sábado, 24 de setembro de 2011

Nem ambulatório e nem posto de abastecimento (24 de setembro de 1959)

Há tempos, quando transcrevemos nesta coluna uma carta que nos fôra endereçada pelo Serviço Social da Indústria, dando conta de que Marília seria atendida em época oportuna com a criação de um Ambulatório Médico do IAPI e de mais um Pôsto de Abastecimento do Sesi, deixamos claro que tornaríamos ao assunto. É o que estamos fazendo.

Voltamos novamente a cobrar do Serviço Social da Indústria, essa necessidade já comprovada para Marília, que é a dotação de mais um Pôsto de Abastecimento do Sesi. Justificamos no pretérito as razões dessa pretensão, que, na última análise, jamais significará um favor e sim um atendimento imprescindível aos industriários marilienses. O número de contribuintes do IAPI, a densidade demográfica da cidade, o “quantum” verdadeiramente apreciável, que empregados e empregadores da indústria mariliense carreiam para os cofres do citado Instituto, plenam de sobejo, aquilo que possa parecer, à primeira vista, uma simples pretensão. Depois, para completar, urge que sejam reconhecidos os utilíssimos serviços que o Pôsto existente vem prestando aos marilienses.

Descrever ou discriminar os benefícios, as necessidades e as urgências que justificam a carência de um Ambulatório do IAPI em Marília, será desnecessário, uma vez que essa urgência está mais do que patenteada e sua recusa é irrefutável. Dizer que a cidade é grande e mais um Pôsto de Abastecimento do Sesi, nos moldes do já existente, viria em muito facilitar os industriários de Marília, torna-se igualmente desnecessário.

De tudo isso, já tem conta e ciência própria o próprio Serviço Social da Indústria, conforme nos foi asseverado em correspondência referida nesta coluna em tempo hábil.

Nosso intuito, acolhendo as boas intenções e as manifestadas atenções em servir a população mariliense nesse particular, já externadas pela autoridade competente, é o de continuar avivando a lembrança do caso. Estamos tentando fazer com que Marilia e sua necessidade apontada seja recordada, pois não está em nossas cogitações e nas de ninguém entre nós, a possibilidade de o pedido em aprêço continuar a dormir um letárgico sono nas gavetas do Serviço Social da Indústria.

Marília deve ser atendida nesse apêlo, porque o justificou e provou a sua necessidade. Ademais, êsse atendimento, significaria, antes de qualquer deferência, uma forma de atender um centro que exige a recompensa, pelas fabulosas quantias que canaliza ao próprio IAPI, e, que, dêste, praticamente, nada recebe, da mesma maneira que pouco ou nada recebe dos demais institutos de previdência social, que em iguais situações se encontram, isto é, não cumprindo, fielmente e na forma preceitual as suas reais e totais finalidades de atendimento aos seus contribuintes.

Deixamos aqui mais êste lembrête, sem a computação de dados estatísticos para justifica-lo, porque isso já fizemos no passado. O próprio Serviço Social da Indústria está de posse dos exemplares dêste jornal que fizeram referências ao fato em fóco. Portanto, parquidermicamente como sempre, aguardaremos mais um pouco. Depois retornaremos à carga.

Extraído do Correio de Marília de 24 de setembro de 1959

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Campanha de Produtividade (20 de setembro de 1959)

O povo brasileiro, fóra de dúvidas, é extraordinário. Tem lá o seu “quezinho” de pejorativo, quando demonstra sua displicência ou descrédito ao próprio futuro da Nação, mas êsse defeito é superado pelo seu dinamismo e compreensão, pelo desejo de servir e ser útil. Orientado ou conclamado a acercar-se de qualquer movimento que seja necessário, acode de pronto.

Só reclamá-lo, êle diz “presente”. A polícia recomenda: “Não dê esmolas na rua”. O brasileiro pensa em atender, mas quando o mendigo (autêntico ou falsificado) estende a mão, êle contribui com qualquer coisa. Uma catástrofe, uma doença em pessoa pobre, uma emergência qualquer, é só procurar e inteirar o brasileiro que êle dá qualquer coisinha. E o faz naturalmente.

