quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Medida desaconselhável (30 de setembro de 1958)

Há dias, pela União Paulista de Servidores Públicos Federais, Estaduais e Municipais, foi encaminhada ao sr. Governador do Estado, uma representação, solicitando estudos e providencias do Executivo bandeirante, no sentido de modificar o horário dos funcionários estaduais para 5 dias da semana.

Em tal memorial, poderá o citado organismo que a chamada “semana inglesa” já foi realizada com êxito na municipalidade de São Paulo, em estabelecimentos militares e em grande número de indústrias.

Justificou a medida como de economia para os cofres públicos, com a diminuição de despesas decorrentes do consumo de energia elétrica, limpeza e material, etc..

Adianta ainda que disso resultariam benefícios para o próprio público, uma vez que o expediente normal seria dilatado e não venceriam aos sábados os prazos para pagamentos e outros fins fiscais.

A medida é desaconselhável, por dois pontos distintos: primeiro, pelo privilégio que proporcionará a uma classe, que irá trabalhar apenas cinco dias por semana, fato injustificável; segundo, pelos prejuízos que acarretará ao povo interiorano, principalmente ao da zona rural. Sabido é que a maioria dos agricultores do interior, ao invés de perder um dia de serviço durante a semana, mesmo quando condições inadiáveis o exigem, preferem tratar de assuntos relacionados com as repartições públicas aos sábados, quando deixarão de produzir em seu deveres normais, apenas meio dia, uma vez que na roça, é costume tradicional, “guardar-se” meio dia durante os sábados.

A dilatação do funcionamento do expediente normal das diversas repartições públicas e autárquicas é que constitui ainda um problema, pelas multiformas com que se opera. Repartições existem que atendem o público apenas 3 horas e meia, outras 4 horas e ainda outras 5 horas. Supondo-se a dilatação de mais meia hora, só poderia apresentar benefícios o núcleo que vem atendendo as populações por cinco horas seguidas, que, no caso, passariam a ser de 5 e meia. Os que funcionam agora 3 e meia, passariam a funcionar durante 4 horas com suas portas abertas ao público e assim por diante. Ora, seria o caso de dizer, que a providência “nada refrescaria”.

Se o funcionamento normal de uma repartição pública é de 6 horas, desse lapso de tempo, no mínimo 5 deveriam ser destinadas ao atendimento público, restando uma hora para o fechamento e execução dos serviços internos. Existem muitas repartições que assim agem e de fato melhor servem o público do que se se prolongasse mais meia hora o expediente e se excluísse o trabalho durante os sábados.

Deve ser atendido o interesse do público interiorano, especialmente o homem da lavoura, que será o grande prejudicado se a medida óra preconizada e já em vigência em algumas repartições, forem em definitivo posta em prática.

Se a medida visa o interesse geral, deveria, antes de tudo, ser consultado também o interesse geral. E, como tal processamento, o interesse geral fica prejudicado, porque o prejuízo recai diretamente sôbre os homens do interior, os homens da lavoura, aqueles que produzem de sól a sól e constroem, anonimamente, a grandeza do Brasil.

O caso é para ser meditado com mais calma, antes de ser posto em prática de afogadilho, conforme já fizeram algumas repartições públicas.

Extraído do Correio de Marília de 30 de setembro de 1958

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Prudência e serenidade (27 de setembro de 1958)

É natural do próprio homem as mutações momentâneas. As circunstancias transformam homens e grupos, estando a própria História cheia de exemplos: Nero, Ulysses, Mussolini e mesmo Perón e Getúlio, são a prova disso.

Segunda-feira passada, por ocasião de um comício político na cidade, vimos divergência de idéias de dois grupos. Divergências éssas perfeitamente normais, mercê da democrática atmosfera em que vivemos, que faculta a quem-quer-que seja, pensar livremente e livremente agir, desde que, dentro dos preceitos assegurados pela própria Carta Magna de nossa República. E disso tivemos a corroboração, quando a própria polícia, que estava executando os trabalhos de prevenção pública, sob a direção pessoal do delegado Severino Duarte, isolando as duas correntes, permitiu e garantiu a livre manifestação de ambas, numa demonstração irretorquível da preservação dos postulados emanados pelo nosso regime atual.

Não nos compéte a análise das condições verificadas na oportunidade. Igualmente não pretendemos insinuar de qual parte esteve o êrro, porque tudo aquilo que aparentemente se apresenta como erro, tem lá no fundo algum resquício de razão. Nos conta o próprio Código Penal, através das interpretações dificílimas de seus artigos, que mesmo os crimes praticados com os mais aparentes e claros requintes de selvageria, ostentam, lá no fundo, uma razão de ser, deparando, no delineamento dos preceitos dêsse maravilhoso Código, atenuantes certas e sérias, pejorativamente chamadas de “válvula de escape”.

Dissemos em nosso artigo de quarta-feira (24/8/1958), que o policiamento foi merecedor de louvores, pela maneira serena e precisa como se conduziu na ocasião, permitindo e garantindo, legalmente, as duas manifestações contrárias. Sinceramente, nós, do ponto de vista de observadores, apreciamos a atitude da milícia, porque entendemos a situação alteada e algo melindrosa, quando, qualquer atitude menos pensada, poderia criar um verdadeiro cáos, de consequências talvez imprevisíveis em nossa cidade.

Mais dois comícios políticos de interesse de partes, estão programados, sendo um para hoje e outro para amanhã. Mister se faz que utilizemos, nós, o povo mariliense indistintamente, a máxima prudência e calma, como tão democraticamente acaba de apelar a maior autoridade de nossa comarca, o íntegro Juiz de Direito local, dr. José Gonçalves Santana.

A melhor maneira de serem refutados pontos de vista contrários, externados por candidatos em praça pública, é responder com o voto.

O eleitor consciente, aquele que não é autônomo, que não é “dois de paus”, que não é escravo de partido e que não está interessado em empregos, dinheiro ou outras vantagens, já tem, com toda a certeza, seu ponto de vista formado. Palavras ocas ou vãs, pensamos, não alteram o ponto de vista firmado na mente de um homem moralmente são e eleitoralmente consciente.

Marília, que já deu exemplos sobejos de civismo e que, embora com razões justificáveis, apresenta aos olhos do público, como desdouro, o desagradável acontecimento futebolístico verificado no passado, deve provar sua independência de pontos de vista, seu alto teor democrático, sem manifestações que possam ser mal interpretadas e redundarem em consequências funestas.

Embora com excessos, verdade se diga, as manifestações de segunda-feira última não acarretaram consequências maiores, mas poderiam ser evitadas e desenvolvidas de outra fórma.

Extraído do Correio de Marília de 27 de setembro de 1958

domingo, 26 de setembro de 2010

Tracoma, terrível mal (26 de setembro de 1958)

Fato é que nos dias de hoje, o indice dos tracomosos em nosso país baixou tal termômetro introduzido numa sorveteira. O terrível mal, que tantas vitimas fez no passado em nosso país e que é o responsável direto por tantos e tantos casos de cegueira entre nosso povo, hoje está reduzido a cifra verdadeiramente pequena.

