sábado, 31 de agosto de 2013

Recursos e médias (31 de agosto de 1976)


Piada, esta:

No quartel. O sargento vê uma cadeira à entrada da porta da Casa das Ordens, impedindo o livre trânsito. Olha enfezado para o primeiro soldado que alí passa em serviço e pergunta:

- Quem foi o animal que deixou essa cadeira alí na entrada?

E o soldado, perfilado, respondeu:

- Foi o coronel, sargento.

No mesmo instante ia passando um tenente e o sargento, berrando nos ouvidos do soldado:

- Três dias de xadrez, por ter chamado o coronel de animal.

--:--

Foi um recurso, uma saída, essa do sargento. Nada honesta, mas foi uma saída, porque ele ficou com a barra limpa perante o tenente, ficou com um falso defensor do coronel, à custa do pobre soldado, que teve que puxar três dias de xadrez.

Por um lado, o recurso. Por outro, a média.

É o que fazem muitos, por aí. Mesmo aquí em Marília.

O recurso, desde que não seja em prejuízo de outrem, é válido, denota presença de espírito, reflexo e inteligência.

O que não acontece com a média.

E tem gente mediando por aí, que é uma barbaridade!

Especialmente nesta época pré-eleitoral.

--:--

Contou esta o radialista mariliense Osmar Santos, quando da realização do curso de noções de jornalismo, que a Sociedade Amigos da Cultura promoveu recentemente:

Maracanã lotado. Seleção brasileira enfrentando um selecionado estrangeiro.

Jogo emocionante. Estádio cheio. O Brasil todo acompanhando pela televisão e pelo rádio.

Foi quando surgiu o primeiro gol do Brasil.

Edson Leite, transmitindo a peleja, anunciou o gol: “Riveeeliiinooo”… Mario Moraes fez aceno negativo com a cabeça e Edson Leite gritou em seguida: “Garrrriiincha”… novo aceno negativo de Mario Moraes, soprando no ouvido de Edson Leite o autor do tento e o Edson Leite foi em frente: “…para Zito completar o primeiro gol do Brasil… Ziiiito…”

Foi um recurso simplesmente notável. A vacilação de Edson Leite deu um empolgamento diferente ao gol brasileiro, sem que os ouvintes percebessem a dúvida do narrador, na citação do nome do jogador, no momento exato em que se consumava o tento.

--:--

A média já não é isso.

A média, di-lo bem o termo, hoje generalizado e facilmente interpretativo, embora seu significado não se conste em dicionário, representa o lado da sombra. O intento de estar de bem e agradando a gregos e troianos.

Pode ser a média seu sentido intrínseco de lealdade, mas nunca deixa de ter eivas de covardia ou acomodamento.

Em Marília tem gente que faz mais média do que as que se vendem nos cafés.

Isto é falta de personalidade, de firmeza.

--:--

Vimos isso por ocasião da balburdia originada em torno do movimento que acabou por decretar o fechamento dos supermercados aos domingos.

Coluna esta manteve posição única, indesviável e irreversível.

O que não aconteceu com pessoas outras, que fizeram médias sobre médias, ora de um lado, ora de outro, numa falta de personalidade e num esbanjamento de coerências.

Extraído do Correio de Marília de 31 de agosto de 1976

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A carta do Policarpo (28 de agosto de 1976)


Compadre, recebi hoje sua carta e fiquei satisfeito com as notícias de que todos por aí estão bem de saúde. Nós aquí vamos remando a vida, apesar de continuar sempre a bater no mesmo prego.

--:--

Estive refletindo sobre sua dissecação política e acabei concluindo que você tem muita razão.

Aquí em Marília acontece o mesmo fenomeno por você citado, com referência aos candidatos que põem as manguinhas de fora.

De fato, conforme disse você, o bisturi que a Revolução lancetou aquela enxurrada de partidos políticos, para permitir que apenas dois tivessem vida, não apresentou, sob certos aspectos, os resultados que seriam esperados.

O negócio ficou mesmo qual certos time de futebol varzeano: trocaram-se as camisas, mas os jogadores continuam os mesmos.

--:--

Você tem razão: os subversivos, os agitadores, os conturbadores da ordem, os comunistas, correram e filiaram-se no emedebê. O partido da oposição tem gente boa, é claro. Mas aqueles que eram contrários ao regime nacional, não estão na Arena, estão no mandabrasa.

--:--

Embora muitos corruptos tenham se agregado a Arena, pelo menos no setor de segurança patriótica, este partido apresenta arma diferente e mais coesa. Mesmo muita gente não entendendo ou não querendo compreender.

--:--

Eu não havia percebido a observação que você fez, com referência a “reviravolta” oposicionista. Você tem razão.

Mesmo aquí em Marília verifica-se identico fenomeno.

--:--

E é fato:

Antes da vitória do emedebê em 1974, não eram todos os que se animavam a vestir camisa da oposição e entrar em bloco e nas danças do partido. Muita gente estava quietinha, parecendo não querer coisa com coisa.

Depois da vitória da oposição ante a situação, principiaram a saltar lebres de todos os lados. Gente que não tinha a coragem de externar seus amores pela política contrária ao Governo, entendeu que era chegada a hora e passou a cantar e a dançar.

Estive pensando sobre isso, analisando mentalmente alguns nomes e fiquei até abismado. Tem gente que nunca falava nada e depois das eleições de 74, animou-se e saiu da moita.

Você precisa ver.

--:--

Mas por aquí, no terreno da política sucessória, tudo anda relativamente calmo. A previsão é de que o circo vai pegar fogo logo, logo.

O prefeito preconiza uma campanha política de elevada educação, mais isso vai se tornar impossível. Garanto. Já tem gente fazendo política e “largando o pau” no Pedrão. Você sabe que ele não fica quieto e porisso terá que modificar seus propósitos.

--:--

Marília está crescendo que é uma coisa louca.

Você vai estranhar quando vier aquí, no Natal.

A gente aqui estranha. É só ficar um mês sem rodar por determinados pontos e quando o faz fica admirada do progresso. O dinamismo mora mesmo aquí, compadre.

--:--

Vou botar um ponto final nesta missiva.

Recomendações à comadre, beijos nas crianças e um ponta-pé no cachorro.

Extraído do Correio de Marília de 28 de agosto de 1976

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Reminiscencias radiofônicas (27 de agosto de 1976)


Há muitos anos. Estádio do Pacaembú, lotado.

Campeonato paulista.

Jogo: Palmeiras e Santos.

--:--

Com Fiori Giglioti, Edson Leite e Enio Rodrigues, fui ao referido Estádio. Eles, para trabalhar. Eu, para assistir o cotejo.

--:--

Mario Moraes era a “vedette” da radiofonia paulistana, em termos de comentarista esportivo. Pedro Luiz era o “cobra” da narração de todo e qualquer tipo de modalidade desportiva. Ambos pertenciam à Rádio Panamericana de São Paulo, hoje Jovem Pan.

--:--

Edson Leite, o moço que havia iniciado-se em Bauru, era “o bom” da Rádio Bandeirantes. No interior, era o segundo em audiência  porque o primeiro era Pedro Luiz mesmo.

--:--

Wilson Brasil e Geraldo Tassinari davam as cartas na Nacional de São Paulo. A Tupi não participava com grande presença no futebol e a Difusora tinha Aurélio Campos e Geraldo Bretas como titulares.

--:--

Mario Moraes ficava sozinha, na frente das cabines de imprensa, destacando-se e diliciando-se com os olhares curiosos da grande torcida.

--:--

Começou o referido jogo.

Eu, caipira do interior, mas já vinculado à radiofonia esportiva, como comentarista da PRI-2, fiquei tudo observando, porque sempre tive a filosofia que o homem aprende cada vez mais, bastando que se interesse e leve as coisas a sério.

