segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Natal dos pobres (27 de dezembro de 1958)

Repetiram-se em Marília, como sói acontecer todos os anos, em igual dia, as manifestações de solidariedade humana e confraternização universal e cristã, com os intentos de oferecimento de pequenos óbulos em alimentos, aos pobres da cidade.

As igrejas de diversas seitas, procuraram desincumbir-se de seus papéis a respeito, obedecendo os preceitos de bondade e piedade do próprio Nazareno.

Na manhã do Grande Dia da Cristandade, por iniciativa das Conferências Vicentinas da cidade, em plena Avenida Sampaio Vidal, cerca de 1.500 pacotes contendo um pouquinho de gêneros alimentícios diversos, foram distribuídos entre os pobres.

A respeito, ouvimos de parte do povo que se ocupava a observar os “bichas” da miséria estendidas pela Avenida e descendo a Rua 9 de Julho, comentários dos mais desencontrados. Afirmavam uns, ser deprimente o espetáculo, dizendo afirmativas referentes ao espírito de organização que estava deixando a desejar, com gente maltrapilha e miserável, permanecendo horas seguidas nas filas intermináveis. E ainda avançavam em pontos de vista, acrescentando que muitas mulheres tinham, forçosamente, sacrificado o horário do almoço, para candidatar-se a um óbulo de insignificante representação.

Certo é que, apenas nêsse particular, têm razão os que assim afirmaram ou os que assim pensaram. Entretanto, à muitos, escapou a principal observação: Existe a miséria, existe a pobresa, em proporções mais alarmantes do que seria de imaginar à primeira vista. E, na missão dêsse mister, muitas trabalharam com afinco, desinteressadamente, abnegadamente, fazendo o possível. E naquêles pacotes, embora pequenos, estavam contidas as boas intenções e a cooperação de milhares de marilienses, muitos dos quais também pobres, porém de altruístico espírito caritativo.

Gostaríamos de saber, se os que se deram ao luxo de condenar abertamente, haviam realizado alguma coisa em pról da pobresa local.

Por certo, muitos daquêles que tão abertamente censuraram o espetáculo, como deprimente e “feio”, poderiam ter doado alguma pequena quantia de gêneros, ou alguma pequena importância em dinheiro, não como uma obrigação cristã, mas simplesmente como um “dever social”, uma atitude de “não desagrado” tão sòmente.

Não poderia mesmo haver beleza num espetáculo de miséria humana. Pelo menos para os olhos cristãos.

Mas havia ali uma outra beleza, mais elevada, mais fácil de ser compreendida pelos pobres, embora nem todos estivessem nas filas: a beleza da alma, a beleza da solidariedade!

Fato é, conforme dissemos, que notamos uma grande demora e regular balbúrdia, no setor da organização, cuja demora da distribuição foi bastante acentuada. No entanto, conveniente é que se considere a dificuldade em organizar-se e lidar-se com o povo em grande número, maximé faminto.

Não devem merecer censuras e sim louvores, os que pretendam servir ao próximo, especialmente os que, no Dia de Natal, se empenham em proporcionar uma passagem, senão completa, pelo menos mais esperançosa e um pouquinho mais alegre. Justo é que se compreenda, que impossível seria uma coisa melhor, porque essa coisa melhor decorreria, inegavelmente, do apoio geral e o apoio geral apresentado, nada mais permitiu fazer do que aquilo que foi feito.

Ao par disso, inegável é, existiu o alto espírito de piedade cristã e tal fato ninguém poderá contestar.

Extraído do Correio de Marília de 27 de dezembro de 1958

sábado, 25 de dezembro de 2010

Feliz Natal, leitores! (25 de dezembro de 1958)

Nesta data festiva, em que a humanidade cristã se confraterniza, estendendo-se mutuamente as mãos e entrelaçando amizades, aqui nos encontramos, leitores amigos do “Correio”.

Seguindo o exemplo do Nazareno, de amor a todos, indistinção de homens, com amor a Deus e no próximo, congratulamo-nos com nossos amigos e leitores, pelo evento mais eloquente do mundo cristão.

Natal!

Estancam-se as lutas diuturnas e cotidianas, ao aviso dos sinos que anunciam euforicamente a Grande Data.

A humanidade se confraterniza, num amplexo de compreensão sincera e amor mútuo. Tudo é alegria, porque a efeméride convida a pensar sôbre a grandeza do acontecimento.

O Filho de Deus, que se fez homem para nos salvar, nasceu no dia de hoje. E nos deu o exemplo magnífico de amor aos semelhantes, de resignação, de renúncia.

Na estrebaria de Belém, sôbre um punhado de feno, cercado pelos humildes e santos pais e observado pela pacata vaquinha, o Filho de Deus já se apresentava ao mundo de então e do porvir, como o exemplo máximo da bondade, da humildade, de amor ao próximo e de piedade permanente.

Hoje, ao comemorarmos a passagem do Dia de Natal, grata efeméride que dedicamos à Família e ao respeito mútuo, com a observância dos princípios de amor à própria História Sagrada, curvamo-nos respeitosamente ante a majestosidade dessa excelsa data.

E ao realizarmos essa genuflexão espiritual, procuramos fazê-lo examinando nossa própria consciência, analisando nossos atos frente aos mandamentos e aos exemplos do Filho do Senhor. E ao fazê-lo, indagamos em pensamento: “Será que todos os que habitam esta querida cidade poderão, de sã consciência, postar-se aos pés do Filho de Deus e confessar seus pecados dizendo as suas virtudes?”

O Filho de Deus feito homem, foi o exemplo que deve ser seguido e que muitos não seguem.

Reverenciemos, portanto, a passagem da grande data.

Unamo-nos num congraçamento de fraternidade e amor, como tão bem pregou N. S. Jesús Cristo aos homens da terra, mesmo aos seus algozes. Rememoremos a passagem Golgotiana e olhemos naquele fato a história exemplo de renúncia e resignação.

A fraternidade universal prega-se agora mais do que nunca entre os homens de boa vontade. E nada melhor do que a data de hoje, para que os próprios homens se dispam de malquerenças, de afastamentos banais, a fim de se ligarem ainda mais, pelos laços da fraternidade, galvanizados pelo espírito da solidariedade humana e exemplar.

Que Deus, na Sua infinita bondade e inalienável sabedoria, cujo transcurso do nascimento de seu Filho hoje se comemora, se digne olhar para os pobres e vulgares homens da terra, amparando-os em sua caminhada, orientando-os em suas desmedidas ambições e reprimindo-os em sua voraz fome de grandeza, dando-lhes a iluminação clara e precisa para que o exemplo de Jesús continue a ser perpetuado e imitado.

“Glória a Deus nas alturas e paz na terra entre os homens de boa vontade”.

Leitores do “Correio de Marília”, nesta data festiva e sacrossanta, congratulamo-nos com todos os marilienses, ricos e pobres, pretos e brancos, nacionais ou não; e formulamos a todos, indistintamente, os votos mais sinceros de uma passagem do Dia de Natal feliz, alegre e risonha, sob os auspícios e os beneplácitos da própria paz na terra que tanto preocupou ao próprio Filho de Deus.

Feliz Natal, leitores do “Correio de Marília”!

