sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal, leitores! (25 de dezembro de 1957)

Nésta data magna da Cristandade, no dia em que comemoramos o transcurso do nascimento do Filho de Deus, vamos fazer uma pausa na variedade de assuntos habitualmente focalizados nésta coluna.

Ao assim procedermos, temos em mira, unicamente, o apresentar aos amáveis leitores do “Correio”, especialmente àqueles que nos distinguem com a leitura de nossos modestos escritos, os sinceros votos de um Feliz Natal.

Natal! Dia de alegria, de felicidade. Até a natureza procura cooperar com a satisfação das gentes em todos os 25 de dezembro. Os semblantes irradiam algum explendor, traduzindo nos abraços-amigos trocados entre os que se estimam. Um dia de alegria, que todos procuram comemorar com alegria. Um dia feliz, que todos tentam passar dentro da mais indestrutivel felicidade.

Nos últimos dias, vimos a cidade apresentando um movimento desusado. Gente, humilde ou abastada, nova ou velha, preta ou branca, ondulando as ruas, adquirindo alguma coisa ou não. Uns observando vitrines, outros comprando, outros simplesmente passeando.

A aproximação do Natal é sempre assim.

Ninguem consegue esconder uma satisfação que nasce internamente irradiando-se afinal.

Ninguem (principalmente aqueles que são cristãos) é capaz de permanecer indiferentes à majestade da grande data. Ninguem.

Nem todos, entretanto, por motivos de ordem pecuniária, conseguem passar um Natal como pretendem. Entretanto, todos se esforçam para tal. Todos fazem um sacrifício, por pequeno que seja, para que o Dia de Natal seja diferente, como de fato o é.

Os que melhores condições de vida desfrutam, conseguem realizar todos os intentos próprios da tradição. Ha os que se preocupam tambem com o próximo, socorrendo as dificuldades alheias. Nésta época, a mais bela do ano, mais se têm caracterizado o espírito altruí(s)tico do povo mariliense. Muita gente tem procurado pensar no próximo, prestando auxílios aos necessitados, numa demonstração inequívoca de solidariedade humana e cristã.

Oxalá isto continue a perpetuar-se, para que o preceito do próprio Evangelho prossiga a ser difundido e respeitado, conforme nos ensinou Nosso Senhor Jesús Cristo.

Hoje é um dia alegre. Roguemos a Deus para que proporcione meios a todos nós, desde o mais humilde e póbre até o mais rico e poderoso, para que vivamos um dia sagradamente feliz.

E nésta ocasião, em que se comemora a maior data da cristandade, peçamos tambem ao Todo Altíssimo, que nos inspire no sentido de melhor vivermos, de melhor nos compreendermos mutuamente, melhor nos auxiliarmos, sem ódios, sem vinganças, sem orgulhos vãos e tolos. Que Deus inspire tambem nossos chefes e governantes, para que apresentem, cada vez mais, os verdadeiros e sagrados intentos outorgados pelos próprios cargos, em pról da felicidade geral dos brasileiros.

Nêste ensejo, nos congratulamos com todos nossos amigos e leitores, abraçando-os e externando nossos votos de um Natal Feliz, que prenuncie um Ano Novo pleno de felicidades e duradouro eternamente de paz e alegria.

Feliz Natal, leitores!

Extraído do Correio de Marília de 25 de dezembro de 1957

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O Foguete Brasileiro (24 de dezembro de 1957)

Verdadeiramente, o lançamento do foguete brasileiro explodiu como uma bomba! Não pela incapacidade do nacional, mas pelo sigilo que envolveu as operações, pela modéstia dos trabalhos e pelas indiscutíveis deficiências técnicas de nossas arrojadas e necessárias indústrias.

É bom esclarecer devidamente a alusão sôbre “deficiências técnicas” acima. Falamos no sentido geral, em relação à equipagem de vulto nacional, cujo parque é falho e dependente do mercado exterior. Falamos do escasso material humano especializado, por falta de escolas capazes de ensinar, sem que tenhamos que recorrer a favores de nações amigas. Apenas isso.

Voltando ao foguete: Tudo deve ser encarado de modo proporcional. Se isto fizermos, não há dúvida que teremos que nos orgulhar e louvar os militares da Escola Técnica do Exército que trabalharam nesse mistér. Se atentarmos para a fraca equipagem que dispomos nêste sentido, os estudos relativamente iniciais, a falta de recursos financeiros adequados, a escassez da aparelhagem, etc., em relação ao poderio dêsse jaez, publicamente notório dos Estados Unidos, França, Inglaterra e Russia, é bom convir que o Brasil realizou uma verdadeira façanha.

O Foguete-114 custou apenas 8 mil cruzeiros, enquanto os “Sputniks”, os “Vanguards”, os “Baby Moons” e os “Atlas” custam milhares e milhares de rublos e milhares e milhares de dólares.

A maioria dos grandes inventos, conta-nos a própria história, é obra do acaso, de coincidência. No caso presente, tal não se deu. Existiram estudos a respeito. Queimaram-se pestanas. Fizeram-se das tripas, coração. Não saiu uma coisa gigantesca, caríssima, completa. Mas saiu o fruto de um despreendimento invulgar, louvável. Saiu um foguete que suplantou, guardadas as proporções anteriormente enumeradas, os próprios “Sputniks”.

De conformidade com o noticiário dos jornais, constatamos, como tôda gente, que o Foguete-114, de fabricação nacional, foi construído por material genuinamente brasileiro, pólvora especial fabricada em Piquete, por técnicos de nosso Exército e sem interferência de nenhuma outra nação. É motivo de orgulho.