Por outro lado, sentia-me um tanto orgulhoso, em permanecer alí, ao lado de tantos profissionais importantes.

--:--

Oberdan, que era arqueiro do Palmeiras, era tido como o melhor goleiro da época, precedido por Cabeção, que pertencia ao Corinthians.

Naquela tarde, Oberdan não jogou e seu posto foi cedido a Fabio – que mais tarde defendeu o São Bento de Marília.

--:--

E o Aurélio Campos, naquela tarde, todas as vezes que o Santos atacava e que o goleiro palmeirense era obrigado a intervir, pronunciava o nome de Oberdan e não o de Fabio, que era quem jogava.

Mas o Aurélio Campos cismou de “pegar no pé” do jogador Del Vecchio.

Todas as vezes que Del Vecchio entrava na bola, o Aurélio “tirava um sarro” do jogador, dizendo, mais ou menos, assim:

- Bola para a esquerda, em direção a Del Vecchio, este vai perder, já perdeu… isso é nome de jogador, em Bretas? Parece nome de violão ou de xarope…

--:--

E era só a bola oferecer-se para Del Vecchio, que o Aurélio Campos aprontava tremenda gozação sobre o jogador, espezinhando o curioso nonme de origem italiana.

Mas, numa investida dos jogadores santistas, a defesa “estirou” uma bola para Del Vecchio, pelo setor direito. E o Del Vecchio acabou driblando toda a defesa palmeirense, para marcar um bonito gol, deixando Fabio de boca aberta.

--:--

Assim se apagou o grito uníssono de “gol” do jogo, houve uma explosão de risos na cabine de imprensa e que contagiou gente que estava próximo e também muitos que acompanhavam o cotejo através de rádios portáteis.

Foi quando Aurélio Campos, retornando ao microfone, após o comentário de Geraldo Bretas, do lance do gol e do destaque da “raça” do marcador, que Aurélio Campos fez todo mundo rir, quando disse infantilmente:

- Bonzinho esse Del Vecchio, né, Bretas?

Extraído do Correio de Marília de 27 de agosto de 1976

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Uma coisa puxa outra… (26 de agosto de 1976)


O assunto em pauta nestes últimos dias tem sido o trabalhar ou não trabalhar aos domingos.

Mas o fato é que ninguém trabalha, mesmo.

Vejamos:

O ano tem 365 dias. O dia tem 24 horas. A gente trabalha apenas 8 das 24 horas do dia. Portanto, 1/3 do dia de trabalho. Ora, 1/3 de 365 dias são 121 dias. Restam 244 dias para o trabalho. Menos dias santos e feriados, que são 29, ficam 215. De 215 dias, tiram-se 52 domingos, ficando 163 dias para o trabalho. Desses 163 dias diminuem-se 26, representados por faltas ou pequenas viagens, ficando 137. Menos 30 dias de férias, ficam apenas 107 dias para trabalhar. Menos Natal, Ano Novo, Semana Santa, carnaval, aniversário da cidade e outras datas, somam 32 faltas, restando 75 dias para o trabalho. Aos sábados trabalha-se apenas meio dia e como 48 sábados no ano representam 24 dias, ficam restando 49 dias. Desse número, a gente falta 48 por motivos de ficar nas filas do Inps, de matricular os filhos na escola, etc., restando apenas um dia para o trabalho. Mas nesse dia a gente não trabalha, porque é o Dia do Trabalho.

--:--

Quando o mariliense toma um ônibus do Expresso de Prata para ir a São Paulo, sabe, de antemão, que vai ser vítima de dois “assaltos”: um na ida e outro na volta.

Os pontos de parada dos referidos coletivos, na rodovia Castelo Branco, são representados por estabelecimentos comerciais que cobram os olhos da cara dos fregueses.

Sunab ou C.I.P. deveriam interessar-se pela economia popular e intervir alí em defesa do povo.

Ou então o deputado Franciscato trocar esses pontos.

--:--

Esta aquí é de Mark Twain, o implacável humorista:

Certa feita, tendo assistido uma missa, foi cumprimentado pelo sacerdote, que ficou satisfeito por ter visto o notável humorista assistindo o sacrificio religioso.

E Mark Twain, conversando com o padre, disse-lhe que ele tinha um livro, que continha o sermão proferido pelo vigário, da primeira a última palavra.

O sacerdote achou impossível e ficou agastado, por ter sido chamado de plagiário e pediu que Mark Twain o provasse, mostrando-lhe o livro.

No dia seguinte o humorista enviou ao sacerdote um dicionário.

--:--

Esta coluna não se presta ao que vai servir agora, o que se constitui exceção.

Uma leitora, através de atenciosa cartinha, solicitou-me a receita do prato “xinxin de galinha”.

Consegui-o e forneço-o a seguir, mesmo porque poderá ser utilizado também por outras donas de casa.

Ei-lo:

--:--

Meia xicara de óleo comestível (amendoim ou outro), meio quilo de tomates sem sementes e picados, 250 gramas de cebolas picadas, meia xicara de azeite de dendê, uma colher de sopa de camarão seco moido, uma colher de sopa de amendoim torrado moido, uma colher de castanha de cajú moida, uma galinha de dois quilos, cozida e desfiada, um quilo de camarões médios cozidos, pimenta e sal a gosto. Uma xicara de chá de leite de côco.

Passe o tomate e a cebola no liquidificador. Coloque o óleo comestível numa panela, deixando ficar bem quente. Junte o tomate e a cebola e deixe dourar. Acrescente o leite de côco e os outros ingredientes, mexendo bem. A seguir misture o camarão e a galinha desfiada e espere engrossar um pouco. O xinxin deve ser servido bem quente, acompanhado de farofa feita de farinha de milho com azeite de dendê, azeitonas pretas e ovos cozidos.

Extraído do Correio de Marília de 26 de agosto de 1976

domingo, 25 de agosto de 2013

A carta do Policarpo (25 de agosto de 1976)


Pois é assim, compadre.

Aquí é um contrasenso gritante. De um lado, a cidade desenvolvendo-se, graças à sua ciclópica administração municipal; de outro, fazendo como o caranguejo  andando para traz.

--:--

Época de eleição é um inferno, fazendo a personalidade e as ações de muitos homens, mudarem qual birutas de aeroporto.

E acabou acontecendo mesmo aquilo que eu falei na minha última carta: vários ramos comerciais, especialmente os supermercados, estão agora fechando aos domingos.

--:--

O assunto foi muito comentado. Domingo passado, não houve quem não fizesse um “comentário” sobre a Câmara e a Associação Comercial.

Disse-me o compadre Fidencio que ele e mais outros estão tratando de arregimentar aqueles marilienses que trabalham contra a construção do Viaduto da Rua 9 de Julho e formar um grupo para reforçar os que lutaram pelo fechamento do comércio.

Esse grupo vai deliberar outros fechamentos, pois assim a medida ficará generalizada e ninguém poderá abrir a boca.

Por exemplo:

--:--

Açougues passariam a fechar aos domingos, pois açougues vendem carne e carne é genero alimenticio.

Padarias também ficariam fechadas, pois parariam vendem pão e pão é genero alimentício.

Bares também fechariam, pois bares vendem sanduiches e petisqueiras e isso também é genero alimentício.

As quitandas permaneceriam fechadas, porque quitanda vende frutas e legumes e frutas e legumes sai generos alimentícios.

Até as farmácias deveriam ficar fechadas aos domingos, porque farmácia vende leite e leite em pó é genero alimentício.

--:--

Esse grupo estaria fazendo força e quebrando lanças para que só abrissem aos domingos postos de gasolina e borracharias, que não vendem generos alimentícios.

