domingo, 28 de agosto de 2011

Negócio rendoso (28 de agosto de 1959)


Sim, ser deputado no Estado de São Paulo é um negócio rendoso. E tem que ser mesmo, pois se assim não fôra, não justificaria o interêsse e os rios de dinheiro que os candidatos gastam no período pré-eleitoral, aspirando uma “poltronazinha” no Palácio 9 de Julho.

A Paulista fornece passes permanentes aos deputados. As empresas aeroviárias concedem descontos especiais. A política e suas manobras dependem do comportamento dêsses homens. As leis, idem. O povo também.

Ser deputado é alguma coisa que inspira e justifica a cobiça geral. Não sòmente pelo “cartaz”, porque “cartaz” hoje não dá para comprar nem um grão de feijão. Existem muitos outros motivospara justificar a “corrida” desenfreada e o interêsse inconteste de muita gente em querer gozar de imunidades parlamentares, um dos maiores absurdos do Brasil.

Mas, a verdade é que ser deputado, regra geral, é um negócio rendoso hoje em dia. Tão rendoso, que até nós, gostaríamos de ser deputados. Pode-se votar em causa própria. Pode-se ser um crápula, um cafajeste, um “não sei-o-que”. Ninguém “põe a cara” com deputado. Nem a Justiça, pois nenhuma pessoa investida nesta função poderá ser processada se o Parlamento decidir em contrário!

Deputado pode legislar em causa própria. Isto é, pode escrever leis de beneficio próprio, como aumento de vencimento da classe, feitura de cargos de beneficio para parentes, etc.. Pode conseguir empregos polpudos para parentes e amigos e são as pessoas que todo o mundo gosta de dar uma “puxadinha”...

Ser deputado deve ser muito bom. O deputado está sempre “por cima”. É só saber que o João dos Anzois pleiteou alguma coisa que represente melhoria para a cidade de Canela Torta e que o Barduino conseguiu “dobrar” um “majorengo” qualquer, para o deputado dirigir uma cartinha ao seu cabo eleitoral favorito, dizendo a “ele” é que é “o tal” é que conseguiu o engenho! No caso, o João dos Anzois sabe que a verdade é outra, mas quem é ele (João dos Anzois) para desmentir o “doutor deputado”?

O povo vai “comendo barriga” sem protestar, porque protestar contra uma afirmativa de deputado, “representante do povo”, é “chover no molhado”. Ademais, a gente fala “por traz”. Ninguém diz, de chofre, “na cara” do deputado, que ele é mentiroso, que ele é incapaz, que é incompetente, que é demagogo ou aventureiro político. Ninguém.

E o deputado vai se agigantando, vai continuando no seu “cartaz”, até o prenúncio do término do mandato. Aí, então, começa a “se virar”. Se correspondeu efetivamente, talvez possa ser reeleito. Senão, já sabe – chorará depois, chamando uma inexistente “ingratidão” do povo.

Enquanto isso, vai se aproximando da tesourada da Assembléia, em dia pré-estabelecido mensalmente, para receber os vencimentos régios (que êle declara “não dar pra nada”).

Uma coisa, nos últimos tempos, nos deram a certeza de que o eleitorado brasileiro está avançando muito em sua perspicácia. É que elegemos muitos deputados inteligentes. Tão inteligentes, que descobriram um meio de ganhar 100 mil cruzeiros por mês, para tomar café, beber água gelada, estabelecer planos de encontros em “boites” e destratarem-se entre si. Descobriram que não dando número de presença às sessões ordinárias, são convocadas sessões extraordinárias e a “gaita” aumenta muito mais!

Não é um negócio muito rendoso, convenhamos; mas que é rendoso, isso nem se discute!

A falta de vergonha, no caso, está elevada à quinta potência!

Extraído do Correio de Marília de 28 de agosto de 1959

sábado, 27 de agosto de 2011

“Em nome de Deus” (27 de agosto de 1959)


Encomiosa resolução acaba de ser votada pela Câmara Municipal de Antonio Prado, Estado do Rio Grande do Sul.

Pelo documento em aprêço, todas as sessões plenárias da mencionada edilidade, serão abertas e encerradas “em nome de Deus”.

Justificou-se a medida com a verdade (incontestável) de que todas as atitudes do homem, devem constituir-se sem mais preâmbulo, num áto seguido de admiração, louvores, lembrança e respeito para com Deus.

Medida magnifica, principalmente se bem intencionada e fielmente cumprida. Prova sobeja do respeito profundo, mercês plenas e reconhecimento total, antes e depois dos trabalhos, que, na aludida Casa Legislativa, se processam nas funções precípua e diréta em pról do povo.

Exemplo dignificante êsse o de serem iniciadas e terminados os trabalhos, “em nome de Deus”.

Pena que nem todas as Câmaras Municipais ou outros Parlamentos possam seguir êsse maravilhoso exemplo. Pensando bem, é melhor que tal sistema não procure ser seguido por muitos outros Parlamentos. Isto porque , o abrir-se uma sessão parlamentar “em nome de Deus” para em seguida ouvirem-se “coisas” e até palavrões, não deixa de ser um autentico sacrilégio. E encerrar-se os trabalhos, também “em nome de Deus”, depois de terem algumas pessoas se mostrado incapazes de uma compenetração e respeito ante a invocação do nome sagrado de Deus, será ainda a repetição do condenável e abjeto gesto.

Já bastam as atitudes semelhantes, que a miude ocorrem por êstes Brasis afóra, com palavrões e xingamentos recíprocos, perante a imagem de Cristo Crucificado, que se encontram nas salas das sessões das Camaras e Assembléias.

De qualquer maneira, a atitude referida, posta em prática pela edilidade de Antonio Prado, dá bem a convicção de que ali, seus homens se entendem e se respeitam. E ao se entenderem e respeitarem, rendem graças aos Céus, pela maravilhosa dadiva recebida. Porisso, iniciam e terminam seus trabalhos legislativos, “em nome de Deus”.

O povo de Antonio Prado, portanto, deve ser feliz; a demonstração de compreensão mútua, mercês do Paí Jesus e dos homens, a lembrança e a invocação do nome de Deus, dão bem à certeza disso.

Alí, pelo que se deduz, não devem imperar as ações de descompostura entre os vereadores, a troca de palavrões e xingamentos. E nem poderia deixar de assim acontecer, onde um núcleo dá começo e término às suas operações de representantes do povo, “em nome de Deus”.

Imaginem os leitores, tendo em conta as recentes demonstrações de pugilato verificadas na Assémbleia Legislativa do Estado, com que cara o presidente encerraria as sessões, invocando o nome de Deus, depois das cenas de “Far West” e, em alguns casos, até a intervenção de policiais em serviço naquela Casa!

