o moral, através de minha humilde pessoa. E mais, que estava agradecido e reconhecido.

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Estudantes de vários cursos, vez por outra, procuram-me, pedindo uma “demão”, para alguns temas ou trabalhos escolares. Se posso, atendo. O simples “muito obrigado” que recebo, representa para mim, muitos milhões, porque não há preço que pague a satisfação em servir jovens esperançosos e ambiciosos, quando estes recorrem à confiança dos mais velhos.

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Por designação expressa da alta direção do “Diário de São Paulo”, já tive a oportunidade de atual como “enviado especial” dos “Associados”, nos Estados Unidos, Panamá e México. Para um jornalista provinciano, a honra é muito nobre e elevada.

Não em despeito à Câmara Municipal, mas em consonância nos meus princípios de propósitos, vi-me, no passado, na contingência de recusar a grande honraria, de receber o título de “cidadão mariliense”.

São coisas que coisas são.

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Para quem chegou a Marília, 28 anos passados, “com uma mão atraz e outra na frente”, tudo isso não representa orgulho e não obriga a gente gostar de Marília e dos marilienses? 
 
Extraído do Correio de Marília de 5 de julho de 1973

Nosso candidato à deputado (4 de julho de 1973)


Sinto-me à vontade e à cavaleiro, todas as vezes que falo sobre a irretorquível necessidade, de elegermos nossos deputados próprios, especialmente no âmbito estadual.

Modéstia de lado, coube à mim, a felicidade de ter levantado pela primeira vez em Marília, a bandeira pró eleição de um candidato local.

Isso, foi no ano de 1946 e só depois do jornal, é que a própria Câmara e nossas forças políticas, aferraram-se no mesmo terreno.

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Os mais antigos marilienses e as coleções do “Correio”, são o testemunho dessa afirmativa.

Por ocasiões que precederam todos os pleitos eleitorais, a partir do chamado período de redemocratização do país, após a promulgação da Constituição Federal de setembro de 46, tendo participado ativa e efetivamente dessa análoga luta.

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Quando das últimas eleições para a deputação federal e estadual, tive a oportunidade de afirmar, ao Dr. Doreto Campanari, em seu comitê eleitoral da Rua 9 de Julho, que ele não seria eleito deputado. E expliquei o porque desse meu modo de pensar: legenda.

Asseverei-lhe mais, que se a sua inscrição como candidato, ocorresse pela Arena, que ele “estouraria” em Marília e obteria um coeficiente de votação, verdadeiramente surpreendente, em outros da região.

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Dias antes, dissera eu ao Dr. Aniz Badra, aqui na redação, de que se surgisse a “dobradinha” Badra-Doretto, pela Arena, Marília elegeria Badra deputado federal e Doretto deputado estadual.

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Passado o pleito último, verificamos a não eleição nem de Badra e nem de Doretto, fato que corroborou aquilo que havia eu prognosticado.

Dias após conhecidos os resultados das referidas eleições topei com Doretto na Avenida. Cutuquei o mesmo assunto. O oftalmologista, não “se abriu” para afirmar que eu estava certo, mas deixou-me em condições de perceber, que ele aceitava o resultado e que de certa forma concordava com aquilo que eu antes afirmara.

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Tempos após, novamente palestrando com o simpático médico, assegurei-lhe:

- Doutor, o senhor não se elegeu deputado, porque não quis e sabe a razão. Ainda há tempo e para as próximas eleições, saia pela Arena que terá vitória garantida.

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Dia destes, Pedrão, o prefeito, pintou aqui na redação, como sempre faz.

O repórter Luiz Carlos (Lopes), assim que viu Pedro Sola, lançou a rêde, para saber a posição do prefeito, em relação à próxima campanha pró eleição de um deputado mariliense. O prefeito disse que por enquanto só havia realizado algumas sondagens, mas sem um ponto de vista definido.

Aí, entrei na conversa.

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Disse ao prefeito Pedro Sola:

- Eu sei a formula de eleger um deputado estadual. E garanto a eleição desse elemento.

O prefeito olhou-me como a indagar e continuar a afirmativa. O mesmo ocorreu com o jornalista Luiz Carlos.

