quarta-feira, 30 de abril de 2008

O crime da enfermeira (1º de fevereiro de 1956)

Há pouco, foi a Capital da República abalada, com o desenrolar de um horripilante crime de morte: numa mala foi encontrado um cadaver de um homem, esquartejado e sem a cabeça.

A polícia carioca estava atarefada com as investigações para descobrir o autor do monstruoso esquartejamento, quando surgiu uma pista, fornecida pelo motorista de praça, Adriano Augusto Lourenço.

Em vista disso, a enfermeira Maria da Penha Pereira, de côr, empregada do Hospital Souza Aguiar, foi detida para interrogatório. Bem “baratinada” pela polícia, Maria da Penha “deu o serviço”.

A enfermeira vivia amasiada com a vítima – Américo José da Silva –, há alguns anos. Ultimamente, Américo vinha maltratando a amante, segundo esta declarou.

Uma ocasião, o homem sentiu-se doente e pediu à companheira que lhe aplicasse uma injeção de penicilina. Maria da Penha que há muito vinha ensaiando uma vingança contra o amigo, viu surgir a oportunidade. Ao regressar à casa, injetou em Américo uma ampola de entorpecente. Quando viu o amasio narcotizado, aplicou-lhe nova injeção: desta vez de veneno fortíssimo. E o homem foi desta para a pior, sem ter percebido a aproximação do fim.

Quando a enfermeira percebeu que o amante já não respirava mais, cortou-lhe as duas pernas e o pescoço. Depois cortou-lhe o tronco em quatro pedaços. Sozinha e com calma. Observando detalhe por detalhe do crime. Enterrou a cabeça de Américo no próprio quintal. Colocou o corpo numa mala de viagem e as pernas, que não couberam no referido compartimento, foram embrulhadas em jornais.

Pretendendo jogar no mar o cadaver esquartejado do amasio, Maria da Penha tomou o carro de praça de chapa 4-13-60, de Adriano Augusto Lourenço. O motorista percebeu o sangue e perguntou à freguesa sôbre o conteudo da mala. Friamente, Maria da Penha declarou que se tratava de dois cabritos, que iria levar à praia para um “despacho”!

Dias após, lendo nos jornais a notícia do achado macabro, o profissional do volante ligou uma coisa com outra; isto é, o cadaver encontrado e os “cabritos para o despacho”. E foi à polícia.

Agora Maria da Penha vai pagar pelo crime monstruoso e injustificável. Não se pode qualificar a perversidade de tal esquartejamento. Por certo, a criminosa irá apodrecer no xadrez. E ainda será pouco!...

Extraído do Correio de Marília de 1º de fevereiro de 1956

terça-feira, 29 de abril de 2008

Aspiradores de lança-perfume (31 de janeiro de 1956)

Não sabemos bem qual a dosagem etílica disso que se chama lança-perfume e que é complemento indispensável para o tríduo (que é quatríduo) momesmo.

O que é certo é que a substância etílica não é das menores e sua aspiração não se recomenda a ninguém. No entanto, nesses bailes tipo “aperitivos carnavalescos”, já se têm verificado, à miude, o abuso dessa prática. Pessoas de ambos os sexos, adultos e crianças, vivem aí, em salões de baile, na vista de todo o mundo, com lenços ensopados de éter, aspirando tal substância. Também não temos elementos para dizer das consequências da embriaguez por aspiração de líquido de lança-perfume. Cremos, no entanto, tratar-se de uma embriaguez tanto ou mais consequenciosa do que a do próprio álcool.

As autoridades policiais, os dirigentes de clubes, todos, enfim, deveriam trabalhar, no sentido de coibir o uso dêsse expediente. Sábado último, num clube da cidade, observamos um garoto “enchendo o nariz” com o lenço embebido em lança-perfume. O rapazinho parecia experimentar uma sensação extraordinária, ao cheirar o lenço. Parecia mesmo que subia às nuvens, transportando-se para um mundo fantástico, tal a frequência e a insistência que aspirava o narcótico. Não sabemos o resultado, mas temos quase a certeza de que o garoto não terminou bem aquela noite.

O lança-perfume, tempos atrás, era uma brincadeira inocente. Esguichava-se nas vestes o seu líquido. Brincavam mocinhas risonhas e também “barbados”. Hoje, não. Hoje quem compra lança-perfume, ou aspira o seu conteúdo num lenço, ou vai direto aos olhos do próximo. Nem criancinhas escapam. Estando com os olhos arregalados, admiradas naturalmente com o pandemônio que não entendem, as criancinhas são as principais vítimas dos malvados que confundem brincadeiras com indelicadezas e mesmo estupidez.

Há dois anos, numa “terça-feira gorda de carnaval”, presenciamos um fato curioso: Um folião, que apesar de trajar camisa listrada tinha mesmo cara de malandro, esguichou uma saraivada de lança-perfume numa criancinha de tenra idade, que se encontrava nos braços da mãe. Acontece que o pai e esposo estava próximo e o negócio mudou de figura. Quando o bebê gritou, como é natural e o folião riu, “gozando” o ato, um punho forte e impetuoso chocou-se com sua cara, derrubando-o. O homem quase enlouqueceu de ódio. Atirou-se sôbre o esguichador de lança-perfume e socou-o sem dó. Um policial separou os dois e pretendia conduzi-los para o xadrez. Uma pessoa de nossa redação, que se encontrava perto e que assistira a cena, interferiu em favor do agressor. Consequência: o folião aquela noite não “se esbaldou” em nenhuma “gafieira”, porque foi dormir no xadrez.

O lança-perfume deve ser usado para os fins a que se destina. Não para atirar nos olhos do próximo e nem tampouco para aspirar e embriagar-se com êle.

Deve ser proibido, principalmente o uso de sua aspiração em lenços. A polícia e todos os cidadãos, especialmente os responsáveis pelos clubes que oferecem os bailes carnavalescos, deverão impedir o emprego do lança-perfume para tais casos.

Extraído do Correio de Marília de 31 de janeiro de 1956

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A COMAP precisa trabalhar (28 de janeiro de 1956)

A COMAP, que teve um “período róseo”, quando da curta gestão do sr. Washington Simões, precisa agora, mais do que nunca, voltar às suas atividades em pról do povo.

Os abusos que se verificam, por todos os pontos e em todos os sentidos, no que diz alusão a desrespeito aos preços dos mais variados gêneros e utilidades, carecem de um dique.

Domingo passado, no Mercado Municipal, vimos uma senhora pagar cinco cruzeiros por um pé de alface! Parece incrível, não é? O açúcar deu outro “pulinho”. A carne, apesar de tabelada (fala-se em novos aumentos) é vendida por preços maiores, tôdas as vezes que o freguês adquire frações de quilo. Se o consumidor se der ao trabalho de fazer cálculo do peso e dos cruzeiros, em proporção ao custo da unidade de quilograma, constatará o que estamos afirmando. Êsse fato se repete, seguidamente, por parte da maioria dos açougueiros da cidade.

O tomate, o xuxú (imaginem!), a banana e tôdas as espécies de verduras e frutas foram às nuvens.

Muita coisa não pode ser vendida por preço acessível, hoje em dia. Mas que se praticam abusos e mais abusos a êsse respeito, ninguém negará.

Urge o reinício das ações da COMAP. Mas ações decididas, intransigentes, firmes. O dr. Argollo Ferrão, operoso e interessado pelas causas marilienses, como sempre foi, deverá voltar suas vistas para a COMAP. Se possível, integrar êsse organismo com elementos que não sejam representantes diretos e interessados de classes potentadas. De preferência, com pessoas que representem, pelo menos em maioria, o povo consumidor, ao invés de grandes comerciantes e industriais.

Êsse órgão, em boas mãos e integrado por gente que trabalhe, trará inúmeros benefícios ao povo de Marília. A respeito, já tivemos os frutos dessas ações. E estamos agora experimentando as consequências da inércia dessa entidade.

As coisas, no setor dos preços, em todo o Brasil e em especial em Marília, caminham com o leme desgovernado. Sem piloto.

A COMAP precisa trabalhar.

