segunda-feira, 26 de março de 2012

TIPOS & COISAS & CASOS (3)





A cidade, pequena. Varjão da Purunga, seu nome. São Benedito, seu padroeiro. O pároco, Padre Bartolo. O delegado de polícia, o prefeito, os dois únicos médicos, quiçá as pessoas mais importantes e representativas de Varjão da Purunga.



Peraí... havia uma pessoa outra, muito importante, muito famosa, muito conhecida. A Mariona costureira.



Mariona, porque era bem gorda, embora sem excesso e porque era de porte físico grande.



Chamava-se Maria de Lourdes Arruda Leite, mas não gostava que a chamassem pelo nome de registro e de batistério. Preferia ser chamada simplesmente de Mariona. Uma espécie de trauma, Mariona trazia consigo desde os tempos de grupo escolar. Menina, era a maior de todos, alunas e alunos. Havia também o Diogo, um espanholzinho do chifre furado. Ele era a pedrinha no sapato da menina. Tudo porque um dia Diogo inventou na hora do recreio um cantarola de gozação, com a seguinte estrofe:



“Maria de Lourdes / Arruda Leite / sarro de pito com azeite...”



A menina ficava tensa quando olhava para o Diogo. Sentia vontade de esganá-lo.



Um dia, Mariona topou o Diogo na rua, próximo à padaria. Não deu outra: partiu com tudo para cima do garoto, dando-lhe uma surra sem dó e nem piedade. No dia seguinte, na hora do recreio, a menina contou para todos que tinha batido no Diogo e vingou-se com uma cantoria:



“Quem apanha de muié, hóme não é...”



Com mais de trinta anos, solteirona, Mariona éra uma mulher estimada. Costurava para as mulheres da cidade, ajudava a arrumar a igreja, organizava festas e quermesses e tudo o mais. Sempre prestativa, bem humorada, se constituía uma esperança e um alento para todos que a conheciam ou que com ela privavam.



Um domingo, na hora do sermão da missa, o Padre Bartolo anunciou que a Igreja receberia nova imagem do Padroeiro, maior e que a atual seria recolhida para remodelação e encaminhada para outra capela que necessitasse. Seria recebida a nova imagem com uma festa e procissão, haveria quermesse e um jogo de futebol entre as equipes de Varjão da Purunga e de Poço do Sossego, cidadezinha próxima.



Mariona foi incumbida de esquematizar a quermesse. A procissão seria programada pela mulher do prefeito e o jogo de futebol seria organizado pelo próprio sacerdote.



Foi uma semana de atividades sem descanso. No sábado, tudo estava pronto. Chegou a nova imagem de São Benedito, a procissão transcorreu em ordem e com muita afluência.



A noite realizou-se a quermesse, com bastante animação, com rifas de frangos assados, correios elegantes, quentão, banda de música, etc.



Quermesse e futebol, quando existiam, eram as mais prediletas diversões da população – mesmo porque dificilmente havia outras opções ou alternativas.



O jogo estava marcado para às 16 horas, mas duas horas antes o campo já estava lotado.



Por volta das três horas, chegou o Padre Bartolo, chamando às pressas a Mariona e os demais festeiros. O pároco estava apavorado. Contou que o goleiro do time, que era o alfaiate Paulinho, havia caído de um cavalo e quebrado o braço e porisso não poderia jogar. Então, por sugestão do prefeito, foram atrás do açougueiro Walter, que havia se bazofiado certa feita de haver jogado no gol de um time varzeano da Capital. Mas o Walter estava mais bêbado do que um gambá e todos ficaram sem saber o que fazer.



Foi aí que o Padre pediu que a Mariona, que sempre servira a cidade e as boas causas, aceitasse jogar no gol. Ela titubeou, mas o Padre implorou e os rôgos do prefeito e das madamas convenceram-na a aceitar o sacrifício.



Mariona foi até a cada de uma conhecida, perto do Estádio, trocar de roupa.



O Padre anunciou pelo alto-falante os fatos e o público exultou em aplausos a “Viva a Mariona!”



Começou o jogo. Mariona firme no gol. Tranquila, parecia um goleiro de selação. Nem cinco minutos e o zagueiro Artur cortou a trajetória da bola com a mão, dentro da pequena área. O juiz marcou penalty contra o Varjão.



