segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Um movimento justo (31 de janeiro de 1959)

Com toda a certeza, os populares que transitaram na tarde de ontem pelas proximidades da Delegacia Regional de Polícia, deverão ter estranhado o movimento incomum e a presença desusada de gente mariliense, nas imediações da mencionada repartição pública.

É que a sociedade e povo mariliense, representados pelas suas mais significativas autoridades e pelas diversas entidades de classe, alí convergiram, com o escôpo de unirem-se em torno de um apêlo, que foi dirigido ao Sr. Secretário da Segurança Pública, solicitando a permanência do Dr. Francisco Severiano Duarte, no cargo de delegado regional de polícia de Marília, sustando-se a sua remoção, para igual posto, na cidade de Presidente Prudente.

O áto demonstrou, mais uma vez a coesão de sentimentos e forças de Marília, como sempre tem acontecido, quando se trata de reivindicar operações de interesse público. Foi u’a manifestação espontâneo, que se caracterizou por um espírito de democracia dos mais elogiáveis. Foi uma demonstração de carinho e alto apreço, em reconhecimento aos serviços inestimáveis, que até aquí prestou aos marilienses o Dr. Severino Duarte. Policial de atitudes cavalheirescas e de gestos paradigmos de uma autoridade consciente, conseguiu, desde os primeiros momentos que principiou a conviver conosco, a simpatia e o respeito de todos. Trouxe, com sua ação enérgica precisa, honesta e imparcial, a garantia da maior segurança pública a toda a família mariliense.

Fino no trato, hábil em seus mistéres, o Dr. Severino tornou-se credor de estima geral. Daí a razão pela qual os marilienses, coesos, buscaram, democraticamente, solicitar do Sr. Secretário da Segurança Pública (ao par das demonstrações do júbilo ocorrida com a sua promoção), que o mesmo fôsse mantido à testa da regional de polícia local.

Para nós da imprensa, a personalidade do Dr. Severino Duarte ostenta uma condição ainda mais especial. Sempre foi uma autoridade solícita e prestativa para com a crônica. Soube colocar-nos numa consideração elevadíssima, de maneira tal, que jamais ficássemos tolhidos em nossas liberdades de críticas, quando estas se fizeram mistér. Soube sempre prestigiar a crítica livre, agradecendo tudo que por ventura fizéssemos como colaboração e aceitando algumas referências que tivéssemos feito, em qualquer situação, com o fito de censuras. Isto é, prestigio-nos, sem que êsse prestígio lhe servisse de escudo para que o intocássemos. São qualidades apreciáveis para os elementos da imprensa, habituados a receber considerações desencontradas, algumas vezes de qualquer menos importante cidade, uma vez que a maioria dos homens, sente-se eufórica quando elogiada e propensa a “levantar o topéete” e querer brigar, quando se lhe pisa, por leve que seja, um “calo de estimação”.

Justo, portanto, foi o movimento ontem encetado pelo público em geral. Esperemos que o Sr. Secretário da Segurança Pública bem acolha o pedido dos marilienses, enviado de todo seu conteúdo, da mais sadia e leal das intenções.

Extraído do Correio de Marília de 31 de janeiro de 1959

domingo, 30 de janeiro de 2011

As invenções... (30 de janeiro de 1959)

Apregoamos de boca cheia, como num gesto de menosprezo aos nossos pais e avos, que hoje vivemos num mundo diferente, graças a uma série de modernas invenções.

Acontece, que apesar de tanto progresso e tanta melhoria, ainda vivemos iludidos com muitas “maravilhosas” invenções deste século.

No setor eletrônico, de acordo com os cientistas, demos mais saltos do que cangúrus africanos. Entretanto, um radiozinho rudimentar que tenha 20 ou 25 anos, ainda é melhor, mais positivo e menos “enguiçador” do que altas fidelidades, transistores, etc...

Um “binga” daqueles de pedra lascada e chumaços de tecido, aprovam ainda mais do que isqueiros eletrônicos de centenas de cruzeiros.

O setor automobilístico, ainda temos o “pé de bóde”, de 1928, provando que braço é braço, para muitos “Cadillacs” e “Bel Airs”.

Agora, a chamada moderna “moda saco”, vem provar que nada mais se trata de u’a imitação alterada para pior, dos modelos de vestidos de mil oitocentos e tantos.

Os calcados modernos, são desconfortáveis, apesar do sustentado “conforto” que apresentam. As formas anatômicas de qualquer vestuários, impedem movimentos, prejudicam o transpirar normal do corpo humano.

Não que tenhamos regredido em tudo e por tudo; mas que muitas modernas invenções não passam de motivos ilusórios e de truques comerciais, isso não tenham dúvida. Nesse particular, ainda pensa melhor o caboclo brasileiro. Para ele, dentro de suas posses e facilidades, tenta aliar o bem estar e o conforto. Pouco se lhe dá se o chamam de caipira, porque enterra o chapéu no côco, sem tomar sól que nós, da cidade, apanhamos o dia inteiro. Pouco se lhe importa se é feio ou não usar lenço no pescoço; para todos os efeitos, é mais gostoso do que um colarinho engomado e uma gravata apertada dificultando os movimentos do “pomo de adão”.

Se ele gosta de cebola, como quanto quer e quando pôde, sem se importar, como nós, com o “bafo de gibóia”. Se gosta de sanduíche de mortadela, devora-o em qualquer lugar, o que não acontece conosco, que mesmo gostando, sentimo-nos pejados em encomendar um desses alimentos de póbre num bar da cidade.

As invenções, portanto, principalmente dessas chamadas modernas, ainda não supriram em tudo e portudo as peças rudimentares e originais. Mesmo o trator, muitas vezes, não faz os serviços de um simples arado “bico de pato” ou de um carro de bois. O melado, a rapadura e a aguardente, ainda continuam a ser superiores quando fabricadas pelos processos antigos. O café torrado na panela de barro, ainda é mais saboroso do que o preparado em torradores eletrônicos. O pão, assado em fornos de barro continua a ser mais apetitoso do que o cozido em forno moderníssimos. E assim por diante.

A gente compra uma caneta tinteiro caríssima, moderna. Esquece de verificar a carga de tinta e numa ocasião em que mais se precisa dele, “babáu”. Ou senão, mal tampada, derrama-se no interior do bolso. O mesmo acontece com o isqueiro moderno. Quando mais se necessita de seus serviços, o mesmo falha.

As espingardas “pica pau”, ainda continuam a ser mais positivas do que as cartucheiras modernas, com a munição já confeccionada, que hoje em dia falha mais do que a linha do Palmeiras.

E vamos por aí afóra.

E pensando nisso, pensamos com nossos botões: Será que progredimos mesmo de fato e muito no setor da modernização de nossas utilidades?

Extraído do Correio de Marília de 30 de janeiro de 1959

sábado, 29 de janeiro de 2011

Programa de salvação nacional (29 de janeiro de 1959)

Poderá parecer pessimismo, derrotismo ou pejorativismo. Poderá parecer mesmo a existência de razões simplistas, de caráter abjeto.

Poderá parecer muita coisa mais, tudo o que se tem dito e escrito, acêrca do atual govêrno da nação; entretanto, verdade é que se diga que muita coisa do que se tem propalado, em rítmo de criticas ao atual Govêrno da República, apresenta a sua porcentagem de inquestionáveis razões.

O sr. Juscelino Kibtschek precisa, urgentemente, elaborar um programa de salvação nacional.

Não há derrotismo nesta afirmativa; pelo contrário, existe na mesma, muito patriotismo e muito amor pelo Brasil e pelos brasileiros.

Em tôda a história da nossa República, jamais desfrutamos uma condição tão critica na vida nacional como presentemente. Quase não existem ângulos da administração federal, que não sejam passíveis de censuras que não apresentem motivos e ensejos de críticas diretas.

A inquisição está latente, envolvendo tôdas as camadas e condições sociais e o sr. JK precisa utilizar meios, para evitar um pânico ainda maior. Todos os orçamentos domésticos encontram-se completamente desorganizados; em virtude da elevação dos gêneros de principal utilidade. Os preços não devem e não pode continuar subindo pirotécnicamente, empurrando o país e o povo para o desasossego crônico.

Tentou o Presidente a redução dos impostos e taxas alfandegárias, objetivando a importação de diversos produtos, com o fito de um contrabalanceio da situação e detenção da alta do custo de vida. E, ao invés de contornar-se o problema, criou-se a incentivação e por assim dizer, a alta oficializada, com a elevação imoderada dos ágios de importação!

Nessas condições, o próprio Govêrno, talvez sem o pretender e talvez ainda sem o saber, está estimulando o espiral inflacionário, numa de suas mais perigosas origens.

O próprio Govêrno, adquirindo o dólar para importações de produtos essenciais à economia nacional, pelo preço de 75 cruzeiros e vendendo-o até a 259 cruzeiros por unidade, está, êle próprio, estimulando a alta do custo de vida!

Com tais ações, o Presidente da República vai caminhando para a própria perda da autoridade e da confiança popular, apanágios de primeiras grandeza para um dirigente. E perdendo a autoridade nêsses sentidos, torna-se impotente automaticamente, para combater a elevação altista do custo de vida, tornando-se pusilânime para estancar a especulação que tão impunemente campeia por aí, fazendo-nos acreditar que muita coisa existe “fora dos eixos” no país.

Temos em nós, que o próprio povo não regateará ao sr. Presidente da República, o apoio e a colaboração irrestritos, desde que sejam patentes as medidas bem intencionadas, no sentido de melhorar um pouquinho a situação aflitiva do povo brasileiro, confeccionando e ponto em prática, um autêntico programa de salvação nacional.

Para isso, entretanto, o sr. JK necessitará permanecer mais no Catete e olhar com mais assiduidade as condições de vida do povo brasileiro e menos para a construção de Brasília. Porque, do jeito que as coisas caminham, o sr. Juscelino não está construindo a nova capital federal; está é construindo seu nome à custa do sacrifício de 50 milhões de brasileiros!

