sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Visitas à Filantropica (31 de outubro de 1956)

Temos noticiado ultimamente, os gestos nobilíssimos de muitos marilienses dispendendo algumas horas de suas ocupações ou descanso, para realizar visitas coletivas a entidades assistenciais da cidade.

Em verdade, nem poderíamos deixar de colocar em devido destaque gestos altruísticos de tal natureza, que provam, de público, o espírito de solidariedade de muita gente, levando um pouco de conforto, carinho e alegria aos garotinhos e garotinhas que se encontram abrigados na Associação Filantrópica e no Lar da Criança de Marília.

Em muita gente, despertamos o espírito desse procedimento. Ultimamente tem aumentado as visitas do povo, em grupos organizados, a essas duas instituições, que são, sem dúvida alguma, verdadeiros cartões de visita da cidade, mostrando aos forasteiros, o carinho e o desvelo com que os marilienses se dedicam aos infortunados petizes desamparados.

É comovedor, o quadro traduzido na gratidão de uma infinidade de olhinhos alegres e centenas de boquinhas sorrindo de satisfação, ao receberem visitas públicas.

Os gestos, por isso, tornaram-se merecedores do destaque que temos procurado dar, através de nossos noticiários.

Agora, acabamos de receber um pedido de um senhor de uma cidade vizinha, solicitando-nos, com minúcias, detalhes de como poderão pessoas de fora, participar também dessas visitas coletivas à Associação Filantrópica e ao Lar da Criança. A essa pessoa, que mostrou interêsse em trazer alguma alegria e colaboração a êsses pequeninos sêres, já dissemos que nenhuma condição exigem os dirigentes dos mencionados estabelecimentos, sendo que, pelo contrário, só podem mostrar-se gratos e reconhecidos a todos que se propõem a oferecer alguns momentos de alegrias aos garotos, que, conforme dissemos, embora tendo todo conforto de um lar, desconhecem, por contingências involuntárias, o calor dos pais.

Essa pessoa, bem como outras que pretenderem participar dêsse simpático movimento, poderão fazê-lo, individualmente ou em grupos, sem nenhuma condição. As portas dos dois estabelecimentos estarão sempre abertas aquêles que, com as melhores das intenções, se propõem levar um pouco de conforto, moral ou material, aos pequeninos internados.

Todos são benvindos no Lar da Criança e na Associação Filantrópica.

Extraído do Correio de Marília de 31 de outubro de 1956

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O Brasil e a inflação (30 de outubro de 1956)

Desolador quadro estatístico acaba de ser divulgado pela imprensa nacional, acerca do índice inflacionário de mais de sessenta países do globo. O Brasil, o chamado rico Brasil, cujas reservas minerais dormitam no sub-solo, cujas terras tudo produzem, cuja extensão territorial é das mais invejáveis, ostenta, desgraçadamente, o primeiro lugar dentre as nações mais inflacionárias do mundo, com uma cifra de elevação constante do custo de vida, de fazer vergonha até aos estrangeiros entre nós radicados.

O fenômeno agrava-se dia a dia. Os estudos desenvolvidos por técnicos e comissões especializadas têm sido os mais inócuos possíveis. Os planos de reerguimento econômico do país postos em prática pelos govêrnos e ministros de Estado, até aqui nenhum resultado objetivo conseguiram apresentar. O descontrole é tão patente, que passou a ser coisa de rotina entre os brasileiros. Já ninguém se admira das elevações constantes do custo de vida, já ninguém se estarrece da política econômico-financeira do país, nem da política que orienta e dirige o comércio importador e exportador.

Em que pese as boas intenções e trabalhos sinceros e bem intencionados de alguns patrícios, o Brasil, nesse passo, caminha irremediavelmente para o cáos econômico.

O trigo brasileiro, colhido no sul, tão bom como o argentino,o norte-americano, o canadense ou o europeu, apodrece no interior de igrejas e armazéns improvisados, por deficiência de transporte, por absoluta falta de apôio governamental. Safras de uma região não podem ser muitas vezes, escoadas para regiões vizinhas, mesmo quando estas produzem deficientemente ou em condições inferiores das exigidas pelo próprio consumo, pelos mesmos motivos. A interferência dos intermediários (que enriquecem do dia para a noite), em tôdas as atividades da própria vida consumidora do país, constituem o mais berrante descontrole e o mais irretorquível meio de ação direta contra os próprios interêsses do brasileiros.

Estudos, entrevistas à imprensa, conchavos, instalações de comissões técnicas, até o presente nada têm resolvidos. E a prova aí está. O boletim divulgado, veio apenas dar ao problema um cunho oficial para conhecimento por escrito a todos nós; porque, em verdade, ninguém ignorou jamais, que nos últimos 10 anos, a política econômico-financeira do Brasil tem sido a pior da sua história, a pior do mundo.

Extraído do Correio de Marília de 30 de outubro de 1956

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Gesto nobre de marilienses (27 de outubro de 1956)

Vários grupos de pessoas representando organizações, firmas ou associações de classe, têm procedido, à miude, nobilíssimos gestos, ao visitar entidades assistenciais de Marília, especialmente aquelas que abrigam sob seus tetos crianças desamparadas.

O Lar da Criança e a Associação Filantrópica, seguidamente recebem dessas visitas coletivas, que, ao par do apôio material que as mesmas traduzem, representam indiscutível estimulo moral, levando alegria às criancinhas.

Êsses orfanatos precisam mesmo contar com atitudes dêsse jaez, por parte dos marilienses. Aquêles pequeninos sêres, apesar do conforto, carinho e humano tratamento que recebem nessas casas filantrópicas, sentem melhor o calor da amizade do povo de Marília, por ocasião dessas visitas coletivas. Qualquer um de nós será bem capaz de interpretar o quanto significa para aqueles que embora vivendo com todo conforto e amizade de bons corações, desconhecem, por contingência involuntária, o calor do lar paterno.

Não há muito, o vereador Bernardo Severiano Silva, organizou um grande grupo de pessoas residentes na Vila Santa Olívia, grupo êsse que visitou a Associação Filantrópica, passando com os garotos daquêle estabelecimento assistencial, grande parte do dia.

Novamente, repete-se o gesto. Os operários da Fiação de Linho e Ramí S/A., levarão amanhã aos meninos da aludida entidade, alguns carinho e conforto, passando com eles algumas horas alegres, oferecendo aos pequeninos, muita alegria e um animado “show” artístico.

Tal atitude, que já é um cartão de identidade dos marilienses, vai dia a dia mais arraigando entre todos, tornando-se um hábito obrigatório dos mais louváveis e humanitários. Além do apôio material que os marilienses dispensam ao Lar da Criança e à Associação Filantrópica, o carinho espiritual e a alegria pessoa de muita gente, significam fator importante nos espíritos em formação de muitos daqueles seres, que, amanhã, quando adultos, enquadrados no organismo da vida civil, por certo hão de reconhecer o valor dessas demonstrações de afeto do povo de Marília. E terão eles próprios, exemplos condignos e exuberantes, para serem continuadores permanentes dos gestos que ora são empregados pelos marilienses.

Que as atitudes dos moradores da Vila Santa Olívia, dos operários da Fiação de Linho e Rami e de outras tantas pessoas, sirvam de estímulo, para que outras gentes prossigam com essas visitas coletivas e intermitentes às criancinhas que se encontram agasalhadas na Associação Filantrópicas e no Lar da Criança.

Extraído do Correio de Marília de 27 de outubro de 1956

domingo, 26 de outubro de 2008

Os generos e seus preços (26 de outubro de 1956)

Clama com razão a Imprensa de todos os pontos do país, acerca dos abusos que se praticam sôbre das utilidades de primeira necessidade. De fato, as coisas andam tão descontroladas a respeito, que o Brasil tornou-se um verdadeiro paraiso de gananciosos. Já não existem freios para colocar um dique no movimento altista que desgraçadamente, classifica nossa pátria em primeiro lugar entre as nações mais inflacionarias do mundo.

Nem sempre, pode-se culpar o pequeno comerciante. Este já não dispõe de meios capazes de controlar as vendas, porque comprando pouco, e seguidamente, seguidamente tem que ir pagando mais caro e vendendo mais caro também. O mal precisa ser atacado pela raiz. O ponto vital origina-se quando os intermediários metem o dedo e quando os grandes atacadistas fecham negócios com partidas gigantescas, muitas vezes para armazenar, prendendo o produto e forçando automaticamente as altas dos preços, sob os olhos complacentes dos órgãos controladores de preços.

