quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O resto do feijão-com-arroz (31 de outubro de 1974)


Em termos de alimentação: resto de comida é uma coisa e sobra de comida é outra.

Sobra é o que deixou de ser consumido durante um período de refeição e é guardado para oportunidade outra. Subentende-se por resto as sobras geralmente deixadas no prato.

Isso, no entanto, não vem ao caso, embora essa tentativa de esclarecimentos de comparação venha a servir como preâmbulo para o conteúdo deste artiguete.

--:--

Este caso é verídico e aconteceu há alguns anos.

Alguns amigos marcaram uma pescaria, que seria (e foi) realizada no córrego Kaingang, no município de Oriente.

Do plano dessa pesca fazia parte o “passar a noite”.

Não recordo-me bem de todos os pescadores. Mas fazia parte do grupo o Coércio Viajante, o Nicola Despachante e um mecânico de automóveis, conhecido por Angelim.

--:--

Como sóe acontecer, cada “tarimbeiro” arrumou convenientemente seus apetrechos de pesca, iscas, lanternas, etc… E, logicamente, o lanche, além de agasalhos para o frio noturno.

--:--

E é sobre o lanche que pretendo falar, porque a lembrança ocorreu-me ontem, por correlação numa informal e ocasional conversa política.

--:--

Como saída iria processar-se num sábado após o almoço. O regresso estava previsto para o domingo antes do almoço. De minha parte levei um sanduíche reforçado, que seria o jantar e um pão-com-manteiga, acompanhado de meia garrafa de café, que representaria o desjejum da manhã seguinte.

A maioria levou também sanduíches para a janta, não havendo preocupado-se com o café matinal do dia imediato.

Mas o Angelim, mesmo tendo parecido o mais “grosso”, acabou provando ser o mais previdente: levou um caldeirão (boia fria) repleto de feijão-com-arroz, com um “teto” de ovos e batatinhas fritas. Como geralmente “os pescadores da cidade” não costumam levar “boia fria”, o fato foi até motivo de gozação por parte de alguns. O mecânico não se agastou.

--:--

À margem do rio, todos se preocuparam ao chegar em localizar um ponto certo, para quando escurecesse e chegasse o momento de dormir. Depois veio a pescaria.

--:--

Por volta das oito horas da noite, decidimos jantar. “Rodou” o clássico aperitivo, cada qual se acomodou como pode e teve início o “manjar”. Todos “atacaram” seus lanches e o Angelim “largou brasa” no feijão-com-arroz completamente frio. O mecânico comeu menos da metade do conteúdo da “boia fria”. Quando todos pensaram que ele iria jogar o resto de comida, o Angelim colocou a tampa no caldeirão, amarrando-a para que não caísse. E a seguir dependurou o mesmo num galho de árvore para evitar a presença de formigas.

O grupo voltou a pescar por mais algum tempo e depois cada qual tratou de “arrumar o leito” e “puxar o ronco”.

--:--

Por volta das seis horas, a claridade do dia fez-se presente e os pescadores deixaram os “leitos”. Lavei o rosto nas águas do rio e buchechei com a mesma água, à guisa de escovar os dentes. Apanhei a “matula”, atacando o pão-com-manteiga acompanhado do café amanhecido e frio.

Angelim dependurou o caldeirão de “boia fria” e “largou o pau” no resto da janta da noite anterior.

--:--

Ai aconteceu o imprevisto.

Depois que Angelim comeu, um dos pescadores perguntou se ele iria jogar o resto. A resposta foi afirmativa e o outro pediu: “Não jogue, deixe prá mim”. O mecânico passou-lhe o resto da comida e o Nicola atacou, quando um outro gritou: “Deixa um pouquinho prá mim também”.

E devoraram, ávidamente, o resto do feijão-com-arroz frio.

--:--

Lembrei-me disso ontem (30/10/1974), ocasionalmente, no Óca Bar, ao tomar um cafézinho com o Anselmo, Felipe, Fittipaldi, Lúcio e Milton Mussi.

Lembrei-me do valor de ter o que desfrutar. Da previdência do Angelim, em guardar resto de feijão-com-arroz, que lhe encheu o estômago e saciou a fome de mais dois companheiros.

O fato em sí não teria importância nem antes e nem agora. Mas teve-a, na ocasião. Representou o “ter”, o “possuir”.

--:--

O leitor, por certo, estará procurando entender o porque dessa estória (que é verídica).

Aqui está: a lembrança desse fato do passado, do resto do feijão-com-arroz, me foi despertada pela conversa do Milton Mussi, que irá votar em Sebastião Mônaco para deputado estadual. Uma pessoa dissera-lhe que ele perdera seu voto. E o Milton respondeu: “Posso perder, mas perco com o que é nosso”.

Entenderam, agora, o porque do “resto do feijão-com-arroz” e a importância de “poder” ter?

Extraído do Correio de Marília de 31 de outubro de 1974

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Maus exemplos (30 de outubro de 1974)


A desunião patente, que não consegue disfarce – mesmo porque sol não se tapa com peneira – e que tem habitação comum, nas hostes da Arena mariliense, traduz-se num vínculo extravagante, que vem colidir com a necessidade indesviável da coesão necessária e imprescindível do Partido majoritário em Marília.

--:--

Muitos de seus membros, dançando em ritmos diferentes, quando o som da orquestra e um só é mutável.

--:--

Convenha-se de que se não pode cercear ou impedir, nem mesmo arrestar ou bitolar o pensamento ou a vontade de quem-quer-que-seja. Mercê de Deus, essa liberdade de agir e entender é a todos assegurada pela própria Constituição.

--:--

Mas a coerência e a fidelidade partidária devem ser bandeiras de união, obrigatoriamente imperantes no seio de um grupo e inerentes dentro de toda a associação. No caso é uma associação, a diretoria de um partido político, porque associa homens com obrigações idênticas e atitudes de reciprocidade.

Por esta razão, estranha-se a incoerência, a infidelidade partidária, o desvinculamento de solidariedade de ideal, configurados e manifestos, nessa debandada multi-face de propósitos, onde muitos arenistas tomaram sendas diversas, adotando métodos diferentes.

--:--

Não que se pense em cercear ou impedir, nem mesmo ojerizar ou repudiar, os candidatos alienígenas, esses que aqui postulam votos eleitorais.

Todos eles têm esse direito garantido, conquistado que foi a partir do momento em que o Tribunal Regional Eleitoral lhes concedeu os respectivos registros como candidatos.

Só não pode, portanto, combater gentes de outras plagas, que objetivam amealhar votos de marilienses. Tal proceder seria medida incompatível com o próprio regime democrático, que lhes assegura ditos direitos.

--:--

Mas, do ponto de vista daquilo que deveria chamar-se amor à terra, pode e deve-se criticar, os marilienses que desgarram-se da nau arenista, para trabalhar de corpo e alma para candidatos de fora.

Isso, pode-se.

--:--

Reside nessa atitude, que marca um índice dos mais caóticos no diretório municipal da Arena, um mau exemplo.

Esse mau exemplo, traduzido no divorciamento das próprias diretrizes da Partido, está configurado e representado, por muitos dos membros do diretório arenista, que, ã bel prazer, vestiram o manto da rebeldia partidária, num descaso flagrante à imperiosidade da coesão doutrinária, empreendendo debanda a uma luta bem nossa, bem mariliense.

--:--

Esse mau exemplo deve ficar registrado, à guisa de um lembrete, na própria agenda do Partido, para que, em porvir e em templo hábil, se adotem providências necessárias e inadiáveis, a-fim de que os debandadores e divorciadores dos próprios princípios básicos da facção doutrinária, não venham a fazer como fizeram presentemente, “deitando com arreio”.

--:--

Se Marília não conseguir eleger seus candidatos próprios, a responsabilidade do insucesso deverá, obrigatória e moralmente, ter uma bi-debilitação.

Parte do débito será lançado à conta dos maus eleitores que preteriram o que é nosso, para premiar alienígenas e a parte maior do débito ficará na conta do abjeto passivo dos arenistas que se desuniram, dando a entender que conveniências terceiras sobrepuseram se aos próprios interesses de uma cidade e de uma coletividade.


Extraído do Correio de Marília de 30 de outubro de 1974

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Outro livro de um magistrado (29 de outubro de 1974)


O doutor Paulo Lucio Nogueira, que é mariliense autêntico, aqui tendo expressivos vínculos de família e de amizades, exerce atualmente as funções de Juiz de Direito da 1ª. Vara da Comarca de Tupã.

