domingo, 31 de agosto de 2008

Existe muita coisa errada (31 de agosto de 1956)

Com seu peculiar estilo de escrever bonito e objetivamente, o nosso colaborador, reverendo Alvaro Simões, abordou em sua crônica de ontem um fato doloroso, ocorrido em Marília. Refletindo sobre o escrito em apreço, a gente acaba por convencer-se de uma por todas, que o homem de nossos dias atingiu o zênite do egoísmo pessoal, em todos os sentidos. Ou é um fenômeno natural do gênero humano, ou é um mal da maioria dos brasileiros. O fato é que existe muita coisa errada. Por exemplo, toda gente grita contra as circunstâncias de hoje em dia do nosso sofrivel “modus vivendi”. Mesmo os que dispõem de meios suficientes para uma subsistência folgada e para adquirir a qualquer preço o que comer, costuma chorar. Regra geral, a gente grita, chora, esperneia, esbraveja, mesmo com a barriga cheia. E aqueles que desfrutam dessa situação privilegiada, pouco se importam que seus semelhantes morram de fome, pereçam de frio.

Enquanto uns se banqueteiam, outros mendigam um resto de comida para o alimento. Enquanto uns dormem em deliciosos colchões de mola, cobertos com grossos cobertores de lã de vicunha e carneiro, outros tiritam de frio. Enquanto uns vestem finíssimos costumes e calçam caríssimos sapatos, outros cobrem os desnutridos corpos com farrapos e usam (quando usam) calçados que queimam o pé quando pisam um tôco de cigarro aceso.

O mal é do brasileiro, dizem alguns. “O brasileiro é indolente por natureza, vagabundo, etc.” Tem que ser mesmo. Onde não existe uma condição social bem equilibrada, onde não existe um nivel intelectual acentuado, onde as “marmeladas” começam pelos mais elevados e representativos personagens, outra coisa não poderia ser esperada. O empregado reclama que o patrão paga pouco e explora seus serviços; êste queixa-se de que o empregado não corresponde, suga-lhe o ordenado, não produz, vive “cozinhando o galo”...

Dois fatores são responsáveis por esse estado de coisas. Primeiro, o baixo nivel intelectual de nosso povo, que, em sua maioria encontra-se em situações dificeis para bem interpretar e executar êsse espírito do princípio de cooperação humana e patriótica. Segundo, o egoísmo natural do ser humano, a “fome” pelo dinheiro, em menosprezo até aos mais comezinhos sentimentos de solidariedade humana.

Se existissem em maiores proporções essas duas qualidades, não seria necessário que todos fossem ricos, conforme poderá interpretar que assim pensemos, o leitor menos avisado. Unicamente, que se tal acontecesse, a vida poderia ser bem diversa; os pobres, mesmo pobres, poderiam ser mais felizes e os ricos, menos ricos, poderiam ser mais felizes tambem.

Extraído do Correio de Marília de 31 de agosto de 1956

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Um cavalo num telhado (29 de agosto de 1956)

Por certo os leitores pensarão que se trata de alguma fábula de Esopo, o que iremos descrever sob o epígrafe dêste artigo. No entanto, nada de fábulas, nada de ficções. O fato aconteceu “no duro”. E não foi nos Estados Unidos e nem tampouco na China. Foi na bela São Sebastião do Rio de Janeiro.

A imprensa de vários pontos do país, publicou, na última sexta-feira, o seguinte telegrama:

“RIO, 23 (SE) – Os bombeiros do Posto de Ramos foram chamados às pressas, na tarde de hoje, para atender a um caso “sui generes”. Escorregando pela ladeira do Morro do Alemão, na praça do Carmo, em Bonsucesso, um cavalo, que fugira do pasto, rolou e foi estatelar-se de encontro ao telhado de uma residencia, à rua Frei Gaspar. Depois de pisotear o telhado, quebrando todas as telhas, o cavalo foi a muito custo, retirado pelos bombeiros.”

Imaginem o espetáculo curioso e grotesco, que deve ter despertado aos curiosos o ver um cavalo sobre o telhado de uma casa! Façam a idéia do susto pelo qual devem ter passado os moradores dessa residencia, ao sentirem o barulho e a quebra de telhas e constatarem o pacato animal, sobre o teto, por certo mais admirado ainda.

O caso não será, tanto assim de admiração, embora seja “sui generis”, conforme afirma o radiograma. É bem verdade que não é comum um cavalo ir parar sobre o telhado de uma casa. O prefeito da Capital Federal bem que poderia condecorar o referido animal, uma vez que o pacato cavalo “fujão” assustou muita gente, mobilizou uma guarnição de corpo de bombeiros e foi objeto de manchetes em jornais. Ainda ontem, nosso companheiro João Jorge fazia considerações acerca de penumbra política e quase penumbra social em que se encontram os ex-Presidentes da República. Em realidade, poucos antigos Chefes da Nação tiveram através da imprensa, motivos de tanto entusiasmo em divulgações como o caso desse animal.

Para alguns, o cavalo pode parecer um “burro”, eis que “bobeou” na ladeira e caiu. Para outros, a coisa pode parecer normal. O fato é que o cavalo ficou “por cima” de muita gente, quando sempre viveu “por baixo”. Sobre o telhado o animal deve ter ficado num nivel elevado, inclusive para muita “gente bem” que campeia nesta terra que Pedro Alvares Cabral descobriu por um mero acaso.

Se tudo sobe nesta terra, se tudo anda tão elevado, que mal ha num cavalo ter tambem a sua “chance” de “subir” ao menos uma vez na vida?

Extraído do Correio de Marília de 29 de agosto de 1956

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O incrível Carlos Lacerda (28 de agosto de 1956)

Não somos políticos, já afirmamos inúmeras vezes. Jamais tivemos vocação para a política e sabemos perfeitamente que nem mesmo a “pinta” de político possuimos. À rigor, confessamos mesmo que não entendemos bem de política. Pelo menos, não compreendemos muita coisa que existe errada por aí, muita safadeza que se pratica à miude, sob o rotulo ou pretexto de política, democracia e outras coisas mais.

Não vai neste artigo, qualquer coisa contra a agremiação partidária que o sr. Carlos Lacerda (foto) é filiado e sob cuja legenda foi eleito deputado federal. Vamos analisar o homem e não o partido. E será, sem dúvida, uma análise difícil.

Perde-se todo aquele que pratica excessos. Quaisquer que sejam eles.

O sr. Carlos Lacerda, projetou-se rapidamente no cenário da política nacional, mercê de sua inteligência admirável e sua farta imaginação. Orador fluente e jornalista dos mais capacitados, sua campanha primordial empolgou o Brasil e carreou-lhe uma multidão de admiradores. De fato, o Sr. Lacerda iniciou bem a caminhada, mas perdeu-se no meio da estrada, desviando-se da rota. Principiou a pensar que ele poderia reformar o Brasil “à tapa”. Apontou erros e mais erros, que todos reconhecem. Criou “casos” e mais “casos”. “Desceu a lenha” em Deus e Todos os Santos – aí residiu seu maior erro. Criticou com veemência, mas dificilmente soube apontar ou ele próprio liderar soluções para os erros. E foi se excedendo sempre.

Dividiu a opinião pública. Criou animosidade entre partidos políticos. Foi o “pivot” irretorquível de fatos que reputamos dolorosos para a vida nacional.

