sábado, 23 de junho de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (16)


Era região nova, em desbravamento. Carente de recursos. Faltava de tudo, pois era apenas um clarão aberto na mata virgem. Alí, uma dezena de famílias, não mais. Todas provindas do sul, para tentar a sorte no novo Eldorado, a nova Terra da Promissão.

Choças de pau-a-pique, ou barrote, como se dizia na ocasião. Cobertas com sapé. Água, de um riacho próximo. Luz de candeeiro à querosene. Criação, no começo, nenhuma.

Com o passar do tempo, as famílias mais providentes, foram construindo pequenas hortas. O percurso até o patrimônio mais próximo era longo, coisa de umas três léguas, ou 18 quilômetros.

Mesmo assim, sabiam aquelas famílias que o negócio oferecia perspectivas de futuro. As terras foram cedidas por lei estadual, para usufruto completo. Sem financiamento, mas com garantia e quem permanecesse alí por dez anos consecutivos, receberia documento de posse definitiva, com base em lei de usucapião.

A fórmula era plantar o que comer primeiro e em seguida cuidar da lavoura cafeeira e outras.

E assim foi sendo feito. Um mês depois já existiam plantações domiciliares de feijão e arroz, milho e algumas verduras e legumes.

Com o passar do tempo, começaram a aparecer as criações. Alguns trouxeram algumas galinhas já chocas do patrimônio e algumas dúzias de ovos. E foram surgindo as primeiras espécies de galináceos.

Combinaram todos em fazer mutirões, para conseguir mais rápido o desenvolvimento do povoado. Acertaram uma espécie de sociedade cooperativa e conseguiram da produção separar uma pequena percentagem. Com o produto puderam alugar uma carroça com animal, de um sitiante próximo. Assim, domingo sim, domingo não, lotavam a carroça dos produtos já separados, que iam vender na cidade. O produto da venda dava para pagar a locação da carroça e sobrava algo. Essa sobra era depositada numa caderneta da caixa econômica, em nome da sociedade.

Um ano depois, a vida já estava mais ou menos delineada. Todos já estavam relativamente organizados, no sentido da própria subsistência. Havia porcos engordando para o consumo, galinhas e cereais para o uso. As famílias mais atiradas já tinham seus próprios poços e isso facilitava a obtenção de água, para consumo e limpeza e para a lavagem de roupa. Decidiram com o dinheiro acumulado comprar uma carroça e um burro. Seria patrimônio da comunidade e seu uso seria de todos, de forma equânime.

Três anos após a chegada daquelas famílias, o lugarejo já tinha um aspecto de salutar ordem e destacável progresso. Pomares já despontavam, gado mugia nos pastos, flores ornamentavam as dianteiras das casas, crianças brincavam à frente das residências, que já não mais eram as primitivas palhoças.

Tudo ia muito bem, até que um dia aconteceu o inesperado: caiu doente o seu Zacarias, pai do Januário. Zacarias era o líder da comunidade. Ponderado, criterioso, sempre tinha excelentes idéias, além de ser uma espécie de conselheiro de todos.

Tempo passando e o mal se agravando.

Todos os recursos disponíveis, como chás, benzimentos, garrafadas e simpatias foram em vão. O velho piorava a cada dia.

Médico alí não existia. Nem farmacêutico. Recorreram a um curador de um sitio distante, que só chegou ao local dois dias depois, sem ter feito nada de positivo.

E o que tinha que acontecer, acabou acontecendo: morreu o velho Zacarias. Foi ao anoitecer de um domingo. Era preciso mandar fazer o caixão e isso só seria possível no dia imediato, no patrimônio distante. Ao amanhecer a segunda-feira, quatro voluntários foram tratar do caixão. Lá não fôra possível, porque não havia nenhum carpinteiro, nem marceneiro e nem madeira aparelhada. Foram a outro lugarejo mais distante e só chegaram por volta do meio-dia.

Conseguiram, mas regressaram tarde e só chegaram à comunidade já escuro. Fazer o enterro à noite seria impossível, porisso o corpo precisou ficar sem sepultura mais uma noite.

No dia seguinte, bem cedinho, saiu o enterro, à pé, carregado pelos amigos e antigos companheiros, só chegando bem tarde ao patrimônio onde havia cemitério.

Levaram o caixão para a Igreja para o padre benzer.

O sacerdote pediu que fosse aberto o caixão. Ponderaram que o corpo estava com mau cheiro, mas o padre exigiu, que assim a bênção seria completa. Fizeram. Quase ninguém aguentou. O padre benzeu, fecharam a tampa do caixão e saíram carregando o esquife às pressas.