--:--

O Dr. Paulo Lucio é um homem que venceu na vida, exclusivamente à custa de seu próprio esforço e de idealismo mesclado de um espírito de energia, verdadeiramente admirável. Nascido no interior de Minas Gerais, filha de família pobre e de grande prole, foi o único dos irmãos que conseguiu haurir as luzes da ciência. Jovem, deixando o sertão das alterosas e rumando para São Paulo, experimentou toda a sorte de percalços e privações para subsistir.

--:--

Na Capital paulista, exercendo atividades de diversos empregos, inclusive humildes, dedicou-se aos estudos, tendo, com sacrifícios inúmeros, vencido o ginásio e o científico. Prestando concurso, foi nomeado escriturário da Caixa Econômica Estadual, ocasião em que ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

--:--

Formado advogado, prestou concurso para o cargo de delegado de polícia, tendo sido designado substituto na Delegacia Regional de Marília. Não se acomodou no novo cargo, estudando mais e prestando concursos para o Ministério e Magistério Públicos, tendo sido aprovado em ambos e terminando por optar pelo segundo.

--:--

Estudioso de problemas jurídicos e de questões sociais, o Dr. Paulo Lucio Nogueira introduziu na jurisprudência nacional um novo estílo em proferir decisões, lavrando sentenças em versos, demonstrando, não somente a majestosa capacidade de sentenciar, mas provando também a sabedoria e o gosto pela poesia, onde soube demonstrar uma sensibilidade rara.

--:--

Não há muito o referido magistrado fez editar o primeiro livro de sua autoria, intitulado “A Justiça à Luz da Poesia”, uma obra “sui gêneres” e que se constituiu, no gênero, autêntica novidade literária.

--:--

“A Justiça à Luz da Poesia” registrou sucesso amplo e foi motivação para o lançamento da segunda obra do Dr. Paulo Lucio Nogueira: “Delitos do Automóvel”.

Depois dessa segunda publicação, o magistrado-escritor – que foi, por sinal, colaborador deste jornal – editou um terceiro livro, intitulado “Questões Penais Controvertidas”.

--:--

Surge agora o quarto livro do Dr. Paulo Lucio Nogueira, sob o título “Administração e Responsabilidade dos Prefeitos e Vereadores”.

--:--

Este quarto livro do Dr. Paulo Lucio vem representar um subsídio valioso para as administrações municipais de todo o Brasil. Dividido em quarto partes distintas, trata e aborda, à luz do Direito e de administração, questões legais referentes aos Poderes Públicos.

--:--

Na primeira parte, sobre os Prefeitos, o livro aborda questões essenciais, como escolhas dos prefeitos, intervenções nos municípios, posse e compromisso, vencimentos, verbas para representação, ajuda de custo, afastamento, substituição, perda de mandato, responsabilidade, “impeachment”, crime, infrações político-administrativa, processo nos crimes de responsabilidade, responsabilidade civil, etc.

--:--

A segunda parte refere-se ao vereador e delineia: Quem pode ser vereador, número de vereadores, posse, perda e extinção de mandato, suspensão de direitos políticos, comparecimento às sessões, pedido judicial de declaração de extinção, convocação de suplentes, inegibilidade e incompatibilidade, imunidade, subsídios, vereador funcionário, fidelidade partidária, responsabilidade, renúncia, licença, etc.

--:--

Trata a terceira parte da responsabilidade da Prefeitura: Autonomia municipal, representação em Juízo, criação de secretaria, elaboração de orçamento, aumento de tributos, trânsito, linhas intermunicipais, competência para fixar horário bancário e comercial, taxas, impostos, licitações, bens públicos impenhoráveis, terrenos em cemitérios, poder de polícia, pagamento de casas para Juíz e Promotor, abono de Natal e licença prêmio em pecúnio, subvenções para entidades esportivas, etc. Neste terreno, aborda também a autoridade, competência, deveres e obrigações do vice-prefeito.

--:--

A quarta parte trata das Câmaras Municipais, enfeixando: Composições das Câmaras, competência, personalidade jurídica, eleições da Mesa, atribuições da Mesa, sessões, deliberações, sessões secretas, atribuições do Presidente, sessões extraordinárias, controle judicial dos atos da Câmara, regimento, comissões permanentes e temporárias, prazo para deliberações, sanção, promulgação e veto aos projetos de lei, elaboração de orçamento, etc.

(Hoje, o Juiz Paulo Lucio Nogueira é homenageado, entre outros, como nome de um conjunto habitacional em Marília)


Extraído do Correio de Marília de 29 de outubro de 1974

sábado, 26 de outubro de 2013

O jogo do bicho (26 de outubro de 1974)


Tinha eu uns doze anos mais ou menos e o que mais aspirava na vida era possuir uma bicicleta. Residia no sítio e sempre que ia à cidade gastava parte do dinheiro que levava pedalando bicicleta de aluguel.

Aspirava fazer economias para um dia adquirir uma “magrela”, por mais usada e velha que fosse.

--:--

Nunca consegui esse ideal, pois só vim a comprar uma bicicleta aqui em Marília, já adulto e pai de filhos. Foi quando comprei uma “magrela” usada do Dr. Luiz Scaglio, pelo preço de quinhentos cruzeiros (velhos), que foi paga em cinco meses, à razão de 100 cruzeiros por mês (menos de dez centavos de hoje), cuja dívida amortizei com a prestação de serviços contábeis.

--:--

Tive uma única oportunidade de comprar uma bicicleta, mas meu velho pai “ligou o ventilador na minha farofa”, tendo impedido-me de comprar aquilo que representava para mim um anelo, um ideal, uma alegria inigualável.

--:--

“Seo” Leopoldo era um preto velho, solteiro e sem família. Era colono de um sitiante português e muito viciado no “jogo do bicho”. Costumava levantar por volta das 4 horas da manhã, fazia seu café, escolhia o feijão que punha no fogo e “se mandava” a pé para a cidade, a-fim de fazer sua “fezinha”, voltando a tempo para madrugar na lavoura.

O negro velho lidava com mais números de centenas, milhares e dezenas do que um escritório de engenharia. Fazia cálculos e mantinha espetados num arame os resultados do jogo de todos os dias.

--:--

Certa feita, levantei cedo para ir à cidade fazer determinadas compras para meu velho pai. Arreei o cavalo “Bainho”, tomei uma caneca de café e principiei a jornada.

No percurso, topei o “Seo” Leopoldo, que regressava à sua casa, depois de ter feito seu joguinho. Parei e principiamos a conversar. Dissera-me o preto que havia sonhado com um galo enorme e que havia “lascado” um mil réis no “grupo” e feito dois “ternos” de quinhentos réis cada um.

Contei-lhe que naquela noite eu havia sonhado que comprara um bicicleta por mil e duzentos réis.

É vaca – disse. Jogue na milhar da vaca.

--:--

Na cidade, depois de ter-me desobrigado do que fôra fazer, parei o animal defronte do chalé de jogo do bicho. Apeei e entrei dizendo para o bicheiro Atílio:

- Quero jogar duzentos réis no milhar 1.200 da vaca.

--:--

O bicheiro aconselhou-me a jogar 100 réis na centena e 100 réis no milhar e eu aceitei a sugestão. Dobrei cuidadosamente o talãozinho da aposta e guardei no “bolsinho do relógio” da calça, regressando para o sítio.

--:--

O dia passou normalmente para mim, “quebrando milho” até a tarde. Ao entardecer, o Antonio Calabrês, que vinha da cidade para seu sítio, estacionou o caminhão tipo “Ramona” à porta do botequim de beira-de-estrada que pertencia a meu pai para tomar “umas e outras”, como sempre fazia.

Eu estava com o prato de bóia na mão esquerda, no canto do balcão, fazendo meu jantar. Foi ai que surgiu a conversa do resultado do jogo daquele dia e o Antonio Calabrês disse que havia “dado” a vaca com 1.200. Como que despertando, interrompi a janta para dizer que eu havia jogado na vaca com 1.200.

Todos se interessaram e eu mostrei o talãozinho. O Calabrês conferiu com o resultado que havia colhido no chalé e comprovou a sorte.

Nada entendia eu sobre o assunto, mas fiquei sabendo que havia ganho a importância de 470 mil réis.

--:--

Não dormi aquela noite, esperando que o dia amanhecesse para ir à cidade receber a “gaita”.

Estava ainda escuro e sai, a pé, caminhando o mais apressadamente possível. Devo ter batido um autêntico recorde em fazer o percurso de oito quilômetros, pois cheguei cedo demais ao chalé.

--:--

O Atílio pagou-me o valor da aposta: duas notas de 200 mil réis, uma de cinquenta e uma de vinte.

Nunca havia visto tanto dinheiro em minha vida e tremia de emoção. Guardei o dinheiro no bolso e prendi um alfinete na boca do bolso, como medida de segurança para não perder a fortuna.

Regressei para o sítio com a mesma velocidade da ida.

Além do alfinete prendendo o bolso, minha mão estava colocada sobre a coxa, “em cima” do dinheiro! Parecia-me que todo o percurso estava ocupado por ladrões que iriam assaltar-me e sentia até medo.

--:--

Meu plano era retornar no dia seguinte à cidade para comprar uma bicicleta “Bianchi”, novinha em folha, que eu havia visto em exposição numa livraria e que custava 130 mil réis. Sobraria ainda 340 mil réis, que eu daria ao meu pai.

--:--

Ao chegar em casa, o “velho” pediu-me o dinheiro. Ponderei que desejava ficar com 130 para comprar a bicicleta.

- Nada de comprar bicicleta… Isso é coisa de grãfino da cidade – ordenou meu pai.

Entreguei o dinheiro e nunca pude comprar a bicicleta, a não ser a que acima referi e muitos anos mais tarde.

--:--

Essa lembrança ocorreu-me agora, quando os deputados federais José da Silva Barros (Arena, RJ) e Jair Martins (Mdb, GB) manifestaram-se na Câmara Alta favoráveis à volta do jogo do bicho, a ser explorada pela Caixa Econômica Federal, como fonte de renda para a manutenção de entidades educacionais.

Extraído do Correio de Marília de 26 de outubro de 1974

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ossos do ofício, ainda (25 de outubro de 1974)


Comentei em artigo anterior (24/10/1974), motivos relacionados com aquilo que se convencionou chamar de “ossos do ofício”: as adversidades e o inesperado, que se chocam com a execução de atividades profissionais, constituindo o mesmo que um ônus inevitável da própria profissão.

--:--

Por certo, não poderia constituir exceção à regra a função jornalística, que, além dos “ossos”, tem também seus “espinhos”.

--:--

Para quem se dispõe manter uma coluna diária em jornal e quando essa coluna ultrapassou o tempo de vida do paralelo de “bodas de prata”, como é o caso de “De Antena e Binóculo”, muitos  “ossos” foram já “roídos” e “triturados” nesse longo espaço-tempo.

--:--

O jornalista, tal como o ator, trabalhando em função de um grande público, não poderia, por certo, agradar indistinta e incondicionalmente a assirios e caldeus. Se critiva, ouve cânticos dos céus por parte dos que harmonizam análogos pensamentos. Mas, em compensação, sente cantilenas do inferno, por parte daqueles que criticados foram.

--:--

Após a leitura de um trabalho jornalístico ou literário, comprovando que em cada cabeça há uma sentença, os leitores fazem julgamentos próprios ou criam versões pessoais, o que ;e válido e certo, pois que ninguém teria condições de cercear a maneira de pensar dos semelhantes, nem mesmo em países de regimes totalitários – embora em tais locais os pensamentos não possam ser exteriorizados com a mesma frequência, garantias e facilidades como entre nós.

--:--

Além desse tipo de  “ossos do ofício”, um outro, igualmente “duro”, que se antepõe a quem escreve diariamente, caracteriza-se pela falta de inspiração.

Faltando essa condição, o escriba fica no mato sem cachorro e sem farofa.

E isso acontece, vez por outra, o que é natural.

Tem dias em que a gente senta defronte à máquina de escrever, chama a inspiração e esta não se dispõe a atender. Rebusca-se a “cachola” e nada se encontra.

Mas a coluna tem que ser escrita, tem que “sair”.

--:--

O leitor não se interessa e nem quer saber se o escriba está ou não inspirado, se tem ou não capacidade para manter por mais de vinte e cinco anos seguidos, uma coluna diária em jornal. Ele paga a assinatura para ler o jornal, para ser informado, para conhecer opiniões.

Ele está certo. Está no seu legítimo direito.

--:--

O editor responsável também não quer saber se o redator tem ou não inspiração. Se existe ou não motivação para o escriba desenvolver.

Ele quer a matéria escrita. Matéria que se coadune com o espírito norteador da coluna. Para isso, ele paga. Por isso, exige.

--:--

Esse pormenor ocorre nos jornais, especialmente nos interioranos, onde a sistemática de trabalho difere dos grandes órgãos das Capitais. Nos grandes jornais, a editoria máxima condensa, compila e estabelece pautas de trabalho que os repórteres e redatores desincumbem  como uma espécie de tarefa. Na imprensa interiorana isso não ocorre. O profissional, especialmente se for redator, tem que “criar” ideias para produzir críticas ou matérias opinativas.

A exemplo de todas as profissões, os dois fatos apontados constituem-se nos  “ossos do ofício” mais “duros de roer” por parte dos profissionais da imprensa cabocla.

Extraído do Correio de Marília de 25 de outubro de 1974

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ossos do ofício (24 de outubro de 1974)


Todas as profissões têm seus espinhos, esse estado de coisas que se convencionou chamar de “ossos do ofício”.

Os “ossos do ofício” representam-se pelas adversidades, pelo inesperado, pelas consequências contrárias, por resultados negativos e “dores de cabeça” advindas do exercício de uma profissão, qualquer que seja ela.

--:--

É uma espécie de ônus, que o exercício de um cargo acarreta e, se assim não fôra, a execução de toda e qualquer atividade constituiria então um “mar de rosas”, uma “moleza”.

--:--

Contou-me um amigo, cirurgião-dentista, que, após receber seu diploma, “mandou-me” para uma cidadezinha do interior do Paraná, onde abriu consultório. O pai havia-lhe custeado todo o equipamento, que adquiriu em São Paulo. Tudo moderno, completo, de último tipo.

O trabalho da montagem e instalação do consultório demandou dois dias e no terceiro, quando tudo estava em ordem, o novo “tiradentes” dirigiu-se logo cedinho para iniciar-se nas atividades profissionais.

--:--

Contou-me que não se continha de contentamento e que mal poderia disfarçar a ansiedade, em ver surgir a pessoa que viria a ser “o primeiro cliente”.

Ficava um tempo no interior da casa, depois saia para a porta, plantava-se no passeio com o avental branco novinho em folha, tentanto despertar as atenções dos vizinhos e de quem transitava pela rua.

--:--

O relógio marcava quase meio-dia e resolveu almoçar, um tanto decepcionado, por não ter sido procurado por nenhuma pessoa. Ao sair, fechou a porta e colocou um cartaz que havia mandado confeccionar: “Fechado para o almoço, das 11 às 13 horas”.

--:--

Propositadamente, não trocou o avental pelo paletó e assim, uniformizado, dirigiu-se para o hotelzinho onde estava hospedado. Seria a primeira vez que a proprietária do hotel e os demais hóspedes o iriam ver “fardado de dentista”.

Quando chegou à sala de refeições, notou satisfeito que havia despertado as atenções, pois já era ali conhecido da maioria dos hóspedes, mas nenhum deles o havia visto ostentando o uniforme profissional – calças e sapatos brancos e avental.

--:--

Após o almoço, retornou ao consultório.

Momentos depois, adentraram no local uma senhora de meia idade, caprichosamente bem vestida, acompanhada de uma moça duns 18 anos, muito bonita e muito bem feita de corpo. Atendeu-as solicitamente e a mulher explicou que precisava extrair um dente da filha, pois vinha sentindo muitas dores.

--:--

A satisfação do profissional foi dupla: aparecera o primeiro serviço e por sinal a primeira cliente, muito “boazuda”.

O dentista fez a moça acomodar-se e foi buscar uma cadeira para a “velha”. Lavou cuidadosamente as mãos, fazendo tudo para chamar as atenções pelo cuidado e asseio. E principiou o exame, identificando o canino a ser extraido.

Anestesiou convenientemente, aguardando o espaço-tempo necessário. Quando o momento era oportuno, fez o descarne preliminar e lançou mão do boticão.

Puxou para um lado, torceu para o outro, fez força daqui, de lá e nada do dente sair. Nem aluia. O homem suava e precisou reforçar a anestesia. Lutou por mais de quarenta minutos sem conseguir e percebeu que estavam os três nervosos: a mulher, a cliente e ele próprio.

--:--

Começou a pensar nas consequências de um erro profissional e no seu próprio “fiasco”. Tomou a decisão honesta de confessar à mulher que o caso estava difícil para ele e que iria consultar um colega mais experimentado. E foi correndo buscar um outro dentista. Este veio, apanhou o boticão e “largou brasa”, mas não conseguiu extrair o dente. Desistiu e recomendou a feitura de uma radiografia, para melhor conhecer a raiz do canino.

--:--

Isto foi feito e o Raio X mostrou o dente ligado no maxilar, como um apêndice autêntico. No dia seguinte, o dentista mais velho teve que proceder uma cirurgia, para serrar o dente do osso do maxilar.

--:--

O dentista ficou tão apavorado com o insucesso e tão envergonhado com o fracasso, que acabou mudando para outra cidade.

Quando contou-me o caso, limitei-me a dizer-lhe:

- São “ossos do ofício”.

Extraído do Correio de Marília de 24 de outubro de 1974

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Paulo Egydio e a imprensa interiorana (23 de outubro de 1974)


“Não fiz este convite para parecer simpático ou porque estamos às vésperas de um pleito e sim porque a participação do interior da vida do Estado me interessa muito”.

--:--

As palavras acima foram proferidas pelo Governador eleito Paulo Egydio Martins, no último dia 16 (de outubro de 1974), ao receber em audiência coletiva os jornalistas do interior.

--:--

Mais de 60 jornalistas interioranos estiveram presentes à reunião, convocada pela Associação Paulista de Imprensa, a cujo conclave este jornal deveria fazer-se presente e que, na última hora e por motivos óbvios, não pode fazê-lo.

--:--

Os jornalistas estiveram reunidos no anfiteatro da API, em sessão presidida pelo sr. Paulo Zing, presidente da referida entidade.

Foram apresentadas diversas teses e moções, que após apreciações foram convenientemente dissecadas, para em resumo objetivo, constarem, de um memorial que foi entregue ao futuro Governador do Estado.

--:--

A medida de reunião prévia e de condensação de itens num só memorial, teve por escôpo a sintetização de um pensamento unânime, que representasse e consultasse os interesses gerais da imprensa interiorana.

Seu objetivo teve por escôpo a sintetização e a racionalização de um ponto de vista unânime. Pois é sabido que cada órgão tem seus problemas próprios e se na ocasião cada um dos delegados fora apresentar seus próprios problemas, certamente o futuro Governador iria cansar-se em ouvir discursos e reivindicações e por certo o volume de questões, ao invés de produzir resultados positivos, possivelmente acabaria gerando conflito de problemas e as consequências viriam a não traduzir-se nos objetivos esperados.

--:--

Por outro lado, se se delegasse uma única voz para apresentar as reivindicações da imprensa interiorana ao futuro Chefe do Executivo bandeirante, poder-se-ia dar o caso de omitir-se detalhes importantes e setem oferecidos subsídios diretos, que poderiam ser convenientes para m ou mais órgãos e não conduzentes com os anelos e anseios dos demais.

Por essa razão, discutiram-se todos os problemas, dissecando-se dificuldades, questões, percalços, para após isso resumir-se todos os pensamentos num só aglomerado, que consubstanciou o memorial referido, que foi entregue ao Sr. Paulo Egydio Martins.

--:--

Constou esse memorial de quatro únicos itens, cujo conteúdo já se encontra em poder do futuro Governador do Estado.

São os seguintes os quatro itens que a imprensa interiorana ofereceu como reivindicação ao sr. Paulo Egydio Martins:

1º. – Revisão da Lei Orgânica dos Municípios, para tornar obrigatória a publicação de atos oficiais do Estado, nos órgãos de imprensa do interior.

2º. – Que o Governo do Estado destine 30% das verbas de publicidade aos órgãos de divulgação do interior.

3º. – Que o Governo Estadual interfira junto ao Poder Federal no sentido de ser modificada a Resolução nº. 34 do Conselho do Desenvolvimento Industrial, que só permite isenção de taxas alfandegárias para a importação superior a 400 mil cruzeiros.

4º. – Que a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos conceda aos jornais do interior a mesma redução concedida aos grandes órgãos de divulgação, na remessa de seus exemplares para outras cidades.

--:--

Como se poderá verificar foram objetivos claros e sem pretensões voluptuosas dos jornalistas, nessa reivindicação junto ao Governo do Estado. Pediram estes apenas quatro concessões, perfeitamente plausíveis, de interesse direto da imprensa interiorana. 

Extraído do Correio de Marília de 23 de outubro de 1974

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Expedientes políticos (22 de outubro de 1974)


Em 1948, determinado deputado paulista fez-me presente de um cartão impresso, constando meu nome e função profissional. O referido documento dava-me o direito de “ingresso livre” no recinto da Assembleia Legislativa do Estado.

--:--

Certa feita, indo à Capital e dispondo de tempo, pretendi conhecer o Palácio 9 de Julho e presenciar uma sessão ordinária da Assembleia Legislativa.

Lembrei-me do “ingresso livre” e isso mais animou-me a conhecer o parlamento.

Na entrada, exibi o cartão ao guarda civil que estava na porta e o policial nem siquer deu-se ao trabalho de examinar ou pelo menos atentar para o nome do portador. Mandou-me simplesmente adentrar.

--:--

Já instalado nas galerias do plenário, estabeleci palestra com um cidadão e comentei o fato do documento. Disse-me o homem:

- Isso não vale nada, é uma demagogia muito barata. Esta é a parte destinada ao público e aqui toda pessoa entra e sai livremente, sem necessidade desse cartão. Mesmo que você necessita falar pessoalmente com um deputado, isso nada representa, porque quem atende primeiro é a secretária particular de cada um deles.

--:--

Percebi e mais tarde constatei que essa formalidade não tem valor, pois, como cidadão comum, qualquer pessoa entra sem esse cartãozinho, na Assembleia, na parte destinada a assistência.

--:--

Nestes últimos tempos, especialmente nesta era de campanha eleitoral, tendo recebido dezenas desses “ingressos livres”, remetidos por deputados candidatos à reeleição.

--:--

O que a respeito causou-me espécie é o recebimento periódico desses “ingressos”, inclusive alguns com propaganda política no verso. Suponho que essas impressões tenham sido feitas aos milheiros e, nesse caso, está havendo milhares e milhares de pessoas “credenciadas” com o “livre ingresso” na Assembleia Legislativa.

--:--

Os candidatos apegam-se a tudo e a todos, utilizando até armas escusas e processos idem.

--:--

Quando da primeira eleição dos deputados estaduais para a Assembleia Constituinte de 1947, fui apresentado a determinado cidadão, que era candidato a deputação estadual.

A pedido deste e por solicitação simultânea de um mariliense, escrevi alguns motivos para discursos políticos do mesmo, com bases em dados me fornecidos. Minha participação foi somente a de redator e fi-la sem interesse qualquer.

Tanto isso é verdade que o aludido cidadão, após ter vencido o pleito e sagrando-se deputado, escreveu-me uma carta de agradecimento e pediu que lhe enviasse duas fotos minhas do tamanho 3 x 4.

--:--

Se, saber a razão do pedido e sem alternativa, atendi o solicitado e enviei as fotografias.

Cerca de um mês após recebi pelo correio um envelope timbrado da Assembleia e um ofício do deputado, oferecendo-me uma carteira que me concedia “passe-livre” na Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

O que me surpreendeu foi que nessa cédula, com meu nome, fotografia e endereço, constava ser eu suplente de deputado em exercício!

--:--

Fiquei chocado e entendi que jamais poderia aceitar aquela imoralidade.

Arranquei a foto da cédula e a devolvi ao deputado, com uma carta em que condensei a recusa e a censura ao método utilizado. Nunca mais o referido deputado lembrou de mim…

Extraído do Correio de Marília de 22 de outubro de 1974

sábado, 19 de outubro de 2013

Assuntozinhos oportunos (19 de outubro de 1974)


O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro vem de requisitar as gravações de todos os programas de rádio e televisão dos quais participaram candidatos a cargos eletivos fora dos horários gratuitos permitidos pela Justiça Eleitoral.

Segundo a informação, o TRE irá proceder o exame das fitas gravadas e poderá determinar a cassação dos registros de todos os candidatos que porventura tenham violado as instruções do Tribunal Superior, fazendo programas de interesse de suas candidaturas políticas.

A decisão origina-se de uma denúncia formulada pelo procurador regional eleitoral, Dr. Carlos Rollemberg, que, mesmo sem ter citado nomes dos possíveis infratores, solicita ao TRE uma fiscalização bastante rigorosa da lei.

--:--

Já disse alguém que a televisão torna pessoas mal educadas.

O exemplo citado: quando uma pessoa visita outra e o aparelho de televisão está ligado, geralmente prende a atenção e desvia as vistas. Se é o dono da casa que se interessa pela tevê, este está demonstrando desinteresse pela visita e se é a visita que fixa os olhos no vídeo, naturalmente está ela desinteressando-se indiretamente pela pessoa que está visitando.

Entenderam?

--:--

Falando em televisão, falemos também em rádio.

O sistema técnico da Rádio Dirceu, por ocasião da transmissão da sessão da Câmara Municipal na última quinta-feira (17/10/1974), esteve muito falho.

Ou esse serviço ou o circuíto interno dos microfones.

O microfone da tribuna, que deveria ser claro e bom tom, esteve com uma tonalidade aquém do normal desejado, parecendo “muito longe”.

Enquanto isso, microfones das mesas dos vereadores apresentavam-se muitos deles abertos, ocasionando uma salada de vozes, comprometendo a clareza da audiência para o público.

Se isso não bastara, alguns vereadores conversavam normalmente sobre assuntos vários, comprometendo a audiência normal da voz de quem ocupava a tribuna.

Como pretendia ouvir o desenrolar da sessão e isso não estava sendo muito possível, telefonei duas vezes para a edilidade e uma vez para a emissora, nenhuma providência técnica aparente tendo sido tomada.

Em virtude disso, o público ouviu coisas que não interessava na ocasião e ficou sabendo de sentimentos ocultos e de certa forma lamentáveis, do vereador Homero.

--:--

Se a abertura e fechamento do microfone individual de cada vereador depender desse, este que tome as devidas cautelas, só o abrindo para falar como vereador em sessão e não como vereador assistente de reunião.

Se, em contrário, tais operações dependem de trabalho de terceira pessoa, essa terceira pessoa que fique atenta, para que a perfeição se consume.

É comum, também, estando um orador na tribuna, o ouvinte de casa tomar conhecimento de conversas de elementos da própria mesa, interferindo e prejudicando a audiência da locução de quem fala em caráter oficial.

Isso vem ocorrendo há tempo.

Não se poderá dar um jeitinho?

Extraído do Correio de Marília de 19 de outubro de 1974

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Hoje, Dia do Médico (18 de outubro de 1974)


Decorria o ano de 1936, quando concluía eu o terceiro ano do curso primário, numa escola mista da zona rural. Para “fazer” o quarto ano e “tirar diploma”, seria necessário ingressar num grupo escolar, pois escolas rurais não ministravam o último ano primário e também não possuíam grupos escolares. Estes só existiam em cidades.

--:--

Oito quilômetros de distância separavam o sitiozinho de meu pai da cidade de Cafelândia. Isto significa que para cursar o último ano em grupo escolar teria que caminhar, diariamente, um percurso de 16 quilômetros, entre ida e volta. E foi o que fiz durante o ano letivo de 1936.

--:--

Dentre os amigos que fiz na classe, nutria eu “inveja” por dois deles: o Ivã, que era filho de um médico, o Dr. Gilberto, e o Ary, que era afilhado de outro médico, o Dr. Moss.

Ambos eram os mais bem vestidos e alimentados da classe, possuíam relógios de pulso, sapatos dos melhores e levavam sempre os melhores lanches escolares.

Eu não levava lanche no grupo, porque meu lanche constituía-se em “bóia fria”: um caldeirãozinho com feijão e arroz e às vezes um ovo frito. Andava quase sempre descalço, pois o tênis “pé-de-anjo”, que vez por outra o meu “velho” conseguia comprar-me, durava pouco. Antes de chegar à cidade, consumia a “boia-fria” e escondia no mato o caldeirãozinho, que apanhava no regresso. A verdade é que eu sentia vergonha de comer feijão com arroz no recreio, enquanto outros levavam pão com manteiga, pão com banana, pão com doces e outras coisas que eu não podia levar.

--:--

O pai de Ary era sapateiro-remendão, mas todas as despesas referentes ao garoto eram custeadas pelo Dr. Moss – roupas, calçados, livros, lanches, cinemas, tudo.

O médico não tinha filhos homens e auto-adotara o Ary, com a intenção confessa de custear-lhe os custos, os estudos, para formá-lo médico, que viria a ser, em porvir, seu sucessor na clínica geral e cirúrgica que possuía

Após a conclusão do curso e depois de ter “tirado” diploma, voltei a fixar-me na lavoura. Enquanto isso, Ivã ia estudar em São Paulo e o Ary, às expensas do Dr. Moss, rumava para Lins, a-fim de cursar o ginásio.

O médico-padrinho do Ary deve ter sofrido decepção, pois ao invés de médico, o rapaz acabou formando-se contador, profissão que exerce até hoje (18 de outubro de 1974).

--:--

Mais de uma vez escrevi aqui que minha vocação, desde a infância, sempre foi a medicina. Mesmo na zona rural e à luz de lamparina a querosene, muito lia em criança, sobre a ciência médica e sabia de cor os diagnósticos e os sintomas de muitos males, descritos numa publicação que se intitulava “O Médico do Lar”.

--:--

Das trinta e duas profissões que aprendi a exercer, para o ganha-pão diário – comecei a trabalhar aos 7 anos – inclui-se a prática de farmácia e de enfermagem e por circunstâncias especiais e inesperadas, até partos auxiliei a fazer e fiz, sem que isso pudesse representar exercício ilegal da medicina.

--:--

Pelo conteúdo que aqui está, manifesta-se de maneira indisfarçável minha grande admiração pela classe médica.

Ocorrendo hoje, a festa de São Lucas, o Médico do Evangelho, comemora-se também o Dia do Médico.

É esta minha homenagem a essa classe abnegada, à qual confiamos a esperança da preservação de nossa saúde e da cura de nossos males.

Meus respeitos à vontade compassiva dos médicos, à generosa paciência, que mesmo nos momentos dos maiores cansaços encontram tempo para socorrer o enfermo, que clama ansiosamente as presenças desses profissionais, ocasião em que a vida do doente passa inteiramente a ficar nas mãos do médico, que, mercê de seus estudos e capacidade profissional e humana, dá ao paciente o ânimo forte, a esperança e a força para a vida.

Aos médicos, esta pálida e sincera homenagem.

Extraído do Correio de Marília de 18 de outubro de 1974

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Exame “para passar” (17 de outubro de 1974)


Certa feita, necessitando utilizar material redacional, deparei com determinada frase em francês e, tendo dúvidas acerca do significado exato de determinada palavra, recorri a um estudante do então curso científico.

O moço ouvira a palavra e confessava-me ignorar a sua definição. O que estranhei foi a sua justificativa, de que não gostava da língua francesa e que estudava com o único objetivo de obter média suficiente somente “para passar de ano”.

--:--

Achei errado, mas nada ponderei. Errado, porque, estudando-se, armazena-se conhecimento, conhecimentos que não só identificam o homem culto e preparado, como, igualmente podem ser úteis em porvir ou ocasiões especiais a esse mesmo homem.

--:--

Dizia-me, determinada época, um acadêmico de direito que estudava fora de Marília, que no curriculo escolar daquele ano desagradava-lhe estudar a matéria “medicina legal” e que esforçava-se somente para conseguir “passar de ano”, nada mais.

--:--

Ao então acadêmico de direito argumentei que o mesmo estava laborando um erro, pois a referida matéria representava fator importante e forte para o exercício da advocacia, especialmente como elemento coadjutor quando da prática da profissão, na faixa do direito penal.

--:--

Representa algo estranhável e prejudicial aos estudantes o “modus operandi” referido, de estudar determinadas matérias, “apenas para passar de ano”.

--:--

Esses dois motivos ensejam-me a oportunidade de conjecturar que em muitos casos que se observa na cidade, no que diz respeito a muitos motoristas e “chaufeses”, que deve ser bem grande a porcentagem daqueles que estudam as regras e leis de trânsito, igualmente “só para passar”.