Já pensaram nisso?

Extraído do Correio de Marília de 27 de agosto de 1959

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Mera coincidência... (22 de agosto de 1959)


Dois assuntos distintos, de aspectos completamente antagônicos em suas finalidades específicas, polarizaram as atenções dos marilienses nos últimos dias.

Ambos os motivos são de interesse publico, resguardadas as respectivas distâncias, efeitos e colimações entre sí. Os objetivos são diversos, as constituições, idem. Relacionam-se com o publico mariliense e isso é o quanto basta e o suficiente para justificar as razões desta crônica.

Referimo-nos à Associação Atlética São Bento e à Câmara Municipal de Marília. E o fazemos indecisos quanto a qual núcleo tem sido mais improdutivo e mais decepcionante.

O São Bento e a Câmara Municipal, estiveram no fóco dos mais desencontrados comentários públicos dos últimos dias.

Os chamados “erros do São Bento” foram abordados, esmiuçados, “estudados” meticulosamente. Providências de solução foram esboçadas e ultimadas. Pelo menos, existiu atenções e houve interesse. Medidas objetivando solucionar o “impasse” foram adotadas. Amanhã, espera-se, surjam os primeiros resultados.

Mas... e a Câmara? A edilidade mariliense continua “dando a nota”. E, distoante, diga-se de passagem. Depois das férias do primeiro semestre do ano em curso, esperava-se que o Corpo Legislativo reiniciasse as suas atividades, de maneira leonina. Era de se aguardar tal fato, tendo em vista o volume de coisas importantes que se encontravam (e se encontram, é claro), nas dependências de apreciação e discussão.

Mas a maioria dos vereadores não percebeu ainda isso. Está tão improdutiva e displicente quando o São Bento nos últimos jogos de campeonato.

Está mesmo, a exemplo do “alvi-rubro”, uma “gracinha”!

Dia 6 último, a edilidade deveria ter-se reunido pela primeira vez neste último semestre do ano. Não aconteceu tal efetivação, porque, dos 21 vereadores que deveriam comparecer ao plenário na hora regimental, apenas dois o fizeram, excetuando-se o presidente!

Na quinta feira seguinte, dia 18, houve número de presentes, mas, à rigor não houve sessão plenária. Um requerimento perfeitamente dispensável (e desnecessário em face da celeuma que ofereceu na ultima sessão de pré-férias), “acabou” com a sessão, apenas iniciada.

Esperava-se que duas vezes constituísse o suficiente (e o máximo) para que tais irregularidades fossem “oferecidas” aos marilienses. E, em consequência, tinha-se antecipadamente como certa (e produtiva) a sessão que deveria ter sido levada a efeito ante-ontem, dia 20.

Mas tal não aconteceu.

Novamente, o mesmo referido requerimento originou o truncamento da sessão, em detrimento dos interesses públicos.

Três sessões irrealizadas com uma série de assuntos no aguardo de soluções! A primeira, porque a maioria dos vereadores esteve empenhada em comícios eleiçoreiros, pensando em reeleição. As duas outras, estranguiadas por um méro capricho pessoal.

Daí, as justificativas que se ofereceram ao público, para que analise sem preâmbulos, essa incrível “mera coincidência” verificada nos últimos dias, entre a Câmara Municipal e a Associação Atlética São Bento!

Como sempre se responsabiliza o “técnico”, somos forçados a parodiar um comentário espontâneo, nascido por acaso aquí em nossa redação:

- Parece que o preparador sambentista e o presidente da edilidade apresentam muito em comum: falta-lhes maior severidade para orientar as “equipes”...

Extraído do Correio de Marília de 22 de agosto de 1959

domingo, 21 de agosto de 2011

Incrível, mas Verdade! (21 de agosto de 1959)


Somos brasileiros e bastante patriotas, com orgulho e a mercê de Deus. Mas que existem coisas nestes Brasis que andam permanentemente “fóra dos eixos”, isso existem. E o fato de referirmos tais razões palpáveis e indiscutíveis, em absoluto podem descolorir nosso espírito de patriotismo. Pelo contrário, o reconhecemos nossos erros, em sã consciência só nos poderá acarretar a certeza de que nos próprios somos honestos, antes e acima de tudo, conosco mesmos.

Mas vejamos o contraste flagrante que apresenta atualmente nosso Brasil, o decantado “país da riquesas”: Com tantas riquesas vivas e mortas, com tantas reservas de tudo o que seja possível imaginar e exigido pelo progresso do século, com a vastidão imensa de terras, com recursos os mais diversos, vivemos constantemente nas dependências de outros povos e outras nações.

Algumas dessas dependências são verdadeiramente injustificáveis e passíveis de censuras e condenação aos trabalhos da própria administração nacional.

De que adianta o atual Presidente da República ter ativado e prestigiado tanto a indústria automobilística nacional, se os carros brasileiros são tão caros como os estrangeiros? Enquanto o país progrediu nesse campo, pereceram outros de necessidade mais urgente. De que adianta estarmos agora em condições de exportar caminhões e automóveis, se até o feijão, que é alimento-padrão da mesa comum brasileira precisarmos importar?

A situação, nesse particular é negra e deprimente. Se estamos em condições de exportar veículos, a verdade é que estamos em crise de estômago.

Da maneira que caminham as coisas, não vai demorar muito em que nosso país caia em completo descrédito político e econômico perante todas as nações do mundo, até as menos progressistas. Logo estaremos importando feijão dos Estados Unidos, carne da Argentina, queijo da Suíça, trigo do Canadá (os falsos nacionalistas darão preferência ao trigo da Rússia), batatas da Holanda, azeite de Portugal, arroz da China etc., etc..

O Brasil vai bater, nesse passo, dentro em pouco tempo mais, o “record” de importações, inclusive dos mais comezinhos e corriqueiros gêneros alimentícios!

Depois dizem os poetas, nos seus versos para matar o tempo (ou a fome), que no Brasil, “plantando dá”. Acrescenta-se que no sólo brasileiro qualquer semente atirada ao chão, transforma-se lógo numa árvore ou num pé de cereal. Se é assim, porque o Govêrno ainda não atinou com isso?

Caminhamos mesmo para a primazia entre os países que mais importam. Até a Itália, a China e o Japão, que foram arrazados pela guerra, conseguiram recuperar-se e hoje arrotam grandezas (grandezas internas e grandezas morais), exportando suas manufaturas e carreando dinheiro para os cofres internos. Conosco, o negócio é diferente: Temos café. Café que vai perdendo terreno no mercado internacional, porque a Colombia e até a África concorrem conosco, sem que esperássemos jamais. Estávamos habituados a “dormir sôbre louros da vitórias” e a situação real aí está, nesse particular.