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Afirmei, então:

É fácil, facílimo. Basta “comprar o passe” de Doretto do MDB e lança-lo pela Arena. Macacos me lambam e me mordam, se o querido médico mariliense não for eleito.
 
Extraído do Correio de Marília de 4 de julho de 1973

Equipe de trabalho e amor (3 de julho de 1973)


Não tenho certeza se em Sorocaba foi o nascedouro. Todavia, mui bem recordo, que naquela cidade tive conhecimento, pela vez primeira, de inserções e exortações, em pról das crianças excepcionais e lá, no pretérido, contactei  com as lutas iniciais, de colimação da constituição de APAE.

Faz tempo, isto.

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Dia outro, o popularíssimo Toninho Neto e espôsa foram tomar um cafezinho em minha casa.

No trivial da amistosa palestra, Toninho indagara-me se eu já tinha visitado a APAE mariliense. Respondi negativamente, apesar de convites me formulados, inclusive por duas crianças excepcionais.

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Expliquei ao Toninho, que apesar de minha cara aparentemente feia e rude, sou detentor de uma sensibilidade incomum. E que, uma visita a um local assim, exerce sobre meu intimo, uma espécie de mau estar, provocado pelo sentimento de solidariedade e de piedade.

Parece que Toninho conseguiu entender a justificativa.

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Domingo fui ao Clube dos Bancários, juntamente com meus familiares. Com o desejo único de emprestar minha insignificante colaboração em presença e espécie.

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Ali realizava-se uma grande festividade junina mista de quermesse. Muita gente, muita alegria. Muita movimentação num ambiente gostoso.

Intimamente, meu comparecimento à festa, desentrosava-se da alegria geral reinante, para alçar asas e deter-se nas precípuas finalidades de sua origem e organização.

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E chamou-me a atenção, a equipe de trabalho e amor, que executava as funções de servir o público.

Homens e mulheres, de nossa sociedade, com suas funções normais e cotidianas definidas, empenhando-se e dando no acontecimento, um desprendimento extraordinário de labor. Trabalhando com viva alegria, procurando servir, tentando vender, com o objetivo de lograr o mais total êxito da empreitada.

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Justificava-se, perfeitamente, o labor dessa plêiade. Donas de casa, professoras, profissionais, homens representantes de entidades religiosas e assistenciais e de clubes de serviços, trabalhando quais ativas e diligentes formiguinhas, em pról de duas causas justas e nobres: o Carmelo Sagrada Família e a APAE.

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A existência do Carmelo na cidade, representa um marco inalterável de fé espiritual, a prova indestrutível da fé cristã, nas pessoas das humildes Carmelitas, que, renunciando as efemeridades do mundo exterior, se sacrificam e oram em intenções da felicidade de todos nós.

A APAE, traduz no espirito piedoso dos marilienses, o sentimento verdadeiro da solidariedade humana e o desvelo no carinho e no tratamento físico e espiritual, àqueles que, por desígnios do próprio destino, tiveram a desventura de nascerem excepcionais.

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A obra referida, meritória foi.

Que se repita no ano próximo.

Mas aqui deixo consignado, um louvor despretensioso e sobretudo justo, aos homens e mulheres que trabalharam nessa quermesse, em intenções e benefícios dessas duas majestosas e caridosas instituições: Carmelo Sagrada Família e APAE.

Essas pessoas conseguiram formar uma equipe maravilhosa.

Uma equipe de trabalho e amor!

Extraído do Correio de Marília de 3 de julho de 1973

domingo, 8 de julho de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (18)


Uma espécie de líder. Um homem que irradiava simpatia e confiança. Não tinha muita escolaridade. Mas possuía uma filosofia de vida verdadeiramente admirável. Isso lhe proporcionava um caráter firme e forte.

Salustiano éra seu nome.

Chegara à cidadezinha, ainda menino, com apenas sete anos. Era o mais antigo habitante do lugar, o único sobrevivente daquelas que foram os verdadeiros pioneiros da pequena urbe. Isso lhe outorgava um respeito profundo.