É preciso agora, que o Exército e o próprio Govêrno se interessem pela questão. Que dispensem as verbas necessárias para o prosseguimento dessas pesquisas, amparando os cientistas da E. T. E.. É preciso, por outro lado, que os labutadores e timoneiros dessa empreitada, sejam imbuidos, cada vez mais, do verdadeiro sentimento de brasilidade, que não se “mascarem” e que prossigam com afinco na caminhada.

O acontecimento referido, embora tenhamos entre nós muitos céticos, muitos descrentes, traduz, sem sombra de dúvida, o maior empreendimento nacional dos últimos tempos.

Urge o estímulo, o apôio, a compreensão e confiança de todo.

O Brasil deu um grande passo, que, medido com o metro da sensatez, faz de nossa Pátria uma grande nação. Em relação a todos os recursos e adiantamentos dos próprios Estados Unidos, nêsse particular, conseguimos levar vantagem aos sobrinhos de Tio Sam. E, o motivo é de regozijo, pois é a primeira vez que isto acontece na História do Brasil, que, apesar de ter sido descoberto oito anos depois da América, vem arrastando um atraso de mais de 100 anos de progresso, em comparação aos norte-americanos.

Nossas congratulações, portanto, aos técnicos brasileiros, que executaram êsse empreendimento. E que o fato não sirva de endeusamento, mas, pelo contrário, de um estímulo dos mais poderosos, para a sequência dos trabalhos nêsse campo.

Oxalá o sr. Kubitschek pense como nós.

Extraído do Correio de Marília de 24 de dezembro de 1957

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Democracia X Monarquia (21 de dezembro de 1957)

Para o autor destas linhas, o pensamento encerra um sentido esdrúxulo. Cremos que para muita outra gente também.

O fato é que tenta-se, mais uma vez, o restabelecimento do regime monárquico no Brasil! Existe quem deseje (lutando ao mesmo tempo, pela instauração da monarquia), um Rei brasileiro.

O Movimento Patrianovista empenha-se agora numa luta de propagação de suas idéias acerca da implantação do regime monárquico no país, destituindo, em consequência, o atual sistema político. Teremos, se o número de adeptos da idéia fôr concreto, a luta entre as duas forças. Não cremos, no entanto, nessa possibilidade, como não acreditamos, de forma alguma, em probabilidade da modificação do regime democrático.

Declaram os partidários dêsse movimento, que, “sem rei, não há união nacional”. E acrescentam: “Só a doutrina monárquica salvará a Nação. Não há outra solução. Há 68 anos que nos impuseram viver dentro de um regime espurio. Há 68 anos que nos mentem, nos prometem, nos engodam, nos atrapalham, nos envergonham, nos deformam, nos empobrecem, nos tiranizam. Isto é república, legítima republica”(.)

O sr. Arlindo Veiga dos Santos, chefe geral do Movimento Patrianovista, afirma:

“Sem rei, sem imperador, não ha união nacional. Resta-nos a esperança da Hora de Deus, que eleve ao trono vazio da Imperial Nação Brasileira, o aniversariante do dia 13 de setembro – S. A. I. Dom Pedro Henrique de Bragança, Dom Pedro III, cujo acesso ao Poder renovará o milagre de seu bisavô D. Pedro II em 1840, para a demonstração concréta de que com rei haverá união nacional.”

No ról da História do Mundo, percebe-se que as nações que em mais curto espaço (de) tempo progrediram, são as que abandonaram o regime monárquico. Isto, fazendo uma exceção à Inglaterra, cujo reinado é aquilo que se poderia chamar pró-fórma apenas, uma vez que o poder monárquico só têm, praticamente, a função de sancionar.

O Brasil tambem constitui uma excessão nesse sentido, pelo seu lento progresso desde que aboliu o reinado. Suas causas, no entanto, são múltiplas e poliformes.

Estamos de acordo com o ponto de vista do Sr. Arlindo Veiga dos Santos, quando afirma que vivemos num clima de mentiras, promessas, engodos, atrapalhos, envergonhamentos, pobreza, etc.. mas não acreditamos que um rei póssa endireitar uma coisa que vem sendo torta desde os primórdios de nossos dias.

Achamos, como dissemos acima, a idéia esdrúxula. E absurda. E ficamos com “a pulga atrás da orelha”: O sr. Arlindo Veiga dos Santos, a julgar pelo nome, deve ser brasileiro. E como bom brasileiro, não poderia fugir à regra. Talvês esteja ele próprio interessado em algum título de duque, comendador ou cavaleiro.

Ou será que, entre nós, ainda existe alguem que “dá ponto sem nó”?

Extraído do Correio de Marília de 21 de dezembro de 1957

sábado, 19 de dezembro de 2009

Ser deputado é bom (19 de dezembro de 1957)

Póde parecer despeito ou inveja, mas não é.

Ser deputado é bom e bastante lucrativo, além de trazer incontáveis vantagens para quem usufrui essas qualidades.

O deputado desfruta daquilo que se chama “imunidade parlamentar”, isto é, um privilégio que de certo modo, contraria os próprios postulados do regime democrático, uma vez que situa um separativismo de desigualdade, frente aos demais cidadãos. Deputado vive cercado de “filhotes políticos” que o endeusam e dêle esperam empregos e apaniguacoes. Em troca, conquista esperançosos “cabos eleitorais”, recebe frangos e presentes, principalmente por ocasião das épocas de fins de anos. Desfruta de descontos especiais em muitos hotéis grã-finos. Goza de abatimentos em algumas companhias de transporte e tem “passe livre” em outras.

Ganha, honestamente, verdadeiras fortunas mensais. Isto sem contar-se com as oportunidades imorais que se lhe oferece, para consideráveis “mordidas” e ganhos “por baixo do pano”.

