terça-feira, 24 de maio de 2016

Bate papo com um caboclo (24 de maio de 1983)

Comentei, em especial, um bate papo estabelecido com um caboclo, possivelmente analfabeto de pai e mãe.

Como havia dito, em se tratando de um homem de pouca escolaridade, por isso mesmo uma pessoa inculta, mesmo com seu linguajar distanciado da gramática e da pronúncia vernacular exata, vi no caipira um espírito arguto e uma criatura de profundo sentido observatório.

Dentre outras coisas e além dos motivos por mim revelados, disseram-me outros pensamentos através de sua palestra espontânea e de certa forma previamente sensata.

Por exemplo:

- Parece que o eleitorado brasileiro não está ainda convenientemente preparado para a abertura política local. Ele ainda vota em barganha, em coronéis, em pessoas que prometem empregos ou vantagens.

- O Governo da Revolução está certo. Quem não está certo é o escalão de seus administradores e ajudantes. Estes, ou ocultam do Governo a verdade, ou distorcem os fatos e informam de maneira errônea, porque não é acreditável que o Governo tenha conhecimento da realidade dos fatos e de como vivem os brasileiros em geral.

- Durante o tempo em que prevaleceu o Governo da Revolução, desprezando-se as mamatas e as mordomias, o povo viveu melhor. Não se falava em assaltos a bancos e nem a postos de gasolina. Nem em greves seguidas e em todos os setores da vida que o povo necessita. Agora, não. Apenas falou-se em abertura democrática e todo mundo passou a badernar, roubando, assaltando, fazendo e provocando greves e entraves à vida de todos os cidadãos. E, como sempre, sendo que a corda arrebenta do lado mais fraco, os efeitos principais recaem sobre os costados dos pobres e miseráveis.

Prosseguiu o paraibano deste colóquio:

- O Brasil precisa de pena de morte, para punir os ladroes e criminosos, aqueles que violentam mulheres e crianças, aqueles que matam e roubam bancos e postos de gasolina, aqueles que assaltam e colocam em polvorosa toda a população.

- Para falar a verdade, sou a favor do esquadrão da morte.

Estranhei e quis saber por que e o caboclo completou seu pensamento, dizendo:

- Sou a favor do esquadrão da morte e também do mão branca, porque entre todos os crimes que essas duas forças tenham praticado, não figura homem de bem, nenhuma pessoa de bons princípios e costumes. Só bandidos, criminosos comprovados e desconhecidos do arquivo do crime, é que foram mortos. Daí, significa uma limpeza e uma garantia aos bons e trabalhadores, com a eliminação dos que, por conta própria, não querem enquadrar-se no caminho da decência e da dignidade dos homens que trabalham e ajudam o crescimento da Pátria.

Arrematou o nordestino que esteve em Minas e no Paraná:

- Inda agora, a televisão (ele tem tevê preto e branco, confessou) está fazendo uma campanha para saber como vai viver o brasileiro no ano 2.000. Essa campanha nem precisa ser feita. O que precisa é garantia e segurança. Segurança, sim. Com segurança o brasileiro se vira, dá um jeitinho em plantar, em melhorar a vida, dá um jeito de viver acertadamente. Mas precisa segurança, para que a mulher dele possa sair para o trabalho ou para fazer compras, para que os filhos possam ir sossegados para a escola, para que o homem possa viajar e se locomover tranquilo, para que não existam assaltantes em bancos, para que não haja violências sexuais e para que todos vivam tranquilos em seus trabalhos, especialmente em sua casa. Só com essa segurança o brasileiro viverá. E essa segurança só será possível desde que haja uma pena capital, para acabar com os bandidos – finalizou o paraibano.

Extraído do Correio de Marília de 24 de maio de 1983

domingo, 22 de maio de 2016

A maioria não (22 de maio de 1983)

Deus fez o mundo em seis dias. No sétimo, descansou, após concluída a grande tarefa.

Hoje é domingo, dia de descanso. Para a maioria. Há os que não descansam, que estão no batente, por questões obvias e atinentes de deveres próprios.

A maioria, não. A maioria não agarra hoje. Não trampa, como dizem os giriomaniacos.

Mas há uma outra maioria. Essa, a que consegue descansar de segunda a domingo, de janeiro a dezembro, ininterruptamente. Esse só engana que trabalha. E que, indiscutivelmente, vive melhor, bem melhor, do que os que trabalham no duro, de sol a sol, de segunda a domingo, de janeiro a dezembro.

Como é dia descanso, coluna descansa do rotineiro, de sua linha habitual, de sua conduta normal.

Nada de citar-se as altas de preços, as elevações do custo da gasolina. Nada de comentar as teorias do Ministro Delfim Neto, sua numerologia equacional, aquela que sem solução equacionatória para o zé povinho.

Zé povinho vai assistir futebol hoje. Santos e Mengo, dois dos bons de bola. Escriba, firme na paçoca, torcendo para o Peixe, mesmo porque não sintoniza bem com a máscara da gente da cariocolandia.

Certo Zico é bom. Mas Serginho é melhor. Mengo é time grande, mas Santos é time igualmente grande e igualmente importante.

São onze a onze, no Morumbizão.

Hoje é domingo, dia de descanso. Deus fez o mundo e descansou. Será que o Criador teria conjecturado de que o mundo, depois de 1983 anos do nascimento de Cristo, iria ser assim?

