sábado, 31 de outubro de 2009

Nossa grande companheira (31 de outubro de 1957)

Não há muito, fomos abordados por um estimado causídico da cidade, nosso particular amigo e assinante dêste órgão. O bacharel não escondera a sua admiração, pelo fato de que, só poucos dias antes viera a saber, que o autor destas linhas éra seu amigo comum.

Mostrara-se surpreso, segundo nos asseverara, pelo fato de privar de nossa amizade, ser nosso leitor, algumas vezes abordar um assunto por nós escrito, ignorando-nos como o autor desta coluna. Por outro lado, jamais nos passou pela mente, que referências conosco, acerca de nossos escritos, fossem feitas por essa pessoa, nessas condições, isto é, ignorando-nos como “o pai da criança” no caso.

Tecendo-nos elogios excessivos de bondade, nosso amigo dizia apreciar o que escrevemos, pela variedade das questões que abordamos e pela singeleza do vernáculo que utilizamos. E perguntava-nos se às vezes não nos sentíamos em dificuldades para encontrar ou desenvolver um assunto, destinado à êste espaço. Justificou a pergunta, alegando que êle próprio, muitas vezes, ao necessitar escrever assuntos de fôlego e responsabilidade, carecia de momentos próprios, pois existem ocasiões em que parece que as idéias não se coordenam e o serviço não sai de acôrdo com o motivo pretendido.

Isso acontece, de fato. Para qualquer pessôa, por mais experimentada que seja. Sucede, entretanto, que nós contamos com a colaboração de uma grande companheira, uma amiga leal e solítica, que jamais nos abandonou. Graças a Deus, essa grande amiga nos acompanha desde 1936, quando, ainda no Grupo Escolar, já rabiscávamos algumas colaborações para um pequeno jornal interiorano.

Damos graças aos céus, pelo motivo de auferirmos êsse privilegio, verdadeiramente divino, que é termos sempre ao nosso lado, essa grande companheira, que, até hoje não nos abandonou um único instante. Basta que apenas pensemos em seu concurso e ela já se nos apresenta, disposta a socorrer-nos. É uma grande amiga. Leal, prestimosa e solícita.

Estaremos verdadeiramente perdidos, o dia em que essa companheira nos abandonar. Ela se chama: inspiração.

Extraído do Correio de Marília de 31 de outubro de 1957

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Um policial diligente (30 de outubro de 1957)

É de nosso feitio, abordar através desta despretensiosa coluna diária, os assuntos de maior interêsse momentâneo. Dedicamos um carinho ainda mais especial, aos fatos relacionados de uma ou outra forma, com as coisas e causas marilienses e de sua gente, enfim. Destacamos acontecimentos diretamente ou não, ligados com a própria vida de Marília e seu povo, como igualmente criticamos aquilo que se nos parece errado ou contraproducente. Quando censuramos, procuramos fazê-lo cingidos exclusivamente dentro do labor jornalístico, sem permitir que nessas críticas seja exteriorizado nenhum egocentrismo. Quando louvamos fatos ou atitudes de alguém, igualmente o fazemos dentro dêsse princípio e dessa função.

É o caso de hoje. Não poderíamos nos furtar ao dever de ressaltar, a conduta de trabalhos de uma autoridade policial de nosso município, que, até aqui, apesar do pouco tempo que com os marilienses priva, foi capaz de dar mostras sobejas, de diligência, pulso firme, boas intenções e um espírito moralizador dos mais encomiosos. Referimos-nos ao dr. Francisco Severino Duarte, operoso delegado adjunto da Regional de Polícia local.

As atividades dêsse Delegado de Polícia encontram hoje repercussão além de nossas fronteiras, pela energia lógica como vêm sendo conduzidas. O moço é incansável nas suas funções de policiar, vigiar, reprimir atos que se encontram fóra da Lei.

A luta aberta aos jogos ilícitos; a repreensão aos chamados “picaretas”; o combate aos marginais e desocupados; a defesa da decência e da família, combatendo e exterminando os “rendez vouz” que salpicavam em diversos pontos da cidade, inclusive em pleno centro e em zonas residenciais; a repreensão aos casalzinhos indecorosos e amantes dos pontos escuros das vias públicas, dentre outras coisas, são assuntos que recomendam o dr. Severino Duarte como um policial de estirpe, como um funcionário de escol, como uma garantia dos mais sagrados princípios da decência de uma família, como é a grande e operosa família mariliense.

Vigaristas, ladrões de automóveis, passadores de “contos do vigário” sob diversas fórmas, sentenciados foragidos, etc., são quase que diariamente conduzidos à polícia pela mencionada autoridade, que, além de contar com um excelente corpo de auxiliares, não se descuida um só momento, chefiando ela própria, diuturnamente, as mais variadas diligências e providências policiais.

Disso tudo, dessa ação incansável e bem intencionada, resultaria, como está resultando, o destaque do citado policial. O dr. Francisco Severino Duarte chama obrigatoriamente à si, as atenções gerais. Sua conduta é meritória de encômios. Como cidadão, é dos mais ilustres e respeitados, porque êle próprio e o primeiro a respeitar os que andam dentro da Lei. Educado e tratável, inteligente e vivo, o Delegado Adjunto de Polícia é austero e enérgico em sua ação policial, na reprimenda ao crime e ao êrro. Antigo jornalista, sabe dispensar aos repórteres um carinho especial, franqueando seu Gabinete à imprensa, para que esta possa também colaborar com a polícia, no sentido de orientar o público e combater o mal. Aliás, à êsse respeito, o dr. Severino demonstra um espírito dos mais democráticos, colocando a imprensa na sua devida posição, não prescindindo dos serviços informativos.

Hoje em dia, o Delegado de Polícia Adjunto é centro de atenções. Embora os marginais vejam nessa autoridade um terror e desejem a sua ausência de nossa cidade, a família mariliense e a sociedade em geral, está satisfeita e segura, embora temerosa de que sua ação decisiva e moralizadora, possa vir a faltar-nos no futuro.

Dizendo a verdade dos fatos, não estamos fazendo nenhum favor ao mencionado policial e nem procurando ser-lhe gentís. Apenas estamos ressaltando um assunto que merece ser ainda mais destacado, porque refere-se à uma questão mariliense e todos os assuntos que dizem respeito direto ou não aos interêsses de Marília e seu povo, aqui encontram a devida guarida e relevo.

Nossos parabéns ao dr. Severino Duarte, pela sua elogiável ação policial entre nós. Nossos votos para que continue sempre a alimentar essas intenções e essa extraordinária energia de trabalhos insanos e diligentes, em pról da família mariliense.

Extraído do Correio de Marília de 30 de outubro de 1957

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

“Gatos” e “ratas” (29 de outubro de 1957)

Todo aquele que dirige ou milita num órgão de imprensa, está sujeito a passar, de vez em quando, suas dores de cabeça, em consequência de erros cometidos em seus trabalhos ou no periódico dirigido.

Se “errar é humano”, conforme reza antigo brocardo, não poderiam os jornalistas, especialmente os interioranos, arcar com o crucifixamento pretendido por muitos, que, alheios aos trabalhos jornalísticos, exergam nos chamados “gatos” de imprensa, motivos de condenação, de “gozações” e até de escárnio, em determinadas ocasiões.

Isto nos ocorreu agora, quando recebemos pelo correio, num envelope, ao lado de um bilhete anônimo, um recorte de um jornal interiorano, eivado de erros tipográficos, todos assinalados à carmin. O missivista, que por sinal deve ser leitor désta coluna, demonstrou suas intenções de que viessemos à público “descascar” o colega pela série de descuidos cometidos e rigorosamente selecionados e assinalados. Referiu-se às “ratas” do jornal. Entre “gatos” e “ratas” existe enorme diferença, pelo menos para nós que tarimbamos na imprensa cabocla. Subentendemos os “gatos” como erros meramente tipográficos (composição errada, lapsos de revisão, tróca de linhas, “pastel”, títulos trocados, etc.). Já a “rata” é tida como o erro propriamente dito, do ponto de vista e fórma como o autor de um trabalho exprimiu seu pensamento. Portanto, existe grande diferença, tipograficamente falando, entre “gatos” e “ratas”.

Os “gatos” são comuns. Jornais dos grandes centros, modernos e bem aparelhados técnica e financeiramente, com pessoal especializado, não escapam tambem à apresentação de alguns “gatos”. Os jornais do interior, no entanto, são mais sujeitos à éssa contingência, em virtude de que nem sempre dispõem de meios para remunerar capacitados revisores com tempo integral de serviço. Porisso, embora haja a necessidade e o interesse de qualquer jornal, por mais humilde que seja, em manter uma boa impressão e cuidadosa revisão, sempre se verificam os casos referidos. Aqueles que trabalham na imprensa, sabem perfeitamente que tais anomalias apresentam o paradoxismo de serem consideradas normais. Os que de um ou outro módo travam contacto com uma redação, igualmente podem perceber êsse fato.