De nossa parte, estamos dispostos a melhor prestigiar o Govêrno da União, desde que êle próprio desejo fazer-se merecedor dêsse prestígio.

Extraído do Correio de Marília de 29 de janeiro de 1959

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma Faculdade pouco prestigiada (28 de janeiro de 1959)

Não se trata, em verdade, do prestígio oficial, do prestígio público. Trata-se, isso sim, do pouco prestígio por parte daqueles que mais do ninguém, em maior número, deveriam acercar-se dessa escola, para alí haurir as luzes da ciência.

O resultado de lutas de mais de uma década, surgiu agora, mercê do despreendimento do próprio povo mariliense, através de seus poderes constituídos, sua classe estudantil, sua imprensa e seu rádio e suas entidades representativas. E, sobretudo, graças ao espírito administrativo do Governador Jânio Quadros.

Temos, portanto, a nossa Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

Mas, pelo que estamos informados, a mocidade em condições de afluir ao citado núcleo do saber, não está correspondendo plenamente. O prazo das matrículas para o curso vestibular, foi dilatado e prolonga-se-á até o próximo dia 5 de fevereiro, como u’a medida de maiores facilidades para os interessados.

Verdade é que a inauguração, abertura de inscrições e prazo determinado para início das aulas foram simultâneos. Mas, pelo que estamos inteirados, o número dos candidatos, especialmente os chamados “da terra”, está sendo apresentado como muito aquém daquilo que seria de esperar.

É urgente que o interesse seja despertado num índice maior e mais positivo, desde o início. Estudantes de outros centros, correram logo para Marília, em busca de nossa Faculdade, numa demonstração de que melhor do que nós próprios, souberam apreciar a importância dessa grandiosa óbra, realização magnífica do ensino superior.

Alí não se cingirão os ensinamentos, unicamente ao fato da preparação de mestres do ensino secundário; se bem que éssa seja uma das finalidades destacáveis da escola, formação de cientistas e pesquisadores é também função precípua e especifica da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

E é pena, que muitos jovens, em idade e condições da realização desses cursos, tendo a facilidade de possuir esse núcleo aquí mesmo entre nós, descure tanto dessa vantagem, dessa oportunidade pela qual tanto lutamos e com a qual outros milhares de jovens sonham, estando impedidos, por motivos vários, da efetivação dêsse ideal.

Ficamos verdadeiramente espantados, quando a professôra Jô nos afiançava, ainda há pouco, que o número das inscrições até agora, não estava correspondendo ao objetivo colimado.

De fato, é incrível mesmo, que isto venha se registrando até aquí. A rigor, é inexplicável a existência desse fenômeno, pois antes da concretização desse antigo ideal, tínhamos interessados e candidatos em profusão. Certa feita, fizemos parte de uma caravana de sessenta estudantes de ginásio e cursos científicos e clássico (30 moços e 30 moças), que rumou para São Paulo, onde foi reivindicar, de viva voz, ao então Governador Lucas Garcez, a criação da Faculdade. E nos recordamos muito bem, quando o então Chefe do Executivo bandeirante, demonstrando satisfação pela visita, dissera, mais ou menos, as seguintes palavras: “Feliz a cidade, cujos filhos empreendem uma das mais justas lutas, que a luta pela criação de novas escolas. O exemplo destes jovens é digno de admiração e das atenções de meu Govêrno”.

E, na ocasião, todos os estudantes que integravam a caravana referida, afirmavam categoricamente, os desejos irrefutáveis de sentarem um dia, nos acolhedores bancos da Faculdade que seria criada em Marília e que hoje é essa realidade palpável que todos conhecemos.

Lembramos ainda, que, tendo um enviado da Reitoria da Universidade de São Paulo, aquí vindo certa ocasião, com o objetivo de “sondar o terreno” e oferecer relatório consubstanciado sôbre as possibilidades e comportamento da instalação do curso pleiteado, teria apresentado à U.S.P. um subsídio contrário à criação da Faculdade de Filosofia, por motivos estranháveis para nós. E nos recordamos perfeitamente, os efeitos que causara no seio estudantil, a notícia dessa versão. Quasi Marília se levantou em “pé de guerra” pelo fato, numa demonstração de desagrado pelo acontecido e numa hipoteca insofismável de que queria, de fato, a Faculdade de Filosofia e por ela lutaria com todas as suas forças.

Efetivamente, Marília lutou com todas as suas forças. Lutou e venceu. E venceu bonito.

Agora, depois de vencer bonito, está fazendo feio, no que concerce a pouca preferência demonstrada, com respeito ao ingresso em nossa escola oficial superior.

Está, portanto, sendo pouco prestigiada a Faculdade de Filosofia. Não pelos poderes constituídos, não pelo povo, repetimos; por aqueles que, em menor número, deveriam afluir àquele centro do saber!

Extraído do Correio de Marília de 28 de janeiro de 1959

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

“DÁ O MEU BONÉ” (27 de janeiro de 1959)

Não pensem os que não nos conhecem, que somos aversos ao esporte, maximé ao futebol. Gostamos do pé de bola e, quando crianças, não fugimos à regra integralizada pela legião de garotos, que principia chutando bolas de meia, depois de borracha e termina com as pelotas de “capotão” nas várzeas ou arrabaldes da cidade.

Quando as pequenas qualidades amadoristas tiveram que ceder lugar ao “dependuramento de chuteiras”, continuamos ainda coesos ao lado dêsse esporte, trabalhando pela divulgação e difusão do mesmo, como cronistas.

E isso fazemos há muitos e muitos anos, com a mesma satisfação inicial.

Dentro de nossas condições de críticos esportivos, jamais nos deixamos levar pela paixão, nem mesmo quando esta transbordava da consciência da maioria e arrastava em seu caudal imenso, opiniões desencontradas até dos mais céticos.

Censuramos quando foi preciso e elogiamos quando se fez mistér, porque essa é a verdadeira função do comentarista de esportes, que deve apresentar como identidade, antes de mais nada, os atos marcados pela independência e neutralidade de apreciação dos fatos.

Insurgimo-nos com respeito aos excessos, inclusive de cunho oficial, que foram dispendidos (outros prometidos, tão sòmente) aos campeões mundiais de futebol. Condenamos o endeusamento desnecessário e desmedido, sem jamais termos deixado de louvar a grande conquista.

Agora, temos conhecimento de um fato, verdadeiramente vergonhoso, dentro do esporte profissional carioca. A questão do prêmio aos jogadores vascaínos, que conseguiram sagrar-se campeões de um torneio regional, chamado de “super”, “super-super”, “hiper” e “ultra”.

É que a direção do Clube da Cruz de Malta, satisfeita e eufórica com a conquista do título tão ansiosamente cobiçado, decidiu oferecer um “bicho” de 30 contos de réis a cada um de seus “players”.

E sabem como foi recebida a proposta da direção vascaína? Com escárnio, por parte dos jogadores. Com imposição e arrogância anti-esportiva e anti-disciplinar, e, o que é mais grave, com verdadeiro e acintoso espírito de prepotência e convencimento dos mais condenáveis!

O “capitão” Bellini, ao ter conhecimento do “quantum” que representaria o “bicho”, ficou mais “leão” do que realmente fôra dentro de gramado. Gritou e esperneou, porque falava, como “captain”, em nome dos seus companheiros. E aduziu que o prêmio de 30 mil cruzeiros representava uma “quantia irrisória”!

Vejam os senhores, como está desmoralizado e disvirtuado o sentido puramente esportivo do futebol profissional neste país, e analisarmos a questão, sob o ponto de vista moral, deduziremos com facilidade, que só imoralidade existe hoje, regra geral, no profissionalismo futebolístico nacional.

Numa época de dificuldades como o presente, numa ocasião em que a própria nação se debate dentro de um lamaçal de inflação, à margem de um abismo econômico sem precedentes na própria história, é de lamentar-se a existência de um espírito “esportivo” como o que aconteceu com as declarações dos vascaínos, que foram divulgadas por toda a imprensa esportiva do Brasil!

De nossa parte, ouvimos as mais desairosas referências ao gesto em apreço. Quem emitiu conceito a respeito, foi o próprio povo, em sua expansão natural, com o credenciamento da autoridade de sofredor, em consequência de uma série de coisas erradas que vêm acontecendo ultimamente no Brasil.

E, se “vox populi, vox Dei”, só mesmo parodiando o falecido Heber de Bôscoli, para afirmar:

- “Dá o meu boné...”

Extraído do Correio de Marília de 27 de janeiro de 1959

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

PEQUENOS TÓPICOS (24 de janeiro de 1959)

Faleceu em Hollywood, Cecil B. de Mille, um dos mais renomados pioneiros da indústria cinematográfica norte-americana. O velho cineasta desapareceu com a idade de 77 anos e notabilizam-se pela excelencia de suas notáveis produções, que contrastam flagrantemente com a maioria dos “abacaxís” autis, conhecidos como películas ou histórias cinematográficas,

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Amanhã, o Governador do Estado vai ser homenageado por numerosos prefeitos do interior. Sabe-se que aproveitará o ensejo que se lhe vai oferecer para neutralizar as explorações políticas que se fazem, em certos círculos, a propósito do discurso que proferiu há dias em Bauru. O chefe do Executivo dirá, então, que absolutamente não fez, como se assoalhou, a apologia da ditadura implantada pelo marechal Tito, na Iugoslávia.

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De São Paulo regressará hoje para os Estados Unidos, o ator “cow-boy” Roy Rogers, que se encontra no Brasil desde domingo último, tendo visitado Brasília, onde pretende comprar terras.

Não está funcionando bem a propaganda do Sr. Kubtschek?

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Já que estamos falando em Brasília e sôbre a propaganda da nova Capital, é bom ratificar os efeitos psicológicos da mesma.