Contribuíram, para a diminuição dêsse mal, por um lado a própria ciência médica que avançou de maneira extraordinária durante as últimas décadas; de outro, a mais acentuada educação de eugenia geral nesse sentido; de outro, ainda, os interêsses dos próprios Govêrnos, que, pelo menos nesse particular, se nunca estiveram perfeitamente completos, pelo menos se mostraram bastante próximos da solvição cabal da necessidade colimada.

Como dizíamos, hoje em dia, não se verifica o grassamento do mal do tracoma em condições alarmantes. Mas existe ainda a remanescência da infecção e seus ataques em diversos setores, principalmente na zona rural. Mesmo assim, a Secretaria de Saúde do Estado, está encarando com meticuloso carinho essa moléstia e propensa a acabar de uma vez com a infecção.

Em Marília temos prova disso. O Dispensário de Higiene Visual de nossa cidade, funcionando anexo ao Centro de Saúde local, está empenhado em prestar socorros e auxílios nesse campo, de maneira ampla e total, a todos os necessitados. Das zonas rural ou urbana, ricos ou pobres.

Tais tratamentos são inteiramente gratuitos e realizados de maneira moderna e comprovada, cujos resultados são afirmativamente positivos. Assim, todos os que tiverem qualquer desconfiança a respeito, poderão e deverão procurar a mensionada repartição oficial. Como se sabe, o tracoma origina-se de uma simples dor d’olhos e assim os que se encontrarem em circunstancias análogas, ou que perceberam esse mal mesmo com aparência de uma coisa corriqueira, deverão imediatamente procurar em Marília, o Dispensário de Higiene Visual, anexo ao Centro de Saúde, na Rua São Leopoldo, para o devido exame gratuito. O tratamento, conforme dissemos, também é gracioso e completo, pois é de interesse da Saúde estadual, extinguir os poucos casos atualmente existentes.

A campanha, em sí, é nobre e deve merecer encômios, principalmente sabendo-se que tal órgão dispõe de recursos e profissionais competentes e dedicados para solucionar esse importantíssimo problema de ordem pública.

Procurem a mencionada repartição, as pessoas que se encontrarem nas condições citadas. Com isso, propiciando meios de estudos e ação aos serviços médicos especializados, garantirão a própria saúde e contribuirão também para a extinção do mal terrível, hoje existente em proporções bastante insignificantes.

Extraído do Correio de Marília de 26 de setembro de 1958

sábado, 25 de setembro de 2010

A “verve” popular (25 de setembro de 1958)

O nacional, via de regra, é prestigioso em idealizar “tiradas”, aproveitando sempre motivos circunstanciais. Vê sempre uma “deixa” para inventar uma boa piada, sôbre assunto variado, focalizando seguida e rapidamente, os acontecimentos ou pessoas de projeção ou destaque. Parece ser um dom natural. Se alguém se desse ao capricho e trabalho de coletanear as “piadas” espontânea(s) e tão ricas em humorismo natural, propicias e oportunas em face das lides focalizadas, editaria um livro incrivelmente gostoso de ser folheado.

Vimos as grandes “piadas” referentes a João Alberto, Getúlio, Góes Monteiro, Dutra, Adhemar, Jânio e muitas outras personalidades, salpicadas de gostoso “sense of houmor” e polvilhadas com uma boa “pimenta” nacional, tão habilmente difundida nas ocasiões respectivas, vimos o extraordinário e verdadeiramente recordista “estoque” de finíssimas “tiradas”, surgidas recentemente, quando da visita oficial ao Brasil, do então Presidente de Portugal, general Craveiro Lopes.

O brasileiro, que tem muito motivo para viver aborrecido, sabe de vez enquando dar mostrar de sua capacidade criadora, divertindo´se e divertindo os demais. É uma coisa natural. Não perde vasa o nacional e aproveita qualquer “dica”, para idealizar logo uma gostosa anedota, “de salão” ou não. Pensando bem, é um privilégio que a gente tem. É um ângulo do “ego” dessa gente que é u’a mescla de origens, digno de ser apreciado.

Ninguém escapa à sátira popular. Os programas cômicos das emissoras de todo o Brasil, tiram excelentes vantagens com êsse estado de coisas. Idem, os jornais humorísticos.

Com isso, o povo procura encarar com óculos imaginários de lentes cor de rosa, embora sem o saber, a própria e dura substância.

Diz o ditado que aquêle que não sabe rir não saber também viver. A êsse respeito, podemos estar certos, nós, os brasileiros, vivemos bem até demais.

O presidente Gronchi, da Itália, embora em volume infinitamente menor do que Craveiro Lopes, serviu também de modêlo para “piadinhas”, que circularam e circulam na boca do público brasileiro, de norte a sul do país.

Depois veio o “caso” da carne. Alardearam notícias bastante maldosas, que puseram a tremer muitos homens, tendo feito com que, temporariamente, baixasse o consumo do produto em quase todo o sul da nação. E, cá prá nós, “saíram” algumas de arrepiar os cabelos. O povo é assim. Brinca com tudo, com u’a naturalidade tão elogiável, que os motivos embora de aparência séria, passam para um terreno de observação brincalhona.

Por certo, muita gente conhece várias “piadas” que a respeito do assunto surgiram na cidade. Uma, entretanto, embora conhecida de muitos, deve ser contada nesta croniqueta, que fecho da afirmativa. Diz respeito ao rapaz que entrou no restaurante, falando grosso, arrotando masculinidade e pediu ao garçon: “Me traga um filé bem grande, mas passado e caprichado. Homem precisa comer carne sem acreditar em “ondas”...

Vai daí – prossegue a anedota – e depois de 30 minutos, o mesmo rapaz chama o garçon, e, com voz de falsete, cochicha ruborizado no ouvido do mesmo:

- Mocinho, onde fica a “tollete” de senhoras?

Extraído do Correio de Marília de 25 de setembro de 1958

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Uma realidade (24 de setembro de 1958)

Como observadores, estivemos acompanhando o desenrolar do comício de segunda-feira última, quando falou ao público local o líder vermelho sr. Luiz Carlos Prestes. Igualmente estivemos acompanhando as manifestações pró e contra exteriorizadas na ocasião.

Chamou-nos a atenção, de maneira especial, o fato de que enquanto o sr. Carlos Prestes “descia a lenha” em nossa polícia, essa mesma polícia (que) lhe garantia a palavra e mantinha a ordem pública, isolando, inclusive, os manifestantes contrário à sua doutrina política, assegurando-lhe o direito de se manifestar livremente, dizendo o que bem entendesse, censurando poderes constituídos e alardeando as suas idéias exóticas.

O comício referido movimentou todos os elementos disponíveis de nossa polícia, compreendida entre investigadores, Guarda Civil e Força Pública, incluindo-se pelotões de choque desta, que promoveram um cordão de isolamento, impedindo que os dois blocos pudessem encontrar-se e disso resultar, devido ao espírito alterado do momento, em consequências imprevisíveis. Se, por um lado, a polícia garantiu a liberdade de expressão do sr. Prestes, embora sendo atacada publicamente pelo Secretário Geral do extinto P. C. B., permitiu também que os elementos adversos ao comunismo manifestassem sua repulsa.