Circunstâncias que todos conhecem, fizeram o Sr. Carlos Lacerda “pirar”. Mas o homem não seguiu o exemplo de Washington Luiz, Plínio Salgado e outros brasileiros exilados. Não foi capaz de ficar calado. De Portugal, onde está residindo provisoriamente, decidiu criar mais um “caso” no Brasil, numa época algo tensa como é a atual. Condenamo-lhe tal áto. Não conhecemos o seu manifesto, que tanta celeuma acarretou nos últimos dias. O fato é que obrou mal o homem que está fora do Brasil, que precisou sair às pressas da Pátria, por questões políticas e ainda insiste em fazer com que permaneçam os seus pontos de vista, mesmo que para tal hajam consequência desastrosas para o povo brasileiro!

Imaginem os leitores desta simples coluna diária, o que teria acontecido no final da semana passada, se o Sr. Carlos Lacerda se encontrasse entre nós e lançasse êsse faladíssimo manifesto! Pensem sobre isso, com a devida ponderação. Reflitam, leitores.

Óra, êsse homem está errado. Não em seu ponto de vista externado no manifesto (que desconhecemos), mas na teimosia e na irreflexão da atitude, que poderia ter sido ainda mais desastrosa. Em nosso ver, não é assim que se colabora para o engrandecimento do Brasil, para a harmonia do povo brasileiro e para despertar maior interesse de nossos governos, frente aos problemas nacionais. O Sr. Carlos Lacerda, indiscutivelmente, está usando um método detestável: o método confusionista.

Extraído do Correio de Marília de 28 de agosto de 1956

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Obrigado ‘dona’ COFAP! (25 de agosto de 1956)

Repetidas vezes temos afirmado nossa pouca fé em certos organismos controladores de preços, integrados, em grande parte por pessoas que representam, em realidade, uma casta e não uma classe.

A COFAP é um deles. Seus membros, quando representam facções de indústria e comércio, deveriam, ao contrário, representar o industriário, o comerciário, etc.; isto é, deveriam representar os miseráveis e não os potentados.

Aliás, isso é um mal nacional. Sabemos, por exemplo, que diversos deputados federais e estaduais, que integram comissões representativas nos parlamentos, são pessoas que representam, em realidade, causas próprias. Assim, “representa” a pecuária o grande pecuarista, as usinas o grande usineiro, a industria o poderoso industrial, etc.

E os resultados, aí estão: infalivelmente, cada reunião de orgão dessa natureza traduzem maiores dificuldades para o povo brasileiro. Até trememos de medo, quando COFAPS, COAPS etc. se reúnem. Adivinhamos sem dificuldades, que mais uma escorcha virá sobre os ombros do povo sacrificado.

As classes interessadas em novos aumentos, apresentam relatórios e razões, que “provam” as necessidades de novos preços (para mais, é lógico), motivos esses que os membros dos organismos aceitam com facilidade, porque, em realidade, muitos desses membros tiram também a sua casquinha, como interessados diretos e indiretos. Pelo menos, até aqui, isto tem sucedido. E não é segredo para ninguem.

Não temos conhecimento de nenhuma reunião da COFAP que não tenha redundado em novos aumentos de preços!

Esperavamos o aumento do custo do leite. E veio, como anteviamos. Com precisão matemática e distribuição equitativa: um pouquinho para o produtor, um tanto para o revendedor, a parte do Governo nos impostos, etc. etc.!

O povo que se dane, que vá para o diabo, é o que devem pensar os “controladores de preços.”

“Dona” COFAP não surpreendeu ninguem, com a autorização do aumento do preço do leite. Pelo contrário, causaria grande admiração para nós, se de qualquer uma de suas reuniões, redundasse um categórico e positivo “não”, aos clamores dos “tubarões” e dos potentados. Bem, isso, seria sonhar e hoje em dia não ha tempo para sonhos... principalmente para deliciosos como êsse aventado.

Mais uma tira acaba de sair dos costados do povo brasileiro, graças a interferência do organismo incumbido de defender êsse mesmo povo.

Em nome da miséria e das dificuldades dos chefes de família, em nome da fome de milhares de crianças depauperadas e sub-alimentadas deste imenso Brasil, apresentamos nossas congratulações ao citado organismo.

Obrigado, “dona” COFAP!

Extraído do Correio de Marília de 25 de agosto de 1956

sábado, 23 de agosto de 2008

O trigo em nosso Estado (23 de agosto de 1956)

Mereceram aplausos e encômios rasgados, os interesses do Governador Janio Quadros (foto), em lançar em nosso Estado, em carater oficial, o incentivo à cultura do trigo.

Oficialmente, o marco inicial dessa caminhada de redenção, ocorreu em São Miguel Arcanjo, onde a área total plantada foi de 150 alqueires, com excelente índice de germinação, ótima aparência vegetativa e estupendas perspectivas de bôa safra.

Vários são os centros paulistas, onde já foi plantado o precioso cereal. Avaré, por exemplo, está na expectativa de compensadora colheita para êste ano. A área inicialmente plantada no município de Avaré, foi posteriormente ampliada, em virtude da existência do moinho de Itapeva. Nesse moinho, vários triticultores mandavam moer o trigo, que vendem depois aos consumidores, pelo preço de Cr$ 12,00 o quilo, com excelentes margens lucrativas.

Palmital, Paraguaçu Paulista e outros municípios da Alta Sorocabana, apresentam bôas culturas do cereal. Aqui mesmo em Marília, existe quem colha o trigo para o próprio consumo anual.

São João da Boa Vista, Vargem Grande do Sul, Ourinhos, Sorocaba e outros municípios, desfraldam no momento a bandeira do cultivo do trigo.

As perspectivas são animadoras. Se prosseguirem assim os trabalhos e se sentir de modo positivo, o bafejo dos poderes oficiais, dentro em pouco o Brasil passará, de importador a exportador de trigo. Imaginem os leitores, o quanto montarão as divisas que ficarão no Brasil, com a cessação das importações desse produto. E o quanto de economia traduzirão para o Brasil.

Oxalá a cultura do trigo não venha a perder-se, como outras tantas patrióticas e necessárias campanhas nacionais: na gaveta das “fases de experiências”.

Extraído do Correio de Marília de 23 de agosto de 1956

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Sinal dos Tempos? (22 de agosto de 1956)

Ao que parece, Marília jamais viveu um drama como o presente. Jamais tivemos tantos desempregados na cidade, nunca foi tão elevado o número de pedintes elas vias públicas, nunca foi tão difícil e desesperadora a vida na Capital da Alta Paulista.

A alta geral dos preços das utilidades públicas, estarrece qualquer mortal. Nem uma fruta, pode, hoje em dia, comprar um operário que seja chefe de família numerosa, tão elevados são os seus preços.

Agora, o espetáculo triste, a “espada de Dámocles” sobre as cabeças de centenas de empregados, ameaçados de desemprego, em consequência do novo salário mínimo, salário que ainda apresenta suas dúvidas, quanto a realidade, em face da aceitação desfavorável que teve, uma vez que tornar-se-á dentro de alguns dias, completamente inútil. E, por outro lado, criará outras consequências imprevisíveis.

Muita gente, humilde, servirá de bode expiatório para o “drama do salário mínimo”. Em muitas circunstâncias, existem razões em parte para muitos empregadores. Acontece que muitas famílias passarão fome, com o desemprego fatal, já iniciado.

A vida, se já era difícil mais dramática tornou-se para muita gente, que, percebendo salários inferiores aos chamados “mínimos”, anda hoje estourando a cinta em seu último furo, privados de tudo o que é sumariamente necessário.

Que fazer? Quais as providências?

Muita gente grita, mas nem todos tem razão. Já estamos vendo no côro da choradeira, até figurões representativos, políticos profissionais e mesmo “tubarões” desalmados. Óra, leitores, se uma pessôa que dispõe em giro milhões e milhões de cruzeiros, anda por aí berrando que as coisas estão ruins, quais os triunfos que poderá dispor aquele que tem três ou quatro filhos, ganha uns míseros mil cruzeiros por mês?