Mariona, com seu imenso corpo, ficou no centro da méta, em posição de defesa. O juiz apitou, o centro avante correu e chutou. Para alegria da torcida, Mariona defendeu, mandando a bola a escanteio.



Na cobrança da falta, a bola sobrou para o mesmo centro avante, sozinho, que chutou. Mariona, milagrosamente, defendeu. O atacante desentendeu-se com a goleira e esta pregou-lhe a mão na cara, deixando o gol e dizendo que não jogaria mais.



O repórter da Rádio Difusora local correu e quis saber porque a Mariona não continuaria jogando e ela desabafou:



- Num jogo mais... aquele cafajeste do nº 9 falou que se ele chutasse outra bóla e eu defendesse, que ele me enfiaria o dedo...



Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo (e leva a data de 15/8/1988)

segunda-feira, 19 de março de 2012

TIPOS & COISAS & CASOS (2)



Não era bem um arraial. Nem uma grande propriedade agrícola e muito menos uma bonita fazenda. Era, sim, uma área consideravelmente grande. Representada por inúmeros pequenos sítios, todos eles pertencentes a imigrantes europeus e seus descendentes. Só um sitinho não pertencia a portugueses, espanhóis ou italianos. Era de um japonês, o Nagagawa.

O nipônico, para não fugir à regra, éra horticultor. Três vezes por semana, lotava a carroça puxada pelo burro “Ginko”, com legumes e frutas e ia vender na cidade, distante duas léguas dalí.

Os sitiantes constituíam uma pequena e bem unida comunidade. Todos se conheciam, se respeitavam e estimavam.

Um descendente de italianos, rapaz aloirado, alto e de olhos bem azuis, era sem dúvida o mais popular de toda aquela coletividade. As moças, especialmente as casadoiras, o achavam um verdadeiro “pão”. Os homens gostavam dele e muitos rapazes o invejavam.

Apesar de filho de italianos, ninguém sabe por qual carga d’água o jovem fôra registrado com o prenome de Sebastião.

Bastião Sanfoneiro – assim era ele conhecido.

Dava duro na lavoura, de sól a sól. Aos sábados, sempre animava os bailes familiares, que se realizavam invariavelmente nas tulhas das propriedades. E não havia um sábado siquer que o Bastião Sanfoneiro não atendesse um convite e não se fizesse presente num dos sítios, alí puxando o fóle – como se costumava dizer – para alegria dos jovens e de velhos também, que participavam do “arrasta-pé” até altas madrugadas.

O que intrigava muitas moçoilas, é que Bastião, sendo jovem e bonito, honesto e trabalhador, não tivesse até então, demonstrado qualquer intento de um namora sério, que fatalmente terminasse em casamento. As moças que assim pensavam torciam intimamente para que essa ventura pudesse recair sobre elas...

Mas, como afirma antigo brocado, que “não há bem que sempre dure e nem mal que nunca acabe”, um dia aconteceu: cupido acertou uma violenta flechada no santoneiro.

Sebastião “bateu o barro” na Silvia, conhecida como “Silvinha Italianinha”. “Bater o barro”, alí entre os homens e também entre as mulheres, significava pedir uma moça em namoro ou casamento. Se o pedido era aceito, o “barro grudava”. Se o pedido era recusado, o “barro não grudava”...

Com o entusiasmado namoro do Sebastiao, passaram a diminuir os bailes semanais da coletividade, pois o Bastião Sanfoneiro dava mais valor à companhia da Silvia do que “puxar o fóle” para os outros dançarem.

Tempo passando e correu a notícia do casamento do Sebastião.

Para o baile nupcial, que lotou totalmente a tulha do pai da noiva, foi contratado um sanfoneiro da cidade, pois o nubente, como é óbvio, não iria tocar naquela noite.

- “A sanfona dele, hoje, vai ser outra...” – comentava, num suspiro profundo, a Marieta, mulher do Genaro, que era considerada a mulher da mais ferina língua da comunidade.

Um mês após o enlace já circulava a notícia entre os cochichos feminino ou as conversas masculinas: a Silvinha havia “encomendado” um bebê.

E menos de dez meses do casamento, nasceu numa madrugada de final de colheita de café, o primeiro filho de Sestastião. Um varão.

O papai estreiante estava animadíssimo. A mãe feliz, os avós jubilosos. As mulheres visitavam o nenê e o achavam “a cara do pai”. As moçoilas casadoiras, viam aumentar a inveja que nutriam pela Italianinha.