É necessário que seja louvada essa ação policial, cujos trabalhos foram pessoalmente dirigidos pelo delegado adjunto, dr. Francisco Severino Duarte. Não fôra o senso prático e a experiência policial comprovada, posta em prática na ocasião, por certo, poderíamos estar registrando hoje, alguns acontecimentos desairosos para a vida de nosso povo e nossa cidade.

Erram os que responsabilizam o Govêrno pela deficiência policial, porque os govêrnos são transitórios e a polícia é uma instituição do Estado. Aqueles mudam de quatro em quatro anos e esta é permanente. Desejos de govêrnos não influem em mistéres de milícia, porque êstes estão perfeitamente delineados na lei e na tradição.

Ninguém pode negar, que a polícia, sob todos os sentidos, agiu condignamente em nossa cidade, especialmente quando da ocasião do tumultuado comício do sr. Prestes. Verdade é também que o próprio povo mariliense colaborou com o policiamento, tendo, inclusive os manifestantes adversos ao líder comunista, atendido o apêlo da autoridade policial, afastando-se das imediações do Banco do Estado, para permanecerem na confluência da Rua Paes Leme, onde ficaram afastados mercê de um cordão de isolamento procedido por elementos da Fôrça Pública.

É justo, portanto, que se louve a maneira como se conduziram os elementos incumbidos dêsse policiamento que só teve o caráter de preventivo, quando poderia ser também repreensivo. Justo é que se reconheça uma ação benéfica em pról do povo e que sôbre o policiamento da cidade recai a condição de nenhum motivo termos para lamentar de maior gravidade, o que não seria de causar espécie, em virtude da exaltação de ânimos que na ocasião imperava entre diversos grupos.

A polícia cumpriu seu dever totalmente e se garantiu a manifestação contrária ao orador comunista, assegurou também a êste o direito de manifestar-se publicamente, inclusive condenando de maneira direta e estranha a atitude dessa mesma polícia.

Nossos parabéns, portanto, aos elementos de nossa milícia, de todos os sentidos, pela maneira como se conduziram.

Extraído do Correio de Marília de 24 de setembro de 1958

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O grande tribuno (23 de setembro de 1958)

Por dever de oficio, temos acompanhado e assistido a realização de todos os comícios políticos realizados em nossa cidade, desde a época de redemocratização do país, ou seja, desde 1.945.

Em consequência, temos ouvido, como simples observadores, discursos dos mais variados e proferidos por oradores inúmeros, desde os mais medíocres até os mais dotilóquios.

Sábado último, por ocasião da realização do comício em pról da candidatura do padre Calazans, ficamos verdadeiramente encantados a oratória simplesmente maravilhosa do grande tribuno que demonstrou ser o padre Godinho, da Ordem dos Jesuítas.

O que mais nos impressionou na alocução desse sacerdote, foi aquilo que se chama “linha parlamentar”. Oração que traduziu, antes de tudo, a personalidade de quem a proferiu, num ambiente sumamente elevado e uma demonstração de um espírito atinado, sapiente, pleno de filosofia, sociologia e teologia. Discorreu o padre Godinho sôbre a questão política nacional, com uma ombridade incrível. Mesmo tendo condenado e censurado candidatos e poderes constituídos, o fez embuido dentro do normal e elogiável espírito democrático que com a graça de Deus nos bafeja, dentro de um terreno de dignidade altamente encomioso.

Demonstrou, à saciedade, pendores dotilóquios dos mais refinados e a pósse de uma lucidez e competência verdadeiramente inacreditáveis.

Poucas são as pessoas, hoje em dia, especialmente os políticos e muito principalmente nésta época de pré-eleições, onde o “vale-tudo” da difamação e descortezia é um ponto real e tentador, que consegue manter a linha, a consciência e a serenidade, dirigindo-se ao público em obediência a verdade e defeza de seus pontos de vista e idéias, sem descambar para o ridículo.

Não há muito, daquí desta coluna, dizíamos que o bom político deve assemelhar-se ao bom comerciante. Isto é, deve provar que sua mercadoria é melhor do que a de seu concorrente, sem todavia procurar demonstrar que o produto do contendor é eivado de defeitos.

Se dispuzessemos da maioria de gente que hoje milita na política, como partidária dessa preconização, por certo as coisas andariam em outro pé e o próprio eleitorado teria meios suficientes de conjecturar e formar melhor juízo acêrca dos disputantes das eleições, ficando, por sí só e naturalmente, mais capacitado a exercer de maneira mais convicta e consciente o sagrado direito do voto.

Gostamos da oração do padre Godinho, herói da última guerra mundial na qual o Brasil esteve empenhado. Padre Godinho foi um brilhante Capelão Militar da gloriosa Força Expedicionária Brasileira.

Pelas palavras que ouviram os marilienses no discurso desse homem sábado último, poderão facilmente aquilatar como teria o mesmo sido útil ao conforto espiritual dos “pracinhas” brasileiros, durante a situação angustiante porque estes passaram na última guerra.

Sem o mínimo intento de sermos gentis, exclusivamente sinceros, confessamos que gostamos e ficamos verdadeiramente maravilhados com a oratória dêsse sábio orador que é Padre Godinho.

Extraído do Correio de Marília de 23 de setembro de 1958

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Explicação que nada explica (20 de setembro de 1958)

Não é segredo para ninguém e muito menos para o observador comum, que as cidades de nosso Estado, onde a Emprêsa Teatral Pedutti goza do privilégio do monopólio cinematográfico, são as mais desservidas do Brasil nêsse sentido.

Nós mesmos, desta coluna, temos procurado chamar as atenções do sr. Pedutti sôbre o fato, pois o que estamos seguidamente vendo em Marília nesse campo, chega a ser mesmo uma calamidade.

Igualmente, outras pessoas têm apresentado reclamações em penca ao responsável por êsse estado de coisas, incriminando o descaso para com o público pagante, principalmente no que diz respeito ao selecionamento das películas e aos filmes “abacaxis”, cortados e velhos.

Em face disso, distribuiu a Empresa Pedutti, em formato de panfleto, uma “Explicação Necessária”. Eis alguns tópicos:

“Sendo como é, simplesmente exibidora e não produtora, não cabe a ela a responsabilidade da má ou boa qualidade dos filmes.

“Diria então alguém “Cabe aos exibidores, selecioná-los”; mas é preciso lembrar que ao comprar uma partida de filmes tem ela de comprar o lote todo, pois não há companhia alguma que forneça esta ou aquela fita separadamente.

“Há a considerar ainda, que a crise cinematográfica é mundial, privando assim as companhias produtoras de fazerem grandes inversões de capitais, para produzirem filmes excepcionais como no passado.

“Quanto a questão dos filmes estragados, há razão para reclamações.

“Mas ainda neste caso a responsabilidade da Empresa é relativa.

“Em primeiro lugar, não é possível aos responsáveis pela programação examinarem o estado de todas as cópias dos filmes programados.