De qualquer maneira, enquanto o Presidente da República não põe em prática os meios de barateamento do custo de vida, apregoados em sua campanha eleitoral, o povo que vá apertando o cinto. Que vá definhando de fome. Que vá para o diabo.

Vez por outra, a gente vê ou tem conhecimento de uma providência, que maneira direta, vem beneficiar um pouco a aflição das classes média e pobre. Vez por outra aparece um “último mohicano”, fazendo alguma coisa em pról das famílias sacrificadas. De pouca duração são essas providências, regra geral. Mas provam alguma coisa. Provam que ainda existe gente por aí, bem intencionada, que se mais não faz, é porque não pode.

A Prefeitura da cidade de São João da Boa Vista, acaba de dar um exemplo dessa natureza. O público sanjoanense está adquirindo gêneros de primeira necessidade por preços menores do que os do mercado comum. Por exemplo, a banha americana está sendo vendida à razão de Cr$ 30,00 o quilo; penicilina de 400 mil unidades, a Cr$ 10,50.

O poder executivo de São João da Boa Vista, está conseguindo adquirir muitos gêneros nas fontes de produção e outros diretamente junto à COFAP e COAP por incrível que pareça.

Sem dúvida, tal proceder deveria servir de exemplo para muitas Prefeituras do Interior, inclusive para Marília.

Além dos benefícios que presta ao povo a referida municipalidade, está combatendo diretamente, o alto custo de vida.

Extraído do Correio de Marília de 26 de outubro de 1956

sábado, 25 de outubro de 2008

A Semana da Asa (25 de outubro de 1956)

Marília não esteve indiferente às comemorações da Semana da Asa, que se feriram em todo o Brasil. Terça-feira, às 16,45 horas, todos aviões marilienses, que se encontravam em condições de vôo, estiveram no ar no horário referido.

Por outro lado, as escolas dos diversos cursos educacionais da cidade, prestaram também significativa homenagem ao pai da aviação. Solenidades especiais, palestras, alegorias, foram apresentadas a respeito, fazendo viva a lembrança e a saudade do povo brasileiro, ao acontecimento que tanto orgulho representa para nós.

A respeito, recordamos que há uns 10 ou mais anos passados, assistimos ali no Cine São Luiz, um filme americano, sôbre a história da aviação. E saímos indignados com o desenrolar da película, apesar de tôda a nossa simpatia pelos norte-americanos. É que o enredo demonstrava a história da invenção do aparelho “mais pesado do que o ar”, suas experiências iniciais e as lutas de seus descobridores.

A história esqueceu Santos Dumont; ou melhor, relegou ao indiferentismo o verdadeiro timoneiro da aeronáutica. A idéia foi atribuída a dois irmãos – os Writs, se não estamos equivocados. Bem filmada, convincente, com a impregnação tôda especial de uma natural comicidade. Mas nós, que desde o curso primário, havíamos aprendido alguma coisa sôbre o feito heróico do grande e saudoso patrício, ficamos aborrecidos com o filme. Ficamos mesmo chocados, atingidos frontalmente em nosso patriotismo latente, adquirido nos bancos escolares.

E chegando ao “Correio”, não pudemos nos conter: “Lascamos o pau” no produtor do filme, como desaprovação e protesto a um fato que entendemos como afronta aos nossos sentimentos patrióticos. Tempos depois, conversamos com um americano e tocamos no assunto. E o homem, dizendo-se estudioso das questões históricas de sua pátria, nos confirmava o que aprendera: a aviação fôra realmente descoberta pelos americanos! Fôra nossa segunda decepção a respeito.

Não pudemos buscar melhores firmezas de pensamentos, em estudos acurados. No entanto, sempre que tínhamos oportunidade, procurávamos ouvir alguém entendido sôbre o assunto, para aclarar de vez a dúvida que a película em apreço nos acarretara. E ficamos convencidos de que aquêle filme foi um verdadeiro abuso, que jamais deveria ter sido exibido entre nós, pois contradizia flagrantemente pontos básicos da própria história do desenvolvimento e das invenções relevantes dos brasileiros.

Hoje, ninguém mais recordará, provavelmente, o citado filme. No entanto, se alguém ainda tiver a lembrança do mesmo, há de fazer uma ligação conscienciosa de seu enredo e da verdade atual. E concluir, forçosamente, como nós, que a primazia da hitória da aviação, queiram ou não os outros povo, pertence aos brasileiros. E de cujo fato nos orgulhamos e batemos no peito.

Mas o fato até lembra aquela piada, mais ou menos assim resumida: Os russos anunciaram que foram eles que inventaram a bomba atômica, a V-2, a hidrogênio, a fotografia, o cinema, e não sabemos mais o que. Foi quando um gaiato, pondo a mão na cabeça, indagou: “será que foram eles também que inventaram o trabalho?”

Extraído do Correio de Marília de 25 de outubro de 1956

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Homens, vamos usar saias? (24 de outubro de 1956)

Um cidadão, demonstrando confrangimento pelos atuais trajes masculinos, entendeu de proceder radical transformação nas indumentárias dos homens. Entendeu e veio a público externar a idéia, em sua inteira prática. Fez uma demonstração nas ruas de São Paulo, tendo inclusive prejudicado o próprio trânsito.

O homem inventou o “new look” masculino: camisa de náilon, saia, chapeu leve e meias do tipo usado pelas bailarinas! Sapatos também tipicamente femininos!

Alega o idealizador dessa “maravilha”, que os atuais trajes masculinos são descômodos, extenuam, custam caros, etc.. Justifica, a seu (modo) as “conveniências” do novo tipo de roupa para homens. E são muitas; assim como êsses remédios que os “camelots” vendem na rua: tem incontáveis finalidades.

Quando tivemos conhecimento das primeiras informações a respeito, não ligamos importância ao fato. Depois, tentamos inteirar-nos melhor do andamento das coisas, quando o cavalheiro decidiu-se e levou a efeito a demonstração pública dos trajes por êle preconizados. Ficamos em dúvida, quanto ao seu gesto, à sua coragem: será louco? estará certo?

Que haveriam de pensar ou dizer, os nossos auteros avós, aquêles homens que sempre se jactaram do sexo, dos quais, um fio de barba valia mais do que um documento passado em cartório e sôbre quem qualquer suspeita quanto à masculinidade, significava a assinatura de um atestado de óbito?

O que pensariam nossas avós, que tanto respeito e confiança depositavam nos maridos e filhos, se tivessem que enfrentar, nos dias de hoje, semelhante problema?

Pois o apologista da idéia vai levando avante o projetado. Está tentando arregimentar a legião de seus fãs, a fim de introduzir, em definitivo, entre nós, a inovação referida.

Enquanto uns chamam de louco ao homem que tente apaixonadamente defende(r) o ponto de vista de trajes femininos para os homens, outros já principiam a aderir ao movimento. Felizmente, o número dos segundos é pequeno, e, ao que parece, de loucos também.

O idealizador dessa barbaridade, tem a esperança que muito em breve, todos os homens do Brasil usarão sáias. Pelas suas expressões à imprensa paulistana, os alfaiates terão que mudar de profissão. O número de costureiras aumentará na certa.

Isso até nos faz lembrar uma anedota atribuída a um internado no Hospital Franco da Rocha, que, falando a um grupo de visitantes, assim se expressou: “nem todos que aqui se encontram são loucos; e nem todos os loucos estão aqui”.

Uma coisa é certa, cá para nós: Vai ser uma “gracinha” ver um homem gordo, barrigudo e careca, fumando charuto e de sáia! Ou será que terão os homens também que rapar as pernas? Sim, pois o “modelo” apresentado é de sáias curtas (altura dos joelhos) e as meias de bailarinas (tipo redes de pescaria) não farão nenhum realce nas pernas cabeludas dos “barbados”!

E com(o) se arrumarão os homens magros e altos, de pernas finas e tortas?

Bem, a respeito, já firmamos o nosso ponto de vista: Haveremos de ser os últimos a usar o “new look”...

Extraído do Correio de Marília de 24 de outubro de 1956

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O “padrão” do nacional (23 de outubro de 1956)

Temos escrito, inúmeras vezes, artigos apreciando o espírito nato do brasileiro; muitas ocasiões, pelo lado real, embora possa parecer que abordamos o ângulo depreciativo do nacional, isto é, de nós próprios, porque falamos em tese.