Uma tarde, no botequim do Onofre, à beira da estrada, e no sítio do Tonhão, o Bastião Sanfoneio apareceu. Foi cumprimentado e abraçado por todos e pagou umas e outras para os presentes.

Foi quando um dos amigos perguntou ao Sanfoneiro como iria chamar-se o herdeiro.

E o Bastião, todo orgulhoso e feliz, abrindo um sorriso de noventa graus, respondeu:

- U minino vai tê u mermo nómi di meu pai... vai si chama Anjo...

O nome do pai do Sebastião éra Ângelo.

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo e leva a data de 12/8/1988.

segunda-feira, 12 de março de 2012

TIPOS & COISAS & CASOS (1)



Ele era o tipo de homem que póde ser considerado “pau para toda óbra”. Ou o homem dos “séte instrumentos”.

Os homens gostavam dele porque era um amigo sincero e uma pessoa capaz de auxiliar ou prestigiar quem merecesse, quando o precisasse. As mulheres achavam que ele era muito “despachado” – maneira de identificar uma pessoa prestativa, eficiente e solícita.

Seu nome era Fulgencio, mas era conhecido pela alcunha de Fulô.

Fulô sabia como ninguém, domar um animal. Laçava como poucos. Entendia tudo sobre lavoura. Sabia benzer bicheiras de animais. Castrava porcos e bois com maestria.

Era exímio em fazer canzís para as cangas dos carros-de-bois.

Bom pescador, conhecia os melhores poços do rio e sabia fisgar bem e retirar melhor um bonito pintado ou dourado, por maior que fosse.

Tinha um casamento, lá ia o Fulô matar a novilha, tirar o couro, esquartejar, desossar, temperar e assar aquele churrasco, que os presentes e comensais, unanimes, elogiavam sem medidas.

Sabia benzer dores de cabeça, de dente. Sabia benzer casos de espinhela caída, quebranto ou mau olhado.

Fulô vivia com a Mariazinha. Maritalmente, sim. Mas fazia questão de esclarecer que era amasiado. “Fui casado lá nu norti, mai nun deu certo... com a Mariazinha vivo bem, arrespeito éla i éla mi arrespeita...” – arrematava com convicção.

Tem festa, Fulô está trabalhando como sempre. Bem disposto, bem humorado. Tem mutirão, Fulô comparece, com a mesma disposição. Tem algum doente, Fulô vai lá, benze, receita ou recomenda um chá, ou ensina alguma simpatia. Tem alguns marotas ou tourinhos para serem castrados, lá vai o Fulô.

Antigamente, sabem-nos os mais antigos, todas as vezes que uma pessoa morria, recebia banho dado por amigos ou parentes. Era tradição, crença, de que o defunto tem que chegar limpo ao céu. Mas o banho não era chamado de banho e sim de “lavagem”. Isto é, dizia-se que fulano e cicrano, lavaram o cadáver...

Então, sempre que morria um homem por lá, chamavam o Fulô para lavar o defunto. Ele ia com boa vontade, arregimentava mais duas ou três pessoas, para a desincumbência da estranha missão.

Nem sempre conseguia auxiliares “em cima da hora”, pois muitos costumavam recusar-se, sob alegações, de que sentiam dó, de que não sabiam, de que estavam doentes ou que precisavam sair com urgência.

Com o passar do tempo, Fulgencio começou a raciocinar sobre o que vinha acontecendo.

- “Tenho trabaiádu bastante prú pessoár... capando raiz i porco... matando gado... fazendo churrasco prás festa... benzendo tudo mundo... benzendo bichêra... fazendo companhia im pescaria i mutirão... tenho lavado muito difunto... i agora (pensava com desânimo), u pessoár tá tirando u corpo fóra i eu ficando sozinho...”

Aí o Fulô pensou em repassar para um sucessor toda a sua prática, toda a sua sabedoria... para que fosse essa pessoa um herdeiro e que mantivesse sua lembrança entre todos, como cidadão prestante.

Se assim pensou, assim fez.

Procurou o Ditinho, rapaz de seus 19 anos, filho de criação do seu Isidoro carpinteiro. Ele gostava do Ditinho, o garoto gostava dele e era inteligente.

Conversou com jeito e demoradamente com o Ditinho. Este se entusiasmou em saber que iria aprender a laçar uma rez, castrar um animal, fazer benzimentos, etc.