Ocorreu-nos isso agora por ocasião da Campanha da Produtividade, encetada pela Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo e magnificamente desenvolvida pelos agrônomos daquêle órgão. U’a medida patriótica e necessária, pelo fundo importante que apresenta e pelas consequências futuras que traduzirá para a própria economia brasileira e bem estar das gentes. Os lavradores responderam ao apêlo do Govêrno. Os nacionais e os estrangeiros, que também estão imbuídos no mesmo servir e no mesmo viver.

A aproximação da lavoura paulista ao mencionado órgão governamental, sôbre cujos costados pesa a enorme responsabilidade de traçar os destinos da produção agropecuária. Os lavradores, convocados para essa incumbência eminentemente patriótica, acercaram-se de pronto, dispostos a colaborar, ouvindo os conselhos técnicos, sendo orientados, discutindo e trocando idéias e pontos de vista elucidatórios. Viu-se presente o entusiasmo que constrói, a vontade de colaborar com o próprio Govêrno Estadual, aquêle entusiasmo e aquele mesma boa vontade tão característica e paquidérmica dos brasileiros, que tão bem representa a esperança e a confiança com que as nossas autoridades determinam e discriminam nosso povo.

Agricultura organizada e adiantada significa independência, porque coloca a Nação em situação de privilégio, alimentada e em condições de desprezar importações, importações que carreiam divisas para o exterior. Agricultura técnica e bem dirigida, produzindo e contento e necessariamente, representa um dos mais importantes índices da independência econômica interna de um país e significa um nível elevado de compreensão, necessidade e trabalho.

Nêsse particular, obrou bem o Govêrno Estadual. Maximé tendo-se em vista que o Govêrno da União está descurado dêsse ponto básico, naquilo que lhe compete realizar. Aliás, a êsse respeito, diga-se de passagem, o carinho e as atenções do Presidente da República, dispendidos em pról da indústria automobilística nacional, fizeram-no olvidar-se da agricultura. E São Paulo, como o Estado líder da Federação, que tantos e tantos exemplos dignos de brasilidade já na própria pátria, coloca-se mais uma vez na vanguarda de uma iniciativa de renome e de esperança, impregnada do mais sadio e urgente patriotismo.

Ao tecermos essas considerações, aqui deixamos nossos aplausos aos responsáveis pela Campanha da Produtividade, acompanhados dos anguros de um transcorrer satisfatório e alcance dos pontos e objetivos colimados. Que não surja nenhum esmorecimento, porque a preconizada Campanha da Produtividade tem um outro significado ainda mais importante: é a Campanha da Redenção da Agricultura Paulista.

Extraído do Correio de Marília de 20 de setembro de 1959

domingo, 18 de setembro de 2011

Vontade de matar! (18 de setembro de 1959)

Realmente, a expressão que nos serve de epígrafe para o comentário de hoje é algo tétrica. Mas tem as suas razões de ser, embora impossível pareça. Sob o aspecto legal, não; sob a análise lógica, também não; mas sob o aspecto do amor próprio, póde ser justificada e largamente discutida.

O fato é o seguinte:

Ontem. Pessoa insuspeita, conceituada, comerciante. De crédito, de prestígio, de tradição. De nome e renome, enfim. Acercou-se de nossa reportagem. E, sem mais preâmbulos, indagou inesperadamente: “Você já teve vontade de matar alguém?”.

Pergunta difícil de responder, é claro. Quem póde responder uma inquirição tão grave assim? Quem pode dar uma solução à uma pergunta tão grave e tão profunda, que encerra em seu recôndito uma filosofia tão difícil de alcançar?

Não estranhem os leitores, se dissermos que a resposta deve ser filosófica, porque a pergunta foi filosófica. Encerra um “esforço para generalizar, aprofundar, refletir e esplicar”.