Extraído do Correio de Marília de 25 de dezembro de 1958

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Sofrerão aumento as mensalidades escolares (24 de dezembro de 1958)

De acôrdo com declarações do Sr. Oswaldo Coutinho, Secretário do Ministério da Educação e Cultura, as anuidades escolares sofrerão um aumento de 30% no ano vindouro (1959).

Uma Comissão Especial foi nomeada para elaborar o trabalho desse aumento, que deverá estar concluído ainda antes do fim do mês. Ao mesmo tempo, conforme se expressou aquele funcionário, a repartição referida está cuidando de um plano de fiscalização, destinado a evitar quaisquer abusos dentro do setor da cobrança dos aumentos que fatalmente virão.

Informa-se a respeito, que no Estado de Minas Gerais, um grupo de diretores de diversos estabelecimentos de ensino resolveu majorar, em 40%, as anuidades para o próximo ano letivo, à revelia do Ministério (que foi ao) Supremo Tribunal (reivindicar o direito de) controlar os preços cobrados pelas casas de ensino do país.

O sr. Oswaldo Coutinho garantiu que o MEC não permitirá qualquer aumento antes da conclusão dos estudos que estão sendo feitos pela comissão para isso constituída, nem após, acima das bases por ela estabelecidas.

“Quanto ao caso de Minas Gerais, vamos apurar; não só esse, mas todos os demais aumentos ilegais serão reprimidos e os pais dos alunos devem recusar em aceitá-los, colaborando deste modo com o Ministério da Educação” - disse.

Reunindo-se quase que diariamente, a comissão que vem estudando as possibilidades do aumento das anuidades escolares, para 1959, é formada pelos seguintes elementos: professor Ely Menegale, diretor do Departamento Nacional de Educação; professor Gildasio Amado, diretor do Ensino Secundário e professor Lafayette Del Ford Garcia, diretor do Ensino Comercial, sob a presidência do professor Clovis Salgado, Ministro da Educação.

Como se vê, é provável que até o último dia do ano expirante (1958), o Ministério da Educação e Cultura tenha em seu poder o relatório final da citada comissão, a fim de traçar e divulgar o que de verdade existirá acêrca da questão, para o ano de 1959.

Não há negar que existem algumas razões para esse pretendido aumento, pois certo é que muitos professores, atualmente, são mal remunerados. Igualmente, é inquestionável que acontecerá mais um fato para mais sacrificar as bolsas da classe pobre. Enfim, isto aqui é mesmo um “móto contínuo”...

Extraído do Correio de Marília de 24 de dezembro de 1958

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal de póbre é um martírio (23 de dezembro de 1958)

Cada ano que passa, mais angustiante se torna para os pobres, a passagem da data magna da Cristandade.

O Dia de Natal, que pelo seu excelso significado, deve representar um dos maiores motivos de alegria de todo o ano, especialmente na concepção dos cristãos, transforma-se, atualmente, numa data de constrangimento, e, sem exagero, em certos, casos, de profundo desgosto.

A tradição da mesa farta, com artigos convencionadamente chamados de “próprios” a necessidade inadiável da aquisição de um presentinho para as crianças, o costume da compra de um par de sapatos novos, um vestido também novo ou mesmo uma simples camisa, representam, hoje em dia, para as bolsas dos menos favorecidos pela fortuna, verdadeiros espectros, abjetas preocupações.

Um pai de família, por exemplo, com quatro ou cinco filhos e mesmo ganhando mais do que o famigerado salário mínimo, não pode, em circunstância nenhuma, adquirir nada que se coadune com a passagem dêsse grande Dia.

Muitas pessoas, pretenderam adquirir um par de sapatinhos ou uma roupinha nova para os filhos, na ocasião da Data da Cristandade. Três ou quatro pares de calçados, do tipo “popular” (mesmo porque não existem sapatinhos do tipo “miserável”), ficam rondando a casa dos 2 mil cruzeiros. Não um terninho, mas simplesmente a fazenda (de “segunda” e da mais barata imaginável), para um feitio de roupa “a martelo”, sem muitos enfeitos, sem botões caros, etc., ultrapassa a importância de 200 cruzeiros. E sairá um “terninho” que significará uma afronta ao próprio substantivo! Óra, só aí, para uma família de quatro ou cinco crianças, já terá o pai pobre que dispender, aproximadamente, 3 mil cruzeiros, ou seja, quase o ordenado do mês de dezembro. Acrescente-se a isso, a carência da aquisição de um vestido para a esposa, a identificada e desfibrada esposa do pobre. Ou um par de sapatos (às vezes uma simples sandália – o que hoje custa o preço de um sapato de primeira há pouco tempo atrás). Ou uma camisa para o chefe da família (hoje quase pelo preço de um terno de boa casimira há 10 anos passados).

A isso tudo, acrescente-se a urgência de alguns brinquedinhos, pois mesmo filho de pobre é filho de Deus. Qualquer que seja o brinquedo, por mais simples, banal e ordinário, custa os “olhos da cara”. E filho de pobre que não ganha seu presentinho de Papai Noel, não consegue ocultar o sentimento misto de revolta a incompreensão, que lhe domina o pequenino sêr, quando nêsse grandioso Dia de Natal, vê a criançada tôda, eufórica nas ruas, exibindo brinquedos e comparando-os entre si. Cresce, por força das circunstancias, com complexos e recalques, que, sob nenhuma desculpa, podem ser condenados.

Agora, a necessidade de, no mínimo, um almoço melhor, nem que seja uma pequena variação no indefectível prato “padrão” dos brasileiros (principalmente os pobres), que é o batidíssimo feijão com arroz. Frango? Leitoas? Perús? Não; apenas um pouco de macarrão, apenas um pedacinho a mais de carne de vaca; um guaraná para as crianças e talvez um copo de cerveja ou de vinho vagabundo para os adultos.

Qualquer pessoa poderá fazer êsse cálculo e verá com extraordinária facilidade matemática, como será o Natal do Pobre êste ano.

E não computamos nessa conta, por significar uma “abusiva pretensão”, a compra de algumas castanhas, nozes, figos, avelãs, ou passas! Isso não está nas cogitações dos pobres, pelos preços verdadeiramente proibitivos que apresentam.

As comparações acima ficaram dentro do plano da vida puramente normal. Já imaginaram os leitores, que, além dêsses fatos apontados e que ninguém poderá refutá-los, se um pai de família com 4 ou 5 filhos passará um mês sem precisar de médico e farmácia? E igualmente imaginaram em quanto importa uma simples consulta e uma simples receita médica?

Depois de amanhã será o Dia de Natal. A grande Data, transformar-se-á num martírio, num verdadeiro pesadelo, para muita gente.

Infelizmente!

Extraído do Correio de Marília de 23 de dezembro de 1958

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Igreja e a Reforma Agrária (20 de dezembro de 1958)

O problema da Reforma Agrária, no Brasil, é bem mais idoso do que possa parecer à primeira vista. Do mesmo já se ocuparam estudiosos diversos que o abordaram e focalizaram-se sob diversos prismas e aspectos.

Muita gente se ocupou da questão referida: estudiosos, pseudo-estudiosos, bem ou mal intencionados, políticos ou não, até demagogos e preconizadores de doutrinas políticas aversas ao regime nacional.