A verdade é que muita coisa existe errada por aí afora. Enquanto um daquêles, que, de uma ou outra forma, tem responsabilidades governamentais, dá um exemplo exuberante de patriotismo e amor pelo Brasil e por sua gente, dezenas e centenas de outros pensam mais com o estômago do que propriamente com o coração.

Certa ocasião (não faz muito tempo), conhecemos na Capital Federal, um cidadão. Um conhecimento casual, como muitos que sucedem por aí com quase todos nós. Uma conversa sem importância e meramente formal, foi o início da meada de um entendimento que firmou-se em amizade à primeira vista. O rapaz quis saber coisas acerca de Marília, cidade de quem há tempos ouve dizer maravilhas. E nós, como marilienses (bairristas, mesmo), ficamos à vontade e até um tanto eufóricos, para falar de nossa cidade.

Conversa vai e vem, ficou nosso amigo inteirado de nossas atividades aqui em Marília, ao mesmo tempo que ficamos sabendo de seus labores e “virações” na bela São Sebastião do Rio de Janeiro. Não temos nada com a vida de ninguém, e, muito menos com a dêsse homem que ficamos conhecendo por acaso. Mas, referimos o fato para ilustrar e reforçar o ponto de vista que será abordado neste comentário. O rapaz possui um escritório comercial (contabilidade e representações), em pleno centro. E tem mais um “bico” também. É membro da famigerada COFAP. Ganha nesse autêntico sindicato de “tubarões”, seus doze mil cruzeiros mensais. Trabalho? A, sim: toma parte numas oito ou nove reuniões por ano!

Não pudemos censurá-lo não é êle e não será o único. Foi convidado por um “cobrão”, para integrar o organismo. E aceitou, é lógico, pois não é bobo e todo mundo gosta de “moleza”.

Agora, vem do norte um exemplo dessa natureza. Uma coisa revoltante, sob o ponto de vista de brasilidade. Um fato que é passível das maiores condenações: Um deputado estadual, apresentou na Assembléia Legislativa, um projeto de lei “sui gêneris”. Visa garantir a “mamata” dos deputados que não conseguirem reeleição no próximo pleito! Se aprovado o aludido projeto, todos os parlamentares não reeleitos, serão automaticamente “encaixados” no funcionalismo, com os vencimentos do padrão “Z”!

Não precisamos comentar mais nada a respeito. Os leitores que tirem suas próprias conclusões acêrca do fato.

Extraído do Correio de Marília de 23 de outubro de 1956

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

País de aumentos (20 de outubro de 1956)

Não resta dúvida, que temos hoje em dia muitos políticos teimosos e que pretendem encobrir o sol com uma peneira. Das duas, uma: ou são ingênuos demais, ou incompetentes em excesso. Ou então pensam que o povo brasileiro é mais ignorante do que parece.

O Brasil de hoje está longe de ser aquêle com que sonharam nossos avós, aquela Pátria altaneira e independente, o Brasil Gigante que nos conta a maravilhosa letra do Hino Nacional. O Brasil é um país de aumentos. Aumentos de taxas, aumentos de contribuições, aumento de impostos, aumentos de tarifas e ensaios e mais ensaios de novos aumentos, provando, até agora, que o Govêrno Federal e seus auxiliares imediatos – muitos dos quais completamente ineptos –, estão apresentando a pior fase governamental que o Brasil chegou a possuir desde a sua descoberta.

Só não aumenta a vergonha, a vontade de trabalhar. Há pouco, um Ministro de Estado do Brasil, teve a desfaçatez e a insinceridade de afirmar, nos Estados Unidos, que a situação econômica de nosso país é sobremaneira lisonjeira!

Queira ou não, o programa do atual Govêrno vai se desenvolvendo de maneira a dificultar cada dia que passa, mais e mais, a vida dos brasileiros. Por ocasião de sua campanha eleitoral, o sr. Juscelino Kubitschek prometeu ao povo, dias melhores e mais humanos. O Brasil, que deveria progredir cinco anos em cinco meses, conforme prometeu o então candidato, torna-se cada dia mais difícil, quando o povo arca dia a dia com uma nova série de desgostos, penúrias e dificuldades, decorrentes do “modus vivendi” que é uma conseqüência direta, um reflexo irretorquível do atual estado de coisas.

Os preços alteiam dia a dia, sem que o Govêrno nada faça. Os sindicatos da fome aumentam também dia a dia. A COFAP e a COAP, são magistrais arapucas, criminosos órgãos que estão distante de suas reais finalidades.

Ao lado de tanta miséria, tanta calamidade, entendem os homens dos govêrnos de criar ainda mais dois Ministérios. Serão dois novos órgãos de todo perfeitamente indispensáveis. Só uma coisa trarão para nós: O Brasil será o país recordista em organismos dessa espécie e a situação se agravará ainda mais, com a oneração dos cofres públicos, em consequência do exército de novos servidores que comporão mais êsses dois corpos.

A população já não mais sabe para quem apelar nessa emergência, nessa situação deveras sacrificiosa, incrivelmente vergonhoso.

É por isso que se prepara agora a infame lei da rolha; para arrochar, para amordaça, impedindo ao povo de gritar, através da voz soberana, nobre e independente da imprensa livre, nobre e honesta.

Extraído do Correio de Marília de 20 de outubro de 1956

sábado, 18 de outubro de 2008

Censura às radio-emissoras (19 de outubro de 1956)

O Ministro da Viação, baixou há pouco a comentada portaria aplicando determinadas censuras às emissôras de rádio e televisão do país.

Nenhum dêsses órgãos poderá transmitir discursos políticos, que de uma ou outra forma, direta ou indiretamente, ataquem atos do Govêrno e seus auxiliares.

O governador Jânio Quadros, baseado num parecer de uma comissão de juristas, que apreciou o teôr da aludida portaria, sob o aspecto de constitucionalidade, declarou que os preceitos constantes da mesma não serão aplicados em nosso Estado. Acontece que as emissôras de rádio e televisão possuem os canais, prefixos e licenças, expedidas pelo Govêrno Federal. E, desrespeitando os preceitos da citada portaria, poderão ser cassadas essas autorizações, sem que o Govêrno do Estado possa defendê-las a respeito. Daí, conclui-se, que mesmo com a afirmativa do Chefe do Executivo bandeirante, as emissôras de rádio e televisão ficarão na obrigação de prestar obediência e respeito ao citado ato.

E, ao que parece, as estações que não cumprirem o conteudo da mencionada portaria, poderão sofrer consequências prejudiciais às suas próprias vidas artísticas e publicitárias, sem que nada seja possível fazer o Govêrno do Estado e sem que venha a representar intromissão do poder federal na vida governamental paulista, de vez que as estações de rádio e televisão são legalmente subordinadas ao Ministério da Viação.

No entanto, quando há pouco comemoramos com pompas o transcurso do 10º aniversario da Constituição, quando transbordaram discursos e manifestações de civismo em torno da efeméride, torna-se desalentador o gesto do sr. Ministro da Viação, que representa no caso, o pensamento do próprio Presidente da República.

As estações de rádio e televisão, são veículos informativos. Discursos políticos contrários ao Govêrno, mesmo que irradiados ou televisionados, não representam o ponto de vista de quem os divulga e são, de fato e de direito, de responsabilidade absoluta de quem os profere.

Há dias, sôbre a Lei de Imprensa, referimos que o ato significava um passou à retaguarda em nossa confusa vida democrática.

São Paulo, que em 32 levantou-se num exemplo magistral, pela constitucionalidade do país, onde pereceram em trincheiras muitos de seus filhos, será o mais prejudicado com essa malfadada medida, uma vez que é o Estado onde mais estações de rádio e televisão existem e é também o local onde maior projeção e volume ostenta a política nacional.

Ao registrarmos o acontecimento, nada mais nos resta do que fazê-lo com desprazer, uma vez que vemos em jogo as lutas democráticas de nossos antepassados, continuadas no presente; o derramamento de sangue dos paulistas em 32 e também a contenda que empreendeu o próprio Brasil, enviando à Itália, em 44-45, seus heróicos “pracinhas”, que, de armas em punho, lutaram por uma bandeira que se chama Democracia!

Extraído do Correio de Marília de 19 de outubro de 1956

As “broncas” do Carlos Lacerda (18 de outubro de 1956)


Em outras ocasiões, escrevemos alguma coisa acerca do irrequieto deputado-jornalista Carlos Lacerda. Comentamos a verdadeira crise política criada pelo citado parlamentar, sua “fujida” para os Estados Unidos e a celêuma e inquietação que causou seu malfadado manifesto.