Que o Governo líbio iria exigir do Governo brasileiro o retorno de armas nos aviões que invadiram o território tupiniquim, pura e simplesmente como se fôra um Napoleão do passado ou um Hitler contemporâneo?

Teria conjecturado o Criador que nesta época de cerca de dois milênios do nascimento de Jesus, haveriam Delfins, Cals, Andreazzas, Shigeakis, Pennas, Stábiles e outros bichinhos que tais?

Hoje é domingo, dia de descanso. Porisso, coluna descansa também e não vai se preocupar com nada de nadinha. Nem com os 130% de aumento nas mensalidades das casas populares. Bóta popularidade nisso.

Nem siquer coluna vai abordar o infamante assunto e a benevolência medida, que concedeu aos aposentados parlamentares um aumentozinho de 1.113% em seus vencimentos polpudos, gratificantes, bojudos e generosamente legais.

Nada se contenta, nada se fomenta, nada se enfoca. Mesmo porque todos esses desmandos decorrem de providencia ou medida parlamentar. O que é sem sombra de duvida para lamentar!

Deus criou o mundo em seis dias, descansou no sétimo. É a história. Sacra história. Bíblica história. Evangélica história.

Os norte-americanos pintam as caras dos índios com barro. Adão foi feito de barro, para os pessepistas, que ainda estão aí, nada A de mar de Barros. Também é história. E estória.

Adão feito de barro. Eva manufaturada de uma costela de Adão. Eva, a única criatura sem umbigo. Ela não teve qualquer ligação via cordão umbilical.

Hoje é domingo. Dia de descanso. Nada se fale sobre os problemas brasileiros. Mesmo porque são muitos. Mesmo porque eles, os problemas, se resolvem com cifras, números e teorias. Não faz o jogo do escriba. Nem dos brasileiros em geral.

Para isso dispomos do Delfim. De mau fim.

Então, fim.

Extraído do Correio de Marília de 22 de maio de 1983

sábado, 21 de maio de 2016

A emoção da primeira vez numa redação de jornal (21 de maio de 1983)

Quando, pela primeira vez, fui ter à redação de um jornal, minha emoção se irradiava com a mais absoluta certeza. A expectativa transpirava, mesclada de um certo temor e enorme ansiedade. Levava na mão duas colaborações manuscritas: o fragmento de um miniconto, eivado de um péssimo humorismo e um poema em sextilha – todo calouro em jornalismo ou literatura gosta de escrever poemas e poesias líricas.

Seo Eloy era o redator-chefe, o repórter, o revisor, o diagramador do jornal. Tinha que ser um eclético, porque o proprietário do hebdomadário tinha outras atividades e naquele tempo, ser dono de jornal era apenas um “status”, somente que mais elevado e mais dignificante do que ser proprietário de um barra ou um empório.

Pediu-me que deixasse os originais, pois ele estava muito ocupado. Que passasse dias após, para saber o que ele pensaria dos escritos. Agradeci, com um sorriso amarelo, e saí.

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Dois dias após, voltei ao jornal. Seo Eloy me recebeu de modo diferente. Mais acessível do que da ocasião anterior. Disse que o miniconto era fraco, mas aceitável. Que o poema tinha dois pés quebrados e precisava ser reformado. E passou a palestrar comigo, ele que era sizudo e bastante fechado. “Você vai ter que gastar muitos lápis, até aprender a escrever. Seu português não é dos piores e a ideia dá para pegar. Falta prática, tarimba. Falta escola da vida. Na escola da vida a gente aprende filosofia diferente daquela que se ensina nas escolas e nas faculdades...”.

Gravei e guardei. Sempre observo e sinto isso. Considero-me bem bagageado de filosofia da escola da vida. E vejo, geralmente, que as pessoas mais idosas e mais sofridas na vida, são detentoras de maior dose dessa filosofia. Parece que “envergam” mais, que “pressentem” mais, que “analisam” mais do que o comum. Uma espécie de um outro sentido. Coisa assim, mais ou menos. É só observar e constatar.

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Dias outro palestrei com um caboclo. Me pareceu analfabeto, mas não perguntei se o era. Sofrido, vivido. Contou-me sua odisseia de emigrante do Estado da Paraíba para Minas e de Minas para Barretos, passando por Jaú e indo para o Paraná, para regressar e fixar-se na região de Lins e Marília. Falando compassadamente, percebendo-se que “estuda” o que vai dizer. Seu dialogo, desprezando-se os erros de vernáculo e a deturpação de substantivos, tornou-se-me agradável.

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Vejam que espécie de raciocínio demonstrou, ao referir-se a conjuntura atual (de maio de 1983):

As casas próprias do BNH fazem parte da responsabilidade do esvaziamento das lavouras. Enganam pelas aparências. Os trabalhadores rurais mudam para a cidade, iludidos com o lar próprio. Ganham pouco, passam necessidades, mas habituam-se à vida que mudaram e nunca mais se decidirão a voltar para a roça.

Muitos fazendeiros desestimulam os trabalhadores, cobrando-lhes alugueis, lenha, luz e até o livro de leite.

A assistência médica para os agricultores é muito falha, muito difícil de se conseguir e, quando se consegue, os que servem os roceiros parece que estão prestando santos favores, como se os trabalhadores pudessem ser seres humanos desprezíveis ou diferentes.

O próprio Governo é um grande comerciante. Ele visa lucros, só lucros. O imposto dos cigarros é uma prova. A parte maior do dinheiro das loterias é outra. Sobe o preço de tudo o que é do Governo muitas vezes por ano. Por isso o Governo não tem forças e nem meios para evitar essa inflação, que está aniquilando os brasileiros e está levando o Brasil ao caos, pois os exemplos de lucros partem dele...