Será um sinal dos tempos? Ou será... bem, é isso mesmo.

Extraído do Correio de Marília de 22 de agosto de 1956

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Medicamentos fraudados (21 de agosto de 1956)


Escrevemos ha dias, sobre laboratórios farmaceuticos, que fraudam medicamentos, em flagrante áto de menosprezo ao povo brasileiro, em irretorquível atitude de desumanidade.

Ha poucos dias, na séde do Serviço de Fiscalização do Exercício Profissional, teve lugar uma reunião, a que compareceram o diretor-geral do Departamento de Saúde, o diretor do Serviço de Fiscalização do Exercício Profissional, o diretor dos “comandos” sanitários, e dois técnicos do Instituto Adolfo Lutz, convocada para acertar medidas relativas à aplicação de penalidades aos fabricantes de medicamentos adulterados. Representando o Ministério Público, compareceu à reunião o promotor público Helio Bicudo (na foto de autoria de Max G. Pinto), que instruiu as autoridades sanitárias acerca da forma legal do envio à Procuradoria Geral do Estado da documentação necessária à responsabilização criminosa dos infratores.

Primeiros produtos condenados

Das amostras apreendidas pelas autoridades fiscais para analise no Instituto Adolfo Lutz, já foram condenados até o momento os seguintes produtos: “Vitamina B-12”, dos laboratórios Jonhson do Brasil; “Lubecilin”, do laboratório Lobet; “Divitin”, laboratório Lobet; “B-12 mille”, laboratório Hormoclinico; “Meystrep”, laboratório Meyer & Cia.; “Vitamina B-12”, L. Keller Lupe & Cia. Ltda.; “Anginopen”, Especifarma S/A.; “Vitamina B-1 Beglintox”, Instituto Cientifico Medicator; “Lavolho”, Clossops S/A.; “Colbil” liquido, laboratório Silpco Ltda.; “Óleo de amendoa doce”, Alfredo Geissler & Cia. Ltda.; “Epatovis” liquido, laboratório Dorsay Brasil; “Glicerofosfato de cálcio”, “Glicerofosfato de magnésio”, e “Pomada Mercurial forte”, laboratório Inter-Brasil; “Vericit”, laboratório Edanol; “Calcintex”, laboratório Expansil; “Probilino” liquido, Sonder do Brasil; “Água oxigenada” (10 volumes), Industria Química InterBrasil; “Ascorbato de sodio”, Sociedade Farmacêutica Virmosa Ltda.; “Belabeum”, Quimiotex Ltda.; Terachimica Ltda.; “Fisfoto de cálcio puro”, Inter-Brasil; “Carbonato de cálcio precipitado”, Inter-Brasil; “Cá-vi-te”, Terachimica; “Fortiplen”, Vimona Ltda.; “Glitrimin”, Virmona Ltda.; “Lactofosfato de cálcio”, Inter-Brasil; “Olbut”, Quimiotex Ltda.; “Óleo Vitamina A e D”, Refar Ltda.; “Óleo de Rícino”, Inter-Brasil; “Sexocal”, Demetrio Perez & Cia. Ltda.; “Soluto de glicosado vitaminado”, Virmona Ltda.; “Vaselina liquida”, Inter-Brasil; “Vidacilin”, Indofarma Ltda.; “Glicotonina”, Refar Ltda.

Penalidades

Aos infratores serão aplicadas as seguintes penalidades: a) apreensão e inutilização do lote dos produtos condenados; b) multa; c) processo-crime; d) apreensão dos produtos nas farmacias em que forem encontrados.

Advertência às farmácias

A farmacia que ignorar, ou pretender ignorar a condenação dos produtos acima mencionados, e continuar a vendê-los, estará sujeita, igualmente, a processo e outras penalidades.

Extraído do Correio de Marília de 21 de agosto de 1956

domingo, 17 de agosto de 2008

Laboratórios “Fantasmas” (17 de agosto de 1956)

Tomou-se em São Paulo, uma atitude que de ha muito deveria estar em vigencia, não só na paulicéia, como em todo o Brasil. É o caso do Governo, que decidiu arregaçar as mangas e entrar em ação contra incontáveis “laboratórios” farmaceuticos que existem espalhados, quase em sua totalidade na própria Capital paulista, que nada mais são do que verdadeiros antros de indivíduos gananciosos, desonestos e desalmados, que se prevalecem das misérias e necessidades do povo, para impingir-lhe medicamentos fraudados alguns e absolutamente inócuos outros.

O Chefe dos “Comandos Sanitários”, Dr. Mario Paiva, recebeu, a respeito, do Governador Janio Quadros, o seguinte despacho: “Aos “Comandos Sanitários”. Examinar. Articular-se com outros serviços de saúde para combate rigoroso aos laboratórios desonestos. O “Adolfo Lutz” colaborará. Todo o empenho. 7 de agosto de 1956. (as.) Jânio Quadros (foto)”.

Esse assunto deveria ter merecido enérgicas atenções do Governo, de ha muitos anos atrás. É uma questão de verdadeira humanitariedade. Um grupo de homens verdadeiramente criminosos, brinca com as misérias do povo, enriquecendo-se. É um crime inqualificável, o abusar do povo dessa maneira: enganando os necessitados e doentes, com drogas falsas e inócuas. Principalmente tendo-se em vista os preços estratosféricos de hoje em dia, dos produtos farmacêuticos. Aqueles que assim agem, devem, de pronto, ser agarrados pelo gasganete e pagar os crimes no fundo de um cárcere. Devem pagar pelo mal que fizeram e continuam fazendo à própria humanidade. O áto de ludibriar com medicamentos fraudados as misérias e necessidades humanas pode ser classificado como anti-cristão. Só desalmados podem enganar tão frontalmente, aqueles que doentes, empenham-se na luta por escapar a morte. Só verdadeiros bárbaros podem assim agir. O crime é inafiançável. Quando um cidadão ou grupos de cidadãos se propõe a assim proceder, é porque o sentimento de fraternidade , o espírito de respeito ao próximo, a solidariedade humana evaporaram-se, para dar lugar a sentimentos puramente bestiais.

Esses casos são realmente revoltantes, pela gravidade que encerra o menosprezo para com o próximo. Pela indiferença que apresentam, para com a própria vida dos semelhantes.

O Governador Janio Quadros, que tanto tem primado pela honestidade, que jamais descance quanto à essa luta gloriosa e profundamente humana. Que aja sem complacência contra aqueles que, objetivando apenas o vil metal, pouco se lhes dá com o próprio povo.

Custa até a crêr, que existam brasileiros desse naipe! Que brinquem, assim, com a saúde e a própria vida do povo, vendendo a um necessitado, muitas vezes morimbundo, um remédio sem o intrínseco valor de suas propriedades medicinais.

Crime abominável, êsse, que deve ser desfeito e punidos os criminosos, para a felicidade do povo brasileiro e para o próprio bem do Brasil!

Extraído do Correio de Marília de 17 de agosto de 1956

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Jornais velhos (15 de agosto de 1956)




Certa ocasião, um amigo comum e leitor desta secção, nos ofereceu alguns números de jornais antigos. Para coleção – explicou. Na oportunidade, brincamos com essa pessôa, dizendo aceitar de bom gosto, pois tentaríamos colecionar jornais de antanho, uma vez que estava falhando o nosso intento em colecionar notas de mil cruzeiros.