A Reforma Agrária, executada conforme deve ser, sem que sirva de motivos de exploração ou aproveitamento para politiqueiros profissionais, que se enquadre em seus objetivos, precípuos, de amparo e fixação do homem do campo, dentro de seu próprio “habitat”, estancando o nocivo êxodo rural, é boa e necessária.

Muitas explorações têm sido realizadas em torno dêsse problema, que, apesar do sentido patriótico que apresenta, não escapou ao manuseio de politicagens e de politiqueiros.

Agora, a própria Igreja, talvez preocupada não só com o problema em si, mas com o andamento de idéias que em torno do mesmo se realiza, sem nenhum resultado de efetividade, resolveu também tomar parte nessa questão. D. Helder Câmara, Arcebispo Auxiliar do Rio de Janeiro, afirmou recentemente, em entrevista à imprensa:

“A Igreja fará a reforma agrária. O problema é complexo e não sòmente da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Sua execução e solução dependem de uma completa concatenação de forças oriundas de todas as dioceses do Brasil”.

Acrescentou que a Igreja dará toda a assistência técnica e financeira às famílias que se deslocarem para o Interior, a fim de habitarem terras oferecidas pelas arquidioceses e dioceses brasileiras. Casas simples, mas confortáveis, serão construídas em pleno sertão brasileiro. Transporte será fornecido e instrumentos de trabalho serão distribuídos e cada família receberá gratuitamente assistência alimentar durante os primeiros tempos de trabalho.

Mais adiante o arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro declarou: “a hora ainda não chegou, mas no momento oportuno virá a reforma agrária. A Igreja de Jesus Cristo será a primeira a dar o exemplo de pôr em prática a doutrina social-cristã. Os problemas sociais se avolumam dia a dia, os homens vão cada vez mais ficando apalermados diante da brutalidade da vida. Cumpre, portanto, à Igreja, orientá-los e encaminhá-los por um caminho seguro. Para isso tem ela a experiência adquirida em dois mil anos de lutas em todos os quadrantes da terra”.

Finalizando d. Helder asseverou: “Faremos sem dúvida a reforma agrária no Brasil e será para breve, muito breve mesmo. Não há tempo a perder. A Igreja está estudando o assunto. Medidas estão sendo tomadas e qualquer hora poderei chamar os jornalistas e dizer-lhes: “Seguiram as primeiras famílias que irão habitar em terras próprias cedidas pela Igreja”.

A idéia, como se vê, principiou a preocupar a Igreja Católica, numa demonstração evidente de que o problema é digno de atenções e que suas providências estão a exigir mais do que simples figurar em estatutos de partidos políticos ou servir de ilustrações demagógicas para candidatos à pleitos.

Vamos, pois, aguardar o desenrolar dessas providências, óra preconizadas pelo Arcebispo da Capital Federal.

Extraído do Correio de Marília de 20 de dezembro de 1958

domingo, 19 de dezembro de 2010

Aumento de taxa de água (19 de dezembro de 1958)

Em junho último, aprovava a Câmara local, a Lei n. 986, dispondo sôbre a majoração das taxas de consumo de água, a partir de janeiro próximo.

Na ocasião, comentamos o fato reservadamente, tecendo em torno da questão, nossas habituais críticas, de caráter construtivo.

Pendíamos para a conformação do assunto, quando na reunião extraordinária realizada pela edilidade na última segunda feira, nos forçou a retornarmos ao problema.

Entendemos que a Câmara Municipal de Marília laborou um grande equivoco, ao rejeitar a emenda da Comissão de Justiça, apresentada ao parágrafo único do artigo quarto do projeto n. 1062, da Prefeitura, óra aprovado e que deverá ser convertido em lei. Como sabem todos, o mencionado projeto dispõe da autorização ao Executivo, para contratar empréstimos com a Caixa Econômica do Estado, no montante total de Cr$ 6.815.000,00, destinado aos serviços de reforço de rêde de abastecimento de água da cidade.

Óra, a emenda referida, aconselhando a supressão do parágrafo citado, visava evitar que o referido dispositivo (aprovado integralmente), outorgasse poderes amplos ao sr. Prefeito, para tributar, à custa de simples decreto executivo, as taxas do consumo de água do município.

Tal autoridade conferida ao Prefeito, parece-nos ter fugido à normal legal, uma vez que o reajustamento das taxas de água é matéria privativa de lei, não de decreto puro e simples da Prefeitura, uma vez que trata de alteração tributária municipal. Assim, dêsses trabalhos, que tão de perto interessam ao povo, devem participar os dois poderes e estranhável é que a própria Câmara, por iniciativa própria, tivesse ficado alijada de participação da providência dêsse porte.

É claro, que não iremos aqui insinuar, nem de leve, que a promulgação do projeto de lei 1062, deixaria o sr. Prefeito à cavaleiro, para tributar arbitrariamente as referidas taxas. Acontece, que, por força dêsse diploma legal, êle poderá fazê-lo, sem que a ninguém (nem mesmo a Câmara) assista o direito de protestar!

Estamos encarando a questão, pelo lado legal e embora não sejamos nós cultores de direito, bem sabemos que o êrro laborado pela Câmara nêsse particular, está merecendo algumas críticas, pela espécie que causou em diversas camadas sociais da cidade. Por outro lado, agrava-se mais ainda a medida em referência, em vista de que, a própria Comissão de Justiça, cônscia de suas altas responsabilidades e com a credencial da paternidade da emenda de supressão ao parágrafo único do artigo quarto do mencionado projeto, alertou convenientemente aos senhores vereadores, acêrca da questão. Os edís Durval Sproesser e Álvaro Simões, ocuparam a tribuna da Câmara, para chamar as atenções dêsse pormenor, cujos apêlos não foram considerados no resultado final da votação. Daí, o julgarmos que maior é o êrro referido.

Nessas condições, seria justo que a edilidade mariliense, na sua primeira reunião ordinária do próximo ano, votasse uma lei que revogasse o disposto no preceito referido, corrigindo assim, o lapso patente óra apontado.

Nenhum desdouro existe em errar. Má repercussão causa a realização de um êrro consciente.

Extraído do Correio de Marília de 19 de dezembro de 1958

sábado, 18 de dezembro de 2010

Motivo que dá tratos à bolas (18 de dezembro de 1958)

Escrevemos ontem (17/8/1958), sôbre a questão do congelamento dos preços, óra preconizada pelo sr. Presidente da República. Finalizamos nosso artiguete, citando um dito humorístico de um jornalista colega, que, a julgar pelas medidas propaladas, os grandes comerciantes, teriam mesmo, em face ao congelamento, que “se conformar com um lucro de 300% e nem um tostão a mais”.

De início, poderia tal afirmativa parecer uma exageração sem precedentes, ou confu(n)dir-se simplesmente com uma ironia à uma classe. Entretanto, se analisarmos um único fato (dos muitos que existem), constataremos que, no fundo, a sátira em apreço tem lá a sua razão de ser.

O afirmar-se que, com o congelamento dos preços, os lucros seriam fatalmente reduzidos a apenas 300% para alguns comerciantes, poderá encontrar alguma ressonância dentro do cabível, se atentarmos para um particular que se verifica à miude, não só em Marília, como também em Niterói, na Conchinchina e mesmo na Gomarábica. É a questão das “grandes baixas” e “formidáveis liquidações” (“liquidações” que precisam ser liquidadas)!