Agora, a própria Assembléia Legislativa de São Paulo, está também “colaborando” para encher os bolsos dos deputados paulistas. As sucessivas sessões extraordinárias dêstes últimos dias, estão propiciando aos ilustres parlamentares, quase o triplo dos ganhos normais. Dias existiram, em que o Palácio 9 de Julho realizou três sessões.

Argutos e curiosos observadores, já se deram ao trabalho de fazer cálculos, para saber quanto ganharão os deputados paulistas, nessas condições, durante o mês em vigência. E chegaram à conclusão de que o ordenado de cada parlamentar ultrapassará a casa dos cem mil cruzeiros!

Outra noite, acompanhávamos, através da irradiação de u’a emissora paulistanas alguns trechos dos trabalhos da Assembléia Legislativa. Para noa fugir à regra, oratórias inúteis, estéreis, em torno de assuntos de somenas importância. E um deputado, da tribuna, crucificava-se sozinho, chorando as mágoas pelo fato de ser deputado. Dizia das esperanças tolas – (concordamos) – que os eleitores depositam nos parlamentares, julgando-os capazes de resolver todos os assuntos, desde a “cavação” de um emprego, até a solvição de encrencas de um contrato de aluguel de casa. Alegava ainda, que no entender dos eleitores, o deputado “não pode falhar” e é obrigado a trabalhar sem descanço para resolver essas coisas, sendo tachado de incapaz, quando tal não acontece.

Ficamos boquiabertos, ante tamanha baboseira e infantilidade. Cremos que exista ainda um regular número de eleitores, que assim pense ou assim venha agindo. No entanto, para ninguém é segredo que a grande maioria dos brasileiros, perdeu por completo a fé nos parlamentares do país. Por culpa dêles próprios, uma vez que é gigantesca a porcentagem que, nos parlamentos, nada mais soube fazer do que politicalha e demagogia. E no caso, não cabe censuras ao povo. Somente aos seus representantes, falando em tese.

O legislador citado, deixou claro que ser deputado hoje em dia é um posto de sacrifício, é uma coisa pouco compensadora, um trabalho extenuante e responsável. Mas o que êle deixou transparecer perfeitamente, foi a convicção de que, no próximo pleito, não conseguirá eleger-se. foi uma espécie de grito de alerta do próprio sub-consciente.

Ser deputado não é ruim como êle declarou. Absolutamente. Ser deputado é bom. E bom mesmo, a ponto de ser a objetivação de todos os políticos de nossos dias, quer sejam novos, quer sejam carcomidos.

É claro que existem exceções. Infelizmente, tão poucas.

Extraído do Correio de Marília de 19 de dezembro de 1957

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Natal dos póbres (18 de dezembro de 1957)

Se as manifestações de apreço e aplausos que chegaram até nós, com referência à um comentário que fizemos, sôbre o Natal das crianças pobres, tornarem-se efetivas, vai acontecer muita coisa boa êste ano.

Diversas pessoas nos telefonaram ou nos procuraram, para indagar os meios que deverão utilizar, a fim de que cheguem aos meninos e meninas da Filantrópica e do Lar da Criança, alguns brinquedos de Natal. Despertaram nessa intenção, depois de nosso modesto e despretencioso comentário. A todos, dissemos exatamente aquilo que escrevemos não há muito: que se ponham em contacto com as diretorias dos respectivos estabelecimentos assistenciais. O que fizemos, foi apenas um trabalho jornalístico, no qual condensamos uma idéia, considerada útil. Nada mais.

Agradecemos os aplausos que nos foram endereçados. Nenhum dêles é merecido, uma vez que apenas procuramos lembrar uma situação que deve ser lembrada. Realmente, muita gente pode dispender uma pequena parcela de seus orçamentos, para comprar um brinquedinho, pequeno que seja, que venha a alegrar os orfãozinhos que se encontram sob os tetos das associações referidas.

Por outro lado, muitos pais de família providenciarão a compra de novos brinquedos de Natal para seus filhos. Nêsses casos, os brinquedos considerados “velhos”, ao invés de ficarem relegados ao esquecimento ou abandonados, poderão ser encaminhados às instituições citadas. Lá poderão ter emprego condizente, alegrando coraçõe(s)zinhos inocentes, já habituados a viver da caridade pública, uma vez que desconhecem, por completo, o calor de um lar paterno.

Essa foi a idéia que lançamos. Alias, nesse sentido, diversas pessoas já agiram de modo idêntico no passado. Ninguém poderá avaliar, a satisfação, a alegria traduzida num simples sorriso de uma criança inocente, ao receber um brinquedo de Natal.

Pelo que pudemos avaliar, muita gente de Marília, que, antes jamais tivera a intenção de prestar essa colaboração aos pequeninos e pequeninas órfãos ou desamparadas, irá agora colaborar com essas crianças. Um brinquedo a mais ou a menos, para um chefe de família, redundará na mesma. Quem compra dois, poderá comprar três, colaborando assim, para que uma criança desconhecida, possa participar da felicidade e alegria dos próprios filhos.

Repetimos que nenhum interêsse ou responsabilidade temos com o caso. Apenas comentamos a questão, à guisa de colaboração espontânea com as direções dêsses dois estabelecimentos, tão nobres, que agasalham sob seus tetos, dezenas de crianças, crianças essas que, na maioria das vezes, inocentemente, expiam as culpas dos próprios pais.

Renovamos nosso apêlo: os que puderem e desejarem proporcionar essa felicidade aos garotinhos e garotinhas da Filantrópica e do Lar da Criança, que procurem os citados estabelecimentos, onde, estamos certos, serão recepcionados de braços abertos.

Extraído do Correio de Marília de 18 de dezembro de 1957

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Placas indicativas de ruas (14 de dezembro de 1957)

Nada como dar tempo ao tempo – diz um antigo brocardo.