E a pessôa cumpriu a promessa. Veio trazer-nos um embrulho contendo jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro, em edições cujas datas variam de 1907 até 1933. Por falta de tempo, só ontem tivemos o ensejo de “correr os olhos” sobre os exemplares, já amarelecidos pelo transcurso dos anos. Passamos alguns momentos agradabilíssimos, deliciados com a leitura disso que para muitos são imprestáveis e para nós constituem uma verdadeira relíquia.

Como era diferente a vida antigamente! Casas chiques, em bairros idem, alugavam-se por preços que por dia o inquilino vinha a pagar menos do que custa hoje um simples sanduíche de pão e mortadela. Política, então, punha em destaque nomes de vultos que hoje figuram como jóias da própria vida nacional e que tem seus nomes perpetuados em diversos pontos de várias cidades e capitais do Brasil.

O ortografia antiga, impecável, oferece uma sensação de curiosidade para a gente, com os seus “promptos”, “pharmacias”, “effectivos”, “dannos”, etc.

Perdemos boas horas, manuseando o pacote de periódicos, com satisfação incrível. E quando o tempo não mais nos permitiu o prolongamento do contacto com a curiosa leitura dêsses objetos, embrulhamos e guardamos com carinho os jornais referidos.

Num dos exemplares, datado de 1914, está transcrito na íntegra um dos fabulosos discursos do saudoso patrício Ruy Barbosa (foto), proferido no Senado Federal, abordando a situação do Brasil, frente ao movimento beligerante de caráter mundial, ocorrido de 14 a 18. Uma verdadeira obra prima. Improviso brilhante, português impecável, alocução gramatical de raro valor.

Ledo o referido discurso, sentimos vergonha de conhecer certos parlamentares nacionais, confessamos. Analisando a essência do conteúdo, aquilatamos o valor da expressão e confessamos sentir inveja da capacidade oratória do grande vulto do passado.

Para nós, o referido jornal constituirá um patrimônio de nossos objetos de valor, que guardaremos com desvelo e cuidado, eternamente.

O nosso amigo, deu-nos, de presente, apenas jornais velhos. Ele talvez ignore a culminância do bem e da alegria que êsse presente, aparentemente simples, foi capaz de nos causar. Muito obrigado!

Extraído do Correio de Marília de 15 de agosto de 1956

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O caso “Drogasil” (14 de agosto de 1956)

Não estamos fazendo campanha desmoralizadora contra a firma. Em nosso primeiro artigo, escrevemos que não é nossa intenção cercear direitos de quenquer-que seja. Tampouco entramos no aspecto legal da questão. Comentamos, como jornalistas marilienses, o fato em si, porque diz respeito direto aos interesses do povo desta terra. E nós, jamais silenciaremos, quando urja defender interesses dos marilienses. Especialmente como é o caso em tela, que, lógicamente, precipitará o encerramento das atividades da Farmacia Noturna, em prejuízos do próprio povo.

Em nosso artigo anterior, focalizamos a questão pelo lado humanitário, uma vez que entendemos como desumano o procedimento que venha a acarretar prejuízos morais e físicos ao povo, abolindo da cidade, os serviços utilíssimos e indiscutíveis que nos presta a Farmácia Noturna, funcionando, ininterruptamente das 18 até às 8 horas.

Acontece que um cidadão nos procurou. Seu nome, para ser público não irá interessar e tampouco convêm sua divulgação. Acontece que o cidadão é representante farmaceutico com longos anos de serviços no ramo. E como tal, conhece bem a questão ora focalizada. Veio até nós, para dizer-nos que se de fato a Farmácia Noturna se propõe a fechar suas portas, pelo fato da Drogasil abrir até 22 horas, podem os marilienses esperar que isto aconteça. E contou-nos alguns fatos em que a Drogasil, objetivando, como é o caso, interesses puramente comerciais, não ligará importância aos transtornos que possa sua atividade acarretar ao povo. E citou-nos exemplos, mesmo em São Paulo. Foi mais além esse nosso amigo, ao afirmar-nos que a Drogasil é caprichosa e quando se propõe a fazer uma coisa o faz, mesmo com prejuízos. Pouco se importam seus dirigentes a esse respeito.

Não desconhecemos direitos. Apenas apelamos, ara o espírito humanitário dos dirigentes da firma, para que abandonem as prerrogativas que a lei lhe faculta, uma vez que se trata de beneficiar mais de cem mil marilienses. Só isso.

Se a Drogasil insistir e levar a cabo a sua idéia, fazendo como consequência, que a Farmácia Noturna feche suas portas e acarrete prejuízos inumeráveis para a família marilense, estará procedendo, conforme afirmamos anteriormente, a um gesto dos mais antipáticos para com o povo de Marília.

Não se esqueçam seus dirigentes.

Extraído do Correio de Marília de 14 de agosto de 1956

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Foram entusiasticamente recebidos pelo povo mariliense os seus bravos Expedicionários

(Entre eles, o cabo José Padilla Bravos, o José Arnaldo)

Ante-ontem, tôda a cidade vibrou de entusiasmo rendendo calorosas homenagens aos valentes expedicionários marilienses, que regressaram da guerra. Desde quinta-feira já era desusado o movimento nas ruas. Ás casas comerciais do centro, colaborando para o brilhantismo da recepção, ornamentaram artisticamente suas vitrinas, algumas delas apresentando notáveis e expressivas alegorias.

Na rua 9 de Julho, na esquina da avenida 10 de Novembro, foi erguido um arco triunfal, e, na quadra do coração da cidade, em frente ao Tenis Clube, foi levantado o palanque oficial, ostentando alegorias e saudações do Aéro Clube, do Tiro de Guerra e da Sociedade dos Amigos de Marília. Nos postes das ruas centrais, foram colocados escudos com legendas expressivas dedicadas à FEB. Em todos os bairros foram hasteadas bandeiras e no trecho central, o aspecto era de uma floresta de bandeiras. Quando se aproximava a hora da chegada do combôio da Paulista, havia uma compacta multidão desde a estação até a avenida 10 de Novembro, postando-se numerosas pessoas nas sacadas, nas marquises, nas platibandas e até nos telhados mais altos.

Do campo da aviação decolaram seis aparelhos, que sobrevoaram a cidade, tomando a seguir o rumo de Vera Cruz, de onde acompanharam o trem que conduzia os expedicionários.

Na “gare” da Paulista, as autoridades locais, civis, militares e eclesiásticas, tôdas as componentes da Legião Brasileira de Assistência, representantes da imprensa e pessoas gradas, aguardavam o combôio, cuja entrada na estação foi festivamente assinalada pelo espoucar de fogos e pelo som de uma vibrante marcha executada pela Banda Municipal, prorrompendo o povo no desembarque dos “pracinhas” em calorosos aplausos.

Formado o cortejo, na esquina da antiga Avenida Brasil, ao se proceder a inauguração da placa da nova denominação – Avenida dos Expedicionários – a sta. Zuleika Partejani, aluna do pré-Normal da Escola Normal Sagrado Coração de Jesus, pronunciou um vibrante discurso. A seguir, o cabo Marcílio Luiz Pinto, um dos “pracinhas” mais populares na cidade, descerrou a placa, sob delirantes aclamações.

Prosseguindo o cortejo pela rua 9 de Julho, em todos os pontos por onde passavam os expedicionários, o povo os recebia entusiasticamente.

Alcançada a avenida 10 de Novembro, que estava literalmente lotada, dirigiram-se os rapazes para o palanque oficial, onde se encontravam pessoas de suas famílias, tendo o sr. João Neves Camargo, prefeito municipal, preferido um discurso de saudação em nome da cidade, tendo, em seguida, usado da palavra o dr. Laércio Barbalho, pela Sociedade dos Amigos de Marília e da Legião Brasileira de Assistência.