Aliás, nada dissemos de novidade, apenas comentamos, aquilo que acontecera e estava acontecendo e que é do inteiro domínio público.

Sem razões, algumas pessoas não gostaram do que escrevemos, quando em verdade não estávamos descobrindo a lei da relatividade ou colocando em pé o famoso Ovo de Colombo.

Mas acontece que o sr. Carlos Lacerda [Carlos Frederico Werneck de Lacerda, foto (Vassouras/MG, 30 de abril de 1914 + Rio de Janeiro, 22 de maio de 1977), foi escritor e político brasileiro, membro da União Democrática Nacional (UDN), vereador (1945), deputado federal (1947–55) e governador do Estado da Guanabara (1960–65). Fundador em 1949 e proprietário do jornal Tribuna da Imprensa] está empregando mal sua grande inteligência. Só para os elementos pertencentes ao “Clube da Lanterna” seu chefe procede direito. De um ou outro modo, o homem procura criar discórdia entre os brasileiros, mesmo que possam surgir consequências imprevisíveis, mesmo que possa haver derramamento de sangue; o que importa, é que prevaleçam seus pontos de vista. É bem verdade, que o sr. Lacerda está usando de um direito legal, de expressar seu pensamento, direito êsse garantido pela Constituição. Mas o homem, que já excedeu bastante, continua exagerando, quando pensamos que poderia ser mais comedido na exteriorização de suas idéias. Carlos Lacerda não gosta de ser atacado, quando êle é o primeiro a atacar, inclusive os poderes constituidos, Ministros de Estado e Fôrças Armadas!

Não vamos discutir pormenores de política, porque confessamos sem pejo, que nada entendemos de muitos manobras escusas que se praticam por aí, sob o rótulo de política.

As consequências de sua volta ao Brasil, com sua intempestividade característica, já principiaram a surgir. Todo o mundo sabe disso. Tôda a imprensa noticia o que acontece com o homem. Portanto, que ninguém venha a censurar-nos, por apreciarmos nesta coluna a atitude que reputamos errada e condenável do sr. Carlos Lacerda.

Segunda-feira última, por ocasião de seu primeiro discurso na Câmara Federal, o homem já tumultuou a sessão e por pouco não foi alvejado, quando xingou da tribuna, alguns militares e civis, de traidores. Vejam bem, que o sr. Carlos Lacerda, que tanto fala em democracia, está confundindo o vocábulo com a palavra “anarquia”. Todo excesso é prejudicial. Todo abuso tem as suas consequências.

Êsse homem poderia ser um grande líder, uma das grandes reservas políticas do país. Se tivesse outros modos de agir. Se fosse mais sensato, como muitos parlamentares e homens de responsabilidade. Carlos Lacerda criou um mito; o mito do “diz porque não tem medo. Não somos profetas. Nem estudiosos dessa matéria. Mesmo assim, nossa razão e bom senso acusa: se o homem não mudar o sistema de ações, a história do futuro poderá, fatalmente, responsabilizá-lo por maiores consequências políticas em prejuízo de nosso povo.

Oxalá estejamos enganados.

Extraído do Correio de Marília de 18 de outubro de 1956

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Casa para a mulher aleijada (17 de outubro de 1956)

Redação de um jornal, embora pareça uma coisa desagradável para os estranhos, é um ambiente gostoso para os que labutam na imprensa. Papéis em desalinho, originais, provas, clichês, anúncios, correspondência e órgãos da imprensa de quase tôdas as partes do Brasil, além da impregação do cheiro forte de tintas e do barulhos das máquinas, são as características de uma redação do interior, quase sempre ligada diretamente a oficina de trabalhos.

E aquêles que militam na imprensa interiorana, essa pobre imprensa cabocla, nem sempre bem compreendida, sentem uma felicidade extrema numa sala de redação. É que sempre há alguma coisa para fazer, sempre há algo para comentar-se. E as palestras entre os membros mais assíduos, tomam um aspecto agradabilíssimo, cordial, de inteira fraternidade.

No sábado último, “batíamos um papo”. O autor destas linhas, o Anselmo, que é o mais simples e humilde de todos os gerentes de jornais, o ver. Álvaro Simões e o companheiro Lauro Vargas. Só faltava o João Jorge.

E no trivial das conversas comuns, diversas e multiformes, o reverendo nos contava que tendo ido à Prefeitura, para fins particulares, lá encontrara u’a mulher de meia idade, apoiada n’ua muleta. Pobre, viuva, mãe de dois filhinhos menores. Conversando com a referida senhora, ficara inteirado do motivo de sua visita à Prefeitura: quer construir uma casinha para morar, para abrigar sua família. E o fato tocante, é que a referida senhora, que não conhecemos e que o reverendo também não conhece, tendo-a visto apenas aquela vez, dá um exemplo magistral de honradez: ganha o pão de cada dia para ela e seus filhinhos.

Se fôsse uma pessoa de outro timbre de espírito, estaria por aí, perambulando pelas ruas da cidade e estendendo a mão à caridade pública. Mas essa mulher, não. Ela trabalha. Agora, está pedindo; ou melhor, dirigiu-se ao sr. Prefeito, para pedir. Para pedir alguma coisa, a fim de construir sua casinha, visto que alguém, na cidade, dera-lhe um terreno para a construção da casa.

Em data de ôntem, o reverendo abordou o assunto. E fê-lo, como sempre: com simplicidade, procurando relatar a verdade em todos os seus ângulos e reais aspectos. Pediu aos marilienses que podem, que auxiliem essa nobre e infeliz criatura, a conseguir o seu intento, que é modesto e do qual já tem meio caminho andado, uma vez que possui o terreninho.

O apêlo foi lançado, e, temos a certeza, há de encontrar guarida no coração dos marilienses, que sempre souberam dar apôio às causas nobres e humanitárias. Não haveria necessidade de virmos nós reforçar o pedido lançado pelo reverendo, mas, mesmo assim, achamos de bom proveito reiterar o pedido dêsse nosso colaborador.

Assim, aquêles que desejarem auxiliar a boa mulher, poderão fazê-lo, comunicando-se com o reverendo Simões ou trazendo suas colaborações à nossa redação. Qualquer coisa: dinheiro, madeiras, telhas, cal, cimento ou outros utensílios necessários para objetivação dêsse fim.

Extraído do Correio de Marília de 17 de outubro de 1956

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A Nova Lei de Imprensa (13 de outubro de 1956)

Escreve-nos um leitor, solicitando esclarecimentos e também nosso ponto de vista acêrca da discutida reforma da atual Lei de Imprensa. Diz êsse nosso amigo que não está entendendo bem da questão e que gostaria de conhecer melhor o assunto para firmar um conceito próprio.

A verdade é que tampouco nós conhecemos o teôr da citada lei e portanto, nada poderemos pormenorizar a respeito do assunto. Valerá no caso, o nosso ponto de vista pessoal, que pode ser resumido no seguinte:

Existem opiniões contraditórias acêrca da medida. Enquanto uns são apologistas de uma rolha nos órgãos da imprensa, para mais facilmente cometerem descalabros e abusos, sem que ninguém tenha o topete de denunciá-los ao público, outros reconhecem o valor dos meios informativos e combatem o processo com que se pretende fazer calar aquêles que exercem u’a missão de responsabilidade e sacrifícios, traduzida no labor cotidiano de noticiar e escrever para o povo.

Efetivamente, existe em vigor um código de ética e mesmo de honra na imprensa, graças a Deus respeitado e cultuado pela maioria dos jornalistas, desde os dos mais renomados dos grandes órgãos das capitais, até o mais humilde dos “tarimbeiros” do interior.

Nós, como não poderia deixar de ser, somos contrários à rolha, porque entendemos que um país onde fôrças superiores, movidas por interêsses subalternos contrariam a palavra, é um país que deixou de ser democrático. Não que sejamos partidários de sensacionalismo e considerações desmedidas, como utilizam alguns jornais, cometendo verdadeiros crimes de infâmia, sob o pretexto de democracia e da liberdade de imprensa. Mas é inegável que u’a nação que chega a êsse ponto (nós temos exemplos indestrutíveis de um passado não mui distante), chega ao seu fim, no intrínseco sentido da democracia.

A questão de censura e de critério na exteriorização escrita de conceitos, é mais do que um dispositivo de lei: é a consequência da própria dignidade e de honra de quem escreve. Existem muitos meios de comentar um assunto. Pode-se “arrazar” até com o Presidente da República, que é o mais alto magistrado do país, desde que em têrmos e com fundamento. Para tais casos, são desnecessários e perfeitamente dispensáveis, pejorativos e expressões contundentes e deselegantes, muitas vezes violentas e descambadas para terreno pessoal.