Porisso, ao leitor que nos remeteu o recorte aludido, afiançamos que não poderiamos jamais censurar e apontar as falhas do recorte que nos foi remetido, embora, sensatamente, reconheçamos que além dos fenômenos e condições por nós referidas, esteja se verificando no órgão fiscalizado, um descuido bastante acentuado.

São coisas que acontecem, entretanto. São “óssos do ofício”.

Por exemplo, poderiamos citar um “gato” enorme que cometemos no passado. Ao noticiarmos o nascimento de um mariliense, dissemos, ao lado da indefectivel “chapinha” de “foi enriquecido o lar, etc., etc.,”, o compositor “cochilou” e o revisor “comeu” uma palavra desconhecida para nós, que caiu em lugar de “pimpolho”. Quando o jornal circulou, quasi nos “massacraram” através do telefone. A palavra referida, de conformidade com o dicionário de Candido Figueiredo, significava mais ou menos “um monstro com gigantescas asas e que emitia faíscas elétricas”.

Êsse fato passou-se em 1945 e o autor da nota foi o mesmo désta coluna. Nem o compositor e nem o revisor trabalham conosco hoje em dia. Mas o fato aconteceu. Desculpamo-nos confessando toda a verdade e exibindo o original da nota. Mas nem assim escapamos da alteada descompostura e da perda de um assinante.

Pensamos, agora: Como nos sentiriamos na ocasião, se um órgão tirasse proveito do fato e viesse a público “gozar” o gigantesco “gato” referido? Aí está porque não nos convém aquiescer aos desejos do leitor anônimo referido.

Em todo o caso, o assunto nos serviu de idéia para escrever alguma coisa e dotar êste espaço, cujo compromisso temos que levar avante...

Extraído do Correio de Marília de 29 de outubro de 1957

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A questão dos semáforos (26 de outubro de 1957)

Por diversas vezes nos ocupamos anteriormente, acerca da necessidade de ser Marília dotada com maior número de sinaleiros de trânsito, dêsses de tipo luminoso. As razões, amplamente delineadas, não podem ser refutadas, em virtude dos comprovados motivos de justeza que encerram.

Quando parecia que nossas palavras tinham sido levadas pelo vento, eis que alguns vereadores principiaram agora a interessar-se melhor pela questão, alguns dêles depois de ter verificado e estudado o assunto em apreço.

De fato, o movimento de trânsito de nossa cidade – motorizado e pedestre –, está, de há muito, a exigir êsse complemento auxiliar da fiscalização, não só para facilidade em si, dos próprios funcionários incumbidos do serviço referido, como para melhor garantia e salvaguarda das gentes e de bens materiais.

Ao que nos consta, o assunto voltará a ser focalizado numa das próximas sessões do legislativo mariliense, como uma necessidade inadiável que é. É de esperar-se, por isso mesmo, a solução dêsse problema, que mereceu no passado, alguns rabiscos do autor destas linhas. Efetivamente, não é concebível que Marília prescinda dêsse melhoramento, êsse marco de progresso, essa necessidade indiscutível que são os sinaleiros diretivos do serviço de trânsito. Verdade seja dita, é relativamente ínfimo o número de desastres de veículos entre nós verificado, se considerarmos a proporção referente ao movimento do trânsito entre nós. Devemos isso, em grande parte, aos serviços eficientíssimos da Guarda Civil de São Paulo e mesmo ao cuidado da maioria dos motoristas. Isto, no entanto, não quer dizer que o problema está perfeitamente contornado e que possamos dispensar o concurso dêsse mecanismo, uma vez que o mesmo faz parte, hoje em dia, de tôdas as vias públicas de qualquer grande cidade.

Os marilienses estão ainda recordados do número de pequenos desastres na confluência da Rua 9 de Julho com a Av. Sampaio Vidal, antes da colocação do semáforo ali existente. Igualmente, sabem todos, principalmente aqueles que de qualquer forma tem uma parcela de responsabilidade nos destinos de Marília e no bem estar e segurança do povo mariliense, que, no momento, não são poucos os locais e não são poucas as vias públicas que estão a exigir a colocação de sinaleiros modernos, de preferência automáticos.

O assunto é de interêsse publico, e, como tal, deve merecer as devidas atenções dos poderes públicos locais. Isto é o que vai acontecer agora, segundos nos consta. E, cá p’ra nós, vai acontecer já com um pequeno atraso...

Extraído do Correio de Marília de 26 de outubro de 1957

domingo, 25 de outubro de 2009

O General e a greve (25 de outubro de 1957)

Sinceramente, causou-nos a mais profunda espécie, a atitude do vice-governador do Estado, general Porfírio da Paz. Não porque S. Excia. tivesse se solidarizado com o movimento paredista de grandes proporções, óra (des)ferido em São Paulo, mas sim pelos meios como o vice-governador aderiu ao acontecimento, chegando ao cúmulo de sair às ruas e comandar “piquetes” de grevistas.

Estranhamos o agir do general Porfírio, como homem público, como político consumado e como oficial general de nosso Exercito. Por mais que tivéssemos tentado achar motivos par(a) justificar a atitude do vice-governador, não conseguimos fazê-lo. O gesto do general foi de uma infelicidade completa. Pactuou com um movimento que foi disvirtuado em suas finalidades primordiais, passando, de greve passiva à ondas de agitações, depredações e imposições condenáveis, inclusive com destruições de propriedades alheias. Colocou-se frontalmente contra o próprio Governador, uma vez que êste procura deter a onda de destruições e o alastramento do mal, agora por meio das fôrças policiais. Quando o vice-governador deveria entrar na questão como um eficiente pacificador, como “mediador de paz”, eis que o mesmo surge como um dos muitos arruaceiros que comprometem, no momento, inclusive a própria administração estadual, cujos reflexos já ricocheteiam na esféra política e administrativa federal.

Agitaram-se, com justas razões, os meios políticos de todo o Estado e não houve quem não verberasse a atitu(de) verdadeiramente chocante do general Porfírio da Paz. O gesto cometido pelo vice-governador, não resta dúvida, é dos mais condenáveis. Foi impensado, com toda a certeza. Talvês o general Porfírio tivesse outras intenções e ingenuamente assim tivesse agido. O certo é que não póde escapar à censura pública semelhante áto.

Ficamos abismados com tal proceder. O vice-governador, com tal atitude, caiu alguns furos em nosso conceito.

Como político, jamais deveria ter-se utilizado de semelhante meio demagógico. Como vice-governador, nunca deveria ter tomado uma atitude de verdadeira descompostura como éssa. Como militar, nunca seria de esperar-se a participação num movimento condenável, como os “trabalhos” dos “piquetes” de grevistas, que desejam paralizar toda a indústria paulistana, por meios suasórios dos mais condenáveis e ilegais.

Se o movimento grevista tivesse sido pacifico, ordeiro, paciente para com as providências e estudos das partes interessadas, sem agitações, sem depredações, sem arruaças ou imposições de carater persuasivo e se o general tivesse sido solidário, democraticamente, com o mesmo, teria daquí nossos aplausos. No entanto, pelas circunstancias e meios como se processou éssa atitude do vice-governador, daquí externamos, ao par de nosso basbaque, a nossa condenação, com eivas de censura pelo gesto cometido.

Extraído do Correio de Marília de 25 de outubro de 1957

sábado, 24 de outubro de 2009

Imprensa e policia (24 de outubro de 1957)

Dois poderes, duas autoridades, duas ações correlatas e uma só finalidade: o bem estar público.

Imprensa e polícia têm muito em comum. A imprensa orienta, esclarece, divulga, previne, combate e critica, procurando mostrar o correto, perfeitamente diferenciado do errado. A polícia fiscaliza, proteje, dá segurança e combate o mal, trazendo a certeza do bem estar e da inviolabilidade dos direitos das gentes.

A colaboração intrínseca dessas duas fôrças, só pode trazer à família brasileira, uma orientação segura e firme, o combate ao mal, a garantia da integridade individual e a preservação da moral e dos direitos contitucionais de todo o cidadão. Não será êrro o dizer-se que uma age, direta ou indiretamente, em função da outra, embora por caminhos diferentes e ações diversas. A conjugação dessas duas alavancas, apresentam uma fôrça que resulta no melhor beneficio público. A divergência dessas duas ações, ou a má orientação dos destinos de uma ou outra, reverte, diretamente, em detrimento dos interêsses normais de classe ou gentes.

Isto nos ocorreu, através de uma rápida palestra que travamos ainda anteontem, com o dr. Érico Novaes Ferreira, diligente delegado regional de polícia de nossa cidade. Conversa amistosa, surgida por ocasião do aniversário da Guarda Civil. E o delegado regional de polícia, bastante democrático, não escondeu sua simpatia e sua consideração à imprensa mariliense, declarando-nos mesmo, que tem sido deveras cativante o apôio à êle emprestado pela imprensa de nossa cidade.

