quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Um soldado atrevido (Natal de 1958)


José Padilla Bravos
2º Sgt. Res. FEB

- Sargento Mário!

- Pronto, tenente.

- Avise o pessoal do pelotão, que depois do “momento espiritual”, quero todos reunidos perto da lareira.

- Entendido, meu tenente.

As ordens, no Exercito, são assim. Precisas e suscintas, dentro do maior laconismo possivel. O sargento Mário éra o Chefe da Secção e o Sub-Comandante do Pelotão de Transmissões, do III Batalhão do 6.o Regimento de Infantaria. Estávamos no ocaso do período invernoso; a neve deixava de dependurar-se nos ramos dos arbustos amarelecidos, nos telhados das casas e nas torres das igrejas, para escorregar gradativamente e desaparecer na terra. O degêlo, uma realidade.

O “momento espiritual” fora idealizado e posto em prática pelo comandante do pelotão, tenente Dantas Borges, no navio que nos levava à Itália. Às 18 horas em ponto, o comandante nos reunia e nos obrigava a manter-nos em silencio por alguns instantes, exortando-nos a pensar no Brasil e na família. Antes, porém, uma pequena preleção cívica e moral.

No início, ninguém recebeu com agrado a idéia. Os protestos foram mudos, porque no Exercito ninguém protesta contra superiores hierárquicos. Depois, os soldados passaram a habituar-se ao “momento espiritual” e perceber que o mesmo fazia um bem íntimo indescritível. O áto não teve interrupção. Nem mesmo durante a guerra. Com qualquer número de soldados disponíveis no momento, jamais deixou de ser realizado. Na ausência do tenente Dantas, o Sargento Mário ou então o Sargento Mendes, continuaram a prática. Realmente, foram os únicos momentos em que pudemos nos dedicar, em pensamento único, ao Brasil e à família.

Dos 22 homens que compúnhamos o pelotão, apenas 9 homens participamos aquela tarde do “momento espiritual”. Estávamos alojados numa casa de pedras, na contra-encosta de um morro, num local chamado Âffrico, a margem da Estrada 64, que demanda à Bologna.

Semi-escuridão. De luzes, só algumas brazas da lareira, alimentada por quantidade racionada de carvão vegetal. Sentados em camburões de gasolina ou encostados na parede, ao som longínquo dos canhões alemães e ensurdecidos pelos tiros vizinhos da artilharia brasileira, aguardamos o “peixe” (novidade) do tenente. Este, com sua indefectivel bengala e seu ensebado “cachê cól”, foi logo ao assunto. Disse-nos que tinha recebido do Comando do Batalhão, ordens para conceder três dias de licença em Firenza (Florença), à quatro elementos do Pelotão, que de um ou outro modo, mais dignos estivessem feito de tal prêmio. Com sinceridade, declarou-nos seu desapontamento em cumprir as ordens, porque não distinguia em seu pelotão, nenhum mais do que o outro, dentro das funções específicas de cada um. Não queria cometer uma injustiça, escolhendo quatro dos 22 companheiros. Porisso, “descalçava a bóta”, solicitando nosso apôio, em pról de uma solução para a designação dos felizardos.

Ninguém abriu a boca. Ninguém deu palpite. Todos esperaram, envolvidos num manto de indisfarçavel curiosidade. Três dias de folga, depois de sete meses de combate, é alguma coisa caída do céu.

O tenente coçou os ralos cabelos louros e insistiu. Foi então que o soldado Baade deu a “deixa”.

- Tenente, faça o sorteio; assim ninguem poderá reclamar ou estrilar.

O comandante olhou, no lusco fusco do ambiente, como tentando sondar o semblante de cada um. Uns murmúrios no início, palavras em altas vozes depois, deram a entender que a idéia éra a única saída.

Foi feito sorteio. Primeiro número premiado: 2818 (o meu). Os outros três não me recordo quem foram. Lembro-me apenas que um foi o sargento Mendes.

A ordem foi completada: “Amanhã, às 8 horas, os sorteados devem estar no P. C. (Posto de Comando) do R. I., em Marano. De lá partirá um caminhão”.

Não dormí aquela noite. De fato, tinha quatro horas de trabalho no rádio e na central telefônica, compreendidas entre 21 e 23 e 3 e 5 horas. Nos intervalos, se o “tedesco” (alemão) permitisse, ser-me-ia facultado dormir num monte de feno podre, colocado no chão. Mas não dormi. Só pensei no passeio. Só pensei na folga. Só pensei nos três dias de “moleza”.

Na minha idade, nas circunstancias do momento, seria de esperar-se como pensamento principal de passeio, bebidas e mulheres. Entretanto, tal não acontecia. O que eu mais aspirava na ocasião éra dormir. Mas, dormir em lençól, com um gostoso travesseiro, coisas que eu desconhecia ha cerca de 9 meses. Tinham-me informado de que em Firenze existia um Hotél Brasileiro para soldados. Se existia hotél – pensei – deveriam existir camas (com lençóis e travesseiros).