Por ocasião da inauguração da nossa Faculdade de Filosofia, o prof. Teixeira de Carvalho, Reitor da Universidade de São Paulo (e na ocasião, representando o Governador), por duas vezes (uma no Restaurante Marília e outra na mencionada escola), ao citar o nome de nossa cidade (Marília), foi traído pelo subconsciente e disse: Brasília!

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O Dr. Ricardo Galeazzi-Lisi, ex-médico do falecido Papa Pio XII, acaba de apelar contra a medida que o expulsara da Ordem dos Médicos da Província de Roma.

Como se recorda, o Ordem referida tomou a deliberação citada, com fundamento nos seguintes fatos: venda de pormenores sôbre a agônia do Santo Padre a um jornal, bem como a uma agência de semanários de carater não científicos; venda de fotografias sôbre os derradeiros momentos, da vida do antigo Papa, a órgão de imprensa igualmente sem fundo cientifico.

Não se sabe ainda o resultado da apelação.

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Notícias do Rio, não confirmadas e nem desmentidas, dão conta de que o Brigadeiro Eduardo Gomes teria formulado um apêlo aos deputados udenistas, no sentido de votarem em pról da emenda à Constituição de 1946, que visa criar os cargos de conselheiros da República.

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Tendo em vista as chuvas torrenciais que caíram sobre varias cidades do interior, alagando-as e provocando grandes danos materiais, o governador do Estado determinou às secretarias da Saúde e da Viação a constituição de dois grupos de trabalhos, dos quais participarão engenheiros do DOP e DER, elementos do DAS da Secretaria da Saúde e assistentes do Serviço Sociais do Estado, para procederem “in loco” ao exame da real situação em que se encontram as comunas atingidas.

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Os deputados Frota Moreira e Ivete Vargas estão desde já trabalhando pró eleição do Sr. Jango Goulart à Presidência da República em 1960. Entendem esses dois parlamentares, que o atual Vice-Presidente da Nação é o mais credenciado político para fazer frente à candidatura Jânio Quadros ao Catete.

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Por medida de precaução e em face dos últimos e graves acontecimentos verificados em Pindamonhangaba, o delegado regional de polícia de Taubaté determinou o fechamento dos cinemas da cidade de Pinda.

Assim, enquanto a COMAP não se manifestar a cêrca do tabelamento dos ingressos das citadas casas, cuja elevação fôra arbitrada à bel prazer, provocando descontentamento público, permanecerão fechados os cinemas da mencionada cidade da Central do Brasil.

Extraído do Correio de Marília de 24 de janeiro de 1959

domingo, 23 de janeiro de 2011

O Dia do Município (23 de janeiro de 1959)

Aproximamo-nos de 4 de abril, a data magna da municipalidade mariliense.

Comemorará a cidade, o transcurso de seu 30º aniversario de independência político-administrativa. Uma data bonita, como se vê. Uma efeméride gloriosa, marcando um dinamismo áureo de um centro extraordinário pelo seu progresso e representação em todos os sentidos, sob todos os prismas.

Uma coisa assim, comparada à criança-prodígio, que tendo 10 anos registrados pela certidão de idade, apresenta ações e responsabilidades consciente de um adulto.

No ano passado, aconteceu um fato curioso, com respeito à igual data em apreço.

A Comissão Especial, incumbida para tratar dos festejos do aniversário da cidade, adiou as citadas solenidades, em vista da data ter coincidido com a passagem da Sexta Feira Santa. A prorrogação deixou claro que as comemorações em tela dar-se-iam em anexo às festividades do cinquentenário da imigração japonesa, quando Marília receberia oficialmente os príncipes do Sol Nascente.

Todos esperaram o adiamento prometido, mas o mesmo ficou “no tinteiro”, sem que a comissão houvesse, pelo menos, apresentado uma justificativa ou desculpa ao público.

Êste ano, a coincidência da Semana Santa já está fora de possibilidades.

Nós jamais fomos partidários de dispêndio dos dinheiros públicos para festanças populares; entretanto, devemos reconhecer que compete aos poderes constituídos locais, coadjuvados pelo comércio, indústria e mesmo particulares, comemorar condignamente, embora de maneira modesta, a citada efeméride.

Assim, lembramos ao sr. Prefeito e aos srs. Vereadores, da necessidade de olhar-se já para essa questão.

Existindo, como parece existir, discrepância e multiplicidade de intentos para comemorações do evento, em carater particular, de bom alvitre seria a harmonização de todos os marilienses que se emprenham nêsse sentido, a fim de que da conjugação dessas providências, pudessem todos os que se encontram nessas condições, constituir mais alguns elos para que a corrente das providências oficiais mais se fortalecesse e melhores resultados apresentasse.

O que não deve acontecer, é a repetição da inatividade verificada no ano passado pela comissão referida, que nem sequer, depois do adiamento e da não realização das solenidades, nem sequer deu uma palavra de esclarecimento ou satisfação aos marilienses.

Talvez pensando nisso, é que já estejam surgindo os primeiros passos no sentido das comemorações populares e extra-oficiais acêrca da data. Já se fala em que a equipe mista do Corinthians Paulista virá à Marília na ocasião, a fim de exibir-se aos aficionados do esporte em nossa cidade. Contra qual adversário, é que não sabemos, pois não temos futebol, à exceção de um pugilo de rapazes, que faz das tripas o coração, envergando camisetas varzeanas.

Propala-se também a realização do maior desfile cívico jamais visto em Marília, onde tomarão parte tôdas as fôrças vivas da cidade; já está programada uma Jornada Odontológica em Marília.

Só essas três iniciativas, aliadas às providências oficiais que por certo deverão surgir, já constituirão em dois grandes motivos para as comemorações do aniversário do município.

Por outro lado, o comércio e a indústria, poderão enfeitar suas casas comerciais e vitrines, com dísticos, fatos e motivos alusivos ao acontecimento.

Os “pracinhas”, por sua vez, poderão também armar e exibir o “museu relâmpago”, como um motivo de homenagem à data, ilustrando as solenidades.

Indústrias como a Bavária, Pastifício Marília, Zillo, Matarazzo, Clayton e outras, se solicitadas, não se furtarão a colaborarem no que for preciso, como jamais deixaram de fazê-lo.

A Emprêsa Pedutti, por certo, também cooperará se chamada. E muitas outras.

Poderão assim em Marília, caso haja a possibilidade aventada, comemorar condignamente a passagem do trigésimo aniversário do município, que tenha o erário público que dispender quantias fabulosas e mal empregadas. Alias, já vimos no passado, que podem ser feitas muitas coisas nêsse sentido.

Como ainda é cedo, à guisa de colaboração, deixamos êste lembrete antecipado.

Extraído do Correio de Marília de 23 de janeiro de 1959

sábado, 22 de janeiro de 2011

O “estouro” da paciência (22 de janeiro de 1959)

Acontecimentos trágicos, desenvolveram-se recentemente na cidade mineira de Uberlândia. U’a multidão enfurecida, depredou cinco cinemas daquele extraordinário e adeantado centro montanhês, inutilizando quasi completamente as mencionados casas de espetáculos e ocasionando prejuízos de grande monta.

A análise do fato, não é tão fácil assim, como à primeira vista póssa parecer. O problema que originou êsses resultados, encerra a sua faceta de complexidade.

A atitude não póde, de afogadilho, ser condenada, da mesma maneira que não póde ser apoiado. U’a análise de meio têrmo deve ser a função especifica da questão.

Se, de um lado, é passível de censura todo o áto marcado pela revolta, toda a atitude que objetiva ou que na realidade prejudica a propriedade alheia, não menos é exato que existe no caso alguma razão, plenamente justificada.

A paciência do homem tem um limite e o “estouro” desta é sempre imprevisível.

Todos sabemos, ou por experiência, ou por conhecimento de causa, ou mesmo por ouvir dizer, que até um crime dos mais hediondos aparentemente, praticado muitas vezes com verdadeiro e palpável requinte de selvageria, tem lá seu fundo, uma inequívoca razão de ser. Os magistrados, os advogados e os policiais, sabem disse melhor do que ninguém.

Póde ser considerada infeliz, toda a nação, cujos filhos se dispuzerem a fazer justiça com as próprias mãos!

No Brasil, graças a Deus, em comparação com outros países do mundo e mesmo da América do Sul, desfrutamos o privilégio de uma pacificidade interna das mais invejáveis. Poucas vezes a história registrou acontecimentos trágicos, mesmo apesar das seguidas ameaças e das nuvens negras de insegurança e do cáos moral e econômico que nos domina e ameaça sufocar quasi seguidamente.

Se olhamos para as nações visinhas, constataremos com satisfação, que ainda possuímos frieza para enfrentar os fatos e a realidade dos mesmos, com serenidade invejável.

Mesmo assim, vez por outra, a paciência do brasileiro “estoura”. Com o espírito mesclado de diversas raças, sem que constituamos um povo de origem pátria de caráter porcentual único e verdadeiramente sólido no terreno de oriundidade, fácil é o perceber-se a variedade de pensamentos diversos, a habitar as mentes dos brasileiros. Daí, seria imprevisível o conhecer-se, por antecipação ou por estimativa, até onde chegaria o gráu de consequências de uma revolta ou “quebra-quebra” de proporções gigantescas. Apesar de que o espírito tropicalizado fundiu numa só peça todos os nacionais e estrangeiros, devemos temer muito, quando se fórma qualquer atmosfera de descontentamento popular.

De qualquer maneira, para um bom govêrno, fatos com os que sucederam agora em Uberlândia, como os que principiaram há pouco em São Paulo e no Rio Grande do Sul, devem merecer atenções especiais, com o vasculhamento de suas origens e com medidas preventivas especiais. E essas medidas preventivas, não dizem respeito a prevenção do acidente quando o mesmo já têm meio caminho andado e sim antes de que qualquer caminhada nesse terreno seja iniciada. E isso é fácil fazer. Basta cuidar com mais atenção dos interesses do povo e acompanhar mais de perto os motivos que o desgosta, porque quando o povo grita é porque está com a razão.