Pois essa pessoa nos procurou, como dizíamos. E nos adiantou os motivos originários da pergunta. E foi mais além: disse mataria uma pessoa se conseguisse colhêr melhores e mais concretas provas. Trata-se de um cafajeste. Um engraçadinho, um canalha. Cafajeste, engraçadinho e canalha, porque ao envés de trabalhar, de cuidar de sua vida, de ser decente, de ser honesto, leal e homem, vive a aborrecer as famílias alheias, utilizando-se desse utilíssimo aparelho que é o telefone.

O homem, esse nosso amigo e assinante, tem a sua razão. Com três filhas mocinhas, não é justo que permita seja a sua moral pisoteada por desocupados e imbecís, telefonando diariamente para a sua residência e dizendo bobagens e até pornografias aos seus familiares.

Aí, então, é que surge o ponto mais difícil de analisar. Se um chefe de família não tem o direito de defender o seu lar e a decência de sua família, que ameaça ser conspurcada por alguém que não tem brios e decência, em que pé estamos? Como responderia o leitor, em caso de ser jurado de um crime de morte, em que um chefe de família tivesse assassinado para defender a moral de sua própria casa?

O homem foi a Polícia. O Dr. Gaeta, segundo nos afirmou o interessado, prometeu tomar as providencias e segundo sabemos, já existem algumas pistas. O caso é grave. Telefone é um aparelho de utilidade inalienável. Suas finalidades são bem outras que as de servir de anonimato para cafajestes dirigirem insultos, desafouros ou taras que não tem a coragem suficiente para externar em pessoa.

Se nós fossemos jurados num caso desses, absolveríamos que tivesse morto um cafajeste que se utilizasse de um telefone para enegrecer a dignidade e a moral de uma família.

E, vamos mais adiante: Se a polícia deitar as mãos aos canalhas que usam tal expediente, eles terão duras contas a acertar.

E ainda: o homem que estava com vontade de matar, talvez não o faça; talvez o faça, dependendo a circunstância e o estado de ânimo. Em todo o caso, é bom que este alerta póssa servir de esclarecimento aos que usam o telefone para fins condenáveis, pois esse homem, frizamos bem, já matou muita gente... embora não seja, perante a Lei, nenhum criminoso!

Extraído do Correio de Marília de 18 de setembro de 1959

sábado, 17 de setembro de 2011

Não, não somos briguentos! (17 de setembro de 1959)

Como qualquer pessoa sensata, somos também apologistas do antigo dito, que afirma que “roupa suja se lava em casa”.

Sucede, porém, que terça feira última, ante-ontem, vimo-nos forçados a desprezar a afirmativa supra referida, para adentrarmos, embora a contra-gosto, num pormenor que diretamente diz respeito à cidade e ao povo mariliense, visto tratar de assunto que encontrou uma repercussão sem precedentes em quasi todos os quadrantes do país.

Encontrava-se o autor destas linhas num tabelionato de São Paulo, tratando de assuntos particulares. Ao ser chamado por um escrevente e não sabendo nosso nome, gritou por “Senhor de Marília”. Ao ouvir isto, um cidadão que alí se encontrava e que posteriormente se identificou como sendo advogado, perguntou-nos se eramos de Marília. Ao respondermos afirmativamente, o homem indagou: “Você também é briguento?”.

A pergunta, assim de chofre, confessamos, nos “desmontou”. Quisemos saber a sua razão e o homem esplicou: “Vocês não foram os que desautoraram o Presidente da República, obstando a visita do mesmo à cidade e considerando-o “persona no grata?”.

Precisamos entrar no mérito da questão, para desfazer o juízo que aquele estranho cidadão fazia de nossa cidade. Porisso, perguntamos-lhe se ele conhecia Marília, sua gente, seus realizações e dinamismo de nossa “urbe”. Disse-nos que não, mas que conhecia o assunto. Retrucamos que não conhecia o assunto, porque não fôra Marília e nem tão-pouco as suas autoridades representativas que assim agiram. A questão fôra levantada por uma entidade de classe e nós próprios não sabíamos se interpretara e consultara os interesses da totalidade da classe representada. Apenas isso. Nenhuma autoridade constituída de Marília, com credenciais, portanto, para falar em nome da cidade e de sua coletividade, tivera a iniciativa que tanta espécie causara ao mencionado cidadão.