Por outro lado, iriam dar um jeito de votar uma lei proibindo que alguém morresse nos sábados, porque aos domingos os cemitérios deveriam ficar fechados.

Também seria proibido nascer gente nos domingos e as maternidades deveriam ficar fechadas.

--:--

Os marginais deveriam descansar aos domingos, porque a polícia também deveria descansar.

Ônibus e trens também parariam aos domingos para descanso.

Os taxis também.

--:--

Aos domingos ninguém poderia ficar doente, porque os médicos estariam descansando e os hospitais fechados.

Também não haveria sessões cinematográficas, porque os operadores e empregados dos cinemas deveriam descansar.

As emissoras de rádio e televisão não transmitiriam nada, porque seria dia de descanso aos domingos.

Neca de futebol, pois os jogadores também teriam que descansar nos dias de domingos.

Iria ser uma maravilha.

Marília, que já deu tantos exemplos de dinamismo e amor à terra, estaria sendo a “primus inter pares” numa dinamica diferente e ousada, que nenhuma mente sobre a terra, nem mesmo Einstein, teria conseguido “botas”.

Bem, compadre, o papel está chegando ao fim e porisso termino aqui, para voltar novamente daqui há alguns dias.

Recomendações à comadre e às crianças.

Extraído do Correio de Marília de 25 de agosto de 1976

sábado, 24 de agosto de 2013

Presente de grego (24 de agosto de 1976)


Em quase todos os Estados norte-americanos o comércio fecha suas atividades às 22 horas.

Em São Paulo existem supermercados que funcionam vinte e quatro horas, todos os dias. Isto é, não fecham durante a noite.

Outros estabelecimentos comerciais paulistanos permanecem abertos até às 23 ou 24 horas, inclusive nos dias de domingos.

--:--

Determinados ramos comerciais precisam funcionar todos os dias. O povo necessita de facilidades e de conforto, além de ser merecedor de bons serviços prestados.

É contigencia do próprio progresso e do desenvolvimento da éra.

Porisso, se não pode conceber que uma cidade como Marília, séde de uma região administrativa do Estado líder da Federação, venha a apresentar autêntico retrocesso em sua própria vida, com o fechamento de determinados estabelecimentos comerciais nos dias de domingo.

É incrível.

--:--

Para alguns comerciários, o fechamento de determinados ramos aos domingos nada mais vai representar do que um autentico presente de grego.

Senão, vejamos:

--:--

Os que estudam em cursos noturnos, com sacrifício ingente e em continuidade a uma jornada de trabalho normal, não podem sair do trabalho às 19 horas, para entrar na aula nesse mesmo horário.

A jornada de trabalho, todos sabem, é de oito horas.

O comerciário, entrando em serviço às 7 horas e trabalhando até as dezenove, perfaz um total de doze horas. Nem todas as firmas concedem duas horas para o almoço. Concedendo duas horas para o almoço, restam 10, o que vale dizer, duas horas terão que ser pagas em caráter extraordinário e a que passar das 18 horas, deve ter o acréscimo de 25%, por enquadrar-se em horário nortuno.

As firmas que só concedem hora e meia de almoço deverão pagar duas horas e meia de serviços extraordinários aos seus empregados.

--:--

O fechamento de determinados ramos de comércio aos domingos verá prejudicar muitos comerciários.

Consta que alguns supermercados irão dispensar vários empregados porque, não havendo o movimento bruto aos domingos, alguns podem ser dispensáveis.

Observem que já existem listas de dispensa elaboradas em alguns estabelecimentos. Isto vale dizer que a lei referida, de certa forma, veio colaborar para o desemprego.

Por outro lado, representa uma “ursada” para alguns comerciários, que ganharão o “bilhete azul”.

Comentava uma mocinha, empregada de um supermercado, que a medida lhe foi prejudicial. Explicou:

- Eu trabalho aos domingos, muitas vezes até por volta de uma hora da tarde. Em compensação, tinha uma folga por semana. Nessa folga, eu aproveitava para ir ao dentista, ou para pagar ou comprar alguma coisa de minha necessidade, ou mesmo para uma consulta médica, ou para uma visita, ou para colocar em dia tarefas escolares atrazadas. Agora não vai ser possível, porque aos domingos não vou poder comprar nada, nem pagar contas, nem ir ao dentista…

--:--

Prefeito já esclareceu que a municipalidade não terá meios de fiscalizar o comércio clandestino, isto é, a venda de generos pelas portas dos fundos.

--:--

Quem não comprou pão no Pastorinho, como costumava fazer aos domingos, foi recorrer à Orly, que é central e o que viu foi um “formigueiro” de gente e muitas pessoas “metendo o pau” na lei que determinou o fechamento dos supermercados aos domingos.

--:--

Gente outra, dizendo que vai deixar de prestigiar os supermercados marilienses, em sinal de protesto pela medida.

Gente ainda, afirmando que não votará em nenhum dos atuais vereadores, em virtude da lei que determinou o fechamento dos supermercados aos domingos.

--:--

Conselho aos açougues e casas de carne:

Ampliem, no ramo respectivo, a venda de frios – linguiças, queijos, mortadelas, presuntos, azeitonas, etc. – para que o povo mariliense continue a ser servido, mesmo a despeito de uma lei que desgostou a maioria absoluta da população local.

--:--

As donas de casa de Marília “agradecem” esse deserviço.

Os chefes de família também.

Mas, segundo algumas donas de casa, ainda resta uma esperança: em fevereiro, com outro prefeito e com outra Câmara, a lei deverá ser revogada.

Taí.

Extraído do Correio de Marília de 24 de agosto de 1976

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

E agora, José? Quid prodest? (21 de agosto de 1976)


Quid prodest? – é uma locução latina que significa o mesmo do que “de que serve?” ou ainda “que adianta?”

--:--

A partir de amanhã o comércio de Marília estará morto. A cidade amanhacerá triste, com um ar de abandono, sem aquela graça e aquela vibração que sempre Marília teve, desde que aquí aportaram os primeiros pioneiros de teu progresso.

Bento de Abreu iria ficar triste e aborrecido, com a cidade que ele tanto amou e que, nesta fase em que o Brasil vai para a frente, Marília, por vontade própria, vai para traz.

--:--

Não se pode fazer prevalecer interesses de uma só parte. Não somos contra a honrada classe comerciária, mas não podemos compreender que se preocupe somente com esta, sem considerar a outra, que é a classe consumidora. E esta foi grandemente prejudicada.

As donas de casa estão prejudicadas. Os homens da lavoura estão prejudicados. Eles não compram em supermercados, mas compram em “Varejões”, no próprio Mercado, em armazéns de bairros de saldos e entradas da cidade.

--:--

Nós podemos falar sem que o ponto de vista signifique posição contra os comerciários. O que somos é contra a medida, emanada de lei específica, que só analisou um lado, que pretendeu, através de alguns legisladores, ser favorável a uma classe, sem ter se detido em resultados e consequências.

--:--

Particularmente, eu, encontro-me à cavaleiro para dissecar o assunto.

Foi (a minha) a primeira voz, em Marília, que se levantou para clamar pela necessidade de dotação de supermercados em nosso comércio.

Sou comerciário, também, como empregado assalariado, regisdo pela Consolidação das Leis Trabalhistas, além de subordinado à Lei de Imprensa.

Sou consumidor e me senti prejudicado ou contrariado em meus interesses e conveniências.

Fui diretor da Associação Comercial de Marília.

--:--

Pede-se que se prestigie nosso comércio e fecha-se esse comércio.

Este jornal ombreou-se na campanha da ACM, criando o “slogan”: “Ponha o comércio de Marília no seu coração”.

--:--

Pela divulgação da ACM permanecerão fechados aos domingos “os estabelecimentos comerciais de generos alimentícios, mercearias e supermercados”.