Tudo é questão de senso e razão de quem trabalha no mistér.

Aquêle que dirige um órgão de imprensa tem u’a arma poderosa na mão. Numa comparação grosseira, poderemos dizer que é alguma coisa semelhante à energia atômica: tanto pode servir para fazer o bem, como para praticar o mal; tudo depende de quem a maneja.

Em síntese, a nova lei de imprensa, cuja íntegra não conhecemos, representa um passo atrás na democracia que nos ufanamos desfrutar. Não serão as sanções legais aplicadas contra os abusadores de cargos, que irão modificar princípios de certos homens. Os sensatos, os que sempre souberam utilizar-se da arma referida, sentirão menos os seus efeitos, porque as razões com que se empenham à luta são, moralmente mais fortes do que os interêsses daquêles que pretendem amordaçar a liberdade de imprensa. Por certo, serão obrigados a ser mais comedidos também, mas nem por isso sentir-se-ão tanto prejudicados. O prejuízo, nesse caso, será mais de fôro moral do que representativo.

Ao leitor que nos escreveu sobre a questão, aí está o que pensamos acêrca do assunto.

Extraído do Correio de Marília de 13 de outubro de 1956

domingo, 12 de outubro de 2008

Cartório Eleitoral Volante (12 de outubro de 1956)

Noticía a imprensa paulistana, com certo amargor, o acentuado desinteresse de muitos brasileiros, em regularizar suas situações de eleitores, quando ainda é bem grande o número de pessoas em idade regular, que não providenciaram as suas inscrições. E vão mais adiante as informações, dando conta de deficiência dos Cartórios Eleitorais da Capital paulista, em relação ao número de servidores especializados, frente aos milhares de brasileiros que precisam ainda acertar essa condição.

As reclamações mais comuns, traduzidas do “desabafo” de candidatos a eleitores, é o fator demora, conforme se depreende dos noticiários. Em verdade, embora nada entendamos do assunto, consideramos perfeitamente justificável a demora, pois dois motivos: primeiro, porque as medidas de precaução estabelecidas por lei exigem, naturalmente, morosidade dos trabalhos, uma vez que se trata de um assunto muito mais sério do que possa parecer para os menos avisados; segundo, porque é muito grande o número de interessados, em comparação do número de servidores especializados.

Em nossa cidade, não sabemos em que pé andam as coisas nesse sentido, porém, temos a impressão que o Cartório Eleitoral local está dando conta do recado com inteira satisfação. Até professores e funcionários públicos, têm sido colocados, em certas ocasiões, à disposição do MM. Juiz Eleitoral, para auxiliar nesses trabalhos.

Porém, o motivo de nosso comentário de hoje, embora relacionado com o assunto inicialmente focalizado, é outro.

Trata-se de uma providência que achamos digna de elogios, partida do DD. Juiz Eleitoral de Baurú. Segundo dá conta a imprensa bauruense, a referida autoridade eleitoral, objetivando facilitar ao máximo as inscrições de eleitores, organizou cartórios eleitorais volantes. Foi u’a medida que veio provar a boa vontade do aludido magistrado, em cumprir da mais perfeita maneira as suas espinhosas obrigações, facilitando, simultâneamente, aos que trabalham o dia todo, especialmente os operários. Assim é que S. Excia., organizou e pôs em prática, os referidos cartórios volantes, que atuam diretamente nos locais de grande concentrações, como, por exemplo, as ferrovias, industrias diversas, etc.

As notícias a respeito, não pormenorizam os resultados da iniciativa; no entanto, o próprio bom senso faz prever, antecipadamente, a certeza de que tais resultados serão os mais satisfatórios e elogiáveis possíveis.

Aí está uma idéia felicíssima e uma providência oportuna, que poderá mesmo servir de exemplo à outras cidades, principalmente as que se encontram com problemas, como os atualmente existentes na própria paulicéia.

Extraído do Correio de Marília de 12 de outubro de 1956

sábado, 11 de outubro de 2008

Irretorquível contraste (11 de outubro de 1956)

Sempre dissemos que não entendemos patavina de política, principalmente muita coisa que se processa por aí sob êsse nome. Em política financeira, então, somos “analfabetos” – se é que se póde usar tal têrmo. De finanças só sabemos espremer o que ganhamos o(u) fazer uma ginástica dos diabos, para equilibrar, no fim do mês, a “receita” e a “despesa”. Mas não ha dúvida, que no Brasil, a política econômica anda de mal a pior. Com excessão no Estado de São Paulo, diga-se de passagem. Graças ao tino econômico do atual Governador, ressalte-se sensatamente.

Existe, a êsse respeito, um contraste tremendo, entre a política econômica da União e do Estado líder. E é a êsse respeito que vamos falar.

São Paulo, como é do conhecimento de todos, já elaborou seu orçamento para o próximo ano. O Estado que é o coração do Brasil, vinha ha muitos anos, arrastando “déficits” sobre “déficits”, num perfeito atestado de desequilíbrio financeiro. Agora, prevê um “superávit” considerável. Para aqueles que pensam com razão e que não alimentam paixões políticas, mas que encaram as circunstâncias como de fato elas são, o motivo representa um orgulho. Um orgulho, porque traduz uma orientação financeira sadia, efetiva e indiscutível. Hoje nosso Estado já compra pagando à vista e gozando descontos.

O Sr. Jânio Quadros, dentro dessa sua linha política, confia bastante em seu Secretário da Fazenda, o Sr. Carvalho Pinto. E os dois homens, em comum identidade, têm, até aqui, procurado fazer um perfeito controle das finanças do Estado. Ninguem pode negar isso.

Já o mesmo não acontece na União. O Presidente da República, que a imprensa e seus adversários políticos apelidaram de “eterno viajante”, “judeu errante”, etc., não para no Catete. O homem é, sem sombra de dúvida, o Presidente que mais viaja, desde que somos república. Temos a impressão de que as verbas de representação que dispõe o Chefe da Nação são insuficientíssimas, antes as despesas que realiza em verdade, com tantas e tantas viagens. Por seu turno, o responsável pelas da União, o Ministro José Maria Alkimin (foto), de cuja administração anda muita gente dizendo “cobras e lagartos”, ao que parece, não está bem desincumbindo a espinhosa missão. Pelo menos, segundo se percebe, acaba de dar um exemplo considerado por alguns, até pejorativo. É que o Sr. Ministro da Fazenda viajou agora para o exterior. Vai tomar parte em inúmeras conferencias, como representante do Brasil. Muita gente anda pondo em dúvida a capacidade dêsse homem público, para discutir diversos assuntos que serão focalizados desses conclaves internacionais. Isso, no entanto, não importa. O que importa, é que o Ministro da Fazenda levou a família toda. Só deixou, ao que consta, os animais caseiros de sua propriedade. Mulher e filhos foram juntos. E secretários. E ajudantes. Enfim, um batalhão. Com verbas fabulosas de representação, traduzidas em milhares de dólares. Trabalho ou passeio? Não sabemos. O que sabemos é que não nos cheirou bem a comitiva familiar de um Ministro de Estado, para representar o Brasil em assembléia internacional, em paises estrangeiros. Se, para nós, humildes “escribas” do interior, causou espécie o gesto, o mesmo deve ter significado para a gente de fóra.

Fazendo-se um paralelo comparativo entre o Presidente da República e o Ministro da Fazenda e o Governador de São Paulo e seu Secretário da Fazenda, temos de convir que existe mesmo, nesse sentido, um gigantesco contraste.

Nada como o tempo, para dizer ou contradizer afirmativas ou pontos de vista...

Extraído do Correio de Marília de 11 de outubro de 1956

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A Semana da Criança (10 de outubro de 1956)

De hoje até o dia 17 do corrente, comemorar-se-á entre nós, a Semana da Criança. Relembrar os pequeninos seres que terão, amanhã, sôbre seus ombros, a responsabilidade de guiar os destinos da Pátria, é um gesto nobre dos adultos. Render um preito às crianças embora póssa parecer de pouca importância à primeira vista, significa uma obrigação de todos aqueles que têm sôbre sí, sob qualquer fórma, uma parcela de responsabilidade em dirigir ou educar, participando de algum modo com os problemas da vida daqueles que serão os homens de amanhã.