E arrematamos aconselhando ao mesmo, que fosse mais ponderado em seus juízos, que viesse primeiro à Marília, conhecer “in loco” sua gente, suas lutas, suas realizações e o índice de febre indebelável de seu progresso, progresso, que, afirmamos ao nosso inter-locutor, reservadas as proporções devida, equipara-se ao da própria São Paulo, considerada a cidade que mais cresce no mundo!

Parece-nos que o cidadão aceitou as ponderações que fizemos acêrca das conclusões que alimentava, até então, de Marília e sua gente. Mesmo assim, ficamos algo aborrecidos com a conversa, pois nos convencemos de que, pela lógica dos acontecimentos pretéritos e atinentes ao caso em téla, não teria sido o causídico em aprêço, a única pessoa a julgar Marília e sua gente por uma ação ou um gesto de u’a minoria.

De qualquer maneira, fizemos na ocasião e na circunstância, aquilo que se nos pareceu mais certo: procuramos defender Marília, suas autoridades e seu laborioso e grande povo, como, estamos convencidos, o faria qualquer um daqueles que são marilienses autênticos e orgulhosos. Isto, porque o povo mariliense não é briguento, conforme insinuou o nosso amigo e nós, igualmente, não somos briguentos também!

Extraído do Correio de Marília de 17 de setembro de 1959

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Mercado de carne (16 de setembro de 1959)

Em recente editorial do jornal “Osservatore Romano”, que se edita no Vaticano, os concursos de beleza que vem sendo realizados ultimamente em todas as partes do mundo, foram classificados como “mercados de carne”.

A expressão pode parecer um tanto rude assim à primeira vista, mas não deixa de ter a sua razão e o seu fungo lógico. As assertivas referidas do “Osservatore Romano” baseiam-se nas declarações da atriz francesa Martine Carol, ao ter esta afirmado que usou “pouca roupa de banho” em várias películas cinematográficas e que agora pretende dedicar-se exclusivamente à arte. O jornal não mencionou o nome de Martine Carol, mas deixou clara a sua identificação, sem qualquer margem de dúvidas.

Apreciando o uso de pouca roupa, o citado órgão oficial de Roma condena veementemente os concursos de beleza como sendo autênticos mercados de carne e nessa condenação incluiu o certame que escolheu “Miss” Europa em Palermo, no último dia 30. Esclarece o mencionado editorial, que “não é apenas coincidência o fato de que o primeiro passo para o “olimpo moderno” é um concurso de beleza. E acrescenta: “E não é uma coincidência que nessa espécie de mercado de carnes o uso de pouca roupa é uma condição indispensável”.

Se analisarmos os exemplos que dispomos, aquí mesmo entre nós, poderemos constatar, com facilidade ímpar, que os concursos de beleza, regra geral, tem apresentado resultados negativos à boa formação moral e aos costumes da família. Ainda há pouco, liamos uma reportagem algo sensacionalista, mas que não deixou de apresentar provas e que se referiu a “Miss” Brasil, srta. Vera Ribeiro. A reportagem que nos referimos foi publicada num dos últimos números da revista “Confidencial”, editada no Rio de Janeiro. Assevera, dentre outros fatos, péssima formação de costumes da última representante da beleza feminina brasileira, inclusive provando com fatos e documentos a sedução de Verinha a um homem casado!

Realmente, os concursos de beleza, em trajes de banho, não deixam de ter os seus poucos vexatórios, pois entendemos que u’a moça de boa família e de bons costumes, sobretudo de boa formação religiosa, não se submeta assim, com facilidade, a exibição pública de suas fórmas plásticas, demonstrando ou dando a entender com clareza meridiana a beleza do próprio corpo. Aí está, porque, pensamos, tem razão o “Osservatore Romano”. Aliás sôbre o assunto, muito se tem falado e muito se tem escrito. De nossa parte, estamos apenas comentando o editorial do jornal referido, porque em tal coluna só são observados assuntos de real importância e capital responsabilidade. E se o “Osservatore Romano” observou com firmeza tal questão, é porque as provas que dispõe são muitas e reais.