Contava-nos na oportunidade o dr. Érico (sem saber que a conversa estava sendo cuidadosamente armazenada pelo reporter), algumas odisséias de sua longa vida de policial, tendo servido em dezenas de cidades paulistas. Citava-nos fatos relacionados com a imprensa de vários pontos do país, arrematando com uma lógica perfeitamente acatável e reconhecidamente comprovada, de que a imprensa sadia e bem orientada, trabalhadora e bem intencionada é u’a arma poderosa em pról do bem, enquanto a imprensa mal orientada é u’a arma nociva que favorece o mal, de uma ou outra forma. Está claro que não foi exatamente assim que se expressou S. S., mas é certo que foi mais ou menos isso que nos deu a entender. E nós estamos de acôrdo com êsse ponto de vista, por três motivos distintos: primeiro, porque casa-se perfeitamente com nosso modo de pensar; segundo, porque a palavra partiu de uma autoridade experimentada que diz o que sabe, porque sabe o que diz; e terceiro, porque foi proferida por um cidadão público bastante vivido, conhecedor de incontáveis problemas sociais, capaz portanto de apreciar com isenção de ânimo e com imparcialidade completa o bem do mal e suas consequências diretas.

Efetivamente, a imprensa é como uma bomba atômica, de hidrogênio ou nuclear; tanto poderá servir para fazer o bem como fazer o mal, dependendo tão sòmente de quem a manobre.

O delegado regional de polícia é um apaixonado admirador da boa imprensa. Considera esta como seu colaborador imediato, de poder ilimitado. Acredita piamente na imprensa de bons princípios e de moral sã, como um dos mais positivos veículos de influencia no seio público. Aceita críticas construtivas e em têrmos, como uma coisa normal e necessária e estuda cuidadosamente quaisquer referências feitas pela imprensa à polícia. Isso foi o que nos disse. E nós acreditamos em S. S., principalmente porque não o conhecíamos pessoalmente e êsse nosso primeiro contacto deu-nos a convicção de que temos pela frente uma autoridade austera sem ser carrasca e compreensiva sem ser transigente. Gostamos do primeiro encontro casual que tivemos com o dr. Érico, principalmente pela maneira cavalheiresca com que nos tratou. Se o colóquio fosse previamente estabelecido, por certo haveria tempo de ambas as partes, para estudos, prevenções, bajulações ou esquivamentos. O encontro casual mostrou-nos S. S. como êle realmente é e como procura ser: simples e sincero. A simplicidade e a sinceridade são qualidades que sempre admiramos, porque também somos simples e sinceros. Principalmente quando falamos com alguém, que, embora, elevado dentro de suas funções ou qualidades, despe-se completamente de suas prerrogativas, para conversar conosco de igual para igual, sem protocolos, sem evasivas, sem indiferentismo.

Por estar certo o dr. Érico Novaes Ferreira, que o “Correio” continuará a prestigiar as autoridades constituidas de Marília, como até aqui tem feito, desde o primeiro dia de sua circulação, no ido 1º de maio de 1928. Até aqui estivemos e continuaremos a figurar na imprensa “do lado bom”, conforme referiu-se S. S..

Se Deus quiser.

Extraído do Correio de Marília de 24 de outubro de 1957

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Luz para a Vila Fragata (23 de outubro de 1957)

Diversas pessoas nos procuraram, para que fôssemos intérpretes junto ao sr. Prefeito Municipal e também junto à Companhia Paulista de Força e Luz, no sentido de que sejam tomadas providências urgentes, para estender até à Vila Fragata, os benefícios da rede de energia elétrica.

Realmente, trata-se de uma aspiração das mais justas, uma vez que a Vila referida é o bairro mais próximo ao centro, distando, da parte central da “urbe”, apenas 700 metros. Não é fácil de compreender, que, na atual éra da energia atômica em que vivemos, um bairro tão próximo ao centro da cidade, continue a reclamar êsse melhoramento, hoje em dia tido até como dos mais comezinhos.

Contam-nos os interessados, de que os proprietários de casas e terrenos do mencionado bairro já depositaram na Prefeitura Municipal de Marília, a quantia aproximada de 60 mil cruzeiros, para que o poder executivo póssa fazer face às despesas da instalação dos postes respectivos. Ficamos até um tanto céticos quanto à essa informação, pois acreditávamos que tal incumbência é da própria alçada do município, ou, em última análise de competência e obrigação da firma loteadora e nunca dos moradores ou proprietários de lotes ou casas nesse bairro.

O cérto é que de uma outra forma, isto é, pagando os interessados a colocação dos postes ou arcando o município com éssa obrigação, aqueles que residem na Vila Fragata têm direito a fazer éssa solicitação, têm direito a apelar para quem seja o responsável ou responsáveis, no sentido de auferir êsse marco de progresso.

Mais de 50 famílias residem no mencionado bairro, sendo que a maioria trabalha na cidade, incluindo-se nêsse particular, moças que exercem condições de empregadas domésticas no centro. Tais moças são obrigadas a deixar seus domicílios pela manhã, ainda muitas vezes em plena penumbra ou escuridão e regressar à noite; todos podem avaliar os perigos para essas moças e o desassossego para suas famílias, durante êsse trajeto.

Registramos o apêlo, porque julgamo-lo procedente e perfeitamente justificado. Os moradores de Vila Fragata não pedem favores e simplesmente o complemento de uma condição de vida mais normal, com a extensão àquele bairro, dêsse imprescindível melhoramento de nossos dias, que é a luz elétrica.

Por outro lado, secundamos o clamor daqueles que nos procuraram, rogando ao sr. Prefeito Argolo Ferrão, que tão atento tem se mostrado aos problemas do município, para que se interêsse com urgência pela solvição desse assunto, possuidor em seu todo da mais humana das pretensões e da mais comprovada das necessidades.

Extraído do Correio de Marília de 23 de outubro de 1957

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A gréve de São Paulo (22 de outubro de 1957)

Eclodiu na paulicéia um formidável movimento paredista, que atingiu proporções verdadeiramente imprevisíveis. A gréve de diversas classes operárias de São Paulo, chegou mesmo a influir e prejudicar a rotina da vida bandeirante, tendo seus reflexos atingido, política e moralmente, outros pontos do país e repercutido mesmo, inclusive, nas altas esferas administrativas de órbita federal.

Não pretendemos discutir os motivos oriundos do movimento referido, nem tampouco os direitos dos grevistas, maximé quando nos ufanamos do atual clima democrático em que vivemos.

Fazemos, como simples trabalho jornalístico, apenas um pequeno reparo aos meios pelos quais se processou a alarmante gréve. Deixando à margem, como dissemos, os direitos que reputamos incontestáveis e os motivos que não conhecemos perfeitamente e que divergem em suas formas de divulgação, externamos nosso ponto de vista contrário ao movimento grevista, pelas maneiras como o mesmo se conduz.

Entendemos a gréve como um movimento pacifico, um protesto mudo, uma reação perfeitamente humana, digna de estudos e acatamento. Tôda a greve deve ser originária de um motivo plausível e deve ser merecedora de respeito e apreciações por quem de direito. No entanto, em São Paulo, a greve em apreço não ficou cingida a êsses primordiais princípios. Ultrapassou, em certas ocasiões, os limites normais do próprio movimento e pecou em várias oportunidades pelo prejudicial excesso, tendo sido conduzida de modos a merecer censuras e represálias, à ponto de chamar à si providências policiais, não como garantias dos próprios grevistas, o que seria lógico, mas como salvaguarda da propriedade privada, o que é condenável.

Registraram-se, lamentavelmente, incontestáveis excessos no desenrolar da greve em téla. O movimento perdeu até muitos de seus direitos, quando deixou de ser normal, pacifico e perfeitamente justificado, para tornar-se ação impositória, por meios agitatórios e condenáveis. “Piquetes” de grevistas tornaram-se arruaceiros, agitadores e depredadores. Tentaram e conseguiram em parte, forçar o alastramento do movimento, mesmo quando encontraram resistência de classes congêneres. Colocaram em polvorosa e perigo propriedades alheias, precipitando acontecimentos que estavam fóra de cogitações ou possibilidades de suceder. Não tiveram a devida calma para aguardar os entendimentos necessários, processados entre seus legítimos representantes sindicais e os empregadores. Tiveram atitudes desleais para com algumas firmas e para com os próprios poderes públicos que deveriam intervir em época oportuna, como a mais legítima fôrça mediadora.

A gréve não foi propriamente uma gréve, nos moldes como deveria ter sido (des)ferida. Apresentou confusão, anarquia, agitações e excessos. Acarretou inclusive perigos, comprometendo muita gente. Desviou-se de sua réta normal, de seus princípios básicos, para merecer escárnio, ao invés de respeito e consideração.

Nem todos, sabemos, que participaram do movimento, tiveram éssas intenções. A parte que pretendeu ir à greve com sinceridade de propósitos e na defesa intrínseca de seus próprios interêsses, perfeitamente assegurados pelo espírito de nosso regime governamental, foi prejudicada pela outra, a anarquista, a confusionista, a dos métodos revolucionários, de agitação e de imposição.

Estamos simpáticos aos primeiros e condenamos os excessos dos segundos.

Extraído do Correio de Marília de 22 de outubro de 1957

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Andar errado por caminho certo (19 de outubro de 1957)

Dentro das mais sinceras e insuspeitas boas intenções, estivemos durante algum tempo, ocupados em “pregar” aos marilienses, acerca da imperiosa e irretorquível necessidade que se nos apresentava, de elegermos, no próximo pleito eleitoral, um legítimo deputado mariliense. Foi um trabalho jornalístico honesto e bem intencionado, que outro desiderato não visou, a não ser o esclarecimento necessário sobre os erros do passado, com a mesm(a)o dispersão de votos do passado. Nenhum lucro, diréto ou indireto objetivamos e nenhum favor prestamos à quem-quer-que seja.

Dissemos, no pretérito, que nos bateriamos acirradamente contra a eventualidade de vir Marília a apresentar, um número ou equivalente ou maior do que dois candidatos à deputação estadual. É pois, chegado o momento déssa contenda, que, no entanto, para decepção de alguns e gáudio de outros, não será levada a efeito. Não pensem que seja covardia ou receio de “abrir fogo” contra o número já notório dos candidatos marilienses; apenas porque acabamos por nos convencer, de que iremos perder tempo e gastar fosfatos inutilmente. Nossos leitores nos perdôem o “pulo para trás”; é que, como estavamos muito bem intencionados, acabamos por nos tornar excessivamente ingênuos. Em todo o caso, o unico que podemos desejar ainda daqueles que nos acompanharam néssa caminhada, é que analisem a questão e os motivos de nossa luta com absoluta imparcialidade.

Como dissemos, procuramos realizar um trabalho honesto, sob todos os ângulos possíveis de imaginar – mesmo por espíritos malévolos.

Se bem que tivessemos recebido algumas manifestações contrárias ao nosso ponto de vista, cérto é que porcentagem de aplausos chegados até nossa redação, esteve equidistantemente superior aos pensamentos adversos. Convencemo-nos agora, que estavamos andando errado por um caminho cérto, embora isso pareça um paradoxo. Confessamo-nos que cometemos mesmo o maior erro de nossa vida profissional, ao aspirarmos a eleição de um legítimo deputado mariliense. Fomos de uma infantilidade à toda prova, quando nos pensamos que Marília, cidade grande, dinâmica, progressista e revolucionaria, tinha e tem capacidade para comportar não três, mas cinco, dez ou quinze candidatos à deputado estadual! Por que, então, estavamos nós pretendendo um número limitado dêsses pretensos deputados? Por que, então, estavamos nós de atalaia, contra aqueles que residindo fóra de nossos pagos, aqui aportam com o objetivo de conquistar votos dos marilienses?

Marilia comporta muitos candidatos. Existem muitos interessados. Que não percam tempo e se candidatem em seguida. Há lugar para muita gente e ainda sobram muitas “beiradas” para os alienígenas. Se somos uma cidade grande sob todos os prismas, por que haveremos de ser pequenos e apresentar tão somente dois candidatos?

Aí estão os motivos de nosso erro; não haviamos pensado nisso.

Extraído do Correio de Marília de 19 de outubro de 1957

domingo, 18 de outubro de 2009

A gripe e os médicos marilienses (18 de outubro de 1957)

Não propriamente por vocação, mas sim por imposição de nosso “velho”, permanecemos, no passado, cerca de cinco anos num laboratório, atrás do balcão de uma farmácia. Sem jamais termos aberto um livro de patologia, para, sôbre suas páginas termos queimado pestana, conseguimos, mercê dessa circunstancia, conhecer pequenas particularidades de doenças comuns e saber das conveniências ou inconveniências de determinadas drogas ou aplicações.

Desde essa época, mantemos ainda conosco, a convicção de que não se conhece até o momento, um medicamento apropriado para acabar com o vulgar vírus da chamada gripe comum, essa que grassa em todos os cantos do mundo, em qualquer época do ano. Temos mesmo a impressão de que todos os medicamentos chamados anti-gripais não possuem os efeitos bi-laterais que deveriam apresentar, isto é, combater o vírus e preparar o organismo para melhor resistência, durante a doença e durante o tratamento. os anti-grupais existentes, no Brasil ou em outro qualquer país, possuem sòmente a segunda condição, pelo que pensamos. Já é alguma coisa, convenhamos.

Daí o não nos admirarmos em não ter sido descoberta até o presente, uma vacina de eficácia comprovada para acabar com êsse mal, especialmente a chamada “asiática”, cujo vírus foi isolado. Tais medicamentos, aliados aos processos pela classe médica de todo o mundo, como higiene, cuidado, repouso e alimentação, tem a rigor a missão precípua de preparar o organismo para uma reação a contento, que é mesmo o único meio de resistir à gripe ou recebê-lá de maneira mais branda.

E, pode-se dizer, sem receio de errar, que na maioria dos casos, os efeitos biológicos de tais preventivos anti-gripais, tem obtido resultados positivos, não propriamente pelas suas propriedades anti-bióticas, mas sim pela conjugação das medidas sanitárias preconizadas e quer nos dias de hoje, quer nos tempos de antanho.

Bem, mas o assunto principal desta crônica não é mesmo a apreciação dessas especificações farmacêuticas e sim o caso da “asiática” entre nós e a distinta classe médica mariliense. Gostamos de ser claros em nossos pontos de vista e temos por lema o falar com a sinceridade de caboclos que somos. Estamos, publicamente, rendendo uma homenagem ao(s) médicos do Serviço Sanitário da cidade, extensiva aos senhores médicos particulares, farmacêuticos dos diversos órgãos sanitários de Marília. O despreendimento demonstrado pela abnegada classe dos discípulos de Hipócrates e seus diretos auxiliares, o espírito de solidariedade humana testemunhados diuturnamente em incontáveis casos e em determinados pontos da “urbe” e mesmo da zona rural, não podem ser desconhecidos pelo público. Não estamos sendo gentís e nem prestando favores ou bajulando ninguém, neste nosso costumeiro artigo diário. Estamos apenas salientando um fato que deve merecer destaque especial.

No momento, as febris atividades das autoridades sanitárias, estão bem mais diminuídas do que dias anteriores, quando a epidemia da “asiática” estava no auge de sua força entre nós. mas não cessou e não cessará, temos a certeza, enquanto a situação a respeito não voltar à perfeita normalidade.

Os médicos e funcionários do Centro de Saúde, do Dispensário de Tuberculose e de outras diversas organizações oficiais, não têm descansado um momento sequer. Os funcionários, desde o mais humilde até o mais categorizado, igualmente têm emprestado uma colaboração digna de encômios, trabalhando durante várias horas por dia, sem qualquer recompensa pecuniária, perfeitamente compenetrados do grande dever público. Médicos particulares têm colaborado com as autoridades sanitárias e com o sr. Prefeito Municipal. Sabemos de esculápios que têm visitado doentes, por iniciativa própria, sem interêsses financeiros, muitoas vezes em que os “piquetes” sanitários oficiais não tenham podido atender de súbito os milhares de chamados recebidos. Sabemos de farmacêuticos que têm desrespeitado o convênio vigente entre as farmácias, para atender doentes fóra de hora e local, uma vez que o assunto era mesmo aquilo que se podia chamar de calamidade pública.

O próprio sr. Secretário de Saúde, professor Carlos Gama, conheceu “de visu” os trabalhos a respeito, desenvolvidos em Marília. E teceu encomiosas referências ao serviço, bem como se congratulou com os marilienses, pelo andamento de tais trabalhos.

Nosso preito de reconhecimento, a êsse exército de abnegados que colocaram, antes e acima de tudo, o bem estar público, numa demonstração inequívoca de solidariedade humana, princípio básico do Cristianismo.

Dissemos, quase no início desta crônica, que estamos falando com sinceridade acerca dos médicos. Tem tal afirmativa sua explicação: em épocas anteriores, nos referimos aqui, casos de alguns médicos, que hoje em dia não exerciam o sacerdócio da medicina e sim se apresentavam como simples comerciantes. Os que assim agiram no passado, souberam condignamente, corrigir aquilo que se nos pareceu errado. O exemplo dêstes dias é meritório da gratidão de todos os marilienses, sem exceção.

Extraído do Correio de Marília de 18 de outubro de 1957

sábado, 17 de outubro de 2009

O burro, a égua e o processo (17 de outubro de 1957)

O burro referido no epígrafe dêste artigo, é burro mesmo (substantivo). E teve sob o lombo o peso de um processo-crime, por ter matado seu amo com um coice.

O fato, extraordinário, não ocorreu nos Estados Unidos, onde se verificam, à miude, acontecimentos verdadeiramente esdruxulos. Verificou-se nêste Brasil amado, idolatrado, salve, salve. Foi em Quipapá, pacata cidadezinha pernambucana, que ha pouco esteve nas manchetes dos jornais, em virtude do assassinato do Bispo de Guaranhuns, pelo ex-padre quipapaense, Hosaná Siqueira.

Foi em fins do mês pretérito. O Secretário da Segurança Pública do Estado de Pernambuco, recebeu, do sargento-delegado de polícia de Quipapá, um ofício no qual pedia a instauração de inquérito contra o mencionado animal, pelo fato do mesmo ter morto seu amo, com violentíssimo coice. Alguns dias após, o Secretário da Segurança Pública recebeu novo ofício do mesmo sargento-delegado, esclarecendo, após as introduções funcionais e protocolares, que “quem matou o cidadão Aldemar Soares de Souza não fôra um burro e sim uma égua”. A confusão gerara-se da seguinte fórma: o homem fôra morto com um coice de burro, desferido por uma égua!

Agora, o Escrivão do 2º Ofício do Juizo de Direito da Comarca de Quipapá, subscreveu um ofício que foi remetido ao Secretário de Segurança Pública, apensando o boletim individual que acompanhou as diligências policiais em torno da morte de Aldemar Soares de Souza, vítima que foi de um coice de burro, fato êsse ocorrido no distrito de Pau de Ferro, daquele município.

A notícia em apreço, divulgada por um matutino da Capital bandeirante, conclue dizendo que o processo-crime acaba de ser arquivado, em face de requerimento do promotor público da Comarca de Quipapá.

Em resumo, é éssa a notícia. Se verdadeira ou não, se normal ou exagerada, não sabemos. O fato é que a divulgação nos deu um pouco que pensar. Quiseram processar alguem. Por dois motivos: primeiro, pela calúnia contra ele levantada; segundo, pelo fato da égua assassina ter se valido de um coice dêle (burro), para a pratica do crime. Mas o burro, como todo burro que se preza, nem estrilou. Não procurou defender-se e nem justificar sua inocência. Foi acusado de morte, quando ele, provavelmente é que está sendo morto aos poucos, a custa dos encargos pesados que lhe pesam sob o dorso. É um burro que trabalha p´ra burro.

Agora deverá estar tentando limpar seu nome. Enquanto isso, a égua criminosa continua vivinha e lampeira, cercada de carinho e atenções, como toda boa procriadeira. Nem se abalou.

Incrível coincidência éssa, de fundo moral: fatos não raros entre humanos, repetem-se agora entre os animais!

Extraído do Correio de Marília de 17 de outubro de 1957

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O Corpo de Vigilancia Noturna (16 de outubro de 1957)

Nossa reportagem manteve “um dedinho de prosa” com o vereador Sebastião Mônaco, Presidente eleito do Corpo de Vigilância Noturna de Marília, órgão que tem sua diretoria empossada e sua estrutura em fase de remodelação total. O assunto, de interesse público e geral, vinha de ha muito, reclamando as medidas óra preconizadas, uma vez que a atual corporação da Guarda Noturna, em que pese os interesses e a boa vontade dos diretores da mesma e dos homens que à ela emprestam sua colaboração, não vêm correspondendo, por motivos vários, as finalidades e exigências do progresso da cidade.

O Corpo de Vigilância Noturna de Marília, com sua diretoria já tomando as providências iniciais para a sua reestruturação (que à rigor é mesmo nova organização e não propriamente uma reorganização), trará aos marilienses, dentro em breve, a garantia de sua existência e a efetividade de seus inestimáveis serviços.

De conformidade com o que nos informou o Presidente Mônaco, o efetivo dos vigilantes noturnos será de um número condizente com as necessidades da “urbe”, beneficiando diretamente todos os bairros da cidade. Seus componentes terão treinamentos e instruções especiais para bem desimcumbirem-se do mistér. As funções dos vigilantes não serão exclusivamente a de policiamento noturno. Os soldados da noite prestarão ao público em geral, outros inúmeros préstimos. Servirão, por exemplo, para chamar um médico durante a noite, quando a parte necessitada não disponha de condução ou telefone; poderão incumbir-se de acordar em hora aprazada, uma família ou pessoa que deseje viajar à noite ou de madrugada, desde que a solicitação a respeito seja feito em tempo hábil. Poderão ainda acompanhar, à pedido, qualquer menor ou senhora, que tenham necessidade, por qualquer motivo, de locomover-se à pé, durante a noite ou de madrugada, de um para outro ponto da cidade. Servirão ainda de guias ou informantes aos forasteiros, que aquí aportem fóra de hora, indicando hotéis, ruas da cidade ou endereços. Prestarão, enfim, serviços de verdadeira utilidade pública, ao lado da precípua função de policiamento noturno.

Para isso, receberão os novos vigilantes noturnos, instruções especiais, sendo seus membros escolhidos convenientemente pela diretoria.

Os planos são explêndidos. A sua execução é perfeitamente viável e necessária. A constituição do Corpo de Vigilância Noturna de Marília, sem dúvida, representará um novo marco de progresso na cidade, uma garantia a mais para a família mariliense.

Uma coisa pudemos perceber, nas poucas palavras que estabelecemos com o vereador Sebastião Mônaco, Presidente do Corpo de Vigilância Noturna de Marília: boa vontade e interesses irretorquível da diretoria do organismo, para executar os planos elaborados e colocar à disposição do público, dentro do menor espaço de tempo possivel, éssa corporação que ha muito estava sendo reclamada pelo progresso mariliense.

Extraído do Correio de Marília de 16 de outubro de 1957

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A candidatura Jango (15 de outubro de 1957)

Enquanto em muitas esferas políticas aguardava-se a ratificação do lançamento do nome de Teixeira Lott à sucessão presidencial, enquanto ainda, muitas facções partidárias esperavam, de certo modo ansiosas, uma definição de Juarez Távora acerta da aceitação de indicação para disputar o Catete, eis que “estoura” na cidade de Araraquara, o lançamento do nome de João Goulart, para suceder ao atual Presidente da República.

O lançamento referido verificou-se através da deputada Ivete Vargas, ocasião em que o Vice-Presidente da República visitou Araraquara, a convite do deputado Leonardo Barbieri, que, deixando o P. S. P., transportou-se com armas e bagagem para o P. T. B.. Vários políticos e próceres petebistas, dentre êles Vicente Bota, ali se encontravam, no momento em que ocorria a cerimônia de inauguração da Agência do SAPS de Araraquara. O fato deu-se em comício público, tendo Jango aceitado praticamente o lançamento de seu nome.

A lançadora oficial em São Paulo, do primeiro candidato à sucessão de J. K., dentre outras coisas, em seu ardoroso discurso, depois de analisar durante longo tempo a personalidade e a vida política do ex-Presidente Vargas, disse que o candidato nato dos getulistas e petebistas é João Goulart, o mais legítimo herdeiro da política social do fundador do trabalhismo e depositário dos ideais que o animavam. Assim – disse –, as massas que seguiam Getúlio têm em Jango o seu candidato ao Catete. Declarou ainda a ora(do)ra que Jango enfeixa em suas mãos o destino do P.T.B. no Brasil, e, se não fôsse ele, o trabalhismo estaria liquidado em nosso país.

O Vice-Presidente da República aceitou de módo tácito a indicação de seu nome, ao afirmar, por todos os modos que realmente não alimenta outros desejos que não os de lutar pelos principios que caracterizavam a ação política de Vargas, tendo concitado aos araraquarenses, que fizessem surgir, dêsse rincão paulista, “a grande bandeira do P. T. B. do futuro”.

De conformidade com a notícia a respeito, percebe-se que apesar do entusiasmo e dos aplausos que tal lançamento provocou entre a multidão, uma grande maioria recebeu com certo ceticismo a referida notícia. O mesmo se póde dizer do lançamento, tambem extemporâneo, do nome de Teixeira Lott, procedido na Bahia.

Tais candidaturas, sem sombra de dúvida, foram recebidas com indisfarçável frieza pública. Sinal evidente de que o povo de nossos dias anda bastante descrente de certos políticos e de muitas coisas que se processam em nosso país, sob o nome de política. A verdade é que nenhuma das duas apregoadas candidaturas conseguiu despertar entusiasmo popular. Talvês seja ainda cedo para esses resultados, mas o que é certo, apesar do curto período de “redemocratização nacional” que usufruimos, tem se notado a cada eleição que passa, maior descrédito pelos pleitos. Isso, sem dúvida é de se lamentar, especialmente quando se procura, por todos os meios e por todas as formas, “educar” o povo, eleitoralmente falando.

Se, no futuro, as outras inevitáveis candidaturas que surgirem, aparecerem com a mesma repercussão déssas duas, ninguem nos convencerá que a campanha de educação eleitoral está surtindo os efeitos desejados; pelo contrário, parece que a consciência e o espírito dos eleitores está andando como caranguejo, isto é, para trás. Ou será...

Extraído do Correio de Marília de 15 de outubro de 1957

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O satélite artificial (12 de outubro de 1957)

O assunto do momento, é sem dúvida, o lançamento do satélite artificial russo. Questão que deve ser encarada à parte de qualquer ideologismo político, partidarismo de nação, simpatia ou antipatia por determinados povos.

A questão é puramente científica. Abre novos horizontes no campo sideral, prognosticando por um lado perspectivas inteligentes de descortínios de um futuro mais completo e feliz para tôda a humanidade, com a utilização dêsses satélites para fins úteis e humanos. Por outro lado – temem alguns –, poderá precipitar acontecimentos imprevisíveis, caso suas verdadeiras finalidades sejam desvirtuadas e seu emprego seja destinado a fins beligerantes, diretos ou indiretos.

Confessamos que há quinze dias transatos, se nos dissessem com segurança que tal fato ocorreria, teríamos duvidado. Isto, porque de há muito, vinham a Rússia, a Inglaterra e os Estados Unidos, apregoam tais lançamentos. Como a tensão política internacional vem nos últimos anos atingindo um regular índice de inquietação e mesmo receio, principalmente com as últimas experiências das mais terríveis armas nucleares, teríamos na ocasião, considerado tal informação, como uma espécie de propaganda atemorizante, da qual poderiam valer-se ditos países, especialmente URSS e US.

Na última sessão da Câmara Municipal, aprovou a edilidade mariliense, requerimento do vereador reverendo Álvaro Simões, propondo um voto de regojizo pelo fato, que significa, antes de mais nada, um largo passo na ciência hodierna. O Dr. Coriolano de Carvalho, referindo-se ao teôr do mencionado requerimento, rendeu também suas homenagens à inteligência humana e colocou em relevo o aspecto cientifico da questão, abordando, com propriedade, o assunto de tal magna importância.

Não há dúvida, que nêsse pormenor, devemos render reverências aos cientistas russos (embora divulguem algumas agências telegráficas, que os técnicos do citado engenho são alemães e não sovieticos). O assunto merece mesmo um destaque especial e só lamentamos não poder faze-lo de maneira completa, por desconhecimento absoluto da questão em suas bases científicas. Se isso fosse possivel, ninguem melhor do que nós para abordar sob êsse ângulo o assunto do momento, uma vez que politicamente não nos casamos com a doutrina russa.

De qualquer forma, é um tributo de reconhecimento obrigatorio a inteligência humana, o que pretendemos fazer neste pequeno destaque. Simultaneamente, rogamos à Deus para que o emprego dos futuros engenhos congêneres, só possa trazer benefícios e facilidades para toda a humanidade e nunca servir para fins destruidores da felicidade humana.

Extraído do Correio de Marília de 12 de outubro de 1957

domingo, 11 de outubro de 2009

A sucessão governamental (11 de outubro de 1957)

O problema da sucessão do atual govêrno estadual, principia já preocupar os círculos políticos paulistanos. Pelo que se percebe, através dos noticiários da imprensa especializada em assuntos políticos, a preocupação embora disfarçadamente existe em maiores proporções do que seja possível imaginar.

Os próceres políticos estão evitando tornar públicas suas idéias, mas não ha (como) negar que já existem conchavos e estudos à respeito. Estão sendo auscultadas diversas figuras de primeira grandeza na política atual e ao que parece, a confusão persiste ainda.

O prof. Carvalho Pinto, foi lançado “na fogueira”, com uma antecipação inesperada. A nosso ver, é, de antemão, um nome queimado; não porque lhe faltem qualidades morais ou propriamente administrativas para exercer o alto cargo de Governador do Estado, mais sim em virtude da pouca expressão política de seu nome, em relação às massas. O ilustre primeiro candidato à sucessão do Sr. Jânio Quadros, em que pese suas inequívocas qualidades de financista e administrador capaz, é praticamente um nome apagado no seio da população. Suas relações políticas são de pouca repercussão, especialmente no interior.

Outros nomes estão ainda em fóco, em condições, em estudos. Os partidos políticos estão estudando as conveniências, as vantagens, as possibilidades positivas. Fala-se óra num, óra noutro político paulistano. Ao que parece, os próprios diretórios políticos da paulicéia andam com os olhos um pouco fechados à realidade. A verdade, é que temos um número resumido de prováveis candidatos à sucessão estadual, com probabilidades de bôa repercussão e sufragarão públicas. Em resumo, apenas três nomes representam força eleitoral de recursos em nosso Estado e lutar contra estes ou contra candidatos de renome por eles apoiados, será remar contra a maré. Essas pessoas, sem favor algum, são: Adhemar, Jânio e Ulisses. Em plano lógo a seguir, poderá ser incluido ta(m)bem o nome de Porfírio, que vem de ganhar bastante terreno e popularidade ultimamente.

Daí o dizermos, sem medo de errar, que a força política de São Paulo, em relação ao problema sucessório, está resumidíssima. Muitos políticos ainda não atentaram para êsse pormenor e os que desprezarem tal fato, por certo chorarão no final. Dizemos isto, porque entendemos que qualquer luta contra os nomes citados, terá poucas possibilidades de sucesso total. Não que sejamos apologistas de algum desses cidadãos, mas unicamente porque estamos procurando enxergar as coisas dentro da realidade atual.

O exemplo inevitável teremos com a candidatura prematura do prof. Carvalho Pinto. Hoje em dia o político não se faz num abrir e fechar de olhos, mesmo com a exceção verificada com o sr. Jânio Quadros. O povo prefere os conhecidos, embóra continue repetindo erros e lamentando-se depois.

O caldeirão da política estadual já principiou a ferver. As achas vão sendo colocadas paulatinamente, até o momento em que o fogo será alimentado a todo vapôr. Daí, então, veremos se estamos ou não certos.

Extraído do Correio de Marília de 11 de outubro de 1957

sábado, 10 de outubro de 2009

Marília e o Congresso de Franca (10 de outubro de 1957)

Mais uma vez, estará Marília presente a um certame municipalista. Désta vez, em Franca.

Na madrugada de ontem, para lá seguiu a delegação de vereadores marilienses, composta pelos srs. Nasib Cury, José Brambilla, Dr. Geraldino Furtado de Medeiros e Edmundo Lopes. Os citados edís encontrar-se-ão com o presidente Aniz Badra, que seguiu na frente. Sábado próximo, deverá tambem viajar para a cidade de Franca, o prefeito Argollo Ferrão.

Como sempre, Marília far-se-á presente à um conclave de tão magna importância. Pena que não tenham podido seguir tambem, outros vereadores locais, que, no passado, tão bem representaram Marília nesse setor; são eles o Dr. Guimarães Toni, Sebastião Mônaco, Dr. Fernando Mauro e Reverendo Álvaro Simões. Não que nossa cidade venha a estar mal representada; absolutamente. É que estes nomes citados, aliados às pessoas que alí se encontram, dariam ao nosso município, maior relevo, uma vez que são verdadeiramente estudiosos das causas municipalistas. Tivemos já exemplos frisantes em congressos passados, quando a delegação mariliense brilhou em todos os sentidos.

Uma coisa é certa, no referente aos atuais congressos municipalistas: Os primeiros apresentaram resultados praticamente negativos, os seguintes consequências bastante morosas e os últimos já estão fazendo prevalecer os pontos de vista discutidos e as teses aprovadas nesses conclaves. Podemos dizer agora, que a luta municipalista está principiando a colher os frutos dos plantios pretéritos. Podemos dizer tambem que a barreira de descrédito ou mesmo de desconfiança que desfarçadamente pesou sobre os ombros dos soldados déssa contenda, está sendo gradativamente removida. A consciência está agora desperta e conhecendo em realidade os motivos da luta. O pensamento geral, acerca do municipalismo hoje é outro. A verdade surgiu à tona. Hoje não se tem mais o município, como simples rincão interiorano, habitado por caipiras, incumbidos de produzir e de engrossar os cofres públicos do Estado e da União, empobrecendo cada vez mais. O município vai tomando seu devido lugar na trincheira da realidade e os olhos governamentais estão agora obrigatoriamente voltados para o interior. Muita coisa que éra devida às comunas e que jamais fôra paga anteriormente, o está sendo agora. Até o respeito às autoridades encarado de maneira diferente e não como no passado, quando um prefeito tinha que aguardar cinco ou mais dias para avistar-se com o Governador do Estado, nem sempre conseguindo aquilo que lhe éra devido por direito.

O municipalismo cresce hoje, como deveria ter crescido ha 100 anos passados. A lei do excesso de arrecadação está sendo cumprida no momento. Os governos voltam agora com mais frequência suas vistas para o povo do interior, extendendo-lá inúmeras necessidades que antes éram apenas sonhos.

Marília está, como sempre esteve, presente ao atual Congresso Municipalista, que óra tem lugar na cidade de Franca. Daquí, fazemos nossos votos sinceros para que a delegação mariliense reprise os sucessos anteriores, defendendo as teses e moções previamente elaboradas. Igualmente, extendemos aos congressistas em geral, as nossas felicitações, por mais esse passo na campanha municipalista.

Extraído do Correio de Marília de 10 de outubro de 1957

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Ainda os “discos voadores” (8 de outubro de 1957)

Estamos habituados a receber correspondência de nossos leitores, aprovando ou censurando aquilo que escrevemos. É um direito que assiste a qualquer cidadão, num regime democrático, o de concordar ou não com determinados pontos de vista ou opiniões. Por nosso lado, também acatamos e respeitamos o pensamento alheio, embora nem sempre possamos concordar com muitas idéias.

Escrevemos há pouco, algumas linhas sôbre os chamados “discos voadores”. Fizemos-lo, por solicitação de um leitor. Não abordamos a parte cientifica, porque dela nada sabemos. Fizemos menção ao nosso descrédito sôbre o assunto, em virtude da multi-variedade de informações a respeito foram tornadas públicas, principalmente por uma grande e conceituada revista nacional. Continuamos não acreditando nos “discos voadores” nas poliformes maneiras como são tidos. E duvidamos mesmo que exista uma pessoa que tenha um juizo formado acerca do assunto, depois de ter lido opiniões de diversas autoridades. Isto, porque, êsses pareceres (das Forças Armadas da Rússia, Estados Unidos, Brasil e Inglaterra) apresentam sempre divergências, e, sem bases sólidas, seria insensato acreditar em um, desacreditando outros. Continuamos ainda, nesse particular, apologistas da doutrina de São Tomé.

Recebemos ontem uma carta assinada pelo sr. José Pereira da Costa, censurando-nos por termos escrito as mencionadas linhas. Uma carta, até certo modo fugindo à sua possivel intenção de colaborar conosco. Aconselhou-nos o citado missivista, inclusive, a não invadir terreno desconhecido. Acontece que não invadimos terreno algum e até hoje confessamos nenhuma opinião temos a respeito do assunto (para externar ao leitor que nos solicitara tal pronunciamento anteriormente). Não abordamos a questão sobre nenhum ângulo – repetimos; apenas dissemos nosso descrédito sobre o assunto e mencionamos a nossa desconfiança, ante das fantasias publicadas, muitas delas eivadas de verdadeiros absurdos e quasi todos diferentes. Só.

O recorte do jornal que nos foi enviado (com propaganda indiréta de um país exterior), de nada nos valeu. Poderemos, se o missivista quizer, arrumar-lhe outros, que encaram a questão por prismas variados e depois perguntar ao sr. José Pereira da Costa, com quais pareceres ele ficará e porque optará por uns desprezando outros.

Por enquanto duvidamos disso; não propriamente do(s) fenômenos e sim das afirmações de que os “discos voadores” sejam deste ou daquele módo, deste ou daquele formato.

O missivista não pretenderá, pelo que pensamos, forçar-nos a engolir uma notícia que ele recebeu bem. A energia atômica, o vôo mais pesado do que o ar e outros inventos invocados pelo sr. Pereira são realidade palpável. Sobre o “disco voador”, continuamos ainda na esperança de encontrar uma pessoa que saiba nos esclarecer e ilustrar a respeito, isto é, continuamos achando que existem muitas fantasias, muitas imaginações e explorações em torno do assunto nem todas comprovadamente perto da realidade!

Extraído do Correio de Marília de 8 de outubro de 1957

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Observações sobre a URSS (5 de outubro de 1957)

Esteve ha pouco na Rússia e em outros paises do velho continente, uma comissão de parlamentares, conforme é do conhecimento de todos. Na ocasião do embarque déssa delegação, escrevemos alguma coisa, dizendo de como viamos éssa comitiva viajar, isto é, do nosso ponto de vista a respeito. Dissemos na ocasião, que a delegação que fôra dividida em três partes distintas: a que foi “encaixada” como turista, a que foi com o objetivo de ver a Rússia por simpatia ao seu povo ou ao seu sistema político e a outra, mais sensata, que cumpriu fielmente a missão, observando “in loco”, com imparcialidade absoluta.

Ficamos, pois, aguardando o pronunciamento daqueles que se dirigiram para a Rússia, país maravilhoso para muita gente e nação abjeta para outra tanta gente. Não vimos uma transpiração déssas observações da maneira que desejavamos. Gostariamos de conhecer os pontos de vista de maneira a mais leal possível, por parte de todos aqueles que empreenderam éssa missão. Ao que parece, somente a deputada Conceição da Costa Neves completou mais profundamente esse no(s)so desejo. Realmente, éssa parlamentar está proferindo uma serie de conferências através do microfone da Rádio Emissora Piratininga, nas quais aborda o “modus vivendi” do povo soviético, sua política, seus trabalhos e tudo o mais, que foi dado observar à referida deputada. Francamente, a sra. Conceição da Costa Neves está dizendo coisas de arrepiar os cabelos!

Como nenhum outro parlamentar ou pseudo-parlamentar dos que integraram tal delegação, até agora veio à público contestar as afirmações da mencionada deputada petebista, aqueles que ouviram com interesse éssa série de conferência da aludida política, acham-se no direito de considerar como verdadeiras, as afirmações de D. Conceição da Costa Neves, apesar dos fatos aparentemente incríveis que a mesma oferece seguidamente.

Estavamos aguardando, como dissemos anteriormente, o pronunciamento de diversos desses delegados parlamentares (e não parlamentares que foram “engajados” de maneira estranha), para tirarmos depois nossas deduções e apreciarmos o assunto. Não podemos faze-lo, como pretendiamos, em virtude de somente D. Conceição ter saido a público, para esclarecer a sua maneira de ver e observar a Rússia e seu povo. Mesmo aqueles que participam atualmente da doutrina soviética, até agora não se manifestaram.

Acontece, que a essência do assunto, em sí, que pretendemos tratar nésta crônica, é o seguinte: pelo jeito, os parlamentares foram mais turistas do que delegados oficiais e estiveram mais a passeio do que a serviço, apesar da grande importância que tal missão lhes atribuiu. Isto, a menos que todos os brasileiros sejam obrigados a frequentar os parlamentos, para assistir as dissertações a respeito, o que seria impossível. Trocado tudo em miudo, significa que até agora, somente a deputada Conceição da Costa Neves foi capaz de dar conta do recado. A maioria silenciou e em consequência representou despesas inúteis para o erário público, significando mesmo um certo número de privilegiados, que foi passear sem precisar abrir a carteira.

Nós, entretanto, curiosos que estavamos a respeito, somos obrigados a aceitar as declarações de Conceição da Costa Neves como reais, uma vez que não foram contestadas até aquí.

Extraído do Correio de Marília de 5 de outubro de 1957

domingo, 4 de outubro de 2009

Discos voadores (4 de outubro de 1957)

Limos “por cima” notícia a respeito de que um cidadão de Santos, por sinal catedrático de direito, teria viajado num veículo interplanetário, conhecido como “disco voador”. Não nos preocupamos com a notícia, uma vez que ainda somos partidários da política de São Tomé a respeito.

Recebemos ha pouco uma carta em que se nos pergunta “o que pensamos a respeito”. Não pensamos nada, porque acreditamos tão grande a fantasia e a mentira, a ponto de nada dar para pensar. No passado, muita gente “viu” os “discos voadores”. Não tivemos nós a felicidade de ver nenhum desses objetos, por mais vontade que tivessemos. Nem siquer tivemos a oportunidade de conversar com alguem, daqui ou de fóra, que realmente tivesse visto os “discos”.

Longe de nós, o insinuarmos de mentiroso o prof. Freitas Guimarães, que diz ter viajado no “disco voador” e ter estabelecido novo encontro, que não aconteceu, apesar da expectativa de milhares de pessoas e de uma legião de reporteres e fotógrafos.

A pessoa que nos dirigiu a carta, tendo-se assinado Luiz Campos Simão, incita-nos a dar nossa opinião sobre o assunto. Verdadeiramente nenhuma opinião temos, porque não acreditamos nisso, enquanto não vermos, “com os olhos da cara”, tais aparelhos. Quando, no passado, a revista “O Cruzeiro”, iniciou uma série de reportagens acerca dos “discos voadores”, vimos, nas mesmas, tantas fantasias e tantas mentiras, tantas infantilidades e tantas incoerências, que julgamos incompatíveis mesmo com a tradição de tal órgão de imprensa. Daí para cá, a já pequena fé que tinhamos acerca da verdade do fato, desapareceu por completo. Até hoje não nos convencemos da existência dos “discos voadores”. Nos cinemas, temos visto filmes a respeito, dos mais fantásticos e absurdos, tão absurdos que chegam a irritar, fazendo-nos pensar que os produtores desse tipo de películas cinematográficas pensam que somos bobos.

É tudo o que podemos pensar a respeito dos chamados “discos voadores”, para a satisfação do leitor que nos escreveu. Nada mais, a não ser o desejo de que um dia um “disco voador” aterrise perto de Marília, com tempo suficiente para que possamos ir até o local. Então, teremos realizado a mais sensacional reportagem de nossa vida jornalística.

Extraído do Correio de Marília de 4 de outubro de 1957

sábado, 3 de outubro de 2009

“Políticos do lado da sombra” (3 de outubro de 1957)

As vezes achamos verdadeira graça, nas atitudes de certos políticos de nossos dias. São as pessoas que chamaremos de “políticos do lado da sombra”. De mesma maneira que existem os políticos “Maria vai com as outras”, existem também os “do lado da sombra”, isto é, os que se adaptam às circunstâncias de maior probabilidade de “cartaz”, de aparecimento público, desfrutando, em consequência, os resultados de lutas anteriores, procedidas por outros políticos, na maioria das vezes bem intencionados.

A questão da luta municipalista é um exemplo frisante. Hoje em dia, raro é o deputado ou o político profissional que não seja ou não pretenda ser “municipalista”. No passado, só um número ínfimo de bons interioranos desfraldou essa bandeira, que hoje principia a dar os seus primeiros frutos, impondo a sua força e exigindo os seus direitos. O “negocio” hoje é diferente. Principalmente nas épocas de eleições, quando os políticos de oportunidade abandonam o asfalto e se dirigem ao interior, arvorando-se em amigos das comunas bandeirantes.

Acontece que o povo já está sendo convenientemente educado, para saber bem, quais são os contadores de prosa e os verdadeiros amigos da gente interiorana. A discriminação racional de rendas, para fortalecimento dos municípios, é hoje em dia quase uma vitória total do pequeno exército muncipalista, atualmente engrossado por “engajados” oportunistas. Não raro, qualquer deputado, principalmente estadual, é partidário da luta municipalista, “ardoroso defensor” dos interêsses municipais.

Efetivamente, o assunto até tem dado para demagogia no Palácio 9 de Julho, quando muitos deputados que nem sequer sabem bem o que significa o assunto, têm se ocupado da questão, com alardes e estardalhaços, enviando, imediatamente aos jornais do interior, trechos de seus discursos ou recortes de declarações à imprensa, sôbre o assunto. Muitos, talvez, estejam bem intencionados. Outros, ao que parece, estão apenas intencionados.

Em verdade, todos os deputados deveriam interessar-se realmente pela questão, sem outros desejos que não os de servir uma grande causa. Uma coisa é certa e convem que os deputados, tanto os verdadeiramente municipalistas como os municipalistas de conveniências, tenham-na sempre em mente: Ou se enriquecem os municípios interioranos ou sucumbirão as próprias instituições democráticas do país. As comunas brasileiras, do norte ao sul da nação, andam capengando, depauperadas e bastante enfraquecidas. Os objetivos e necessidades atuais dos municípios, até aquí, quse que só foram atendidos mediante favores palacianos e compromissos políticos, tendo no passado sido relegado a plano inferior o verdadeiro direito das comunas brasileiras.

Se não fosse a luta municipalista, por certo os municípios tenderiam a desaparecer, auferindo uns, em temporadas curtas, alguns benefícios apenas, como consequência de favores de seus próprios administradores políticos, representando uma disparidade e injustiça, uma oligarquia; isto é, só aufereriam benefícios e assim mesmo inequãnimes, os municípios cujos administradores lessem pela mesma cartilha política dos governantes.

O município hoje, graças a luta municipalista, está encontrando seu verdadeiro lugar dentro da vida nacional. Justifica-se, portanto, de certo modo, a invasão dos “políticos do lado da sombra”.

Extraído do Correio de Marília de 3 de outubro de 1957

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Elegeremos um candidato mariliense? (2 de outubro de 1957)

Os inúmeros artigos por nós já escritos, a respeito da necessidade de Marília ser legitimamente representada no Palácio 9 de Julho, em especial, acarretaram-nos uma certa responsabilidade pública, uma vez que volta e meia somos abordados acerca do andamento da questão.

Efetivamente, nossos únicos interesses no caso, representam apenas o desejo de ver Marília sair da orfandade política que até aqui tem apresentado. E temos nossas razões para isso, uma vez que embora tenhamos contado, vez por outra, com algum beneplacido de deputados de outras regiões, para questões de interesses marilienses, a verdade é que os interesses imediatos e que poderiam ser tratados diretamente e não à guisa de favores, tem sido relegados a plano secundário, por falta absoluta e incontestável de não possuirmos o nosso lídimo advogado político em algum parlamento.

O tempo corre célere e quanto mais se descurar do assunto, maiores serão os problemas futuros a respeito do assunto, uma vez que tais problemas já existem sobejamente por trás dos bastidores da própria política local, que, se bem deseje cingir-se aos interesses instrínsicos de nossa cidade, terá que desgrudar-se, pelo menos em parte, das telas políticas das próprias facções partidárias, o que embora não sendo possível, não será de todo fácil, caso não se verifiquem interesses bem marilienses, que sobrepujem os interesses doutrinários.

Daí o dizermos que os próprios diretorios políticos locais terão o dever precípuo e bem mariliense se fazer ver aos seus diretórios regionais ou estaduais, da necessidade déssa colaboração em pról de um ou mais candidatos de nossa terra, sem apôio a homens de todos os centros, embora pertencentes à mesma bandeira política.

Dizia-nos um político local, outro dia, ser louvavel nossa campanha, da qual, ele, pessoalmente participaria incondicionalmente, embora tivesse que desater-se com seu próprio partido. Por outro lado, já outra figura exponencial de nossa vida política nos confessava, aparentemente constrangido, que teria ele que seguir a orientação doutrinária de sua corrente política, apoiando, se fôsse o caso, mesmo um candidato alienígena. Espantou-se esse nosso amigo, quando dissemos que se tal acontecesse, teria no autor déssas linhas e por intermédio désta coluna, um ferrenho adversário, por mais méritos que apresentasse tal candidato de fóra. Isto, porque, respeitando os direitos políticos de todos, nos colocaremos de atalaia, contra todo e qualquer cidadão de fóra que aquí apareça, direta ou indiretamente à caça de votos.

Isso faremos realmente, não tenha dúvida êsse nosso amigo.

Extraído do Correio de Marília de 2 de outubro de 1957

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Esplicações sobre a “asiática” (1º de outubro de 1957)

Primeiro, um receio, uma apreensão natural. Depois, “gozações” acirradas sobre o surto epidêmico de gripe, que se alastrava gradativamente por quasi todos os paises do mundo. Um pouco de “intermezzo” a seguir e a aludida enfermidade atingiu, com certas dúvidas quanto à sua verdadeira origem, paises da América do Sul. Passou da Argentina para o Rio Grande, sem direitos alfandegários, pulou para o Rio e retornou a São Paulo, passando primeiro por Santos.

Já fez algumas vítimas entre nós. No entanto, de acôrdo com as notícias a respeito divulgadas, os óbitos não foram propriamente ocasionados pelo virus da moléstia e sim em consequência de complicações, originarias de outros males. Podemos dizer que se não fôra a pouca intensidade do surto entre nós e seu já prático enfraquecimento, as consequências seriam imprevisíveis na maioria dos brasileiros, devido ao estado geral de quasi permanente sub-alimentação de nossa gente. Em que pese as providências sanitárias tomadas pelas autoridades responsáveis, somos ainda daquelas que entendem fracas e até um pouco extemporâneas tais providências. A educação geral do povo brasileiro, quer nos parecer, não foi completa.

Por outro lado, jornais de São Paulo vivem a chamar providências em maior escala, alegando inclusive de que as informações oficiais estão sendo censuradas e deficientes, forçando os órgãos de imprensa a percorrer os locais onde se verificam os fócos de infecção, para poder informar devidamente o público.

O que é certo, é que nem todos os casos de verdadeira “asiática” são divulgados e nem todos os casos de gripe são da “asiática”. Pensamos que se todos os casos de influenza registrados fossem realmente da chamada “asiática”, as coisas não estariam no pé em que estão.

Temos observado um fato curioso a respeito:

Algumas autoridades sanitárias, em palestras ou entrevistas, deixaram claro a não existência de anti-bióticos específicos para o mal, tendo apenas preconizado medidas preventivas e preservativas para a moléstia. Por outro lado, alguns estabelecimentos farmacêuticos estão aproveitando a “deixa”, anunciando droga para o fim referido, que, em verdade, não correspondem à realidade.

Segundo conseguimos apurar, junto a autoridades sanitárias, não existe, no momento, medicamento especial para combater o virus da “asiática”. Existem medidas de precaução e providências patológicas usuais, unicamente. Assim, estão as autoridades sanitárias recomendando a todos, em síntese, as seguintes medidas preservativas, contra a gripe:

Evitar locais de muita aglomeração; evitar apertos de mão e contactos com enfermos; evitar cansaço e esgotamento físico e mental; alimentar-se bem, fazendo uso de frutas, legumes e alimentos líquidos, especialmente leite e suco de frutas; repousar diariamente o quanto mais possivel; dormir se possivel, oito horas por dia; recolher-se ao leito, quando febril e aguardar a visita médica; não abusar de anti-bióticos, sem prescrição médica; póde ser usada a aspirina aos primeiros sintomas febris, antes da chegada do médico.

A propósito, sabem que a Associação Paulista de Medicina, através da Secção Regional local, em colaboração com a classe médica, com o Centro e Delegacia Regional de Saude, estão promovendo palestras elucidativas a respeito, diariamente, no horário das 21 horas, através da Rádio Dirceu de Marília. Convém ouvir, portanto, a palavra médica a respeito.

Extraído do Correio de Marília de 1º de outubro de 1957