Extraído do Correio de Marília de 21 de maio de 1983

quinta-feira, 19 de maio de 2016

1934 ou 1935? (19 de maio de 1983)

1934 ou 1935, era o ano. Não consigo precisar muito bem, pois eu era criança ainda e o enfoque que aqui passarei a referir, não exercia sobre mim nenhum fascínio e nem tão pouco me motivava.

Visava-se eleger o Presidente do Estado de São Paulo – naquela época era Presidente e não Governador. Me parece que Júlio Prestes era o candidato forte. O outro, se não me falha a memoria, era o Campos Salles. Isso não importa, deixemo-lo para lá.

Os partidos eram dois. O PRP – Partido Republicano Paulista – e o Partido Constitucionalista, PC.

Os homens só falavam sobre as eleições. O eleitor, regra geral, era menos culto que o de hoje (1983). Isto, vale lembrar, que as eleições só poderiam ser bagunçadas e de péssimas escolas. O interesse era o mesmo de hoje: vantagens e empregos. Lembro que um amigo de meu pai, semianalfabeto, que nem siquer sabia o que é um comprimido de aspirina, que nenhuma noção tinha sobre farmácia, laboratório ou medicina, fôra nomeado pelo Governo, Chefe do Centro de Saúde.

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Meu tio Gabriel foi ter em minha casa, cedinho. Ele era doidinho por política e era lenista roxo. Eu não sabia o que era isso, mas ele conversava muito sobre comunismo, Lenis e Stalin. Sua pretensão era ser sub-delegado de polícia. O partido pelo qual se esbaldou perdeu as eleições e o sub-delegado de polícia nomeado foi um açougueiro. Recordo que esse fato o deixou muito irritado.

Como dizia, meu tio veio convidar-me para as eleições. Eu nada sabia de eleições. Só pensei na possibilidade de passear, de ir à cidade. Troquei de roupa incontinente, afundei o chapeuzinho velho na cabeça e acompanhei o tio, que para mim era um super homem. Meu primo Antônio estava junto e eu fiquei com inveja, porque ele usava um “pé-de-anjo” (espécie de tênis branco) e eu andava descalço.

Enquanto caminhávamos, o Antônio dizia que iríamos comer “comida de hotel” e beber guaraná e ainda chupar sorvete. Tudo por conta das eleições, dizia ele com ênfase. Aquilo me deliciava muito e me dava a sensação de antever um manjar dos deuses.

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Votava-se na Prefeitura. Só uma urna. Discutia-se sobre os candidatos ali mesmo e isso não era proibido. O voto, mesmo secreto, identificava-se. Quase todos os eleitores e cabos eleitorais ostentavam os distintivos dos partidos nas lapelas dos paletós.

Eu estava com fome. Seriam umas onze horas e no sítio o almoço era comumente por volta das 9. Ademais, a expectativa de almoçar “comida de hotel” me aguçava a voracidade do apetite.

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Finda a operação do voto, dirigimo-nos os três para o hotel, afim de almoçarmos. Eu não cabia em mim de contentamento.

Meu tio entregou as senhas da bóia e nos sentamos à mesa.

Veio o almoço: feijão, arroz, ovo frito, bife e sala de alface com tomate. E pão, coisa que eu dificilmente te tinha chance de saborear (no sítio a gente não tinha condições para comprar farinha e era só polenta ou mandioca assada no lugar do pão).

Saciei minha fome. Tomei guaraná, muito alegre, imensamente feliz, julgando-me importante. Para mim, naquele momento, as eleições eram a coisa dadivosa, suprema, majestosa.

A política era uma coisa muito boa – pensei.

E perguntei ao meu tio, todo contente:

- Tio, o que é política?

Ele olhou para mim, por certo tendo percebido que iria perder as eleições e respondeu irado:

- Política, política é uma M...

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Estava lendo pouco antes de escrever esta matéria, algo sobre os acordos e acertos entre o PDS e o PTB e então lembrei-me da explicação de meu tio Gabriel.

Por que será?


Extraído do Correio de Marília de 19 de maio de 1983

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Pensamento temerário (18 de maio de 1983)

Este pensamento é até algo temerário. Mas, como tem sido invariavelmente acertado, aqui à lume.

Matéria esta foi escrita ontem (17/5/1983), no período matutino. Todo mundo sabia que o Ministro Delfim Neto iria ainda, no mesmo dia de ontem, entrevistar-se com os ocupantes das macias poltronas vermelhas do Senado Federal. Para uma exposição de motivos – o jeito inofensivo e elegante de justificação.

O palpite deste pensamento: vai ficar tudo na mesma.

Com absoluta certeza, o Ministro chapiscará golfadas de otimismo, pintará tudo cor de rosa e os Senadores, como sempre, ficarão satisfeitos com as explicações – engolindo a isca, o anzol e a chumbada.

Só que, cá em baixo, o zé povinho, este não ficará satisfeito. Apenas porque ele, o zé povinho, tem o péssimo defeito de não comer cifras, números, teorias e explicações que lhe não enchem a barriga.

Se, em contrário, o resultado for outro, ou, então, inverso, aqui vai a propositura de desculpa em tempo hábil e tempestivamente. E o pedido de perdão pelo citado e precipitado atrevimento racional. Será, por certo, o primeiro erro comprovado de pensamento que tal. “Sorry”.