Vê-se constantemente, no comércio atual, especialmente no chamado “moderno”, o fato de um artigo que vinha sendo vendido por um preço “x” e que, em uma ocasião posterior, é remarcado para o preço “y”, isto é, com uma baixa, assim “de cara”, de até 50%!

Exemplificando: O comerciante Balduino vende um produto, durante o ano todo (e já há anos), pelo preco de Cr$ 2.998,00 (o que significa 3 mil cruzeiros). Um dia, assim sem mais nem menos, êsse mesmo produto, sem mudar de posição ou de vitrina, surge com um pomposo cartaz onde se lê: “De Cr$ 2.998,00 por Cr$ 2.049,00”.

Óra, não é preciso ser-se muito inteligente, para deduzir logo, que a citada mercadoria, “baixada” para Cr$ 2.049,00, está oferecendo ao comerciante a natural margem de lucros. E, se por Cr$ 2.049,00 já dá a compensação desejada, porque nenhum comerciante trabalha mesmo de graça (uma vez que nenhum comerciante é relógio), não é difícil concluir, que o lucro seria extraordinário, quando vendida a mesma mercadoria ao preço anterior. Quer dizer, que, por exemplo, a mercadoria vendida depois de “remarcada” por Cr$ 2.049,00, estará dando, no mínimo, 550 a 600 cruzeiros de lucro, correspondendo aos 30% (será que todos se conformam com essa “insignificante” margem?); deduz-se então, facilmente, que antes do “remarque”, o lucro cogitado seria de 160 a 185%, sem outra apelação.

Não é um motivo que dá tratos à bola? Não é um fato que faz com que o consumidor desconfie de certas “baixas de preços” que campeiam por aí afóra, em todos os rincões do país?

Isso até nos faz lembrar a anedota seguinte:

O caixeiro de uma casa de roupas e artigos para homens, explicou ao gerente que as gravatas (“italianas”, fabricadas em São Caetano), pelo preço de Cr$ 90,00 não estavam “saindo”, porque todos os clientes achavam-nas demasiado caras. Foi então que o gerente, velha “raposa” no comércio paulistano, sem se agastar e sem muito pensar, assim instruiu o banconista:

- Ponha essas gravatas na “vitrine de liquidação”, com a seguinte legenda: “De 210 por 115 cruzeiros”. Verá como não sobra uma!

Extraído do Correio de Marília de 18 de dezembro de 1958

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Congelamento de preços (17 de dezembro de 1958)

O efeito da bomba que se esperava, no tocante ao congelamento de preços, aquí em Marília, até agora, não teve siquer o espoucar de um traque.

Se os comerciantes estão atarantados e incertos, como não estará o próprio povo, com respeito a esse problema, que, por antecipação, se apresentava como um paliativo esperançoso para a atenuação das agruras das bolsas póbres?

O certo é que o mariliense, até hoje, não sabe explicar o que é o congelamento de preços como tão-pouco não é capaz de dizer se o mesmo traz benefícios ou malefícios. Em nossa cidade, na prática, nenhuma medida existe em pról da economia popular nesse sentido. Alguns comerciantes, receiosos de quaisquer aborrecimentos, estão vendendo determinadas mercadorias sem aqueles saltos de preços fantásticos, por conta própria e baseados nas cotações divulgadas para a Capital.

Não temos nenhuma COMAP organizada (e isso há vários anos). Buscamos conhecer os membros do organismo próprio, aos quais estivesse aféta a responsabilidade dessa fiscalização e das providências necessárias, tão rijamente apregoadas pelo sr. Presidente da República e nada conseguimos apurar.

A situação, ao contrário, tende a piorar. Os pequenos comerciantes, especialmente aqueles que estão lutando com capital ínfimo, estão desesperados, alguns pensando até em mudança de ramo ou de profissão. E justificam a ameaça ou o pensamento, alegando que certas mercadorias, na cidade, são vendidas pelos atacadistas, aos preços constantes na lista oficial do congelamento imperante em São Paulo (que refere-se aos consumidores). Óra, é justo que se esses pequenos comerciantes adquirirem mercadorias aos preços tabelados pelo congelamento (que em Marília até agora não passa de uma utopia), não poderão vende-los, senão por preço superior, uma vez que terão que considerar os acréscimos naturais de impostos, carretos, lucros normais, etc.. E qual o comerciante sensato que irá adquirir uma mercadoria por um preço tabelado em seu této, para revende-la expedindo um(a) Nota Fiscal com uma cotação acima da tabela? Só um idiota, é claro.

Daí o perceber-se que se não se tomarem medidas esclarecedoras e providenciais com respeito ao fato, estaremos nós, os marilienses, sacrificados.

Por outro lado, o congelamento parcial, conforme foi declarado, é como um nocivo analgésico: engana que cura apenas, quando vicia e traz consequências piores. Como se isso não bastasse, verificamos nos últimos dias, um movimento altista incrível, no setor dos preços das mercadorias não tabeladas, especialmente no que diz respeito às latarias. Quer dizer, grandes comerciantes estão tirando uma “casquinha” por outro lado, compensando a diminuição dos lucros advindos dos produtos cotados na tabela do congelamento que em Marília ainda é um mito.

Em face disso, em vista da pusilanimidade da COMAP ou de outro organismo que se desincumba da missão conforme aguarda esperançoso o povo sacrificado, só mesmo parodiando uma oportuna piada de um jornalista amigo:

- Com esse negócio de congelamento os grandes comerciantes terão mesmo que se conformarem com um lucro de 300% e nem um tostão a mais!

Extraído do Correio de Marília de 17 de dezembro de 1958

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Ave, Araçatuba! (16 de dezembro de 1958)

Com inusitado orgulho, estão os araçatubenses comemorando o evento feliz, do transcurso do primeiro cinquentenário de sua belíssima cidade.

Só os que de perto conhecem a “Capital da Noroeste” e seu grande, bom e laborioso povo, melhormente poderão aquilatar as razões da natural e incontida euforia, que, tão justamente domina os habitantes da majestosa “urbe” noroestina.

Os que tiveram a felicidade de privar com aquela gente amiga, desfrutando o bem estar da família araçatubense, partilham também, embora à distância, da alegria dêsse acontecimento tão grato e tão auspicioso.

Nós, que, por excelência, somos apologistas daquilo que se convencionou chamar de “bairrismo” e que isto entendemos não como um pejorativo, mas sim como um sentimento natural de patriotismo e amor a um torrão, congratulamo-nos na oportunidade dessa efeméride, com o grande povo araçatubense.

Araçatuba, completando cinquenta anos de independência municipal, pode ostentar com orgulho uma folha de realizações que ultrapassa sua idade, assim como o cidadão vivido, que, embora apresente 30 anos em seu registro de nascimento, é capaz de defender realizações e experiências mais avantajadas e mais sólidas e eficazes do que o indivíduo de 60 pusilânimes primaveras.

Cem mil almas aproximadamente, representam a população da linda cidade. Ruas inteiramente asfaltadas, dentro de um traçado urbanístico original e “sui generis”, com “arranha-céus” imponentes que se lançam ao éter e sintetizam o progresso de um centro e uma gente, fervilhando o próprio dinamismo do Estado líder da Federação, identificam Araçatuba, como uma das mais ricas, exuberantes e prosperas cidades da “interlândia” paulista. Vida trepidante, onde o germe do modernismo não encontra anti-biótico que o combata, alentado e alimentado pelo calor progressista de sua própria gente, Araçatuba torna-se digna de admiração e respeito. Região invejável no campo pecuário, tem projeção definitiva dentro do setor agrícola em geral e distingue-se facilmente no parque manufatureiro do interior.

