quinta-feira, 6 de março de 2008

Opinião: José Arnaldo Padilla Bravos

Extremamente conhecido em Marília, respeitado por sua capacidade de levantar bandeiras e bater-se por causas públicas da cidade, José Arnaldo P. Bravos presta seu depoimento para esta coluna, contando fatos sobre sua atribulada carreira jornalística, que lhe conferiu a condição de "internacional", quando cobriu congresso interamericano, nos Estados Unidos.

José Arnaldo nasceu às margens do Rio Batalha, num distrito de Bauru, que hoje se chama Avaí, há 60 anos, e nos conta que quando veio ao mundo, "esta região era apenas mata virgem, cujos donos absolutos eram os índios caing-gangs, que por volta de 1917, haviam escorraçado frades franciscanos procedente de São Paulo, que tentaram o trabalho de civilização e catequese".

De origem paupérrima, seu pai era imigrante espanhol analfabeto, cuja filosofia e experiência de vida, superaram, em certos aspectos, relativa cultura escolar. Durante muitos anos plantou cafezais para o maior fazendeiro da região de Jaú, Major Prado. Sua mãe, filha de espanhóis, nascera em Minas Gerais, seus avós, de ambos os lados, foram espanhóis e não possuíam escolaridade.

Com a idade de 7 anos, principiou o trabalho, para ganhar o próprio sustento, e sendo assim, José Arnaldo afirma que não teve infância e conclui, "nunca tive um brinquedo, uma bicicleta, um patinete, nada; brincava com dois sagus de milho, que amarrava, considerando-os uma junta de bois". Calçou seu primeiro par de sapatão, com a idade de 16 anos e só com 18 é que largou a enxada e outras atividades brutas da zona rural. Paradoxalmente a esses detalhes, hoje, José Arnaldo conhece todo o Brasil, vários países da Europa e da América, detém dois diplomas e fala três línguas estrangeiras. Apesar disso, terminou o curso primário com mais de 14 anos.

APÓS A II GRANDE GUERRA, CHEGA A MARÍLIA

"Vivi a II Grande Guerra Mundial sempre dentro de um pequeno grupo, ou seja, o mesmo Pelotão. Não gosto de rememorar e nem fazer comentários sobre a guerra, que participei de armas em punho, porque, devido ao descuido e pusilinimidade das próprias autoridades educacionais brasileiras, os feitos heróicos da F.E.B., são ignorados pelas gerações de hoje. Especialmente em São Paulo, onde confundem os "pracinhas" da FEB, com os constitucionalistas de 1932, sendo que os primeiros integram o Exército e lutaram no exterior e os seguintes participaram de um movimento político", nos conta José Arnaldo, que confessa a tristeza em recordar os amigos que perdeu, os corpos estraçalhados por obuzes inimigos, "como se fossem bombinhas juninas". E conclui: "Chorei, socorri, reparti com fiéis amigos de armas, restos de rações, pontas de cigarros e migalhas de alimento; me convenci de que no livro do destino estava escrita a sentença de que eu não deveria morrer na guerra; por isso, sou fatalista e creio em Deus, considerando a fatalidade como obra divina, superior, insondável e investigável".

Em Marília, chegou em 1945, quando do término da II Guerra Mundial. Quando partiu para a Itália residia em Lins e seu pai em Cafelância. Durante sua ausência do país, seus familiares mudaram-se para Marília e ele veio visitá-los. "Enfeiticei-me pela cidade e aqui permaneci", conclui.

36 ANOS DE JORNALISMO

"Trabalhar mesmo em jornal, há mais de 36 anos. Frequentar redações e contactar com gente de imprensa, há mais de 40", assim começa o seu extenso depoimento sobre a profissão em que serviu quase toda a vida.

Desde pequeno aprendeu a "cheirar tinta de oficina gráfica". Criança, no grupo escolar, já colaborava em jornal, escrevendo fofocas sociais de molecadinha estudantil. Depois, passou a colaborar no semanário "O Progresso", de Lins, em 1939, o qual considera sua primeira escola de jornalismo. Também escreveu para o "Jornal de Lins", que teve pouca duração.