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Preço de gasolina vai subir novamente. Com ele, o óleo diesel. O gás liquefeito. E também a carne, o pão, o leite, os transportes, os medicamentos, a educação, os hospitais, o vestuário, os calcados, as mensalidades escolares, tudo. Tudinho.

Mas tem nada, não.

Delfins, Ozieis, Galvêas, Cals, Shigeakis, estes aparecerão ante as câmeras de tevê para explicar ao povo, que tudo esta certo, que tudo está bem, tudo azul, com pintinhas da mesma cor.

Os burros, como o escriba e muitos milhares de outros, que se danem e que caminhem para o diabo. Quem foi que mandou eles não estudarem para entender teorias?

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Maninho, observe só: tem fila de supermercados, povo grita. Tem fila de INPS, povo esperneia. Tem fila de açougue, povo bronqueia. Tem fila para receber pagamento mensal – pagamento mixuruca, bem entendido – povo reclama. Tem fila para candidatar-se a trabalho, reclamações idem.

Filas que o povo não reclama: para fazer loteria esportiva, para fazer aposta de loto, para comprar ingresso em campo de futebol.

“Tâmu qui tamu”.

“Vâmu qui tâmu”.

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Palpite para o prefeito Camarinha: Rua Bahia, em trecho compreendido desde a Avenida Sampaio Vidal (defronte a Prefeitura), até imediações da Avenida Feijó (próximo à passagem inferior de nível), comporta – com certeza – canteiros ou ilhas centrais.

Trata-se de uma rua larga, movimentada. Os pedestres chegam a passar maus bocados para cruzá-la. Devido aos motoristas que se julgam Piquets, Fittipaldis. Motorista e motoqueiro, ali, “larga o pau” para valer.

Dá até para pensar que muito motorista, desses do tipo que pisam no acelerador, só para ver pedestre amarelar e correr, quando nasceu já veio ao mundo dentro de um carrão, sentados atrás do volante e fincando o pé no acelerador!

Vão ter raiva de pedestre assim lá nas porteiras do inferno, sô!


Extraído do Correio de Marília de 18 de maio de 1983

terça-feira, 17 de maio de 2016

Burlando a lei (17 de maio de 1983)

Por certo, em todos os países do mundo muitos habitantes dessas mesmas nações esmeram-se, estudam, colimam e cogitam e acabam burlando as leis.

Também, por certo, poucos serão os países onde seus habitantes conseguem perder para os brasileiros. Maninho, aqui “o barato”, o “status”, a “tradição”, o “tradicionalismo”, é infringir, pisotear, desrespeitar e ignorar a lei. Nisso o nacional ganha de goleada, nadando de braçadas. Genericamente falando, entendido fique.

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Você entra em um elevador. Tem lá uma plaquetinha com a inscrição “é proibido fumar”. Pode notar, que, invariavelmente, tem um cabeça de bagre com um cigarro senão na boca, pelo menos entre os dedos.

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Código Nacional de Trânsito proíbe terminantemente as condições do tipo motocicleta e similares de trafegarem sem o miolo nos canos de escape. Note que o que é mais difícil é perceber-se ou encontrar-se uma motoca com o miolo do escapamento.

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Desde 1934, o então presidente Getúlio Dornelles Vargas preconizava e até decretava um diploma impedindo o desmatamento indiscriminado e a formação de um grande deserto, tomando conta de todo o Brasil. Daí, então, é que partiu a esculhambação geral e generalizada e nosso país está se transformando num grande Saara.

Foram criadas empresas destinadas a reflorestar, inclusive desfrutando de vantagens como incentivos fiscais e encaminhamentos de importâncias advindas de deduções de recolhimentos de impostos sobre rendimentos.

Deu no que deu. Basta ser lei para a gente fazer o contrário do previsto legalmente.

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Não é permitido andar armado. Todo mundo anda.

É proibido fumar maconha. Fuma-se à miguelão.

Uso de cocaína, psicotrópicos outros é ilegal. Mas tem gente “assim” praticando os delitos.

Sabiá é a ave-símbolo nacional. A lei protege-a e prevê até castigos e cadeias para quem destrua. Mas a turma não tá nem aí e a espécie está acabando.

É proibido pescar com apetrechos que destroem a fauna sem piedade e sem discriminação. Ninguém liga.

E assim por diante.

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No que tange à fabricação de desertos, o Governo Federal deve botar a mão em cima do problema, com urgência. Urgência, urgentíssima. Porque ninguém liga, ninguém tem amor à terra. O Brasil, uma das maiores reservas madeireiras do mundo até uns vinte anos passados, segue lépido o rumo da desordem. E, se continuar assim, dentro de vinte ou mais anos, terá que importar madeiras do exterior, para os mais simples e comezinhos usos de seu avanço tecnológico e arquitetônico.

Podem notar.

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Governo precisa fazer isso com urgência. Urgência, urgentíssima.

Maninho, cê qui é vereador aqui em Marília, bole um troço e encaminhe, via Câmara, ao Governador Montoro. Para que envie projeto de lei à Assembleia dispondo que em todo o Estado de São Paulo, qualquer propriedade rural, seja qual for a sua dimensão, seja obrigada a manter uma reserva de matas, de, no mínimo, um quinto do total da área.

E que essa reserva, quando necessária e justificadamente tenha que ser utilizada, que se providencie, aprioristicamente, plantação ou replantação de igual área, para que sempre exista no mínimo um quinto da totalidade da gleba apresentando mata.