Mercado Municipal vende genertos alimentícios. Deverá estar fechado.

Quitandas vendem generos alimentícios.

Deverão fechar.

Açougueiros vendem generos alimentícios.

Restaurantes vendem alimentos e alimentos são generos alimentícios.

Bares vendem generos alimentícios também.

Devem fechar.

--:--

Mesmo funcionando o Mercado, os bares, os açougues e os restarantes, estes não substituirão jamais os serviços inestimáveis que os supermercados Pastorinhom, Superbom, São João, Brasil, Pereira, Okamoto, Koga, etc., prestaram até aquí à população mariliense.

--:--

As donas de casa estão aborrecidas com a medida.

Povos de cidades vizinhas estão admirados com esse regresso do progresso mariliense.

O comércio clandestino está estimulado, pois quem precisa de uma simples lata de extrato de tomate, ou um pacote de macarrão, ou mesmo um pedaço de sabão – todo mundo pode precisar disso num domingo, inclusive um dirigente de associação comercial ou até um gerente de supermercado – tem que procurar. E vai ao empório mais próximo, comprar mesmo pela porta da cozinha.

Isso redundará em atividades para a fiscalização e aplicação de multas contra os comerciantes.

--:--

Eu estou preparado para que não falte nada em minha casa amanhã. Mas poderá acontecer um imprevisto, poderá ter acontecido um engano, ou mesmo um esquecimento, ou uma falha qualquer.

E eu irei até o fundo de um empório conhecido pedir que me vendam o produto que careço.

E farei isso com bastante aborrecimento, porque o vibrante comércio mariliense está morto.

Extraído do Correio de Marília de 21 de agosto de 1976

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Se é para esculhambar… (20 de agosto de 1976)


Em fins de 1945, advoguei através deste jornal o despertar de interesses de nossas autoridades com objetivo de sensibilizar os altos dirigentes da Lojas Americanas, a-fim de que nosso comércio fosse dotado de uma das filiais da referida empresa.

Não fiquei sabendo se alguém se interessou e nem se os diretores da citada firma tiveram ou não conhecimento do teor de meus escritos.

--:--

Muitos anos mais tarde voltei minhas vistas para o problema de supermercados, clamando o primeiro desses estabelecimentos para Marília.

Muitos comerciantes não gostaram na ocasião.

--:--

O mariliense Julio Giaxa principiava a reformar o prédio onde hoje se localiza o Bar Yara, na Rua 9 de Julho. Entusiasmei-o a abrir ali um supermercado. Propus-me a levá-lo a Sorocaba para que ele conhecesse o Supermercado Ven-Ká, situado em bairro distante do centro.

--:--

Mais tarde, ainda sugeri a formação de um capital social, citando mesmo nomes como Montolar, Novaes e outros, com o fim de adquirir o prédio onde hoje está instalada a Padaria Xereta, para ali montar um grande supermercado mariliense.

--:--

O sistema de supermercado, por analogia, foi iniciado pelo Saps.

E começaram a surgir os supermercados marilienses. E hoje nosso comércio é vibrante e movimentado, com os supermercados marcando ponto alto e dinamico.

--:--

Fico a cavaleiro da situação para falar sobre supermercados, pois ignoro que exista uma voz, antes da minha, para reivindicar os mesmos quando tais estabelecimentos não existiam em Marília.

--:--

E os supermercados vão fechar aos domingos em Marília.

Eu manifestei-me e tomei posição contra a medida, embora tal atitude não represente nada contra a honrada classe dos comerciários.

Marília vai tornar-se uma cidade morta aos domingos. Cidade de vida, sem beleza, sem movimento, sem alegria, dificultando as próprias famílias marilienses.

Supermercados em Marília representam, em proporções, algo equivalente a um ponto turístico.

Os próprios gerentes e supermercados sabem disso e tal sentem, quando marilienses autenticos, lhes apresentam amigos ou parentes de fora, que aquí aportam a passeio.

--:--

A Lei prevê, fixa e garante o descanso semanal remunerado. Então, esse, o descanso, não seria o problema.

O referir-se a classes outras, que não trabalham aos domingos, parece não proceder muito bem, pois existem muitas classes que trabalham diuturnamente.

Hospitais, médicos, bombeiros, policiais, trens, ônibus, maternidades, fábricas, emissoras de rádio e televisão, bares, restaurantes e tantas outras classes trabalham todos os dias, porque servem a coletividade.

--:--

Os supermercados vão fechar aos domingos.

Sabe-se que as padarias, louvadas nessa lei, também vão pleitear o fechamento aos domingos.

Que procurem fomentar desde já esse ideal, porque, sendo época pré-eleitoral, o assunto se tornará mais fácil.

E que façam o mesmo os açougues e os postos de gasolina, porque, assim, se poderá parodiar aquele vereador que, ao apresentar projeto de colocação de um retrato na Câmara, declarou textualmente ao funcionário legislativo:

- Se é para esculhambar, vamos esculhambar…

Extraído do Correio de Marília de 20 de agosto de 1976

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Manias e “hobbies” (19 de agosto de 1976)


Todo mundo tem manias.

Há quem não se aperceba disso, mas todo mundo tem uma maniazinha qualquer.

Hoje, decidiram chamar muita mania de “hobby”.

Isso já é uma mania: a mania da imitação.

--:--

Numa cidade aquí perto existe um comerciante conceituado e respeitável. Ele tem seu “hobby”. “Hobby” ou mania. De certa forma, esquisito.

O “fraco” desse homem é lavar defuntos. Morra quem morrer, é só chamá-lo e ele atende solícito e de certa forma satisfeito.

É isso aí.

--:--

Era uma vez…

Um nordestino, moreno alto, que gostava de andar bem “aprumadinho” e que tinha mania de usar palheta na cabeça e terno branco no corpo.

Sua mania éra inteligente.

- Lá nas Alagoas, estudei dois anos com o professor Thiago e no Recife estudei três anos com o professor Soveral – dizia com enfase e indisfarçável orgulho.

Se a gente falava alguma coisa, ele interferia na conversa para tentar destacar-se pela sabedoria de todo e qualquer assunto. E indiretamente “dar” aula e banho de civilização em todos.

E sucede que conseguia, pois já havia criado uma espécie de mito de sua infalível inteligencia e inatingível cultura.

Era o João Baiano. Assim o chamavam, mas seu nome era Antonio João da Silva. E não éra baiano.

--:--

A mania de João Baiano éra “esbanjar” inteligencia e conhecimentos, impondo-se e sobressaindo-se aos demais.

Mas o nordestino tinha também um “hobby”. Gostava de discurssar.

Era só acontecer qualquer reunião onde estivesse meia dúzia de pessoas e o homem aproveitava a chance e “lascava” logo um discurso.

Havia um casamento, o João Baiano discursava. Morria uma pessoa, discursava também. Uma festa, um baile, ele achava um jeitinho de mostrar suas qualidades de orador.

--:--

Um grupo de pessoas cismou de fazer uma reunião para formar um time de futebol. Futebol de sítio.

O João Baiano ficou sabendo.

E, mesmo sem ser convidado, chegou ao local antes dos demais.

--:--

Os homens se reuniram e conversaram sobre o assunto.

E ficou acertado que cada qual compraria suas próprias chuteiras e que se faria um baile com ingressos pagos, para a compra da bola e do jogo de camisas.

Assim que isso ficou decidido, o João Baiano “pisou no pedaço”, pigarreando para chamar as atenções e iniciou um discurso:

- Assim como Cristóvo Colombo fundô a América, nóis, na data di hoji fundámu esta sociedade…

- Pára, pião – foi o que se ouviu de um gaiato entre os presentes.

E o orador, sem olhar fixamente para alguém, continuou.