Quando estava na Itália, recebeu pedido do grande jornalista Luiz Franceschini, então redator do CORREIO, para que remetesse matérias de sua lavra, o que atendeu, passando a colaborar com este jornal, antes mesmo de conhecê-lo. Na mesma época colaborou com "O Estado de São Paulo", que situava-se na Rua Santa Ifigênia, esquina da Ladeira Porto Geral.

Vindo para Marília, pensou em dedicar-se a contabilidade, mas desistiu. Nesse tempo, Luiz Franceschini deixava o CORREIO, para assumir o departamento de jornalismo da Rádio Bandeirantes, em São Paulo, e o Sr. Raul Roque Araújo, co-proprietário do jornal, contratou os serviços do professor de português, latim e inglês, Henrique Baptista Junior. Este permaneceu pouco e o Sr. Raul convidou José Arnaldo, que não titubeou, largando um emprego de banco. Assumiu o cargo de redator-secretário, em 1946, e afirma: "não tive a vida ininterruptamente no CORREIO, mas sempre estive ao lado dos Araujo e do Anselmo".

Sobre a época em que militou no CORREIO, José Arnaldo nos conta um fato pitoresco: "O Jornal funcionava na Rua Prudente de Moraes, na altura da aproximada da garagem de entrada do Bradesco. O Sr. Raul costumava selecionar assuntos sociais e relacionados com os interesses do funcionalismo público, para a secção "Notas e Fatos". Cheguei depois do almoço à redação e o Sr. Raul pediu-me que fizesse uma nota sobre o nascimento do primeiro filho de um seu amigo, um professor. Redigi, usando a velha chapinha e os mesmos chavões de sempre ao nasciturno. No dia seguinte, cheguei cedo ao jornal e notei um alvoroço. O professor e pai pela primeira vez, visivelmente nervoso, reclamava contra a notícia, pois por erro do "puxador de linhas" (não havia linotipo), a palavra "pimpolho" fora substituída por outra que nem siquer existia nos dicionários comuns. Esclareci que era um erro, devidamente ocasional e perdoável. E o homem explodiu: "O senhor sabe o que significa a palavra?" E saiu bufando recomendando: "Procure saber, seu analfabeto". Fiquei aborrecido por ter recebido a pecha de analfabeto. Recorri ao dicionário e no mesmo não constava a palavra publicada em lugar de pimpolho. Fui à Biblioteca e desfolhei o Lelo Universal. Caí das nuvens. O nome divulgado, por erro, representava um monstro submarino da mitologia grega, metade peixe, metade gigantesco molusco, feroz, que soltava fogo pelas narinas..."

LUTAS E VITÓRIAS PÚBLICAS

Por muitos anos, José Arnaldo foi correspondente das Emissoras e Diários Associados e pelo "Diário de São Paulo", conseguindo ganhar o galhardão que muitos jornalistas se sentiriam honrados, a condição de "internacional", quando fez uma cobertura de determinado congresso interamericano, nos Estados Unidos, tendo visitado o Panamá e o México.

No CORREIO, conseguiu plantar as primeiras sementes de grandes realizações, hoje, palpáveis e que constituem lugar comum da vida mariliense. Lutou pela eleição de deputados marilienses. Pelo asfaltamento da via de acesso ao Aeroporto, pela criação de agências bancárias na Vila São Miguel.

No campo educacional e de serviços, José Arnaldo afirma: "bati-me para que Marília fosse aquinhoada com uma faculdade superior de ensino oficial, sensibilizando Câmara e autoridades, e aí está a Faculdade de Filosofia, também o Museu Municipal. Fui o primeiro lutador pró Faculdade de Medicina e ela está aí, graças a um projeto do Deputado Diogo Nomura, autor da lei; bati-me igualmente, durante mais de 10 anos, pela criação e instalação de uma unidade do Corpo de Bombeiros. Aí o temos, e uma pesquisa da própria Polícia Militar, constatou provas de meus objetivos. Tanto que o 10º G.I. homenageou-me com a entrega de um capacete e o título de "Bombeiro Honorário".