Extraído do Correio de Marília de 28 de janeiro de 1956

domingo, 27 de abril de 2008

A capacidade de criticar (27 de janeiro de 1956)

Capacidade de criticar não é qualquer que possui. Um indivíduo, para criticar determinada ação, precisa, antes de mais nada, saber onde tem o nariz. Precisa também ser sensato, objetivo e ter conhecimento de causa.

Não se pode admitir um crítico de cinema, rádio, futebol ou coisa que o valha, que não conheça à altura a matéria a ser criticada.

O “ouvi falar” ou “disseram” não fica bem para nenhum crítico, principalmente para os gratuitos e incompetentes, embora tenham capacidade para outros misteres.

Essa coluna tem um crítico ferrenho – doentio mesmo. O homem pega o jornal e devora o que escrevemos. Depois começa a “analisar” os nossos erros. Todos êles: de ortografia, de lógica, de perfeição, de oportunidade, etc..

Nunca êsse indivíduo, que é um boçal perfeito (trajado de “gentleman”), encontrou um único artigo nosso, que estivesse a contento. Jamais um assunto por nós abordado, mereceu a sua aprovação. O homem é positivamente “do contra”, com respeito aos nossos escritos diários. “Mete o pau” em tudo o que escrevemos. Sem dó nem piedade. Mas lê os nossos artigos. Isso é infalível.

É verdade que nossos artiguetes não são nenhuma preciosidade, nenhuma obra literária. Por repetidas vezes, temos confessados que jamais freqüentamos uma escola de jornalismo e por isso não podemos exibir, ali pela Avenida, um pergaminho debaixo do braço. Aquilo que escrevemos é fruto de duas coisas: “tarimba” e desejo de ser útil a Marília. A remuneração que percebemos pelos nossos trabalhos de redação não é das melhores, pois todos sabem perfeitamente que a imprensa do interior não tem possibilidades de compensar regiamente seus trabalhadores.

O rapaz, que se diz inteligente mas que não passa de um burro, não se conforma, de forma alguma, com o nosso modo singelo de escrever. Com mania de grandeza e tendo a cultura de lombadas de livros, não vê valor nos escritos em linguagem simples, popular.

E só por isso, vive por aí, a “gozar” os nossos trabalhos. A censurar a sua simplicidade, a menosprezar publicamente os nossos escritos de “menino de grupo escolar”. No entanto, êsse indivíduo, que tem pais ricos e que nunca soube o que é suar para ganhar o pão, que esquentou bancos escolares durante muito tempo, que residiu em São Paulo e no Rio de Janeiro, num “dolce far niente”, porque o pai lhe proporciona gorda mesada, que deve ter “colado” nas escolas para obter o diploma que possui, apesar de saber um “vocabulário decorado de palavras difíceis” não se atreveria a aceitar um desafio com o modesto autor destas linhas, o “homem que comete vinte erros em dez palavras”.

Os demais leitores não têm nada com isso e poderão achar que o assunto de hoje é ficticio ou imaginado. Mas é que êsse indivíduo está já aborrecendo com suas “críticas”. E o pior, é que o faz pelas nossas costas, como um covarde que é. Como temos a certeza de que êste artigo será lido, apesar de que o mesmo afirma “que não perde tempo em ler o que escrevemos”, aqui fica o aviso: cuide de sua vida. Se o que escrevemos não lhe agrada, não leia o que escrevemos. Se nosso jornal não lhe serve, por que o assina?

Mais esta: Se não sabia, fique sabendo: é difícil escrever fácil.

Extraído do Correio de Marília de 27 de janeiro de 1956

sábado, 26 de abril de 2008

Gente Feliz! (26 de janeiro de 1956)

Hoje em dia, em quase tôda a infância, a vida norte-americana tem forte influência na formação moral de grande parte dos povos do mundo.

Exceto na Rússia e em outros países satélites do bolchevismo, o americanismo é bastante admirado. Na realidade, é o povo que melhor sabe impressionar e fazer sua propaganda no exterior. Começando pelo cinema, os norte-americanos sabem empolgar e influir psicologicamente nos espíritos em formação e mesmo naquêles que pensam sensatamente e que têm, por excelência, princípios democráticos.

O autor destas linhas, esteve em sua infância, perdido de amores pelos “yankees”, em conseqüência das histórias apreciadas em películas cinematográficas. Posteriormente, passou a sentir uma certa repulsa pelos norte-americanos, quando, erroneamente, os interpretava como um povo desalmado e conquistador, intransigente em seus postulados doutrinários e convencido de si próprio. Mais tarde, tivemos o ensejo de viver, compulsoriamente, por mais de um ano, com aquêle povo. Já melhor amadurecidos em nossos modos de pensar, isento daquêles sentimentos de fantasias infantis que nos proporcionavam os filmes cinematográficos, pudemos aquilatar o quanto de verdadeira e grandiosa é a democracia norte-americana. E passamos então, sensatamente, a pertencer ao grande exército do americanismo.

O norte-americano é um povo organizado e trabalhador. Sabe dar valor a quem o tem. Sabe respeitar a quem o respeita. Sabe considerar a quem o considera. Em resumo, é um povo que tem uma vida normal, que ostenta o maior índice de conforto e controle hoje em dia. O país é um dos mais organizados e controlados que existe. O maior exportador do mundo. O mais rico do universo.

Quem pode fazer de uma nação a mais rica, a mais controlada, a de maior conforto e a de maior condição exportadora do mundo? Só o povo dessa nação.

Agora mesmo, estamos lendo, num importante órgão da imprensa paulistana, um telegrama da “Associeted Press”, procedente de Washington, que nos dá contas dos seguintes têrmos:

“O govêrno anunciou que no mês de dezembro último, o custo de vida nos Estados Unidos diminuiu.

“O Bureau de Estatística do Departamento do Trabalho informou que o índice do custo de vida declinou de três décimos de um porcento sôbre o nível de novembro para 114,7% do período base 1947-49.

“Os preços menores para os transportes, aumentos e aluguéis lideraram a diminuição de dezembro, o primeiro movimento descendente desde agosto de 1955”.

Pensando no conteudo dêsse despacho telegráfico e pensando na vida atual do Brasil e tendo ainda conhecimento das dificuldades vigentes em outras partes do mundo, não existem razões para se admirar o povo norte-americano, essa gente feliz?

Extraído do Correio de Marília de 26 de janeiro de 1956

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Uma boa administração (25 de janeiro de 1956)

Não é nosso intuito escrever para agradar quem-quer-que seja. Tampouco pretendemos dispensar elogios ou palavras engrandecedoras, com o mero fito de bajular. Os assuntos que abordamos diariamente neste editorial, são os que entendemos como oportunos e de interêsse geral.

Assim sendo, cumpre-nos pôr em evidência, já os primeiros frutos da administração inicial do dr. Miguel Argollo Ferrão, atual Prefeito Municipal. S. S. assumiu o cargo de Governador da cidade, com vontade de trabalhar realmente. Voltado inteiramente a todos os setores que digam respeito aos interêsses do município e dos munícipes, o dr. Argollo está deixando bem patente, que, sem alardes, é capaz de trabalhar.

Já se notam diferenças apreciáveis em diversos setores da vida mariliense: estradas, feiras livres, limpeza da cidade, etc. O dr. Argollo principiou por exigir dos servidores municipais, maiores atividades, maior interêsse pela causa da “urb”. Interessado como sempre com o problema da água, está desenvolvendo ações nesse campo, prevendo, como é lógico, as possíveis dificuldades que poderão advir no futuro, quando das épocas quase infalíveis de racionamento de energia elétrica.

Quando os alvores de cada manhãs surgem, já o Prefeito está em atividades, demonstrando cuidados especiais para tôdas as coisas de interêsse público. Sem o espírito de perseguir funcionários, estamos sabendo que o dr. Argollo está exigindo mais atividades de alguns, que, ultimamente, vinham produzindo aquém de seus mistéres. Quer dizer, que a máquina municipal arrancou com decisão.

Não há dúvida de que a administração do sr. Argollo Ferrão está correspondendo. E nós, procurando neste momento representar o próprio povo mariliense, fazemos votos para que as atividades do atual Prefeito continuem, até o final, nesse mesmo rítmo.