Sua projeção dentro do prisma social, literário e assistencial, é qualquer coisa de admirável, impondo um respeito natural, como decorrência de sua própria e irretorquível importância.

Gente boa, comunicativa, amiga, a gente de Araçatuba, onde o cidadão mal chegado torna-se também amigo daquêle povo bondoso e digno.

Na oportunidade dêste registro, permitimo-nos traduzir os sentimentos de todos os marilienses, para enviar daqui, através destas colunas, nosso abraço sincero a Araçatuba e seu grande povo, pelo ensejo dêsse magnífico evento.

Ave, Araçatuba!

Extraído do Correio de Marília de 16 de dezembro de 1958

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O Natal e os órfãos da Filantrópica (14 de dezembro de 1958)

Aproxima-se o dia de Natal, a festa máxima da Cristandade. Com ele, a alegria natural pelo evento e a esperança verde de dias melhores para o ano porvindouro.

Toda gente procura bem interpretar o significado dessa data majestosa e por todos os lares, desde o mais humilde ao mais abastado, tenta-se emprestar à efeméride um valor invulgar e uma tradução.

Felizes os que, embóra póbres, possam passar tão magnífica data reunidos com suas famílias, ausentes de doenças e aborrecimentos que destas resultam.

Há os que, entretanto, não possuem o calor de um lar de sua propriedade natural, não contam com o aconchego daquele calor paterno e materno, embora vivam num ambiente condigno e humanitário. Várias facções se incluem nesse particular, mas as que mais sofrem e as que mais sentem essas agruras, são, por certo, as criancinhas com a mente em formação. Pensamentos infantís não estão bem aparelhados para receber o impacto desses resvaloes da própria desdita, desdita atenuada ou diminuída pelo carinho e amor do próximo, conforme é o caso das crianças que se abrigam sob os tétos do Lar da Criança e da Associação Filantrópica.

Jamais faltou, entre nós, mercê de Deus, pessoas que não cooperassem com as piedosas missões referidas. Entretanto, a Filantrópica, como todos os anos, faz um apêlo mais profundo aos marilienses em geral, no sentido de que todas as famílias que podem, vão buscar na “chácara dos órfãos”, uma ou duas crianças, para que estas passem o Dia da Cristandade num Lar verdadeiro, tenham o convívio de uma família, sentando-se à mesa dentre poucas pessoas, convivendo, enfim, num ambiente diferente daqueles que, embora completo, habitam durante o ano inteiro.

Por nosso intermédio, os dirigentes da Filantrópica esperam, como tem sucedido nos anos anteriores, que famílias marilienses proporcionem nas medidas possíveis, essa felicidade aos meninos alí internados. Portanto, os que pretenderem proporcionar aos meninos da Filantrópica uma passagem do dia de Natal junto aos seus familiares, que se comuniquem com a direção da entidade, apontando o número de menores que poderão ir buscar. Essas medidas de comunicação prévia, muito auxiliarão os dirigentes do mencionado organismo, que poderão assim, em tempo hábil, proceder a distribuição normal dos meninos e ao mesmo tempo controlar a questão da alimentação, sem o risco de preparar comida de mais ou não como tem acontecido no passado, quando poucos meninos deixaram de ser procurados no Natal, na mesma ocasião em que a cosinha da Filantrópica, sem base certa, preparara a alimentação para a totalidade.

Aquí fica, portanto, o apêlo da Filantrópica, que, em síntese, traduz também o desejo e a alegria dos garotinhos órfãos ou desamparados que sob aquele této se encontram recolhidos.

Extraído do Correio de Marília de 14 de dezembro de 1958

domingo, 12 de dezembro de 2010

Mais um Posto de Abastecimento do SESI (12 de dezembro de 1958)

Na última reunião da Delegacia Regional do CIESP, por ocasião da indicação de nome para figurarem como membros da COMAP, veio à baila uma questão de sua importância para a classe industriaria mariliense: à idéia de empenhos junto ao Serviço Social da Indústria, no sentido de dotar Marília de mais um Pôsto de Abastecimento daquêle organismo.

Nossa cidade já conta com um dêsses estabelecimentos, que incontáveis préstimos e facilidades oferece aos contribuintes do IAPI. Ali, em virtude da isenção de determinadas taxas e impostos, gêneros de primeira necessidade são adquiridos pela grande e laboriosa classe, por preços inferiores aos do mercado normal. Significa isso, numa ocasião em que tantas queixas existem contra os IAPS, no que tange a falta de amparo condigno aos contribuintes interioranos, uma forma de retribuir pelo menos em parte direitos adquiridos.

Nossa cidade, embora não seja “velha”, não deixa de apresentar a condição de um grande centro. Suas dimensões são gigantescas e a “urbe” se espalha num apreciável raio de quilômetros quadrados de número superior a inúmeras outras importantes comunas interioranas. Uma única casa dêsse gênero, lógico é, não pode prestar serviços a todos os industriários, em virtude de sua localização que só pode servir de fato a uma parte da cidade. Nessas condições, urgente se faz a criação e instalação de outro Pôsto, localizado em ponto divergente e estratégico, de maneiras a oferecer facilidades aos demais industriários de Marília. O problema, portanto, é localizar duas (no mínimo) casas dêsse gênero, em pontos diferentes que atendam dentro do máximo possível, a classe que ali se beneficia por direito formal.

A idéia, conforme estamos vendo, é ótima e deve merecer as atenções de quem de direito. Igualmente, os empenhos da Delegacia do CIESP local e mesmo de nossa Câmara Municipal. Que se faça chegar ao conhecimento dos responsáveis pelo citado órgão, essa carência de Marília. E que no pedido, não conste apenas isso, como igualmente se reivindique para nossa cidade, especialmente para os industriários, um Ambulatório do IAPI, organismo que Marília reclama de há muito e que até agora não foi instalado, apesar do grande número de contribuintes locais ao citado Instituto e apesar ainda da necessidade imprescindível que tal fato apresenta entre nós, habitantes de uma cidade moderna, dinâmica e progressista.

Já dissemos, repetidas vezes, que as leis que criaram os diversos IAPS são, em seu verdadeiro espírito, coisa muito boa; entretanto, as suas execuções, sob diversos aspectos, desde o nascedouro estão deixando muito a desejar.

Como se tratam de assuntos que devem merecer melhor atenção de quem de direito, aqui fica nosso apêlo, que, esperamos, deverá ser secundado por aquêles que podem, se não interferir, pelo menos reivindicar êsses melhoramentos para a classe dos industriários locais.

Alguém nos ajudará?

Extraído do Correio de Marília de 12 de dezembro de 1958

sábado, 11 de dezembro de 2010

A Segunda Vara Judiciária (11 de dezembro de 1958)

Não data de hoje os esforços de Marília, através de seu povo e seus diversos órgãos representativos e poderes constituídos, além da imprensa, no sentido de serem desdobrados os serviços forenses da Comarca, com a criação de mais uma Vara Judiciária.