“Tem êles que se louvarem nas informações da secção de revisão das casas distribuidoras. Sempre porém que um dos seus gerentes faz uma reclamação quanto ao estado da cópia recebida, a Emprêsa Teatral Pedutti cancela essa cópia de todas as suas demais praças.

“Podem os habitués estarem certos de que, a Empresa não tem nenhum interesse em cortar ou deixar de exibir as películas completas, e luta para poder apresentar um bom espetáculo.

“Sôbre as cópias estragadas ainda há a esclarecer o seguinte: do mesmo modo que os filmes tem dificuldades para entrarem no país, também o número de cópias a ser importado sofre grandes restrições, e estão vindo cada ano em menor quantidade, criando assim sérios problemas, como o de serem aproveitados ao maximo, e com êsse aproveitamento excessivo se estragarem.

“Podem crer os seus frequentadores que, os diretores da Emprêsa Teatral Pedutti não medem esforços não medem esforços para poderem apresentar um espetáculo a altura dos seus distintos habitués e jamais olvidaram de bem cuidar de qualquer de suas casas de exibições”.

Em face disso e considerando que só com a Empresa Pedutti se verifica (como está provado) tal anomalia, resta-nos o convencimento de que o sr. Pedutti está com a razão e está sendo “injustamente” crucificado.

Quem está errado é o povo e pelo visto êste não tem razão nenhuma. O “seu” Pedutti está “certo” mesmo, vocês não acham?

O público, que paga paquidermicamente os seus ingressos, que vá “se aguentando” e engolindo as “bombas” da Empresa Teatral Pedutti!

Extraído do Correio de Marília de 20 de setembro de 1958

domingo, 19 de setembro de 2010

Resposta a uma leitora (19 de setembro de 1958)

Não é do nosso feitio o responder cartas que nos chegam às mãos, sem a devida assinatura e competente identificação. Entretanto, vamos responder a missiva que nos foi endereçada e simplesmente assinada por “Leitora”.

Abrimos a excessão, em vista do assunto focalizado no conteúdo da correspondência referida, qual seja, a necessidade de elegermos candidatos de Marília no próximo pleito de 3 de outubro (de 1958), bandeira éssa que de há muito empunhamos.

Vamos por etapas, cara leitora.

Sua cartinha, apesar de muito bem escrita (embora mal datilografada), é uma incoerência. Você advogada o direito de votarmos em candidatos de fóra, dizendo, lógo a seguir que “à nossa frente se depara o mesmo abismo que, um dia, caímos nele, ao termos levado à Assembléia êsses fulanos que lá se encontram”! Quer dizer, você preconiza a escolha de nomes alienígenas, quando você mesma confessa a inutilidade desses nomes!

Por outro lado, vê-se perfeitamente que você é mesmo leiga em questões política, ao perguntar quais os benefícios que os atuais candidatos de Marília prestaram à cidade. Dê uma chegadinha à Secretaria da Câmara Municipal e peça ao seu diretor, as explicações sôbre os trabalhos individuais e conjuntivos de nossos vereadores. Faça u’a análise imparcial, considere que eles realizam um número relativamente reduzido de sessões anuais, compare a demora de tramitação legal dos projetos de leis, os pareceres técnicos das comissões especiais, a observância aos têrmos preceituados pelo Regimento da Câmara, pelas Constituições – Federal e Estadual – e pela Lei Orgânica dos Municípios, diplomas legais que servem de alicerces para o confeccionamento de nossas leis. Depois você aquilatará, conscienciosamente, que os vereadores que agora são candidatos à deputado, cumpriram, dentro das limitações naturais de suas possibilidades, o dever para com o povo, no sentido de bem se desincumbirem de seus mandatos.

Muita gente em Marília, por motivos diversos, teve necessidade de recorrer aos vereadores, especialmente aos óra candidatos e dêsse número, às condições viáveis, quasi sempre foram atendidas. Muitos melhoramentos hoje vigentes, inclusive realizações ligadas ao interesse público, tiveram seu nascedouro em trabalhos de nossa edilidade.

Saiba mais, que a Câmara de Marília tem sido citada, constantemente, pelas mais importantes edilidades do Brasil, como um padrão de exemplos e trabalhos, que muitas leis nascidas naquela Casa, serviram de moldes e hoje vigoram em diversas comunas do país.

Você não acha que um cidade que reside entre nós, que aquí está radicado e que aquí possui família, vivendo conosco e conhecendo nossos problemas e carências, já tendo dado uma parcela de sua contribuição em pról da causa comum mariliense, apresenta, por sí só, credencial digna de disputar as eleições como candidato de nossa cidade?

Quando a ser o mesmo erro em votar em candidatos daquí e de “amigos” de fóra, não concordamos, pois o erro, entendemos, existe só em votar em forasteiros. Numa comparação grotesca, perguntamos a nossa leitora: Um seu tio, residindo na Conchinchina ou na Gomarábica, só pelo fato de ser seu tio, conhecerá e tratará com o mesmo carinho os problemas de seu lar, afétos diretamente ao senhor seu pai (ou seu esposo, se for o caso)?

Pense sôbre isso e depois convenha que deveremos votar em gente de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 19 de setembro de 1958

sábado, 18 de setembro de 2010

Círculo Cívico de Conferências (18 de setembro de 1958)

Existe em Marília uma lacuna que poderá com facilidade ser superada. É a questão da ausência de um organismo especifico, destinado a promover conferências cívicas periódicas, de caráter público.

Verdade é que instituições diversas contamos na cidade, que, vez por outra, desincumbem tais mistéres, como, por exemplo, a União dos Treze, a Sociedade Luso-Brasileira, o Centro Acadêmico “Roberto Simonsen” e outras. Entretanto, são tão espaçadas as palestras ali desenvolvidas, que a gente de Marília vive quase constantemente privada de ouvir bons oradores e boas palestras cívicas.

Já é tempo de Marília ser dotada de um empreendimento dêsse porte, como, por exemplo, um Círculo Cívico de Conferências, organizado e dirigido pelos valores intelectuais de nossa “urbe”. Um C. C. C. que promova palestras sôbre assuntos e temas variados, de interêsse geral de fundo patriótico, onde se ressalte, de preferência o sentido de brasilidade. Um organismo independente e afastado, não só no rótulo, mas em tôda a sua consistência e estrutura geral, de tôda e qualquer doutrina político-partidária, religiosa, racial ou filosófica; uma casa onde se ouça a palavra dos que sabem, abordando motivos que se casem com os interesses gerais, por mais variados que sejam.

Temos em Marília valores exponenciais nesse sentido e que se encontram completamente perdidos no borborinho das coisas comuns, quando poderiam ser úteis, instruindo o povo, através de conferências poliformes. Precisamos dessa Casa em Marília. Necessitamos tal cometimento, como decorrência natural do desenvolvimento de nossa cidade, cuja expansão irradia-se e arraiga-se em todos os sentidos.

Marília póde muito bem alentar éssa idéia e desenvolvê-la com êxito pleno. De início, que se ouça apenas gente da cidade, falando para gente de Marília. Depois, quando as possibilidades permitirem e o interesse público for crescendo, outras pessoas de renome na ciência, arte ou literatura, do Estado ou do país, poderão aquí ser ouvidas.