Aqui estaremos, para divulgar tôdas as coisas que tivermos conhecimento ou que notarmos, na administração do atual Prefeito, como sempre fizemos, com relação aos prefeitos anteriores. Nosso objetivo é ressaltar os acontecimento de tudo o que significa trabalho em pról da grandeza de Marília e seu povo. Do mesmo modo, poderemos censurar, em termos, algum ato do Chefe do Executivo, que, porventura, possa surgir e que por nós seja considerado passível de crítica construtiva.

O atual Prefeito está realizando uma excelente administração. Prossiga assim, dr. Argollo!


Extraído do Correio de Marília de 25 de janeiro de 1956

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O carnaval que se aproxima (24 de janeiro de 1956)

Vem aí o carnaval. Festa do povo por excelência. Quase todos participam, de um ou outro modo, das folias momescas. Mesmo aquêles que não “entram em cordões”, que “não se esbaldam” e “não se acabam” em bailes carnavalescos, gostam sempre de sair às ruas, para apreciar o movimento louco de muita gente que comete verdadeiras loucuras nesses dias.

Pensando bem, o povo tem mesmo que se divertir. Principalmente o povo brasileiro, que vive num “batente” tremendo durante o ano todo. A expansão é natural e não pode ser censurada. O que se condena nos praticantes das folias carnavalescas, são os excessos que por vezes se verificam, em diversos pontos, mal justificados como “brincadeiras” de carnaval.

Nós, em absoluto, somos contra o carnaval. Achamos ser de justiça a brincadeira que é tradicional no Brasil. Mas um divertimento sincero, sem malícias. Sim, pois hoje em dia, a maioria dos foliões encara as brincadeiras carnavalescas como motivo de vazão a atitudes exageradas e por vezes imorais. Lembramos que no carnaval do ano passado, em pleno dia, ali nas proximidades do Posto 7, triângulo das Ruas 4 de Abril, Coronel Galdino e Sampaio Vidal, um casal de foliões cometia atos verdadeiramente imorais. O que os dois praticavam não pode ser dito através de um órgão de imprensa, tal a enormidade da libertinagem que encerra. Na ocasião, comentamos até o fato e dissemos que tendo um cidadão chamado a atenção do atrevido casalzinho, em termos, ouviu, estarrecido a resposta de que “hoje é carnaval, moço”! E a mocinha, mais desavergonhada, usou de um vocabulário de intempéries e algumas obscenidades para com o correto cavalheiro, que tentara chamar-lhe a atenção.

Realmente, não encontram justificativas, os excessos que muitas vezes se executam, sob o pretexto de que “hoje é carnaval”. Na ocasião em que registrávamos o fato que hoje rememoramos, tecíamos uma consideração que não deixa de ser dolorosa: o que pensariam os pais da mocinha protagonista do caso em tela, se soubessem dos atos que a mesmo praticava (certamente sob efeitos de álcool), em plena via pública?

O caso foi relembrado, de propósito. Talvez a pessoa, por mero acaso, possa ler essa crônica. Oxalá isso aconteça e tomara que a mesma, juntamente com seu atrevido companheiro, possa agora, após transcorrido um ano, perceber a gravidade e a indecência de seus atos.

Por outro lado, que sirva também de alerta aos que usam e abusam de liberdades inenarráveis, pretextando “brincadeiras” de carnaval. Sim, pois se as brincadeiras carnavalescas se enquadrarem no fato que estamos referindo, pode-se dizer que o mundo está irremediavelmente perdido...

Extraído do Correio de Marília de 24 de janeiro de 1956

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O carnaval e seus “sucessos” (21 de janeiro de 1956)

Aproximam-se os dias que traduzem folia, liberdade e loucura para muita gente – o carnaval.

É a ocasião em que a maioria dos brasileiros se diverte, cada qual à sua maneira. O rico, gastando fortunas em fantasias de luxo, caríssimas e quase sempre exóticas; bebendo “whisky” e praticando, às vezes, desfaçatezas sem par, que, em outras ocasiões viriam ridicularizá-lo. O pobre, contentando-se em ver o carnaval de rua; os que não são ricos e pretendem se divertir nas folias de Momo, o fazem de um modo bem simples: com uma cuíca ou um tamborim, uma camisa listrada... e muita cachaça.

O carnaval é a festa do povo, por excelência. Muita gente participa dessa alegria, com o fim de divertir-se. Outros, sob o pretexto de carnaval, usam e abusam de liberdades inenarráveis. Há, todavia, os que “brincam o carnaval” santa e inocentemente: as crianças.

Bem, nosso assunto não é propriamente o carnaval e sim as músicas carnavalescas. Melhor dizendo, as letras das músicas carnavalescas.

Já perceberam os leitores, quanta burrica encerra a maioria dos “sucessos” em música de carnaval? Quanta ilógica, quanto de sem graça? Quanta ausência de estilo?

Uma firma comercial de São Paulo, andou distribuindo por aí, um dêsses “sucessos” para o carnaval. Contém dois versos. O primeiro (que é menos estúpido), é o seguinte:

“Quando ela lhe beijava
E lhe dava um abraço
Acredite no que digo
Meu amigo
Você bancava o palhaço”

E essa “obra prima” não foi executada por um único cérebro. Foram precisos três (!) “artistas” juntos, para realizar tamanha estupidez (O. Monello, J. Lopes e W. Mello)!

Quando lemos o referido “sucesso” cujo nome já é uma palhaçada (trata-se do samba carnavalesco intitulado “Bancando o Palhaço”) ficamos estarrecidos. Como está deteriorada a letra musical brasileira! Como se escrevem banalidades, sob a sombra da música nacional!

Quem já teve contato com a letra de um “Hino Nacional”, de um “Hino à Bandeira”, de uma “Canção do Expedicionário” e muitas outras composições que enriquecem o campo musical brasileiro, por certo há de ficar pasmado, lendo o verso acima. Quem conhece as belezas do norte, cantadas por Dorival Caimy, quem ouve musicadas as letras de Antônio Maria, Zé da Zilda, Ary Barroso, Lupicínio Rodrigues, Zequinha de Abreu, Pixinguinha, Benedito Lacerda, Ghiaroni, Hervê Cordovil, Vicente Celestino, Noel Rosa, Leonel Azevedo, J. Cascata, Haroldo Barbosa e outras glorias da nossa literatura musical, presente e passada, deve ficar pensando coisas “agradáveis” a respeito dos “compositores” de músicas carnavalescas.

Algum leitor há de replicar, certamente, que letra de música de carnaval “é assim mesmo”. E nós adiantaremos que não. Mesmo uma letra de carnaval deveria ter alguma coisa de dignidade artística.

O que pensaria essa glória da música brasileira que é Carlos Gomes, se vivo fôra, a respeito de “sucessos” musicais como o que estamos citando?

Extraído do Correio de Marília de 21 de janeiro de 1956

terça-feira, 22 de abril de 2008

Lagrimas... (20 de janeiro de 1956)

Lágrimas de mulher, quando sinceras, tocam a sensibilidade de todos e as portas do mais empedernido coração. Quando espontâneas, são sublimes, puras, como puras são as águas cristalinas que brotam das cachoeiras. Dignas de respeito, quando verdadeiras, porque externando a convulsão de um íntimo revolto, fazem vibrar o sentimento de respeito ou compaixão.

Lágrimas de homem são coisas escassas. Principalmente hoje, quando os “barbados” vivem atormentados com as atribuições da vida de cada dia, sem tempo suficiente mesmo para outras coisas mais úteis e urgentes, “cavando” uns minutinhos para dar uma apertadela nos cintos e realizando cálculos matemáticos incríveis. Em verdade, o pobre faz extraordinárias operações de aritmética. Lida com pequeninos cifrões, tentando encobrir enormes despesas. Numa comparação grosseira, até procura, sem o desejar, imitar o milagre de Cristo; só que ao invés de multiplicar o pão e o vinho, tenta “espichar” diminutos salários para pagar grandes despesas...

Mas, voltemos ao assunto que havíamos inicialmente abordado: as lagrimas.

Muita gente ficou alarmada, nestes dias, aqui mesmo nesta denamica Marília. É que uma árvore (frondosa, é bom que se ressalte), existente lá nas proximidades do aeroporto, deu para “chorar”. E não foram poucas as pessoas que viram as “lágrimas” da grossa perobeira, feliz espécime que escapou aos machados impiedosos dos fazedores de desertos. Altaneira, é hoje um centro de atenções, um objeto de admiração e motivo de superstição para muita gente.