A situação é verdadeira, embora pareça incrível ou de razões simplistas.

Só uma coisa ainda não sabemos de que país iremos importa-la: É a vergonha, que está fazendo falta à muitos brasileiros!

Extraído do Correio de Marília de 21 de agosto de 1959

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Isto não deve acontecer! (19 de agosto de 1959)


Não uma e nem duas vezes, no passado, já abordamos semelhante assunto. A questão de paixões desenfreadas no que diz respeito ao partidarismo político, maximé nas ocasiões que antecedem os pleitos eletivos, deve merecer atenções gerais, notadamente por parte dos próprios dirigentes políticos.

Marília, com uma população que se considera culta, não deve incorrer em exemplos dos mais desairosos, que por aí afóra campeiam.

Época pré-eleitoral é ocasião propícia para os que, de espírito baixo, se aproveitam para descer ainda mais, vindo a público com ataques pessoais e até “sujando a agua” da vida particular dos adversários. Método contra-producente e contra-indicado. O candidato político ou seus cabos eleitorais, conforme o caso, devem usar o expediente utilizado pelo bom comerciante. O comerciante atinado e experimentado, jamais tenta convencer o freguês, de que a mercadoria do concorrente é pior do que a dele; pelo contrário, ele se esforça e esmera na argumentação, para provar que a mercadoria que vende é superior à do vizinho.

Entre o afirmar que a mercadoria dêle é melhor do que a do outro e o de afiançar que os produtos alheios são piores do que dêle, existe enorme diferença, bem capaz de identificar o bom do mau comerciante.

Na política deve ser igual. Nunca um candidato ou seu partidário, deveriam tentar provar que os antagonistas não prestam; pelo contrário, eles estão na obrigação, de tentar convencer o público, de que eles é que são melhores do que os outros. Mas em linguagem polida, sadia, decente, e elevada.

Os que se utilizam de ataques pessoais contra os adversários, usando, como temos visto, até expressões torpes, denotam fraqueza de espírito, falta de respeito para com o próximo e para com o público, e, o que é pior, falta de habilidade e competência para a desobrigação do compromisso ou responsabilidade empenhada.

Já tivemos o exemplo disso, aos termos o ensejo de ouvir algumas orações da campanha política local, que, conforme se diz na gíria, principia a “pegar fogo”.

Violência, gera violência. Ataques impõem revides. Se não existirem freios para acautelar os gestos disse jaez, podem os marilienses ter certeza de que, este ano, a campanha política será enegrecida grandemente.

Essas discussões, ataques pessoais, mentiras deslavadas e tantas outras fórmas da política sórdida, que tanto agradam aos eleitores de mentalidade tacanha, não esclarecem nada; pelo contrário, aumentam o clima de confusão apreciativa das qualidades dos candidatos, pois para o publico e de acôrdo com os lados que defendem e atacam, os aspirantes a postos eletivos passam a ter duas personalidades: qualidades boas e inatacáveis para os seus pares e condições indígnas e desprezíveis para os adversários. O eleitor neutro, o que pretende auscultar para conhecer e decidir-se, ao ouvir dois ou três discursos, de partes diversas e sôbre os mesmos nomes, acabará por perder a fé e considerar tudo perdido!

Vimos recentemente dois exemplos em Marília: Um cidadão atacando outro e o revide surgindo em seguida; vimos também um candidato falando bobagens num palanque e assacando mentiras infantís contra um adversário político. Mentiras infantís, repetimos, pela falta de lógica e porque abordaram um hipotético e inexistente acontecimento, eivado de absurdos sem conta!

Ou freio, ou a questão descambará para o ridículo e pejorativo! E isto não deve acontecer em Marília.

Extraído do Correio de Marília de 19 de agosto de 1959

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O negócio é o seguinte... (15 de agosto de 1959)


O atual Chefe da Nação, ao lado da construção de Brasília, incentivou e prestigiou bastante a indústria automobilística nacional. E temos entre nós, a fabricação em série e em grande escala, de caminhões e automóveis de diversos tipos, marcas, qualidades e gostos.

Os veículos “made in Brasil”, apesar de todo o apôio e facilidade conferida pelo govêrno brasileiro às industrias automobilísticas, tornaram-se, praticamente, mais caros do que os importados. E suas qualidades de duração estão em suspenso, porque ainda não fazem cinco ou dez anos que estão rodando nas estradas nacionais.

Está o Brasil, portanto, graças ao atual Presidente da República, em condições de exportar caminhões e automóveis, para quem quizer compra-los. E, se está em condições de exportar veículos, uma outra realidade dura, núa e crúa existe à margem, capaz de envergonhar-nos, até perante os países mais póbres do globo terrestre: É que nosso país está também em condições (necessidade) de importar arroz, feijão, banha e até milho!

É mesmo u’a maravilha, pois não?

Com respeito às nossas possibilidades de exportar veículos e às necessidades desenhadas de importar arroz e até feijão, só mesmo parodiando o dito popular e perguntando só Sr. Juscelino Kubstschek, “qual a vantagem que Maria leva”?

É mesmo incrível o que está acontecendo entre nós, nessa questão de abandono dessa comezinha necessidade, que é a fiscalização e contrôle dos gêneros de primeira necessidade. Desmandos e desgovêrnos, somente, podem justificar essa permanente apreensão dos brasileiros, especialmente os brasileiros póbres. A ganância impéra impunemente, capeada pelo prestigio pessoal ou sagacidade de milhares de “tubarões”, que fazem o papél dos lagartos: o mais esperto procura comer a cauda do mais tolo!

O caso do feijão, recente, atual, está chamando atenções de nossas autoridades, impotentes para conter a onda altista, os desmandos e os abusos, cujos efeitos negativos ricocheteiam nos costados daqueles que são os mais necessitados, os mais miseráveis e os menos favorecidos pela fortuna. Existe feijão na praça, mas não se vende, porque o que interessa no caso é a cotação maior, que se encontra com facilidade, fóra do mercado mariliense. Nossa COMAP, continuamente inerte e pusilânime, de há muito deveria ter procedido a um levantamento de estoques, tabelando os preços do produto e fiscalizando as baixas das cifras de sacas armazenadas. Simultaneamente, impedindo a saída do cereal precioso para outros centros, enquanto não estivesse provada a existência da quantidade mínima exigida ao consumo dos marilienses. Assim seriam dicados os abusos que estamos vendo, porque a questão do feijão em Marília está sendo mesmo um abuso dos mais flagrantes.