Efetivamente, temos visto que dos concursos de beleza, as vencedoras, regra geral, saídas do anonimato ou da obscuridade, após vitoriosa no certame, passam por uma radical metamorfose em suas vidas particulares e algumas até já descambaram para um caminho diverso daquele que seguiam até poucos dias antes de terem sido eleitas.

Os concursos desse jaez teriam maior acêrto, se ao envés de serem eleitas as moças que se apresentassem com menos roupa, determinassem as moças que mais qualidades apresentassem para ser boas donas de casa e excelentes mães!

Muitas dessas beldades, não se póde negar, apesar de saberem desfilar como gazelas sobre passarelas iluminadas, rebolando os quadrís e empinando os bustos, são incapazes de preparar um bom bife, de temperar um arroz, de matar um frango e algumas (é o cúmulo!) até de fazer um cafezinho bem brasileiro!

Extraído do Correio de Marília de 16 de setembro de 1959

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Frases soltas (12 de setembro de 1959)

Na lagôa de águas plácidas e estagnadas, o homem paciente pescava ilusões.

--:-:--

Só para separar as orelhas é que aquele indivíduo usava a cabeça!

--:-:--

Éra um filme tão ruim, mas tão ruim, que até os artistas o interpretavam com indisfarçável descontentamento.

--:-:--

Abriu o livro de histórias e encontrou-se na Grécia antiga.

--:-:--

Os govêrnos são como os jequetibás sagrados, em cujas sombras sempre medram diversos cogumelos venenosos.

--:-:--

Doença abjeta domina aquele homem: repleto de defeitos, só sabe ver as deficiências alheias.

--:-:--

Ao colocar a carta no correio a mocinha expediu o próprio coração.

--:-:--

Ele não professava a filosofia; éra apenas um ferrenho oposicionista à realidade!

--:-:--

Erro de origem: Não basta saber tão somente assinar o nome para saber votar.

--:-:--

Num protesto mudo, porém justo, o dócil cavalo atirou por terra aqueles impertinentes cem quilos de gordura, que atendem pelo nome de Maria.

--:-:--

Depois do terceiro chopp o cidadão conseguiu encontrar-se com a sua bi-personalidade.

--:-:--

Um grande vácuo habitava permanentemente a carteira daquele pobre chefe de família.

--:-:--

É um homem de cabeça tão vazia, que mais parece um pneu sem câmara.

--:-:--

Da gaiola, o canário solitário entoava as notas que faltavam ao piano da casa visinha.

--:-:--

Cada vez que aquela moça usava um vestido novo, parecia ficar ainda mais velha.

--:-:--

Ao passar o pente na cabeça, o homem se desfez de todos os maus pensamentos.

--:-:--

Um relógio caríssimo e completou em tudo, com o único defeito de não marcar a hora da morte.

--:-:--

Éra um técnico de futebol igual a muitos professores de matemática: teoria, muita; prática, nenhuma.

--:-:--

Como brilhantes sôbre um fundo de veludo negro, as gotas de suor se manifestavam sôbre a pele daquele preto velho.

--:-:--

Não éra um político, mas em compensação sabia prometer muito bem.

--:-:--

U’a mulher muito bondosa, inteiramente esculpida em gordura.

--:-:--

Ele fazia muitas vezes o papel de borracha: apagava os erros dos outros.

--:-:--

Aqueles sapatos viviam sempre cansados: o dono pesava cento e vinte quilos.

Extraído do Correio de Marília de 12 de setembro de 1959

Patriotismo? (11 de setembro de 1959)

Conversávamos algures com um grupo de amigos, quando veio à baila o assunto “nacionalismo”. Emitiram-se, sôbre a tese, opiniões várias entre os interlocutores. Concluímos que da palestra ficou clara a idéia predominante que o nacionalismo não é aquilo que se apregôa por aí e que hoje serve de chavão aos falsos patriotas.