Propositadamente, Fulô deixou para o fecho a parte mais melindrosa das funções, qual era dar banho em cadáveres.

Quando viu que tudo estava favorável, atacou no assunto. Ditinho empalideceu, levantou da cadeira, apanhou seu chapeuzinho cata-ovo e disse saindo apressadamente:

- Rapei fóra, sô!

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo

segunda-feira, 5 de março de 2012

TEM GENTE QUE PENSA



Tem gente que pensa. Que usa a cabeça. Mesmo porque, cabeça não foi feita só para usar chapéu; nem para um penteado; e nem apenas para separar as orelhas...

Há criaturas que pensam no Brasil. Verdade.

Há pessoas que pensam na Pátria. Verdade também.

Aqueles soldados do nosso Exército, aqueles “pracinhas” que constituíram a gloriosa Fôrça Expedicionária Brasileira, que lutaram na Europa, nas íngremes montanhas do classicismo italiano, na defesa dos postulados da democracia e da liberdade, também pensam.

Pensam, decepcionados até.

Teria valido a pena, tanto sacrifício? Para ver e sentir hoje o Brasil atual? Um país de corrupções, corruptores e corruptos? Um Brasil de canalhices, de abusos, de frustações, de relativas imunidades?

Imprensa noticía incessantemente. São descasos, são abusos, são falcatruas, são invasões, são roubos e furtos. “Marmeladas” levadas à quinta potência. Punições? O que é isso? Existem?

Desse rosário imenso de bandidos de colarinho e gravata, locupletadores e inimigos da Pátria e do povo, quantos foram encarcerados? Ou compulsados a devolver o produto “desaparecido”? Quantos?

Nem o P. C. Farias. Collor cassado. PC processado e preso, não por alcances, não por roubo. Por sonegação de impostos. Apenas.

Não é atoa que um espirituoso já disse: “No Brasil polícia só prende a classe de três pês: preto, puta e póbre”!

Tem gente pelaí que estufa o peito para falar com certo pejorativíssimo, do período de “ditadura militar”, “regime militar”, “período militar”, com inoculturas intenções, de responsabilizar o atual estado de coisas, a esse tipo inesperado de governo. Não se póde negar, que algo tenha ocorrido em desacordo com o que de bem se pensou em pról do Brasil. Mas também é inegável que a situação hoje, em termos de bagunça, baderna e desordem, é superior à propalada “ditadura militar”, “regime militar” e “período militar”. Pois não?

Pelo menos, naquela fase deixaram de existir os sequestros, os assaltos a postos de gasolina, os assaltos à bancos, os ataques à carros vendedores de cigarros, etc.. E hoje?

A gente pensa. Pensa, sim.

Os “pracinhas” também pensam. Teria valido a pena?

Sábio, embora não plausível e nem aplaudível, o texto de anônimo autor, que afirma, ou melhor, assevera: “pimenta nos olhos dos outros não arde”...

Dirá alguém que tal “stato quo” é fenômeno tido como natural, que existe em outras nações. Mesmo em nações de primeiro mundo, em países super desenvolvidos.

Concorda-se com isso porque a gente pensa.

Mas é bom cotucar a memória dos que buscam “consôlo” para esse estado de acontecimento entre nós, com essa afirmativa paralela e comparatória. É que lá exite uma coisa que aquí não há. Lá, os ladrões, os bandidos, os maus políticos, os corruptos, são punidos. Só isso.

Aquí, fóra o grupo dos três pês, punem-se vizinhos que brigam, ladroes de bicicletas e pequenos objetos, ou mesmo de galinhas. Etc. e tal.

Os ex-combatentes, aqueles que lutaram pelo Brasil, aqueles que defenderam a liberdade e a democracia, sonhando por uma pátria soberana e equânime, decepcionaram-se.

Teria valido a pena?

Ainda tem gente que pensa.

Uns pensam no Brasil, no futuro da Pátria. Outros, minoria grande, pensam neles, nos próprios estômagos, isto sim. Os outros, os que pensam na Pátria, no povo brasileiro, esses que se danem, que se forniquem, que vão para o diabo. Isso, só isso, pensam os outros. Desgraçadamente.

Não estranhe o leitor amigo, se algum “pracinha”, herói da Pátria, pensar com seus botões, que nessa “ditadura militar”, nesse “regime militar”, nesse “período militar”, com todos os defeitos, falhas e o que se convier apontar, existia um freio, um dique, que só aborrecia os inimigos da Pátria, os maus brasileiros. Éra um tal de AI-5.