Impunes e satisfeitos com a manobra, alguns cerealistas da cidade ensairam (e já puseram em prática), mais outro assalto e outra apreensão ao público mariliense: “sumiram” com a batatinha do mercado!

Grande estoques de batatas temos na cidade, mas não são vendidos (nem ao público e nem aos pequenos armazéns), porque grandes e fabulosos negócios, com preços maiores e pagamentos à vista, foram estabelecidos, ontem e ante-ontem, com armazéns do Rio de Janeiro!

A COMAP não percebeu, ao que acreditamos, mais esse golpe contra a economia popular mariliense. E o organismo controlador e fiscalizador de preços, deve, imediatamente, por-se à campo, impedindo que suceda também com a batatinha, o que aconteceu (e está acontecendo) com o feijão.

Que o órgão fiscalizador aja imediatamente, levantando os estoques, tabelando os preços, fiscalizando as vendas e impedindo as saídas, fazendo, se necessário, com que os que já venderam o produto para o Rio de Janeiro, em prejuízo. Os interesses coletivos da população mariliense, que não possam entregar o produto, procedendo a devolução das importâncias recebidas adiantadamente.

Sim, pois não se admirem os leitores, se amanhã viermos a público, informando que os mesmos comerciantes que hoje venderam os estoques de batatinhas para o Rio de Janeiro, ganhando mais do que o razoável, foram além Marília, adquirir o mesmo produto, para revende-lo novamente, por cotações maiores.

Isso é um verdadeiro crime contra a economia popular!

Extraído do Correio de Marília de 15 de agosto de 1959

sábado, 13 de agosto de 2011

Candidatos a Vereadores (13 de agosto de 1959)


Não há muito, quando os partidos políticos locais principiaram a cogitar a feitura da lista de nomes, para disputar a próxima vereança, escrevemos diversas vezes, sôbre a necessidade de u’a remodelação de valores em nossa Câmara Municipal.

Puzemos as coisas no devido lugar, em têrmos. Focalizamos, em comparação, o atual Corpo Legislativo da cidade, frente às estupendas atuações das legislaturas anteriores, especialmente a primeira, do após período de redemocratização. Sem rodeios, comentamos a inatividade de certos edis e suas incompetências como representantes do povo, embora fossem pessoalmente e fóra das atribuições legislativas, excelentes e benquistos cidadãos.

Nada dissemos de novidade, no entanto, porque até o menos arguto mariliense, desde que viesse acompanhando o transcorrer dos trabalhos da edilidade local, estaria ápto a concordar conosco.

São agora conhecidos, todos ou quasi todos os nomes de candidatos à futura vereança e urgente é o comentar-se, que, infelizmente, nem todos os partidos políticos foram felizes na escolha total de seus integrantes das chapas de aspirantes à vereança.

Verdade é que a própria Constituição Federal garante a qualquer cidadão, em pleno uso de sues direitos políticos, a faculdade de candidatar-se a um pôsto eletivo. Porisso, não iremos abordar, por desnecessário, a questão da legalidade dêsse fato. O que comentaremos, é a nossa admiração, pelo desleixo de alguns partidos políticos, ao incluírem em suas relações de candidatos ao pôsto de vereador, alguns nomes incapazes, intrinsecamente incapazes para legislar.

Neste caso, está o PTB, com a condição de “primus interpares”, apontando nomes, que, se eleitos, deslustrarão uma existente e já brilhante cifra do atual Corpo de Vereadores.

Ou o PTB está em crise de homens, ou está mais preocupado em algumas dezenas a mais de votos para a legenda, sem se incomodar em inutilidades pessoais de legisladores, como muitos dos que pretende enviar ao Poder Legislativo mariliense. Até semi-analfabetos são hoje em dia, candidatos à vereança, pela legenda do PTB. E justo numa ocasião quando deveriam os próprios partidos, fechar fileiras em tôrno da necessidade indiscutível de remodelar os valores da edilidade local.

Muitos candidatos, se conseguirem o coeficiente necessário às suas eleições, irão se expor ao ridículo na Câmara, pela falta absoluta de qualidade para legislar, interpretar leis, fiscalizar o erário público e as atuações do Poder Executivo, que são as precípuas funções do Poder Político. E o que é pior, enfraquecerão ainda mais o Poder Legislativo da cidade.

Se alguns candidatos dêsse jaez forem eleitos, o índice de moralidade e capacidade da Câmara Municipal, cairá vertiginosamente!

Podem essas pessoas, serem (como são), excelentes cidadãos, trabalhadores, bons chefes de família, dignos de bons exemplos e bons costumes. Podem até ser Santos sôbre a terra. Mas, convenhamos em sã consciência, onde é que está a “massa cinzenta” de determinados candidatos e de determinados dirigentes políticos de nossa cidade?

Isso já é “esculachar” demais, senhores. Marília não merece isso!

Os partidos devem, por amor à cidade e respeito à sua gente, preocupar-se não em servir melhor do que em votos de legenda!

Extraído do Correio de Marília de 13 de agosto de 1959

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Já surgiu um exemplo (12 de agosto de 1959)


Traduzindo o reflexo daquilo que escrevemos por duas vezes consecutivas, no tocante ao pretendido por um grupo de vereadores marilienses que aspira a remuneração dos respectivos mandatos, divulgamos ontem, um manifesto da União Democrático Nacional.

Foi um exemplo dignificante, exteriorizando pela UDN, que, assim, se colocou ao lado dos interesses pecuniários da própria municipalidade. E nem poderia deixar de assim acontecer, pois sempre vimos na referida facção partidária, uma plêiade de grandes líderes políticos.

Ficando o partido udenista em Marília, em contra-posição ao movimento que reputa aos inglório e anti-mariliense, veio formar, indiscutivelmente, ao lado de nosso ponto de vista, ao par dos interesses do município, junto aos interesses do próprio povo de nossa cidade. Entendemos nossas congratulações aos dirigentes udenistas locais, pelo passo firme tomado publicamente, numa demonstração de amor pela cidade e sua gente, com o desejo irretorquível de querer servir uma população, sem “meter a mão no bolso” dessa mesma população.

A atitude da UDN marcou a abertura de uma caminhada que deverá ser seguida pelos demais partidos marilienses. O exemplo foi dado, merece aplausos pelo espírito sadio e bem intencionado que ostenta. Esperemos agora, que, outros núcleos partidários da cidade, sigam esse exemplo edificante dos udenistas, dando provas também, que, acima de interesses de estômago, colocam os interesses de Marília e do povo mariliense.

Terão os demais partidos, a mesma altivez dos udenistas no caso em téla? Esperamos que sim, porque apesar de nos constar que quatro vereadores de quatro partidos diferentes são as cabeças desse movimento subterrâneo, acreditamos que não consigam interpretar o modo de pensar da maioria das respectivas facções partidárias.