- Pião, não; porém, altista… porque altista é Cuma a locomotiva, que percorre os horizonte da vida…

- Quieto, nego – disse novamente o gaiato.

E o João orador prosseguiu:

- Nêgo, também não… isso da ipidérmia da cor não inflói e nem contribói…

E quando o pessoal já começava a mover-se impaciente, o gaiato “atacou de rijo”:

- Cala a boca, burro.

Foi a conta. João Baiano olhou feio para todos e desabafou:

- É anssim mesmo… o brasilêro ainda num istá acostumado cum a inteligença dus hómi… i é purisso qui ásta m… num progréde…

E afastou-se enfezado.

--:--

São manias. Manias e “hobbies” que existem em toda a parte.

Em Marília, por exemplo, tem gente sem as devidas condições com mania de ser vereador…

Extraído do Correio de Marília de 19 de agosto de 1976

domingo, 18 de agosto de 2013

O uso do que é certo (18 de agosto de 1976)


Dia destes escrevi algo a respeito do vício ou mania imitativa com respeito a camisas, emblemas, dísticos e frases em tais vestimentas.

De fato, hoje em dia é comum a ver-se gente utilizando camisas e blusas com dísticos e até frases na língua inglesa, ou mesmo distintivos referentes a graduações de Forças Armadas Norte-Americano.

Uma avacalhação completa.

--:--

Há duas décadas passadas tal “fenomeno” não existia. Mesmo camisas referentes a estabelecimentos de ensino só eram ocupadas por alunos ou ex-alunos de tais estabelecimentos.

A gente costumava “dar crédito” a legendas de escolas e de clubes, pois o assunto e o uso representavam seriedade. Hoje, não.

--:--

Tenho viajado um bocado por estes Brasís e por alguns lugares do mundo. Sempre trouxe comigo, de outras plagas e de outras partes, camisas ou blusas de fóra, porém autenticas.

Hoje a gente não conhece as autenticas, tantas são as falsas.

Formou-se um comércio, que, encarando-se pelo lado da sinceridade de quem utiliza tais objetos, percebe-se uma ostentação que poderá até merecer apatia, senão antipatia.

--:--

Sou reservista do Exército, com a graduação de 2º. Sargento e no aguardo de carta patente de oficial R/2.

Tenho latente em mim uma grande dose de espírito militar.

E quiçá por isso não tenho visto com bons olhos muitos de nossos jovens utilizando peças de uniformes militares ou blusas de cor verde-oliva, confeccionadas em imitação das gondolas do Exército.

Acho até desrespeitoso tal proceder.

--:--

Em verdade, o uso do uniforme ou peças do mesmo, como complemento ou “enxerto” ao traje civil é proibido, sendo possível de apreensão ou até de prisão, conforme o caso, revelando falta de zelo ou de respeito para com o uniforme do Exército.

--:--

A Lei nº. 5774/71 – Estatuto dos Militares – diz em seu artigo 82:

“Os uniformes das Forças Armadas, com seus distintivos, insignia e emblemas são privativas dos militares e representam o símbolo da autoridade militar, com as prerrogativas que lhes são inerentes”.

--:--

Do mesmo artigo lê-se no parágrafo único:

“Constituem crimes previstos na legislação específica o desrespeito aos uniformes, distintivos, insignias e emblemas militares, bem como seu uso por quem a eles não teve direito”.

--:--

E, da mesma lei, o artigo 85 reza:

“É vedado às Forças Armadas e qualquer elemento civil ou organizações civis, usar uniformes ou ostentar distintivos, insignias ou emblemas que possam ser confundidos com os adotados nas Forças Armadas”.

--:--

Seria bom se assim também pudesse ocorrer com respeito às blusas e camisas com legendas, letreiros e dísticos, usados de maneira falsa e meramente imitativa.

Extraído do Correio de Marília de 18 de agosto de 1976

sábado, 17 de agosto de 2013

Uma conceituação política (17 de agosto de 1976)


Aqueles que se acostumaram a acompanhar os conteúdos desta coluna devem ter observado que, todas as vezes que tecemos comentários sobre política, fazemo-lo com a mais absoluta independência, inclusive citando fatos e nomes.

--:--

Em tempo hábil, mesmo quando Felipe não confessava e nem admitia que o nome de Tatá seria o da sua mais inteira preferência, esta coluna antecipou-se, para firmar, que, mesmo não confessando-o, Felipe “morria de amores políticos” pelo ex-prefeito Barretto Prado. E que, pela sua vontade, Tatá seria seu candidato.

Alguns nos refutaram, mas nós sabíamos muito bem o terreno que estavámos pisando.

--:--

Quando Ruy Garrido opoz-se à indicação de Tatá, como eventual participante da chapa de Felipe, como candidato a vice-prefeito, também coluna esta manifestou-se, para reafirmar que se de Felipe dependesse, só Tatá viria a ser seu companheiro de chapa.

Nós sabíamos o porque desta afirmativa.

--:--

E Tatá acabou sendo mesmo o elemento indicado e se não fôra o golpe do próprio destino, ceifando-lhe a vida de maneira inesperada e abrupta, hoje deveria estar em luta aberta na presente campanha eleitoral.

O desaparecimento do ex-prefeito, a par da constrição geral, acabou por criar uma lacuna de cunho político na Arena-1 e particularmente para o seu candidato oficial, Felipe Elias Miguel.

--:--

Após o impacto desse infausto acontecimento, cogitou-se e iniciou-se o movimento, no sentido da substituição do nome de Tatá, o que teria mesmo que ser feito.

Alguém lembrou o nome de outro ex-alcaide, o Engº. Armando Biava e mesmo tendo este, quando prefeito, bambeado-se para o Governo Adhemar de Barros, nós não acreditamos na aquiescência de Biava, ombreando-se com Felipe.

--:--

Marchas e contra-marchas foram estabelecidas. Sondagens, conchavos, idéias e citou-se o nome do Engº. Domingos Alcalde.

Ainda desta vez, coluna esta não deu crédito ao propalado, preconcebendo de que o Mingo não sairia junto com Felipe.

--:--

Poderia sair o Quico, mas o Mingo, não.

Sexta-feira passada, em “Conceito que outros não fazem” desta coluna, ficou delineada a consubstanciação do porque de tais entenderes.

Existe um fenomeno aparentemente inexplicável, mas que tem sua conceituação sólida, embora para alguns tal não se configure como lógica.

E por razão essa dissemos naquela ocasião – quando tudo fazia entender para muitos que Domingos Alcaide seria o vice de Felipe – que se o vice de Felipe fosse elemento que não tivesse alguma ligação direta ou indireta com o ex-pessepismo, isso representaria a maior “zebra” política de Marília.

Dissemo-lo e aí está o fato.

E confirmamo-lo.

Se o vice de Felipe não for elemento ligado ao ex-adhemarismo, será zebra.

--:--

A menos que, para contrariar tais pontos de vista, um outro elemento que não tenha tido vinculos com a referida política pretérita, venha a ser aceito.

Mesmo assim nosso ponto de vista será o mesmo, pois tal fato viria a traduzir-se numa “zebra” previamente preparada.

Macacos nos mordam.

Extraído do Correio de Marília de 17 de agosto de 1976

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Ah! Eu não sabia… (14 de agosto de 1976)


Numa cidadezinha não mui distante de Marília, testemunhei este fato, por volta de 1940.

Na entrada do lugarejo, dois pedaços de vigotas sustentavam táboas rústicas, à quisa de um painel ou taboleta. Nesta, escrita à pixe e numa péssima caligrafia, onde letras de forma se mesclavam com caracteres manuais, um aviso.

Redigido, mais ou menos, nos seguintes termos:

“É prohibido andar armado por ordem do Inspetor de Quarteirão aquele que quizer andar armado que deiche a arma em casa e depois não vai dizer ah eu não sabia”.