O necessário, entretanto, é que a idéia seja levada avante e que as conferências sejam periódicas e infalíveis, para não arrefecer-se o espírito público e perder o interesse (por) éssa utilíssima questão.

Sabemos que no início, u’a medida do alcance e importância como o que óra preconizamos, deparará com impecilhos diversos, sendo o maior de todos, o apôio público, o despertar do interesse geral. Entretanto, com boa vontade, reunir-se-ão inicialmente os homens capazes de nossa cidade, fazendo, com pouco tempo, que as atenções se voltem para o empreendimento, cujo fundo, além de patriótico, representa empreitada de vulto.

Com a palavra os bons marilienses, especialmente os intelectuais da cidade e as pessoas de bom gosto pelo motivo focalizado.

Extraído do Correio de Marília de 18 de setembro de 1958

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um comício “sui generis” (17 de setembro de 1958)

Como sabem todos, nunca condenamos ou aplaudimos os comícios políticos que se realizaram ou se realizam na cidade. São concentrações públicas perfeitamente legais, previstas pela própria Constituição e amparadas também pela Lei Eleitoral. De nossa parte, temos nos cingido ao noticiário puro e simples, conforme impõe nossa missão de repórteres absolutamente neutros.

Entretanto, hoje, neste comentário, vamos sugerir a realização de um comício político em Marília. Um comício inédito, “sui generis”. Um comício do qual participem, exclusivamente, os cinco candidatos de nossa cidade, óra disputantes de cargos eletivos no pleito de 3 do próximo mês.

Formulamos aos srs. Aniz Badra, Álvaro Simões, Fernando Mauro, Guimarães Toni e Shiguetoshi Nakagawa, o apêlo de que todos os cinco, como bons marilienses, se reúnam em praça pública, para falar um por um, ao povo de nossa cidade e da região. Que nesse “meeting”, sejam desprezados os interesses de legendas e não sejam abordadas as eleições no terreno da sucessão governamental. Que cada um dos candidatos da terra, fale ao povo num mesmo local, expondo seus planos de ação, suas intenções, seus desejos confessos de merecer o voto do público eleitor de nossa cidade e região, para servir a êsse mesmo público.

Será um exemplo sadio de verdadeiro civismo e amor por Marília. Será uma demonstração inequívoca de real patriotismo e interesse na defesa das reivindicações de nossa própria “urbe”. Representará, por outro lado, um atestado de coerente identidade de idéias, quando os candidatos de Marília, os legítimos candidatos de nossa cidade, falarão ao povo de nossa terra, francamente, conforme todos tem feito até aquí, só, que, com a vantagem de efetivarem um dignificante exemplo de civismo, néssa luta belíssima e democrática que óra empreendem.

O povo ficará assim mais esclarecido, com respeito aos nomes que pretende sufragar. Não haverá o risco de ficar impressionado pela palavra de um, num dia e depois apagar éssa impressão com o contacto de outro, dias após. Ouvirá a todos, num mesmo dia, num mesmo local. Aquilatará os pontos de vista e os propósitos de todos, indistintamente e formará seu juízo apropriado, seguro, em torno dos nomes de nossa cidade, se por ventura alguma dúvida ainda alimentar.

Talvez, estejamos errados, talvez pareça éssa sugestão uma utopia, de acôrdo com a mentalidade interpretadora de alguns leitores. Acontece, que entendemos, achamos oportuna éssa realização. Nós que formamos sempre ao lado dos que pretendem, désta vez, a eleição de legítimos representantes de Marília, nós que pregamos o prestígio em torno dos candidatos locais, sem jamais termos personificado a questão, julgamos necessário êsse colóquio coletivo dos candidatos marilienses com o próprio povo.

Cada um dos candidatos de per sí, exporá sua plataforma política, num gesto que significará, indubitavelmente, uma profissão de fé, lavrada publicamente. Por outro lado, temos a certeza de que se efetivada a idéia óra exteriorizada, partirá de Marília um exemplo dignificante, como já, no passado, incontáveis foram as demonstrações de patriotismo e civismo que aquí nasceram e frutificaram.

A sugestão é nossa e só alenta um intento: Que Marília, democraticamente, veja os seus candidatos, em público e de mãos dadas, dirigindo-se a todos, falando com todos e confiando no eleitorado local. Que embora pertencentes a legendas diversas, os candidatos de Marília possam continuar provando que seus interesses, antes e acima de legendas, se prendem aos interesses da cidade e do povo da Capital da Alta Paulista.

Extraído do Correio de Marília de 17 de setembro de 1958

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Jubileu de Prata da Comarca (16 de setembro de 1958)

A data de hoje marca o transcurso do jubileu de prata da instalação da comarca de Marília.

Criada nossa comarca pelo decreto-lei estadual n. 5956, de 1933, iniciou as suas atividades e foi oficialmente instalada no dia 16 de setembro daquele mesmo ano.

A criação da comarca de Marília, mesmo no longínquo ano de 1933, quando o município mal completara seu 5º ano de existência, foi uma imposição do próprio dinamismo da cidade, de sua evolução pujante e verdadeiramente revolucionárias.

O primeiro juiz de direito da Comarca de Marília foi o Dr. Fernando Augusto Nogueira Cavalcanti e ao áto da instalação da comarca estiveram presentes personalidades expressivas da cidade e da região, dentre as quais S. Excia. Revdma., D. Ático, Bispo de Cafelândia, magistrado, representante do então Interventor Federal de São Paulo, etc.

Na data de hoje, a família forense de Marília, sob os auspícios da Sub-Secção local da Ordem dos Advogados do Brasil, renderá expressivo tributo ao transcurso déssa grata efeméride, culminando com um jantar de gala que terá lugar nos salões do “Restaurante Marília”, às 20 horas. Para discorrer sôbre o jubileu de prata da Comarca de Marília, foi designado o Dr. Laércio Barbalho, advogado ao nosso Fôro.

Na oportunidade em que fazemos este registro, necessário é que abordemos a questão da necessidade inadiável e imprescindível do desdobramento de nossos serviços forenses. Sabido é que de há muito tal luta foi empenhada, e, que, de nossa parte, através desta coluna diária e de outras partes noticiosas deste jornal sempre nos colocamos ao lado déssa contenda. Entretanto, em que pése os bons e sinceros trabalhos desenvolvidos indistintamente por nossas autoridades, Sub-Secção da O. A. B. e mesmo entidades representativas da cidade, as providências nesse particular continuam encruadas, inexplicavelmente.

Cidades há, de menor expressão demográfica, onde, logicamente, menor é o número de processos canalizados ao Juízo, que, entretanto, têm suas comarcas desdobradas em mais de uma Vara Judiciária.

Aquí em Marília, imenso é o volume de processos que são apreciados e julgados por um único Juiz de Direito, que exerce por força legal, a acumulação dos cargos de Juiz Eleitoral e Juiz de Menores. Igualmente, sabido é que os trabalhos decorrentes desses três encargos, são pesadíssimos e volumosos para um só magistrado.