Alegava-nos um vereador, um dia destes, que o município deverá pagar os trabalhos dos edís. Santa ingenuidade! O município só teria que remunerar os vereadores, se os contratasse! O cidadão se candidata se quizer, pois ninguém o obriga e desde que aceita a referida condição, deve fazê-lo sem intenções de fazer do cargo um “profissionalismo político”, a custa do erário público!

Não sabemos como a edilidade, por sua maioria soberana e absoluta, irá receber a proposição desse jaez, que já se encontra “na forma” para ser submetida ao plenário! Pena é que isso esteja cogitado para depois das eleições, pois se tal acontecesse antes de 4 de outubro, esses vereadores “golpistas” seriam conhecidos do próprio público eleitor e este não sufragaria seus nomes, a menos que fosse muito ingênuo, para votar em pessoas que estão interessadas em sangrar as economias municipais em quasi quatro milhões de cruzeiros por ano.

Já pensaram os leitores, quanta coisa útil seria possível fazer-se com esse dinheiro? Quantas escolas primárias, quantos metros de calçamento, quantos metros de rêdes de água e esgôto e quantas outras coisas mais?

Óra, se a gente já luta com dificuldades, suportaria o povo novos aumentos de impostos, para serem pagos os vereadores?

Gostamos do exemplo da UDN, que, esperamos, deverá ser seguido por outros partidos políticos. Pelo menos por aqueles que são dirigidos por bons e bem intencionados marilienses.

Extraído do Correio de Marília de 12 de agosto de 1959

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Nobilíssima campanha (11 de agosto de 1959)


Nobilíssima e humana, plena do mais irrestrito sucesso, foi a Campanha do Sangue Vivo, ontem encerrada em Marília. Provou, mais uma vez, o quão grandioso é o coração mariliense. Atestou com insofismável certeza, o qual humana é a cooperação de gente de Marília, que acorreu de pronto e sem fazer-se de rogada, a doar de suas veias, o plasma da vida – o único líquido capaz de reerguer uma vida em eminência de morte, não substituído ainda pela ciência dos homens.

Pelo seu gesto e sentido eminentemente altruístico, incontestavelmente cristão e profundamente humano, mereceu aplausos de reconhecimento de todos aqueles que comungam os sentimentos de fraternidade e solidariedade humana.

Ricos e póbres, pretos e brancos, de diversos pensamentos religiosos, irmanaram-se piedosamente, doando o próprio sangue, para socorro de milhares de vidas. Foi um exemplo edificantes dado pelos marilienses, que, mais uma vez, souberam – como sempre –, responder “presente” quando reclamados.

Atestamos mais uma prova de inconteste sentimentalismo dos marilienses. Vimos a satisfação plena a irradiar-se dos semblantes daqueles, que, após a sangria, não puderam ocultar a satisfação íntima e consciente, a dominar os próprios Egos. Ninguém pelo que vimos – e de outra maneira poderia ser –, doou seu sangue com terceiro objetivo. Todos o fizeram cônscios da grande importância do gesto, compenetrados da alta missão que o fato representou.

Foi uma coisa bonita, o transcorrer das quasi três centenas de doações espontâneas registradas pela Campanha do Sangue Vivo em Marília. Muitas vidas poderão ser salvas com o sangue bondoso da gente mariliense.

Voltaram impressionados com a espontaneidade dos marilienses, os facultativos que aquí estiveram, fazendo as operações referidas, extraindo o sangue e transportando-o para o Hospital das Clínicas em São Paulo.

Até um fato digno de nota verificou-se no último sábado: Quando as sangrias estavam apresentando movimento intenso, quando as filas dos doadores voluntários se acotovelavam pacientemente, aguardando as suas vezes de doarem o sangue, um apêlo surgiu da Sta. Casa de Misericórdia: um indigente estava prestes para sofrer uma delicada intervenção cirúrgica e necessitava com urgência do precioso plasma. Um dos médicos do H. C., paralizou de imediato seus exames públicos, para remeter incontinenti o sangue recém-extraído de um voluntário. Ainda quente, a seiva da vida de um mariliense, foi transportada para o corpo de um outro, doente, póbre e necessitado!

Marília está de parabéns, como e parabéns estão os marilienses que tão solicitamente se acercaram dêsse humano movimento. Os marilienses deram mais uma sobeja prova de seu amor ao próximo, correndo para prestigiar e alimentar tão nobilíssima campanha, campanha que não tem pai, porque todos cerraram fileiras em tôrno da mesma. Entidades particulares, associações de classe, autoridades e personalidades diversas, além de cidadãos vários e povo em geral, coordenaram, em pensamento e ações, igual objetivo, hoje vitorioso e elogiável. Apesar que a publicidade em tôrno da Campanha fôra feita quasi “em cima da hora”, não faltou o apôio que para a mesma se esperava. Arrumou-se o local, os leitos, o material necessário, auxiliares burocráticos, refrigeradores, alimentação especial para os sangrados e tudo o mais que mister se houve na ocasião, numa demonstração de desprendimento, abnegação e solidariedade do povo mariliense.

Extraído do Correio de Marília de 11 de agosto de 1959

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Ainda a vereança remunerada (8 de agosto de 1959)


Nosso escrito de ontem, acêrca de um movimento reinante entre alguns vereadores, objetivando instituir o sistema de remuneração para a vereança mariliense, serviu de comentários diversos. Conosco mesmo, várias pessoas abordaram o assunto e, dentre meia dúzia de cidadãos, apenas um (edil, por sinal) discordou de nosso ponto de vista, para manifestar-se favoravelmente à remuneração do exercício de vereador.

É claro que cada qual tem o direito de pensar como bem quizer e por isso respeitamos o entender daqueles que entendem o contrário, advogando ou não o pagamento dos vereadores. Nós, entretanto, pensamos de maneira adversa; entendemos o mandato de vereador, maximé no interior, onde as sessões ordinárias são semanais e noturnas, como um “múnus público”. E pensamos ainda – repetimos – que os que não pretendem sujeitar-se à prestação gratuita dêsses serviços, que jamais devem candidatar-se ao pôsto referido. Nunca a vereança no município de Marília deverá constituir-se em motivo de instituição de uma política profissionalista, sangrando em quasi quatro milhões de cruzeiros anualmente, os cofres municipais. A situação é impropícia para onerar ainda mais o povo mariliense com quaisquer elevação de impostos ou taxas e vemos nisso a única saída, pois o prefeito Argollo Ferrão, apesar de engenheiro, ainda não conseguiu inventar u’a máquina de fabricar dinheiro, para serem remunerados os vereadores marilienses.