O padre foi até a porta da Igreja e quando o cortejo se distanciava, não aguentou, cuspiu, assoou o nariz e resmungou:

- Vá feder na casa do capeta!

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 19/8/1988

domingo, 17 de junho de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (15)


Verdade. Antigamente, ou no entranho – como diziam nossos avós – tudo era diferente. Até os animais falavam. Sim, os animais falavam.
Seo Porfiro tinha uma fazendola, que herdara do sogro, um bom lusitano, que além de deixar-lhe toda a propriedade e um montão de dinheiro, legara-lhe a Beatriz, filha única, uma portuguesa de Traz os Montes, muito bonita e prendada.

Porfiro e Beatriz eram casados já mais de 8 anos, mas não tinham nenhum filho e esse fenômeno preocupava muito ao Porfiro que sentia o arrepio de medo do futuro, quando ele e a mulher viesse a falecer, sem ter um herdeiro legítimo, para legar-lhe os bens.

Por essa razão, Porfiro e Beatriz resolveram adotar um filho e a feliz escolha recaiu sobre um garotinho que eles mandaram buscar numa cidadezinha no interior de Minas Gerais. O garoto não sabia que era ilegítimo, pois, além de ter sido registrado com o nome original dos pais adotivos, ninguém lhe contara e nem contaria nada.

O bastardo estava já com cerca de 18 anos, havia estudado regularmente e o pais se preparava para mandá-lo estudar em Coimbra, trazendo de lá um honroso diploma de bacharel em ciências jurídicas.

Mas, voltando à pingela da ponte, os animais falavam.

Às vezes Porfiro ficava tempão ouvindo as conversas dos bichos. Um dia o cachorro Duque discutia com o burro Brioso e o Duque sacou:

- Você é burro, tem que ser burro mesmo. Tem que puxar carroça para servir o dono. Sua sina é morrer burro.

Mas o brioso nem se agastou e com o vozeirão de um burro velho e experimentado, retrucou:

- Sim, eu sei que sou burro e sinto até orgulho disso. Trabalho, sou bem tratado e bem alimentado e tenho a noite livre para descansar. Além disso, nos domingos, feriados e dias-santos, fico folgado, enquanto você, que é cachorro e que de cachorro não passa, tem que guardar o dono, guardar a casa, latir a noite inteira, catar pulgas e ainda fuçar restos de lixo e comer sobra que os patrões jogam...

O Duque enfesou e ameaçou agredir ao Brioso, mas o Porfiro que estava próximo, aparteou, dizendo:
- Chega de conversa mole. Cada um é o que é e pronto. Vão tratar de suas vidas, vão...

Um dia chegou à fazendola, a Aparecida Maria, sobrinha da mulher de Porfiro, que residia e estudava na Capital. Raramente ela vinha ao interior e quando o fazia recebia um tratamento muito especial por parte dos tios e também do priminho, o Manuel Joaquim – que nem a Cida sabia que era adotivo.

Aparecida Maria andava pelas imediações e conversava com o cachorro Duque, com o burro Brioso, com as vacas leiteiras e com as cabras e os porcos. Batia longos papos com os animais, contava casos da cidade e se informava sobre a vida dos irracionais alí na fazendola do tio Porfiro.

Ela gostava dos animais e os animais também gostavam muito dela, pois era uma moça educada e de fino trato, que tinha um bom papo para qualquer pessoa ou animal.

Uma noite, ela disse ao tio que queria aprender a ordenhar uma vaca. Como o serviço de ordenha era feito bem cedinho pelo retireiro Oscar, o tio aconselhou que ela tirasse o leite depois que levantasse e tomasse café. Para isso, iria dizer ao Oscar deixasse a Mimosa sem ordenha. A Mimosa era uma vaca muito mansa e compreensiva e a menina iria se dar bem com ela.

Porfiro explicou como se fazia a peia, isto é, o amarrio das patas do animal, durante a operação da ordenha. E os detalhes outros, como o banquinho para sentar, o balde para apanhar leite, etc.

Aparecida Maria chegou ao curral por volta das nove horas. Oscar havia deixado não só a Mimosa, mas também outras rezes, para não entediar a vaca a ser ordenhada, se ficasse sozinha presa.

Feliz e cantando, Cida chegou, peiou o animal, ajeitou-se toda, alisou a pela e bateu carinhosamente na barriga da rês, dizendo com carinho:

- Mimosa, você vai ter uma surpresa... eu nunca tirei leite...

E a Mimosa respondeu, então:

- Surpresa vai ter você... eu não sou a Mimosa... eu sou o touro...

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 19/8/1988

domingo, 10 de junho de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (14)



A vidinha por alí era sempre a mesma. Apesar de monótona não era cansativa. Pelo contrário, seus acontecimentos corriqueiros eram sempre aguardados com ansiedade.