Não há muito que o fato aconteceu. Uma “firma” invadiu a cidade, alugou salas num edifício local, mobiliou escritórios, contratou espetaculares “brotos” e ludibriou a boa fé da Prefeitura e da Câmara Municipal. Propunha-se instalar na cidade, placas indicativas dos nomes das vias públicas, a exemplo das que existiam em Nova Iorque, Rio, São Paulo etc..

Um comércio, sem dúvida. Acontece que tudo é comércio e desde que o comércio fosse legal, honesto e de resultados concretos, nenhuma oposição poderia surgir. Tudo, de início, correu às mil maravilhas. Os malandros conseguiram levar “no bico” muita gente boa de Marília. Apresentaram-se aos comerciantes e industriais com uma fenomenal bagagem de “referências”, sendo-lhes facil a obtenção de seus desideratos. Muita gente concordou em “colaborar” com a cidade, embelezando vias públicas proporcionando aos forasteiros um serviço indicativo e nominativo das ruas da cidade.

Sucede, que, desde as primeiras colocações, vimos nas placas referidas um serviço rudimentar, frágil, inseguro e de pouca durabilidade. “Levantamos a lebre” da questão. Procuramos chamar as atenções acerca do fato e das inconveniências de sua aplicação. Em certos pormenores, fomos mal compreendidos. Insinuaram mesmo, que encetamos uma campanha desmoralizadora contra a “firma” referida, que, outra coisa não era, senão um covil de malandros. Prova são os prejuizos sem conta que pesam hoje sôbre a gente mariliense.

Gritamos, repetidas vezes. Procuramos alertar o comércio, a indústria e as autoridades marilienses. Apontamos as inconveniências do processo e pusemos em dúvida a idoneidade moral da “firma” referida, apesar das “referências” exibidas na Câmara e na Prefeitura.

Temos agora a confirmação de nossas “brocas”. Para quem quiser ver, inclusive os mais céticos e os que defendiam os “honrados” e “dignos” componentes da citada “firma”. Sem citar as dívidas, os protestos, os cheques sem fundos e as outras demais bandalheiras, já de conhecimento da polícia, referimo-nos apenas ao estado em que se encontram as placas indicativas dos nomes das ruas de Marília. Uma verdadeira lástima. Destruidas, incompletas, pensas, esculhambadas. Tudo, devido a fragilidade inicial apresentada, cujo ponto foi por nós tocado seguidas vezes. Prejuizos para a estética da “urbe”, que apresenta hoje um panorama de desleixo nêsse particular, inédito em todo o mundo.

Estamos satisfeitos. Estamos satisfeitos, porque conseguimos fazer com que o próprio tempo provasse, para os olhos daqueles que nos interpretam mal, que a razão estava conosco.

Nossa agenda de acontecimentos e de nossas lutas tem ainda muito a registrar para o futuro. Por exemplo, a contenda que encetamos pela eleição de um deputado mariliense. Em época futura e oportuna voltaremos ao assunto. Com justificadas razões. Por isso, somos partidários do rifão citado no início desta crônica: Nada como dar tempo ao tempo.

Extraído do Correio de Marília de 14 de dezembro de 1957

domingo, 13 de dezembro de 2009

“Papai Noel” (13 de dezembro de 1957)

A “vinda” do bondoso velhinho de barbas brancas é uma tradição imutável, terna e cristã.

Representa alegria, quasi sempre significa presentes.

A garotada aguarda ansiosa, o dia magno da Cristandade; a maioria sem bem aperceber-se da grandeza da data. Os coraçõeszinhos infantis, distantes do aquilatamento da realidade dos fatos, exigem e esperam a ‘chegada’ do “Papai Noél”. Aqueles cujos pais encontram-se em condições – com sacrifícios ou não – de convocar a “vinda” do bom velhinho, são verdadeiramente felizes. Pódem ser contemplados com o clássico presente de Natal, seja grande e custoso, seja simples e pequeno. E os dos pais póbres? Daqueles que sendo chefes de família, mal pódem suportar as agruras da subsistência de um lar?

Muitas crianças, jamais tiveram a oportunidade de receber um presente do “Papai Noél”. Devem considera-lo um ingrato, um separatista, que faz diferença entre filhos de rico e de pobre. E tem razões.

A vida de hoje, caríssima e difícil, faz sofrer não só a classe chamada pobre. Até a denominada “média”, arca hoje em dia com dificuldades terriveis, na labuta cotidiana do ganha-pão diário.

Entretanto, todos os pais procuram não decepcionar os filhos no Dia de Natal. Sacrifícios sem conta são praticados, para que aqueles seres inocentes, que encantam os lares desde o mais humilde e miserável até o mais suntuoso e confortável, possam receber um presentinho do velho de barbas brancas e roupa vermelha.

Os órfãos, os abandonados ao léu do destino, muitas vezes mesmo os que se encontram recolhidos a casas assistenciais, piedosamente mantidas por entidades de classe ou por donativos particulares, nem sempre conseguem um presentinho de Natal.

Muita gente, tem em suas casas, brinquedos considerados velhos e que serão fatalmente abandonados pelos filhos, após o recebimento dos novos presentes de “Papai Noél”. Bom seria, que tais brinquedos fossem destinados aos meninos e meninas recolhidos a Associação Filantrópica e Lar da Criança, para alegrar um pouquinho essas criancinhas, já habituadas a merecer favores e deferências do bom público mariliense. Por outro lado, muita de nossa gente, que, vivendo pecuniariamente bem, tambem voltasse suas vistas para a meninada referida e para outros pobrezinhos que perambulam pelas ruas da cidade, oferecendo-lhes, na medida do possível, algum conforto a respeito.