--:--

Subentendi, na ocasião, que o tal de Inspetor de Quarteirão, avisava que o porte de arma estava proibido e que a não observância implicaria na apreensão da arma. E que o “ah eu não sabia” representava para que ninguém alegue ignorância.

--:--

E essa lembrança vem desenterrar uma outra, de fato completamente diferente e sem qualquer correlação com o assunto acitado acima.

Até a década de 1940 os paulistanos sofriam mais do que “égua de arado”, com os seccionamentos do trânsito, que se verificavam na Avenida Rangel Pestana, próximo à Estação do Norte (hoje Presidente Roosevelt), quando das manobras e passagens de trens da Central, por aquele trecho.

--:--

Formavam-se filas intermináveis de veículos.

Gritava-se, blasfemava-se, xingava-se Deus e todo mundo, com as interrupções do trânsito pelas chamadas então “Porteiras do Braz”.

Era um inferno.

--:--

Aqueles que conheceram, nessa época, as famigeradas “Porteiras do Braz” e que conhecem hoje as “bicheiras” da Rua 9 de Julho, perceberão, guardadas as divedas proporções, que os dois angustiantes problemas são de identicas medidas e dos mesmos quilates.

Dia outro, já citei aquí, de que o truncamento do trânsito na cidade, especialmente nas ruas 9 de Julho e Paraná, irá constituir-se em subsídios para a crônica policial de nossa imprensa.

Algum dia essas manobras irão impedir o tráfego de viaturas do Corpo de Bombeiros, quando estes estiverem se locomovendo para salvar vidas ou extinguir sinistros. Ou alguém vai acabar morrendo no interior de carros ou ambulâncias, sem chegar ao hospital pretendido. Ou algum novo mariliense vai acabar nascendo no interior de veículos ou de taxis, por não dar tempo de chegar ao destino, em virtude das demoradas manobras da Fepasa e o consequente fechamento das famigeradas cancelas.

--:--

Isto estaria conjurado hoje, não fôra o deserviço prestado à própria cidade, por meia dúzia de marilienses. Meia dúzia essa que “meteu a Câmara Municipal no bolso”.

E que, com isso, impediu que um consórcio Estado-Município, construísse um viaduto na Rua 9 de Julho.

E além de ocasionar prejuízos ao dinamismo da cidade, ainda desprestigiou o Governador de então, Sr. Laudo Natel, e o prefeito da ocasião, o recém-falecido Octávio Barretto Prado.

E disso resultou a amargura e o desespero desses impedimentos da normalidade do trânsito nesses citados locais, em virtude das “bicheiras”.

--:--

Por certo, os que trabalharam contra esse fator do nosso progresso, deverão imitar as prováveis transgressões do “aviso” do Inspetor de Quarteirão inicialmente referido e pensar agora: “Ah eu não sabia”…

Extraído do Correio de Marília de 14 de agosto de 1976

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Um conceito que outros não fazem (13 de agosto de 1976)


O passamento inesperado e abrupto do ex-prefeito Octávio Barretto Prado acabou por gerar nas hostes da Arena-2 local um flagrante e grave impasse político.

Impasse político de ordem doméstica, mas que tem seus efeitos irradiados ante boa porcentagem da opinião eleitoral.

--:--

Como sabem todos, Tatá deveria participar do próximo pleito, juntamente com Felipe Elias Miguel. Este como candidato a Prefeito e Octávio Barretto Prado pretendente a vice.

--:--

A presença de Tatá nessa empreitada marcous por circunstâncias poli-laterais, quanto à aprovação e homologação de seu nome.

Apenas uma pessoa teve a suficiente coragem de emitir seu ponto de vista, manifestando-se contrário ao aproveitamento de Tatá ao lado de Felipe.

Nem o próprio Felipe conseguiu fazer perdurar, nesse terreno, uma firmeza de decisão.

É que Felipe preferia Tatá, mas não o confessava publicamente, chegando a afirmar, repetidas vezes que seus companheiros do “staff” arenista é quem deveriam decidir sobre a indicação de seu parceiro de luta.

Por outro lado, dentro da própria facção partidária sabia-se da existência de pensamentos aversos à inclusão de Tatá como vice de Felipe, mas publicamente tais entenderes não transpiravam além de um pequeno círculo interno.

--:--

Felipe transava diariamente com Tatá, mas não admitia pública e oficialmente que se desejo era ter o ex-prefeito como seu companheiro.

O gerente do Expresso de Prata tentava disfarçar esse seu desejo, mas, para os observadores políticos, ele existia, palpável.

Esta coluna mesmo referiu-se ao fato de vezes muitas, com Felipe mantendo-se mais fechado do que um tatu-bóla.

E só na convenção é que Felipe arriscou fazer como o para-quedas, abrindo-se.

E a convenção aprovou o nome de Tatá.

Para os observadores de nossa política nada de novo existiu sob o sol.

--:--

O imprevisto, surgido do falecimento do Sr. Octávio Barretto Prado.

Imprevisto, mesmo, pois além da infaustosidade do acontecimento, criou essa lacuna na dependência da Arena-2.

Lacuna difícil de suprir.

Não por falta de bons valores dentro das próprias hostes da ala “verde-amarela”.

Porque, isso sim, embora neguem-no batendo os pés, somente elementos ex-pessepista, deverá ser incumbido de substituir Tatá nessa campanha, ao lado de Felipe.

--:--

Esta afirmativa por certo tentará ser desmentida.

Tentará, tão apenas, porque, todo mundo sabe o quão sólido é o “companheirismo pessepista”.

Se Felipe escolher ou aceitar junto a sí um nome outro, que não tenha tido simpatias ou quaisquer vínculos do ex-adhemarismo político, podem acreditar que isso será uma autêntica “zebra” de Marília.

Macacos me mordam.

Extraído do Correio de Marília de 13 de agosto de 1976

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Baixo índice de politização (12 de agosto de 1976)


Aconteceu aqui em Marília.

Certa ocasião, determinado presidente de nossa Câmara Municipal, dileberou a adocação de uma medida que não conseguiu alcançar, de súbito, a interpretação devida e a profundidade necessária de sua real profundidade.

A referida deliberação disse respeito à proibição pura e simples de que os funcionários da Câmara redigissem requerimentos, indicações ou outras proposituras de interesses ou em nomes dos edis.

--:--

De início, o pensamento baseou-se no intento de desafogamento das atribuições de servidores da Casa, que, por muitas vezes, tinhan que intererromper suas obrigações burocráticas normais para “fazer” requerimentos ou indicações de última hora.

Pode ter sido esse o colimado do presidente de então.

Mas, por outro lado, serviu qual um termometro para medir a capacidade redacional e inteligência de alguns edis e acabou por provar que era bem diminuto o número dos vereadores realmente capazes de redigir um simples requerimento, pedido de informação ou uma mera indicação.

--:--

Vereadores, alguns, chegaram a recorrer a particulares para fazer-lhes requerimentos ou proposituras outras.

--:--

Esse fato provou que no campo da participação de todos nos terreno da legislatura ainda existe muita coisa a fazer, muita gente a aprender e a politizar.

--:--

Mesmo numa cidade do interior deveria ser inadimissível que um edil não fosse capaz de redigir um simples requerimento.

Mas, no entanto, tal acontece.

Tem vereador, não só aqui, mas em todo o país, que é incapaz de escrever uma frase de poucas palavras, sem erro e com sentido assimilativo.

É fato que a Câmara possui pessoal especializado. Nesse caso, a edilidade, através de seu pessoal especializado, deveria apenas proceder o enquadramento da essência e do teor do assunto, inclusive cingindo-o aos moldes do parlamentarismo.

Mas, jamais, esse mesmo pessoal fazer o trabalho dos edís.