Começando o desfile, a banda de tambores e cornetas do Tiro de Guerra abriu caminho entre a multidão, marchando garbosamente sob o comando do sargento Isaias Rodrigues Martins, um dos organizadores da ordem da formação, vindo após o Ginásio Estadual, Esc. Tec. de Com. Normal Livre Sagrado Coração de Jesus, os atletas uniformizados da A. A. São Bento, primeiro, segundo e terceiro grupos escolares, todos conduzindo dísticos patrióticos, bandeiras adicionais e das Nações Unidas, sendo que o povo aplaudia freneticamente cada nova parte do desfile que atingia a frente do palanque.

Terminado o desfile, mais ou menos às 14 horas, no Líder Hotel, foi oferecido um almoço aos “pracinhas”, no qual tomaram parte o 1º Tte. Eduardo Cerqueira César, cabos Marcilho Luiz Pinto e José Padilla Bravos, soldados Moacir Augusto de Oliveira, Ângelo Tristão de Faria, Laurindo Francisco da Silva, Otaviano dos Santos e Nivaldo Pereira dos Santos, todos expedicionários que ante-ontem chegaram. De Marília estiveram presentes no almoço as seguintes pessoas: dr. Breno Caramurú Teixeira, Juiz de Direito; Sr. João Neves Camargo, Prefeito Municipal; pe. Luiz Otávio Bicudo de Almeida, dr. Dorival Morais Rosa, Delegado Regional de Polícia; pe. José Fortunato da Silva Ramos, dr. Lauro Bonilha de Toledo, Delegado Adjunto de Polícia; Tte. José Jatobá, sargento Isaias Martins, prof. Antônio Reginato, inspetor Escolar; dr. Osvaldo Rocha Mello, presidente da SAM; prof. Oguimar Rugeli, inspetor escolar, representando a Delegacia Regional do Ensino; prof. Geraldo Brandão, diretor do Ginásio Estadual; prof. Ramiz Gattaz, representante da “Folha da Manhã” e do Serviço Informativo da SAM; José Gonzaga, do Rotary Clube; sr. Trajano Pupo, presidente da Associação Comercial; dr. Marcelo Neves Morelli, dr. Benjamin Vasconcelos, do Departamento Estadual de Informações; srs. José Palma, Francisco Palma, Basileu Assiz Morais, secretário da L.B.A., Benedito de Oliveira Filho, dr. Antônio Carlos Correia, presidente da C.C.E.; dr. José Orlando Beldorado, agrônomo Regional; Luiz Pelegrino Filho, da Sociedade Odontológica de Marília; prof. Antônio Freire de Souza, diretor do 2º Grupo Escolar; dr. Waldemar Muniz da Rocha Barros, dr. Benjamin Ribeiro de Castro, dr. Paulo Stipp, professora Sofia Marciglia, dr. Miguel Argolo Ferrão, presidente do Rotary Clube; dr. Laércio Barbalho, dr. Abelardo Morais, representante do Marília Tenis Clube, sr. Venâncio de Souza, stas. Amélia Pierre e Rosa Scarossato, sr. Herculano Pires, sr. Nechenja Singal, representante do “Diário Paulista” e João Ferraz Sobrinho, gerente da PRI-2, que gentilmente representou esta fôlha.

À sobremesa, usou da palavra, em nome da Legião Brasileira de Assistência, o sr. Venâncio de Souza, tendo respondido, pelos expedicionários, o Tte. Cerqueira Cesar.

HOMENAGEM NO GINÁSIO ESTADUAL

Às 17 horas, realizou-se no Ginásio do Estado, uma festa cívica promovida, pelos estudantes, sta. Amarylis Santana Lara e Francisco Sanches, em homenagem aos “pracinhas”.

Quando os rapazes entraram no salão nobre, onde realizou-se a festa, a numerosa (platéia) os ovacionou longamente, sendo, então, constituída a mesa, que foi presidida pelo jovem Francisco Sanches, que revelou-se um talentoso, líder estudantino, agindo com muito desembaraço e correção.

Tomaram lugar à mesa os srs. João Neves Camargo, prefeito municipal, prof. Gandur Eduardo Abgalil, João Ferraz Sobrinho, gerente da PRI-2, dr. Antônio Pereira Manhães, pe. José Fortunto da Silva Ramos, tte. José Jatobá, stas. Amarylis Santana Lara, Leda Banzato, prof. Geraldo Brandão, diretor do Ginásio e Nechenja Singal, pelo “Diário Paulista”.

Usaram da palavra o prof. Geraldo Brandão, as stas. Luiza Eneida, que declamou uma poesia, o jovem Mendes Rios, pelo Grêmio Literário Esportivo “Sampaio Vidal”, as stas. Amarylis Santana Lara e Leda Banzato, declamando versos de Castro Alves, o escritor dr. José Geraldo Vieira, que pronunciou uma soberba peça oratória de grande atualidade e o dr. Antônio Pereira Manhães.

A seguir foram servidos doces e um ponche aos convidados.

FILMAGEM

Tôdas as homenagens prestadas aos nossos valentes soldados, foram filmadas pelo operador sr. Almeida Fleming, do Departamento Estadual de Informações.

IRRADIAÇÃO

Conforme noticiamos, a PRI-2, Radio Clube de Marília, cooperou para o êxito das festas transmitindo do palanque oficial os discursos e a reportagem do desfile, assim como o almoço oferecido aos expedicionários. À noite, nos estúdios, foi realizado um “show” em homenagem aos mesmos.


ORNAMENTACOES DE VITRINAS

Foram as seguintes as casas comerciais que ornamentaram suas vitrinas, algumas delas apresentando magníficas alegorias: na avenida 10 de Novembro: Alfaiataria Globo, Livraria Brasil, Marabá, Maripan e Cine Bar. Na rua 9 de Julho, o Bazar Cruzeiro. Na rua Prudente de Morais, Casa das Novidades, Casa dos Óculos, Casa Econômica, Casa Carlos, Casa Nova América, Casa Sobreira, Casa dos Vidros, Casa Palma e Casas Pernambucanas e A Elite. Na rua São Luiz, A Imperatriz, Casa Mimosa, Bazar Mimoso, Casa Bom Pastor e Casa Guarani.

RETRETAS

Pela Banda Municipal, regida pelo maestro Jorge Gaiatti, realizou-se, no coreto da praça Saturnino de Brito, uma retreta em que foram executadas somente marchas cívicas. No palanque da avenida, a Corporação Musical “Santa Cecília”, sob a regência do sr. Domingos Nunes, executou interessantes peças do seu repertório.

CHURRASCO

Ontem, no Parque Infantil, foi-lhes oferecido um churrasco em que tomaram parte inúmeras pessoas.

Extraído do Correio de Marília de 12 de agosto de 1945

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O novo aumento de preços de passagens (11 de agosto de 1956)

Se é verdade que a Cia. Paulista de Estradas de Ferro é a que melhor serve o público em geral, é também verdade que é a mais caro cobra os seus serviços de transportes. Por “dá cá aquela palha”, a Paulista arruma um pretexto e “sapeca” novo aumento em suas tarifas ferroviárias.

Nós, que somos servidos por essa ferrovia, temos razões de sobra para gritar, quando nos vemos na iminência de um novo aumento de preços de passagens e fretes, que virá a ser o terceiro dentro de um ano!