No ensejo que Marília comemora o vigésimo quinto ano da instalação de sua Comarca, cuja folha de realização apresenta um índice verdadeiramente auspicioso, em face das apreciações e julgamentos proferidos, significando, por outro lado, um autêntico heroísmo do atual e dos outros Juizes de Direito que por aquí tramitaram, deixamos aquí um apêlo veemente ao Governador Jânio Quadros, no sentido de que se interesse pessoalmente pela necessidade imperiosa e inadiável de nossa comarca, no sentido de que sejam desdobrados os serviços forenses locais, com a criação da 2ª Vara Judiciária de Marília.

Ao mesmo tempo, congratulamo-nos com a família forense e advocatícia de Marília, pelo motivo deste jubileu de prata. Em especial, apresentamos nossas saudações ao Dr. José Gonçalves Santana, nosso estimado e competente Juiz de Direito, pelo ensejo désta efeméride.

Extraído do Correio de Marília de 16 de setembro de 1958

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Candidatos de Marília (13 de setembro de 1958)

Indiscutivelmente, terá Marília désta vez, uma de suas maiores oportunidades em ver-se representada na Assembléia Legislativa do Estado e na Câmara Federal, alegendo um ou mais de seus candidatos. Isso, em que pése a interferência dos candidatos de fóra, que aquí procuram fazer ninho, intitulando-se também donos do terreiro.

Sabido é que todos possuem direitos iguais e tais direitos jamais foram negados a quem-quer-que seja que por aquí aporta, arrotando qualidades imagináveis e que são passiveis, na maioria das vezes, de apresentarem dúvidas. O que maior espécie causa nesse particular, são os empenhos de alguns marilienses, em pról de candidatos de fóra, relegando injustamente os méritos e as pessoas da gente de casa. Prova irrefutável de trabalho por dinheiro ou em tróca de promessas de empregos, pois incompreensível e que gente que aquí vive e aquí está radicada, aquí possue suas ocupações e seus famílias, prefira empenhar-se em favor de candidatos forasteiros, preterindo, diretamente, os valores da casa.

Dizíamos, Marília tem agora uma chance de ser bem e condignamente representada nos parlamentos. Homens de fibra, de trabalho, legítimos marilienses, figuram no ról dos candidatos a postos eletivos e são merecedores da sufragação eleitoral. Esses candidatos locais devem ser prestigiados e consagrados nas urnas, porque o beneficio que disso advier, será mais da cidade e de nosso povo do que dos próprios candidatos se eleitos.

No passado, fala-nos a dolorosa experiência, muita coisa deixou de ser consignada para Marília e mesmo para a Alta Paulista, por carência absoluta de advogados capazes de defender causas dirétas de nossas reivindicações.

Ora, se todos os motivos nos credenciam a justificar deficiências e descasos oficiais para com as cidades de Marília e da Alta Paulista, por falta de deputados legítimos, manda o próprio bom senso que façamos desta vez a experiência necessária, no sentido de sanar esse mal, amputando esse câncro que traduz nossa até aquí orfandade política. Experimentemos eleger nossos homens, para depois verificarmos se obteremos ou não os resultados que pretendemos e necessitamos. Só depois de elegermos gente de nossa cidade e não tivermos obtido as consequências colimadas, é, então, que poderemos, no futuro, agir de outra fórma. Por óra, urge que nos unamos em torno dos nomes de Marília, elegendo aqueles que melhores qualidades apresente de conformidade com a consciência de cada eleitor de per sí.

Convém, pois, não dar-se ouvidos aos candidatos forasteiros, especialmente aos que jamais souberam mesmo que Marília existia e que agora aquí se apresentam como “amigos de Marília e do povo mariliense”.

Repetimos para ficar bem gravado na mente do eleitorado mariliense, os nomes dos legítimos e verdadeiros candidatos de Marília. Para deputados federais, Aniz Badra e Álvaro Simões; para deputados estaduais, Fernando Mauro, José Guimarães Toni e Shiguetoshi Nakagawa.

Ao povo de Marília, ao eleitorado mariliense, cabe a responsabilidade de encaminhar para os parlamentos esses homens, que são de nossa cidade, que são nossos amigos e que tem obrigações para defender nossos interesses.

O resto é conversa.

Extraído do Correio de Marília de 13 de setembro de 1958

sábado, 11 de setembro de 2010

Presidente Gronchi, “auguri”! (11 de setembro de 1958)

Hospeda o Brasil um estadista italiano dos mais consagrados do momento, o maior magistrado da Itália: o Presidente Giovanni Gronchi.

A exemplo das manifestações de apreço tributadas ao ex-presidente da Portugal, general Francisco Higino Craveiro Lopes, vem o público brasileiro manifestando calorosas simpatias e distinguido e carinhoso respeito ao Chefe da Nação peninsular. A exemplo ainda, dos vínculos de fraternidade e gratidão que unem os brasileiros aos portugueses, estamos igualmente ligados ao grande e laborioso povo italiano, cuja imigração para o Brasil principiou em 1.888, já no prenúncio de nossa República.

Daquela época até hoje, nos 70 anos transcorridos, mais de um milhão de italianos aqui aportaram e do Brasil fizeram a sua segunda Pátria.

A terra de Dante, Miguel Ângelo e Petrarca, prodigiosa em gente laboriosa, culta e artística, mandou para cá muitos de seus filhos, os quais, aliando sua vontade a outros povos e aos nacionais, influenciaram sobremodo no desenvolvimento do país, especialmente no sul, com a proeminência (do) nosso rico Estado.

Italianos e seus descendentes, hoje integram-se dentro do organismo da vida nacional, de maneira expressiva, participando indistintamente de todos os pontos de nossas atividades, inclusive contando-se originários dessa grande raça em diversos setores da própria vida administrativa do país. Na lavoura, a presença de italiano é grandemente animadora, principalmente no interior de São Paulo; na indústria, a figura do descendente peninsular ocupa destaque, em relação ao enorme número.

Gente boa, pacata, amante da música e da arte, trabalhadora por excelência, pacata e ordeira por índole, é merecedora das homenagens que óra se tributam ao Chefe da Nação italiana, na pessoa do Presidente Giovanni Gronchi.

Muitos netos e bisnetos de italianos, hoje brasileiros genuínos, que ajudaram a engrandecer e enriquecer o país, constituem justo orgulho para nossa Pátria, tão caracteristicamente e amiga daqueles que souberam mostrar-se amigos, gratos e reconhecidos ao nosso espírito fraternal. Os filhos do berço da Latinidade, da Pátria histórica que nos deu exemplos marcantes, inclusive no setor do amor cristão, agora representados mais diretamente pelo Presidente da República Italiana, merecem as manifestações de simpatia e cordialidade que estão, justamente, sendo prestadas à S. Excia., o Sr. Giovanni Gronchi.

Nossos desejos para que o ilustre estadista italiano, ao regressar ao seu país, tenha a mesma expressão e impressão anteriormente manifestada pelo ex-presidente Craveiro Lopes: “O Brasil é a Pátria das Pátrias”!

Presidente Gronchi, “auguri”!