Porque a verdade é que quando tal existia, os desmandos e a roubalheira não campeavam à solta e impunemente...

O pior cego é o que não quer ver.

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo

quinta-feira, 1 de março de 2012

NOSTÁLGICO APÊNDICE



“Li alhures...”

Significa isso, o mesmo que dizer: li em algum lugar, não se há quanto tempo, nem me lembro onde...

Se eu iniciasse este escrito, com tal expressão, poderia parecer meio poético, meio bonito, até meio culto.

Mas não seria.

Seria, isto sim, meio pedante, meio besta até.

Mas ocorre que eu li alhures: “O repórter é o único sujeito que tem o direito de meter o nariz onde não é chamado”.

Por isso, aqui minha presença.

Transcorria o ano de 1945. Plena guerra mundial acontecendo. “Pracinha” no Exército Brasileiro, integrando a FEB, lutando na Itália.

Meu mano Alcindo cursava o último ano de contador, na Academia de Comércio, a saudosa e chamada “Escola do Póvoas”.

O “Correio de Marília”, o primeiro jornal da cidade, também o primeiro da Alta Paulista, já havia pisado a marca de 17 anos de vida, dedicada aos marilienses e à cidade na qual nasceu. Luiz Franceschini, jornalista forjado no trabalho árduo e difícil que as circunstâncias do momento dispunham e exigiam, era o redator secretário do jornal. Na verdade era o único na redação. O trabalho era estafante. As matérias, todas, à lápis, manualmente.

Franceschini, certo dia topou o Alcindo. Em conversa com o estudante ficou sabendo que este tinha um irmão na guerra, que escrevia antes de sua incorporação ao Exército, no bi-semanário “O Progresso”, da vizinha cidade de Lins. O escriba do “Correio” solicitou, então, que o irmão dele enviasse alguns trabalhos para o jornal. O Alcindo pediu por carta. O rapaz atendeu.

Poderá imaginar o leitor. “E o que é que eu tenho com isso?” Nada, de fato. Mas algo, mínimo que seja, se for e tiver o pensamento e o coração bem marilienses.

Não falei acima que o repórter tem o vício de meter o nariz onde não é chamado?

Ao deparar com o número zero do nascimento “Correio do Interior”, senti dentro de mim a imagem, a vida, o sofrimento, as lutas, as decepções, as glórias, as desilusões e as honras. A saudade de uma paixão, de um amor grandioso, imensurável, incomparável: o jornal. E eu amei muito o “Correio de Marília”.

Quando eu principiei a namorar – com a mulher que estou firmemente casado até hoje – meus filhos não haviam nascido, igualmente meus 19 netos não tinham vindo ao mundo, eu já escrevia para o “Correio de Marília”.

Por cerca de meio século militei no dito jornal. Por isso, a razão desta autêntica confissão.

Razão principal destes rabiscos:

Parabenizar – como intrínseco e autêntico jornalista que sou – a Oswaldo Machado, criador e lançador do “Correio do Interior”, cujo número inicial tantas emoções me acarretou, fazendo rememorar a odisséia de perto de mio século de lutas, no antigo “Correio de Marília”.

Que Oswaldinho tenha – mesmo com marcantes sacrifícios – a vida e as honras do antigo “Correio”. Para mim, o “Correio do Interior” se assemelha como um próprio continuador.

Medite, Oswaldo, a essência e as profundezas, a lógica e a razão contidas naquele conselho justo e sábio do mestre Anselmo Scarano – alma boníssima, coração gigantesco e humilde que enverniza sem opacar, essa luminosa inteligência nas artes de pensar e escrever.

Convivi com Anselmo, trabalhei com Anselmo, por mais de 40 anos.

Posso falar de cátedra.

Sei o que escrevo e escrevo o que sei.

Como um impacto a crise nostálgica me fez bem. Deu-me a convicção de que ainda existem homens de fé e de trabalho, de boas intenções, nos quais se pode confiar e dos quais se pode esperar obras e realizações, prenhes de exemplos sadios e corajosos.

Toda criatura humana tem seu ego. Junto a ele, inseparavelmente ligado a ele, está um apêndice.

É o “nostálgico apêndice”.

Nem sei se existe tal nome. Se não existe, fica inventado. E aqui colocado.

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo