domingo, 28 de fevereiro de 2010

Juventude Católica de Marília (28 de fevereiro de 1958)

Estivemos ontem visitando diversas obras e empreendimento da Juventude Católica de Marília, organismo de benemérita assistência social e espiritual, dirigido pelos congregados marianos da Paróquia de São Bento.

Percorremos rapidamente a séde da entidade, à Rua Paraiba, 280 e pudemos constatar uma verdadeira revolução de idéias e ações naquêle local. Diversos reparos e ampliações do patrimônio imobiliário estão sendo executados, já quase no período final.

O “Ginásio São Bento”, integrante da Juventude Católica de Marília, passou por radical reforma. Está agora o aludido estabelecimento de ensino médio, com sete amplas, magníficas e bem arejadas classes, com a capacidade média de 40 alunos por unidade de sala de aula. No ano passado, frequentaram o citado estabelecimento educacional, 125 alunos e até ontem, quando ali estivemos, verificamos que o número dos interessados matriculados atingia 306, número êsse possivelmente acrescido durante o dia de ontem e que deverá ser aumentado hoje, último dia para o processamento das inscrições respectivas.

Anexo ao “Ginásio São Bento” funciona também o Jardim da Infância, com duas classes, onde 96 criancinhas estavam matriculadas até o dia de ontem. Tal curso de iniciação ao ensino primário é inteiramente gratuito, inclusive o fornecimento da indispensável sopa escolar.

O “Ginásio São Bento”, agora sob a direção de frades franciscanos, é supervisionado pelo frei Xisto, religioso que em apenas 15 dias de permanência entre nós, foi capaz de demonstrar um tirocínio e ações de trabalho elogiáveis. A primeira preocupação dêsse ilustre sacerdote, foi a ampliação das classes de aula, o arejamento total das mesmas, a reforma da iluminação, construção de uma secretaria e de amplas e modernas instalações sanitárias, distintas, para alunos e alunas.

Além disso, procedeu a reforma do refeitório, à titulo precário, enquanto não se processa a construção de um outro, mais amplo e moderno. O pátio será todo ladrilhado, para manter-se melhor as condições higiênicas do estabelecimento que está agora repintado.

Até nos quadros negros do estabelecimento foram introduzidos melhoramentos modernos. As lousas são tôdas côncavas, semelhantes às chamadas télas “panorâmicas”, de modos a propiciar facilidade e perfeita visão aos alunos, em quaisquer ângulos ou localização das classes.

Os cursos ginasiais do aludido estabelecimento funcionarão nos períodos diurno e noturno, facilitando assim, de tôdas as maneiras as mais diversas classes estudantis, e, propiciando meios de haurir as luzes da ciência, também pela mocidade que é obrigada a trabalhar durante o dia.

Um completo curso de datilografia funcionará anexo, à preços módicos. Além disso, um Curso de Admissão ao Ginásio, funcionará durante todo o ano letivo, cobrando-se por isso, a módica mensalidade de 50 cruzeiros.

Todo o corpo docente já está contratado para o período escolar óra se iniciando. Nossa reportagem conseguiu anotar, dentre outros, os seguintes nomes dos mestres que emprestarão seus concursos às diversas matérias do “Ginásio São Bento”: Cônego Francisco Rodrigues Barbosa (português e latim), Luiz Barreto de Carvalho e Ângelo Baldi (francês e inglês), Dirceo Benedito Bertolotti (matemática), Armando A. Melo (geografia), Amaury Pacheco (história), Nelson Rino (desenho e trabalhos manuais), Manuel Antônio Sernache (português) e Augusto Lopes Romeiro (educação física).

Ao percorrermos as instalações referidas e ao ensejo do ligeiro “bate papo” que travamos com o frei Xisto, padre Manoel e vice-presidente da Juventude Católica de Marília, sr. José Lozano, ficamos convencidos de que um grupo de bons marilienses está realizando muito entre nós, em pról do ensino cientifico, técnico e espiritual.

Nossos parabéns, portanto, à essa plêiade de entusiastas espiritualistas e idealistas, batalhadores incansáveis e intransigentes das causas do ensino e assistência social e espiritual de nossa cidade. A Juventude Católica de Marília é um exemplo vivo de um trabalho digno e magnífico.

Extraído do Correio de Marília de 28 de fevereiro de 1958

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O dia do município (27 de fevereiro de 1958)

Quatro de abril é o Dia do Município de Marília. Marcará a passagem do 29º aniversário de emancipação municipal da cidade. Cairá tal data, no ano em curso, na Sexta Feira Santa, conforme tivemos a oportunidade de lembrar aos poderes constituidos da cidade, em tempo hábil. Na ocasião, sugerimos até, a possibilidade de estudos, no sentido de que as comemorações aludidas sejam transferidas para o dia 6, domingo.

O fato, entretanto, escolhido para a nossa crônica de hoje, não é bem a questão da transferência ou não da data. Isso compete à comissão respectiva que será nomeada pelo prefeito Argolo Ferrão, na qual colaborará, como sempre, a Câmara Municipal.

Nosso objetivo à colaborar com os membros da aludida Comissão, lembrando-os de alguns pormenores atinentes ao caso. Por exemplo, a execução da Lei já aprovada pela edilidade e sancionada pela Prefeitura, acêrca do Salão de Belas Artes. Tal caso exige providências imediatas, pois se as ações a respeito forem deixadas para a última hora, traduzir-se-ão, por certo, nalguma coisa que não venha a corresponder integralmente ao preceito legal estabelecedor da idéia. Falta, a respeito, publicidade, cabendo à Comissão realizá-la. Urge dar ciência em tempo suficientemente antecipado, da aludida mostra legal, suas condições, prêmios e normas dêsse certame.

Por outro lado, pensamos que a Comissão em referência, tomará tôdas as providências para o bom desenrolar dessa efeméride. Sempre fomos contrários a qualquer dispêndio de dinheiro público para coisas puerís. No entanto, em se tratando de comemorar a passagem do Dia do Município, entendemos que algum dinheiro público pode e deve ser gasto, embora sem espalhafatos. É uma obrigação, pensamos. O pode deve participar dêsse acontecimento e para tal participação devem existir outros motivos, além do significado puro e simples da data. Não seria justo, a comemoração da data da cidade, com um simples desfile escolar e a tradicional sessão solene da edilidade. Competições esportivas, sessões cívicas, presença de alguma coisa extraordinária, etc., carecem fazer-se presentes nessa oportunidade.

A propósito, fomos procurados por um leitor de nosso jornal, que nos cedeu, para qualquer possível idéia, uma coleção de vistas fotográficas de carros alegóricos, barracas e fantasias, tomadas por ocasião de transcursos de datas municipais diversas. A intenção dêsse leitor, é prestar também sua colaboração à Comissão referida, da qual julgava que fazíamos parte. Tais vistas, em atenção ao leitor referido, encontram-se em nosso poder, podendo ser procuradas por quem se interessar, sem qualquer compromisso. Se dali fôr tirada alguma idéia, bem. Se não, nenhum prejuízo ou trabalho acarretará seu conhecimento.

O fato do Salão de Belas Artes, entretanto, deve merecer cuidados especiais, enquanto é tempo. Confessamos que essa lembrança deve origem a uma solicitação de pessoa amiga, que, observando e interessada a respeito do fato, percebeu que apesar de tudo, para tal acontecimento, o tempo já é, naturalmente, um tanto exíguo.

Extraído do Correio de Marília de 27 de fevereiro de 1958

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Introdução ao Direito Municipalista (26 de fevereiro de 1958)

Regressaram os membros da delegação mariliense, que esteve participando da Noite Municipalista levada a efeito no último sábado, na cidade de Botucatu. Aniz Badra, Coriolano de Carvalho, Edmundo Lopes e Álvaro Simões foram os vereadores de nossa cidade que representaram Marília nêsse rápido conclave.

Nós que sempre fomos apaixonados dêsse redentor movimento, movimento que agora toma corpo de tal forma e ações irrefreáveis, procuramos contacto com um dos delegados marilienses. Em virtude dos encontros diários que temos com o rev. Álvaro Simões, êste foi o escolhido para nos prestar alguns esclarecimentos acêrca do desenrolar da citada noitada.

Ficamos, em consequência, sabendo a confirmação daquêle mesmo pensamento por nós reiteradas vezes externado: ninguém segurará mais, ninguém deterá mais essa arrancada de reivindicações e defesa das comunas brasileiras. A força municipalista traduz-se agora em realidade, em respeito, em direitos. Ao par de possíveis intromissões de politiqueiros contumazes, dentro dos órgãos advogados dos direitos da “interlândia”, existe um número de bem intencionados e intransigentes municipalistas, estudiosos inequívocos e trabalhadores incansáveis pela bandeira municipalista.

Decorreu bem, esplêndidamente bem, essa magnífica noitada. Grande e seleta assistência participou do conclave, onde se fizeram ouvir palavras inflamadas e sinceras, exposições de idéias e ratificações de pontos de vista.

Dizia-nos ainda ontem, o rev. Álvaro Simões, de sua agradável impressão ao ouvir a abalizada palavra do dr. Silvio Fortunato, vereador santista e presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Municípios. Manejador incomparável do verbo flamejante, conhecedor profundo dos problemas que afligem as populações interioranas, estudioso intransigente dos direitos e reivindicações dos municípios, pronunciou o sr. Sílvio Fortunato belíssima oração cívica, onde demonstrou possuir a condição irretorquível de um grande soldado da trincheira municipalista. Em sua análise das causas do municipalismo, delineou com extrema facilidade, exemplos frisantes hoje integrados à vida de diversas nações européias, onde existem, em determinadas faculdades de ensino, cursos especializados de Introdução ao Direito Municipalista.

Como bom mestre que é, o reverendo preocupou-se desde logo com o que ouvia. Sempre atento com os problemas do ensino, sempre lutando pelo aprimoramento total da educação no Brasil, cogitou pôr em prática, no estabelecimento educacional que dirige – Instituto “Vicente Themudo Lessa” –, a criação de uma cadeira de Introdução ao Direito Municipal, para as terceira e quarta séries do curso ginasial. Com essa medida, os alunos daquêle estabelecimento de ensino , ficarão habilitados a melhor compreenderem o movimento do municipalismo no Brasil, as causas e os efeitos da luta, os direitos, enfim, devidos ao povo interiorano.

Sensatamente, sentimo-nos do dever de aplaudir essa iniciativa do reverendo Álvaro Simões. S. S. já está procedendo os estudos necessários para a criação, em carater oficioso, uma vez que se trata de iniciativa extra-“curriculum”, dessa cadeira em sua escola.

Se o exemplo fosse seguido, por todos os demais estabelecimentos congêneres, temos a certeza de que, muito em breve, as lutas dos atuais soldados do “exército municipalista” seriam mais facilmente compreendidas, mais facilmente gloriosas.

O assunto, ao par dos encômios insofismáveis que é merecedor, ostenta carater excepcional, uma vez que trata de questão das mais magnas imagináveis. Seus resultados serão benéficos, de grande interêsse. Preparar a mocidade de hoje, para bem conhecer as carências da vida municipalista, interpretando convenientemente as exigências e necessidades dêsse grandioso e oportuno movimento, é um assunto que deve ser obrigatório para todos os mestres interioranos. O reverendo Álvaro Simões, introduzindo em sua escola tal processo, está, diretamente, dando um exemplo cívico dos mais belos no Brasil.

Nossos desejos, portanto, para que a idéia cogitada pelo nosso ilustre companheiro, traduza-se em realidade efetiva, com a apresentação de excelentes frutos.

Nossos parabéns, também, à inspiração elogiável dessa idéia e às intenções paradigmas que a mesma traz consigo.

Oxalá tal exemplo possa repercutir em outras paragens, com a mesma prática ora preconizada pelo reverendo Álvaro Simões. Representará isso, uma contribuição inestimável à mocidade estudantil, de indiscutível duplo-sentido: alargando os conhecimentos daquêles que haurem a luz da ciência, para também os municipalistas de amanhã, para substituirem, no futuro, os atuais defensores da nobre e grande causa.

Extraído do Correio de Marília de 26 de fevereiro de 1958

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Cornélio Pires (25 de fevereiro de 1958)

Perdeu o folclore nacional uma das suas mais legitimas expressões, com o desaparecimento de Cornélio Pires. Poeta, humorista e cantor, foi o pioneiro das pesquisas folclóricas do nosso país, difundindo a vida pitoresca e as passagens cômicas do caboclo interiorano.

Conhecemos Cornélio Pires e travamos contacto pela primeira vez com o grande “poeta caipira”, por volta de 1939 e de lá para cá, tornamo-nos fãs de seus trabalhos de apreciação das coisas de nosso caboclo brasileiro, especialmente o “caiçara” paulista, o “arigó”.

O que mais se admirou em Cornélio Pires, foi a honestidade de sua poesia ou prosa, a “verve” sadia de seu humorismo real, agradável. Manteve sempre um principio de dignidade dos mais encomiosos, ao abordar a vida do povo interiorano. Soube e foi capaz de explorar o meio ambiente do matuto paulista, com uma sobriedade elogiável, sem deturpar fatos e sem ridicularizar o caboclo. Contou sua vida tal qual como é, sem pejorativismos, sem exageros, sem pornografias. Jamais atribuiu expressões ou fatos irreais ao caboclo, como fazem muitos pretensos “poetas caipira”, que apresentam o caboclo do sertão como imbecil, pornográfico e ignorante.

Nasceu Cornélio Pires na cidade de Tietê, a 13 de julho de 1884, desaparecendo aos 73 anos. Prestou serviços inestimáveis à literatura original do povo interiorano. Sua bibliografia consta das seguintes magníficas obras: “Tá no bocó”, “Musa caipira”, “Versos”, “O Monturo”, “Cenas e Paisagens”, “Quem conta um conto...”, “Patacoadas”, “Tragédia Cabocla”, “Conversas ao pé do fogo”, “Estrambólicas aventuras de Nhô Joaquim Bentinho”, “Meu Samburá”, “Mixórdia”, “Continuação das aventuras de Joaquim Bentinho”, “Seleta caipira”, “Tarrafadas”, “Sambas e Cateretês”, “Chorando e Rindo”, “Só rindo”, “Almanaque do Sací”, “Onde, ó Morte?”, “Coisas d’Outro Mundo” e “Enciclopédia de anedotas e curiosidades”.

Em 1910 iniciou Cornélio Pires sua carreira invejável. Versejando com simplicidade, compondo poesias e poemas, deixando transparecer a identidade irrefutável de sua musa cabocla.

Os episódios pitorescos do interior foram trazidos à público, escritos ou falados, pela extraordinária facilidade de Cornélio Pires, da maneira mais franca e gostosa possível. Foi insuperável em seu gênero. Foi absoluto, “primus inter pares”.

Cerca de 30 anos passados, principiou Cornélio Pires a gravar discos com motivos folclóricos, que obtiveram a mais franca aceitação pública, pelo sentido moral como foram divulgados. Um sabor especial de sinceridade, uma apreciação normal e bonita, amena, franca, impregnou sempre tôdas as suas apreciações em torno do caboclo paulista. Jamais depreciou o caipira que êle amou com desvelo e consideração. Jamais resvalou da apreciação dos atos do nosso caboclo, para o lado do irreal, imaginário, mentiroso.

Agradou milhares e milhares de expectadores, nas mais variadas platéias e nos mais diversos pontos do território nacional, com suas insuperáveis demonstrações de cateretês, fandangos, cururus, cana verde, roda, morena, passa-pachola, samba caipira, mandado samba-lenço, etc..

Realizou conferências das mais apreciáveis no interior, sempre pondo em relevo a poesia cabocla, pura e sadia, o espírito bondoso do caipira nacional, sua vida, suas ações, suas “tiradas”.

Cornélio Pires, o patrono dos violeiros do Brasil, foi o mais completo e mais perfeito poeta sertanejo. Foi, sem dúvida, uma perda irreparável para a literatura caipira, o desaparecimento daquêle que meio século dedicou-se a divulgar as coisas da gente interiorana, a vida real do caboclo do sertão.

Extraído do Correio de Marília de 25 de fevereiro de 1958

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Atores para o cinema nacional (22 de fevereiro de 1958)

Acaba o Governador do Estado de aprovar, extenso parecer da Comissão Estadual de Cinema, acêrca da criação de um Curso Intensivo de Atores para o Cinema Nacional. Tal medida destina-se a funcionar “como primeiro passo e experiência, no sentido de uma ação maior futura do Estado, no plano do ensino cinematográfico”.

De acôrdo com o plano previamente elaborado, o curso em referência terá a duração de 10 meses consecutivos, devendo iniciar-se já em março vindouro. Constará de aulas teóricas de 40 minutos e práticas de 90 minutos, dividido em 123 aulas de Noções Gerais de Cinema, 134 Aulas Teóricas de Interpretação e 180 práticas, além de 20 conferências de duas horas de duração cada uma.

Patrocinará tal modalidade de instrução, o próprio Governo do Estado, por intermédio da Comissão Estadual de Cinema e será realizado em convênio com o Seminário de Cinema do Museu de Arte de São Paulo, entidade dotada de instalações adequadas e apetrechos necessários ao funcionamento do aludido ensinamento, além de grandes conhecimentos e experiências do “metier” relacionado com a sétima arte.

Será inteiramente gratuito o curso em téla, objetivando a conquista máxima da eficiência do citado ensino. Por esse motivo, será o mesmo reservado a 20 candidatos escolhidos em rigoroso exame de seleção, através de testes de cultura geral, vocação e expressividade de tipos próprios e determinados. Em comum acôrdo, o Seminário de Cinema do Museu de Arte de São Paulo e a Comissão Estadual de Cinema escolherão a banca examinadora e os professores especializados que ministrarão o aludido curso intensivo.

Será firmado o convênio respectivo, no Palácio do Govêrno, em solenidade especial, por ocasião dos prêmios “Governador do Estado” para Cinema e Teatro.

Uma boa coisa, sem dúvida alguma, desde que alcance “in totum” seus pontos preconizados. O cinema nacional estava mesmo a exigir um melhor aprimoramento de sua vida interior, com a apresentação de um “cast” de artistas mais adequado e um selecionamento mais perfeito dos motivos rodados. Estamos fartos de ver cantores de rádio e TV fantasiados de “astros” e “estrelas” de cinema. Estamos igualmente saturados de ver músicas de carnaval em películas nacionais, cenas de favelas e escolas de samba.

Temos elementos e valores suficientes para empreender a realização de um cinema melhor, principalmente sendo idênticas as despezas de um filme, quer trate-se de um caso policial, um motivo trágico ou uma história amorosa. Tamborins, cuicas, pandeiros, escolas de samba e favelas não são questões próprias para um filme brasileiro. Filmar-se seguidas cenas de conhecídissimos cantores e cantoras de rádio já está por demais “abacaxi”, cançativo, revoltante.

Oxalá a medida óra em referência consiga atingir seu ponto colimado, sem o sistema-padrão que até aquí vinha sendo motivo primordial para a filmagem da maioria de nossas películas. Oxalá, tambem, revelem-se novos atores, capazes, de vocações por excelência. Chega de “canastrões” no cinema nacional. Temos meios e elementos para isso. É só procura-los, dar-lhes “chance”, testa-los, incentiva-los. Isso é o que se pretende fazer agora, com a realização dêsse curso intensivo.

Medida ótima, embora um pouco tardia. Esperemos que dê bons resultados.

Extraído do Correio de Marília de 22 de fevereiro de 1958

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Imaginação do passado, realidade do presente (21 de fevereiro de 1958)

Há algumas décadas passadas, a leitura de Júlio Verne era encarada como cética, irreal, maníaca. Os que manuseavam, no pretérito, as obras do famoso escritor, faziam-no descrédulos, mais a título de curiosidade. Quase ninguém estaria em condições de dar crédito às “fantasias” de Verne.

As leituras empolgavam, como continuam empolgando ainda hoje. Sòmente que agora, da comparação das idéias e imaginações emitidas no pretérito e das realidades do presente, pode-se concluir que o mestre tinha carradas de razões. Incríveis razões.

Existem fatos inexplicáveis dentro do sentido eminentemente psicológico de propulsão das idéias. Por volta de 1930 e pouco, uma firma norte-americana de revistas em quadrinhos, editava um volume dêsse tipo de leitura intitulado “O quadrante amarelo”.

Lemos, em criança, o referido volume. Na ocasião, o enredo se nos parecia empolgante, invulgar, inédito. A sua narrativa dava conta de um país atacando parte de um território estranho e em consequência, a eclosão de uma guerra de proporções universais. O desenrolar da beligerância descrevia as peripécias e as artimanhas próprias de uma guerra moderna, cientifica, diferente da I Grande Guerra Mundial de 14-18.

Engenhos bélicos inexistentes, invenções e armas das mais incríveis, eram pormenorizados na sequência dos quadrinhos ilustrados, com as explicações de suas finalidade e poderes.

Passou-se o tempo e mais tarde, por coincidência, o ataque japonês a “Pearl Habour” processou-se nos moldes aproximados da própria história do “Quadrante Amarelo”. A participação do país oriental na II Guerra Mundial, formando o fatídico “eixo” Japão-Alemanha-Itália, parece ter-se baseado, em suas consequências funestas, no escrito de fértil imaginação do autor (ou autores) da referida revistinha.

É fácil deduzir-se que a questão no caso prendeu-se à coincidência propriamente dita, pois se se tratasse de previsões técnico-militares, por certo jamais teriam as mesmas sido divulgadas. Ademais, na ocasião, desfrutavam entre si, Estados Unidos, Inglaterra e Japão – os três “pivots” da última guerra que envolveu meio mundo –, as mais sólidas relações gerais. Quer dizer, foi alguma coisa de profética tal revelação, que, em seu sentido mais intrínseco, nada mais objetivava – com tôda a certeza –, do que um comércio puro e simples.

Também, logo no início da divulgação do cinema sonoro, os chamados filmes seriados, que tanto gosto e atenções despertaramm entre apreciadores da sétima arte, revelaram em diversas histórias incríveis e só viáveis em imaginação, o início da própria televisão.

Na época, embora estudassem os cientistas da eletrônica as possibilidades dêsse notável advento, temos a convicção de que jamais imaginaram a sua perfeição atual. No entanto, um filme que vimos em nossa época de “calças curtas”, mostravam um aparelho milagroso em que os “bandidos” se comunicavam entre si, através de imagens refletidas em quadros. Era a televisão atual, cognominada no enredo da película, como o “espelho mágico”.

Muitas outras coisas, idéias no sentido diverso no passado, inspiraram a efetivação de coisas que representam progresso cientifico do presente. Por exemplo, na história do “Quadrante Amarelo”, vários tipos de armas citadas naquelas páginas, tornaram-se realidade parente na última guerra. E não de início, mas sim já quase no fim. Uma delas foi a “bazooka”. Outra, o “very light”. O próprio avião a jato, coisa que só se aperfeiçoou há poucos anos, fora descrito como inventado pelos povos do “Quadrante Amarelo”.

Coincidência? Não sabemos. O que temos a impressão é que a idéia fixa, psicologicamente falando, pode muito bem dar margem a realidade do quase impossível quer seja absurdo, quer seja plausível.

Conta-nos a história popular, que por volta do fim do século passado, foi o povo do velho mundo alarmado com a revelação de que não muito distante daquela época, “carros sem bois e sem cavalos” andavam sozinhos e outros voariam transportando gente. Os “carros sem bois e sem cavalos” transformaram-se nos veículos motorizados e nos aviões.

É fato ainda – revela a própria História –, quase todas as descobertas do mundo moderno, foram conseguidas por simples coincidências ou obras do acaso. Constam dos próprios fatos, a descoberta ou aperfeiçoamento de certas invenções atuais, como surgidas quando se tentava outra coisa mais ou menos idêntica.

Assim, quiçá por coincidência, talvez por acompanhamento de uma idéia pretérita, o certo é que muitas das maravilhosas invenções de nossos dias, foram, de uma outra maneira, reveladas ou insinuadas no passado. A imaginação do pretérito tornou-se assim, a realidade do presente.

Extraído do Correio de Marília de 21 de fevereiro de 1958

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pílulas do Carnaval (20 de fevereiro de 1958)

Decorreram bem, no que tange à disciplina e ordem, os dias dos folguedos carnavalescos em Marília. Afóra algumas “broncas” e alguns “rolos” de importância pequena, motivados por alguns foliões e algumas bebidas, tudo transcorreu à contento. Não ha, ao que parece, nenhum assunto desagradável para ser comentado.

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Esteve excelente e digno de encômios, o policiamento de trânsito de veículos participantes do corso da avenida. Muita ordem, muita harmonia, muita vigilância da Guarda Civil, no cumprimento das medidas preventivas determinadas pelo Dr. Severino Duarte. Parabéns.

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Carnaval de rua, praticamente não existiu. Vimos grande desfile de veículos motorizados, de todos os tipos e marcas. Ausência completa de ranchos, préstitos, blocos e cordões. Nenhuma fantasia custosa, extraordinária. Pouco lança-perfume. Muitas bisnagas com água, éter e até alcool puro.

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Só um carro alegórico, pertencente à Cervejaria Bavária. Só uma escola de samba, do “morro do querosene”. Nem aqueles “grupinhos” improvisados que se verificavam nos anos passados, imitando blocos, circularam.

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Consuelo Castilho, o popular “C.C.”, saiu à rua com sua nova invenção carnavalesca: o “Sputnik” III.

Todos os anos esse folião dá a nota, apresentando uma novidade original. É, a rigor, o unico que colabora com o carnaval de rua, divertindo-se sozinho. Só um defeito: Suas “invenções” são de fazer força e pesadas. O “C.C.” e seus comparsas trabalham p’ra xúxú...

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Disciplina nos bailes e nas “matinées”. Poucas “briguinhas”, que foram facilmente extinguidas. Boa cobertura acêrca dos folguedos carnavalescos, apresentada pelas emissoras da cidade. Ausência de talco.

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Praticamente nenhum excesso por parte de foliões irresponsáveis, uma vez que, conforme dissemos antes, as consequências a respeito foram bastante menores e menos frequentes do que nos anos anteriores.

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Uma brincadeira de mau gosto verificou-se terça feira à noite no Marília Tenis Clube. Um “engraçadinho” espalhou algum pó no salão, provocando espirros sem conta em muita gente. Rapé?

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Boa medida foi tambem posta em prática pelas autoridades policiais. Enquanto se desenvolveram as folias momescas, a policia e a guarda noturna intensificaram a vigilância na zona periférica da cidade, evitando assim desassossego público e garantindo melhor a inviolabilidade dos lares. Nessa situação, um larápio “manjado” foi detido, quando ensaiava um assalto.

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Pequeno foi o número de prisões durante os dias de carnaval. Pequeno, em relação aos anos anteriores. Afóra o ladrão referido, as detenções tiveram motivos a embriagues e pequenas brigas.

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A imprensa e rádio muito trabalharam em suas rondas pela cidade e pelos clubes, objetivando acompanhar todos os acontecimentos do desenrolar dos folguedos carnavalescos. Nesse particular, os órgãos divulgativos tem bastante afinidade com a polícia. Quanto mais o povo se movimento ou diverte, mais eles trabalham.

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Enfim, terminou o carnaval de 1958. Agora, ao trabalho (depois de curada a ressaca, é claro). Vamos pensar em outras coisas.

Extraído do Correio de Marília de 20 de fevereiro de 1958

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Plano arrojado que poderá beneficiar Marília (15 de fevereiro de 1958)

Oportuníssimo requerimento apresentou o vereador Álvaro Simões, quinta feira última, na Câmara Municipal. A proposição referida, solicitou a nomeação de uma comissão especial de edís, para, em Bauru, avistar-se com o dr. Antônio Eufrásio Toledo, dirigente do Instituto Toledo de Ensino. Dêsse colóquio, resultará a apresentação da delegação mariliense, em nome da cidade e da sua classe estudantil, de um pedido ao ilustre dirigente educacional, de inclusão do nome de Marília como candidata à uma Faculdade de ensino superior a ser criada e superintendida pela citada organização educacional.

Como se sabe, o prof. Antônio Eufrásio Toledo, ostenta, presentemente, a credencial de um valoroso e arrojado soldado da causa do ensino superior no interior paulista. Dedicado exclusivamente à questões educacionais, apresenta em pleno funcionamento, em Bauru, duas importantíssimas Faculdades – de Direito (cuja primeira turma de bacharéis ocorreu no ano findo) e de Educação Física.

No ano vigente, funcionará em Lins, a Faculdade de Engenharia da citada organização-orgulho do ensino superior na “hinterlândia”. Tal escola ocupará um prédio de dezesseis pavimentos, constituindo, só êsse fato, uma garantia patrimonial das mais sólidas. Isto, se não bastasse a já tradicional folha de serviços prestados à causa do ensino superior, a centenas e centenas de jovens interioranos.

Além disso, pretende o referido Instituto, fazer funcionar em Presidente Prudente uma Faculdade de Filosofia, que seria o quarto estabelecimento dêsse nível de ensino. Assim, pois, para completar o cíclo universitário, ficaria restando mais uma claro nêsse denodado plano de criação de Faculdades e estaria formada a Universidade de Baurú, do Instituto Toledo de Ensino, sonho já praticamente realizado pelo ilustre mestre.

A criação dêsse quinto curso, será procedida numa das cidades-chaves da região, de maneira a atender perfeitamente, conveniências e interesses estudantís de diversos centros. Marília encontra-se como “intermezzo” das zonas noroeste e sorocabana, em condições de consultar as exigências cogitadas no plano grandioso e elogiável do prof. Toledo.

Pensando, pois, nessa circunstância e no carinho com que o citado educador e diretor vê a possibilidade de Marília prestar-se perfeitamente à efetivação déssa idéia, é que o reverendo Álvaro Simões apresentou no plenário da Câmara o citado requerimento.

Foi a proposição referida, aprovada por unanimidade, aplaudidíssima por todos os senhores edís.

Após a aprovação, o presidente da edilidade, Dr. Fernando Mauro nomeou os senhores rev. Álvaro Simões (autor do requerimento), prof. José Antonio Marissael de Campos e Dr. José Coriolano de Carvalho, êste último representando a Presidência da Câmara. A delegação citada deverá entender-se, conforme dissemos acima, com o ilustre mestre Eufrásio Toledo, expondo à S. Excia. a pretensão justa, diga-se de passagem de Marília e sua gente.

Foi acertadíssima tambem a designação da Mesa da Câmara, em nomear três renomados professores de nossa cidade, esforçados na luta do ensino local e conhecedores profundos do “metier”.

Urge agora, que apresentemos de público, nossos votos de boa viagem à éssa Comissão e confessemos a certeza de que o honrado Antônio Eufrásio Toledo acolha com a sua peculiar simpatia e atenção, o apêlo da gente mariliense.

Por outro lado, mistér se faz que os poderes públicos de Marília, bem como suas entidades de classe e o povo em geral, procurem prestar toda a colaboração à iniciativa e apôio ao Instituto Toledo de Ensino, objetivando a distinção que óra estamos referindo e de tanta necessidade, utilidade e urgência, não só para Marília como tambem para outras regiões adjacentes.

Esperemos, pois, confiantes, que a representação mariliense seja recebida pelo prof. Toledo, com a costumeira e tradicional atenção e carinho com que o mesmo habitualmente dispensa aos assuntos do ensino em nosso país.

Ao ensejo, congratulamos com êsse patriótico plano de ensino superior, tão digna e esforçadamente executado pelo prof. Toledo. Nós, que sempre fomos partidários de escolas – exceto as de “capoeiragem” e crime –, daqui enviamos nossas felicitações ao Instituto Toledo de Ensino de Baurú.

Extraído do Correio de Marília de 15 de fevereiro de 1958

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Verba para o Aeroporto (14 de fevereiro de 1958)

Acaba o Governador do Estado, de consignar a verba própria para o asfaltamento da pista do aeroporto municipal de Marília.

Até aí, nada de mais, poderá parecer. Sucede que existe um pormenor digno de atenções nessa providência. É que, no ano passado, quando o “Diário Oficial” publicou as importâncias que seriam endereçadas à diversos municípios interioranos, para o fim em téla, ficou devidamente expresso que a consignação do “quantum” especificado, para nossa cidade, seria liberado em fevereiro corrente. Tal, de fato, vem acontecer.

Em última análise, representa que o sr. Jânio Quadros está cumprindo à risca o que promete, o que não deixa de ser um motivo de agradável certeza nos destinos da atual administração estadual. Principalmente tendo Marília – igualmente como outros centros –, sido vítima, no passado, de uma série interminável de promessas governamentais não cumpridas.

Marília reclamava mesmo, há tempo, êsse melhoramento. Sua flotilha de aviões particulares e emprêsas de táxi-aéreos, por si só, impunham tal necessidade. Ao par disso, nossa cidade é servida pela VASP, importante companhia de transporte aéreo, cujos aviões, conforme é sabido, exigem mais alargamento e conforto (além de segurança) para suas pistas. Sabido é que hoje em dia, os homens de negócios, as pessoas do govêrno, os políticos e todos aquêles que estão integrados ao trepidante modernismo de nossos dias, utilizam-se com frequência do transporte aéreo. Um aeroporto, sem dúvida, passa a ser o cartão de visitas de uma cidade. Demonstra, à primeira vista e ao primeiro contacto com a gente de uma “urbe”, sua grandeza, suas possibilidades, suas realizações – sua grandeza, enfim.

Até aqui, o aeroporto propriamente dito, não tem passado de um “campo de aviação”. E não dos melhores. Casos existiram, em que não se verificaram desastres de grande monta e funestas consequências, mercê da perícia demonstrada por determinados pilotos de nossa cidade. Até gado vacum e cavalar, vez por outra, tiveram o ensejo de “dar uma voltinha” pelas pistas do atual aeroporto, cujo assunto foi, inclusive, focalizado no plenário da Câmara Municipal.

Significa tal acontecimento, uma vitória de lutas de nossos poderes constituidos e de um ról de outras pessoas, que muito batalharam para a concretização dessa medida.

Agora que já foi consignada a respectiva verba para o fim em apreço, mistér é que o prefeito Argollo Ferrão, que jamais tem descuidado dos assuntos de importância de vulto para os interêsses da cidade, exerça sua influência no caso, tomando as ações necessárias, para o abreviamento do inicio dos trabalhos à respeito.

Não resta dúvida, que o caso teve um desfecho satisfatório, atendido – pelo âmbito governamental – dentro do prazo pré-fixado. Justo é que nos congratulemos, ao ensejo, com essa satisfação ao povo mariliense, por parte do Governador Jânio Quadros, como necessário é também, que felicitemos o público local e em especial àquêles que lutaram pela consecução dessa medida, imprescindível, de modo inquestionável, ao próprio progresso e exigências do desenvolvimento e dinamismo de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 14 de fevereiro de 1958

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O Excesso de Arrecadação (13 de fevereiro de 1958)

O pagamento regular das cotas de excesso de arrecadação estadual, devidas e consignadas constitucionalmente aos municípios, representa, sem sombra de dúvidas, um ponto alto no govêrno do sr. Jânio Quadros. Significa, por outro lado, uma consequência inequívoca e traduzida em realidade, nesse rosário das lutas e trabalhos dispendidos pela Associação Paulista de Municípios, em pról das comunas interioranas.

O olhar-se com simpatia para o povo do interior, dispensando-lhe atenções e cumprindo fielmente os direitos emanados de preceito legal, representa, antes de mais nada, cabal cumprimento à própria lei.

Até o govêrno passado, nêsse e em outros particulares, a gente “da roça” viveu sempre num eterno mar de indiferença governamental. As cidades que conseguiram empreender uma rota de evolução e desenvolvimento geral, tiveram, em sua maioria, tal decorrência à trabalhos e esforços próprios. Hoje, isso não acontece. Nos dias atuais, os próprios órgãos governamentais – auxiliares, técnicos ou burocráticos –, estão instruidos acêrca de suas verdadeiras funções, prestando, solicitamente, assistência ou informes aos homens do interior – o que no pretérito não sucedia.

Inúmeros são os benefícios advindos para o povo interiorano, déssa união de trabalhos – de um lado os propósitos do Govêrno em fazer cumprir a lei e de outro, os empenhos e mesmo a fiscalização da A.P.M. nesse sentido. Muitos mil metros de guias de sargetas foram construidas em diversas comunas paulistas. Muitas caixas e adutoras de água. Muitos milhares de metros quadrados de calçamento, muitos quilometros de redes de água e esgôto e outras bendeitorias incontáveis, com o enriquecimento e reforço das finanças municipais, em razão da efetivação dêsses referidos pagamentos, de cotas de excesso de arrecadação. Em alguns municípios, conforme afirmou certa vez o prefeito Argollo Ferrão, até o funcionalismo municipal foi pago com êsse dinheiro, uma vez que, algumas comunas, em dificuldades financeiras originárias da pouca plana existente entre a despesa e a arrecadação, submergiram em crise financeira temporária.

Não se póde, pois, regatear ou negar aplausos à éssa óbra, que veio de todo, ao encontro dos interesses do povo do interior.

O atual Govêrno, ninguem póde contestar, tem voltado sempre as vistas para as comunas interioranas, atendendo, na medida do possivel, as reivindicações da gente do interior. Muitos benefícios – que em primeira análise são autênticos direitos –, que ontem não passavam de “pretensões”, hoje são realidade.

Por seu turno, a A.P.M. vem desenvolvendo notável campanha de advogar os direitos dos municípios, hoje já com resultados positivos de sua força irrefreável e de seus propósitos elogiáveis.

Da coesão dessas providências, os frutos foram e estão sendo colhidos pela gente interiorana, pelos municípios paulistas. Nem tudo foi feito, entretanto. Muito mais terão que fazer ainda pelas comunas de nosso Estado, o Governador Jânio Quadros e a Associação Paulista de Municípios.

Esperamos que a caminhada empreendida prossiga sempre.

Extraído do Correio de Marília de 13 de fevereiro de 1958

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Servidor Emerito (12 de fevereiro de 1958)

Em reconhecimento aos bons serviços prestados em pról do aperfeiçoamento e difusão da ciência contábil, o Governador Jânio Quadros, acaba de conferir, “post mortem”, o título de Servidor Emérito, ao extinto prof. Francisco D’Aurea.

O decreto governamental alusivo à consignação dessa justa e merecida honraria, tem o número 30.828 e data de 7 último.

O falecido prof. Francisco D’Aurea, foi, sem dúvida, um grande precursor da contabilidade em nosso Estado e no Brasil. Enquanto a maioria daquêles que freqüentaram escolas de comércio, ao saírem dos estabelecimentos educacionais com o pergaminho debaixo do braço jamais procurou se preocupar com o prosseguimento da cultura da ciência contábil, o prof. D’Aurea foi um estudioso apaixonado, infatigável, voluntarioso em seus estudos e difusão.

Além da folha de serviços prestada ao próprio ensino no Brasil, dentro do setor de contabilidade e finanças, deixou o ilustre morto uma coletânea de livros didáticos admiráveis e úteis, muitos dos quais adotados oficialmente pelas variadas escolas de comércio de nosso país.

Exerceu com raro brilhantismo o honroso cargo de Contador Geral da República. Nêsse posto, procedeu total e radical racionalização do sistema contábil oficial, e, sua perspicácia foi de uma valia inestimável aos órgãos financeiros da Nação, seguidamente referida por autoridades do Govêrno.

Ocupou, em decorrência dêsses conhecimentos, cimentados através de longos e longos anos de prática contábil, com grande desenvoltura e sendo alvo de admiração e encômios, o cargo de Secretário da Fazendo de nosso Estado. Foi também Contador Geral do Estado, onde reprisou a mesma conduta e os mesmos exemplos demonstrados, quando da chefia do mais responsável e maior órgão técnico de contabilidade da União. Mais tarde ocupou também o cargo de Secretário das Finanças da Municipalidade bandeirante.

Foi o prof. Francisco D’Aurea, desde seus tempos de estudante da Escola de Comércio “Álvares Penteado”, onde se formou e onde mais tarde foi emérito e capacitado professor, um dos mais ferrenhos divulgadores e aperfeiçoadores do sistema de contabilidade por “partidas dobradas”. Tal processo é difundido hoje em dia, como o mais cabal, o mais completo e prático, para permitir à uma organização comercial ou industrial, os meios de saber-se, em qualquer época do ano, a verdadeira situação financeira e de solidez de uma firma. No passado, segundo nos conta a própria história da ciência contábil, era um verdadeiro “bicho de sete cabeças” tal método, divergente das “partidas mistas” ou “partidas simples”. Seu inventor foi um matemático italiano, de nome Lucca Pacciollo. Cremos, no Brasil, nenhuma autoridade contábil tenha se interessado e estudado tanto tal processo, quanto o prof. Francisco D’Aurea.

Demonstrou o sr. Jânio Quadros, ao conferir o título “post mortem” de Servidor Emérito ao prof. Francisco D’Aurea, uma forma de reconhecimento necessária. Efetivamente, poderíamos dizer, perdeu o Brasil um de seus eficientes contadores e um dos mais renomados mestres de contabilidade, isso sem citar-se o valor de sua contribuição à formação técnica de milhares e milhares de brasileiros, espalhados por todos os recantos da Pátria.

Extraído do Correio de Marília de 12 de fevereiro de 1958

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

150 anos de medicina no Brasil (11 de fevereiro de 1958)

O próximo dia 18, marcará em nosso país, a passagem de um e meio século da fundação do ensino médico no Brasil.

Tal processo de educação cientifica, para a formação de médicos brasileiros, foi instituído em 18 de fevereiro de 1808, na Bahia, pelo então Príncipe Regente, D. João VI.

Em comemoração à data, serão realizados na Capital da República, dois importantes congressos médicos e históricos. Tais reuniões, serão patrocinadas pelos Instituto Brasileiro da História da Medicina e pela Federação Nacional da História da Medicina. O primeiro congresso denominar-se-á “Pan-Americano da História de Medicina” e o outro, “III Congresso da História da Medicina”.

Todas as nações do novo mundo, através dos órgãos competentes da Comissão Organizadora do mencionado programa de realizações, foram convidadas para participar do primeiro conclave, esperando-se a presença das mais representativas autoridades médicas de diversas partes do continente. Historiadores médicos, representantes da ciência de Hipócrates e da cultura médica continental, ilustrarão com suas presenças dito acontecimento, estudando em conjunto os progressos de medicina em todo o mundo, desde seus primórdios até a éra dos “Sputniks” e “Vanguards”.

Conhecem-se já os temas das mencionadas reuniões, que estão subordinadas aos seguintes títulos e estudos: “A Medicina Pré-Colombiana” e a “História do Ensino Médico”, isso sem contar-se o número de temas livres, versando sobre a história geral da medicina em seus diversos ramos e aspectos, bem como, teses e trabalhos acêrca de Ciências e Filosofia e Sistemologia, Ética(,) Literatura, Jornalismo, Artes e Folclore Médico.

Diversas delegações médicas européias participarão desses conclaves, como convidados especiais, esperando-se contribuições inestimáveis das mesmas, sobre o temário em geral e os temas especiais em particular.

O local designado para a realização do aludido Congresso, será o auditório do Ministério da Educação e Cultura, no período de 12 a 20 de Abril próximo vindouro.

Pouca publicidade, entretanto, está sendo dada ao caso, que, a nosso ver, encerra assunto de importancia vital, uma vez que autoridades médicas discutirão assuntos de interesse diréto de todas a humanidade, ao par das comemorações justas que serão tributadas ao acontecimento tão relevante.

É mistér que todas as associações médicas se inteirem perfeitamente do assunto, procurando enviar seus mais destacados representantes ao conclave referido.

É necessário que as autoridades brasileiras, sob cujos ombros pesa a importancia primordial, como patrocinadores do acontecimento e como os felizes comemoradores do 150º aniversário de fundação dos cursos médicos no Brasil, consigam realizar o conclave com sucesso pleno.

No ensejo deste pequeno registro, permitimo-nos, daquí, enviar com antecipação, os nossos votos e desejos de que o mais completo êxito venha a demarcar a efetivação desse congresso, que, sem dúvida, ficará representado, nos anais da própria medicina do Brasil, mais um grande marco de realizações elogiáveis, a acrescer o já imenso rosário de medidas encomiosas, que constituem exemplos de frizante orgulho para a própria medicina nacional.

Extraído do Correio de Marília de 11 de fevereiro de 1958

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CTB: dois pesos e duas medidas (8 de fevereiro de 1958)

Nosso escrito de ante-ontem (dia 6/2/1958, ao qual os editores deste blogue não tiveram acesso, seja porque o exemplar em questão sumiu, foi queimado ou destruído por enchente ou alagamento) trouxe-nos inúmeras manifestações de apreço. Significa que o objetivo colimado, em alertar mais ainda os poderes públicos locais, foi atingido.

Realmente, somos contrários à aprovação da proposta da CTB aos marilienses. Sendo aversos ao proposto, não representa que seremos impecilho, porque a última palavra será dada pelos componentes da “mesa redonda” de terça feira vindoura, na Associação Comercial. Sob os costados de seus integrantes poderão pesar, tanto as consequências mediadoras que consultem os interesses gerais, como as responsabilidades de erros e seus resultados futuros. Nosso ponto de vista é pessoal, baseado na lógica dos próprios fatos. A Companhia Telefônica Brasileira jóga com dois baralhos – apresenta dois pêsos e duas medidas. Senão, vejamos:

No Rio, intenta medida análoga à pretendida em nossa cidade. Lá o custo de cada novo aparelho telefônico é de 30 mil cruzeiros (se não estamos equivocados). Tal importancia deve ser amortizada em prestações mensais. No entanto, no Rio, o dinheiro não será dado “de mão beijada” como a CTB pretende em Marília. Lá os 30 mil cruzeiros ficarão representados pela compra de ações da própria Cia., proporcionando participação nos lucros da sociedade, de conformidade com o preceito legal que regulariza e rege as leis de sociedades comerciais. Isso é uma coisa.

Em Marília, “a madeira” é outra: A CTB quer enfiar a mão no bolso dos marilienses. Os 22 mil cruzeiros pretendidos para cada novo pedido de ligação telefônica serão “dados”; nem emprestados, nem em pagamento de ações. Verdadeiro absurdo! Irretorquível abuso!

Em Araraquara, a CTB usou outro método: Para a mudança dos telefones magnétos pelos automáticos, firmou convênio com a municipalidade (já em vigor), nas seguintes bases: Os assinantes atuais, para efeito dessa mudança de aparelhos, pagam Cr$ 6.500,00 (em prestações mensais). Os novos pedidos custam Cr$ 12.000,00, tambem em prestações. Acontece que tais importâncias representam, de conformidade com dispositivo contratual firmado com a municipalidade araraquarense, a compra dos aparelhos e o direito de transferência e venda para terceiros. Notem bem: um assinante paga os 12 mil cruzeiros pelo telefone, se, por motivo de mudança ou outro, pretender desfazer-se do número, póde vende-lo a outra pessoa, sem nenhum impedimento da Cia. porque o telefone (aparelhos e direitos) passa a ser propriedade do assinante.

As bases do contrato da empresa com a Prefeitura de Araraquara, pensamos, são as que melhor consultam os interesses dos marilienses. À respeito, informamos que providenciamos, atrás de nosso confrade “O Imparcial”, u’a minuta do aludido contrato. Estamos aguardando tal documento e “torcendo” para que chegue às nossas mãos até a próxima terça-feira, época da efetivação da propalada “mesa redonda”.

Já analisamos devida e convenientemente a proposta da CTB, de todo imprópria e contrária aos interesses de nosso município, pela fórma abusiva que apresenta. Só depois de amealhar vinte e poucos mil contos de réis do público local, é que a emprêsa irá tomar as providências necessárias para os pedidos de licença de importação dos apetrechos, necessários ao aumento dos circuitos. Da época dos primeiros recolhimentos por parte dos interessados (se aprovada a dita proposta), até a completação da medida, não decorrerão menos de três anos. A Cia., sem oferecer nenhuma garantia, girará com o dinheiro dos marilienses, que não renderá juros, que não representará compra de ações e que não será devolvido! Em nossas cabeças, tal idéia não cabe.

Agora a CTB vai transformar em automáticos os telefones magnétos de Lins, aumentando, logicamente, o número dos aparelhos. Qual será a medida que a CTB utilizará contra o povo linense? Possivelmente lançará mão de uma outra força, uma vez que diferem frontalmente as exigências em diversas cidades. Isto é, a CTB procura “acertar” cada município de acôrdo com “a cara do freguês”. E, se a afirmativa acima tiver razão, não haverá negar a CTB está desconsiderando bastante o público mariliense. E suas autoridades constituidas.

A Companhia Telefônica Brasileira não têm, para com Marília e seu povo, nesse particular e nessas condições, pretensões de bem servir. Apresenta, antes de tudo, interesses comerciais próprios, desgrudando-se de sua primordial finalidade servível. Repetimos que jamais pretenderiamos a melhoria pleiteada, necessária ao público e óra proposta, em condições “de pai p’ra filho”. Tampouco seriamos demasiadamente ingênuos, para acreditar que uma firma monopolizadora de qualquer setor de atividade, pudesse mesmo traduzir em 100% os benefícios ao público em detrimento dos próprios interesses. Mas não é justo ainda, que êsse público, seja ainda mais sacrificado, colaborando paquidermicamente para o enriquecimento de uma firma, que, à guisa de servi-lo, acaba prejudicando-o abusivamente.

Aguardemos, portanto o desenvolver da mencionada assembléia de terça feira, para conhecermos a decisão.

Sinceramente gostariamos de estar equivocados nesse ponto de vista. Infelizmente não estamos. A CTB tem dois pesos e duas medidas. E, nesse “jogo”, a mesma está com o “séte-cópas” na mão. Vamos jogas com o “zápe”?

Extraído do Correio de Marília de 8 de fevereiro de 1958

domingo, 7 de fevereiro de 2010

“Muro de lamentações” (7 de fevereiro de 1958)

Positivamente, as nossas modestas crônicas nos colocam às vezes, em situações de manifestação diréta de desagrado por parte de algumas pessôas, ao passo que, outras ocasiões, fazem chegar até nossa redação, incontáveis referências elogiosas.

Felizmente, êste último número tem sido bem maior.

No início de nossa vida de rabiscadores da imprensa interiorana, sofremos muitos dissabores e pegamos “muito rabo de foguete”. Certas ocasiões, quase desistimos de chatear os leitores, paralizando nossos maçantes escritos. Depois, passados os momentos de raiva e entusiasmados por um jornalista linense (hoje falecido), prosseguimos na caminhada. Daquele tempo até hoje decorreram já cerca de três lustros (nota dos editores: “período de cinco anos; quinquênio”, segundo verbete publicado na página 800 do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras em 2008). Abrindo um parêntesis, gostamos de referir a “verve” de um cidadão local, que, outro dia, perguntado-nos quanto tempo militavamos em jornal e sabendo a resposta, exclamou: “puxa! e ainda você não aprendeu a escrever?”

As referências acima servem-nos à guisa de “preâmbulo”, para analise de um “bate papo” que mantivemos ainda ontem, com um ilustre e ilustrado professor local, num bar da cidade. Dizia-nos êsse mestre, sempre haver tido incontida simpatia e vocação jornalística, sem jamais ter-se lançado à experiências dêsse jaez. Estranhamos a afirmativa, porque o homem é detentos da principal condição que entendemos necessária para um bom jornalista – o curso de filosófica –, qualidade que nós, infelizmente, não possuimos.

Das variações naturais de conversas expontâneas, surgidas como surgem todos os colóquios casuais, passou o educador a enumerar diversos de nossos modestos escritos, elogiando-nos “de corpo presente”, e censurando-nos diversos erros de ortografia e gramática. Em absoluto não nos agastamos com a sinceridade dêsse professor e vimo-lo acordar conosco, quando dissemos que o escrever para um jornal é bastante mais dificil do que à primeira vista póssa parecer. Além do mais, um escrito certo, póde, ocasionalmente, apresentar um erro involuntário, sem culpa do autor. Isso acontece à miude.

De um outro assunto, analisou nosso amigo a função da imprensa, a sua representação e significado na defesa dos povos, especialmente dentro do regime democrático, terminando por proferir uma verdadeiro “defesa de tese” acêrca da liberdade de imprensa e liberalidade de imprensa. O homem demonstrou extraordinária facilidade de apreciação e deu sobejas provas de sua afirmativa, em ser admirador e ter vocação para jornalista.

De toda aquela agradável palestra em que o homem confessou não conhecer “in loco” e demoradamente nenhuma operação completa da feitura de um jornal – que nos surpreendeu, pela maneira fácil e suscinta com que referiu-se à imprensa – muito nos agradou as considerações da interpretação popular, em tése, acêrca do papel da imprensa livre.

Concordamos com a especificação do professor, de que a imprensa é um “muro de lamentações”. Já tivemos tempo suficiente, para nos convencermos dêsse pormenor. Quasi diariamente recebemos “sugestões” para escrever. Muitas dessas “sugestões” escapam completamente ao sentido réto da colaboração de carater geral, porque traduzem, antes de tudo, defesa de interesses p(e)ssoais. É claro que um órgão de imprensa é advogado legitimo do próprio povo. Mas nem por isso pode ser confundido como defensor de causas próprias de uma só pessoa, quando essa pessoa dispõe de outros meios para resolver uma situação. Por exemplo, não é justo que, unicamente porque um comerciante desagradou determinado cidadão, um órgão de imprensa, exclusivamente para ser agradável à uma solicitação, “lasque o pau” no comerciante que contraria um enquanto serve milhares. Isto é apenas uma comparação, porque, vez por outra recebemos “sugestões” das mais absurdas possíveis. Outro dia mesmo – parece incrível –, uma pessoa nos procurou, para que reclamassemos pelo jornal, que determinado cavalheiro briga com sua esposa todos os dias! Por aí podem os leitores perceber a variada e curiosa série de “sugestões” que chegam às redações de jornais.

Entretanto, quando a sugestão é verdadeiramente sugestão e o motivo apontado é de interesse público, acolhemos e agradecemos a lembrança, sendo o assunto imediatamente focalizado nas páginas dêste órgão. E, nêsse particular, todas as Folhas, especialmente as interioranas, contam com um número apreciável de colaboradores. São as pessoas que desempenham papel daquilo que poderiamos chamar de “paqueiros” da imprensa. Conhecendo um fato passivel de reclamação, “dão lógo o serviço”. Prestam, portanto, cooperação inestimável aos jornais.

Só que entre uma e outra qualidade de sugestões, exis(te) uma grande diferença.

Realmente, professor, o jornal é tido como um “muro de lamentações”. Erradamente. Ele é um advogado e defensor dos direitos do povo que serve.

Extraído do Correio de Marília de 7 de fevereiro de 1958