Extraído do Correio de Marília de 11 de setembro de 1958

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Nossa Biblioteca Pública (10 de setembro de 1958)

A Biblioteca Pública “Tomaz Antônio Gonzaga” de nossa cidade, é sem dúvida um dos grandes marcos de nosso dinamismo. Sabido é que o grau de adiantamento dos povos mede-se com o metro do saber, saber haurido nos bancos escolares e perpetuado depois através de boas obras, de leituras especificas, de tratados diversos e especializados.

O saber também se adquire ou se aperfeiçoa por intermédio de leituras outras, das mais diversas e poliformes, que promovem a elasticidade da mente, predispõem curiosidade e conhecimentos variados, úteis sôbre todos os prismas, necessários sempre à própria vida, em uma ou outra circunstancia.

Nêsse particular, Marília está bem servida, embora no fichário da Biblioteca Pública ainda seja constatada a falta de muitos livros úteis e necessários à consultas, estudos ou mesmo recreação. Mas não há negar que a citada Casa apresenta muita coisa completa, principalmente em relação à outras congêneres, espalhadas em inúmeras outras cidades interioranas.

Recordamos que há algum tempo transato, fazíamos daquí desta coluna, um apêlo aos marilienses em geral e aos estudantes em especial, para que prestigiassem mais, com frequência maior e mais assídua, a nossa Biblioteca. Isto, em virtude de termos constatado, certa ocasião, que a frequência em relação às possibilidades de acomodação e às facilidades que apresenta o mencionado organismo público municipal, não eram das mais completas.

Passou-se já algum tempo. Ontem fomos abordar nosso amigo Mesquita, o poeta mariliense, diretor da Biblioteca e ficamos sabendo que tem aumentado bastante o número de frequentadores àquela Casa. No mês passado, por exemplo, 3.745 consulentes estiveram se servindo da Biblioteca, o que representa, durante 25 dias úteis de agôsto, u’a média diária de 139 pessoas. Índice bom, mas que poderá aumentar, pois existem meios e facilidades para tal.

2.365 volumes foram consultados durante o mês de agôsto, pelas citadas 3.475 pessoas que ali compareceram, assim compreendidos quanto às obras: assuntos gerais, inclusive leitura infantil, 1.516 volumes; filosofia, 89; religião, 3; ciências sociais, 247; filologia, 18; ciências puras, 107; ciências aplicadas, 55; belas artes, 23; literatura, 227; e história e geografia, 80.

Por línguas, assim ficou distribuído o movimento dos volumes consultados e acima referidos:

Português, 2.191; francês, 63; inglês, 69; espanhol, 35; latim, 5; italiano, 1; e alemão, 1.

Dispõe a Biblioteca Pública “Tomaz Antônio Gonzaga”, 5.842 volumes fechados e conta a mencionada Casa com uma Secção Circulante, na qual estão inscritos até agora, 193 candidatos.

A Biblioteca local é um monumento de cultura em nossa cidade. Deve continuar a ser prestigiada pelos marilienses, cujo prestigio representa tão sòmente o comparecimento e a utilização da mesma, que pertence, por natureza, como próprio municipal, ao povo em geral.

Extraído do Correio de Marília de 10 de setembro de 1958

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Candidatos de Marília (9 de setembro de 1958)

Pessoas de compreensão paupérrima, poderão interpretar a campanha que desenvolvemos, em pról da eleição de candidatos de Marília, como absurda ou pretensiosa. Se o caso for analisado com isenção de ânimos, com frieza e imparcialidade, ver-se-á que tal não sucede.

Marília, apesar de canalizar para os cofres públicos federais e estaduais, somas anuais apreciáveis, que representam peso-ouro na balança econômica do Estado e da União, pouco tem recebido dos govêrnos. Exceção honesta seja feita ao atual governador, que muito tem realizado por nossa cidade, como igualmente voltado tem as suas vistas e atenções para as comunas interioranas em geral.

Acontece(,) entretanto, que, pela importância geral de Marília, apesar de seus 30 anos de existência, muita coisa tem deixado de acontecer e muitas reivindicações de direito foram olvidadas ou proteladas, algumas até relegadas e outras negadas. Atribuímos como fator preponderante dêsse estado de coisas, a orfandade política de nossa cidade no parlamento nacional – Assembléia e Câmara dos Deputados.

Sabido é que o centro que não possui seu representante próprio, que trabalhe e se interésse pelas suas coisas e causas, tem mesmo que ficar à mercê de atendimentos por favores e de benefícios por coincidências de leis, pois ninguém nos convence de que um deputado de outra região tenha interêsse em defender nossos direitos, descuidando-se dos seus próprios.

Com uma população que paira pela casa de 110 mil habitantes e com aproximadamente 24 mil eleitores inscritos, nenhum motivo de pretensão absurda ou injustificável existe entre os bons marilienses, que, nesta hora, procuram por todos os meios de esclarecimento legal, alertar o eleitorado local, para votar em gente desta cidade. Candidatos de Marília, sabido é, terá deveres para com tôda a região, pois Marília, embora a mais importante cidade da Alta Paulista, não pode ficar em nível separado de suas irmãs e tem para com estas obrigações de carinho e interêsses de devotamento.

Sabemos, por outro lado, que as cidades vizinhas estão olhando com simpatia para os candidatos marilienses, pois como centros de interioranos, necessitados de uma série de melhoramentos públicos, já se convenceram de que terão mais chances de contar com serviços despreendidos da gente de Marília do que de candidatos aventureiros de outras plagas, aquêles que só se lembram de determinadas partes do interior nas épocas de pré-eleições.

Por isso, insistimos com os leitores e eleitores: Atentem bem para os motivos desta campanha que é nobre sôbre todos os sentidos e consignem conscientemente seus votos aos nomes de Marília, óra disputando o próximo pleito eleitoral.

São os seguintes os candidatos de Marília: para deputados estaduais: Fernando Mauro, Guimarães Toni e Shiguetoshi Nakagawa. Para deputados federais: Aniz Badra e Álvaro Simões.

Extraído do Correio de Marília de 9 de setembro de 1958

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O novo Ginásio do Estado (6 de setembro de 1958)

Como é do conhecimento geral, Marília deverá construir, dentro em breve, o segundo Ginásio Estadual, cujo prédio será erguido mediante um financiamento já contratado com o Instituto de Previdência do Estado de São Paulo.

Não tivemos o ensejo de manusear a planta do aludido edifício. Pessoas insuspeitas, no entanto, quem estudou o citado projeto de construção, em conversa conosco, não conseguiu esconder seu desagrado ante uma série de gritantes falhas que apresenta a planta referida, em confronto com as necessidades exigidas pelas finalidades precípuas de seu elevado destino.

O prédio, obedecendo (a) um modêlo padrão, não disporá de um salão Nobre condigno; apenas um pátio interno, para reuniões de alunos (que permanecerão de pé certamente). Corredores exígúos, menor número de salas de aulas do que o prédio atual da Praça da Bandeira e o inconveniente da localização pouco estratégica das instalações sanitárias.