Especialmente aos sábados, pois naquela ocasião na lavoura, com exceção das épocas das colheitas, todos trabalhavam na roça até a hora do almoço. Depois só retornariam ao labor agrícola na manhã da segunda-feira seguinte.

Às tardes, os encontros de conhecidos e amigos eram inevitáveis no armazém do João Português. O campo de bocha ficava lotado e precisava até esperar na fila, para conseguir jogar uma boa partida ou participar de um “bate-fundo”.

O campo era sombreado por duas fileiras laterais de bonitos bambuzais e os bancos de madeira, fixos ao longo dos dois lados da pista de jogo, constituíam excelente convite para um descanso e longos bate-papos.

O João Português tinha dois filhos, que ajudavam no balcão e faziam as vezes de garçons. Para não fugir à regra, um dos garotos se chamava Joaquim e o outro, Manuel.

- Manuel, manda uma pinga aquí.

- Ó Joaquim, traz uma cerveja e um maço de cigarro Castelões.

E as horas passando, as duplas, os trios ou os quartetos, sendo substituídos ou revezando-se no campo. Gente ia ali, não jogava bocha. Ficava sentada, apreciando os “pontos”, os “tiros”, as “puxadas” dos jogadores, os protestos dos que erravam as jogadas e os sorrisos dos que acertavam os objetivos.

As conversas eram variadas, improvisadas, saltitantes qual o milho pipoca virando no avesso na panela.

Tudo em harmonia, tudo em boa amizade.

Alí se conversava de tudo:

- Cê iscuitô dizê qui as pédra di binga vão subí di preço?

- Iscutei, mai vai subí só nu ano qui vem...

- Purqui será qui u Gídio (nome certo, Igídio) parô di vim aquí nu butéco?

- Ué! Cê num sabia? Êli foi prá São Paulo, levá a muié qui num tá boa... Já faiz umas duas semana...

Falava-se sobre a nova plantação, as geadas, as queimadas, a festa do final da colheita, os preços do arroz em saca, etc.

Nisso, o Eduardo chamou as atenções dos presentes dizendo:

- Óia lá u Gídio...êli já chegô di São Paulo...

O recém-chegado aproximou-se. Foi cumprimentado e cumprimentou a todos. Falou com um, com outro, o Alemão mandou buscar duas pingas e o Igídio sentou-se entre o Eduardo e o Alemão.

Turma jogando, turma conversando.

Falou o Eduardo:

- Gídio, qui mar pregunte, cumo é qui tá passando sua muié?

- Agora tá mais mió, mais passo muito mar mermo... ité pensei qui ia perde éla.

Os dois indagando interessados e o recém chegado contando:

- Fui num hospitár grandi, ondi tem muita genti. Lá fizéru um montão di exame na Carme, minha muié. Ceis nem carcula, chegáru tirá sangue da veia déla, Cuma agúia, prá ixaminá... fizéru exame inté du mijo déla... óia, fizéru exame inté de fézi...

O Alemão confundio “fezes” com “fel” e estranhou:

- Crédo! Cumo é que vai tirá u fézi du figo?

Aí o Igídio explicou que o “fezes” era aquela outra coisa e o Alemão ficou mais confundido ainda, porque não tinha nenhuma noção de entender que de tal material se fazem exames para saúde.

E conversa vai e vem, Igídio contando tudo, até que fez uma confidencia:

- Vô conta prá oceis, im segrêdo... antis di tudos êsses ixami qui falei, u dotô pricisô fazê um exame nela, di corpo intêro...

- Pelada? – aparteou o Alemão, incrédulo.

- Craro – respondeu o Igídio – é preciso, i afinar médico é prá isso mermo...

Prosseguiu:

- Deu trabáio, puiz a Carme falô qui tirá a rôpa, num tirava di jeito ninhum. U dotô ixpricô cum paciência, dissi qui eli i tudo médico faiz isso porqui priciza, qui é segrêdo di profissão, qui era pra o bem déla e só cum ixame compréto é qui êli pudia fazê us cárculo da doença i dá u remédio certo. Mai a Carme, firme, di opinião, dizia qui tuda a ropa ela num tirava.

E o Alemão, curioso e interessado, voltou a perguntar:

- I dispoiz desse conversa ela tirô a rôpa?

Respondeu o Igídio:

- Muié teimosa, é muié teimosa... tirá a rôpa, éla tirô... mais us ócro éla num tiro...