Partiria de Marília mais essa ideia e de São Paulo um patriótico exemplo.


Extraído do Correio de Marília de 17 de maio de 1983

domingo, 15 de maio de 2016

A liberdade de imprensa (15 de maio de 1983)

O deputado Paulo Mincarone, do PMDB do Rio Grande do Sul, vem de apresentar na Câmara Federal, um projeto oportuno, necessariamente oportuno e que diz respeito direto ao exercício profissional de jornalistas.

O referido projeto assegura o acesso de jornalistas profissionais a todos os órgãos públicos e entidades oficiais, independente de licença ou credenciamento de qualquer autoridade.

Na exposição de motivos justificadores da apresentação de citada propositura, o parlamentar gaúcho argumentou: “chegou-se a uma forma requintada de cercear a liberdade de imprensa com a cassação 
de credenciais e a proibição de circulação de jornalistas em órgãos públicos”.

Referido projeto disciplina também o acesso à documentos ostensivos e exclue de sua aplicação os estabelecimentos militares de qualquer natureza e os órgãos e serviços de informação, que exerçam atividades de caráter reservado, sigiloso ou secreto.

Muito boa, justa e adequada a medida. Resta que a Câmara a aprove, pois sua vigência será, sem favor algum, um ponto básico que justifique em todas as dimensões a decantada abertura democrática totalmente ampla.

O exercício da profissão de jornalista, como meio indesviável da comunicação, deve ser livre e amparado legalmente. Só assim o profissional consciente e responsável, pode ficar à vontade para emitir conceitos, opiniões e informações.

Para alguns que pensam que jornalista é imune e impunível, enganam-se. Os poderosos, os melindrosos, os egocêntricos, os endeusados, os pretensiosos, os mandões, esses agem mal e agindo mal não aceitam sejam criticados ou denunciados. Daí o aparecimento de processos-crimes, fundamentados na Lei de Imprensa, intermitentemente movidos contra honrados profissionais, que nada mais fazem do que simplesmente cumprir seus deveres de elementos comunicadores.

Esses fatos traduzem-se em cerceamento de liberdade de imprensa e tentam e tendem a marginalizar, bitolar, restringir e atrelar os jornalistas a interesses, conveniências ou até imposições de terceiros.

Seria de bom alvitre que entidades congregadoras dos jornalistas profissionais, como a Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais, cujo presidente recém-eleito é o companheiro e deputado federal Audálio Dantas, bem como os Sindicatos de Jornalistas de todos os Estados, louvassem o gesto do parlamentar gaúcho. E, por suas vezes, apelassem par a Câmara para que venha a votar favoravelmente tal propositura.

Pessoalmente, daqui, fica lançado o apelo, mesmo que isoladamente.

Não se pode conceber uma democracia onde o jornalista não tenha liberdade ampla de locomoção e condições de pesquisas, para o desempenho e correta desobrigação de seus deveres para com o povo que serve. O leitor, quando abre o jornal, está instintivamente   botando fé e depositando confiança no que lê, isto é, está acreditando no trabalho do jornalista. Por isso, este deve ter liberdade para comunicar e o referido projeto de lei, embora muita gente não saiba, representa uma credencial, um autêntico passaporte.

Extraído do Correio de Marília de 15 de maio de 1983

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Por ar ou por mar? (12 de maio de 1983)

Sempre assim.

A morola briga com a pedreira e quem paga o pato é o siri.

Os líbios arrumaram essa encrenca dos diabos, que todo mundo conhece, inclusive eles próprios. Os aviões da Alitalia pediram ao Governo brasileiro a bagatela de 150 mil dólares para transportar o armamento. Agora vai por mar mesmo. Fica um pouco mais em conta.

Não representa uma boa economia para a gente?

Bah.

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Sinceramente.

Sob alguns aspectos, parece que o movimento de alguns escalões da autoridade e da própria administração superior, não tem lá os resquícios de sinceridade que de inicio poderia parecer.

Com todo o patriotismo que a gente pode dispor, não dá para se acreditar que exista mais lealdade e interesse nacional, do que conveniências de alguns. Por mais que a gente bote fé no Presidente Figueiredo, humano e patriota como é, fica aí um leve desconfiar, que há interessados em sua continuidade, sem o patriotismo e a brasilidade incontestáveis do General João Baptista.

Sendo assim, há intentos outros. E não se podem jamais atribuir ao honrado Presidente – hoje mal assessorado no entender de milhares – que fica imune e naturalmente inocentado.

Tem gato na tuba. Não sai porque não quer. Nem assoprando.

Tem.

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Reforço este do pensamento acima:

Ministro Cesar Cals, das Minas e Energia. Parece ser o comandante em chefe do movimento pró-reeleição do General Figueiredo. Se fora o envolvimento de um crime e se tal se jurisprudenciasse via de dispositivos do Código Penal, o Ministro seria considerado como réu confesso.

Deixe-se isso prá lá.

Ministro Cesar Cals, ele próprio, sem ficar siquer vermelho, afirmou dia outro:

Está ele (o Ministro) estudando alternativas contábeis para a Petrobrás não dar prejuízo no primeiro trimestre do ano!

Juro que li algures declarações essa.

Desculpe, leitor, meu “pudor patriótico” – se é que se pode utilizar semelhante termo. Desculpe, rogo, pois pequei em cima da bucha, quando me inteirei desse propósito do Ministro: o de estudar “alternativas contábeis” para evitar que a Petrobrás dê prejuízo no primeiro trimestre!