“Deixai vir à mim as criancinhas”, disse Jesús. Analisar ou descrever a majestosidade e a grandeza dessa frase carinhosa, é quase impossível. Encerra ela um exemplo dos mais dignificantes, como um espelho a refletir um áto que obriga a reconhecer e louvar o sentimento do Filho de Deus pelas crianças. E se o exemplo partiu daquele que foi perfeito, bom e santo, deve ser seguido por nós todos.

Não sabemos quais os programas que a respeito serão executados pelos diversos estabelecimentos escolares, acerca da aludida Semana da Criança. No entanto, a julgar pelas realizações dos anos anteriores, temos a certeza de o transcorrer da semana em referência merecerá os devidos destaques. E nem poderia ser diferente, principalmente em Marília, onde sempre os bons exemplos são cultivados com carinho e sem outras pretensões.

Render, portanto, um preito de reconhecimento às crianças, algo em especial, durante o transcorrer da semana citada, deve ser obrigação. As homenagens, por singelas que se apresentem, deverão calar profundamente nos espíritos infantis, agora em formação, para que estas mesmas crianças no futuro a reverenciar as novas gerações, tributando-lhes devida e necessariamente, as mesmas manifestações que hoje recebem.

Em especial, os marilienses, tanto aqueles que arcam com trabalhos de assistência social à infância, como os outros que dirigem, superintendem ou colaboram nesse campo, deverão dedicar um carinho especial àquelas crianças que embora conhecendo o conforto de um lar em nossa cidade, desconhecem o calor dos pais, o ambiente da própria família. Essas crianças, que se encontram na Filantrópica, no Lar da Criança etc., deverão merecer, durante o transcorrer da Semana da Criança, uma afeição ainda mais especial daquela que sempre receberam, para que bem compreendam o significado da homenagem, para que em seus espíritos possa incutir-se o exemplo de carinho e afeição com que os adultos as distinguem. Todo o conforto moral, material e espiritual que seja dispensado às crianças durante o citado período, afóra aquele que sempre tiveram direito representará uma das mais belas ações dos marilienses.

Extraído do Correio de Marília de 10 de outubro de 1956

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

U’a homenagem justíssima (6 de outubro de 1956)

Existem razões sobejas, para que nosso jornal venha se ocupando em destacar, durante tôda a semana findante, a homenagem que se tributará ao comendador Cristiano Altenfelder Silva, no dia de amanhã.

Ao par do importante marco de progresso que traduz a inauguração do Pavilhão infantil anexo à Santa Casa, cuja inauguração dar-se-á também amanhã, é mistér que se evidencie o autor da obra.

É imorredoura e inapagável, a gratidão dos marilienses, pelo seu saudoso fundador, Bento de Abreu Sampaio Vidal. Reconhecer os feitos e o amôr que o sr. Bento de Abreu Sampaio Vidal dedicou à Marília é um sentimento natural de todos aqueles que são marilienses autênticos, que pulsam e sentem amor por éstas plagas.

Acontece, que a óbra benemérita iniciada em Marília pelo seu fundador, prossegue agora na perpetuação dos átos de seu genro, o Comendador Cristiano Altenfelder Silva. Sem alardes, êsse homem vem dispendendo parte de sua fortuna em obras assistenciais de nossa cidade. E não são obras de pequena monta. São empreendimentos de vulto, de representação, necessárias, custosas. Ha pouco, tivemos inaugurada a Maternidade da Santa Casa, construída pelo Comendador Cristiano, que amanhã receberá significativa homenagem do povo mariliense. A maternidade referida, custou mais ou menos dois milhões e quinhentos mil cruzeiros. O Pavilhão Infantil, anexo à Santa Casa, que será inaugurado amanhã, custou, inclusive suas instalações, três milhões e quinhentos mil cruzeiros. Enquanto isso acontece, o benemérito cidadão, cuja gratidão Marília lhe tributa com a mais inteira das justiças, está construindo, atrás do nosocômio construído pelo saudoso Bento de Abreu, um majestoso Educandário, que custará aproximadamente três milhões ou mais de cruzeiros, destinado a acomodar meninos órfãos e desamparados.

Além disso, o Comendador Cristiano Altenfelder Silva vai proceder agora a reforma da Catedral e a construção de outra torre, construção de uma cripta interna e remodelação de todos os altares da Sé, cujos trabalhos estão orçados em quatro milhões de cruzeiros.

Dentro em breve, outro empreendimento deverá ser dado aos marilienses, por êsse homem que amanhã receberá o título de “cidadão benemérito de Marília”. Trata-se da construção da Igreja Santa Isabel, que terá lugar ao lado da Santa Casa de Misericórdia.

Vejam os leitores, o porque das homenagens, a razão de que tanto nos preocupamos durante tôda a semana, em destacar os motivos dêsse tributo.

E atentando para a óbra de benemerência e de amor por Marília e seu povo dêsse cidadão, atentem tambem nossos leitores, para o fato de termos entre nós, inúmeras famílias riquíssimas, que jamais se preocuparam a dispender, em favor do progresso de nossa cidade, alguma parte de suas fortunas.

Enquanto êsse homem que nem sequer reside entre nós (apesar de que êstes seriam os desejos dos marilienses) tanto amor tem demonstrado por Marília, temos aqui, marilienses autenticos, que vieram póbres e hoje são milionários, mas que jamais realizaram alguma óbra de vulto dedicada ao progresso da cidade. Muitos dêsses, quando assinam uma lista de contribuições para algum fim beneficente, fazem questão cerrada de faze-lo em plena Avenida, em presença do público.

O nome do Comendador Cristiano é uma bandeira.

Os nomes dos outros, por certo os leitores já advinharam.

As homenagens que amanhã serão tributadas ao Comendador Cristiano A. Silva, serão pequenas para expressar a inteira gratidão dos marilienses, àquele que é de fato um amigo de Marília e seu povo. Mas, dentro da insignificância com que se apresentam, em relação ao sentimento de gratidão que domina os marilienses, no gráu comparativo de suas realizações, ostentam, irretorquivelmente, aquela qualidade indistinguível e inapagavel, que se chama: sinceridade.

Extraído do Correio de Marília de 6 de outubro de 1956

domingo, 5 de outubro de 2008

O direito dos municípios (5 de outubro de 1956)

Positivamente, aquilo que ha pouco significava apenas um sonho, uma idéia nova, apesar de constituir-se num direito real que vinha sendo desconhecido e relegado a plano inferior, principia a tornar-se realidade, começa a fazer sentir seus primeiros frutos. Referimo-nos ao direito dos municípios, a cédula do progresso dos Estados e do próprio Brasil.

A descentralização, a urgência do reconhecimento do verdadeiro lugar dos municípios, o apôio governamental aos centros interioranos, começa já a colocar as comunas dentro de seu verdadeiro lugar, no palco da própria vida econômica da nação.

A bandeira dos municipalistas, não à custa de poucos sacrifícios e algumas incompreensões, vai vencendo a sua batalha nobre e das mais dignas. Nobre e das mais dignas, porque objetiva colocar na devida situação o direito inconteste das comunas de todo o Brasil. E êsse direito inconteste, é bom que se frise, não representa, nem de leve, nenhum favor dos poderes centrais para com as comunas.

Noticiamos ha pouco, a efetivação do pagamento devido pelo Estado aos Municípios, relativo ao excesso de arrecadação estadual sobre a municipal. Marília, conforme informou o “Correio”, recebeu as duas primeiras quotas dêsse direito, num valor total de mais de seis milhões e meio de cruzeiros. Tambem a União já está pagando a parte devida aos municípios, alusiva ao imposto de renda. Isso é um das vitórias do municipalismo, embora seja um direito dos municípios expresso em lei. No entanto, um parêntesi ilustrativo deverá ser feito ao fato, especialmente com alusão ao pagamento pelo Estado, das duas quotas dêsse excesso de arrecadação.

Deve-se reconhecer, sem sobra de dúvida, a atuação do atual Chefe do Executivo bandeirante a respeito. Temos mesmo as nossas dúvidas, se os municípios estariam agora, recebendo os citados direitos, se não existisse no Governo de São Paulo, um homem o atual Governador e a sua salutar e elogiável política financeira, um verdadeiro espelho de exemplos para os demais Estados da Federação.