O assunto, prenhe da mais integral justiça e sem nenhuma aparência ou realidade de pretensão pura e simples, mereceu atenções especiais de nossa edilidade, da Sub-Secção local da Ordem dos Advogados do Brasil e também de nossa parte (Jubileu de Prata da Comarca, artigo publicado em 16 de setembro de 1958).

Muitos empenhos foram feitos nesse sentido, com justificativas das mais abalizadas e com a apresentação de provas as mais satisfatórias possíveis. O número de processos, de diversas faces, a serem apreciados e julgados por um único magistrado em Marília, demandam esforços verdadeiramente sobre-humanos, tornando impossível a uma só pessoa, por maior boa vontade que possua e por mais despreendida que seja, sem desempenho completo e rápido. Mesmo assim, mercê do espírito de abnegação do Juiz de Direito da Comarca, que, por força legal acumula também os cargos de Juiz de Menores e Juiz Eleitoral, a situação a esse respeito caminha de modo aceitavelmente satisfatório. Entretanto, se desafogados esses serviços, sobrecarregar-se-ia menos um único Juiz, seriam criados mais cartórios de oficio e Marília conquistaria, nesse setor, sua verdadeira posição, principalmente tendo-se em conta que incontáveis cidades de menor movimento forense contam com mais de uma Vara Judiciária, atendendo perfeitamente os reclamos de suas próprias exigências e necessidades.

Séte anos duram os trabalhos desse porte, em que os marilienses não esmoreceram jamais, uma vez que das mais necessárias são as providências desse desdobramento.

A idéia e a luta, que assemelhava apresentar aquilo que se chama “caveira de burro”, parece que agora tende a chegar a um bom têrmo, com a manifestação favorável do Egrégio Tribunal de Justiça, que, vindo de encontro aos marilienses e dando uma demonstração inequívoca de competência de julgamento das necessidades à sí afétas, enviou mensagem à Assembléia Legislativa, encarecendo a urgência Marília poder contar com mais uma Vara Judiciária e no mínimo, com mais um cartório de ofícios.

Nós, que participamos ativamente dessa luta desde o ano de 1951, nos sentimos satisfeitos pelo andamento esperançoso que a mesma acaba agora de apresentar, dando-nos a certeza de que, a digna Assembléia Legislativa, considerando o pedido constante da Mensagem em apreço, bem saberá interpretar as necessidades de Marília, vindo ao encontro dessa luta de todos os marilienses.

Está, portanto, em vias de concretização esse nobre ideal, cuja vida representa necessidade indiscutível para todos nós.

Oxalá a Assembléia pense como pensam os marilienses e se digne aprovar e votar a lei que disporá sobre o desdobramento dos serviços forenses em nossa dinâmica Comarca de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 11 de dezembro de 1958

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ser póbre é ser malabarista (6 de dezembro de 1958)

Em conversa conosco, mostrava-se um amigo, admirado de que ele, com apenas dois filhos e ganhando relativamente bem, não conseguiu nada mais fazer do que tratar a família com palpável dificuldade, enquanto outras pessoas, com família mais numerosa e ganhando menos, conseguem até dar-se ao luxo de possuir casa própria.

De fato, têm razão, apenas que não se dignou encarar as coisas como elas realmente são. Por exemplo, a outra pessoa citada pelo nosso amigo, embora “dando-se ao luxo de possuir casa própria”, leva, forçosamente a vida de maneira diversa, não vivendo, mas apenas vegetando. Um mês paga a farmácia e não paga o armazém. Outro, paga o armazém e não paga o açougue. No outro, paga o açougue e não paga a quitanda. E assim por diante. Os filhos vivem mal vestidos e sub-alimentados.

Milagre ninguém faz, a não ser Deus. Os filhos da “outra pessoa” não podem usar calçados, “embora morem em casa própria”, não vão ao cinema e nada mais estudam do que o elementar curso primário.

Só assim se é possível, portanto, explicar o “fenômeno” que tanto impressionou nosso interlocutor. Isto porque, ser póbre, hoje em dia, é ser malabarista e malabarista de primeira categoria. Senão, vejamos:

Supondo que uma família com três filhos menores ganhe, não o salário mínimo, mas seis mil cruzeiros, como será distribuída éssa importância, ante os gastos naturais e forçados(?) Numa “ginástica” dos diabos, o póbre homem deverá pagar no mínimo 2 mil cruzeiros por uma “tapera” de táboas, num bairro distante da cidade. O ordenado já ficou reduzido a 4 mil cruzeiros. Óra, uma família de três filhos (5 pessoas ao todo), come com cautela (e sem desperdício), 15 quilos de arroz, 5 de feijão, 2 latas de manteiga (com miséria, neste caso), cebolas, café, etc, etc., etc.. Isto tudo, comprando só o mínimo e escolhendo o pior artigo pelo preço mais barato possível, custa aproximadamente 3 mil cruzeiros (por baixo, bem entendido). Já sobrará apenas mil cruzeiros. Leite, lenha, luz, água, não se contando pequenas extravagâncias normais na vida de todo o ser humano, não se incluindo taxas escolares, cadernos, uniformes, etc., é possível viver um cidadão nessas condições?

E observe-se que fizemos a hipótese da pessoa ganhar seis mil cruzeiros, quantia éssa que poucos bons e antigos empregados de nosso comércio ou indústria conseguem perceber!

Isso, sem contar-se com um simples xaropinho para tosse, que custa 80 cruzeiros. E os calçados(?) E as roupas? E a necessidade de adquirir, vez por outra uma coisa rara e extraordinária, como duas castanhas agora para o Natal? E se o homem fumar?

Também isso não é nada. O pior, o pior mesmo, é quando o póbre fica doente. Serviços médicos custam fortunas. Medicamentos, idem. Uma consulta fica em 300 cruzeiros, quando não fica em quinhentos e quando não sai até em mil cruzeiros, dependendo do volume da conta em face do número de visitas. Serviços dentários, idem. Uma chapa de Raio X já passa de meio “conto de réis”, quantia que um operário trabalha quasi uma semana para ganhar. E a cirurgia, quando é preciso? Póbre póde ficar doente? Uma operação, conforme o caso, fica até em 20 ou 30 mil cruzeiros, importância que muita gente não ganha em seis meses ou mais de trabalho. Os serviços hospitalares também são caríssimos.

Por aí, verá nosso amigo, que tudo está certo (infelizmente), para os póbres. Muitos médicos falam em 5, 10, 20 contos para o doente, assim tão calmamente, que o doente pensa que os mesmos estão brincando! Hoje até a morte está cara, até a morte subiu de preço. Em São Paulo, por exemplo, o humorismo de algum já declarou: “De agora em diante acabou o perigo de herdeiros matarem-se entre sí por causa da herança; não haverá mais herança; acabará com o próprio enterro”.

Resta ainda um consôlo ao póbre: que o tal de congelamento tenha vida longa e que de fato o beneficie um pouco, com o aumento do salário mínimo... porque fazer malabarismo também cansa!

Extraído do Correio de Marília de 6 de dezembro de 1958

domingo, 5 de dezembro de 2010

Brinquedos para as crianças pobres (5 de dezembro de 1958)

Aproxima-se o Natal, data máxima da Cristandade. Ao par das festividades naturais e tradicionais do grande dia, comum é o premiar-se as crianças com brinquedos. O costume generalizou-se e não há criança que não alimente uma esperança, por mais leve que seja, de ser aquinhoada com um presentinho qualquer.