Deve ter sido esse o pensamento de quem adotou a medida passada, aquí referida.

--:--

Tal fato ocorreu-me ao passar os olhos sobre as listas que condensam os 90 nomes de pessoas candidatas à futuro vereança municipal.

Muitos desses nomes, embora representando pessoas dignas e de respeito, não apresentam as mínimas condições para o desempenho do cargo, em termos de legislação e mesmo de retórica e até de diálogo.

--:--

Se se deve considerar como falho tal setor, essa falha, antes de atribuir-se aos candidatos enquadrados nessa faixa, deve ser debitada aos próprios partidos políticos, que não se interessaram e nem se preocuparam com esse comezinho princípio do aprimoramento politizador.

--:--

Claro que não se iria pretender que a Câmara Municipal de Marília fosse integrada por gênios e “Einsteins”. Mas, também, mesclada por quem mal saiba escrever e não saiba falar, também é demais.

Daí, estar certa a afirmativa de um dos candidatos à vereança, que não se pejou em afirmar ao jornalista que ele havia entrado apenas “para atrapalhar”, atendendo a pedido de um candidato a prefeito.

Vai daí…

Extraído do Correio de Marília de 12 de agosto de 1976

domingo, 11 de agosto de 2013

Ainda sobre os americanos (11 de agosto de 1976)


Escrevi ontem (10/8/1976) sobre o povo norte-americano, que classifiquei como bacana, tendo inclusive esclarecido o porque de tal consideração.

Para reforço do mesmo tema vou citar alguns detalhes configuradores de tal pensamento.

--:--

Dezembro, 2, 1944.

Meu trabalho – III/6º. RI, a primeira tropa a atacar Monte Castello – havia sido submetido por elementos do Iº. e IIº. Regimentos de Infantaria e encontrava-se na cidade de Porreta Therme.

Eu e mais quatro companheiros, após “salivar” o Ten. Dantas Borges, conseguimos permissão para um passeio a Pistoia, depois de 73 dias de ininterruptos combates.

Em Pistoia, unimo-nos a um soldado americano e ao entardecer, quando pretendiamos retornar, avariara-se o rotor do jipe. Procuramos três ou quatro oficinas militares do Exército Americano, mas não nos atenderam, por falta de Requisição do Exército brasileiro.

E o soldado americano que estava conosco e que tentava “quebrar o galho”, acabou encontrando uma solução: enquanto nós conversávamos com o sargente chefe de uma oficina, ele roubou a peça referida que nos entregou mais tarde.

--:--

Outubro, 5, 1960.

Num avião da Força Aérea Brasileira, rumo aos Estados Unidos, aterrisamos na Base Aérea Norte-Americana, na cidade do Panamá. Alí deveríamos pousar para prosseguir viagem no dia imediato.

Seriam 16 horas e obtivemos permissão para conhecer a cidade, devendo retornar à Base até às 22 horas.

Eu, o Juca e o jornalista Fernando Fortarel, das “Folhas”, estávamos em dúvida quanto ao caminho que nos conduziria à cidade.

Ví uma senhora, junto a um “Bel Air” luxuosíssimo. Julguei tratar-se de uma panamenha e dirigi-me à mesma, para perguntar. Nada entendeu de espanhol, informando que era americana. Repetia a indagação em inglês e a mesma, além de informar-nos, se prontificou a conduzir-nos à cidade. E o fez.

Era a esposa do Brigadeiro comandante da Base Aérea.

--:--

Cidade de San Diego, Estado da Califórnia, Estados Unidos. Fins de 1960.

Balboa Park, local onde se realizava um congresso interamericano de municípios, do qual participava, como enviado especial dos “Diários e Emissoras Associadas de São Paulo”.

O noticiário diário da cobertura dos trabalhos do congresso era por mim transmitido por via aérea.

O Balboa Park fica bastante distanciado do correio central. Minha locomoção por via de táxi, ida e volta, iria ficar bastante oneroso em relação às verbas pessoais que dispunha eu na ocasião.

Decidi recorrer ao transporte por ônibus. Perguntei a um funcionário do parque, onde tomaria o ônibus e qual a linha que me levaria ao centro da cidade, na Quarta Avenida.

Ele explicou, mas fê-lo de maneira complicada para mim e como eu não estivesse entendendo muito bem o esclarecimento, uma senhora que estava perto, intrometeu-se na conversa. E como certo custo acabou entendendo o assunto e conhecendo o meu problema.

Sabem o que aconteceu?

Ela prontificou-se a levar-me ao correio. E o fez. E esperou que procedesse o despacho, trazendo-me de volta.

Todos os dias fazia isso, espontaneamente, à quisa de colaboração.

Sabem quem era essa senhora?

A esposa do prefeito de San Diego, que era o presidente nato do congresso.

Podem perguntar ao Dr. José Cunha de Oliveira, das Indústrias Zillo, que ele testemunhou o fato.

--:--

Na desobrigação da missão jornalística aquí referida senti que, se ilustrasse com fotos meu trabalho de cobertura do congresso, o serviço ficaria melhor e mais completo.

Mas não tinha condições de contratar fotógrafo especialmente para tal.

Na sala de espera do hotel onde estava hospedado, na Oitava Avenida, principiei a folhear os jornais locais e analisar os melhores trabalhos informativos sobre o certame.

Escolhi o que me pareceu mais vibrante, anotei o endereço da redação e rumei para lá.

Subi até o 7º. Andar e fui falar com o editor-chefe do jornal. Contei-lhe minha dificuldade e o que desejava. Foi algo difícil para que o mesmo pudesse entender minha pretensão, em virtude de meu fraco conhecimento da língua inglessa. Por fim entendeu.

Discou o interfone e falou com outra pessoa. Quando desligou, informou-me que o chefe do departamento fotográfico me atenderia, no 11º.  Andar. Fui lá.

Fui atendido.

E todas as tardes, um envelope contendo fotos sobre o congresso, já copiadas invertidas, era colocado a minha disposição, na própria portaria do hotel em que me hospedava.

Não é um povo bacana?


Extraído do Correio de Marília de 11 de agosto de 1976

sábado, 10 de agosto de 2013

Imitações tolas (10 de agosto de 1976)


Não pensem que sou anti-americanista. Em contrário, gosto muito do povo norte-americano, embora reconheça nessa raça comerciantes exímios e capazes, gente que não dá ponto sem nó.

Mas isso é outro caso.

O norte-americano é um cara muito bacana.

Muito afeito ao trabalho e respeitador da lei.

Genericamente é, assim, embora se considere que toda a regra tem sua exceção.

--:--

Convivi com cidadãos norte-americanos, por relativo tempo, embora esse convívio fosse esporádico.

Refiro-me à última Grande Guerra, da qual o Brasil participou através da gloriosa Força Expedicionária Brasileira, a FEB.

--:--

Comecei a contactar com soldados norte-americanos antes do embarque da FEB para a Europa. Através de cursos militares, ministrados por oficiais brasileiros e norte-americanos.

Depois, no navio que conduziu o primeiro escalão da FEB à Itália, sensibilizei-me mais pelos “yankies”, ao mais de perto conviver com os mesmos.

--:--

Na Itália, antes da entrada em combate, frequentei cursos e também ministrei cursos. Isso me colocou sempre em contacto com os norte-americanos.

--:--

Quando da participação inicial das tropas brasileiras em operações de combate, nossos pracinhas substituiram soldados norte-americanos. As trocas de posições processaram-se de modo a fixar ainda mais as relações de amizade e de respeito mútuo.

--:--

Anos mais tarde estive nos Estados Unidos. Aí, então, o convívio foi direto com aquele povo. Mais expressivo ainda, porque no Estado norte-americano que me fiz presente o número de estrangeiros e especialmente de brasileiros é deveras ínfimo.