Junto a outros tantos lutadores pela construção do Teatro Municipal, José Arnaldo esteve empenhado desde 1947, e satisfeito, vê finalmente, 35 anos depois, o final das obras de tão importante reivindicação cultural.

Certa feita, nos conta ele, foi "aquinhoado" com a proposta de entrega do título de "Cidadão Mariliense", porém recusou a honraria, por considerar a outorga, um título de muita responsabiliade e por não considerar-se apto a recebê-lo.

O ilustre magistrado Dr. Paulo Lúcio Nogueira, hoje, Juiz Titular da 3ª Vara Cível e Presidente do Fórum de Marília, que é escritor, também homenageou José Arnaldo. Certa ocasião, quando juiz em Tupã, publicou um livro, no qual fez uma análise das diversas profissões liberais. No capítulo em que homenageou a Imprensa, o autor cingiu-se mais ao jornalista profissional e a pessoa escolhida para essa homenagem, hoje do conhecimento de todos, foi o jornalista José Arnaldo.

Para José Arnaldo, o importante é acrescentar seu amor pela cidade, afirmando: "Tudo o que estou referindo e outras realizações das quais participei em campanhas memoráveis, de idealismo e de acendrado e irreversível amor por Marília, estão impressas em letra de forma, nas coleções do CORREIO, o que vale dizer são incontestáveis e o tempo não destruirá, jamais".

A DIFICULDADE DE SE FAZER JORNAL NO INTERIOR

Em sua grande vivência nos meios jornalísticos, angariou muitos amigos, podendo-se considerar que foi "professor de jornalismo" de Roberto Camargo, Tony Filho, Luiz Carlos Lopes, Luiz Lopes Fassoni, de Oswaldo Ramos Mendes Filho, de seu filho José Cláudio Bravos e muitos outros, que, segundo ele, "passaram pela 'Universidade do Correio de Marília', e que como seus 'alunos' de ontem, são meus mestres de hoje". Todavia, em termos de amigos de redação, José Arnaldo destaca dois: "Anselmo Scarano e José Cunha de Oliveira, porque demonstraram-se, sempre, um amor "al di la", pelo Jornal e porque foram companheiros leais, em todos os sentidos, dentro e fora dos limites da redação".

Sobre as dificuldades em se fazer jornal, no interior, José Arnaldo afirma que o material gráfico é de alto custo. Tintas, chumbo, matrizes, mão-de-obra, e o papel são muito caros: "jornal vive alicerçado em rendas publicitárias e é difícil, em cidades interioranas, "arrancar" dinheiro do comércio e indústria, para diversos órgãos de divulgação, ao mesmo tempo". Segundo ele, o leitor ignora isso e não sabe, por exemplo, que o custo da assinatura anual de um jornal, não chega a pagar nem siquer a metade do custo do papel em branco e conclui: "o governo deveria fundar uma espécie de cooperativa onde os jornais adquirissem o material que necessitam e as cotas de papel precisas, eliminado as margens de lucro dos intermediários. Penso assim, embora não seja nenhum 'expert' em administração de jornais". Por outro lado, José Arnaldo vê ainda a não abertura total, na propalada liberdade de imprensa, "tanto isso é verdade que muitos jornalistas continuam sendo indiciados em processos de lei de imprensa, por dizer a verdade, combater o errado ou criticar as mordomias e corrupções".

Apesar de ter sido assediado por partidos, para figurar em diretórios e para concorrer a cargos eletivos, José Arnaldo nunca foi político, participando apenas como observador neutro, ele diz - "fui cronista parlamentar por um espaço de 20 anos, não confio muito na sinceridade de políticos profissionais".