Um de nossos repórteres esteve no local e pôde constatar, que, na realidade, a árvore verte gostas d´água de suas folhas. Nosso companheiro achou que a mencionada árvore não chora e sim “transpira”. E deduziu que as gigantescas raízes podem ter penetrado em locais profundos, absorvendo a humidade de certos lençóis d´água, e, com o calor incrível dêstes dias, tenha eliminado parte dessa humidade pelas folhas.

O fato é que muita gente “viu” a árvore “chorar”. E nós, entendemos também que de fato a árvore “chorou”. E chorou sinceramente, se é que uma árvore pode chorar – e com sinceridade. Pois não é lá, no aeroporto, onde embarcam e desembarcam os políticos profissionais, que se banqueteiam em Marília de vez em quando, que prometem muito e nada dão à nossa cidade? Por aí deduzimos que a árvore deve ter chorado mesmo. De vergonha, bem entendido.

Extraído do Correio de Marília de 20 de janeiro de 1956

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Homenagem às Forças Armadas (19 de janeiro de 1956)

O povo de São Paulo vai prestar, no próximo dia 22, em Ibirapuera, uma significativa e sincera homenagem ao Exército, Marinha e Aeronáutica, nas pessoas dos srs. general Olímpio Falconiere da Cunha, general Stênio de Albuquerque Lima, brigadeiro Netto dos Reis e outras altas patentes da Marinha. Assim, as Forças Armadas do Brasil, simbolizadas nas personalidades iminentes de grandes militares – do Exército, Marinha e Aeronáutica –, receberão do povo paulista, expressivas manifestações de carinho e agradecimento. Gratidão pela democrática atuação que desempenharam, por ocasião dos acontecimentos memoráveis de novembro passado, quando, em louvável e patriótica ação, bem souberam interferir na própria vida do país, dando ao povo brasileiro, as garantias das instituições democráticas e evitando inutil derramamento de sangue.

A comissão encarregada dessa homenagem inédita, elaborou um vasto programa, ao qual chegam adesões diariamente, inclusive de cidades mais próximas à Capital. Intelectuais, capitalistas, políticos, operários, industriais e pessoas de relevo na sociedade paulistana, já deram o apoio integral ao referido acontecimento. Varias cidades interioranas, que também aderiram ao movimento, enviarão comitivas e representantes.

O interessante a notar-se nessa manifestação, é a sua espontaneidade. A Comissão Organizadora está integrada de homens e mulheres de tôdas as classes e condições sociais, desde o grande capitalista e o eminente político, até o modesto operário. Assim, o próprio povo estará representado nessa homenagem, em diferentes posições sociais e financeiras.

O Ibirapuera, com a sua área de sessenta e nove hectares, deverá ser pequeno para acolher o paulistano que deseja homenagear aquelas Forças que se constituíram, num período incerto da própria segurança nacional, em verdadeiros e irrecuáveis soldados, defensores dos preceitos da própria Constituição Federal. Um grande churrasco fará parte dessa demonstração de apreço e reconhecimento às nossas Forças Armadas e prevê-se uma afluência de mais de 30 mil pessoas a essa solenidade.

O fato, por si só, é altamente louvável.

Não seria o caso de Marília, cidade que sempre bate palmas a todos os atos patrióticos e democráticos, fazer-se também representar nessas homenagens?

Extraído do Correio de Marília de 19 de janeiro de 1956

domingo, 20 de abril de 2008

Um “Teto” que é uma Teta (18 de janeiro de 1956)

Certa classe funcional de arrecadadores fiscais, fizeram pressão há pouco, contra a pessoa do Diretor das Rendas Internas do Ministério da Fazenda. Por um motivozinho à toa! Pleiteiam os ditos funcionários, um “teto” de 70 a 100 mil cruzeiros mensais e o aludido diretor, ofereceu-lhes, na ocasião, “penas” “excuzes du peu”, 40 contos de réis!

Enquanto isso, o salário mínimo do Brasil continua a ser, como sempre, “salário de fome”. A desabalada carreira do aumento do custo de vida, os descontroles que se verificam intermitentemente em vários setores de nossa vida econômica, o fenômeno das investidas dos intermediários gananciosos e muitas coisas mais, continuam fazendo da maioria do povo brasileiro, o miserável eterno, o malabarista inconfundível, que só vive de teimoso. Sendo um mil e poucos a dois mil e tantos cruzeiros o nível de salário mínimo no Brasil, para a classe que constrói a grandeza da nação, a enormidade dêsse absurdo não pode ser medida com sensatez.

A respeito, citemos, como curiosidade e reforço para êste nosso comentário, a situação em resumo, da nossa condição político-financeira:

“No último dia de 55 publicaram os jornais um resumo da situação econômico-financeira do Brasil. Mereceu atenção especial, posto que resumida, a ação dos três ministros da Fazenda que ocuparam a pasta após o desaparecimento do sr. Getulio Vargas. Foram os srs. Eugênio Gudin, José Maria Whitaker e Mário Câmara, êste ainda no exercício do cargo.

“A respeito do sr. Eugênio Gudin foi dito que, embora não tivesse conseguido dominar, nem conter, o surto inflacionário, tratou pelo menos, de reduzir as despesas com a administração pública. O vulto de tais despesas causou impressão também ao sr. José Maria Whitaker. Não se esqueceu o país das referências que elas inspiraram ao titular paulista, em carta ao sr. Aliomar Baleeiro, a propósito do projeto (malogrado projeto!) de reforma cambial. “Se tudo o que pretendo realizar no prazo de que disponho, para saneamento das nossas finanças – dizia, desconsoladamente, o ilustre especialista – a mim só me restará percorrer como um espectro, de ponta a ponta, em passadas trágicas, as suntuosas salas que compõem o “meu” palácio, no Ministério da Fazenda...”

A Consultoria Geral da República divulgou recentemente dados estatísticos sôbre o custo da administração pública. Em seis meses, ou seja, de janeiro a julho do ano findo, a arrecadação da União atingiu a Cr$ 24.303 milhões, tendo, todavia, a despesa, no mesmo período, chegado a Cr$ 28.563 milhões. Isso significa ter havido, no primeiro semestre, um deficit, contra a administração pública, de Cr$ 4.261 milhões. Em igual período do ano de 54, para um aumento de 11,6 por cento na receita, assinalara-se uma despesa de 44,5 por cento.

Só o Ministério da Fazenda, consumiu 16,3 por cento dêsse montante. Ostentou, por isso mesmo, o segundo lugar!

É certo que são de natureza relevante os serviços especialíssimos do aludido Ministério. Mas, com o pretendido aumento dêsse “teto”, como irão ficar as coisas?

Não restam dúvidas: Tal “teto” é mesmo uma teta...

Extraído do Correio de Marília de 18 de janeiro de 1956

sábado, 19 de abril de 2008

O presente do Governo Americano (17 de janeiro de 1956)

O fato passou-se há tempos. No trivial das coisas corriqueiras, divulgadas muitas vezes pela imprensa, poderia ter passado despercebido para a maioria de nossa gente. A notícia, um tanto lacônica, dava conta, mais ou menos do seguinte:

Um lavrador de Minas Gerais, com dificuldades naturais de quase todos os agricultores, necessitando de um “jeep” para os seus trabalhos e condução até a área cultivada e não tendo recursos suficientes para adquirir o veículo, teve uma idéia luminosa: pedir, “na faixa”, um “jeep” ao sr. Harry Truman, então Presidente dos Estados Unidos da América. Se assim pensou, melhor executou o plano. Escreveu ao chefe do govêrno norte-americano, longa carta. Citou sua sitaucao, sua condição de lavrador, suas necessidades. Mencionou as vantagens que lhe proporcionaria um “jeep” ou outro carro, mesmo reformado e antigo, para bem desempenhar suas atividades. Assinou a carta, deitando o envelope no correio. Depois, esqueceu o fato.