O bisametro da informática foi proposital. Para ficar bem gravado, bem claro, sem quaisquer dúvidas.

Então pequei. Pequei em raciocínio sim.

Meu pecado (em pensamento):

- Num país que se diz sério como o nosso, a autoridade da administração central, admitindo e confessando manobras destinada a enganar a opinião pública, não seria sumamente digna de receber bilhete azul?

Tudo bem. “Vâmu qui vâmu”. Legal. “Tâmu qui tâmu”.

Enquanto vivermos essas duas tradições indestrutíveis:

1.      Faça o que eu mando, não faça o que eu faço.

2.      Sabe com quem está falando?


Extraído do Correio de Marília de 12 de maio de 1983

terça-feira, 10 de maio de 2016

38º. aniversário do fim da II Guerra (10 de maio de 1983)

Por determinação do General Walter Pires, Ministro do Exército, as comemorações militares referentes ao transcurso do 38º. Aniversário do final da II Guerra na Europa, ocorrido domingo último (8 de maio de 1983), foram antecipadas para sexta-feira passada, afim de deixar livres as comemorações do Dia das Mães.

O ato, ressaltado em Ordem do Dia Especial do referido Ministro, foi marcado em todos os Quartéis e na maioria deles, os ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira se fizeram representados.

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Uma delegação de pracinhas marilienses, atendendo convite especial, formulado pelo Tenente Coronel Guedes, comandante do 37º. Batalhão de Infantaria Motorizado, sediado em Lins, ali compareceu, sob o comando do Major Lyra.

Eu participei, como de vezes anteriores, desse acontecimento.

Embora muito falte ainda, para que os Governos amparem condignamente seus heróis da FEB, mesmo de passados 38 anos do final da guerra, são confortadoras essas homenagens que os pracinhas recebem dos militares ativos do Exército.

A cordialidade, o carinho, a afetividade, o respeito e a admiração se traduzem diretas e tocantes. A justificativa é concreta, pois o soldado do Exército e o praça ou oficial que são militares por profissão, estão mais capazes de interpretar, de entender, de compreender, de assimilar o que seja um soldado em combate, do que determinados outros cidadãos civis, que, por forças circunstanciais, são indiferentes e alheios à vivência militar.

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Pracinhas de Marília, Araçatuba, Bauru e São José do Rio Preto, enquadrados na região abrangida pelo comando do 37º. BIMtz, ali compareceram. Participaram, não como visitantes, mas sim como soldados, de todas solenidades internas e oficiais.

Formaram-se em pelotões, assistiram a leitura da Ordem do Dia Especial, participaram do hasteamento da Bandeira, das demonstrações do efetivo da tropa, desfilaram e foram passados em revista pelo Comandante do Batalhão, presente e recebendo continências pois é taxativamente obrigatório essa saudação oficial e hierárquica, pelos ex-combatentes, quando cobertos, isto é, com o uso das boinas verdes, que, de direito, representam o uniforme verde-oliva do Exército Nacional.

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O espetáculo foi maravilhoso. Especialmente para os ex-combatentes, que se sentem bem, desfrutando aquela tradicional camaradagem de caserna. Há o lado emocional que são os reencontros com amigos que por vezes não se contactam há dezenas passadas, nas agruras da famigerada guerra. As recordações de amigos desaparecidos e o recordar de comprovadas provas de solidariedade humana e fidelidade patriótica.

Com esse registro, a renovação da gratidão do Comando, Estado Maior, Oficiais e Praças do 37º. BIMtz, uma admirável plêiade de militares-cavalheiros.

E também – como não poderia deixar de ser – ao oficial e praças do “rancho” pela deliciosa e suculenta feijoada que proporcionaram a todos nós, pracinhas e familiares.


Extraído do Correio de Marília de 10 de maio de 1983

domingo, 8 de maio de 2016

A senhora morreu com sede, mamãe? (08 de maio de 1983)

O velho-novo espanhol, imigrante e semianalfabeto, era pai de sete filhos, em vésperas do oitavo. 

Manoel, era o seu nome. Os anos de 1931, 1932 e 1933, ele os havia passado na mesma fazenda, como colono, “tocando” seis mil pés de café velho e bem formado.

Ele e a mulher, a Josefa, davam duro no cafezal, de sol a sol. A mulher levantava invariavelmente às quatro da manhã, fazia o café e o almoço. O homem ia cedinho para a lavoura e a esposa depois de cuidar da casa, alimentar as crianças – que deixava aos cuidados da  mais velha das mulheres, a Isaura, de 8 anos – levava o almoço para o marido e lá ficava até o sol apresentar duas braças de fora. 

Então regressava para casa.

Zéca era o filho mais velho. Tinha cerca de 11 anos, mas não parecia tanto, pois era magrinho, pequeno, quase raquítico. Trabalhava de sol a sol. Ele e o Joaquim, um negrinho que era seu “irmão de criação”, cortavam diariamente lenha nos pastos, que vendiam em carro-de-boi na cidade 12 quilômetros dali.

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Com aquiescência do fazendeiro, o Manoel plantava feijão e milho nos vãos de uma pequena horta, que lhe fornecia tomates, verduras e outras “misturas” para o feijão-com-arroz, durante o ano inteiro. 