E afirmamos tal fato, perfeitamente à vontade, porque, como sabem nossos leitores, somos completamente apolíticos. A verdade, no entanto, embora salte aos olhos de qualquer um, inclusive aos adversários políticos do Sr. Jânio Quadros, não póde deixar de ser reconhecida. O Sr. Jânio Quadros está realizando uma obra das mais dignas, no que diz respeito ao equilíbrio das finanças estaduais, concretizando aquilo que para muitos era absolutamente impossível, tal o estado de coisas e o círculo vicioso com que caminhava o Estado líder da União, arrastando, anualmente, seus “déficits” sempre crescentes, como uma bola de neve que despencasse do cimo de um desfiladeiro.

Em Novembro próximo, deverá o município de Marília, receber a terceira dessas quotas de excesso de arrecadação estadual sobre o municipal. O pagamento, como sempre, será efetuado pela Caixa Econômica Estadual.

Um fato importante a ser situado nessa questão, que deve merecer uma consideração especial para todos nós, é que essas quantias são entregues aos municípios sem quaisquer encargos ou obrigações. Isto é, o Estado faz a entrega do dinheiro, sem exigir ou mesmo insinuar o meio ou os processos de seu emprego. Pode, portanto, o município, aplica-lo como bem entender. Daí o estranhar-se, para o futuro, se os Srs. Prefeitos Municipais não se valerem da feliz oportunidade, para proceder melhoramentos indispensáveis em suas comunas.

Pelos balancetes financeiros publicados pela Prefeitura Municipal, percebe-se, facilmente, a explêndida situação econômica do município. Percebe-se, por outro lado, ao que parece, que jamais na sua história, o município de Marília esteve em situação econômica tão equilibrada, tendo, em disponibilidade, cerca de quinze milhões de cruzeiros. Aliando-se tal condição aos propósitos firmes e confessos do Sr. Prefeito Municipal, em atender aos reclamos do progresso sempre crescente de nossa querida Marília, é de se esperar, para breve, uma onda revolucionária de melhoramentos públicos.

Extraído do Correio de Marília de 5 de outubro de 1956

sábado, 4 de outubro de 2008

A onda aumentista da cidade (4 de outubro de 1956)

Oportuna proposição foi apresentada pelo vereador Aniz Badra, na última sessão da Câmara Municipal de Marília. O presidente da Associação Paulista de Municípios solicitou informações do Executivo, acerca do número de pedidos entrados na Prefeitura, por intermédio das partes interessadas, pleiteando aumentos de preços de diversos gêneros de utilidade, como o pão, frutas, aves, legumes, carne, café em xícaras, etc.. E mostrou-se o edil assustado e mesmo indignado com a onda aumentista que domina a cidade, quando verdadeiras “manobras” são executadas por pessoas ou grupos interessados, em detrimento do povo mariliense, já tanto sacrificado.

Citou S. S. o caso da elevação do preço do cafezinho, quando alguns bares da cidade, à bel prazer elevaram seu custo para um cruzeiros e cinquenta centavos, sem que, felizmente, tivessem obtido o apôio da maioria dos bares da cidade. Referiu-se também ao fato de um estabelecimento, que, tendo aumentado o preço do café em xícaras para Cr$ 1,50 e percebido depois que a maioria dos bares não acompanhou, baixou o custo dessa utilidade para cinquenta centavos.

O pedido constante do mencionado requerimento, depois de aprovado pela Casa, foi encaminhado ao sr. Prefeito Municipal, pois, conforme afirmou o vereador Badra, nenhuma tentativa de aumento de preços pode ser feita, sem prévia consulta aos poderes competentes sob pena de multas pesadas, estabelecidas por lei.

Na ocasião, o vereador Nasib Cury pediu um aparte, para externar suas dúvidas acerca da interpretação do disposto no artigo 3º da portaria da COFAP que autorizou o último aumento de preço do leite. Em verdade, entendemos que o espírito do citado não teria autorizado à Pasteurização local a elevar o preço do produto, sem primeiro ter encaminhado o pedido, perfeitamente justificado, ao sr. Prefeito Municipal, para o devido encaminhamento à COAP, uma vez que não existe COMAP organizada na cidade. Pelo menos foi o que pudemos deduzir da leitura do mencionado dispositivo. Isto quer dizer, em última análise, que o preço poderia ter sido aumentado, talvez em base mais sensíveis, porém só após os estudos respectivos e não de imediato, após a publicação da malfadada portaria aumentista da famigerada “dona” COFAP.

O requerimento do vereador Aniz Badra, serve para alertar os monopolistas e os interessados em esfolar cada vez mais os marilienses. É bom que a Câmara, que jamais tem descuidado desse pormenor, continue cada vez mais vigilante contra as “manobras” de algumas pessoas que pensam mais nos estômagos do que naquilo que se chama solidariedade; pessoas que só compreendem interesses próprios e que, apesar de alguém ter protestado, repetimos o que temos dito em outras ocasiões: pessoas que têm pedras em lugar de coração e cifrões em lugar de massa encefálica.

Extraído do Correio de Marília de 4 de outubro de 1956

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A “Mercedes Bens do Brasil” (3 de outubro de 1956)

Com a presença do Chefe da Nação e as solenidades de praxe, ocorreu na semana passada, o áto inaugural da fábrica de caminhões brasilerios, pela firma “Mercedes Bens do Brasil S/A.” Sem dúvida, um acontecimento de grande relevo na vida econômica nacional, um marco de progresso que vem a tornar-se realidade, já com um atraso de centena de anos. Positivamente, ao ensejo de tecermos um pequeno comentário à margem do significado verdadeiramente grandioso que representará êsse marco de progresso industrial no país, cumpre-nos afirmar que tal assunto deveria ser traduzido em realidade, já ha tempo.

Ao som do Hino Nacional, o Presidente Juscelino Kubitschek descerrou a placa comemorativa, contendo a legenda: “Nas estradas brasileiras, caminhões brasileiros”. A expressão foi tirada de um dos discursos do próprio Sr. Kubitschek, proferido por ocasião de sua campanha eleitoral.

Autoridades, imprensa, industriais, representantes do comércio e industria automobilística e convidados especiais, estiveram presentes ao áto. Foram visitadas as dependências e as instalações da nova e grandiosa industria, por todos os presentes.

Numa tribuna instalada defronte a um grupo de bloco de motores de caminhões, se fizeram ouvir vários oradores, tendo sido o primeiro a falar o Sr. Maurício de Andrade, um dos diretores da fábrica. Em nome dos operários da indústria inaugurada usou da palavra o Sr. Sebastião Euláio dos Santos. Seguiram-se com a palavra o Ministro Lúcio Meira e o Governador Jânio Quadros, que discorreram sobre o assunto e sua importância.

Por último, discursou o Presidente da República, saudando preliminarmente o povo paulista e o Governo de São Paulo.

“Estamos já agora em plena batalha do desenvolvimento, e caminhamos para a solução dos muitos problemas que entravam o nosso progresso” – salientou o Presidente, continuando: “a revolução de hoje é a do desenvolvimento nacional. É essa a revolução que o povo brasileiro deseja, espera e aplaude”. E mais adiante: “Não acalento outro ideal a não ser o de alcançar mar calmo, pacífico, para que o Brasil possa progredir na sua viagem para o desenvolvimento.”

Em verdade, aí está o ponto de partida de uma almejada nova era, que representará peso-ouro na balança da nossa independência econômica. Faz-se mistér que a ação dos governos se estabeleça ainda em maior escala, dando a mão à todos aqueles que pretendem colaborar com o Brasil, auxiliando-o nessa batalha de desenvolvimento preconizada pelo Presidente da República. Muita coisa que ainda importamos, escoando rios de dinheiro e divisas, poderá ser fabricadas aqui mesmo, fazendo a total independência industrial e econômica do Brasil, sonho do passado de muitos patriótas, que só agora propicia a apresentar seus primeiros efeitos.

Que a inauguração da “Mercedes Bens do Brasil S.A.” seja, pois o espelho dignificante de uma nova fase de progresso no parque industrial paulista, que é, sem sombra de dúvida, o mais significativo de toda a América Latina.

Que a semente óra lançada produza os frutos desejados para orgulho dos brasileiros e para felicidade de nossa Pátria, são os desejos de todos nós.

Extraído do Correio de Marília de 3 de outubro de 1956

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A mensagem dos “discos voadores” (2 de outubro de 1956)

O povo, de quase todos os quadrantes da terra, vinha de ha muito “descansando” das noticias e das “ameaças” de invasão dos famosos “discos voadores”.

Disseram-se tantas e tantas coisas acerca dêsses aparelhos, que muitos relatos a respeito chegaram a atingir as raias do absurdo.

“Viam-se” “disco voadores” a três por quatro.