Está transpirando o novo aumento de preços de passagens e fretes ferroviários, para vigorar, segundo consta, já na semana entrante, ou seja, no dia 15. Um absurdo, sem dúvida. É mesmo de estarrecer, de desanimar, de se perder a fé essas muitas coisas que acontecem no Brasil. Três aumentos de preços, num mesmo ano. E não pensem os leitores que são “aumentozinhos”, não. Foram aumentos, com “a” maiúsculo. Acontece, que, quando da última elevação de suas tarifas ferroviárias, a Paulista justificou o áto como conseqüência da elevação dos níveis salariais de seus funcionários e operários. E na ocasião, diziamos que a Paulista tinha feito, era um excelente negócio, aumentando seus já fabulosos lucros, escudada em nomes e trabalhos de seus auxiliares. Exemplificando, diremos o que escrevemos na ocasião: colocando-se numa balança o coeficiente das rendas gerais obtidas em consequência do referido aumento e a porcentagem do acréscimo resultante dos aumentos concedidos na ocasião a seus auxiliares, ainda “sobrou” muito dinheiro para os cofres da Companhia.

Estamos prevendo a repetição do fato. O pretexto do novo nivel de salário mínimo, irá fazer com que grossa tira de couro saia novamente dos costados do povo.

O Governador do Estado, que é a única autoridade competente para autorizar a elevação dessas taxas, que não permita isso. Que não consinta em mais êsse sacrifício para o povo paulista. O Sr. Janio Quadros, que tome essa iniciativa, atenuando em arte a aflição dos brasileiros, em conseqüência da inépcia do Governo Federal, no que diz respeito ao descaso como é tratada atualmente a questão dos preços das coisas de primeira necessidade no Brasil.

Não será difícil para o Governador Jânio Quadros assim agir, principalmente quando agora, S. Excia. procura, por todos os meios, negar aos funcionários públicos o aumento que estes, com justiça, pretendem.

O propalado novo aumento da Cia. Paulista de Estradas de Ferro chega a ser um absurdo, principalmente completando o número de três num mesmo ano. Se o Chefe do Executivo paulista autorizar mais essa escorcha, por certo demonstrará a não existência daquelas intenções que acreditamos imbuir o Sr. Janio Quadros na defesa do povo paulista.

Para nós, êsse novo aumento é estarrecedor! Estarrecedor e incrivel!

Extraído do Correio de Marília de 11 de agosto de 1956

domingo, 10 de agosto de 2008

Um gesto antipático (10 de agosto de 1956)

Não vamos aqui discutir o aspecto legal da questão, por não ser da nossa competência. Nem pretendemos cercear direitos preceituais de quem-quer-que seja. Acontece que a Drogasil, com sua teimosia em querer permanecer com seu estabelecimento aberto depois das dezoito e até vinte e duas horas, irá, fatalmente, precipitar o fechamento da Farmácia Noturna. Isso porque a Drogasil, com maior estoque e em ponto mais central, monopolizará para si o forte do movimento farmacêutico noturno, ou seja, o compreendido até o horário das vinte e duas horas. Todos sabem que depois dêsse período, só recorre a uma farmácia, quem tem urgência inadiável e na maioria das vezes em casos graves. Óra, com o fechamento da Farmácia Noturna, em conseqüência direta da teimosia da Drogasil, o prejudicado será o próprio povo mariliense.

Permanecer com a farmácia aberta durante toda a noite, não é privilégio da Noturna e nem de ninguém. Por que, então, uma vez que a Drogasil insiste em só fechar suas portas às 22 horas, não “vara” noite a dentro, colocando-se à disposição da população mariliense, como faz a Noturna? Porque, unicamente, a firma citada só está cogitando de interesses comerciais, relegando a plano secundário as necessidades coletivas.

Não ha dúvida, de que se a Drogasil cumprir o que pretende, a Farmácia Noturna terá que fechar suas portas, em detrimento do público em geral. E isto será, em todas a extensão do vocábulo, um gesto dos mais antipáticos.

Pergunta-se ao povo mariliense, quantos benefícios já usufruiu êste mesmo povo, quando, na cala da noite ou em alta madrugada, viu um ser querido necessitar de um medicamento de urgência. Pergunte-se, por outro lado, a gentes de outras cidades, onde tal melhoramento de progresso não existe e onde os que precisam de uma droga numa dessas horas, de quantos sacrifícios, tempo e aflições tais situações criaram. Pergunte-se ao povo, se os males graves e súbitos só ocorrem até as vinte e duas horas, quando a Drogasil ficará fechada.

A questão aqui, embora seja comercial para a Drogasil, é humana para nós, marilienses. Se a firma sempre colaborou com o próprio povo, acompanhando as demais farmácias, no encerramento de suas atividades às 18 horas, para que a Farmácia Noturna trabalha dêsse horário até às 8 horas do dia seguinte, porque não continuar a favorecer o público em geral, continuando êsse mesmo horário de trabalhos?

Repetimos: o gesto da Drogasil, a êsse respeito, é dos mais antipáticos e acarretará, fatalmente, prejuizos para a população. Se é isto o que a mesma busca, não poderá queixar-se, para o futuro, se à ela forem imputadas responsabilidades do que possa acontecer a um mariliense, que morrer durante a noite, por dificuldades na obtenção de remédios e tratamento farmeceuticos.

Este é a verdade.

Extraído do Correio de Marília de 10 de agosto de 1956

sábado, 9 de agosto de 2008

A reorganização da COMAP (09 de agosto de 1956)

Ha tempos, foi o plenário da Câmara Municipal notificado, numa das sessões ordinárias do legislativo mariliense, que o Prefeito Argollo Ferrão estava de posse da lista de nomes de pessoas que deve(r)iam ser consultadas para integrar o organismo municipal controlador de preços.

Agora, com maior segurança, estamos informados que tais nomes auscultados, estão dispostos a emprestar ao município e ao povo mariliense a sua cota de colaboração. Assim, dentro de mais alguns dias, será reorganizada a COMAP em Marília.

Louvamos a intenção do Sr. Prefeito Municipal, em ter-se preocupado grandemente com a escolha de pessoas ara a desincumbência do cargo. Sabemos todos que existem em Marília, não um ou dois, porém, inúmeros homens capazes de emprestar ao município e ao povo mariliense a sua colaboração sincera nesse sentido; no entanto, essas pessoas precisam trabalhar e dispender, por vezes, sacrifícios sem conta e sem quaisquer outros interesses que não os de servir uma causa nobre e de certo modo espinhosa.

Superficialmente, ficamos sabendo a relação desses nomes, de pessoas íntegras e capazes e ficamos bastante aliviados e esperançosos, convictos de que muita coisa em Marília, em breve “entrará nos eixos”.

Que a COMAP entre na luta, por seus novos soldados, disposta a acabar com certas roubalheiras desbriadas que campeiam por aí, em diversos setores da vida econômica da cidade. Que separe das ações, o pulsar do coração, objetivando o bem estar e o respirar mais fácil para os marilienses. Que trasse um plano de ação, coordenado, preciso, para iniciar os primeiros passos. Que não descuide em nada, porque existe muita coisa errada no setor dos preços em Marília. Por exemplo, o pão, que apresenta, criminosamente, dois aumentos simultâneos: aumento do preço e diminuição de tamanho, com inobservância de peso em muitas padarias da cidade.

Frutas, verduras, aves, ovos, etc., necessitam de um exame de preços e condições em Marília. Além disso, após estudos acurados e sensatos, sugestões poderão ser feitas, a titulo de colaboração, aos organismos superiores – COAP e COFAP.

Porque, realmente, as coisas estão andando erradas em muitos campos do município. A reorganização da COMAP constitui-se, sem dúvida, num vale de esperanças para muitos chefes de família.

Nossos votos sinceros de que os homens que vierem a compor o organismo a ser reorganizado, não temam caretas e entrem em cena dispostos a trabalhar.