Trabalhador persistente, criava sempre seus porquinhos “para o gasto”. Vinte e dois a vinte e cinco carros de lenha eram vendidos por mês, a 8, 10 e 12 mil réis. Isso representava sempre um dinheirinho guardado e reservado. E o Manoel, por economia e segurança, deixava “na mão” do patrão, todos os pagamentos bimensais, para receber com o “pagamento geral”, após a colheita do café.

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Não tanto cansado, mas muito mais preocupado com o futuro dos filhos, o espanhol tencionava abandonar a lavoura, transferindo-se para a cidade, onde os rebentos pudessem cursar um grupo escolar.

Cafelândia era onde moravam. Mudaram-se para a cidade, com o fito de aguardar o nascimento do oitavo nenê, para depois transferir a residência em definitivo.

Procurando “dar uma volta” para “estudar” alguma coisa, Manoel tomou um ônibus e veio parar em Marília. Gostou da cidade, mas percebeu que não tinha nenhuma profissão que pudesse exercer num centro em desenvolvimento. Visitou outras pequenas urbes das adjacências e acabou aportando em Vera Cruz. Optou pela cidadezinha simples e que o cativou. Estabeleceu negócio e comprou um bar. 

Deu uma “entrada” (sinal de negócio) e acertou que dentro de determinado tempo, voltaria com a mudança e tomaria posse do estabelecimento. Acabou perdendo o dinheiro empregado e nunca mais retornou a Vera Cruz. O destino fez sua vida mudar.

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Zéca, o garoto, foi avisado de que iria “ganhar” mais um irmão,  ou irmã. Na época certa a mãe de Josefa foi ter em casa do Manoel, pois ela iria incumbir-se de fazer o parto da filha, como havia feito outros.

Mas o caso ficou grave e a sogra pediu que o genro chamasse um médico. O Dr. Edgard Moss compareceu. No próprio quarto do casal, sem qualquer preparo antecipado, precisou executar uma cesária de urgência, imediatamente.

Quando o médico saiu, a mulher estava prestes a morrer. O doutor havia recomendado que não desse água à doente, porque a mesma havia perdido muito sangue.

O menino, assustado, estava próximo ao leito. Os adultos choravam, percebendo o desenlace, mas o menino, nos seus  10 anos de infância e ingenuidade roceira, não atilava muito bem com a dura realidade. A mulher pedia e implorava agua, pelo amor de Deus. O menino teve uma reação súbita: correu à cozinha e não encontrou agua na lata onde sempre havia o líquido para o uso doméstico e para beber. Dirigiu-se na escuridão da noite para o quintal, foi ao poço, desceu o balde ao fundo e começou a girar a manivela com pressa. Apanhou o balde, encheu um canecão feito com uma lata de óleo “Sol Levante” e correu para o quarto. Quando a mãe viu o caneco com agua esforçou-se para estender, mas as mãos dos presentes arrebataram a vasilha, impedindo. O menino chorou, esperneou, pediu. Os familiares, sinceros e respeitosos à ordem do médico, que deveria voltar em seguida, com outro medicamento, não deixaram o garoto dar a água.

A mulher alisou a mão do menino, tentando umedecer os lábios secos. Com os olhos semicerrados, balbuciou ao filho: “... quantas estrelas... bonitas... muito bonitas... um campo azul... muito azul...”.

O menino foi afastado, os familiares desesperaram-se. Choros e gritos. A Josefa morreu.

O menino, o Zéca, sou eu próprio. Indago-me, sozinho, neste 8 de Maio:

- Mamãe, a senhora me perdoa por eu não poder ter-lhe dado a água? A senhora morreu com sede, mamãe?


Extraído do Correio de Marília de 08 de maio de 1983

quinta-feira, 5 de maio de 2016

O santo protetor dos ciclistas (05 de maio de 1983)

Tem ocasiões que eu chego até a pensar, que o Santo protetor dos ciclistas, nasceu em Marília, ou é de Marília ou até pode residir em nossa cidade.

Maninho, o que tem de bicicleta entre nós, que escapa diariamente, minuto a minuto, de morrer debaixo de caminhão, ônibus e automóvel, não está escrito em nenhuma lista telefônica!

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Pessoa de São Paulo, lá nascida e criada. Que dirige seu próprio automóvel na paulicéia, que viaja seguidamente para Santos, Campos do Jordão, Campinas e outros centros esteve dia destes em nossa cidade.

Ficou encucado com o trânsito em Marília. Disse-me não entender três pontos:

A cidade é bonita, agradável, de um povo culto, como provado está pelo número de suas Faculdades e Cursos Superiores.

A sinalização de trânsito é bem feita, bastante visível, facilmente orientadora, discriminando as proibições e permissões de tráfego, as mãos de direção e os locais de estacionamentos.

Ante isso, ele não entendeu, como é que os motoristas marilienses, a maioria deles, age erradamente, atrevidamente, impunemente.

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Quase “bateu” e igualmente quase foi “batido” por outros veículos, que trafegaram arbitrariamente e em condições contrárias ao bom senso, à razão e aos preceitos da Lei.

Seguia pela Avenida, pretendendo descer a Rua Paraná. Fez a competente sinalização, parando ante o sinal fechado. Um chevetinho veio quente, desrespeitou o sinal, cruzou-lhe a frente e virou para direita, causando-lhe enorme susto, pois ele já acelerava o carro para seguir, vez que o sinal se lhe abria.

Observou que carros estacionam no meio fio, sem ligar a seta e comprometendo quem vai atrás, que se vê forçado a dar pequena guinada para ultrapassagem, adentrando com isso o setor de tráfego de mão correta – como é o caso da Avenida, onde podem trafegar dois veículos na mesma mão.