Quinta feira passada, tivemos um exemplo de abnegação dos edis locais, lógo no reinicio do segundo período parlamentar do ano em curso. É que apenas dois legisladores compareceram à sessão da Câmara (que não ocorreu por falta de número, é lógico), enquanto a maioria, segundo consta, esteve empenhada em comícios eleitorais. Fizeram-se merecedores, os que faltaram ao compromisso empenhado para com toda uma população, de mais um motivo a justificar a pretensão de dependuramento no úbere do erário municipal, pois não?

Falando nisso, até foi bom, pois muitos edis, no uso e abuso de demagogia, tem feito, ultimamente, verdadeiros comícios na Câmara Municipal e é claro que lugar mais apropriado para os “meetings” eleitoreiros, é mesmo a praça pública.

Se a Câmara cometer a incoerência de voltar atrás, com respeito àquela resolução verdadeiramente sadia, que determina seja o mandato de vereador em nosso município, exercício graciosamente, não poderá, é lógico, ser considerada em sua totalidade, como advogada de causas próprias; mas será inegável, que os que assim agirem, deslustrarão os serviços bem intencionados daqueles outros, que, legislam por Marília e para Marília e não para seus estômagos.

É bom que o povo vá analisando essa questão, para ir conhecendo os que são partidários dessa sangria aos cofres municipais, pessoas que, ao envés de buscarem o progresso econômico da municipalidade, procurarão sacrificar o próprio povo com novos encargos e aniquilar ainda mais as economias do município, onerando a receita anual em perto de quatro mil contos de réis por ano.

Nós, pessoalmente, convém que fique claro, nada temos contra vereadores partidários dêsse movimento. Somos contrários, precipuamente, contra êsse áto, que julgamos inglório para aqueles que se intitulam amigos de Marília e que receberam (ou venham a receber), a confiança do povo mariliense, traduzida no conferimento de um mandato de vereador.

Qual será a opinião do leitor a respeito?

Extraído do Correio de Marília de 8 de agosto de 1959

domingo, 7 de agosto de 2011

Vereança remunerada? (7 de agosto de 1959)


Consta a existência de um movimento objetivando que o exercício da vereança, em nosso município seja remunerado, já a partir da próxima legislatura.

A base dêsse objetivo, seria a própria lei específica das comunas, segundo se sabe ainda.

Curioso êsse movimento, principalmente em Marília. Curioso e algo esdrúxulo, pois nossa Câmara, ao votar uma resolução bastante sadia do ex-vereador Álvaro Simões, deliberara que em nosso município, o mandato de vereador só seria exercido gratuitamente, como um “múnus público” que é. Tal decisão carreou para a edilidade mariliense, uma série de aplausos de diversos outros centros e a deliberação em aprêço, do corpo legislativo local, foi citada como exemplo frisante dos mais patrióticos imagináveis.

Entendemos nós, apartidários que somos, que obrará infinitamente mal e de maneira bastante incoerente, a Câmara Municipal de Marília, se, por sua maioria, der guarida ao pretendido em referência. O cargo de vereador, principalmente em nosso caso, com uma reunião ordinária e noturna semanal e em período incompatível com o serviço normal e diário do cidadão, deve continuar a ser gratuito. Do mesmo ninguém deverá tentar uma carreira de política, instituindo aquilo que poderia ser chamado de “profissionalismo parlamentar”. Os que não estiverem dispostos, então, a prestar a sua colaboração ao povo e à cidade, que não sejam candidatos. Pelo menos, assim, estariam sendo mais sinceros, não só consigo próprios, como igualmente com a população em geral.

De acôrdo com o que percebemos, a pretensão daqueles que são favoráveis à remuneração da vereança em Marília, alcançaria, “per capita”, a importância de 15 mil cruzeiros, aproximadamente. Multiplicada essa monta por 21 edis e por doze meses, os cofres municipais seriam sangrados em perto de 3 mil e 800 contos de réis por ano! Este será o “presente” que algumas pessoas, que se dizem bons e bem intencionados marilienses, querem nos dar!

O interessante disso tudo, é que os que são partidários dessa remuneração, estão “moitados”, como raposas. Não “se abriram” publicamente, porque estamos em plena época de campanha eleitoral, e, sabem eles, o povo que vóta e que é o juiz soberano, repudiaria seus nomes. Estão “de tocaia”, para tentar a aplicação do “golpe” (o têrmo é rude, mas ajustável) em ocasião mais oportuna, quando os eleitores nada mais puderem fazer!

Francamente, é de estarrecer, a existência em Marília, de algumas pessoas que votaram (e outras que aplaudiram) a decisão da Câmara (de autoria do Sr. Álvaro Simões), no tocante à não remuneração da vereança entre nós, pensarem de maneira contrária, fragrantemente contrária, algum tempo depois.

Perto de quarto milhões de cruzeiros custará ao município, anualmente, o pagamento da edilidade, caso póssa vingar a idéia em referência! O suficiente para o prosseguimento das óbras de pavimentação da “urbe”, o necessário para a extensão das rêdes de água e esgôto e também urgente para a ampliação do setor escolar primário do município! Os que são partidários desse movimento, entretanto, pouco se importarão com isso, porque, o que eles pretendem, não há dúvida, é dependurar-se nas têtas do erários municipal!

O povo que ausculte o movimento e veja quem são seus autores, para dar aos que se dizem bons marilienses e que estão propensos a empreender êsse caminhada inglória, o necessário corretivo e a resposta adequada, esquecendo seus nomes para o pleito de 4 de outubro!

Extraído do Correio de Marília de 7 de agosto de 1959

sábado, 6 de agosto de 2011

“O terceiro homem” (6 de agosto de 1959)


Propalado, prática e virtualmente lançado, surge na política sucessória municipal, “o terceiro homem” – Octavio Simonato.

Indiscutível é o prestígio dêsse político mariliense, como matemático é o seu colegiado eleitoral, fruto de um trabalho perseverante que data de mais de oito anos. Ninguém poderá opor qualquer dúvidas às intenções de Octavio Siminato, com respeito a um plano pessoal ou partidário de um bom govêrno municipal. Entretanto, tal lançamento, se acertado e homologado, apresentará um quê extemporâneo e traz consigo um “senão” prejudicial ao próprio candidato, “senão” êsse, oriundo de um conchavo político inter-bastidores, que não chegou a alcançar a repercussão e os efeitos esperados e que se impregnou, inclusive, de malquerenças e dissidências políticas de um núcleo local.