O que acontece em Minas é um exemplo veemente, que exige mais atenção do Sr. Presidente da República. O Sr. Juscelino Kubtschek deve melhor analisar e avaliar as razões dêsse “estouro” da paciência popular, antes que a repetição possa imitar o “olheiro” da saúva: “rebentar” em outra parte!

Extraído do Correio de Marília de 22 de janeiro de 1959

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O rabo do macaco (21 de janeiro de 1959)

As mulheres podem ser prodigiosas e “especialistas”, de módo geral, na preocupação, ocupação e falação da vida alheia. Entretanto, falar mal do próximo não é privilégio feminino; existe muito “barbado” por aí afóra, que deixa a mais faladeira e mais reparadeira das mulheres, numa “rabeira” fragorosa.

Em Marília, é assim. Na Avenida, principalmente.

Existem pessoas, que ao envés de cuidarem de suas próprias vidas, viver eternamente preocupada com o modo de viver, andar, vestir ou até de tossir e espirrar do próximo. São elementos que poderiam muito bem organizar um clube ou uma associação; o “Clube da Tesoura e dos Balanços do Bem Alheio”!

Pois não é que existem em Marília, cidadãos que vem a maior parte do tempo alí na Avenida do Fundador, a bisbilhotar a vida do próximo, insinuando, analisando e “envenenando”?

Se passa u’a mulher e o gaiato a conhece, já cochicha para o companheiro alguma coisa; se não a conhece, pergunta lógo quem é, onde mora tentando quasi saber até o número do manequim e a marca do pó de arroz.

Se passa um homem bem barbeado e bem vestido, já se fórma o “veneno”; se ao contrário, o indivíduo passou mal vestido e com a barba crescida, igualmente dá margens para comentários, disque-disque, etc...

O pior é o “serviço de informações” que vinga entre essas pessoas: quasi uma cópia da “Scotland Yard”! O cidadão realiza um negócio qualquer (lícito, bem entendido) e já os elementos do clube dispõem-no a dar “banlancos” do capital do coitado, em plena via pública. Fazem os cálculos direitinho, sem esquecer um mínimo detalhe, concluindo o “quantum” sobrou líquido para o outro. E botam uns olhares de inveja, que dá um azar desgraçado. E o pior, é que a notícia circula rápido, aumentando sempre, como as águas de um rio que vai recebendo afluentes. Não sabemos quão elevada é a morbidez dêsse “prazer”, tão difundidamente em vigência por um grupo de desocupados em Marília.

Aquí existe gente que sabe menos da própria casa e da própria família do que de toda a Marília. Gente que é bem possível que seus filhos andem rasgados, não estudem direito, suas esposas pouco se preocupem com o lar, suas famílias pouco se entendam, sem que essas pessoas saibam; entretanto, sabem quanto ganha o comerciante tal, o empregado tal, o proprietário tal. E levam a “contabilidade” abjeta tão “em dia”, que talvez nem os próprios guarda-livros das gentes focalizadas e “tesouradas” saibam tão bem, à quantas anda a realidade!

É uma coisa incrível!

Pensando bem, não é mesmo uma coisa incrível. É, antes de mais nada, falta do que fazer; ou falta de brios ou mesmo de educação.

O que é que se ganha, estando-se a meter o nariz na vida dos outros? Só antipatia. Só desdouros.

Ademais, no caso, aplica-se perfeitamente bem a história do macaco, que vivia preocupado com o rabo dos outros, esquecendo o seu próprio.

E para terminar, bom seria que os componentes desse clube fossem pentear macacos...

Extraído do Correio de Marília de 21 de janeiro de 1959

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A voz da natureza (20 de janeiro de 1959)

A não ser que o indivíduo seja extremamente cético, dando-se o trabalho de observar, no lufa lufa comum e no borborinho das próprias contingências da vida, verificará que, dentre as próprias maravilhas da natureza, a concepção de compreensão e reconhecimento de vários classificados como irracionais,, é simples coisa de fabulosa.

Lembramo-nos do caso do burrinho “Canário”, “artista” de um circo de cavalinhos, que adivinhava a idade das pessoas e até as cores das roupas de baixo de indivíduos. Também de cavalos e cachorros amestrados, comumente exibidos em casas de diversão de tal jaez.

É certo que tudo isso é consequência de um treinamento persistente. Mas é também certo que o poder de assimilação de certos animais é um fato.

Até os cães de caça, por vezes, parecem raciocinar mais rapidamente que o sêr humano.

Temos visto histórias verdadeiramente comovente de cães pastores e cães “São Bernardo”, no salvamento de pessoas, em casos de enchentes ou incêndios. O cão, hoje, auxilia de maneira efetiva a polícia adiantada de todo o mundo.

É a voz da natureza, a assopram as orelhas dos irracionais. É a prova da existência de um Deus superior e único.

Ocorreu-nos isto, ao conhecermos um cãozinho “vira lata”, dêsses que não receberam “educação especial”; que não é tratado com banhos diários, nem perfumado; que não dorme em “bercinhos” especiais, não é conduzido por madames grãfinas ou criadas idem, para o clássico “passeiozinho” das tardes.

É um cão dos mais comum. Sai da casa quando bem entende, indo para onde bem quer, sendo senhor absoluto do seu nariz. Mete-se em algazarras de cães de rua, toma parte em arruaças e brigas, base e apanha também.

Anda sempre sujo e banhos só conhece mesmo os de chuva; enfim, é um pulgueiro ambulante.

Mas êsse cachorro tem lá o seu sentimento de brios e procura retribuir o calos do lar que o acolheu, à sua moda; se está na rua, nas imediações da residência de seus amos, divisa de longe o dono da casa e corre a fazer-lhe festas, dando-lhe as boas vindas. E então abandona seus companheiros e vai até a casa.

A qualidade primordial dêsse cachorrinho, que ninguém ensinou, a não ver a voz da natureza, é o seu instinto de proteger os filhos dos donos. Sabe distinguir uma brincadeira de “agarra-agarra” entre meninos, de uma “briguinha” de crianças. No primeiro caso, limita-se a ficar olhando; na segunda hipótese, avança no adversário dos filhos do amo, estejam êstes levando ou não desvantagem na briguinha.

Nem os pais podem bater nos filhos, embora êles mereçam, porque o cãozinho não permite, avançando mesmo nos próprios donos. E não recua, mesmo apanhando. Mantem-se firme como um herói, fiel ao seu propósito de defender os menores!

Quando chegam visitas na casa do dono do citado cachorro, êle corre meter-se sob o berço da menor criança. E ali fica, impedindo ameaçadoramente, que a pessoa estranha se aproxime da caminha da criança. E o faz de modo positivo, desrespeitando mesmo as ordens do amo, para que saia da casa! Não abandona o posto, enquanto a visita não se retirar. E mesmo assim, acompanha-a silencioso e calmo, até a rua, para ter a certeza do afastamento. Depois volta novamente, para verificar se a criança sua protegida está em ordem. E então, só então, é que se afasta para a sua vidinha normal.

Sozinho, não permanece no quintal à noite, enquanto a casa estiver aberta e seus amos acordados. Fica sempre à frente da residência nessas ocasiões, só indo para o quintal, depois da chegada do dono. E quando acontece que o amo se esquece de encaminhá-lo para os fundos, fechando a porta da rua, arranha a porta, latindo, não parando de chorar enquanto não for colocado no quintal, onde permanece vigilante.

Não é extraordinária a voz da natureza?

Extraído do Correio de Marília de 20 de janeiro de 1959

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O cruciante problema nacional (17 de janeiro de 1959)

Não há negar que é das mais calamitosas no Brasil, a questão dos preços dos gêneros e utilidades de primeira necessidade.

Clamam-se providencias capazes de colocar um dique, ao descontrôle e desgoverno existentes nesse setor, inutilmente. As medidas preconizadas pelos govêrnos ou sugeridas e anunciadas em práticas por organismos responsáveis pelo contrôle e fiscalização dêsse ângulo, jamais conseguiram atingir objetivos que viessem, de fato, ao encontro dos interêsses das populações menos favorecidas. Por outro lado, espírito insaciáveis de certo número de comerciantes e intermediários, colocam em polvorosa a própria segurança da subsistência dos nacionais.

Isso nos acarreta a pejorativa classificação, de sermos um povo que apresenta a condição de uma das nações de vida mais cara na face da terra, apesar de habitarmos um dos maiores e mais ricos países do mundo!

Quais, seriam, então, as causas dêsse objeto fenômeno?

Certamente que a inexistência de um método de planificação e a ausência absoluta de uma fixação de preços, que se fundamente, antes de mais nada, na garantia do preço mínimo ao produtor e no tabelamento do preço máximo para o revendedor (atacadista e varejista), seria u’a medida de primeira grandeza no caso. Isto é, a elaboração de um estudo estatístico completo e perfeito, fixando o preço mínimo a ser pago ao homem que produz, delimitando o lucro do intermediário ou atacadista e fixando também o lucro normal do revendedor, poderia dar resultados. E, ao mesmo tempo, impediria as ascensões fabulosas de certos comerciantes, que enriquecem do dia para a noite, em flagrante contraste com outras pessoas estabelecidas, que, só apresentam pequenas progressões comerciais e financeiras, após muitos e muitos anos de árduas lutas profissionais.

Essa medida, entretanto, é inviável no Brasil. Pelo menos, com o atual Govêrno da República, nosso Presidente Viajante.

Para que a idéia mencionada (que nos parece ser a mais acertada, senão a única) pudesse vingar, urgiria, antes de mais nada, que ao par da fixação do preço mínimo ao produtor, se desse a êste os meios necessários e o amparo carecido para o seu trabalho, com o financiamento mais racional e melhor coordenado, com o fornecimento de sementes especiais por preços ínfimos, com a facilidade de aquisição de adubos e inseticidas por preços baixos e com a melhoria das estradas e consequente barateamento dos transportes.