Antes das 7 horas, já tinha descido a contra-encosta e estava reunido a um grupo de soldados das demais sub-unidades. Deram ordem de levar a manta (cobertor), mas eu não cumpri. Afinal, se ia para um Hotel Brasileiro, porque levar manta? E ainda u’a manta suja de barro, terra e restos de degelo, misturados com fiapos de feno pôdre de estrebarias?

Cheguei em Firenze. Sozinho, pois perdí-me dos companheiros do pelotão. Todos os demais ocupantes do caminhão eram desconhecidos para mim e na verdade não me interessava conhecimento com os mesmos. Azoinadamente sonhava com uma cama, com lençóis limpos e travesseiros...

Na entrada do Hotel, já tive uma decepção: entrar em fila, continência, “sentido”, apresentação, etc. – coisas que não existiam no “front”. Deram-me a acomodação. Um italiano foi acompanhar-me aos aposentos. Subí as escadas antegozando as delícias de um bom banho (coisa que não praticava ha cerca de três meses) e um sono “diréto”, de umas 24 horas. Entretanto, no quarto, nenhuma cama, nenhum lençól, nenhum travesseio. Quatro “camas de campanha”, que deveriam ser utilizadas com as mantas que nos ordenaram levar!

Quem primeiro “pagou o pato” foi o italiano, que sofreu tamanho safanão, a ponto de cair no corredor. Depois saí enfurecido.

Pensei em “conversar” alguma família italiana, onde pudesse encontrar uma cama e um lar. Estava “estudando” a questão, andando a esmo pela rua. Movimento militar desusado. Ingleses, italianos, franceses, brasileiros, americanos, soldados canadenses, davam uma visão inusitada e inédita ao trânsito de Firenze. Seriam pouco mais de 14 horas. Entrei num bar, bebí um “bicchieri” (copo) de vinho e decidi-me pensar o que fazer, que rumo tomar, uma vez que estava decidido não voltar naquela espelunca que chamaram de Hotel Brasileiro (mantido pelo Serviço Especial da F.E.B.). Foi assim, que andando a esmo, passei defronte um grande casarão, divisando numa gigantesca placa sobre o portão os dizeres: “U. S. Army” – Rest Camp 44”. Com meus esparcos conhecimentos de inglês conseguí traduzir o letreiro e aproximei-me de uma filha de soldados sujos e rasgados, oriundos do “front”. Entabolei conversa com um preto de Michigan e entrei na fila tambem.

Não sabia o que me aguardava. Tinha a certeza entretanto, que iria “sair bem”. A “bicha” foi se escoando. Entramos numa porta e em seguida num corredor. Todos os componentes da fila ia se desfazendo, gradativamente, de todas as peças de roupa, que éram atiradas em montes distintos. No final, estavamos todos completamente nús e entramos numa área enorme, onde canos transversais, perfurados na parte inferior e colocados rente ao forro, esguichavam água abundantemente. Percebi lógo tratar-se de chuveiros coletivos e entrei na água, tomando um “banho em conjunto”. Saí, acompanhando a fila, recebendo toalha. Depois, cuecas, meias, calças, camisetas e blusas, calçados e quépis. Gostei da aventura e nem me preocupei com a confusão que poderia surgir posteriormente, quando o serviço de lavanderia encontrasse, dentro das roupas usadas “made in USA”, a farda “verde oliva” nacional.

Entrei fardado de brasileiro e saí num gabardine amarelo, “fantasiado” de soldado americano. Conseguí uma cama num alojamento de 200 pessoas, próximo à um soldado americano que fôra criado no Méximo e que dominava perfeitamente o castelhano, com o qual pude me entender e sair posteriormente a passeios.

Enquanto isso, meus companheiros pensaram nas “camas de campanha”, no “famoso” Hotel Brasileiro.

Na rua eu estava sempre temeroso de ser reconhecido por algum companheiro ou mesmo descoberto por algum americano. O “rolo” seria certo e a “cana” inevitável. Tal não aconteceu. Passei três dias maravilhosos, conhecendo a cidade toda e visitando seus pontos históricos, indo a cinemas e bebendo a valer.

Depois do terceiro dia, surgiu o quarto, “por conta”, uma vez que a turma do famigerado Hotel Brasileiro (consta que serviram feijão com arroz e “jabá”) fôra para seus destinos.

No quarto dia, resolví ir embora e percebí horrorizado que não poderia apresentar-me ao meu comandante, fardado de soldado americano. Igualmente, não poderia tentar reaver minha verdadeira farda.