Levou sustos com outros veículos, que, estacionados no meio fio, saem abruptamente para o leito da rua, sem ligar sétas, sem olha no retrovisor, para perceber que outros carros seguem no mesmo sentido. Com isto, forçam freadas bruscas, comprometendo quem vem atrás, que poderá bater no carro atrapalhado de surpresa pela irresponsabilidade daquele que saiu inesperadamente.

Acalmei-o, informando-lhes que eu me havia preocupado com comentários sobre o problema, inúmeras vezes, mas sem resultado, porque, conforme me havia habituado a dizer, eu jamais em minha vida vi um burro motorista, mas em Marília, todo dia vejo muito motorista burro.

É comezinho, o disposto no Código e o sentido na prática, que toda conversão (curva ou virada, para os burros e irresponsáveis), quando é feita para a esquerda, se faz aberta. Aqui é o contrário, com muitos motoristas, que convergem para a esquerda de modo fechado e que viram para a direita de maneira aberta, surpreendendo e colocando em polvorosa os motoristas conscientes.

Nada custa observar essas medidas. Nada custa ligar as setas de direção. Ajudam bastante. Orientam os motoristas que trafegam em sentido contrário; esclarecem os que seguem atrás do veículo dirigido por motorista que sinaliza: avisam e previnem os pedestres e até os irresponsáveis bicicleteiros.

Bicicleteiros e motoqueiros! Cruz, credo. Santa Maria (para a maioria deles)!

DNER fez pesquisa e constatou que Macapá, capital do Amapá, é o local onde se dirige com mais perigo e mais erradamente em todo o Brasil.

Vai ver que tem motorista de Marília dando bandas por lá!


Extraído do Correio de Marília de 05 de maio de 1983

quarta-feira, 4 de maio de 2016

“Bicudo”, não. (04 de maio de 1983)

Matéria de primeira página, da edição de ontem deste jornal, fixou o esclarecimento de autoridade competente, de que não existe qualquer incidente da praga algodoeira conhecida como “bicudo”, em nossa região.

Dizem os entendidos de que o inseto “bicudo” é originário do México e que ninguém sabe de qual maneira o mesmo veio parar no Brasil, tendo já atacado lavouras de algodão de várias regiões do país, inclusive em nosso Estado.

Há línguas que afirmam uma outra estória, de certa forma algo pejorativa. São as pessoas que não acreditam que o “bicudo” tenha sua procedência mexicana e sim que sua oriundade é americana. 

Outros, mais precipitados ou com pré-intenções, veio mais adiante, dando conta de que o referido inseto é norte-americano e que teria sido despejado propositadamente no Brasil, por conveniências e interesses comerciais de empresas multinacionais, operadoras em ramos de inseticidas para as lavouras.

Eu nada sei, por nada entender. Todavia, a matéria ontem publicada pela nossa editoria de agricultura, me enseja o caso de comentar em sentido sugestivo ou opinativo sobre o fato. Fato que é uma praga. Praga que além dos prejuízos diretor à produção algodoeira, acarreta transtornos e contra-tempos, dos mais prejudiciais, à mencionada faixa agrícola.

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Leigo que sou – apesar de criado na roça – por jamais ter operado as práticas atuais da agricultura moderna e mecanizada e somente ter laboriado em lavoura distante hoje separados, vou consignar aqui um palpite.

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Em meu tempo de filho de colono, não existiam o bicho mineiro, a lagarta, nem mesmo o bicudo. A praga em potencial que ataca a cafeicultura era a broca. Só.

Sei que os inseticidas, herbicidas, fungicidas, venenos específicos, adubos, uréias, corretivos, enxofres, calcáreos, sais, etc., custam fortunas. Sei que noventa por cento de comércio que tal, está nas mãos das empresas multinacionais.

Isto vale dizer, que das circunstâncias das imprescindíveis aplicações dessa “medicamentosa” toda, muito dinheiro da lavoura do Brasil, em dimensão incalculável, carreia-se diretamente para o exterior, especialmente os Estados Unidos.

Uma permuta indigesta: dinheiro da agricultura, em troca de inseticidas (etc) para essa mesma agricultura.

Então, o “palpite” (absolutamente de graça).

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Quando os técnicos da Secretaria da Agricultura, perceberem e comprovarem que determinada área está com a plantação algodoeira afetada pelos “bicudos”, fazer apenas isto: entrar em acordo com os proprietários da lavoura (arrendatários, meeiros, o que forem), cercar com acêros a plantação, utilizar lança-chamas do Exército (por exemplo) e queimar toda a lavoura prejudicada pela praga. Ao envés de financiamento , o Governo que arque com uma parte da despesa, os plantadores que percebam que é melhor perder um pouco numa safra do que perder toda a safra num pouco tempo. E no ano imediato, modificar o estilo e tipo da plantação naquele local.

Fazendo-se isso, queimando-se a lavoura contaminada, em todos os pontos onde ela for constatada, o “bicudo” não terá vez por aqui, não.

E os efeitos serão mais eficazes e possivelmente menos dispendiosos e com toda a certeza mais positivos, para o bem da própria agricultura brasileira, para o menor desgaste da terra, para a melhor economia de despesas dos plantadores de algodão e – especialmente – com menos riscos para a saúde de nossos roceiros.


Extraído do Correio de Marília de 04 de maio de 1983