Acontece que passados alguns meses, o homem teve uma surpresa. Seu pedido fôra atendido. O órgão competente da Alfândega do Rio de Janeiro, notificava o lavrador que à sua disposição encontrava-se um veículo enviado “com os cumprimentos do Presidente dos Estados Unidos da América do Norte”! O rapaz aprontou as malas, vestiu uma fatiosa “de missa” e rumou para a Capital da República. Lá teve outra surpresa, desta vez, maior: O sr. Harry Truman, atendendo à solicitação do lavrador das alterosas, não lhe enviara o “jeep” pedido e sim um automóvel de passeio, do último tipo, da marca “Packard”!

As notícias de então, divulgavam as peripécias do mineiro, na cidade maravilhosa, tentando liberar o automovel. Não sabemos mais o que aconteceu depois e nem tampouco em que pé ficaram as coisas a respeito.

O que é certo, em tudo isso, é que se o fato é verídico, o govêrno americano demonstrou um espírito de atenção especial para com o pedido. Se tal fato tivesse acontecido entre nós, o nosso govêrno, mesmo que fosse um pedido simples, não teria atendido a solicitação. A rigor, temos a impressão que tal pedido nem chegaria ao poder do Govêrno Brasileiro, tantas são as gavetas existentes antes da entrada de documentos ao gabinete do Chefe da República.

Extraído do Correio de Marília de 17 de janeiro de 1956

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O prédio próprio da A.C.M. (14 de janeiro de 1956 )

Em nosso artigo de ôntem, fazíamos algumas considerações acerca da brilhante conquista da Associação Comercial de Marília, construindo um prédio próprio em ponto central, para a instalação de suas dependências.

Na ocasião comentavamos o que representa a referida entidade de classe, suas lutas, seus trabalhos, as finalidades que norteiam suas diretrizes. E fazíamos tais alusões, com o mesmo espírito que sempre nos moveu a pôr em evidência, os acontecimentos que, de uma ou outra forma, representam trabalho, atividades, progresso de Marília.

Realmente, a concretização dêsse melhoramento (como se não bastasse a linha de conduta da aludida Associação, altamente elogiável), já seria o suficiente para merecer um de nossos comentários. A Associação Comercial de Marília é uma entidade, repetimos, que bem representa a classe comercial da “cidade menina”, advogando as causas e coisas do comércio local. É estranhável, no entanto, que Marília, possuindo 1.800 comerciantes legalizados, apenas 300 sejam filiados à Associação Comercial. Talvez seja esse um dos motivos que só agora a A.C.M. pôde levar a cabo a sua velha aspiração: possuir um prédio próprio para a sua séde social.

No entanto, melhor instalada, conforme ficará no novo local, terá a mesma entidade maiores e melhores possibilidades em atender de um modo mais preciso e urgente, aos interesses da grande classe. Porisso, é conveniente, a todos os comerciantes da cidade, que se filiem à Associação Comercial de Marília, para seus próprios interesses e benefícios. Sim, pois a A.C.M. é a lídima advogada dos comerciantes. Com seus departamentos especializados, com sua bibliotéca de leis, com um serviço completo de assistência e informações fiscais, dispondo, ainda, de órgão capaz de socorrer a todos os comerciantes, no que diz respeito a assuntos ligados à Junta Comercial do Estado de São Paulo e a outros organismos fiscalizadores, dispondo de peritos e advogados próprios, não devem os comerciantes prescindir de serem filiados a aludida entidade de classe.

Dia 29, dar-se-á a inauguração da nova Séde da A.C.M. e os comerciantes não filiados ao aludido órgão, prestariam melhor das colaborações ao solene áto, preenchendo suas propostas de sócios.

Extraído do Correio de Marília de 14 de janeiro de 1956

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A séde da Associação Comercial (13 de janeiro de 1956)

Se o comércio local possui um órgão representativo dos mais lídimos e significativos, é êsse, sem dúvida, a Associação Comercial de Marília. Advoga, por excelência, em todos os pontos e circunstâncias, os interesses e reivindicações que surjam para os comerciantes da cidade.

Inúmeros são os tentos lavrados pela Associação Comercial de Marília, dentro do próprio progresso da “cidade menina”. A A.C.M. é uma entidade de classe que traduz um orgulho imenso para os marilienses, uma garantia para o comércio e um baluarte de lutas destinado a acelerar o desenvolvimento da própria vida de Marília. Defende, sem acobertar. Representa, sem visar objetivos que possam merecer a mínima censura.

Em sua linha de frente, incontáveis são as batalhas vencidas. O seu campo de ação é vastíssimo. Serviçal, desde os seus primórdios, têm se constituído num pedestal de garantias e certeza dentro da órbita propulsora do desenvolvimento comercial da cidade. Sem dar guarida a burocracia baralhante e indesejável, tem a Associação Comercial de Marília se firmado, desde os primeiros dias de sua vida, naquilo que se chama objetividade. E objetividade produtiva, digna de encômios.

Partilha a A.C.M. de todas as vibrações da cidade, ombreando-se à todas as iniciativas e reivindicações que representem melhoria e progresso para Marilia e seu povo. E o têm feito, espontâneamente.

Isso se déve, é preciso que se diga, ao dinamismo de seus dirigentes – atuais e anteriores, –, jamais se valeram de cargos para a efetivação de políticas desnecessárias ou atitudes “frita bolinhos”. Alí, sempre se trabalhou.

Prova disso, é a concretização, agora, da mais antiga aspiração da aludida entidade de classe: a Séde própria.

Conseguiu a Associação Comercial de Marília, realizar o velho sonho de todo o comércio local, ou seja, instalar-se em acomodações próprias, constituídas especialmente para a mesma, em ponto central e onde poderá melhor desincumbir-se de suas finalidades primordiais, defendendo os interesses da grande classe, o comércio, sem dúvida alguma, uma das molas mestras do próprio desenvolvimento de um centro.

Dia 29, dar-se-á, oficial e solenemente, a inauguração da Séde própria da Associação Comercial de Marília. Ao áto, deverão comparecer as mais representativas autoridades do Estado e as mais significativas figuras ligadas ao comércio paulista.

Ao comentar êsse fato, que representa, indubitavelmente, mais um tijolo colocado nesse grande edifício que se Marília, desejamos apresentar ao comércio da cidade, nas pessoas dos dirigentes da Associação Comercial, os nossos parabens pela conquista referida e os nossos desejos para que a A.C.M. continui trilhando éssa trajetória de trabalhos e vitórias que até aquí tanto a tem dignificado e tornado admirada pela população da cidade que mais se desenvolve na hinterlândia.

Extraído do Correio de Marília de 13 de janeiro de 1956

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Produção e transporte (12 de janeiro de 1956)

Dois problemas de suma importância para o futuro do Brasil, são, inegavelmente, as causas da produção e transporte. Duas questões, que, dentre outras, devem merecer cuidados especiais do Sr. Juscelino Kubitschek, Presidente eleito em 3 de outubro pretérito (1955).

Há tempo, propugna-se no Brasil, a luta cerrada pela lavoura mecanizada, a fim de colocar o nosso país no seu devido lugar, com referência ao campo produtor, de vez que são imensas as áreas cultiváveis e de excelente qualidades as nossas terras. Tudo o que se planta, no Brasil dá. O clima favorece a cultura dos mais variados cereais, e, se uma política bem orientada existisse a respeito, por certo o Brasil seria um grande exportador, ao invés de ser um importador respeitável.

O amparo ao lavrador rural têm sido, desde o limiar da República, deficientissimo. Jamais teve o nosso caboclo, garantia de preços mínimos, fornecimento satisfatório de sementes e inseticidas, financiamento agrícola. Nunca teve facilidades para mecanizar a lavoura. Um cerco de dificuldades depara o lavrador, todas as vezes que precisa recorrer à órgãos bancários para realizar um penhor agrícola, ocasiões em que fica no dever de fornecer as mais sólidas garantias sem ter o direito de fazer a mínima exigência. A situação é dançar conforme a música, queira ou não.

Em consequência déssa situação, cada vez mais aumenta o êxodo rural, cada dia maior se tornam as áreas abandonadas e incultas e sempre mais difícil fica a vida na cidade, com o aumento das populações das zonas rurais e interioranas, acudindo para os grandes centros.