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 19/8/1988

segunda-feira, 4 de junho de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (13)



Tudo estava calmo na fazenda de Anizio Figueira. Éra um sábado à tarde. Os colonos haviam ido à cidade, para as compras do mês.
Férias escolares e os filhos do fazendeiro, os três – Mirela, Edson e Álvaro, de 17, 14 e 12 anos, respectivamente – juntamente com a mãe, estavam no litoral, num apartamento de praia que Anizio havia comprado um ano antes.

De manhã o fazendeiro havia percorrido a plantação de um talhão de grão de bico. Era uma experiência e a primeira vez que plantava tal tipo de grão. Depois deu uma olhada no mangueirão e observou os porcos de engordo. Chegou em casa, guardou o jipe, lavou o rosto, tomou uma talagada de uma pinga especial, que seu compadre Osias lhe havia enviado de Pernambuco e ficou aguardando a hora do almoço.

Lá de dentro, ouviu a voz de Marieta, antiga e fiel empregada e eximia cozinheira:
- Seu Anizio, u armôço tá pronto... quando quizé cumé é só avisá...

Ele olhou para o horizonte, a vista alcançava uma faixa distinta, que avançava morro acima, para deter-se na copagem de um capão de mata virgem, que se ligava ao fundo azul do céu límpido.

Do lado esquerdo, em franco declive, uma pastagem bonita, verde claro, poucas e pequenas árvores, com manchas esparsas de grupos de bovinos. Além, mais em baixo, aquela fila indiana das 32 casas dos colonos.

Nos fundos da casa, o grande terreiro, a tulha altaneira, o galpão para a guarda dos tratores e máquinas. Além, a cocheira e o curral e mais abaixo ainda, o grande mangueirão, com porcos, cabras e carneiros. No pequeno piquete, os animais cavalares de serviços e de montarias.

Anizio soltou uma deliciosa baforada de cachimbo. Ele fumava cachimbo, quando tinha folga, estava feliz e tranquilo, ou com a “moringa fresca”, conforme dizia.

Pensou que era feliz, sim. A mulher boa, prendada, com saúde, meiga, boa esposa e boa mãe dos filhos. Os filhos, bons, perfeitos, mental e fisicamente, estudiosos, sem nunca terem lhe arrumado qualquer complicação. Tudo corria bem. Seus empregados e colonos estavam satisfeitos, eram bem pagos e os que pretendiam dispunham de pequenas áreas de terras para plantar alguma coisa “prô gasto”. Sua conta bancária era excelente, seu crédito éra especial.

- Vô almoçar, que tudo está bem, bem mesmo – pensou. Levantou-se, sentou-se à mesa e comeu satisfatoriamente.

Cochilava numa cadeira “preguiçosa” depois de ter almoçado. Foi quando ele chegou. Um rapazinho escuro, magro, de olhos grandes e vivos. Falou:

- U sinhô é seu Anizio, né? Mi faláru muito du sinhô i cumo eu tô sem serviço, vim pidí imprego...

Anizio não precisava de empregado, mas como era cortes e estava tranquilo e até um tanto triste com a solidão, mandou o rapaz entrar e sentar alí na varanda.

- Eu si chamo Pedro, mais pódi mi chama di Pedrinho... vim di Água Branca... trabaiei lá quatro anos cum u seo Alencar Oliveira, acho qui u sinhô cunhéce...

Sim, Anizio conhecia o Alencar, por sinal uma boa praça.

Conversa vai e conversa vem, ficou acertado de que o Pedrinho trabalharia alí até encontrar outro emprego melhor. O rapaz disse que fazia de tudo na fazenda. Combinou em ir buscar a tralha e comparecer na segunda-feira bem cedinho.

Dito e feito. Na segunda-feira cedo, Pedrinho apareceu. Anizio mostrou-lhe um quartinho ao lado do galpão e deu ordem à Marieta para aumentar o almoço para uma pessoa a mais.

Fazia uns dez dias que Pedrinho trabalhava alí. Éra bom de serviço, mas tinha um inconveniente: falava muito, contava muita bozófia. Isso não agradava ao Anizio, que costumava ser de poucas palavras e falar objetivamente e só o necessário.

Anizio mandou Pedrinho ir até o sítio vizinho do Chico Furtado pedir que ele mandasse o Zé Pião, para domar um potro que o Anizio considerava em estado de montaria. No regresso, Pedrinho trouxe a notícia de que o Zé Pião havia viajado para Minas, para visitar a mãe, que estava doente.

O fazendeiro pensou um pouco, chamou Pedrinho e disse:

- Amanhã você vai domar o potro Faisca.

O Pedrinho estranhou, empalidecendo. E disse:

- Seo Anizio, eu nunca muntei num potro...

E o fazendeiro, ignorando a suplica, respondeu:

- Não tem importância... o potro também nunca foi montado... assim vocês dois vão aprender...

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 19/81988