Tais coisas não se verificam no país. O lavrador adquire as sementes, muitas vezes por preços superiores ao próprio produto vendido na safra anterior. O transporte representa um fantasma, a encarecer o produto. Os preços são ditados pelos potentados, baixando de cotação justo na ocasião em que o lavrador precisa dispor de suas safras, para serem armazenados desbriadamente, com a compulsória providência de forçar a alta de custo de vida. Depois, entra o jogo conhecido da retenção de estoques, do comércio desvirtuado, transportando-se mercadorias de uns para outros centros, encarecendo-as ainda mais e dando margens a que outras pessoas venha a participar da manobra, ganhando as suas partes e elevando o custo do produto, de maneira que quando o mesmo chega a ser adquirido pelo povo, no armazém varejista, a diferença existente entre o preço pago pelo consumidor e o custo do produto na fonte de produção, chega a ser, algumas vezes, de até três e quatro vezes a maior!

Parece que nesse particular, na América do Sul, nós só podemos nos equiparar à Bolívia e no Paraguai. E mesmo assim, constituindo nosso país, nesse sentido, um “páreo duro”.

Essas, entendemos, são as mais fortes razões para justificar a alta do custo de vida no país. Existe também o fato da característica má administração do comércio e indústria em geral e o desvio de ágios necessários à própria economia interna do país, para a importação de produtos que abundam em nossa Pátria, terra onde feijão e arroz nascem até em vãos dos paralelepípedos das ruas, quando a Limpeza Pública atraza suas operações!

Não há negar, pois, ante isso e ante a realidade que estamos vivendo e que ninguém poderá contestar, que os fatos acima apontados são as principais causas do cáos moral e econômico que nos sufoca e nos aterroriza presentemente. Em resumo, é inquestionável também, que de tudo isso só se pode deduzir uma causa-origem: desgovêrno!

Extraído do Correio de Marília de 17 de janeiro de 1959

domingo, 16 de janeiro de 2011

Destaques... (16 de janeiro de 1959)

Comenta-se que o Papa João XXIII acaba de aceitar o convite que lhe foi formulado pelo Presidente Kubstchek para visitar o Brasil.

Apesar de não ter sido marcada a data dessa visita ao nosso país, acredita-se que tal venha a acontecer até os meados do corrente ano.

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Concordou a diretoria do Sindicato da Indústria de Torrefação e Moagem de Café, em aceitar os têrmos baixados pela Resolução nº 126, do Instituto Brasileiro do Café, que determina o preço de Cr$ 46,00 para a venda do quilo de pó de café ao consumidor.

A medida deverá entrar em vigência no dia primeiro de fevereiro próximo.

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As empresas proprietárias dos cinemas de São Paulo, conseguiram, mercê de um mandato de segurança, ficarem livres do tabelamento da COAP.

Assim, pretende o Sindicato da classe, aumentar em mais de 30% os preços dos ingressos nas referidas casas de diversões.

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No Rio de Janeiro, pleiteia-se também um mais de um “aumentozinho” de 30% nas tarifas de ônibus.

Começamos mal o ano de 1959, com essa avalanche de aumentos.

No Brasil (um dos primeiros paizes do mundo em inflação e alto do custo de vida), só uma coisa mesmo é que não sóbe: o índice de vergonha de certa gente, inclusive gente dos govêrnos.

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No mês de dezembro último, o Brasil emitiu a “bagatela” de 6 bilhões e 500 milhões de cruzeiros, o que dá o cálculo aproximado de 9 milhões de cruzeiros por hora!

Isso é que é “record”! Depois acham ruim quando falamos que em Brasília se consome mais papel-moeda do que cimento!

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Movimenta-se a colônia portuguesa radicada no Rio de Janeiro, no sentido de solicitar ao General Humberto Delgado, do Exército luso e óra exilado na Embaixada do Brasil em Lisboa, para que o mesmo abandone seu país e fixe residência em definitivo entre nós.

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Na Rússia, foram executados por fuzilamento, na semana passada, séte espiões norte-americanos e chineses.

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Quatro nadadores do quadro aquático do Yara Clube, disputarão no Rio de Janeiro, nas piscina do C. R. Guanabara, um certame natatório inter-clubes e inter-estados.

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Por incrível que pareça, no Rio de Janeiro os ladrões passaram a agir, ultimamente, dentro das próprias dependências onde estão instaladas as salas dos oficiais de gabinete do chefe de polícia. Há dias ali ocorreu o desaparecimento de u’a maquina de escrever. As autoridades desmentiram notícias publicadas sobre o caso e a maquina, com numeração raspada, foi encontrada na Divisão de Administração. Agora, contudo, foi iniciada uma sindicância a fim de ser apurado o estranho desaparecimento de outras duas maquinas, de cancelar, ambas pertencentes à polícia do Distrito Federal.

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Alegam alguns pequenos comerciantes, dêsses que possuem pequenos empórios em bairros, que os preços dos gêneros por eles adquiridos aos atacadistas não oferecem margem de lucros. E perguntam se a compra dos produtos congelados não deve ser obrigatoriamente, inferior aos preços tabelados...

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Dag Mammarskjold, secretário geral da ONU, visitou recentemente o Batalhão de Suez aquartelada em Rafah.

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O foguete teleguiado brasileiro, construído pela Escola Técnica do Exército e que deveria ter sido lançado à ionosfera, teve seu lançamento adiado.

Como especialistas da E.T.E. se encontram em férias, o “Felix I” só deverá subir depois do carnaval.

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Com o tabelamento de preços dos produtos de custo congelado, já em vigência em nossa cidade, queremos ver, daqui mais alguns dias, quantos desses gêneros “desaparecerão” do mercado.

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Começaram ontem os vestibulares para o ingresso aos diversos cursos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 16 de janeiro de 1959

sábado, 15 de janeiro de 2011

Colcha de retalhos (15 de janeiro de 1959)

Técnicos do Laboratório Aero – Médico da Base de Wright Field, no Estado de Ohio, U.S.A., afirmam que o primeiro sêr humano a atingir a Lua deverá ser mulher e não homem.

Informam que, da realização de diversas experiências levadas a efeito naquela oficina, a mulher adaptou-se melhor do que o homem. Colocados os dois – homem e mulher – em cabines especiais, onde se reuniram as condições de um vôo sideral, verificaram-se os técnicos que, depois de algum tempo, os homens se tornaram “agressivos e incoerentes”, enquanto as mulheres se adaptaram mais facilmente ao meio referido.

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A CMTC, em São Paulo, deverá dispensar cêrca de mil de seus empregados. Justificando a medida, informou alto funcionário da autarquia referida, que, em 1953, a Companhia dispendia séte homens para cada ônibus ou bonde; e que em 1958, êsse numero foi elevado, inexplicavelmente, para treze empregados.

Com a dispensa desse excedente, a empresa apresentará uma economia de mais de um milhão de cruzeiros mensais. Anuncia-se ainda que tais demissões estão sendo levadas a efeito entre as duas partes.

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No Rio de Janeiro, pelo fato de Antonio Alves de Mesquita, motorista do ônibus nº 64, da linha Leopoldina-Leme ter “fechado” a passagem ao “Cadillac” cor verde-garrafa do Sr. Danton Coelho, o ex-Ministro do Trabalho tentou matar o “chauffeur” a tiro de revolver!

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O Senador Auro Soares de Moura Andrade, que foi o “lanterninha” do pleito estadual de 3 de outubro último, segundo se comenta, disputará as próximas eleições municipais com vistas à Prefeitura de São Paulo.

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Hoje, em São Paulo, reunir-se-a a diretoria da COAP. O motivo será o de sempre: autorizar novos aumentos de preços de gêneros de primeira necessidade. Nove produtos deverão receber o “beneplácito” altista da “mãe” COAP. São eles: cebola, banha, arroz, açúcar, carnes (bovina e suína), feijão, oleo e cebola (algum equivoco houve, porque a cebola está citada duas vezes).

Não há dúvidas de que a COAP pretende mesmo acabar com os pobres em nosso Estado!

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Viajará hoje para Santos o Governador do Estado. O Sr. Jânio Quadros inaugurará a melhoria das obras das rêdes de água e esgôtos de Santos e São Vicente.

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No próximo dia 31, a Banda da Força Aérea Norte-Americana exibir-se-a no Rio de Janeiro.

A referida corporação, composta de diversos núcleos, tanto se apresenta como banda militar com 100 figuras, como pode apresentar-se como orquestra sinfônica de 90 músicos, como banda sinfônica de 85 instrumentos ou como conjunto vocal de 25 vozes, conhecido como “Os Sargentos Cantores”.

A Banda é também conhecida como a “Sinfônica dos Céus” e sua vinda ao Brasil foi patrocinada pelo Força Aérea Brasileira.

O espetáculo terá lugar no “ginasium” do Maracananzinho.

Extraído do Correio de Marília de 15 de janeiro de 1959

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Écos de uma vitória (14 de janeiro de 1959)

No dia de ontem arreou-se a bandeira de uma grande e insana luta, tendo sido içado o pavilhão de uma estupenda vitória – de toda uma família mariliense.

A inauguração oficial da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília, ontem ocorrida, foi um acontecimento que marcou época e que ficará para a posteridade, significando um riquíssimo louro nas páginas da própria história de nossa cidade e de nossa gente.

Se traduziu em realidade os anseios da população estudantil de Marília (e da própria região da Alta Paulista), foi também a consequência direta de mais de uma década de contendas reivindicatórias das mais justas, das quais participaram todos os marilienses, indistintamente, através de seus poderes constituídos, suas entidades de classe, suas escolas e grêmios e sua imprensa e rádio.

Êsse jornal sempre procurou constituir-se num porta-voz autêntico dessa luta e já desde o ido ano de 1945, estampávamos em nossas páginas, os primeiros trabalhos de alerta, acêrca dessa necessidade, que só agora tornou-se real e palpável, com o saneamento da lacuna.

A seguir, nos preocupamos em acompanhar toda a estrada palmilhada nessa batalha, não em nosso nome, não de maneira personificada, mas sim como elemento de divulgação dos fatos e ocorrências da cidade.