--:--

Tudo isso vem a respeito do péssimo costume que temos nós, brasileiros, em copiar e imitar o que fazem os norte-americanos.

Mesmo coisas banais fazemos sempre como o macaco: imitamos.

--:--

Refiro-me aos tipos de camisas e blusas comumente usadas entre nós, com disticos, palavras, frases ou alusões norte-americanos.

Inclusive com divisas e galões de Forças Armadas dos Estados Unidos.

Entendo isso como errado.

--:--

Se o caso fosse inverso, isto é, se ao invés dos brasileiros usarem tais alusões e enfeite, fossem os norte-americanos, que lá na sua terra, usassem motivações brasileiras, o caso seria o mesmo.

Em outras palavras:

Nessa hipótese, se eu, por exemplo, fosse radicado nos Estados Unidos e visse os norte-americanos usando camisas e blusas com motivações brasileiras, talvez pudesse pensar algo diferente, mas o certo é que pensaria, no duro, que os americanos não passavam de tolos.


Extraído do Correio de Marília de 10 de agosto de 1976

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Amanhã, Dia do Papai (07 de agosto de 1976)


Sendo domingo o dia de amanhã e não circulando esta coluna, abordaremos no espaço de hoje a motivação do Dia do Papai.

--:--

Fomos buscar aquilo que de mais sublime se nos pareceu para traduzir todo o anelo, todo o amor, toda a esperança de um pai por um filho.

Uma prece.

A “Prece de um soldado por seu filho”.

De autoria do grande cabo de guerra do Exército Norte-Americano, General Douglas Mac Arthur, que comandou as tropas aliadas nas batalhas da África e que teve participação na invasão da Europa, em princípios de 1944.

Esta, a “Prece de um soldado por seu filho”.

--:--

“Faze, Senhor, de meu filho um homem tão forte, que saiba quanto é fraco; e bastante bravo, para se enfrentar a si mesmo, quando tiver medo; um homem altivo e inflexível quando for derrotado numa luta honesta; e humilde e manso quando for vitorioso.

“Faze, Senhor, de meu filho, um homem cujos desejos não tomem o lugar dos átos; um filho que Te conheça – e saiba conhecer-se a si mesmo, a pedra fundamental de toda a sabedoria humana.

“Conduze-o, rogo-te Senhor, não por caminhos fáceis e cômodos, mas sob a pressão e o incentivo das dificuldades e das lutas.

“Ensina-o, Senhor, a manter-se firme durante as tempestades, ensina-o a ter compaixão dos que falham.

“Faze-me de meu filho um homem de coração limpo e ideais elevados; um filho que queira dominar a si mesmo, antes de querer dominar os outros; que anteveja o futuro, porém sem jamais esquecer o passado.

“E depois que ele for o Senhor dê tudo isto, dá-lhe, fogo-Te, Senhor, bastante senso de humor, para que possa sempre ser sério, sem contudo encarar a sí mesmo com excesso de seriedade.

“Dá-lhe, Senhor, a humildade, a simplicidade da verdadeira grandeza, o espírito compreensivo da verdadeira sabedoria e a bondade da verdadeira força.

“Então, eu, seu pai, ousarei murmurar:

- Obrigado, Senhor, eu não vivi em vão!”

--:--

Por outro lado, de autor desconhecido, transcrevemos a seguir um fragmento filosófico dos mais realísticos sobre “O que o filho pensa do pai”.

Eis esses fragmentos:

* AOS 7 ANOS: “Papai é um sábio. Papai sabe tudo”.

* AOS 14 ANOS: “Parece que papai se engana em certas coisas que diz”.

* AOS 20 ANOS: “Papai está um pouco atrazado em suas teorias, pois não são da nossa época”.

* AOS 25 ANOS: “O ‘velho’ não sabe de nada. Está caducando, decididamente”.

* AOS 35 ANOS: “Com minha experiência, meu pai nesta idade seria milionário”.

* AOS 45 ANOS: “Não sei se consulto o ‘velho’ neste assunto, pois talvez ele pudesse me auxiliar”.

* AOS 55 ANOS: “Que pena que o ‘velho’ tenha morrido. A verdade é que ele tinha umas idéias e clarifidências notáveis”.

* AOS 60 ANOS: “Pobre papai. Era um sábio e era tão bom. Como lastimo e me arrependo de tê-lo compreendido tão tarde”.

--:--

Agora, na espontaneidade de um dos muitos conteúdos desta “Antena”, a transcrição do escrito “Filosofia de Roça”, aqui publicado em 16 de julho de 1969:

“Conheci um espanhol, imigrante e semi-analfabeto, que sempre qui-lo muito bem. Tive sobejas razões para isso: era meu pai.

Meu ‘velho’ era daquela gente que se pode chamar de ‘sem sorte’. Apesar de muito trabalhador e atirado para qualquer tipo de negócio ou trabalho, acabou morrendo pobre. Tentava tudo o que podia. Não media sacrificios e não tinha medo de nenhum trabalho.

“O homem tem obrigação de trabalhar, mesmo que não dependa do trabalho para viver” – era o que sempre afirmava. E me botou “no batente, já aos 7 anos de idade. Foi no ano de 1929. No mês de setembro, melhor recordando.

Vou comemorar em setembro uma boda qualquer. Quarenta anos de trabalho constante. E foi olhando na folhinha aqui da redação que me veio isso à lembrança.

“Trabalho não mata ninguém; se matasse, eu já estaria morto há muito tempo” – afirmava sempre o ‘velho’.

Na sua falta de cultura, tinha sempre uma grande sabedoria – fruto da experiência da própria vida. Tinha boas ‘tiradas’ e de vez em quando arrumava um sal de filosofia. Filosofia espontanea, natural, que ostentava certa lógica.

“Nunca tive fé em homem que usa costeleta fina e comprida” – asseverava. Naquele tempo, poucos usavam o referido apendice de barba.

“Para mim, homem que anda com gaiola de passarinho ou com galo de briga debaixo do braço, não tem valor algum” – dizia sempre.

“Não é todo preto que pode ocupar cargo, ter posição ou dinheiro”, dizia, em brincadeira, para um negrinho que criava como filho. E o Joaquim (era o nome do crioulo) acabou “aprontando”. Quando ninguém esperava, o pretinho “catou” todas mensalidades do leito que o ‘velho’ fornecia aos fregueses da cidade e “se mandou”.

“Caboclo que escolhe serviço é vagabundo; o homem do trabalho não enjeita atividade”, assevera. “Mulher deve ser como é; sem pinturas e sem enfeites para parecer bonita; antes de enganar os outros, ela engana a sí própria”.

Quando fracassava num empreendimento, tentava a justificativa: “Um dia tem que chover na minha horta; quem anda direito e não faz nada para prejudicar o próximo, tem que ter uma recompensa um dia qualquer”.

Tentava de tudo. Fôra comerciante, viajante, carpinteiro, fazendeiro, leiteiro, fabricante de cadeiras e meses, açougueiro, mascate, lojista, boiadeiro, hotaliceiro, lenhador, enfim, tudo o que lhe permitia fazer dentro de suas condições de operosidade e nenhuma intelectualidade.

Era uma venda na beira da estrada.

Numa tábua, eu, criança de grupo escolar, desenhei um boneco, “dando numa banana”. E escrevi um versinho sob o desenho. Era assim o verso.

“Amigo e companheiro / aqui mora o barateiro / que vende o ano inteiro / mas que só vende a dinheiro”.

Descuidei um pouco e o ‘velho’ apanhou o pincel e rabiscou por baixo do versinho:

“E quem não tiver dinheiro / leve a banana do companheiro”…

Extraído do Correio de Marília de 07 de agosto de 1976