Com o lançamento de tempo hábil das outras duas candidaturas já oficiais e conhecidas e com o esfriamento natural, supra citado a candidatura do “terceiro homem”, tornou-se, automaticamente, extemporâneo. E, frizemos, seja ela de Octavio Siminato ou de qualquer outra pessoa.

A maioria, pensamos, já firmou um ponto de vista, com respeito à consignação do vóto para o sucessor do prefeito Argollo Ferrão. Pelo que notamos nas camadas baixas (o vóto que pésa de fato na balança eleitoral), um ponto de vista já está concretizado e as preferências já consolidadas em definitivo, sendo pequena a percentagem ainda indecisa e também relativamente pequeno o número daqueles que votarão no “terceiro homem”.

Nós não somos políticos, como todos sabem. Apenas observadores e isto por ciência de oficio. Mas como “focas”, temos nos preocupados em auscultar a opinião do zé povinho. E podemos então dizer, que o acôrdo político há pouco divulgado, de apôio de PDC no PSP, posteriormente inutilizado com a renúncia de Simonato ao cargo de vice-prefeito na chapa Tatá, modificou completamente o panorama de previsões eleitorais em nosso município. A candidatura do “terceiro homem”, se conservada, representará, sem sombra de dúvida, um “handicap” para o candidato Léo. O eleitorado dividiu-se, após essa infeliz decisão do deputado Fernando Mauro, cujo prestígio pessoal e político, sofreu decréscimo no segundo qualificatório.

Temos sondado a classe dos motoristas, a fação mais fiél, eleitoreiramente falando, ao deputado mariliense. E constatamos, pela maioria das conversas que ouvimos, que essa classe, que sempre foi unida, não acompanhará o deputado-médico no pleito de 4 de outubro! Subentende-se, é claro, que os votos da classe dos profissionais do volante, não serão consignados ao candidato adhemarista local.

Se a candidatura Simonato fôra lançada no início do movimento político local, conforme era esperado, não temos dúvida alguma em afirmar que o policial mariliense teria se constituído num “osso duro de roer” para os próprios Léo e Tatá. Agora, entendemos, o caso é diferente. Nem mesmo com o colegiado eleitoral anterior poderá contar com absoluta certeza o Sr. Octavio Siminato, pelo que pudemos perceber. E isso dizemos, tendo em vista as manifestações ouvidas, por parte daqueles que sempre foram partidários do escrivão de polícia, hoje bandeados para outro nome.

Houve a existência de um acôrdo que se tornou infeliz para o médico-deputado, porque encontrou uma repercussão contrariamente inesperada. Se o Sr. Octavio Siminato e o deputado Fernando Mauro não sabem disso, pódem agora ter a certeza. O colimado pelo conchavo político citado, entre PDC e PSP, surtiu efeito negativo na massa eleitoral.

O lançamento do “terceiro homem”, principalmente o que serviu de “pivot” desse acerto, tornou-se, em face disso, como dissemos, extemporâneamente e de possibilidade duvidosas, eleitoralmente falando.

Extraído do Correio de Marília de 6 de agosto de 1959

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Pau de amarrar égua (5 de agosto de 1959)


Certa vez, ao analisarmos a função de jornalista, dissemos que nossa tenda de trabalho se transforma, em muitas vezes, num autêntico “muro de lamentações”. Isso porque, não raro, recebemos sugestões ou queixas das mais esdrúxulas imagináveis, quando alguém nos procura para que façamos o papel de borracha – isto é, apagar erros alheios.

Dissemos que as consultas mais esquisitas do mundo, são dirigidas algumas ocasiões ao profissional de imprensa, na esperança de que alguma coisa seja consertada. Ao lado das razões lógicas, se apresentam algumas idéias de caráter absurdo, como, por exemplo, a do leitor que nos insinuou outro dia, que comentássemos o procedimento irregular de determinada dona de casa.

Nosso escrito a respeito, serviu de motivo até para um outro colega, que não teve qualquer pejo em nos pregar uma “lavada” em boas condições. Não ligamos para o fato, porque sabíamos o que estávamos dizendo...

Curioso, que, posteriormente, a mesma pessoa que incriminou nossa escrito, veio a público com idêntica defesa que por nós fôra abordada e confirmando, em palavras diversas, nosso mesmo ponto de vista.

Águas passadas, não movem moinhos – reza antigo brocardo. Acontece que algumas pessoas, talvez no desejo de colaborar conosco (segundo pessoas), continuam a nos enviar sugestões para a feitura de alguns dos nossos comentários. Infelizmente, nada aproveitável, porque até motivos de quezilhas íntimas tem sido trazidos até o nosso conhecimento. Lógico que ninguém vai escrever que “fulano não presta”, somente porque um leitor sugeriu que tal fôsse escrito. Ninguém gosta de servir de tábua de bater roupa, isso é claro. Ninguém aprecia ser considerado pau de amarrar égua, quer dizer, servir de fuxíqueiro e aprontar “rôlos”, só para contentar outrem, acreditando piamente numa pessoa que demonstra, em rápida análise, um despeito pessoal ou uma ira particular contra um semelhante, mas que, não tem a coragem suficiente de colocar as cartas na mesa, e resolver a questão como deveria fazer. Gente assim, recorre ao jornalista, argumentando que “quem escreve deve ter coragem e dizer o que é verdade”. Concordamos no que diz respeito ao “ter coragem”, pois uma pessoa, só pelo fato de desfrutar o privilégio de rabiscar para um jornal se der ao trabalho de servir de alcoviteiro para contentar u’a minoria quando não for só pessoa, sem analisar a razão de interesse geral, deve mesmo ter coragem. E muita, olhem lá.

Tal nos veio à memoria, em virtude de um telefonema que ontem recebemos, de um “admirador sincero” de nossos artigos. Nosso interlocutor, que fez questão em não declinar a identidade, pretendeu nos fazer de pau de amarrar égua, desejando atirar-nos contra uma autoridade policial. E por motivo atoa, diga-se de passagem. Por uma bobagenzinha, que, temos a certeza, se ele pessoalmente a expuzesse à pessoa focalizada, obteria, de imediato, a devida atenção.

Interessante é que nosso amigo insinuou que nós não temos a suficiente coragem de assumir tal responsabilidade. E ele, que não se dirigindo a autoridade colimada, não teve siquer a ombridade de se identificar! Não, não somos pau de amarrar égua.

Extraído do Correio de Marília de 5 de agosto de 1959

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O custo de vida (4 de agosto de 1959)


O problema pôde parecer complexo, assim à primeira análise. Entretanto, sua solução é relativamente fácil, embora dependa diretamente de alguns pontos fundamentais, considerados (também à primeira vista) difíceis.