Salustiano era um autentico filósofo sem escola. Lia, ouvia emissoras de rádio e, com um impressionante poder de retenção de informações e acumulação mental de tudo o que via, lia e ouvia, faziam-no credenciado de uma pessoa muito inteligente.

Todos gostavam de papear com o Tio Salustiano. Os mais novos deliciavam-se em ouvir os “causos” que contava, sobre aspectos diversos de fatos que haviam ocorrido no pretérito. Sua memória era algo incomum. O próprio prefeito e mestres-escolas, recorriam a Salustiano para confirmar ou inteirar-se de aspectos, detalhes ou informes sobre os mais variados assuntos que o passado se incumbira de arquivar.

Invariavelmente, a partir das três da tarde, Salustiano chegava à pracinha da Matriz, local bastante sombreado pelas afrontosas e quase centenárias seringueiras, que se intercalavam com inúmeras jaqueiras, tornando o local diferente, curioso, agradável.

Sempre havia gente em redor de Salustiano, para ouvir as últimas notícias que aconteciam na Capital e até no “estrangeiro” – como diziam. Os que ouviam as descrições do velho, consideravam-se bem orientados e igualmente instruídos.

Não faltava um dia, nem aos domingos. Sua presença era esperada e indefectível. Benquisto, sempre bem humorado, parecia sentir sobre a importância de ser importante.

Sempre era inquirido para contar um fato realmente ocorrido e que marcara impressão na cidade e entre o povo.  E ele lembrava de imediato de uma história ou de um “causo” que acontecera ali e que poucos do mesmo tinham conhecimento.

Um dia contou o caso do Tião açougueiro, que passara dezoito anos condenado e cumpria pena na penitenciara da Capital.

Contou o Salustiano, para deleite dos ouvintes atentos:

“A Balbina era uma moça muita bonita, de boa família, de bons costumes. Sabia cozinhar muito bem. Era, enfim, uma moça prendada. Porisso, achou casamento relativamente cedo.

“Casou e tudo ia muito bem. Um dia, Balbina levara uma bacia de roupa e fôra lavar no riacho, como sempre fazia. Trabalhou normalmente e estendeu a roupa no próprio pasto, para a secagem.

“Ao entardecer, foi recolher a roupa que estava enxuta e com aquele característico cheirinho de limpeza. Quando fazia o serviço, ouviu uma voz algo estranha, chamando-a pelo nome. Olhou em redor e não viu ninguém. Mas a voz continuava a chamá-la, pedindo que se aproximasse, que nenhum mal lhe aconteceria.

“Balbina quase nem acreditou, quando viu que quem falava como gente e a chamava pelo nome, era um sapo. O batráquio contou que ele estava assim, transformado em sapo, devido a um “trabalho” de feitiçaria que uma bruxa lhe havia feito. Que se Balbina o levasse para casa, lhe desse um banho e o pusesse numa cama com lençol branco e limpo e a seguir lhe desse um beijo, que o “encanto” desapareceria e que ele se retransformaria naquilo que sempre fôra: um príncipe.

“Balbino recolheu o sapo, levou-o para a casa. Deu um banho no sapo, colocando-o na cama com o lençol alvo e limpo, como lhe pedira o estranho sapo. Então, deu-lhe um beijo. Houve uma espécie de estrondo, com uma nuvem de fumaça. Quando desanuviou-se a fumaça estranha, Balbina viu-se à frente com um lindo príncipe...

- Puxa, exclamou o Zezinho farmacêutico – aqui já teve príncipe...

Continuou o Salustiano:

“Tião açougueiro cumpriu pena na cadeia, porque matou os dois...

- Matou os dois? O príncipe também? – indagou novamente o Zezinho.

E o Tio Salustiano:

- Sim, todo mundo viu o príncipe, todo mundo ficou admirado com o fato... mas o Tião açougueiro foi diferente... ele era o marido da Balbina e não acreditou naquilo que todos creram... daí, deu quatro tiros na mulher, dois no homem... e ainda por cima, meteu a peixeira no bucho do príncipe...

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 1988

domingo, 1 de julho de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (17)



Era dia de festa popular: aniversário da “emancipação politico-administrativa” da cidade – como havia discursado o prefeito ao microfone da emissora local.