--:--

Se isto não fôra, não veríamos seguidamente, nas ruas da cidade, os abusos e as aberrações que cometem muitos cidadãos e mulheres aos volantes de veículos motorizados.

--:--

Nada custa e é compulsório por lei a obrigatoriedade de sinalização para mudança de direção seguida – ou o sinal convencional com a mão, ou a ligação da seta específica para o fim. Mas muita gente vai dirigindo e converge para a direita ou para a esquerda, sem obedecer esse comezinho e elementar princípio obrigatório.

--:--

Um marco designativo de ponto de ônibus deve merecer por parte dos motoristas, que pretendem estacionar no local a respeitabilidade de manutenção de uma distância mínima de oito metros antes do ponto e de três metros após o ponto, desde que não exista outra placa designativa ou proibitiva de trânsito.

Nem todos obedecem essa exigência e vemos seguidamente na cidade veículos estacionados em contrariedade legal, junto a pontos demarcativos de parada de ônibus.

--:--

Nas guias rebaixadas, indicativas de entrada e saídas de veículos, especialmente de garagens, residenciais, motoristas “folgados” estacionam, sem ligar às infrações de trânsito e aos transtornos que ocasionam a terceiros.

--:--

E muitos outros pormenores análogos, que se verificam em nossa cidade, dando a entender que os seus praticantes cometem os erros conscientemente ou então que garantem a certeza de que, quando se prepararam para os exames regulares destinados à obtenção da carteira de motoristas, estudaram “somente oara passar”!


Extraído do Correio de Marília de 17 de outubro de 1974

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Conversa de jornalistas (16 de outubro de 1974)


Dia outro, na Capital, palestrei casualmente com um jornalista paulistano, integrante do setor de reportagem geral de um grande diário de São Paulo.

Moço muito culto, detentor de um excelente diálogo, possuidor e um acurado dom de comunicatividade, contava-me haver se formado em jornalismo há quatro anos.

--:--

No decurso da conversa, estabeleceu-se um paralelo entre os dois tipos de imprensa – do interior e da Capital. Ignorava ele, até então, diversos aspectos da imprensa cabocla, pobre, sacrificada e heróica da hinterlândia, em relação aos grandes jornais das Capitais e grandes cidades.

--:--

Ficou admirado de muitos fatos que lhe narrei, acerca das atividades do profissional interiorano, onde o escriba do interior exerce uma espécie de “clínica geral” e onde os setores de especialização são poucos e dificeis – o que não acontece nas Capitais.

--:--

Num grande jornal, para tudo existe especialização.

--:--

No interior, tal não ocorre. No interior, já principiam a identificar-se especialistas, é bem verdade. Mas de modo geral e especialmente há algumas dezenas de anos passados, tal não acontecia.

--:--

Ficou admirado quando dissera-lhe que o jornalista interiorano tem que ser muito eclético, pois uma série de fatores impede uma especialização segura.

No interior, quase sempre o escriba tem que ser “pau para toda obra”. Escreve sobre política, sobre polícia, sociedade, esportes, necrologia, religião e até editoriais, ou matérias redacionais opinativas.

--:--

Para melhor fazer sentir ao jovem jornalista a configuração de imagens que lhe transmiti, acerca desse “modus operandi” do jornalista “terimbeiro” do interior, contei-lhe aquela piada do velho jornalista de um diário interiorano, jornal esse que havia contratado os serviços de um profissional recem-formado para a chefia de redação.

--:--

Determinado jornal contrataria os serviços de um jovem profissional, recem formado em jornalismo para exercer a chefia de redação do mesmo. O novo jornalista, assim que assumiu, cismou de proceder “radical transformação” no diário. Foi logo mudando horários de fechamento do jornal e determinando prazos máximos para a entrega de originais, alterando o sistema de diagramação, que até então vinha sendo seguido e estabelecendo o processo de compilação prévia de pautas de trabalho.

--:--

Um velho redator, que por vezes fazia quase sozinho o jornal e que há mais de trinta anos dedicava-se à profissão, foi quem menos gostou da “radical transformação”.

Entendia ele que o funcionamento do jornal deveria continuar como estava, porque “estava muito bom”.

Obedecia as ordens do novo chefe de redação a contra gosto, mas procurava ocultas os seus sentimentos.

--:--

Na concepção do velho jornalista, o moço sabia muito de teoria, mas nunca havia “comido o pão que o diabo amassou” trabalhando num jornal. Pensava o velho que o jovem, com todos seus conhecimentos culturais, muito tempo iria demorar ainda para ganhar a competência eclética de sua “tarimba”, que o credenciava a escrever sobre tudo, sobre todos e sobre qualquer assunto. De fato, o velho “era fogo” na arte de escrever.

--:--

Certa feita, ao dirigir-se para sua sala de chefia, o novo jornalista, ao passar pelo velho, que escrevia uma lauda, ordenou:

- “Seu” João, hoje é véspera de Natal. Escreva para a primeira página de amanhã, matéria de duas laudas num roteiro de 43 linhas, sobre Jesus Cristo. Não esqueça.

--:--

O velho jornalista terminou a feitura do trabalho iniciado, apanhou nova folha de papel, que colocou na máquina. Levantou-se a seguir, dirigindo-se à sala do chefe e perguntou:

- Aquela matéria sobre Jesus Cristo, o senhor quer que eu escreva contra ou a favor?


Extraído do Correio de Marília de 16 de outubro de 1974

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Votemos pró Marília (15 de outubro de 1974)


Faltam dois meses e meio para o término deste ano da graça de mil novecentos e setenta e quatro.

O relógio não para, os dias caminham apressadamente, devorando semanas e engolindo meses seguidos. O tempo, inexorável e místico, acobertando a incerteza do porvir, vai andando sempre, deixando para traz os fatos, os exemplos bons e maus das criaturas humanas.

--:--

Falta exatamente um mês para que o eleitorado compareça às urnas, a fim de, no exercício do voto livre e independente, eleger os deputados estaduais e federais e decidir também quanto a uma vaga no Senado Federal.

--:--

É chegado o momento que está a exigir um exame de consciência. É chegado o momento do leitor fazer valer seu direito, votando livremente, sem influenciar-se ou deixar-se influenciar por pedidos de amigos, por promessas de empregos ou vantagens.

--:--

É urgida a necessidade de pensar-se em Marília, em termos de Marília, em amor sincero pela cidade que nos dá condições de vida, que nos facultou o estreitamento de nossas relações amistosas e recíprocas e que tão carinhosamente nos acolhe e nos orgulha.

É chegado o momento de votar em Marília, para Marília, para nós próprios, elegendo nossos candidatos legítimos.

--:--

Votando e elegendo nossos próprios candidatos, passaremos a contar com nossos próprios delegados nos parlamentos, aos quais poderíamos ter a condição de exigir trabalhos pelo futuro e pelo desenvolvimento das coisas e causas marilienses.

--:--

Não o fazendo, deixaremos de ter vozes próprias na Assembléia Legislativa e Câmara Federal, perpetuando o indesejável estado de orfandade que sempre nos caracterizou, restando-nos o contundente consolo de continuarmos a pedir favores de chapéu na mão e de contar como vimos contando de serviços de deputados “por empréstimo”.

--:--

Erramos muito no passado.

É tempo de repararmos esses erros, unindo todas as nossas forças, no sentido de elegermos nossos próprios deputados.

É tempo de pensar mais em Marília.

É tempo de votar por Marília.

--:--

No terreno de candidatos a Assembléia, Marília possui dois candidatos íntegros, capazes, eficientes, que apresentam as condições exigidas, para falar no Palácio 9 de Julho, advogando nossos interesses.

Se a preferência do eleitor for pelo partido da oposição, vote em Oswaldo Doretto Campanari, que é mariliense e legítimo candidato de nossa terra. Um poço de virtudes e de exemplos indiscutíveis.

Se, ao contrário, é interesse do leitor e eleitor, votar no partido do Governo, no afã da preservação do regime revolucionário, dê seu voto a Sebastião Mônaco, mariliense de mais de 40 anos, contador e advogado, que já exerceu com eficiência o mandato de vereador em Marília.

--:--

Num ou em outro, votemos certo, votando a favor de Marília.

Eu posso fazer semelhante apelo: nunca votei, não voto e nunca votarei contra minha cidade adotiva!