O que se fala, o que se escrever, os gritos, os clamores diversos e a demagogia que em tôrno do assunto se tem feito, se faz e continuará fazendo, nada adiantaram, nada estão adiantando e nada adiantarão. Está faltando, antes de tudo, uma esquematização de ações, um plano sinceramente, decidido, inatacável e positivo, partido do próprio Governo Federal e seguido à risca pelos governos estaduais. Sem isso, nada feito.

A fiscalização dos preços é falha, porque nem todos os seus dirigentes conhecem “de visu” e de móto próprio, as causas, os efeitos, as origens. Impressionaram-se por números estatísticos, que, muitas vezes são mentirosos. Deixam-se levar pelo “bico doce” dos magnatas. Outras vezes, embora ninguém póssam prova-lo em cartório, obtem também algumas “mordidas” pelos “acordos” de aumentos. E em tudo isso, um só reflexo se verifica. Quem sofre é o povo, o zé povinho, de cujo costado poucas possibilidades se apresentam agora, para a continuação desse impune arrancar tiras de couro.

Os lucros são desmedidos. A porcentagem não obedece limites, porque a ganancia impera em toda a parte. O controle só recai mesmo, sôbre os costados do pequeno comerciante, aquele que compra hoje para vender amanha e que é obrigado a acompanhar os preços ditados pelos “tubarões”, servindo, sem o desejar, de bóde expiatório.

Póbre, regra geral, não grita. Nem para gritar tem forças mais. Quem grita são os potentados, os prepotentes, os endinheirados. São os que enriquecem do dia para a noite, quando nem todos poderão declarar, honestamente e em sã consciência, como e por qual meio conseguiram a metamorfose de póbres para ricos.

O comércio atacadista, ou é vítima de entidades congêneres, ou é uma fonte de dinheiro, de maneira quasi geral. Hoje em dia, o negócio é comprar bastante, aproveitar a baixa dos preços (ou a necessidade do pequeno produtor) e estocar. O lucro vem depois, dobrado, triplicado, sem tardar, matemático como a teoria de Einstein.

Daí, a intenção é clara: ou vender com lucro fabuloso ou procurar esse mesmo lucro fabuloso onde ele estiver, quer seja distante. Pôde haver mais impôsto, ou mais correto. Quanto maior for a despesa de remessa, maior será o lucro líquido.

Para exemplo, citaremos o arroz. A COMAP que verifique, para constatar que o produto citado, está sendo recusado à venda nesta praça, para ser remetido para São Paulo, por um preço mais elevado ainda. E não é coisa antiga. Está acontecendo desde sexta feira passada!

Portanto, o custo de vida só será detido, quando foi delimitado o lucro do intermediário, garantindo o preço mínimo para o produtor e garantidas as necessidades mínimas de quem planta: transporte, adubos, sementes, máquinas e inseticidas. O mais é conversa, é “farol”, é demagogia... E por falar em demagogia, até a política abjeta entrou “na dança” nesta questão. Aqui mesmo em Marília, sem senhores.

Desculpem-nos os que, bem intencionados e honestos, tomaram parte na caminhada em evolução. Escusem-nos os que agiram com o coração e fecharam os olhos à demagogia e á politicagem. Para nós, conversa fiada não resolve. E demagogia com política barata, muito menos.

Nada adianta movimentos aquí, se a própria COMAP não dispõe de rédeas para guiar o cavalo dos preços e se este próprio cavalo é alimentado pelo incúria do próprio Chefe da Nação, mesmo indiretamente!

Extraído do Correio de Marília de 4 de agosto de 1959

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Prestigio pessoal (1 de agosto de 1959)


Para quem não morre de amores pela política, como é o nosso caso, fácil é o analisar-se a conduta daqueles que se não fazem a política como profissão primordial, pelo menos dela tiram algum proveito e a ela dedicam grande parte de suas preocupações diárias.

Já tal fato não sucede com o cidadão que tem qualquer vínculo doutrinário, pois, por mais imparcial que procure ser, sempre verá uma oportunidade indisfarçável de “puxar a sardinha” para um lado. Isso é natural e a política é mesmo como o amor; basta a gente gostar, para achar “tudo azul”, ignorando defeitos que estão visíveis, que todos veem, menos o apaixonado. Coisa assim parecida com o sentimento amoroso de alguém, que, perdido de paixão, consegue ver, no ente amado, uma beleza natural e exterior inexistente e às vezes inexistente também anteriormente.

Isso nos ocorreu, ao presenciar ontem, por méro acaso, um “tete-a-tete” político, entre dois cidadãos locais, politicamente contrários. Discutiam ambos o prestígio pessoal dos Srs. Adhemar de Barros e Jânio Quadros, virtualmente considerados “eleitos” para o cargo de Presidente da República. Notamos, pelas afirmativa das duas pessoas, uma paixão política desenfreada e difícil de dobrar ou aceitar qualquer parcelas de verdade, contraditórias nos seus pontos de vista.

Para o janista, Jânio continua a ser um político sem similar no Brasil, perfeito, completo em todos os sentidos. E o partidário do ex-Governador teceu comentários fabulosos acêrca da personalidade do Sr. Quadros, o remodelação nas finanças de São Paulo, a realização indiscutível do impulso progressista, etc., etc.. Já o partidário do Sr. Barros apontou erros no ex-governador e endeusou o Sr. Adhemar de Barros, colocando-o num verdadeiro e hipotético pedestal de um autêntico Santo da Terra.

As argumentações e contra-argumentações dos dois homens, perderam muitas vezes para a ironia, quando até “bichos” pejorativos foram externados! “Gozações” sem conta, partiram de um contra outro apaixonado dos políticos citados, sendo difícil o dizer-se quem teria vencido a polêmica, uma vez que quasi nenhuma ponderação plausível fôra exteriorizada com fundamento indestrutível. Os dois cidadãos cingiram-se ao repizamento das velhas “chapinhas” conhecidíssimas do publico eleitoreiro, tendo, a certa altura, perdido a graça toda a contenda.

Por curiosidade, continuamos acompanhado o desenrolar dos acontecimentos citados, como méros “focas”, apreciando naquela amontoado de palavras ôcas e transbordantes de paixão política, uma arenga que não pagaria a pena assistir.

Foi quando um dos polemizadores atentou para nossa presença e procurou colocar-nos num torniquete, pedindo-nos a manifestação “de um grande jornalista”, sôbre qual dos dois (Adhemar e Jânio) possui, de fato, maior prestigio pessoal. Encontramos, de pronto, a “saída” para a situação; dissemos que não conhecíamos bem a questão o que ali estávamos ouvindo a conversa, com o fito de aprender também...

Extraído do Correio de Marília de 1 de agosto de 1959