Extraído do Correio de Marília de 09 de agosto de 1956

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Passeios esburacados (08 de agosto de 1956)

Preliminarmente, a atenuante: o tempo, chuvoso como está, não permite mesmo consertos nos passeios públicos, que apresentam em Marília, mais buracos do que queijos suíços. Acontece, porém, que o problema é algo crônico. Apesar de não sermos nenhum “globetrotter”, temos viajado um bocado e conhecemos incontáveis cidades do Estado. E afirmamos que poucas são as “urbes” do nível de adiantamento de Marília, que apresentam o espetáculo igual a nossa cidade, no concernente aos passeios tão amiudamente esburacados.

O caso vem de longe e de há muito há nos ocupamos da questão. Acontece que a situação está a chamar as atenções da Prefeitura Municipal. Agora, com as chuvas, percebe-se mais facilmente as “crateras” imensas e em número incalculável, que existem nos passeios das ruas de Marília. As águas plenam os buracos, atingindo o nível normal das partes calçadas. A profundidade dos mesmos, torna-se ignorada. O pedestre, andando às pressas, às vezes não percebe as covas; leva um tremendo soco, como se tivesse engolido um anzol. Resultado: molha-se mais do que com a própria chuva.

Não estamos exagerando. Há muito que as providências deveriam ter sido tomadas; se a obrigatoriedade dos reparos é de responsabilidade dos proprietários dos imóveis, a Prefeitura que os intima a executá-los, dentro de um prazo estipulando (referimo-nos ao tempo normal, sem chuvas); findo este, a municipalidade que execute a obra e cobre as despesas, acrescidas de uma taxa de administração. Se, a própria Prefeitura compete em alguns casos, a construção desses remendos, está demorando muito em fazer a obrigação. O que é certo, indiscutível, é que várias ruas centrais da cidade, apresentam aspectos desoladores nesse particular. E não é de hoje. É verdade, repetimos, que no momento as chuvas “não dão folga”. Mas é tambem verdade que o problema já está de cabelos brancos.

Por outro lado, alguns remendos que foram feitos ultimamente (antes das chuvas), deixaram muito a desejar. Vimos em vários pontos da cidade, onde o calçamento dos passeios ainda é do tipo de ladrilhos com “gomos” quadrados, ter sido colocada uma camada de cimento nos claros e depois ter-se feito riscos imitativos dos próprios “gomos” dos ladrilhos. Acontece, que tais remendos foram utilizados com uma mistura de cimento e areia, onde a percentagem de areia foi tanta que inutilizou a própria da firmeza do cimento e o simples cotacto das solas dos calçados dos transeuntes, estragou tudo ou quasi tudo. Este tambem é um assunto que deve merecer as atenções do serviço de engenharia da Prefeitura, pois tem sido o mesmo que remendar uma roupa com linha podre.

Aqueles que andam de automóvel, não se apercebem muito bem da gravidade e da feitura do assunto. Porém, os que palmilham as vias publicas, mesmo as centrais, conhecem melhor a questão. E hão de convir conosco. O assunto reclama providencias, ha muito tempo.

Extraído do Correio de Marília de 08 de agosto de 1956

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O barril de pólvora do Canal de Suez (07 de agosto de 1956)

(O Canal de Suez, em imagem recente feita pela Nasa)


Abrimos a carta, de letra bem feminina, redonda e harmoniosa, vasada em bom português, muito fluente e amena. De início, abundancia de gentilezas aos nossos “estupendos artigos, que se tornam agradáveis de ler, pela simplicidade com que são feitos, pela ponderação e critério com que são abordados”. Depois, a “sinuca” cá para o redator destas linhas: “dê sua opinião sobre as brigas que se verificam em torno do Canal de Suez.”

Bôa amiga, confessamos que não somos leigos e sim “analfabetos” em questões de política – especialmente a política internacional. Com referencias às “brigas” sobre a causa do aludido canal, então, pouco sabemos. Pouco sabemos, porque pouco nos interessamos, até aqui, pelo caso em tela. No entanto, o que parece certo, tão matemático como dois e dois são quatro, é que o Canal de Suez é um barril de pólvora e o estopim já está aceso. Ao par do comércio indiscutível que a Inglaterra procura fazer do caso, vemos – em nosso fraquíssimo entender – que é o país que tem mais razões sobre o assunto. Numa comparação grosseira, diríamos que o direito dos britânicos, nesse particular, poderia ser perfeitamente enquadrado naquele dispositivo legal que os juristas chamam de “uso-capião”, isto é, ter direitos a preterir os direitos de outros sobre uma propriedade, após o uso, conservação e direção da mesma, por um determinado número de anos seguidos.

Não estamos, repetimos, bem ao par da questão. No entanto, limos ha anos, não sabemos onde, alguma coisa a respeito da “história” do Canal de Suez. E ficamos inteirados na ocasião, de que a própria origem do famoso canal, que, a rigor, presta serviços inestimáveis à navegação internacional, é, desde o início, uma organização desorganizada. Se a memória não nos falha e se o que limos foi verdadeiro, o “negócio” resume-se, mais ou menos, no seguinte: Três países foram os timoneiros da construção do canal e sua devida exploração, comercialmente falando. Inglaterra foi um, França outro e o terceiro não recordamos. Os dois últimos países se bem que tivessem começado os serviços, abandonaram a empreitada. A Inglaterra ficou sozinha e levou a cabo a luta, que é aquilo que hoje em dia se conhece. E tratou de explorar a questão. Pensando bem, se a “coisa” é mesmo assim, conforme estamos referindo, a razão está com os britânicos, embora os mesmos estejam sendo ditadores naquela área. Porisso, não vemos motivos para dar-se razões aos outros países, que, agora, pretendem escorraçar os ingleses de seu posto, para “papar” o “filé mignon” já preparado.

Se fomos claros em nossas exposições, a nossa missivista que formule, a seguir, as demais conclusões. Se não o fomos, ou se cometemos algum erro, as nossas excusas.

Uma coisa, no entanto, é certa: o Canal de Suez poderá transformar-se, com o decorrer dos anos, naquilo que a Coréia, a China Comunista e o Japão não conseguiram: a terceira guerra mundial. Lamentavelmente.

Extraído do Correio de Marília de 07 de agosto de 1956

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Ainda o petróleo Boliviano (04 de agosto de 1956)

Várias cartas e telefonemas chegaram até nós, em virtude de nosso comentário de há dias, acerca do caso divulgado, sôbre a exploração de petróleo boliviano, pelo Brasil, numa área de 32 mil quilômetros quadrados naquêle país. Os leitores têm lá suas opiniões, é claro. Por isso, é que alguns aplaudiram o que escrevemos, enquanto outros nos censuraram, o que para o jornalista dá na mesma, uma vez que a pessoa que escreve para o público, está mesmo sujeita a críticas de ambas as formas, do mesmo modo que o artista que se exibe num palco. Acontece, porém, que aquilo é exatamente o que pensamos e é também o que pensa sensatamente a maioria das gentes que vivem neste imenso Brasil.

Para provar que estávamos certos, embora considerando-se a impossibilidade formal, do Brasil realizar integralmente a exploração dêsse produto no exterior, quando nem em seu próprio sólo o está fazendo totalmente, basta o raciocínio isento de paixões, mesmo de um garoto de curso primário. “Quando a esmola é muito grande, o santo desconfia”, diz antigo brocardo. Aquêle orgulho que brotou natural e espontaneamente na consciência de muitos brasileiros, por certo deve ter desaparecido. Sabem lá o que representaria, para nosso país, assim, “de mão beijadas”, 32 mil quilômetros de área petrolíferas num país estranho? Dizem os entendidos que a Bolívia é um país bastante mais atrasado do que o nosso. (Oportunamente vamos perguntar sôbre isso ao nosso linotipista Alberto Sandoval, que é boliviano). Cá p’rá nós, o sr. Suazo, presidente da Bolívia, tentou foi aplicar um “bruto” golpe em “seu” Juscelino: O Brasil que explore “no peito” o petróleo boliviano (o dr. Suazo, inteligente como deve ser, sabe que o Brasil não poderá, nem agora nem daqui há muitos anos, levar a cabo a empreitada). Em troca, o Brasil dará um porto de mar, para uso e domínio livre da Bolívia. Entenderam bem o ponto nevrálgico da questão? “Moraram”?