Estando os preços dos produtos agrícolas tão elevados como estão, é de se pensar que ser agricultor é hoje um ótimo negócio. No entanto, a realidade é bem outra: o lavrador vende tudo o que produz por preço miserável, porque o intermediário ganancioso o assedia e tira proveito de sua situação de dificuldades, só Deus sabendo como o mesmo conseguiu chegar até o termino das colheitas. Reduzidíssima a produção, porque já pouca gente (mesmo o simplório caboclo), se interessa pela agricultura, que vende quase de graça para depois adquiri-la por preços astronômicos. A mecanização continua sendo um (sonho) muito (distante) para o lavrador. Os preços de trataores, estratosféricos, o custo do combustível elevadíssimo e as inúmeras faltas de garantias, não compensam ao produtor a sua árdua luta, para ver-se obrigado a vender seus produtos por baixos preços, aos insaciáveis intermediários, ficando prisioneiros inafiançável do atual ritmo das coisas e impossibilitado de sair dessas contingências. Por outro lado, a deficiência dos serviços de transportes, obriga o agricultor a isolar-se das possibilidades de procurar mercado mais compensador para seus produtos.

Só o problema de transporte, portanto, não resolverá a solução da produção agrícola. Urge, antes de tudo, uma conjugação de trabalhos governamentais que traduza, étnicamente, o triângulo necessário a salvar a produção agrícola do Brasil: transporte, mecanização e eliminação do intermediário indesejável.

Extraído do Correio de Marília de 12 de janeiro de 1956

terça-feira, 15 de abril de 2008

Poliomielite, terrível mal (11 de janeiro de 1956)

A despeito dos interesses e esforços ingentes da ciência médica, não se conhece, ainda, um antibiótico positivo, capaz de debelar de modo categórico, a paralisia infantil, doença que tantas e tantas vítimas têm feito em todo o mundo. O mal terrível, tem deformado milhares de criancinhas, deixando, naquelas que escapam à morte, a marca indelével de sua passagem.

Os Estados Unidos, a Inglaterra, Rússia, França e mesmo o Brasil, estudam continuadamente processos capazes de descobrir a origem do suposto vírus déssa doença. Muita coisa já foi feita, concernente à prevenção e mesmo melhoria desse terrível mal. No entanto, ainda não conseguiram os homens da ciência médica, localizar o ponto originário da doença, descobrir como nasce a moléstia tão nefasta, que tanta infelicidade tem causado à inúmeras criancinhas de todos os quadrantes do globo.

Não há muito, foi nosso Estado alarmado com um surto de poliomielite, surgido na localidade de Bilac, próxima à cidade de Birigui, na noroeste. Agora, nova irrupção se apresentou na cidade de Botucatú, se bem que de pequenas proporções, graças a Deus. Em Araraquara, três casos dêsse mal terrível foram tambem constatados.

O infausto acontecimento está preocupando a classe médica e causando apreensões aos chefes de família, mormente aqueles que possuem filhos em idade até 4 anos. A respeito, o Serviço Nacional de Educação Sanitária, está recomendando, para evitar a paralisia infantil, as seguintes providências, como medidas profiláticas:

1) Lavar as mãos com frequência, especialmente depois das necessidades fisiológicas e antes de tomar qualquer alimento.

2) Proteger os alimentos contra as môscas e lavar muito bem os alimentos ingeridos crús, tais como frutas e verduras.

3) Evitar contactos íntimos (apertos de mão, roupas de cama e toalhas de uso comum) com membros de famílias em que tenha havido caso de poliomielite dentro das três últimas semanas.

4) Tratar com cautela todo surto febril, sendo aconselhável o repouso no leito ou, ao menos, evitar exercícios físicos fatigantes, durante uma semana.

5) Evitar a fadiga, especialmente em caso de não sentir-se bem de saúde.

6) Não realizar viagens desnecessárias, para localidades em que haja casos de poliomielite.

Extraído do Correio de Marília de 11 de janeiro de 1956

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Carne a mais de Cr.$ 40,00! (10 de janeiro de 1956)

Existe em Marília, uma tabela estipulando o preço de carne de vaca, de primeira qualidade, à razão de Cr.$ 30,00 cruzeiros por unidade de quilo. A referida tabela, por si só, já apresenta um erro grande, concernente aos tipos de carnes. Tanto com ossos como desossadas, o preço é idêntico, o que está errado.

Acontece que muitos açougues de Marília estão desrespeitando a tabela, em detrimento da economia popular. Estão vendendo a carne a preço que por vezes chega a atingir quarenta e cinco cruzeiros o quilo. Explicando melhor, vendem pesos de carne, inferiores a uma unidade de quilo, por preços que, proporcionalmente, ultrapassam os normais (que já são elevadíssimos).

Não pensem os leitores que estamos divagando sobre a questão. O redator déstas linhas deu-se ao cuidado de verificar, pessoalmente, tais fatos. Vários açougues cobram da maioria dos freqüentadores, 28, 30 e 32 cruzeiros, por um peso de 600 a 700 gramas. Nessas condições, o quilo de carne sai para mais de quarenta cruzeiros, o que é um autêntico roubo.

Há então necessidade de que as pessôas interessadas, ao adquirirem carne, principalmente as pessôas póbres, que, nem sempre, pódem comprar um quilo desse indispensável produto, fiquem “de olho” nas balanças dos açougues, para aquilatarem a justeza do preço cobrado.

Sábado último, o responsável por ésta coluna adquiriu um peso de carne num açougue da Rua Coronel Galdino. O açougueiro atirou na balança um pedaço do produto, que pesou 700 gramas e, com desfaçatez exigiu a soma de Cr.$ 30,00. Como tivéssemos mentalmente feito o calculo, ponderamos que o preço exato seria de Cr.$ 24,50 e não Cr.$ 30,00. O profissional não se deu por achado. Respondeu, à guisa de desculpa (esfarrapada), que realmente o preço tabelado é 35 cruzeiros, mas que um “pedaço bom” tem que ser mais caro. Não protestamos, nem fizemos “comício” ante o atrevido áto do açougueiro. Apenas respondemos que pagaríamos o preço justo, ou não levaríamos a carne naquelas condições. Está claro que pagamos o preço legal e levamos o produto. Mas aquí fica o registro, para conhecimento público e para as providências que se fizerem necessárias.

Extraído do Correio de Marília de 10 de janeiro de 1956

domingo, 13 de abril de 2008

Começou mal o bissexto (6 de janeiro de 1956)

Não há (como) negar que o ano bissexto “entrou” mal. Pelo menos para os póbres, para os menos afortunados, aqueles que mal percebem, pelos seus trabalhos, o salário mínimo.

Elevação do adicional vigente, aumento do custo de utensílios imprescindíveis, como roupas, calçados e medicamentos, a “subida” dos cigarros, fósforos e inúmeras “cositas más”.

O paulistano recebeu, tambem, como “presente”, novo aumento nas tarifas de sua condução. A manteiga deu o seu “saltinho”. Até os cinemas da Capital estão entabolando providências para esfolar ainda mais o público, com novos aumentos de preços. Até o preço das entradas para o Pacaembú, por ocasião do “clássico” que será realizado no domingo, entre os quadros do São Paulo F. C. e do Palmeiras, será aumentado!

Se não fomos mal informados, parece que as ferrovias tambem vão aumentar os preços de suas tarifas de transportes! Até os sorvetes subiram! Já se paga cinco cruzeiros por um refresco em Marília. Um de nossos companheiros de redação levou um bruto choque, quando, anteôntem, ao pagar um sanduíche e um guaraná, num bar da cidade, ficou sabendo o preço do estrago: Cr.$ 18,00! E não pensem os leitores que se tratava de um sanduíche especial, de tamanho descomunal. Não. Um sanduichezinho corriqueiro, de pão, presunto e queijo...

Um servente de pedreiro, que reside num casebre afastado do centro, pensou em comprar uma bicicleta para vir de sua casa ao local do serviço. Quando perguntou ao balconista, o preço do veículo, ficou fulo, xingou de “ladrão” e não sabemos mais o que. O homem ficou nervosíssimo, quando lhe deram o preço do objeto: Cr.$ 5.600,00 à vista! E a bicicleta sem equipamentos, “lisa”. Acima de tudo, mal acabada, porque é de fabricação nacional, e, regra geral, a imperfeição impera quase em todos os produtos industrializados no Brasil! Lamentavelmente.