Não estamos autorizados a falar pelas direções das duas casas citadas, porém, a julgar pelos exemplos públicos que pudemos observar nos anos passados, temos a certeza de que tais tipos de presentes só seriam bem recebidos, causando, por outro lado, inapreciáveis satisfações aos meninos e meninas beneficiados.

Se diversas famílias assim agissem, como outras já se habituaram a proceder no pretérito, o Natal dos Pobres internados nos Lar da Criança e na Associação Filantropica, seria bem mais ameno, bem mais aproximado da verdadeira amizade cristã. Não porque faltem tais cuidados aos aludidos internados, mas porque, as direções dos estabelecimentos mencionados, já lutam com dificuldades ingentes para a manutenção das referidas casas, e, despesas nêsse sentido, partidas das diretorias, não teriam outro caminho, senão passar à consideração de adiáveis.

Aquí fica o apêlo, dirigido aos marilienses.

Extraído do Correio de Marília de 13 de dezembro de 1957

sábado, 12 de dezembro de 2009

Todo excesso é prejudicial (12 de dezembro de 1957)

Lembramo-nos ainda. Um preto velho, carandeiro profissional, dêsses que “curam” qualquer moléstia, “desencostam” espíritos maus, benzem bicheiras de gado e já “conversaram” com milhares de assombrações, foi quem nos disse certa vez: “Todo excesso é prejudicial”.

O têrmo usado pelo “seu” Zé Maria não foi bem êste. Ele dissera, simplesmente: “Tudo que é dimais prijudica”.

Faz muitos anos, quando tal frase nos foi incutida, sem que disso nos déssemos conta. O decorrer do tempo veio corroborar a verdade filosófica alí contida. Efetivamente, todo excesso é prejudicial.

Exceder-se em política, futeból e mesmo religião, para não citarmos outros casos, expõe o fanático ao ridículo. O gesto comedido, é sempre o aconselhável. Aquele que se fanatiza por determinada paixão, torna-se incapaz de aquilatar até que gráu de normalidade pratica. Não enxerga ninguém, especialmente os que pensam ou agem em contrário aos seus modos de entender as coisas. Fatos semelhantes, vemos seguindamente em todas as partes do mundo. Inclusive em Marília.

É difícil, no entanto, o manter-se numa linha réta de compreensão e imparcialidade. É igualmente difícil, para o fanático, aperceber-se que está excedendo.

Nos ocorreu tal pensamento, da palestra que travamos ontem a tarde, com um cidadão mariliense. Boa pessôa, trabalhadeira, honesta. Só têm um defeito: é fanática, politicamente falando. Tão fanática, que chega a desconhecer tudo o mais que acontece nêsse campo, em todo o Brasil. E quando um acontecimento se verifica, em desacordo com o ponto de vista defendido por éssa pessoa, não passa de “basófa”, intrigas, inverdades, etc.

Por mais claros que sejam os assuntos discutidos, esse nosso amigo não consegue e nem se esforça por comprende-los. Tudo está errado, desde que se choque com o seu modo de pensar. Tudo, sem exceção. Só ele pensa direito, embora tenhamos nossas dúvidas, se, conscientemente, ele próprio acredite naquilo que procura dizer-nos.

Caso idêntico verifica-se agora com o “Baby Moon” norte-americano. Houve excesso. Excesso de propaganda. Ha tempos, anunciava-se a soltura de um satélite artificial da Força Aérea Americana. O mundo esperou, com disfarçável impaciência. E o satélite, cujo nome inicial fôra “Vanguard”, não subiu. Os russos, quietinhos, lançaram o “Sputinik”. Primeiro o nº 1; depois o nº 2, com uma tripulante – a cadelinha inocente, cujo nome verdadeiro não se sabe se é “Danka” ou “Laika”.

Pecaram os EE.UU. pelo excesso de propaganda. Tanto pecaram, que hoje torna ridículas, até certo ponto, todas as notícias divulgadas acerca do lançamento do satélite de Tio Sam. Quasi não se houve um programa de rádio, ou não se lê um órgão de imprensa, onde não esteja incluida uma “gozação” acerca do satélite norte-americano. De quem é a culpa? Simplesmente do excesso praticado. Excesso de publicidade.

Extraído do Correio de Marília de 12 de dezembro de 1957

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Dia do Reservista (10 de dezembro de 1957)

Regra geral, todo aquêle que cumpre a exigência militar que está sujeito, ao ingressar na Reserva do Exército, acredita-se completamente desobrigado para com a Pátria. É um êrro imperdoável. O reservista, em nosso país, até a idade limite de seu possível e viável aproveitamento militar, continua a apresentar um elemento suplementar das próprias Fôrças Armadas, que dêle poderão fazer uso em caso de necessidade pátria.

No próximo dia 16, veremos transcorrer o Dia do Reservista. Êste ano, todos os Oficiais e Aspirantes a Oficial R/2, bem como os Sub-tenentes e Sargentos da reserva (remunerada ou não), do Exército ou da Fôrça Pública, devem apresentar-se a Junta de Alistamento Militar de nossa cidade. Também os cabos e soldados, possuidores para promoção a Sargento, oriundos do Exército ou da Polícia Militar, que foram licenciados de 1927 para cá, estão também sujeitos a essa exigência.

Todos sabem que o Exército Brasileiro prepara-se, assim como tôdas as fôrças armadas do mundo, para eventualidades futuras. O porvindouro é uma incógnita que ninguém pode precisar. A pátria precisa estar sempre em condições de garantir a sua soberania e a sua liberdade, e, essa garantia só é possível com um Exército forte, unido, bem preparado.