Por êsses motivos, comungamos também nós, com o justo júbilo que dominou a cidade no dia de ontem e que continua e continuará a constituir-se, para o porvir, numa das mais fortes razões que temos, de que, onde existirem direitos e trabalhos bem intencionados, o conjunto dessas ações hão de encontrar-se, no espírito bem formado de dirigentes honrosos e honrados, a ressonância colimada e os resultados almejados.

Solve-se, portanto, um problema acêrca do qual Marília gritava. Possuímos agora, oficialmente instalada, bem dirigida e com um corpo docente dos mais capazes e despreendidos, a nossa Faculdade de Filosofia.

Urge que nos todos, autoridades e povo marilienses, continuemos a prestigiar o referido e orgulhoso órgão, emprestando-lhe o mesmo entusiasmo e o mesmo calor que significaram a força do dínamo que movimentou todo o conjunto das providências que redundaram nessa extraordinária vitória de nossa gente.

Por outro lado, mistér se faz que a mocidade estudantil mariliense, bem como de outras cidades da região, sequiosa da continuidade no haurir as luzes da ciência, corresponda integralmente ao trabalho dos marilienses em geral, aos esforços dos poderes públicos da cidade e à boa vontade do honrado Governador Jânio Quadros, que soube compreender, melhor do que os Govêrnos anteriores, os clamores de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 14 de janeiro de 1959

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Marília perde grande indústria (13 de janeiro de 1959)

Marília possuiu, até poucos dias, uma indústria de inquestionável valor representativo e manufatureiro. Talvez desconhecida pela maioria dos marilienses, pois cá, como lá fora, continua a perdurar o provérbio de que “santo de casa não realiza milagres”.

Essa indústria, que nem todos conheceram, durante quase dois anos de suas atividades entre nós, aqui nasceu, expandiu-se, ganhou fama e conceito e levou seus produtos aos 21 Estados do Brasil, tendo competindo e vencido, em qualidade, apresentação e testes técnicos, com os mais renomados produtos do gênero, mesmo de procedência estrangeira.

E, por incrível que pareça, onde menos os produtos da mesma foram conhecidos, é aqui em Marília mesmo!

Trata-se de “Instalações Auto-Elétrica Marília”, firma que se especializou na fabricação de instalações elétricas para todos os tipos de carros motorizados, inclusive tratores das mais variadas marcas conhecidas no país. Além das instalações elétricas, dotadas de fusíveis de segurança e braçadeiras para fixação nas latarias dos carros (únicos no mundo!), a firma em apreço produz diversas outras peças elétricas para caminhões e automóveis.

Desde o Amazonas até o Rio Grande do Sul, vendem-se as referidas instalações elétricas para carros, que conduzem em embalagem magnífica, o imponente nome de “Marília”. As mais renomadas indústrias automobilísticas do país, como a “General Motors do Brasil S/A”, a Ford, a F. N. M., a Willys e outras, empregam, após experiências realizadas pelos seus laboratórios de engenharia e eletricidade, as referidas instalações.

Recentemente, a linha dêsses produtos foi incluída também dentro de uma cota de exportação para diversos países sul-americanos, cujas operações exportadoras deverão iniciar-se no ano em curso.

No norte e nordeste, onde o mercado similar sofre maior e mais positiva influência do comércio exterior, as instalações fabricadas em nossa cidade venceram e conquistaram a preferência do comércio nortista e nordestino. O mesmo aconteceu na parte central, no Rio e São Paulo e também no sul do Brasil.

Pois bem: Marília vai perder essa grande e poderosa indústria. A firma está de mudança para São Paulo, adquirida que foi por dois capitalistas paulistanos, experimentados comerciantes no ramo referido e proprietários de firma de igual jaez.

É um fato digno de registro, uma vez que a indústria em apreço nasceu em Marília e daqui lançou a perfeição de um produto de alta qualidade para todos os quadrantes do país. A firma referida, oferecia trabalho a mais de meia centena de marilienses.

Além do fato acima citado, inegável será a perda para o parque industrial mariliense, uma vez que se trata de uma indústria de vulto e de grande representação e comprovada repercussão em todo o Brasil, apesar de que, como dissemos, aqui era onde menos vendia, aqui é onde fôra menos conhecida!

De firma em apreço, só restará aos que ali trabalharam, a saudade de um ambiente gostoso e seleto e o consôlo de que o nome de “Marília” será mantido nos citados produtos, continuando a irradiar-se por todo o Brasil e invadindo o próprio mercado exterior.

Não resta dúvida, repetimos, que se trata de uma grande perda para o parque manufatureiro de Marília, embora, frisemos novamente, aqui foi onde a firma menos teve prestigio no que diz respeito à distribuição dêsses afamados produtos.

Ao ensejo desta nota, que julgamos merecedora dêste espaço, formulamos votos a dois dos sócios atuais que rumarão para a Capital e também aos novos co-proprietários da mencionada organização, para que continuem a progredir na nova fase da indústria e para que o nome de “Marília”, imponentemente identificando o apreciado produto, continui também a circular por todas as cidades de nossa pátria.

Extraído do Correio de Marília de 13 de janeiro de 1959

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Extraordinária coincidência (10 de janeiro de 1959)

Existe um rapaz que trabalha como caixa em uma das repartições públicas da cidade. Como sóe acontecer a tôdas as pessoas que exercem tal mistér, o mesmo não constitui exceção à regra geral de que todos os que lidam com dinheiro, estão sujeitos a sofrerem prejuízos vez por outra. Êsse rapaz nunca tinha achado dinheiro; só perdido, uma vez que nem tôdas as pessoas, ao receberem um trôco errado (a maior), têm a suficiente consciência de devolver o excesso. Muitos que quem perde é o estabelecimento, quando, na realidade, quem perde e é obrigado a repor a diferencia, é a pessoa que trabalha no caixa.

Isto é apenas um pequeno prefácio, para comentarmos uma coincidência extraordinária ocorrida ante-ontem e relacionada com êsse fato.

É o seguinte:

O rapaz saiu do emprego, passou na banca de jornais, adquiriu a “A Gazeta Esportiva”, entrou no “Bar Avenida” e comprou um pão. Atravessou a Avenida, na altura do Banco de São Paulo. Ao pisar no passeio, divisou sôbre a guia da sarjeta, algumas cédulas de 500 cruzeiros. Apanhou-as, estranhando o fato de diversas pessoas estarem naqueles trecho paradas e outras tantas transitando apressadamente (eram pouco mais das 18 horas), sem que ninguém tivesse visto o dinheiro ali “dando sopa”. Um único cidadão viu o rapaz apanhar a “gaita”, porém deve ter ficado em dúvidas ou não deve ter percebido bem a realidade do fato.

O rapaz veio até a redação e falando com o Anselmo, contou o caso e mostrou o dinheiro. E acrescentou que o acontecimento, ao invés de trazer-lhe qualquer alegria, acarretara-lhe, pelo contrário, certa tristeza. É que o rapaz cogitou acêrca da possibilidade da importância achada pertencer a algum pobre, a algum operário ou mesmo ter sido perdida por algum garoto empregado no comércio e incumbido de fazer cobranças ou descontos em bancos.

O gerente do jornal ponderou que não seja plausível “andar grutando”, porque apareceriam, forçosamente, alguns falsos proprietários da importância encontrada; e que a melhor providencia seria aguardar, pois no jornal sempre aparecem reclamações acêrca de questões dêsse jaez.

Então o rapaz concordou em esperar alguns dias, para vez se o dono do dinheiro se manifestaria sob qualquer aspecto ou meio. E foi para sua casa.

À noite, uma cunhada do rapaz (desconhecendo o fato do mesmo ter achado o referido dinheiro), procurou-o para que êle fosse ao “Correio de Marília” anunciar que uma sobrinha (dela e do próprio rapaz), havia perdido, na Avenida, depois das 18 horas, determinada importância em cédulas de 500 cruzeiros e que constituía seus vencimentos de comerciária do mês de dezembro do ano passado.

O rapaz quase caiu ao perceber a estranha coincidência: ao notar que o dinheiro que êle encontrara na rua, no meio e na presença de tanto gente, pertencia à sua própria sobrinha, que trabalha para auxiliar a manutenção dos pais.

A coincidência extraordinária, mereceu a ocupação dêsse nosso espaço.

O rapaz é o autor dêste artigo; a mocinha é sobrinha do mesmo, empregada na “Casa Romeu”.

Extraído do Correio de Marília de 10 de janeiro de 1959

domingo, 9 de janeiro de 2011

A sucessão municipal (9 de janeiro de 1959)

Embora aparentemente frio o ambiente político local, no que tange à sucessão do prefeito Argollo Ferrão, certo é que as diversas facções partidárias da cidade apresentam, nos bastidores internos, as suas mais sérias preocupações.

Só a UDN, até agora, tem candidato oficialmente lançado, no nome do sr, Leonel Pinto Pereira. E como tal, desnecessário será o conjecturar-se que o partido que apoiou o sr. Carvalho Pinto esteja apenas dormindo sôbre a esperança de ver o seu candidato eleger-se só. Os trabalhos, embora discretos, estão sendo feito por aí, procurando-se uma forma de psicologia de vitória.

Acontece, que, pelo que se percebe, os demais partidos encontram-se, nesse particular, ainda com idéias baralhadas, auscultando opiniões de lideres e estudando meios de “não perder” as próximas eleições, porque, nos últimos anos, a maioria dos partidos políticos preocupou-se mais em não perder as eleições do que “ganhar bem o pleito”.

Conchavos têm sido realizados e mesmo entendimentos entre paredes de casas residenciais, longe das vistas ou do conhecimento da própria maioria dos próprios filiados a diversos partidos. Isto é, a sondagem está sendo feita “tête a tête” pelos altos dirigentes partidários e como tal, os entendimentos se chegarem a bom têrmo, representarão, ao acordo final, a decisão de três ou quatro elementos e não o pensamento da maioria da corrente política.