É a prova de que a ganância aumentou, fantasticamente, nêste início de ano.

Um guarda civil, contava ôntem ao repórter: Desejando adquirir um aparelho de rádio, indagara o preço numa casa especializada: Cr.$ 6.000,00. “Déra a bronca”, como é natural. Dirigiu-se a outro estabelecimento e o mesmo rádio, da mesma marca, com o mesmo número de válvulas, com mesma caixa e do mesmo tipo de fabricação custou 4 mil cruzeiros (“e já custou muito” – asseverou nosso amigo).

Não há dúvida: o ano bissexto começou mal mesmo...

Extraído do Correio de Marília de 6 de janeiro de 1956

sábado, 12 de abril de 2008

Prognósticos... (5 de janeiro de 1956)

Não há exagero, não. Não estamos pintando em preto o quadro da vida do póbre. Não, porque não há tinta preta que apareça mais no painel do “modus vivendi” nacional. Uma pincelada do preto pessimista, já não é mais destacável, nem com o microscópio...

O fósforo subiu cem (?) por cento. Os cigarros subiram. Os calçados, idem. Roupas, então nem se fala. Verduras, frutas, feijão, arroz.

Os empregados de farmácias tem nova atribuição: alterar, diariamente, os preços das drogas e medicamentos. Para mais, é claro.

Da maneira como caminham as coisas, daqui há pouco, estaremos nas seguintes contingências:

Uma caixa de fósforo, Cr.$ 5,00. Um maço de cigarros, vinte. Uma dúzia de grãos de feijão, 50 cruzeiros. Uma injeção de vitamina, 800 cruzeiros. Um frango, 200 cruzeiros. Um par de sapatos, Cr.$ 1.500,00. Um quilo de carne, Cr.$ 100,00. Isto sem falar sobre o leite, que subirá, infalivelmente. Bem, carne e leite, não faz mal que subam de preços. Os póbres não comem carne e não tomam leite há muito tempo...

Um caboclo nos diziam, ainda ontem: “Seu moço, só vendo que beleza as ‘prantacao’! Tá tudo ‘bunito’, viçoso, qui dá gosto de se vê. Êste ano, vai tê ‘munto’ mantimento...” Concordamos com nosso amigo. E até trememos de medo. Medo dos “tubarões” e dos intermediários. Dos monopolistas, dos polvos humanos, aqueles que tiram proveito dessas ocasiões. Que adquirem tudo, na época das colheirtas, para armazenar e vender mais tarde, com preços próprios, imorais e de lucros fantásticos!

As coisas vão mal, mesmo. Ao iniciarmos este artigo, estávamos de óculos escuros. Agora já nos desfizemos desse utensílio cabotinesco. Mas, mesmo assim, continuamos a ver as coisas “pretas” para um futuro bem próximo. A menos que, com tantas elevações que se verificam ultimamente, subam tambem um pouco os brios e as providências dos responsáveis pelos destinos do Brasil, pondo um freio à febre da ganância nacional.

“Nunca tantos sofreram tanto...”

Extraído do Correio de Marília de 5 de janeiro de 1956

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Foguetório da madrugada (4 de janeiro de 1956)

Está errada a atitude de pessoas, ou grupos de pessoas, que, por motivo de comemorações de qualquer coisa, data ou efeméride, principiam a espocar fogos durante altas horas da noite ou em pleno amanhecer.

Não encontra, tal proceder, apôio de quem-quer-que-seja, pelos inconvenientes que traz consigo. Quem trabalha durante todo o dia, tem o direito de repousar sossegadamente durante a noite, para reiniciar a luta do dia imediato.

Portanto, condenamos, em alto e bom som, o foguetório abusivo que se verificou na madrugada de ôntem, em vários pontos da cidade, mais ou menos pelas cinco horas.

É falta de respeito patente pelo próximo, é desconsideração flagrante para com as autoridades policiais, que, terminantemente, proíbem a queima de fogos e barulhos infernais que prejudiquem o sossego e o bem estar públicos.

Quem assim agiu, deve responder pelos átos, perante as autoridades competentes. Deve dar as necessárias explicações de tal abusivo proceder.

Se isto continuar, do jeito que vão as coisas, para breve, por quaisquer motivos ou comemorações, será a cidade acordada, com os foguetórios condenáveis e impertinentes. Acima de comemorações que digam respeito a interesses de pessôas ou grupos, está, indubitavelmente, a necessidade de repouso público, o sossego da população mariliense. Mais alto ainda, está o respeito ao próximo.

Não se justifica, em situação alguma, a quebra de tranquilidade pública, por aqueles que queimam fogos anonimamente. Anonimamente, repetimos, porque ninguem consegue localizar as pessôas que assim agem. E, de vez que tais ações são feitas sob camuflagem e sob as sombras da noite, significam u’a maior ilegalidade.

O respeito do próximo deve merecer maior consideração por parte dos praticantes dêsses processos. O mariliense, que trabalha no duro, de sól a sól, têm direito ao sono reparador, à tranquilidade noturna. Esse direito não póde e não deve ser pisoteado por pessôas insensatas. Sim, pois é insensatez e desrespeito, menosprezar o sossego público, durante a noite ou em alta madrugada.

Extraído do Correio de Marília de 4 de janeiro de 1956

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Ao trabalho, senhores (3 de janeiro de 1956)

Já se encontram à testa dos destinos municipais, os novos poderes sufragados pela vontade popular, no pleito de 3 de outubro (de 1955). No dia primeiro, domingo, em solenidade de gala, o meritíssimo Juiz de Direito e Eleitoral da Comarca, deu posse aos vereadores eleitos. Estes, por suas vezes, elegeram a Mesa da edilidade e empossaram o Prefeito Argolo Ferrão e o Vice-Prefeito Otávio Barreto Prado.

Um fato merece destaque, nas referidas solenidades, foram os propósitos externados por todos os representantes das diversas bancadas com assento na Câmara Municipal: o intuito inequívoco de um entrosamento perfeito entre os dois poderes – legislativo e executivo –, colimando única e exclusivamente, trabalhos em benefício de Marília e seu grande povo.

E nós, ao registrarmos o acontecimento, fazemos votos para que as promessas exteriorizadas na ocasião da aludida solenidade, venham, de fato, a perdurar por todo o período do Governo municipal que ôntem se iniciou. Que os pontos de vista declarados espontâneamente pelos eleitos e empossados no dia 1º, possam, em solidária harmonia, ser cumpridos até o final. Desejamos que nenhum dos eleitos se utilise, jamais, de cargos ou funções, para tirar proveitos pessoais ou de partidos, em detrimento às causas da cidade.

Nossos votos tambem, sinceros, para que os dois poderes póssam desenvolver uma campanha incansável em torno do dinamismo e do progresso mariliense. Que sejam todos êsses elementos, escolhidos pela maioria do eleitorado local, dignos de seus cargos, honestos em suas ações e que coloquem, acima de tudo e de todos, a bandeira dos interesses de Marília. Que as questões políticas, afóra, a órbita normal de sua continuidade – porque todo eleito é um político, na realidade, - não cheguem, nunca, a turbar a ordem dos trabalhos de desenvolvimento da Cidade Menina e que jamais se prestem a representar um único grão de areia na engrenagem do maquinismo dinâmico do progresso vertiginoso que se chama Marília.

Êsses são os desejos que formulamos aos novos dirigentes e responsáveis pelos destinos da cidade, no quatriênio administrativo que ôntem teve início.

Extraído do Correio de Marília de 3 de janeiro de 1956

quarta-feira, 9 de abril de 2008

“Óleo negro” (2 de outubro de 1946)

Para aqueles que alimentam as razões simplistas de carater pejorativo, ou para aqueles apaixonados, que rezam por cartilhas de sentimentos contrarios aos genuinamente nacionais, por certo a notícia do jorro do petróleo veiu em má hora.

Em má hora convenhamos, na concepção doentia e na mentalidade feirante dessa gente, que, ou não pulsa com a vida brasileira, ou aspira transformar estas terras, em colonias escravas de outras raças e de outros costumes.