No último conflito mundial, quando pela cabeça de ninguém passava a possibilidade de vir o Brasil a enviar ao além mar suas tropas, vimos que isto aconteceu. A maioria da Fôrça Expedicionária Brasileira foi constituida por elementos convocados, reservistas do passado. E souberam, por forças das circunstâncias, readaptar-se à nova vida, tendo, posteriormente, dado exemplos exuberantes de patriotismo, com a lavratura de ricas páginas de denodo e glórias a já rica História Militar do Brasil.

Isso é o que diz respeito a parte obrigatória, militarmente falando. Existe ainda outra face da questão, que é a necessidade do reservista apresentar sempre aquêle espírito de camaradagem, quer entre a classe, quer entre a classe, quer entre os militares da ativa. Urge um entrosamento mais aperfeiçoado, mais coeso, entre todos aquêles que já cumpriram o dever militar, mas que ainda se encontram em situações que poderão obrigá-lo a retornar ao Quartel. Marília possui mais de 20 oficiais da reserva, dezenas de sargentos, cabos e soldados. A condição é propicia, para êsse estreitamento de amizades.

Êste ano, ao par dessas exigências pátrias, o Delegado de Recrutamento Militar, Tenente Pedro Amado de Lyra, juntamente com o Presidente do Tiro de Guerra local, engenheiro Miguel Argolo Ferrão, organizou uma outra parte recreativa, representada por um campeonato de tiro de fuzil, entre oficiais e aspirantes da reserva e oficiais da ativa, do Exército e Fôrça Pública. Tal competição, inédita em nossa cidade, terá lugar às 10 horas do próximo dia 15, no “stand” do Tiro de Guerra local.

Extraído do Correio de Marília de 10 de dezembro de 1957

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Cavalos e cabritos (7 de dezembro de 1957)

A propósito de uma reclamação que nos foi dirigida por um leitor dêste jornal, lembramo-nos do susto que passamos u’a noite destas, quando quasi “atropelamos” um cavalo que se encontrava sobre um passeio, numa esquina escura da Rua Cel. Galdino.

Caminhavamos distraidamente, e, ao cruzar a esquina, por pouco não “colidimos” com o pacato animal. Confessamos, que, nas circunstâncias como se verificaram os fatos, levamos um susto regular.

Recordamo-nos ainda do “cavalo vira lata” citado por nós, ha muito. Hoje parece que desapareceu.

Mas, como iamos dizendo, um leitor nos procurou. Para formular uma queixa contra o serviço competente da municipalidade. Móra o aludido cidadão, no populoso bairro de Vila Palmital. Lá, conforme asseverações de nosso informante, cavalos, cabritos e outros animais, sem contar com as manilhas de cães sem dono, estão ponto em polvorosa e desassossego os moradores de Palmital.

Além do descaso na detenção desses animais, existem outros fatos que estão a reclamar as providências da Prefeitura e que dizem respeito a estagnação de águas fétidas em diversas ruas do mencionado bairro.

O informante nos confessava, com visível revolta, que se não residisse em casa própria, de ha muito teria se transferido de moradia. Não fomos verificar a veracidade das informações, porque acreditamos na pessoa que nos procurou. Álias, não é segredo para ninguém, as anomalias referidas, em diversos pontos da cidade. Apesar de que a autoridade municipal está atacando, dentro de suas intenções e das possibilidades de suas forças, o terreno da instalação de guias e sargetas e da extencao da rêde de água e esgoto, muitos pontos da “urbe” apresentam tais exigências.

Enquanto as providências a respeito não encontram solução final, bom seria que se tomassem medidas capazes de evitar-se a paralisação de águas servidas e empossadas nas ruas sem calçamento, acarretando uma fedentina incrivel e colocando em perigo a saúde da população.

Por outro lado, providencias acerca de cavalos e cabritos nas ruas dos bairros, devem tambem fazer-se concrétas, inclusive com punições aos desrespeitadores dos preceitos legais. Afinal, Marília é uma cidade moderna, civilizada, dinâmica. O forasteiro que perceorrer os bairros da periferia, por certo ha de pensar alguma coisa errada acerca das providenciais municipais, vendo o abandono de certas ruas e o “dolce far niente” de vários tipos de animais soltos.

Não ignoramos que o Sr. Prefeito Municipal tem inúmeros problemas de maior monta a resolver. No entanto, sabemos, por outro lado, que existem na municipalidade determinados órgãos auxiliares, que tem a responsabilidade de cuidar desses assuntos. À eles é que endereçamos a reclamação que nos foi dirigida.

Extraído do Correio de Marília de 7 de dezembro de 1957

domingo, 6 de dezembro de 2009

Variedade em denúncias (6 de dezembro de 1957)

Não há (como) negar, de que os mais curiosos casos de denúncias apresentadas em Juizo, fazem, inquestionavelmente, parte do grande rosário de processo de divórcios dos Estados Unidos.

Vez por outra, a imprensa nacional sente-se no dever de explorar tais acontecimentos, satir(iz)ando e temperando à gosto, assunto dêsse jaez, tão de agrado dos leitores brasileiro(s).

Efetivamente, temos conhecido casos que escapam às raias do absurdo. Óra é o marido que justifica o pedido de separação, porque sua “cara metade” roncou durante o sono. Outra vez, é a mulher que pede o divorcio, acusando o esposo de “crueldade mental”, porque êste impediu que o “luluzinho” dormisse na cama de ambos. E assim por diante.

Agora, lendo o confrade “Comércio da Franca”, edição de 1º do corrente, deparamos, sob a manchete “Denunciada a COMAP pela prática do curandeirismo”, a seguinte notícia:

“A Associação Profissional do Comércio Varejista de Franca, acaba de formular documentada denúncia, contra a COMAP local, ao Serviço de Fiscalização do Exercício Profissional, da Secretaria da Saúde do Estado.