Pais de família, mesmo pobre, realizam esforços por vezes ingentes e sacrificiosos, para fazer com que seus filhos não fiquem em condições de inferioridade ante os filhos dos vizinhos, para que não cresçam com complexos ou para que não apresentem recalques ou afetações. É natural, pois, tal sacrifício dos pais de família.

Entretanto, muitas crianças não poderão ser beneficiadas com essas providências. Principalmente as órfãs ou desamparadas.

Com respeito a êsse fato, êste diário inicia hoje, fundamentada na compreensão do público mariliense, uma campanha de aparência que poderá até ser interpretada como pueril, mas que não significará oneração para ninguém e que tem por objetivo único, oferecer brinquedos aos meninos da Filantrópica e às meninas do Lar das Crianças.

Como dissemos, trata-se de uma campanha que não acarretará dispensa de dinheiro aos seus colaboradores, aos marilienses que da mesma quiserem acercar-se. Consiste no seguinte:

Todas as crianças que possuam em suas casas, brinquedos já considerados velhos (bonecas, carrinhos, etc.), e que deverão receber, no próximo Natal, à exemplo dos anos anteriores, a visita de Papai Noel, que nos dispensem os objetos em desuso (ou que serão substituídos), para que possamos nós, em nome da própria petizada mariliense, distribuí-los aos meninos que se abrigam na Associação Filantrópica e às meninas que são amparadas pelo Lar da Criança.

Como vêem, fácil será colaborar nessa campanha. Dificilmente haverá um lar onde existam crianças, que não se encontre um brinquedo velho, porém prestável. Pequeno será o sacrifício de desfazer-se de um objeto nessas condições, em favor daquêles que não teriam outras chances de conseguir também um presentezinho próprio de sua idade e próprio de tão majestosa data como o Dia de Natal.

Portanto, nosso apêlo aos garotos marilienses, às meninas de Marília, para que nos tragam seus brinquedos velhos a fim de que nós o entreguemos àquêles que não podem comprar brinquedos novos. E que venham os próprios meninos e meninas até nossa redação, dando-nos o nome e endereço, para que possamos oferecer, em seus próprios nomes, os brinquedos aos órfãozinhos de nossa cidade. Não haverá nenhum motivo de vergonha, em oferecer-se um brinquedo usado a um menino ou menina que foi marcado pela desdita de não ter um lar com o calor materno e paterno; pelo contrário, haverá neste gesto, um mundo de compreensão, de amor ao próximo, de solidariedade.

É um meio fácil de remediar-se uma situação de aparência ínfima, mas que apresenta grandiosidade problemática, especialmente para os dirigentes das duas instituições referidas. Por outro lado, alegres ficarão os que receberem, da criançada mariliense, um presentinho amigo, embora usado, desde que se encontre ainda em estado aproveitável.

Lembramos aos meninos e meninas marilienses que quiserem colaborar conosco nessa campanha, que os brinquedos embora usados, deverão estar em condições utilizáveis, pois não disporemos de meios ou tempo para reconstituir brinquedos inutilizados.

Ao lançarmos êsse primeiro apêlo aos marilienses, dirigido em especial aos meninos e meninas de Marília, certos estamos de que a criançada de nossa cidade saberá, assim como os adultos, compreender e cerrar fileiras em tôrno dêsse encarecimento.

Garotos, garotas, tragam portanto à redação do “Correio de Marília”, os brinquedos usados (dos anos passados), para que êles que já alegraram a vocês, possam ainda alegrar os coraçõeszinhos de mais de duas centenas de outras crianças, que se encontram sob os tetos do Lar da Criança e da Filantrópica.

Vocês vão colaborar?

Extraído do Correio de Marília de 5 de dezembro de 1958

sábado, 4 de dezembro de 2010

Círculo de conferências (4 de dezembro de 1958)

Não há muito, dissemos através desta coluna, que urge em Marília a arregimentação de valores intelectuais, em projeção ou formação, no sentido de fundar se em nossa cidade um Círculo Cívico de Conferências.

Tal organismo, é hoje em dia imprescindível aos grandes centros e aos grandes povos. O despertar-se o gosto por assuntos diversos, com palestras, conferências e mesmo debates democráticos e esclarecedores, representa uma lacuna para os marilienses, especialmente para aqueles que alentam ou alimentam gosto pela intelectualidade.

Proporcionar às pessoas nessas condições, a oportunidade de travar conhecimento mais direto, com problemas e causas educacionais, científicas ou históricas, especialmente questões de mais importância momentânea, é uma urgência inquestionável.

Raras vezes, conforme dissemos no passado, tem tido o mariliense o ensejo de apreciar palavras de autoridades diversas em assuntos variados, que, sob o patrocínio de uma ou outra entidade, aquí tenham se apresentado.

O ponto que estamos focalizando, faz parte integrante da própria cultura de nossa gente e não sabemos como até agora ninguém lembrou de pô-lo em prática. Conforme ainda dissemos anteriormente, não fôra os esforços da Sociedade Luso-Brasileira, União dos Treze e outras entidades, dificilmente teríamos apreciado ilustres personagens falando aos marilienses, em palestras ou conferências sôbre coisas sérias e úteis.

Existem em nossa “urbe”, pessoas capazes de avivar a idéia e coloca-la rapidamente em vigência. Ilustres professores, médicos e advogados, além de diversos outros estudiosos e amantes desse ideal, poderiam unir-se em torno desse objetivo, instituindo em Marília um Círculo Cívico de Conferências e Debates, que não tivesse cor política sob nenhum pretexto, religiosa, racial ou filosófica. De início, seu funcionamento poderia operar-se exclusivamente com elementos locais (e os há muitos!); posteriormente, quando as condições facilitassem, poderiam ser convidados outros valores exponenciais de São Paulo ou outros centros interioranos.

Aquí fica a idéia, para ser aproveitada pelos intelectuais marilienses, pelo vulto que representará a sua realização e pelos efeitos benfazejos que significará, não só no âmbito de nosso município, como também perante a opinião pública de outros centros.

Fácil será aproveita-la, se houver interesse das pessoas que se encontram em condições para tal, que, conforme dissemos, existem em número bastante apreciável entre nós.

Extraído do Correio de Marília de 4 de dezembro de 1958

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Gritas sem razão (3 de dezembro de 1958)

Nosso colega Antônio Fernão de Magalhães, num de seus brilhantes artigos há pouco publicado neste jornal, fez referências à mocidade mariliense e à falta de meios de diversão ou preocupação da mesma.

Não têm razão total, os rapazes que se queixaram ao nosso prezado companheiro. Marília, de fato, é uma cidade pobre no chamado sentido de oferecimento divertivo aos seus filhos. Entretanto, considerando-se a sua idade, Marília ostenta lugar de maior projeção do que muitas de suas irmãs mais velhas e de maiores recursos.

Vejamos: a mocidade clama, porque é u’a mocidade diferente. Diversão de moço de hoje, regra geral, é excesso em qualquer sentido. Comedimento quase não existe.