Que dizer, que, do jeito que vão as coisas, os entendimentos, conchavos e outras denominações que deram a essas conversações entre brasileiros e bolivianos, tendem a voltar à estaca zero; isto é, na prática real permanecerá em vigor o tratado existente entre os dois países, desde 1938, o que quer dizer, o Brasil terá o “direito” de explorar o petróleo boliviano “existente” numa área gigantesca de 32 mil quilômetros quadrados, o que deverá significar, sem dúvida alguma, que a Bolívia vai “dar” uma grande parte de seu território ao nosso país! O resto é com o Brasil. Já imaginaram os leitores, ou mesmo alguns homens do Govêrno o que significará, em cruzeiros, sòmete os primeiros passos? Sòmente o transporte de pouco material que dispomos? O início dos trabalhos? Os técnicos e os operários, as perfurações, as análises, etc., etc.?

Se o país não dispõe de meios suficientes para explorar com satisfação seu próprio sub-solo, não será arriscada a empreitada? Oxalá estejamos equivocados em nosso modo de pensar.

Extraído do Correio de Marília de 04 de agosto de 1956

domingo, 3 de agosto de 2008

A mocinha e o dinheiro da Companhia (03 de agosto de 1956)

Nos ocupamos outro dia, nesta coluna, de relatar o fato do guarda civil que deixara na instalação sanitária do Cine Bar, o revolver pertencente à corporação que serve. Simultaneamente, fazíamos um apêlo à pessoa que tivesse encontrado a arma, para que a devolvesse, pois assim estaria evitando dissabores, responsabilidade maior e possível perda de emprego do bom policial. E o revolver apareceu, conforme noticiamos posteriormente ao referido artigo. A pessoa que o encontrara, entregou-o, através do confessionário, ao padre Cesar e das mãos dêste foi ter ao sr. Chefe da Guarda Civil. Ninguém ficou sabendo quem foi o cidadão e a ninguém mais interessou saber do fato, uma vez que o objetivo de nosso escrito, era, exclusivamente, a devolução da arma ao legítimo dono.

Agora, mais um caso registramos, com alguma aparência ao relatado. É o caso da mocinha Maria José Simões, cobradora da Kosmos Capitalização S. A., que perdeu, num ônibus da linha Catanduva, uma carteira contendo mais de 17 mil cruzeiros pertencente à Cia. aludida e pouco mais de mil “pratas” de sua propriedade. Foi um golpe duro para a mocinha. Orfã de pai e mãe, trabalha honestamente para sua própria subsistência. De bons princípios, de vida escorreita, Maria José está desolada. Soubemos que teve que recorrer a inúmeros amigos, solicitando pequenos empréstimos em dinheiro, para poder “cobrir” a importância que lhe não pertencia. A Companhia em nada ficou prejudicada. Maria José é que vai trabalhar agora, cerca de um ano, para poder refazer-se do prejuizo.

Se a pessoa que encontrou tal importância ler êste artigo ou dêle tiver conhecimento, aqui deixamos nosso apêlo: devolva o dinheiro a Maria José. Mesmo que haja gasto uma parte, devolva o restante, pois a moça é pobre e está devendo essa importância a outros; precisou tomar a soma emprestada, por dois motivos: por seu dever de honestidade na solvição do compromisso (uma vez que o dinheiro não era de sua propriedade) e também para não perder o emprego, que é o seu ganha pão.

Conversando conosco, a mocinha mostrou-se conformada, porém sem esperanças de reaver a importância. Com estoicismo, nos disse dar graças a Deus, por ter saúde e vontade de trabalhar, para recuperar o prejuizo (prejuizo que lhe custará quase um ano de trabalho honesto).

Quem encontrou a carteira com o dinheiro, que ponha a mão na consciência, devolvendo-o a Maria José.

Se estamos fazendo êste apêlo, não estamos fazendo nenhum favor à infortunada mocinha. Apenas estamos relatando e opinando numa questão que julgamos digna de ser lembrada, principalmente para quem está de posse do dinheiro em apreço. Se quem tivesse perdido a importância fosse pessoa de posses e tivesse perdido dinheiro próprio, não faríamos tal apêlo, muito embora a honestidade fosse necessária ser por nós lembrada. O caso, aqui, é diferente: a moça perdeu o que não lhe pertencia e o que não tinha para reembolsar. Pediu emprestado de amigos, para sair-se airosamente dessa infelicidade. E o mais importante – é bom que se repita –, é que a mocinha é órfã de pai e mãe e trabalha honestamente para subsistir. Que atente para isso a pessoa que encontrou o dinheiro!

Extraído do Correio de Marília de 03 de agosto de 1956

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Espíritos destruidores (01 de agosto de 1956)

Muitas vezes, é comum o reclamar-se contra poderes constituídos ou contra empresas particulares, que, de uma ou outra fórma, servem o público, embora disso lhe advenham compensações pré-estabelecidas.

Assim é que muitas vezes, reclama-se contra o estado de higiene de uma instalação sanitária de uso público, contra um jardim ou outro logradouro, contra um local público de qualquer espécie, etc. Aí, então, entra em jogo aquilo que o povo, no seu Ego, chama de “direito”. Clama quem paga imposto ou quem paga ingresso, ou quem, de qualquer modo, julga ter o direito de exigir. Sucede, que, na maioria das vezes, um grande número dêsse mesmo exigente público, se esquece de que não existe direito sem obrigações; de que para se desfrutar a condição de exigir, deve-se, primeiramente, praticar o áto de solver os próprios compromissos ditados pela razão, pelo direito, pela civilidade.

É comum o ver-se dependências de utilidade pública, em verdadeira lastima, atestando, de modo insofismável, o alto grau do espírito destruidor de muita gente. Gente que sente um prazer mórbido em destruir o alheio, em causar prejuizos pecuniários aos proprietários ou a poderes públicos, prejuizos êsses que redundam, em primeira análise, diretamente contra o próprio povo que de tais melhorias, condições ou qualidades deve usufruir.

Dizem os psicanalistas, que as pessoas que se servem de expedientes dessa natureza são anormais; ante isso, somos forçados a considerar que é bem grandinho o número de doentes desse porte no Brasil. Instalações sanitárias de cinemas e teatros, de jardins públicos e de bares da cidade, são bem atestado das práticas desse tipo de gente. Poltronas de cinemas, assentos de ônibus, vidraças de casas comerciais, etc., etc., vivem a comprovar aí, à larga e abundantemente, o que estamos escrevendo e que para ninguem é segredo.

Sabemos que são inúteis todos os apelos de consciência, todas as campanhas e pedidos para que tal casta caia em si, apercebendo-se do mal que causa, dos estragos que pratica, dos prejuizos que acarreta. Uma coisa, no entanto, é bem certa: muita coisa existe errada ou deficiente, por aí, considerada de utilidade pública, deve seus motivos à falta de colaboração do próprio povo.

Espíritos destruidores estão sobrando em toda a parte!

Extraído do Correio de Marília de 01 de agosto de 1956