“Fundamenta-se a queixa no fato de vir o órgão controlador de preços, distribuindo, em sua sede, à rua Marechal Deodoro, preparados farmacêuticos e aviando receitas, conforme o declarou, da tribuna da Câmara, o sr. Granduque José, fatos êsses também divulgados pelo órgão oficioso “Diário da Tarde”, do qual é diretor o dirigente da COMAP.

“Como se sabe, para exercer tais atividades, faz-se mistér o competente registro profissional, bem como a presença de um farmacêutico legalmente habilitado.

“A reportagem apurou, nos meios interessados, que farmacêuticos locais, segundando o procedimento da A. P. C. V., irão se dirigir às autoridades competentes, pedindo providências imediatas contra o abuso do exercício legal da Medicina, profissão regulamentada no país.

“Resta agora, apurar-se, para a definição de responsabilidade, se quem fazia as vezes de “puçanguaras” era o presidente da COMAP, ou algum preposto seu...”

Aí está mais esta curiosa denúncia, para figurar no ról das inúmeras já conhecidas.

Se a moda pegar...

Extraído do Correio de Marília de 6 de dezembro de 1957

sábado, 5 de dezembro de 2009

Enfermidade de Eisenhower (5 de dezembro de 1957)

Através do noticiário telegráfico internacional, ficou o mundo ciente de ter sido acometido de grave enfermidade, o presidente Eisenhower, dos EE. UU. da América do Norte.

Um mal súbito, que não deixou de acarretar aos povos do mundo civilizado uma certa apreensão, porque abalou um pouco a estrutura física de um homem, que, nos últimos anos, têm se destacado pelas suas ações político-administrativas internacionais. Verdadeiramente, é mistér que se reconheça, na pessoa de Eisenhower, uma capacidade política das mais elogiáveis do mundo. O atual presidente dos Estados Unidos assumiu a direção do país amigo, numa época das mais conspurcadas, dificeis e confusas. Quando a prudência fez-se sentir como estrela de primeira grandeza, numa série de ações, que, mesmo dentro de determinadas fronteiras poderiam repercutir em diversas nações do mundo, Eisenhower foi capaz de demonstrar éssa qualidade e um senso de responsabilidade incomuns. Delegado e participante de diversos congressos de estudos de paz, sua palavra sempre serviu de paradigma, pelos gestos comedidos como foi externada. Jamais pregando ódio, sempre foi capaz de mostrar-se humanamente superior tendo sempre encontrando uma palavra ou uma solução pacífica e conciliadora.

Sem receio de errar, poderemos dizer que se não fôra a atual política de cordialidade, fraternidade e sendo comum dos mais elevados que identificaram e identificam Dwigt Eisenhower, de ha muito, estariamos nós, os brasileiros, bem como diversos outros povos do mundo, sofrendo os reflexos e consequência indiretas de uma guerra russo-americana.

Apologista do bem estar social mundial, de paz permanente entre os homens da terra, Eisenhower têm demonstrado, à sociedade, um tirocínio e uma inteligência verdadeiramente dignas de admiração. Profundamente cristão, democrático por excelência, têm primado pelos princípios de consideração alheia.

Porisso, para todos aqueles, que, sem cores políticas ou interesses outros que não u’a análise razoável da personalidade do presidente norte-americano, a enfermidade de Eisenhower trouxe certas apreensões. Justificadas apreensões, convenhamos.

O eventual desaparecimento de Eisenhower do leme do governo norte-americano, poderá, como dissemos, servir de nova engrenagem para um ateamento de fogo no estopim da tensa situação internacional, onde figuram como principais participantes, os Estados Unidos e a Rússia. Ninguém poderá negar isso, depois de conhecer a conduta nobilíssima e perfeitamente elogiável que o mesmo vem imprimindo e demonstrando no seu govêrno.

Extraído do Correio de Marília de 5 de dezembro de 1957

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Acerca de Escolas... (4 de dezembro de 1957)

Nossa despretensiosa crônica de ontem, trouxe-nos alguns comentários encomiosos. Talvez sem motivo, uma vez que não descobrimos nenhum “ovo de Colombo”, não desvendamos nenhum segrêdo.

Acontece que um leitor nos procurou para felicitar-nos e agradecer-nos o conteúdo do escrito. Declarou que nosso comentário “abriu-lhe os olhos”. E justificou a afirmativa dizendo, que, até aqui, nunca se preocupara com o estado de aproveitamento escolar de seus filhos e só voltava os olhos para o assunto, por ocasião dos exames finais, conhecendo os resultados do ano letivo. Achou que tínhamos razões no ponto de vista emitido, de que a preocupação de hoje, na maioria do mundo estudantil, resume-se naquilo que dissemos chamar-se “passagem de ano”. E citou-nos exemplos conhecidíssimos.

Efetivamente, o fato acontece conforme dissemos. O aproveitamento das aulas recebidas durante o ano letivo, regra geral, vem se apresentando pouco concreto. Algumas “recordações” em cima da hora dos exames e um pouco de sorte é tudo que grande parte dos estudantes de nossos dias almeja, sem maiores preocupações em possuir um diploma e saber honrá-lo condignamente. Prova disso é o grande número de detentores de pergaminhos (inclusive universitários), sem condições dignas de comprovar técnica ou cientificamente a conquista.

Preocupamo-nos com o problema do estudo no Brasil, por um motivo muito sério: porque não pudemos auferir os conhecimentos que pretendíamos. Daí, em relação àquilo que haurimos das luzes da ciência e nossas observações comparativas acerca de casos cotidianos que temos conhecimento, mais nos convencemos dos motivos anteriormente externados. Das falhas e deficiências que apresenta o ensino no Brasil – desde o primeiro (ano) até o (curso) universitário –, êsse pormenor é um fato de suma importância. Outro lado que inegavelmente contribue para o atual estado de coisas, é a deficiência de mestres especializados para ministrar os variados ramos da ciência escolar.