Aí existe, então, um êrro clamoroso, inexplicavelmente ignorado pelos dignitários da política que tal processo emprega: Poderá dar-se o caso de apreciação de um nome, que, embora reunindo qualidades essenciais para a desincumbência do cargo a ser disputado, seja mais um objeto de fidelidade partidária e de amizade política e pessoal aos poucos congressistas que tais decisões efetuam, antes do que um nome propriamente dito de simpatias e repercu(s)são populares.

Temos sondado, em palestras de aparência casual, diversos dirigentes políticos de nossa cidade e de nenhum deles conseguimos obter qualquer informação acêrca de como andam as coisas nêsse terreno. Entretanto, pelo que pudemos observar, a situação é a que acima ficou esplanada.

E, sondando as camadas mais baixas da opinião popular, o “zé povinho” (cujo voto é o que de fato pesa na balança eleitoral), pudemos perceber que a grande maioria está de atalaia e igualmente concluímos que muitos dos nomes citados como prováveis candidatos ao cargo de Prefeito em 3 de outubro próximo, não possuem a repercussão geral que êles mesmos e seus partidos políticos estão certos.

Nessas condições, a prudência e o espírito de observação deverão nortear os pareceres dos dirigentes políticos locais, antes do que a chamada “sagacidade política”.

Extraído do Correio de Marília de 9 de janeiro de 1959

sábado, 8 de janeiro de 2011

Espetáculos obscenos (8 de janeiro de 1959)

Estamos lendo agora, no jornal “Diário de Sorocaba”, edição de 3 último, uma justificada “bronca” em artigo de redação, estampado em primeira página, com referência ao pretendido oferecimento de espetáculos teatrais obscenos na “Manchester Paulista”.

Como se trata de uma “companhia” que já se apresentou em Marília e que poderá oportunamente por aqui reaparecer, transcrevemo-nos, a seguir, o inserido pelo citado órgão sorocabano, cujo texto está assim redigido:

“Há alguns meses passados um espetáculo obsceno levado em um dos cinemas de nossa cidade, constituiu-se num real ultraje à sociedade sorocabana. Lembram-se os leitores que, através de nossas colunas, profligamos o espetáculo imoral, a peça “Falta um pedaço no meu marido”.

Também a Confederação das Famílias Cristãs levantou o seu brado de alerta. Mas o sr. Milton Carneiro, responsável por aquela indecência que se apelidara de “representação teatral”, fez ouvidos moucos ao protesto da família sorocabana, e com o dinheiro torpemente ganho, foi-se daqui para outras plagas. Agora está anunciando o seu reaparecimento em nossa cidade, no próximo dia 13.

Segundo informações colhidas pelo reportagem do “Diário”, o sr. Milton Carneiro esteve em Londrina, onde apresentou a sua revista imoral, no cine Ouro Verde. E tinha programado e tinha programado para o dia seguinte ao da estréia, um espetáculo vesperal, que não chegou a ser realizado, pois o meritíssimo juiz daquela comarca o impugnou. Não se trata, pois, de um “falso puritanismo” da família sorocabana, como alguns quiseram interpretar, mas realmente de uma comédia obscena, imoral, pois Londrina também a repugnou.

À vista dos antecedentes daquêle senhor, de acôrdo com os fatos que aqui estamos apontando, desde já lançamos um brado de alerta. A Confederação das Famílias Cristãs, através de sua comissão de Moral e Costumes, poderá desde já estudar o assunto, a fim de de que o fato não venha a se repetir em nossa cidade, para que escorracemos, por antecipação, aquela excrescência em forma de representação teatral.

Se a Confederação dirigir-se ao nosso meritíssimo juiz de Direito temos a certeza de que s. excia., que se tem revelado em todos os momentos defensor intransigente do pundonor da família sorocabana, não permitirá que a nossa sociedade seja envolvida pelos que mercantilizam a moral e não escolhem caminhos para atingir os seus torpes desígnios”.

Extraído do Correio de Marília de 8 de janeiro de 1959

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Não é questão de boa vontade... (7 de janeiro de 1959)

Não é mesmo questão de boa vontade. Temos a mais santa das boas vontades, no que tange ao desejo honesto de gostar e prestigiar ao mesmo tempo, o atual Govêrno da União.

Mas é uma coisa assim “que não vai bem”... por mais que nos esforcemos, não conseguimos encontrar razões plausíveis, para considerar o atual Presidente da República como um bom Govêrno.

Pode ser que venhamos ainda a mudar de pensar. Fazemos votos para isso. No entanto, até o momento, não vimos nenhum amontoado de justificativas, que pudesse igualar ou ultrapassar, em volume, o índice de motivos que nos dá o direito de pensar que o Brasil é um país mal governado.

O sr. Juscelino Kubitschek, pelo que percebemos, está se abstendo de cientificar-se das mais comezinhas ocorrências que tão de perto afligem o povo brasileiro, e, em consequência, relegando o plano que em função secundárias eleva-se ao cubo, no que concerne, à medidas providenciais para o bem estar geral de sessenta milhões de brasileiros; está deixando que o povo pereça, que os potentados enriqueçam mais depressa, que os ágios subam mais, que o mercado nacional seja sufocado, que a inflação angustie totalmente o país, contanto que seja construída a célebre Brasília.

Óra, se atribuímos, social, moral e mesmo policialmente ao pai de família, o desgovêrno de sua própria casa, sôbre os ômbros de quem recairá a culpa de um país que se aproxima do cáos?

A moeda, no Brasil, tem dualidade de representação: tem valor extraordinário de aquisição para o pobre e significado negativo para o emprego, tamanho é o índice inflacionário do país, que nos coloca hoje, no pejorativo lugar estatístico, de uma das nações do mundo onde a vida é mais cara e onde a inflação é mais acentuada.

Dois analgésicos de efeito ilusionário e consequências desastrosas, nos foram presenteados pelo atual Govêrno: o salário mínimo e o congelamento de preços. O primeiro, serviu de “sparring” aos desbrios dos potentados e dos “tubarões”, que melhor enchem suas burras, à custa do suor e do sangue do próprio povo; o segundo, discriminando pouco mais de uma dúzia de artigos, soltou o freio a centenas de outros, facultando mesmo que as elevações subissem mais do que os mais pirotécnicos engenhos de São João.

Três anos do atual govêrno, nos deram a certeza de que nunca tantos sofreram tanto. Mais de cinquenta bilhões de cruzeiros emitidos pelo sr. Juscelino Kubitschek em seu govêrno, sem contar-se uns trinta bilhões de cruzeiros, em letras do próprio Tesouro, são um atestado de cartório de que em finanças, o Brasil principia, moralmente, a mendigar.

Poderia parecer, ao menos avisado, no concernente à construção de Brasília, que existe oposição sistemática, pura e simples ao seu processo. De nossa parte, não; sempre louvamos a idéia da mudança da Capital do país, mas sempre condenamos o meio e a forma de sua execução. E continuaremos a pensar assim, até que alguém possa convencer-nos em contrário.

De qualquer maneira, não é questão de boa vontade, o fato de gostarmos do atual govêrno da União. Boa vontade não nos falta; o que não temos em nós, o que não cabe em nossas cabeças, é que não exista, dentro das atuais providências do atual Presidente da República, alguma coisa que tenha vindo diretamente em beneficio do povo, o eterno e sacrificado povo brasileiro.

Já experimentou o leitor analisar quanto custava uma receita médica, um par de calcados, um terno de roupa, uma camisa, uma passagem de trem, avião ou ônibus, antes do sr. J. K. toma posse do govêrno? E quanto custam agora?

E o leitor já tentou aquilatar, de todas as “providências” preconizadas e difundidas pelo atual govêrno, quantas se transformaram em realidade, em beneficio do povo, o sofredor povo brasileiro?

Confessamos que nos esforçamos. Nos esforçamos bastante, para gostar do atual govêrno da República; para ver no mesmo um homem íntegro, devotado inteiramente aos interêsses da população, à desdita de milhares de brasileiros, ao bem estar geral de nossa gente.

Não vimos isso, até agora. Pelo menos, ninguém nos convenceu a ver uma coisa que sabermos existir, cujos males, como facção do próprio povo, nós os experimentamos, sentindo-os na própria carne.

Disso redunda a desconfiança no próprio país, o descrédito no govêrno, na moéda nacional, até no café, a rubiácea-sangue do Brasil, que hoje agoniza, com preços baixos para o mercado importador e preços proibitivos para o mercado interno consumidor!

De nossa parte, temos, repetimos, a melhor boa vontade em gostar do Presidente da República, reconhecendo em suas tradições, um bom govêrno. Mas não é possível.

Não é questão de boa vontade...

Extraído do Correio de Marília de 7 de janeiro de 1959

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Isenção de Impostos (6 de janeiro de 1959)

Baixou recentemente o Governador Jânio Quadros, decreto que regulamenta o preceituado pelo parágrafo primeiro do artigo 15, da Lei estadual nº 5.021, de 18 de dezembro do ano passado.

Consoante o decreto citado, diversos produtos ficam isentos do impôsto sôbre vendas e consignações, quando as vendas forem efetuadas diretamente ao consumidor, para alimentação própria ou de sua família, sejam as vendas realizadas pelos produtores, comerciantes varejistas, feirantes ou ambulantes.

É a seguinte a relação dos gêneros de primeira necessidade óra mencionada na isenção do imposto de vendas e consignações, quando comercializadas nas condições supra referidas:

Feijão, arroz, ervilha, lentilha, grão de bico, milho e soja; farinhas de trigo, de milho, de mandioca e de arroz, fubá, pão e massas alimentícias; carne verde, charque, peixe, aves e ovos; óleo e azeites nacionais, banha, toucinho, gorduras animais e vegetais comestíveis; margarina, manteiga, queijos nacionais e leite crú, pasteurizado, em pó e condensado; sal, açúcar, café em pó e mel; frutas frescas nacionais, verduras, legumes, tomate, mandioca, batata e demais tubérculos,comestíveis.