Extraído do Correio de Marília de 15 de outubro de 1974

sábado, 12 de outubro de 2013

Quatro assuntos e um escrito (12 de outubro de 1974)


Convênio vem de ser firmado entre a Prefeitura Municipal e a diretoria do Albergue Noturno de Bauru, destinado a combater a mendicância na “cidade sem limites”.

Os dois órgãos contarão também com o apoio das entidades de classe e clubes de serviço bauruenses, numa ação conjunta de extinção da mendicância nas ruas daquela cidade.

Segundo as notícias a respeito, os mendigos serão retirados das vias públicas pela Polícia, que operará um serviço de triagem, encaminhando os necessitados ao Albergue Noturno. Este, por sua vez, analisará as medidas de necessidade assistencial e sanitária, através dos trabalhos de uma assistente social, para o encaminhamento aos setores competentes. Os que apresentarem casos irrecuperáveis serão encaminhados a entidades de amparo e os itinerantes terão resolvidos os problemas que os levaram até Bauru, sendo recambiados para suas cidades de origem.

--:--

Falando em pedintes, estão aparecendo “caras novas” na cidade, fazendo aumentar o já grande número desses elementos em Marília.

Se há os realmente necessitados e sem condições para o trabalho, pressupõem-se também que existem malandros e pinguços no ról dessas pessoas que estendem a mão à caridade pública.

Percebe-se a presença de homens aparentemente sadios e com forças suficientes para um trabalho, mesmo pesado, pedindo seguidamente. Muitas dessas pessoas apresentam gestos de condenável atrevimento, chegando a adentrar quintais e assustando crianças, empregadas e donas de casa, com seus pretextos e grandes insistências em pedir.

Muitos exalando cheiro de corpo e bafo de cachaça, que teimam em não arredar o pé, enquanto não forem atendidos. Muitos, que perturbam família, inclusive até depois das dez horas da noite. Moças e mulheres, algumas até de boas aparências, em condições visíveis de exercer um trabalho, mas que pedem por profissão, para fugir as atividades de serviço honrado.

--:--

Existe em Marília um motivo que desagrada e aborrece, embora se trate do exercício de uma profissão digna de respeito, sob todos os pontos de vista.

É o excesso de pequenos engraxates, mesmo durante o período noturno, o que, por certo, deveria ser proibido pela autoridade competente. Pairam dúvidas acerca de se todas as rendas auferidas por todos os pequenos engraxates, seja devidamente carreada para os próprios lares, porque a gente vê os garotinhos comprando balas, sanduíches e refrigerantes e quando aparecem as malfadadas figurinhas na cidade, o maior número dessa freguesia é representada por esses garotos.

Não que se seja contra a atividade, mas que se regulamente e melhor fiscalize essas funções.

Por exemplo, no ponto de ônibus do Expresso de Prata o número desses garotos torna-se inoportuno. Pessoas que vão viajar, que ali esperam familiares ou que aqui desembarcam, não cogitam e nem têm tempo para lustrar os calçados. E os garotinhos, aos bandos, insistem, apregoando seus trabalhos. Durante a noite, também, o que se entende por errado, pois o trabalho noturno é especificamente regulado por lei.

--:--

Ontem (11/10/1974), por volta das dez horas, mais ou menos, um garotão pedalava loucamente uma bicicleta, via Carlos Gomes e em direção à 9 de Julho. Corria mais que o normal e não respeitou o sinal vermelho do semáforo. E ainda por cima virou à direita, descendo em grande velocidade e contra-mão a Rua 9 de Julho.

Aliás, é algo comum isso, com menores dirigindo bicicletas contra-mão na Rua 9 de Julho, no trecho compreendido entre a Av. Carlos Gomes e Nelson Spielmann.

Sem contar-se a Av. Mauá, onde muitos garotos pedalam suas bicicletas contra-mão, em sentido da Delegacia de Polícia para a Rua 9 de Julho.

No dia em que um motorista adentrar a Mauá, ali próximo da Mesbla e der uma “cacetada” sem esperar, num ciclista que transita erradamente, o motorista virá sofrer consequências sem culpa e o ciclista deverá ir queixar-se ao técnico do Corinthians.

Extraído do Correio de Marília de 12 de outubro de 1974

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

E o Mini-Ceasa? (11 de outubro de 1974)


Quando da inauguração oficial do Centro Estadual de Abastecimento S.A. – CEASA de São Paulo, estive participando do acontecimento como enviado especial deste jornal.

Observei, anotei e escrevi posteriormente, não muito a solenidade em si, os discursos, a presença de autoridades estaduais, o banquete, mas muito mais a grandeza da obra e as finalidades de seu funcionamento e fins precípuos.

--:--

Naquela ocasião – e faz isso regular tempo! – rabisquei alguns comentários abordando o assunto e “sonhando” para um porvir distante, o erguimento de núcleos outros análogos, em pontos diversos do interior do Estado.

Esse “sonho” fôra externado por conta própria, eis que ninguém propalara nada a respeito e parece que ninguém na oportunidade chegara a pensar em semelhante aspiração.

--:--

Tempo passando inexorável, místico, misterioso e insoldável.

Anos mais tarde, uma realidade de intenções administrativas do próprio Governo do Estado, vem colidir exatamente com aquilo que parecia um anelo fantasioso e aparentemente impossível – pelo menos na época: a construção de Mini-Ceasa em pontos diversos da hinterlândia.

--:--

Planos já se elaboraram a respeito, com base no atendimento de produtividades de produtos agrícolas, leguminosas, frutas e cereais, inter-regiões.

O órgão competente já se incumbiu da feitura desses estudos e dos levantamentos sócio-tecnológicos regionais.

Por certo, fatores outros deverão ter igualmente feito parte integrante desses estudos e levantamentos, quais sejam as facilidades de transporte, rodoviário e ferroviário, os meios opcionais de conforto citadino e naturalmente a precisão necessária sob o ângulo educacional, do oferecimento completo ou quase completo de meios de educação, com vistas à necessidade dos próprios funcionários ou familiares.

Deverá predominar o aspecto da capacidade de recebimento e facilidades de distribuição de mercadorias, notadamente inter-regiões.

Pelo menos, assim parece.

--:--

Partindo, pois, dessas cogitações e dessas hipóteses, é estranhável o fato de que Marília tenha ficado de fora desses planos de construção de núcleos do Mini-Ceasa no interior.

--:--

Marília representa, além de sede de Região Administrativa do Estado, ponto-chave na própria Alta Paulista. Centro demográfico expressivo, parque industrial dos mais respeitáveis, comércio dos mais sólidos e vibrantes, centro educacional de elevada importância no próprio Estado, posição geográfica privilegiada.

Além disso, inter-ligada às regiões da Alta Noroeste, Estado de Mato Grosso, Alta Sorocabana e Norte do Paraná.

Mas, ao que consta, Marília não consta nesses planos de instalação dos centros referidos.

Um Mini-Ceasa em nossa cidade não só beneficiaria Marília, mas antes de tudo, traria benefícios inumeráveis às cidades, aos agricultores e às próprias lavouras de mais de uma região.

--:--

Para não quebrar-se a monotonia, Marília continuará alijada de mais uma importante concessão administrativa do próprio Governo.

Extraído do Correio de Marília de 11 de outubro de 1974

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Da poesia ao poema (10 de outubro de 1974)


Recordo-me muito bem.

Foi no ano de 1939, portanto há 35 anos passados, que consegui publicar meus primeiros rabiscos em jornais.

Era estudante, trabalhava em escritório e o que percebia, como fruto do trabalho, tornava-se insuficiente para viver. Porisso, exercia nas horas vagas e após o período das aulas noturnas, o “bico” de garçon.

--:--

Sentia, mesmo criança, muito fascínio pela imprensa. Gostava de ler o jornal bi-semanário da cidade, com muita atração e avidez. Sentia muita admiração por um caboclinho, chamado Eloy, que era o redator do aludido hebdomadário.

Sentia, igualmente, desejos de escrever e ver meus escritos publicados no jornal “O Progresso”, que existia naquele tempo, na vizinha cidade de Lins.

--:--

Um dia criei coragem e fui procurar o jornalista.

Pedi-lhe que me desse uma oportunidade, que aceitasse minha colaboração, pois gostaria de ver algo de minha lavra, ser publicado num jornal. “Seo” Eloy mediu-me dos pés a cabeça e sentí que não o havia impressionado nem um tiquinho. Ele tinha razão, pois eu era um garoto raquítico, de sapatos muito gastos e de roupas bem pobres e modestas.