Por isso é que sempre fomos apologistas da causa do ensino em nossa cidade. Por isso que em 1945 escrevemos nossa primeira croniqueta acerca da criação de uma Faculdade em Marília, cujo título, se a memória não nos falha, foi: “Marília, cidade pobre de escolas”.

Verdadeiramente, os atuais métodos de ensino de nosso país, precisam passar por radical transformação. A rigor, revolucionária metamorfose. Urge que os estudantes de hoje se compenetrem melhor da conveniência e urgência de mais acurado aproveitamento das aulas recebidas durante o ano, abandonando o habito de “recordações” em épocas de pré-exames. Precisamos de um melhor selecionamento de mestres especializados, impedindo professores leigos de lecionarem matérias de folêgo, em prejuizo para eles próprios e para o futuro estudantil. Urge também que as escolas consigam preparar psicologicamente a mocidade de hoje, de formas a receber os impactos do futuro, incerto e difícil, abandonando-se aquelas idéias de louros do pretérito, as fases gloriosas do passado pátrio. Estas devem ser detalhadas com respeito, mas dentro da realidade e com as comparações verdadeiras de que certos fatos do acaso jamais poderão servir de exemplos futuros.

A mocidade estudantil deve bem perceber certas contingências existentes entre as casualidades de antanho e as viáveis realidades porvindouras. Deve aquilatar, dentro do sentido de razão, a equidistância e inaplicabilidade de determinados exemplos históricos.

Não que pretendamos, com êste ponto de vista, olvidar páginas de ouro de nossa história ou da vida de nossa gente. Absolutamente. Apenas entendemos que já é tempo de mutar-se o sistema de ensino no Brasil e que é dever dos que educam, colocar a mocidade hodierna, em condições capazes de receber o ricocheteamento da vida futura, sem fantasias ou ilusões exemplificadas no passado, por força das circunstâncias, ganhando agora a reta do obsoletismo.

Autoriza-nos tal assertiva, os exemplos que já passamos: uma série de instruções de determinadas matérias, jamais utilizadas na vida prática; por outro lado, a divergência existente e comprovada, acerca do patriotismo adquirido no calor dos bancos escolares, que, em verdade, foi muito diverso daquele patriotismo exigido na Itália, aos “pracinhas” brasileiros que cumpriram o dever pátrio.

Extraído do Correio de Marília de 4 de dezembro de 1957

Estudantes e “bombas” (3 de dezembro de 1957)

Estamos na época em que se desenvolvem os exames anuais escolares. Hoje de incontida ansiedade, de um lado para os estudantes bem intencionados e de outro, para os pais dos alunos. Hora tambem de preocupações para os próprios mestres, que, ao par da neutralidade que norteia seus átos educadores, não deixam tambem, como humanos, de “torcer”, pelo menos intimamente, para que aqueles que corresponderam aos ensinamentos durante o transcorrer do exercício, conquistem a necessária média de aprovação.

Uma coisa temos notado ultimamente, em especial na época de pré-exames escolares: Um despreendido interesse pelos estudos, por parte de muitos alunos. Nos quintais, nas salas, mesmo nas ruas, vê-se à miude, moças e rapazes com livros e cadernos abertos balbuciando teorias e ciências, verdadeiramente distanciados do resto do mundo.

Significa isso, sem negar, um certo descaso pelos próprios estudos, durante o transcurso do ano todo. Representa um aproveitamento apenas relativo das ministrações recebidas e, por outro lado, algumas médias duvidosas nos exames pretéritos.

Estamos vendo, uma maratona louca de estudos, chamados de “recordações”, sempre em cima da hora. A não ser que tenhamos nós sido diferentes dos estudantes de hoje, as coisas, no passado, não foram assim. Nós, pelo menos, por decorrência normal de trabalho de subsistência, jamais procedemos a estudos e “recordações” estafantes e velozes, apressadas, de ultima hora, nas épocas de pré-exames. Isto, pensamos, porque tentamos o aproveitamento das aulas nas devidas ocasiões.

Hoje em dia, quer nos parecer, os diversos cursos de ensino, resumem-se, no pensar da maioria da classe estudantil, exclusivamente no perigo dos exames parciais. Durante o restante do ano letivo, a frequência escolar, para muitos estudantes, têm sido uma coisa exclusivamente mecânica.

Entendemos errado esse pensamento e ação de grande parte do mundo estudantil de nossos dias. Pensamos que o integral aproveitamento das aulas hauridas durante o ano e a menor ausência possivel na frequência das escolas, resulta, para o futuro, em aproveitamento mais sólido para os próprios estudantes. Isto, porque, das maneiras que as coisas estão caminhando, a preocupação de grande parte da mocidade estudantil de hoje, é apenas o “passar de ano”. Nem sempre as “passagens de ano” nas circunstâncias citadas, colocam o formando em condições perfeitamente condizentes com o gráu da cultura recebida! A respeito, existem exemplos incontáveis, por ninguem ignorados.

Por outro lado, é de todo inenarrável, a decepção dos pais, antes as indesejáveis “bombas” sofridas pelos filhos. O aluno chamado “repetente”, tem sempre contra si, por ínfimo que seja, um resquício de indiferentismo e por vezes de escárnio, embora nem sempre manifestados.

A mocidade estudantil mariliense está, em sua maioria, integrada néssa “maratona” de “recordações”. As “bombas” estão devidamente estocadas e aparecerão inevitavelmente. As causas, em nosso entender, não podem ser outras que não as referidas.

Extraído do Correio de Marília de 3 de dezembro de 1957