O Governador frizou em seu áto citado, que, “sempre que o presente decreto se referir a gêneros alimentícios de primeira necessidade, entendem-se como tais, os especificados acima”.

É de esperar-se, portanto, que, como tal medida, alguma coisa de beneficente póssa nesse sentido, redundar em pról do povo, especialmente o pobre. É de cogitar-se também, para o apêlo de consciência de certos comerciantes, que, usufruindo agora desses benefícios, que objetivaram favorecer a população, estando isentos de uma das mais consideráveis taxas do comércio atual, póssam fazer com que os preços sejam mais accessíveis e menos proibitivos.

Verifica-se, pela lista citada, que os principais artigos e realmente de primeira necessidade, estão, portanto, isentos do imposto de vendas e consignações. Entretanto, os preços atuais estão verdadeiramente atingindo absurdos em todos os sentidos.

O salário mínimo e o propalado e inócuo congelamento de preços, fizeram recair sôbre os costados da população, maiores onus ainda.

Oxalá que da interpretação desse decreto que ora referimos, não redundem fatos como verificados no passado; isto é, que a vida se torne mais cara ainda, com maior margem de lucros para muitos comerciantes inescrupulosos.

Oxalá.

Extraído do Correio de Marília de 6 de janeiro de 1959

sábado, 1 de janeiro de 2011

Feliz Ano Novo, leitores! (1 de janeiro de 1959)

Com a graça de Deus, adentramos hoje o ano de 1959.

E com a mesma graça de Deus, novamente nos encontramos com os leitores amigos do CORREIO DE MARÍLIA, no ato de manifestar os mesmos propósitos e idênticos desejos, dos já formulados e confessados em iguais passagens, em anos anteriores.

Cumprida mais uma etapa de nossa vida jornalística, solvemos também, durante o transcorrer de mais um ano, nossas obrigações perante o próximo, perante a sociedade e perante Deus, o Arbitro dos árbitros.

Tentamos e tivemos as mais puras das intenções, em desincumbir-nos, durante o ano que ontem expirou, como uma facção de um arauto de boas causas, como um êlo da corrente das divulgações imprescindíveis, afetas ao nosso jornal. Em sã consciência, consideramo-nos credenciados a afirmar que nossos empenhos foram sinceros e que os frutos de nosso labor despretensioso, redundaram na safra dadivosas de resultados compensadores e satisfatórios.

Por ciência de oficio, vimo-nos às vezes, compulsados a censurar, criticar ou mesmo condenar atos ou homens. Em nossas censuras, críticas ou condenações, jamais permitimos que fosse salpicado, nem mesmo levemente, o colorido do sensacionalismo; jamais permitimos (honestamente conosco mesmo), que motivos de ordem pessoal ou interesseira, pudessem, em alguma circunstância, deturpar ou prejudicar o sentido réto da verdade meridiana. E quando as circunstância e os contra-choques de idéias assim nos forçaram agir, soubemos, com a graça a Deus, desempenhar nossa missão de maneira airosa, altaneira, independente, levantando sempre, com tôdas nossas forças, a bandeira da imparcialidade – apanágio-padrão, que tão belamente identifica o jornalista provinciano.

Procuramos, no pretérito, escrever com a razão e jamais com o coração ou o sentimento de amizade. Se não o conseguimos totalmente, penitenciamo-nos de algum êrro involuntário, que jamais esteve em nossas cogitações. Sempre focalizamos atos e nunca homens. Nossa preocupação primordial, foi o abordar assuntos de Marília e seu povo. Se desagradarmos alguém, não nos pejamos em afiançar que nossas intenções foram as mais puras e que procuramos produzir o pensamento da maioria dos marilienses.

Utilizamos têrmos em tôdas as decorrências. Dentro de nosso linguajar modesto de caboclos interioranos, desprezamos sempre as parábolas e as metáforas, para falarmos a língua simples que o povo simples sabe compreender e interpretar.

Tivemos árduas lutas, que nos acarretaram, por vêzes, como se diz vulgarmente, “dores de cabeça”. Não esmorecemos, como jamais esmoreceremos, quando reivindicamos questões de interêsse geral e popular. Sabemos, em tôdas as circunstâncias, sair bem da empreitada, sem jamais termos utilizado um subterfúgio desairoso, sem nunca termos empregado um meio abjeto ou condenável.

E assim, vencemos 1.958, completando também 30 anos de atividades dêste jornal e catorze anos de nossa colaboração à êste órgão mariliense.

Iniciamos hoje, nova caminhada; um percurso que não é uma estrada de rosas perfumadas, mais uma rota de sacrifícios, que só a necessidade pecuniária e o amor à arte, aliados ao amor sincero de servir o próximo, são capazes de justificar. E o fazemos com a mesma boa vontade, com as mesmas intenções que nos moveram a inserir nossos modestos escritos no CORREIO DE MARÍLIA, no ido ano de 1.944, quando, como integrante da gloriosa (e pouco lembrada) Fôrça Expedicionária Brasileira, das trincheiras geladas das íngremes montanhas do classicismo italiano, manuscritávamos nossas colaborações especiais, para o decano da imprensa mariliense.

Ao principiarmos nosso labor jornalístico em 1959, rendemos graças aos céus, pela inspiração, que sempre nos consignou, no sentido de que pudéssemos desincumbrir tão espinhosa missão. E agradecemos ao Deus Todo Poderoso, pela saúde e disposição que nos dispensou, propiciando-nos a facilidade de nossos mistér jornalístico, tão sacrificado, mas que tantas satisfações nos acarretou até aqui, pela consciência de que tivemos em mente, a sadia intenções de sermos úteis ao próximo.

E ao fazermos êsses votos públicos de reconhecimento e agradecimento ao Pai de todos os homens, agradecemos também aos marilienses em geral, a confiança com que nos distinguiram durante o ano que ontem findou. Formulamos votos de que nos ano que hoje se inicia, as graças a Deus contemplem os nossos governantes com maior inspiração administrativa; para que os próprios tempo decorra melhor para nossa agricultura, tão esquecida dos poderes oficiais; para que as nações se entendam melhor, melhor percebendo a inutilidade e a catástrofe das guerras; para que a Paz do Senhor paire sôbre o mundo; para que a boa vontade impere na terra; para que a fraternidade universal seja uma realidade e não uma fachada; para que os homens de todo o mundo melhor se entendam entre sí; para que a sorte dos pobre sejam menos sacrificada e menos infeliz; para que os ricos sejam menos ricos e os pobres menos pobres; para que Deus continue a iluminar os Destinos do Brasil, colocando-o no seu verdadeiro lugar entre as nações mais adiantadas e mais civilizadas do globo; para que todos tenham mais saúde, menos doenças, mais harmonia e mais gosto pela própria vida, vida que hoje se torna um martírio para muita gente.

Com êstes votos, reencetamos nossa nova caminhada, confiantes em que jamais nos falte, como jamais nos faltou, a inspiração dos céus, a proteção de Deus e o amparo e prestígio dos homens.

Feliz Ano Novo, leitores!

Extraído do Correio de Marília de 1 de janeiro de 1959

O satélite brasileiro (1 de janeiro de 1959)

Ultimamente, na Escola Técnica do Exército, os preparativos para o lançamento do satélite brasileiro que tentará atingir a ionosféra.

Trata-se do foguete que foi batisado com o nome de “Felix I”, nome inspirado no próprio gatinho amarelo que servirá de tripulante e que viajará na ogiva do mencionado engenho.

O aparelho citado, custou aproximadamente 300 mil cruzeiros e os técnicos militares afiançam a certeza de êxito total no seu lançamento, com o atingimento do percurso e tempo previamente elaborado.

O assunto, em sí, representa um passo bastante avantajado na éra eletrônica e na conquista do espaço. Se conseguir o pretendido êxito, justo é que se reconheça que nosso país, apesar dos pesares, esforça-se por progredir e acompanhar as pegadas das mais avançadas nações de todo o mundo. Se não conquistar os resultados esperados, nenhum motivo de desdouro haverá para os cientistas nacionais, pois nem tudo o que se pretende realizar, é feito, com vitória total, na primeira tentativa. O exemplo a respeito nos deram os próprios Estados Unidos, com a repetição de fracassos em igual sentido, mas com a ombridade suficiente para confessar ao próprio mundo, os insucessos referidos.

O que é mister, no caso do “Felix I”, é que o próprio govêrno ampare melhor êsse sentido, pois de acôrdo com a reportagem a respeito, outros inventos serão tentados, “se as condições financeiras referente às verbas próprias e especiais assim o permitirem”!

Todo o prestígio deve ser consignado aos cientistas que tão denodadamente estão trabalhando nesse mistér, sob a direção do coronél Lage, da Escola Técnica do Exército.

O “Felix I”, cuja fotografia ilustra uma reportagem pela revista “O Cruzeiro” da semana em curso, foi completamente realizado dentro das paredes da E. T. E., com material inteiramente nacional e sem a utilização de nenhuma pela emprestada ou copiada dos Estados Unidos ou da própria Rússia. Isso, se atentarmos para o lado do sentimento de brasilidade, é um motivo de integral satisfação para todos nós. Traduz a confiança naquele órgão técnico do Exército e afirma o conceito e a certeza de que nem tudo está perdido no Brasil e que nem tudo é pusilanimidade.

Mister se faz, como acima afiançamos, que o próprio Govêrno e os responsáveis pela legislação brasileira, bem como os que tem sobre si a incumbência da distribuição e aplicação das verbas públicas, voltem com mais frequência e com maior interêsse suas vistas para o fato em apreço, merecedor de toda a simpatia e de todo o apoio possível.

Daqui uns dias, deverá subir aos céus, o “Felix I”, lançado na ionosfera um satélite artificial e testando a capacidade de um ser animal sair com vida de uma grande empreitada.

Nossos votos, para que tudo dê certo.

Extraído do Correio de Marília de 1 de janeiro de 1959