MUITAS PROFISSÕES ATÉ CHEGAR AO RÁDIO

Pelo fato de ter sido criado com dificuldades financeiras, e quase sempre sozinho, José Arnaldo foi obrigado a exercer diversas atividades, como a de leiteiro, peão de turma (hoje, boi-fria), açougueiro, plantou, capinou e colheu arroz, feijão, milho, foi engraxate, distribuidor de panfletos publicitários, de filmes cinematográficos, trabalhou em farmácia, foi enfermeiro, ajudante de cozinheiro, copeiro, quarteiro de hotel, garção, rádio-telegrafista, telefonista até chegar também ao rádio.

E sobre o rádio ele nos conta: "trabalhei no tempo em que não existiam equipamentos de boa qualidade, quando não havia boas estradas, eu comentava futebol para a Rádio Clube, depois para a Dirceu, mais tarde para a Verinha. Trabalhei graciosamente na Rádio Cultura de Araçatuba e na Lins Rádio Clube. Obtive destaques, comentando esportes para a Difusora, Panamericana e Continental do Rio, quando as mesmas transmitiam jogos de Marília. Criei um caso pela Rádio Tupi e Difusora, numa ocasião de apuração eleitoral, quando um juiz de Direito determinou exigências rígidas e absurdas contra os elementos de imprensa. Soltei a bomba no ar, todo o Brasil ouviu e quase fui parar na cadeia. O rádio de hoje em dia, com a competição da televisão, apresenta muitos furos aquém do esperado, um 'moto-contínuo de repetecos e copiações e não dispõe de pessoal bastante capacitado, talvez porque paga salários de baixo nível, para a maioria do pessoal".

MARÍLIA E AS HOMENAGENS

Para José Arnaldo, Marília mudou muito desde que chegou, e explica - "no Governo Médici, parece ter ocorrido o fenômeno de expansão arquitetônica em todos os quadrantes do páis. O fato foi analisado por sociólogos do mundo todo, que se mostraram admirados com o desenvolvimento. Nos últimos anos, os municípios passaram a receber mais atenção do Poder Central e dos Governos, e isso tem contribuído para o desenvolvimento. Marília mudou, progrediu, mas nem todos esses progressos representam bafejo oficial". Segundo ele, a cidade quase progrediu mais pelo dinamismo e otimismo de sua gente, "e isso nota-se através do desenvolvimento industrial e do crescimento comercial, além da implantação de centros educacionais e núcleos de edeucação particular".

José Arnaldo afirma que precisaria de uma jamanta de rosas, para poder mandar à tantas criaturas boníssimas que conhece, e assim prestar-lhes uma homenagem. Pelo menos sete botões ele distribuiria da seguinte forma:

"A primeria para Cida, minha esposa e companheira, que há mais de 34 anos está casada comigo, deu-me seis filhos maravilhosos e ajuda-me a suportar as intempéries da vida, de maneira estóica e comigo participa das alegrias dos momentos felizes, com a sinceridade e lealdade de uma verdadeira santa.

"Duas rosas daria às minhas filhas Sueli e Salete, pelo desvelo, obediência e respeito que sempre souberam dispensar-me, jamais tendo me criado o menor caso, o menor aborrecimento, só tendo me proporcionado felicidade e orgulho.

"Outra rosa eu daria para dona Zaira Fiorini, que foi a minha primeira professora e que ainda hoje me ama com o mesmo carinho de quando me viu pela primeira vez e com a qual sempre me comunico por intermédio de terceiros.

"A outra rosa eu daria para uma pessoa que nem siquer conheço e que admiro pela cruzada peregrinação humana e cristã que realiza. Refiro-me à D. Carmem Prudente, do Hospital do Câncer de São Paulo.

"E as outras duas rosas, eu daria a duas mulheres marilienses, duas mestras que tiraram das trevas da ignorância e analfabetismo, centenas de crianças, de ontem que são homens de hoje. Pelos seus espíritos cristãos e pelo espírito cívico, pelas bondades que sempre conseguiram irradiar, daria as duas rosas para dona Rosalina Tanuri e dona Amelinha Seixas".

Extraído do Correio de Marília de 21 de março de 1982