E o alcaide, jubiloso com a presença do público ao acontecimento – e pensando numa candidatura à deputado – vibrava com todos, cumprimentando alegre todo mundo e realizado com as inaugurações de “grandes obras”, como a construção de uma ponte, que, por sinal beneficiava seu próprio sítio. E também uma nova sala de aula, que igualmente, por sinal, dera um emprego à Pierina, professora leiga, porem bonita e “muito simpática” para o prefeito.

Adelino morava alí, desde a juventude. Abandonara a lavoura, viera para Bananeiral – a cidade que aniversariava – e acabara por aprender a profissão de folheiro. Tinha uma pequena e pobre oficina, onde contava com regular freguesia e conseguia ganhar o pão da mulher e dos três filhos do casal.

Não era muito afeito a festas. Simples, humilde, pacato, quando deixava o trabalho ia sempre para casa. Trabalhava até o anoitecer, inclusive aos sábados. Aos domingos, quando não programava uma pescaria, ia até o bar do Raul, onde batia papo com amigos, jogava uma ou outra partida de sinuca e tomava alguns aperitivos.

Mas aquela noite, Adelino saiu de casa para “dar uma espiada” nos festejos. Fazia parte da programação especial, para a noite, uma demonstração de fogos de artificio e depois uma retreta no coreto do jardinzinho.

Adelino assistiu o espoucar dos fogos, depois foi ver a banda tocar. Ao aproximar-se da banda, vendo os seus integrantes movimentando-se, trocando partituras e afinando instrumentos, Adelino lembrou do Eduardo, seu companheiro de infância e por algum tempo de juventude. Eram grandes amigos e fazia muitos anos que Eduardo falecera. Mas naquela noite, Adelino lembrara-se de Eduardo e o observa da banda trouxera-lhe à mente um fato com os dois acontecido, quando Adelino tinha dezoito anos e Eduardo dezenove.

A lembrança fustigou a mente de Adelino e os pensamentos se acumulavam como aquela gente que alí vinha comparecendo seguidamente.

Lembrou:

Eduardo contou que havia ido passear na cidade e que pela primeira vez conhecera uma boate. Perguntou se o amigo já havia visitado uma boate. Adelino disse que não, que não conhecia e indagou como era.

Contou Eduardo que a boate era uma coisa muito moravilhosa, onde se comia e bebia e que havia mulheres bonitas e música...

Combinaram que no sábado seguinte os dois iriam à cidade e então Adelino conheceria a boate. Adelino ficara encantado com tudo o que ouvira o amigo contar sobre a boate, mas uma coisa o havia intrigado bastante: a afirmativa de Eduardo, que havia gostado muito da privada da boate. “A privada é de ouro, cê vai vê”, complementou Eduardo.

No dia aprazado, foram à cidade. E, como combinado, foram à boate. Eduardo, entusiasmado, contava tudo sobre a boate, numa repetição de muitas vezes e não se cansava em comentar o surpreendente caso da “privada de ouro”, que ele – repetiu – viu, conheceu e chegou até o usar...

Mas era cedo, ainda e a boate estava fechada. Os músicos e as mulheres bem como alguns funcionários da casa, entraram por uma porta lateral, a porta de serviço.

Momentos depois abriu-se o guichê da bilheteria e a seguir a porta principal.

Eduardo comprou os dois ingressos, como ficara combinado. E agarrando Adelino pelo braço, encaminharam-se para o interior da casa.

As mesas estavam todas vazias, como seria de esperar. E Eduardo explicando tudo, como um autentico cicerone.

No palco, os músicos estavam afinando os instrumentos e foi esse pormenor, que, associado ao espetáculo que Adelino via alí no jardinzinho, que trouxe a lembrança do amigo e a recordação do acontecido.

Os dois estravam de pé, olhando para o palco e os músicos e Eduardo continuava a narração informativa.

E aconteceu:

Um dos músicos, olhando para o lado da porta e vendo os dois amigos alí parados, cutucou o colega e disse em voz alta:

- João, ó João... olha lá o cara que fez “cocô” no seu bombarino...
 
Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 1988