Estava numa sinuca dos diabos, quando surgiu um amigo do 6.o R. I., que tambem havia “tirado um dia por conta” e tentava regressar. Por felicidade minha o rapaz trazia “japona” (espécie de casaco) e capote. Emprestou-me o capote e tirei o gorro sem pala norte-americano ao chegar em ‘nossa’ casa. Abraços, perguntas, e corrí logo a cambiar a roupa. Poucos ficaram sabendo a “embrulhada” na ocasião. Posteriormente o “caso” ficou conhecido de todos os colegas.

Trouxe comigo, a farda do Exército Norte Americano. Quando o então prefeito Neves Camargo mandou emissário (Basileu) à São Paulo e Caçapava, para reunir e trazer a turma dos expedicionarios de Marília, roubaram-me o famoso “saco B”, onde guardava o uniforme “yankee” e uma infinidade de “souvenirs”...

Perdí o uniforme, mas a aventura valeu a pena.

E o mais importante: não precisei comer carne sêca...

Extraído do Correio de Marília de 25 de dezembro de 1958

Um episódio de guerra (Natal de 1945)

(De um diário de campanha. Fato real ocorrido em 21 de novembro de 1944, na estrada 64, próximo às cidades de Marano e Volpara, na Itália)

José Padilla Bravos

Dois “jeeps” rasgavam a neblina boreal, dirigindo-se para a claridade do dia, obedientes aos pulsos firmes dos motoristas, brasileiros patriotas e saudosos, nutridos dos cumprimento do dever pátrio.

Uma brisa leve e vigorosa, enfeitava aquela atmosfera saborosamente fria e agradável até. A estrada dirigia-se com ímpeto sinuoso, desdobrando-se atravez da encosta daquela pitoresca moldura á tela de hábil pintor.

O ar apresentava-se sobrecarregado de ameno temperatura glacial, traspassando deliciosamente nossos pulmões compressos e asfixiades pelas agruras de guerra.

A estrada, em todo o seu percurso, deixava á mostra os incontáveis sulcos, originados das explosões causadas pelos morteiros alemães, que os carros enfrentavam com denoso, como se percebessem a importância que pairava sôbre seus tripulantes. Nem a lama fria que cobria com seu grosso tapete toda a via, nem a visibilidade turvada, eram motivos para barrar a marcha decisiva dos veículos.

Súbito, como um instante, cambiou-se o quadro: o panorama fausto e angelical, puro como a água cristalina, deu margem ao ambiente horrendo de guerra alucinada, num último lance de alcançar a Vitória, já pendente para o fiel do adversário. Uma saraivada de projéteis, largados pelos canos mortíferos dos canhões nazistas, plantam-se espalhados naquela parte da terra tão caprichosamente pincelada. Sucedem-se espoucares estraordinários e espetaculares. A morte abre sôbre o ambiente seu véu funesto, na ânsia de aumentar seu reino. Param compulsoriamente os carros e seus viajores se atiram no chão imundo, como azoinados e viciados, numa “chance” de salvação! Aumenta o tétrico movimento. Balouça-se no ar, a própria morte. Nem o costume de tão hediondas circunstâncias anula o terror das faces dos homens, embora muito o alivie.

Divaga-se o pensamento, variado e irresoluto, chega ao Brasil, á família, tornando aos céus, num lance de pensamento, implorando misericórdia...

As bombas caem, enfurecidas e incertas, explodem e com os milhares de estilhaços assassinos, atiram terra e devastam as plantas mais próximas. Assobiam anunciando sua chegada, como se nelas cavalgasse o próprio Satanás!

Os homens decidem-se: urge a partida. “Casa de Cristo” é o local almejado e os homens deslocam-se, como autômatos, confiantes em sí mesmos e no destino, para tomarem lugar nos veículos e seguir. Fazem-no, a mercê dos tiros da refreada artilharia “tedesca”...

Na marcha, agora mais moderada, em virtude de pior estrada, os “pracinhas” querem convencer suas próprias conciencias que o perigo passou. O motorista Maluche, extremamente “folgado” (excelente nas horas de dificuldades como esta), ri forçado, olha para o sargento Mendes e diz: “Nossa vida não está valendo nada...”

Nisso, o cabo Simões, piscando para o soldado Maluche replica: “É verdade, nossa vida não está valendo mais nada e eu não dou duzentos reis pela vida do cabo Padilla...” E eu, disse êste, não dou nem uma lira pelo cadaver do cabo Raposo.

Atalha novamente o Maluche, sem descuidar-se do volante e nem ligar às granadas que já diminuíam, numa gargalhada: “E vocês não veem que duzentos réis e uma lira é “los tesso”?

Nisso, no banco de traz do “jeep”, branco como um papel, explode o soldado Nacle: “Maluche, seja ou não “los tesso”, pisa nêsse acelerador”...

São Paulo, 14/12/1945.

(*) Sr. José Padilla Bravos, ex-componente da FEB e nosso distinto colaborador atualmente domiciliado na Paulicéia.

Extraído do Correio de Marília de 25 de dezembro de 1945