Em verdade, como dizia um dos presentes, o nacionalismo, entre nós, pode explicar-se como sendo tão sòmente “aquela coloração vermelha que “formiga” e que os homens sentem no rosto conhecida como vergonha”! O resto é conversa, porque existindo brios, seguem-nos o patriotismo sincero, que é o nacionalismo leal.

Um cidadão de fóra participava da conversa. Homem de aspecto simples, porém exteriorizando uma vida experimentada na crueza da vida. Bem falante, de regular cultura. Goiano de nascimento. Conhecedor de todos os rincões do Brasil.

Deteve-se êsse nosso amigo até então desconhecido, numa análise dos descasos governamentais para com o nordeste e o Brasil-central. Argumentou, com suas palavras trespassadas de lógica e bem pensadas, que o Brasil deve superar, o quanto antes, a sua condição de líder cafeeiro, voltando suas vistas com mais intensidade para os problemas das riquesas do solo. E citou as variadas espécies das riquesas, como um conhecedor de fato do assunto. Um dos motivos de sua palestra nos calou profundamente e fazemos questão de reproduzí-lo nesta croniqueta. É o seguinte:

Na cidade de Céres, Estado de Goiás, onde reside êsse cidadão, uma pessoa “abriu” um poço. Finalidade: localização de água potável.

Do poço não saiu água e sim petróleo, apesar da pequena profundidade da perfuração. Petróleo virgem, utilizado para alimentar lamparinas e até motores! O assunto alarmou a população da pequena cidade. Prefeito, vereadores e deputados estaduais, em comissão, verificaram “in-loco” a autenticidade do fato. O homem já se considerava rico, quando uma pessoa “levantou uma lebre”, dizendo que o petróleo poderia ocasionar-se do rompimento de alguns tanques subterrâneos de um posto de gasolina das imediações. As vistas voltaram-se para o posto referido e o próprio proprietário se interessou pela questão, acreditando na possibilidade e encarando o fato como sérios prejuízos para a sua parte. Desenterraram tudo e examinaram os tambores do sub-solo. Constataram que tudo estava em perfeita ordem e que o “fenômeno” deveria ter outra origem.

O proprietário do lote procurou abrir outra cisterna, pois o objetivo primordial era a localização de um lençol de água potável. Na nova perfuração, repetiu-se o “fenômeno” do primeiro poço. Novamente foram chamadas as autoridades anteriormente citadas e foi constatado, mais uma vez, que aquêle “óleo preto, cheirando algo parecido com querosene e asfalto, que queimava em lamparinas e servia para alimentar motores” era petróleo mesmo e não água potável.

As autoridades fizeram consubstanciado relatório, que foi assinado e encaminhado com urgência à Petrobrás.

Passaram-se mais alguns dias e uma comissão de técnicos da mencionada empresa nacional “baixaram” em Céres. E foram diretos aos dois poços que ao envés de água potável, fluíram o petróleo virgem e inconfundível. Examinaram, cheiraram, queimaram e testeram o líquido negro. Entreolharam-se. Franziram os sobrôlhos. Separaram-se dos demais e confabularam. E então decidiram: mandaram fechar os poços e lavraram uma proibição solene; ninguém poderia mais abrir poços naquelas imediações ou reabrir aquêles dois!

Como se vê, o “negócio” parece ter “dente de coelho”. Como se percebe, o decantado nacionalismo está capengando mesmo. Só servindo para a exploração política de políticos de doutrina abjeta!

Enquanto isso, a Petrobrás tenta descobrir petróleo em outros pontos, mesmo onde as possibilidades positivas ou remotas. O que interessa, no caso, é a política. Ou a política ou então existe indestrutível inépcia ou segundas intenções. Pois não se admite uma desculpa esfarrapada para o caso de abandono da fonte comprovada, para ir-se perfurar um terreno em outros pontos, onde nenhum indício seguro se apresentou até agora. Se quiserem um exemplo vejamo-lo numa cidade bem pertinho de Marília!

Extraído do Correio de Marília de 11 de setembro de 1959