Mesmo assim, disse-me que eu poderia deixar alí o “material” e que o procurasse outro dia, pois “iria ver, quando tivesse tempo”.

Deixei a redação encabulado, desenxabido e desesperançado.

Receioso, alguns dias após, voltei a falar com o profissional.

--:--

Não sei se o “Seo” Eloy havia compadecido-se de minha pessoa simples e humilde, ou se havia achado os escritos algo razoáveis. Disse-me:

- Menino, você vai ter que gastar muito lápis, para aprender a escrever. É preciso muito tempo para ficar “de vez” e e muito mais tempo ainda para ficar “maduro”. Vou ver o que posso fazer com seus artigos, mas ouça aqui um conselho: não dedique e nem perca tempo com poesias; procure coisas e motivos objetivos. Poesia é coisa de quem tem tempo e vive fora da realidade das preocupações do trabalho. E mais ainda, procure estudar melhor seu português.

Despedi-me sem jeito, com a decepção reavivada.

--:--

No domingo seguinte exultei de alegria ao ver publicada, em página inteira, uma pequena croniqueta que havia feito. As poesias não foram divulgadas.

Dali em diante passei a sentir a sensação alegre de mostrar aos meus amigos e colegas de escola, alguns de meus trabalhos publicados.

--:--

Essa lembrança ocorreu-me um dia destes, quando minha esposa exibiu-me um rascunho de um escrito, trabalho que eu nem siquer lembrava mais. Que pretendi publicar no “Correio” e que por uma razão qualquer não fiz.

Reli o trabalho, em forma de rascunho e lembrei-me então que deveria fazer uns quinze anos que o escrevi.

O título: “Poema à Marília”.

Para curiosidade, divulgo agora esse “Poema à Marília”, escrito talvez há uns quinze anos e que se encontrava perdido entre papéis velhos e documentos.

Vejamo-lo:

--:--

Do nada vieste e com tudo nasceste.

Tens tudo o que é belo, tudo que é querido.

Tens o sol, as estrelas, o vento e o luar.

As chuvas e os rios que correm prô mar.

A luz e o carinho, a vida e o progresso.

A vida em sí, a natureza em flor,

O calor da existência,

Tens a seiva do amor.

Do verde emergiste. Verde das matas.

Matas brasileiras que ornamentam regatas.

Como és querida, Marília linda!

Não te atingem os conculcadores

Falam de tí, de teus amores

Malinidades que não te alcançam.

Porque és soberana, rainha só

Ninfa real da Alta Paulista

Que o coração prende e conquista.

Extraído do Correio de Marília de 10 de outubro de 1974

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Uma voz que se cala… (09 de outubro de 1974)


Para quem como eu e tantos outros, que se habituou a ver em jornal algo arraigado dentro do próprio amago, é pesaroso noticiar e comentar o desaparecimento de um jornal – especialmente se for o caso de um dos muitos sacrificados e heroicos jornais interioranos.

--:--

O encerramento de atividades de um jornal é o mesmo que uma voz que se cala, o mesmo que uma vida que se extingue, um organismo latente que expira. Um poro por onde respira a democracia.

--:--

Depois de circular por um espaço-tempo que não chegou a atingir dois anos de duração, deixou de circular no último sábado o vespertino bauruense “Diário da Tarde”.

Dirigido pelo jornalista José Ricardo Aquilino, o referido vespertino tinha sua redação e oficinas na Rua Alfredo Ruiz, na “cidade sem limites”.

--:--

O encerramento das atividades do “Diário da Tarde” quiçá não seja o último a lamentar. A manutenção de um jornal depende de uma série de fatores, despontando como um dos mais predominantes o preço e as dificuldades de garantia de fornecimento de papel linha d’água, destinado à imprensa.

--:--

Em sua justificativa de despedida do público diz, entre outras coisas, o comunicado divulgado pela direção do extinto jornal:

“Se o fornecimento de papel especial para a imprensa não oferece esperança de normalização, com a agravante de que as quantidades disponíveis sofrem reajustes de preços quase bimensais, é fácil a população compreender a impossibilidade de previsões de planejamento administrativo, rotinas básicas para uma empresa e sem as quais não haverá metas, nem segurança para o patrimonio e para aqueles que contribuem com o seu trabalho”.

--:--

O “Diário da Tarde” é o terceiro jornal a fechar em Bauru nestes últimos seis anos, eis que antes haviam igualmente encerrado atividades, por motivos correlatos, a “Folha do Povo” e o “Correio da Noroeste”.

No equipamento gráfico do  “Diário da Tarde” incluía se máquinas de fundição de material, clicheria e titulação própria.

--:--

O aludido vespertino foi editado 444 vezes, tendo iniciado sua circulação em tamanho natural, com 8 páginas, para modificar-se posteriormente, utilizando tamanho tablóide, com 16 páginas diárias.

Perde a imprensa de Bauru e também a imprensa da hinterlândia paulista mais um jornal.

É de lamentar-se esse fato inevitável, que, além de desfalcar a imprensa do interior, veio aniquilar o entusiasmo profissional dos jornalistas José Ricardo Aquilino e Célio Gonçalves.

--:--

Alguém precisaria dizer ao honrado Presidente Geisel que urge a necessidade imperiosa do próprio Governo interessar-se pelo problema de escassez e dificuldades de obtenção das cotas de papel especial para a imprensa, especialmente a imprensa interiorana.

Extraído do Correio de Marília de 09 de outubro de 1974

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Dois assuntos dos outros (08 de outubro de 1974)


Dia outro determinado leitor pediu-me que gostaria de voltar a ler certa “estatística” sobre o quanto se trabalha no Brasil.

Referia-se ele a uma espécie de glosa, cujo autor não sei quem é, mas que em passado divulguei através desta coluna. De fato, o conteúdo foi muito bem feito, pela oportunidade imaginativa de seu autor.

Respondi ao amigo que seria impossível a repetição pelo fato de eu não saber a data da publicação, o que tornaria muito difícil vasculhar as coleções do jornal para descobrir a referida inserção.

--:--

Um dia destes um outro amigo ofereceu-me um recorte de um jornalzinho editado por determinado clube social, contendo exatamente o assunto que me fôra anteriormente solicitado.

Coincidência natural e inesperada, que oferece-me o ensejo, agora, para atender o pedido anterior e acima referido.

Vejamos, portanto, essa curiosa “estatística”.

--:--

Dá conta de que dois amigos encontraram-se tendo um deles indagado para onde se dirigia o outro. “Vou trabalhar” – foi a resposta.

Ai o indagante argumentou que ele noa trabalhava e passou a prová-lo.

--:--

Um dia tem 8 horas para o trabalho, no decurso de suas 24 horas que representa. Oito horas de um dia de 24 horas representa um terço do dia.

O ano tem 365 dias e um terço desse número é 121 que são os dias de trabalho normal de um ano inteiro.

No ano todo existem 52 domingos. Tirando-se esse número de domingos, dos 121 dias de trabalho do ano ficam 69 dias para o trabalho.

Desses 69 dias deduz-se as férias, que são de trinta dias, ficando somente 39 para trabalhar.

Nesses 39 dias, incluem-se as datas que não se trabalha, como Natal, Sexta-feira Santa, Ano Novo, aniversário da cidade e outros feriados, em número de 12.

39 dias menos 12 sobram 27 dias para o trabalho.

Mas aos sábados só se trabalha meio dia e os meios dias dos sábados, durante o ano, perfazem 26 dias. Daí, tirando-se 26 dos 27 destinados ao trabalho, só sobra um dia para trabalhar.

Acontece que esse dia é o 1º. de maio e ninguém trabalha. Portanto, durante o ano todo não se trabalha.

--:--

Do mesmo recorte me oferecido, um conselho de como conservar um marido, dedicado especialmente às jovens casadeiras.

--:--

Para conservar um marido, seja cuidadosa ao selecioná-lo. Não escolha jovem demais.

Depois de selecioná-lo, concentre-se em prepará-lo para a vida doméstica. Algumas insistem em conservá-los em picles. Outras os põem em água quente. Isso os torna azedos, duros e amargos.

Até os mais comuns podem tornar-se doces, macios e bons, quando guarnecidos com paciência, bem adoçados com amor e temperados com carinho. Embrulhe-o com um manto de benevolência e conserve o seu calor com um fogo permanente de devoção doméstica.

Assim preparado, durará anos.


Extraído do Correio de Marília de 08 de outubro de 1974