Temos uma bem organizada Biblioteca Pública, só procurada em último recurso pelos estudantes, como extrema fonte de consultas. Temos uma Sociedade Luso Brasileira, com suas portas abertas, boas discos e aceitável biblioteca. Temos uma piscina regulamentar no Yara Clube. Temos bailes todos os sábados e “brincadeiras” todos os domingos. Temos diariamente meia dúzia de sessões cinematográficas (embora não satisfatórias no que diz respeito à distribuição de filmes). Temos uma Delegacia de Esportes e Educação Física, que vive a queixar-se ante o desinterêsse flagrante da mocidade mariliense, pela cultura física e recreação do corpo, alheiando-se completamente ao esporte amador. Possuímos uma esplêndida Liga Municipal de Futebol, etc..

Não sabemos o que pretendem êsses queixosos. A maioria, pouco estuda. A preocupação que apresenta é a de “passar de ano” apenas, ostentar um diploma, pouco se importando (com raras exceções) se poderá orgulhar-se ou não do título recebido.

Outro dia, presenciamos um fato interessante: o ciclo noturno do ginásio estadual foi dispensado na véspera dos exames, para proporcionar aos seus alunos dos diversos cursos, oportunidade de melhor preparo técnico e teórico com respeito às provas. Dezenas e dezenas de alunos saíram correndo do ginásio e rumaram para os cinemas. Um Comissário de Menores, assustado com a anomalia, procurou entrar em contacto com o diretor do estabelecimento, a fim de saber as razões daquela estranha afluência. Foi inteirado do fato acima e constatou que os próprios alunos, ao invés de aproveitarem a folga para o fim especifico, desvirtuaram a sua finalidade.

Antônio Fernão de Magalhães deveria, na ocasião em que os jovens lhe reclamaram acêrca de falta de divertimentos para a mocidade mariliense de hoje, deveria saber quais as pretensões dessas pessoas. Ou será que êsses moços se incluem no ról dos que como divertimento, dançar o “rock and roll”, tomar entorpecentes, roubar carros e outras coisas?

Somos capazes de apostar que os que se queixaram assim ao Antônio Fernão são filhos de “gente bem” ou então filhos de gente remediada. Filho de pobre, em geral, trabalha e estuda. E sabe discernir a situação, sabe distribuir o tempo, saber aproveitar suas folgas.

Gritas dêsse jaez, são sem razão. E não venham dizer-nos que nós já estamos velhos e não aprovamos o excesso de energia e entusiasmo da mocidade. Absolutamente. Primeiro, porque não somos velhos; segundo, porque já vivemos a vida da mocidade de hoje e em nosso tempo “as comidas” era(m) diferentes, terceiro, porque os que assim gritaram não têm razão nenhuma... ou será que além dos tópicos anteriormente apontados, esses jovens desejariam casinos, jogatinas, caberés tipo “Pigalle”?

Para muitos casos conhecidos de todos nós, não só em Marília mas em todo o Brasil e especialmente na Capital, o que faz falta, não é a diversão pretendida pelos moços, mas sim um pai tipo ditador, daqueles que sua voz em casa é respeitada e trabalho de fato... principalmente trabalho.

Extraído do Correio de Marília de 3 de dezembro de 1958

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Remodelação de valores (2 de dezembro de 1958)

Com vistas à formação da próxima Câmara de Vereadores e com o objetivo de encontrar-se um categórico substituto para o atual Prefeito Municipal, toma vulto na cidade o chamado movimento de renovação de valores.

Do povo, atingiu até os partidos políticos. Pelo que vimos e pelo que conseguimos entender, em rápidos colóquios com altos dirigentes da política local, a idéia contaminou a todos em geral. Hoje em dia, só se fala e só se pensa em aplicar uma vassourada (com licença do sr. Jânio Quadros), nos velhos políticos da cidade, para substituir o número por elementos chamados novos (em idade e em política).

Está aí uma coisa que embora tenha as suas vantagens, não deixará também de apresentar inconveniências, que o bom senso manda analisar e atentar. Se fato é que temos entre nós antigos políticos, hoje carcomidos pelos anos e cujas idéias nem sempre se amoldam aos pensamentos dos novos, ingrato será o desmerecer assim, tão flagrantemente, aqueles que já souberam emprestar um pouco de seu labor e de sua vida pública, à Marília e seu povo. Muitos dêsses homens, se não conseguiram atingir o objetivo colimado, pelo menos, acreditamos, alimentaram ideais são e lícitos, em beneficio de nosso próprio povo. Principalmente, tendo-se em conta que todos os políticos “velhos”, aqui residem há anos, e, melhor do que a gente “nova”, conhecem os problemas gerais.

A nova geração, por sí só, não poderá de uma hora para outra, assumir a Prefeitura e a Câmara, desprezando os conselhos e as experiências dos “velhos”, a menos que aconteça um milagre. Ademais, pelas auscultações que conseguimos captar, os novos políticos que “entrarão na dança”, desta vez, nada mais serão do que discípulos e empregados (o têrmo é rude, mas é real) dos antigos políticos; em resumo, mudar-se-á apenas a fachada do estabelecimento, cujo interior continuará o mesmo.

Então, que não se engane o povo e que não se enganem os próprios políticos – tantos os “velhos” como os “novos”.

Remodelação de valores, conforme está proclamada e divulgada faustosamente, não pode ter meio têrmo; ou é remodelação ou é apenas um enxerto exterior, uma ostentação, de mentira, porque serão apresentados ao público, como nova mercadoria na prateleira de uma casa comercial, apenas nomes que obedecerão diretrizes, normas e ações traçadas pelos partidos e ditadas pelos “velhos” políticos de nossa terra.

E nem poderia ser de outra forma; pelo menos para nós, que não costumamos dormir “com os olhos dos outros”.

Claro está que a adição do chamado “sangue novo” numa legenda partidária sempre causa revoluções, sempre modifica a questão. Isto, entretanto, é quase impraticável. Vimos mesmo na legislatura que expirará no próximo ano (e aqui mesmo em Marília), que o chamado “sangue novo” foi um impecilho à rota política de algumas legendas e que “casos” sem conta foram criados dentro de u’a mesma facção política.

Por aí poderá ver-se que estamos falando com base. E vamos mais adiante ainda, dizendo que os novos dos “novos” óra focalizados pelos dirigentes políticos, obedeceram, regra geral, sugestões e indicações dos “velhos”.

O livro será o mesmo, apenas a encadernação é que variará.

Só creremos na propalada remodelação, no dia em que os “velhos” políticos estiverem, em definitivo, “fóra do páreo” e fóra das direções políticas da cidade. Isso não sucederá, temos a certeza. E se acontecesse, as consequências teriam possibilidades mínimas de êxito total.

Nós somos pela remodelação de valores; mas não do jeito que se está processando e tende a continuar. Não que sejamos contra os “velhos”, porque sempre admiramos e respeitamos a sua experiência, com exceção quando descambam para a politicagem e a caturrice; mas não acreditamos e não temos muita certeza de que se a remodelação se desse como deveria ser, pudesse disso advir o resultado esperado.

De qualquer maneira, o certo será dizer-se que em Marília se cogita e se trabalha pela “inclusão” de “gente nova” na política local, mas nunca dizer-se que se trata de remodelação de valores, porque isso é embuste. Pelo menos, assim pensamos, a menos que consigam provar-mos o contrário.

Extraído do Correio de Marília de 2 de dezembro de 1958