Certa ocasião, comentamos o caso daquele rapazinho que jurava por todos os santos do céu, haver presenciado um “disco voador” aqui em Marília, lá pelos lados do Pombo!

Uma famosa revista carioca, chegou ao cúmulo e a insensatez de realizar uma montagem fotográfica, um verdadeiro truque, de flagrantes “batidos” de um desses aparelhos quando “sobrevoava” a Capital Federal!

Muita gente “viu” os “discos voadores”, menos nós, que ficamos com água na boca, de tanta vontade de apreciar tambem os curiosos objetos e seus exóticos tripulantes, que foram descritos sob multiformes aspectos.

Agora, segundo noticia o jornal britânico “Empire News”, os “discos voadores” irão enviar u’a mensagem à terra. O fato, conforme relata o citado órgão londrino, ocorrerá no próximo dia 7 de novembro próximo, às 22,30 horas, GMT. Para tal, os “discos voadores” deverão aproximar-se a uma altitude de 3.000 metros acima de Los Angeles, na Califórnia. Diz ainda a informação, que por ocasião da primeira mensagem dos “discos voadores”, avisando, é claro, a data e o horário do novo contacto, que os aparelhos prevenirão os terrenos, de que, se forem atacados, saberão defender-se!

Pelo menos, é o que afirma o jornal citado, que advertia os ingleses amadores de “discos voadores”, que a 7 de novembro, na hora aprazada, fiquem de escuta aos seus aparelhos receptores, a-fim de interceptarem a segunda mensagem.

A notícia, procede dos Estados Unidos, como seria de se esperar. Acontece que um conhecido homem de negócios, britânico, que é um dos diretores do mensário popular “Revista dos Discos Voadores”, afirmou nas páginas do órgão que dirige, que a notícia é “autêntica”.

Ao lermos o fato, ficamos novamente pensando como são “felizes” os povos que “viram” e agora vão “ouvir” a mensagem dos “discos voadores”. E a gente aqui “torcendo” para ter uma “chancezinha” igual!...

Nessa questão, nós ainda somos apologistas de São Tomé...

Extraído do Correio de Marília de 2 de outubro de 1956

“Óleo negro” (2 de outubro de 1946)


José Padilla Bravos

Para aqueles que alimentam as razões simplistas de carater pejorativo, ou para aqueles apaixonados, que rezam por cartilhas de sentimentos contrarios aos genuinamente nacionais, por certo, a notícia do jorro do petróleo veiu em má hora.

Em má hora convenhamos, na concepção doentia e na mentalidade feirante dessa gente, que, ou não pulsa com a vida brasileira, ou aspira transformar estas terras, em colonias escrevas de outras raças e de outros costumes.

Para aqueles outros, que arfam e se sentem derramantes de orgulho, por estarem sobreados pelo sacrosanto Pavilhão Verde e Amarelo, o motivo ostenta um prisma diferente, um aspecto diverso, um encare contrário.

Não poderia ser diferente e nem tãopouco seria possivel, que vingassem quaesquer motivos de apatismo, pelos interesses nacionais, por parte daqueles que têm amôr à esta Terra de Santa Cruz e, que, pugnam pelo ideal de brasilidade. Aqueles indivíduos que defendem estas plagas, pensando por elas, apontando suas vagas e opinando sobre suas ações, e, labutando em suas terras com o único interesse e dever, que lhes são outorgados por Deus, de serem filhos diletos das cálidas regiões brasileiras.

Se os desnaturados é que não desenfream os cérebros, para pensar pela grande pátria brasileira e pelo seu futuro, para coadjuvar ideais e consorciar sentimentos, comungando princípios idênticos!

Um motivo se transparece agora, na realidade dos anseios nacionais, e no sonho lúgubre dos que ainda acreditavam, que, outros povos subjugariam nossos nativos. É a história do sangue da terra brasileira, o petróleo nacional.

Devanearam as imagens desconexas dos que são pela inatividade e retrospecto do Brasil, e, ferveram borbulhantemente, os sentimentos patrióticos dos que formam na marcha do desenvolvimento nacional.

O Brasil já deixa jorrar de suas entranhas, o “ouro negro” em abundancia, em proporções tais, de coloca-lo com saliência entre os maiores produtores de petróleo do mundo!

Não mui distante da Capital Baiana, no distrito de Candeias, acaba de se atestar, materialmente, a produção de petróleo, superior a mil e oitocentos barris, ou sejam, cerca de duzentos mil cruzeiros diários.

O referido poço, é o maior do Brasil, têm a profundidade de setenta metros, custaram seus trabalhos de perfuração apenas seiscentos mil cruzeiros, e, pelas comprovadas caracteristicas de produção e pelas excelentes qualidades do produto, é um dos mais importantes do mundo!

Cabe agora, ao governo da União, apoiar, proteger e garantir o seguimento e as explorações dessa ordem. Já prevemos que todas as providencias serão desdobradas e antevemos que, na realidade, teremos distilada a gazolina nacional, e, outros produtos oriundos do “óleo negro”.

Esta terra não desaponta, os que por ela trabalham ou os que a lavram, e, aí temos uma das mais convincentes provas, parte do grande rosário de eloquências, que constantemente estamos provando com justo e paradigmo orgulho.

Extraído do Correio de Marília de 2 de outubro de 1946

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Amôr à terra (1º de outubro de 1946)


José Padilla Bravos

Ainda podemos encarar este Brasil com otimismo, em quase todos os seus pontos de vista naturais.

É bom demais, e é pena, que alguns nativos desnaturados ou alguns estrangeiros mal agradecidos ou menos reconhecidos, queiram levá-lo ao jugo totalitário de doutrinas exóticas, apunhalando-o pelas costas, traiçoeira e covardemente.

Verdade, é que temos as nossas falhas, que jamais fugimos em reconhecê-las. Pelo contrário, temos o desprezível habito de desvalorizar e desmoralizar o que é nosso próprio, mesmo o que ainda possue algum valor e algum moral.

E a arma que empunha essa classe de indivíduos, para lutar conôsco mesmo e com o Brasil, é a difamação, a calúnia, o anonimato e outras do mesmo ról.

Mas, nossos atrazos na modernização do século, tem suas justificativas, e, qualquer pessôa de bom senso não se esvairá em aceitar ou reconhecer.

Em primeiro lugar, nossa terra foi descoberta, explorada e abandonada por mais de meio século, onde se transformou num covil de ladrões e aventureiros. Depois, muito tempo continuou-se a explorar êste sólo, rudimentarmente, sem pressa alguma. O Brasil tornou-se terra de exílio, de aventuras, de explorações.

O Brasil é demasiado grande territorialmente, e os homens que lutaram por êle nas fáses iniciais, foram poucos e o fizeram sósinhos.

O brasileiro é o tipo do “deixa como está para ver como fica”, inegavelmente. Portanto, não se teçam comparações com êste ou aquele país, quanto ao desenvolvimento. A culpa é nossa, que somos um povo inculto, uma população quase integralmente analfabeta. Porisso mesmo, u’a mentalidade incapaz de traduzir para nós próprios, as nossas necessidades prementes, o papel do nosso próprio futuro. É uma espécie de preguiça mental, que só agora ameaça a ser interpretada e excluida, para que possamos integrar a mesma marcha do mundo contemporâneo.

Esperamos e confiamos muito nos estranhos e experimentámos uma série de contratempos, que poderiam ser evitados, se nós próprios houvessemos nos preocupado um pouco mais, com “estas terras que têm dono”.

Um século atraz, o número dos brasileiros, excluindo os indígenas, éra ínfimo. Ínfimo e ignorante. Os estrangeiros vieram para se enriquecer e não para levantar o nível do Brasil, que descoberto apenas oito anos após a América, já se encontrava numa fáse de atrazo, proporcional e idêntica à que hoje nos diverge dos Estados Unidos!

Fomos um povo pobre e miserável da luz do saber. Agora principiamos a compreender realmente, o que é o amôr à terra.

Compreendemos isso, de que nossa pátria reenceta o verdadeiro caminho de seu porvir, esses elementos traidores, tentam os últimos recursos, procurando convencer os que ainda não concluiram a mesma razão de que de fato “ésta terra têm dono”.

Mas agora é tarde. Os que sonharam azoidamente, entregar estas plagas à outros povos e outros costumes estão vendo e assistindo, telepaticamente, o desmoronamento desses castelos e o andamento do próprio funeral dessas ilusões.

Este Brasil sempre ha de ser brasileiro!

Extraído do Correio de Marília de 1º de outubro de 1946