Para aqueles outros, que arfam e se sentem derramantes de orgulho, por estarem sobreados pelo sacrosanto Pavilhão Verde e Amarelo, o motivo ostenta um prisma diferente, um aspecto diverso, um encare contrário.

Não poderia ser diferente e nem tãopouco seria possível, que vingassem quaesquer motivos de apatismo, pelos interesses nacionais, por parte daqueles que têm amôr à esta Terra de Santa Cruz e, que, pugnam pelo ideal de brasilidade. Aqueles indivíduos que defendem estas plagas, pensando por elas, apontando suas vagas e opinando sobre suas ações, e, labutando em suas terras com o único interesse e dever, que lhes são outorgados por Deus, de serem filhos dilétos das cálidas regiões brasileiras.

Só os desnaturados é que não desenfream os cérebros, para pensar pela grande pátria brasileira e pelo seu futuro, para coadjuvar ideais e consorciar sentimentos, comungando princípios idênticos!

Um motivo se transparece agora, na realidade dos anseios nacionais, e no sonho lúgubre dos que ainda acreditavam, que, outros povos subjugariam nossos nativos. É a história do sangue da terra brasileira, o petróleo nacional.

Devanearam as imagens desconexas dos que são pela inatividade e retrospecto do Brasil e, ferveram borbulhantemente, os sentimentos patrióticos dos que formam na marcha do desenvolvimento nacional.

O Brasil já deixa jorrar de suas entranhas, o “ouro negro” em abundancia, em proporções tais, de coloca-lo com saliência entre os maiores produtores de petróleo do mundo!

Não mui distante da Capital Baiana, no distrito de Candeias, acaba de se atestar, materialmente, a produção de petróleo, superior a mil e oitocentos barris, ou sejam, cerca de duzentos mil cruzeiros diários.

O referido poço, é o maior do Brasil, têm a profundidade de setenta metros, custaram seus trabalhos de perfuração apenas seiscentos mil cruzeiros, e, pelas comprovadas características de produção e pelas excelentes qualidades do produto, é um dos mais importantes do mundo!

Cabe agora, ao governo da União, apoiar, proteger e garantir o seguimento e as explorações dessa ordem. Já prevemos que todas as providências serão desdobradas e antevemos que, na realidade, teremos distilada a gazolina nacional, e, outros produtos oriundos do “óleo negro”.

Esta terra não desaponta, os que por ela trabalham ou os que a lavram, e, aí temos uma das mais convincentes provas, parte do grande rosário de eloquências, que constantemente estamos provando com justo e paradigmo orgulho.

Extraído da primeira página do Correio de Marília de 2 de outubro de 1946, quando José Arnaldo ainda assinava José Padilla Bravos, seu nome de batismo.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Amôr à terra (1º de outubro de 1946)

Ainda podemos encarar este Brasil com otimismo, em quase todos os seus pontos de vista naturais.

É bom demais, e é pena, que alguns nativos desnaturados ou alguns estrangeiros mal agradecidos ou menos reconhecidos, queiram levá-lo ao jugo autoritário de doutrinas exóticas, apunhalando-o pelas costas, traiçoeira e covardemente.

Verdade, é que temos as nossas falhas, que jamais fugimos em reconhecê-las. Pelo contrário, temos o desprezível hábito de desvalorizar e desmoralizar o que é nosso próprio, mesmo o que ainda possue algum valor e algum moral.

E a arma que empunha essa classe de indivíduos, para lutar conôsco mesmo e com o Brasil, é a difamação, a calúnia, o anonimato e outras do mesmo ról.

Mas, nossos atrazos na modernização do século, tem suas justificativas, e, qualquer pessôa de bom senso não se esvairá em aceitar ou reconhecer.

Em primeiro lugar, nossa terra foi descoberta, explorada, abandonada por mais de meio século, onde se transformou num covil de ladrões e aventureiros. Depois, muito tempo continuou-se a explorar êste sólo, rudimentarmente, sem pressa alguma. O Brasil tornou-se terra de exílio, de aventuras, de explorações.

O Brasil é demasiado grande territorialmente, e os homens que lutaram por êle nas fáses iniciais, foram poucos e o fizeram sósinhos.

O brasileiro é o típo do “deixa como está para ver como fica”, inegavelmente. Portanto, não se teçam comparações com êste ou aquele país, quanto ao desenvolvimento. A culpa é nossa, que somos um povo inculto, uma população quase integralmente analfabeta. Porisso mesmo, u’a mentalidade incapaz de traduzir para nós próprios, as nossas necessidades prementes, o papel do nosso próprio futuro. É uma espécie de preguiça mental, que só agora ameaça a ser interpretada e excluida, para que possamos integrar a mesma marcha do mundo contemporâneo.

Esperamos e confiamos muito nos estranhos e experimentámos uma série de contratempos, que poderiam ser evitados, se nós próprios houvessemos nos preocupado um pouco mais, com “estas terras que têm dono”.

Um século atraz, o número dos brasileiros, excluindo os indígenas, éra ínfimo. Ínfimo e ignorante. Os estrangeiros vieram para se enriquecer e não para levantar o nível do Brasil, que descoberto apenas oito anos à América, já se encontrava numa fáse de atrazo, proporcionalmente e idêntica à que hoje nos diverge dos Estados Unidos!

Fomos um povo pobre e miserável da luz do saber. Agora principiamos a compreender realmente, o que é o amôr à terra.

Compreendendo isso, de que nossa pátria reenceta o verdadeiro caminho de seu porvir, esses elementos traidores, tentam os últimos recursos, procurando convencer os que ainda não concluiram a mesma razão de que de fato “ésta terra têm dono”.

Mas agora é tarde. Os que sonharam azoinadamente, entregar estas plagas à outros povos e outros costumes estão vendo e assistindo, telepaticamente, o desmoronamento desses castelos e o andamento do próprio funeral dessas ilusões.

Este Brasil sempre há de ser brasileiro!

Extraído da primeira página do Correio de Marília de 1º de outubro de 1946, quando José Arnaldo ainda assinava José Padilla Bravos, seu nome de batismo.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Marília industrial (18 de setembro de 1946)

Vi há pouco, num matutino paulista, uma demonstração estatística das indústrias no Estado de São Paulo.

Foi pena, entretanto, que a referida exposição se prendesse ao exercício findo em 1944, sendo que nós já avançamos cerca de dois anos dessa alusão. Eu disse “foi pena”, porque gostaria que o citado relato dissesse respeito ao exercício cadente e mitigasse a natural curiosidade, que em mim nasceu no mesmo sentido.

Relativamente, é fantástico. Marília é uma “cidade menina”, que se apóia agora, na tentativa difícil dos primeiros passos. Principia a florescer, desabrochando agora, acordando para o próprio e vertiginoso progresso.

Disso, todos nós nos ufanamos, com um orgulho justíssimo e profundo, e estamos helmeticamente certos, de que, ser mariliense, autêntico ou não, é um motivo impendivel de satisfação e orgulho.

E é mesmo, incontestavelmente. Qualquer pessoa que arfa com estes ares, pugnará por estas paragens acolhedoras e exuberantes.

Marilia deixou atraz, quase a totalidade de suas irmãs mais velhas. Em quase todos os ângulos de suas atividades. Está escrito no próprio livro da evolução de nosso hinterlandio, que nada deterá a marcha de Marília, para o apogeu metropolitano do progresso de nossos dias.

Pela demonstração em apreço, Marília, como cidade industrial paulista, coloca-se sobressaentemente, em quinto lugar, com quatrocentos e dezenove estabelecimentos industriais!

Precedem-na a Capital Bandeirante, com 11.491 estabelecimentos de industria; depois Santos com seiscentos e trinta, Santo André com quinhentos e oitenta e quatro e Campinas com quatrocentos e vinte e quatro!

A própria Sorocaba, alcunhada de “cidade industrial”, apezar de aconchegar mais de dezessete mil operários, está em nono lugar no Estado.

O número dos operários industriais marilienses, de acordo com a estatística em tópico, é de cerca de seis mil.

Para uma cidade de apenas vinte anos de vida, isso é progresso, na real acepção da palavra!

Extraído da primeira página do Correio de Marília de 18 de setembro de 1946, quando José Arnaldo ainda assinava José Padilla Bravos, seu nome de batismo, e era redator-secretário do jornal.