Dissemos que o edifício será tipo “standard”, adotado para todas as cidades; existe um grande erro nessa adoção, pois mesmo sendo a construção padronizada, certo seria que êsse tipo de padronização obedecesse escalas ou tipos, como “A”, “B” e “C” ou “1”, “2” e “3”, por exemplo, pois inconcebível seria o construir-se prédios destinados ao fim em referência, de tipo idêntico, por hipótese para as cidades de Oriente, Pompéia, Marília, Campinas, etc., onde as necessidades diferem e onde o número de almas escolares é variável.

De conformidade com a palestra que travamos com a pessoa que nos cientificou êste fato, a efetivação déssa construção, nos moldes propostos, não correspondendo totalmente aos anseios e exigências da classe estudantil e ao fim a que se destina, transformar-se-á, inevitavelmente, num futuro bem prómo, num motivo de desagradável erro, que poderá ser melhor apreciado e justificado ainda agora, enquanto tempo existe para tal.

Marília cresce em todos os sentidos, sua população aumenta. As necessidades no setor educacional, cada vez mais se acentuam e o erguimento do prédio, obedecendo o tipo padrão pré-estabelecido, significará um erro imperdoável lógo no dia de amanhã. Isto é, mesmo com dois ginásios estaduais, Marília não terá prédios e nem acomodações suficientes para suas necessidades nêsse setor!

Como dissemos, estamos baseando nosso escrito, em informações de pessôa idônea aquí residente, as quais nenhuma dúvida temos em endossar. Néssas condições, de bom alvitre seria que os poderes competentes se interessassem pelo assunto em apreço e verificassem o que de verdade existe nas alegações óra ponderadas, tomando as providências que se fizessem necessárias, enquanto existe remédio para o mal.

É mesmo inacreditável, repetimos, que o prédio referido, de tipo “standard”, seja de iguais condições para todas as cidades, indistintamente, sem atentar-se para uma série outras de quesitos e necessidades, ditadas pelo dinamismo, em maior ou menor volume, por cidades de diferentes densidades demográficas.

Entendemos que não está certo.

Outro ponto de importância, é que um estabelecimento oficial possua o seu Salão Nobre, indispensável para conferências, pregações cívicas, homenagens, comemorações, formaturas, etc.. Os dias de hoje deixaram para traz, especialmente em escolas secundárias, mesmo do primeiro ciclo, a condição de professores falarem aos alunos enquanto estes permanecem em pé e acotovelados.

Corredores estreitos e acanhados, não condizem também com um estabelecimento educacional moderno e muito menos se casa com estética, a localização de instalações sanitárias de uma escóla, lógo praticamente à entrada do estabelecimento.

Soubemos ainda que a exibição da planta a vários colegiais, provocou espécie e estranheza das mais profundas, ao lado de uma decepção das mais incríveis.

Ante isso, não seria interessante atentar-se para as considerações que nos foram trazidas pelo nosso informante e averiguar tudo devidamente, providenciando o que necessário, para que Marília(,) que vai possuir seu segundo ginásio estadual, possua de fato um prédio condigno de acomodar o segundo ginásio estadual?

Aquí fica a sugestão.

Extraído do Correio de Marília de 6 de setembro de 1958

domingo, 5 de setembro de 2010

Uma C. R. para Marília (5 de setembro de 1958)

Pela localização topográfica e densidade demográfica, nossa cidade ostenta lugar privilegiado na parte noroeste do Estado de São Paulo. Aqui existem vários órgãos auxiliares e administrativos oficiais, quer do Estado, quer da União.

A 6ª Circunscrição de Recrutamento Militar, sediada em Bauru, tem sôbre a jurisprudência de uma região vastíssima. Tão vasta que seus serviços apresentam, naturalmente, um sobrecarregamento de atividades de contrôle e fiscalização. O desdobramento da 6ª C. R. de Bauru, com a criação de uma Circunscrição de Recrutamento em Marília, traria benefícios inestimáveis aos próprios interesses do Exército e desafogamento da 6ª C. R., uma dependência que, pela sua localização, pela densidade demográfica e pela vastidão da região noroeste-oeste que superintende, encontra-se sobrecarregada de serviços e distanciada de muitas partes do território que lhe compete cobrir.

Marília é uma cidade que apesar de nova, com apenas 30 anos de existência, é sede de comarca, é servida pela bitola larga da Cia. Paulista de Estradas de Ferro, possui cerca de 110 mil almas em seu município, é região agrícola por excelência e centro comércio-industrial dos mais sólidos do interior, principalmente das regiões em embrião.

Sua localização é deveras privilegiada, em virtude das ramificações existentes para comunicações com os Estados de Mato Grosso e Paraná. Servida por linhas aéreas e dotada de excelentes rodovias que a ligam a centros longínquos, Marília, que já serve de sedes de delegacias regionais das Secretarias de Ensino, da Saúde, da Fazenda, de Polícia, da Caixa Econômica, do Centro das Indústrias, etc., além da de Recrutamento, subordinada à 6ª C. R. de Bauru, apresenta credenciais necessárias para servir também como sede de uma Circunscrição de Recrutamento Militar.

Cerca de 20 estabelecimentos bancários, mais de mil estabelecimentos comerciais, centenas de industrias, arrecadações fabulosas de âmbitos federal e estadual, povo pacifico e ordeiro, sem contar com a situação privilegiada que apresenta no próprio setor geográfico de Estado, Marília está credenciada a aspirar para si, a condição de sediar uma Circunscrição de Recrutamento Militar. Isso não representa nenhum motivo de pretensão absurda; antes, pelo contrário, significará o desejo de ser útil também nesse sentido, como em tantos outros esta é útil a São Paulo e ao Brasil. A primeira no setor educacional do ensino da Alta Paulista, com uma dezena de ginásios, escolas de comércio, duas faculdades, hospitais modernos e aparelhados, com todo o conforto dos grandes centros, porque assim o comprovam sua própria vida, Marília pretende unicamente ser mais útil ao próprio Brasil.

A criação de uma Circunscrição de Recrutamento Militar é uma coisa que se impõe, pelas razões acima apontada e por outras inúmeras mais. Se as autoridades militares competentes se dignarem realizar um estudo da condição de Marília nesse sentido, poderão verificar que estamos certos ao abordarmos êste assunto.

Extraído do Correio de Marília de 5 de setembro de 1958

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Um exemplo a ser imitado (3 de setembro de 1958)

É comum dizer-se que o repórter tem o nariz tão grande, que vive a mete-lo onde nem sempre é chamado. Acontece que isto é verdade. O repórter, por dever de oficio, possui um espírito incomum de curiosidade e está sempre atento a ouvir e a ver tudo o que se passa em seu derredor, mesmo nas horas desocupadas.

E foi isso mesmo que nos aconteceu, num dia destes, num dos populares bares da cidade. Alí estávamos saboreando um cópo de chopp, acomodados num tamborete, quando percebemos que um grupo de quatro pessoas discutia sôbre política e acêrca de candidatos. Quando um disse que iria votar, para deputado estadual num candidato de fóra (que por sinal está fazendo uma “barulheira” infernal em nossa cidade), o outro quasi o “comeu” vivo. Chamou-o à queima roupa de mau mariliense, de inimigo de nossa cidade (ambos são moradores velhos daquí).

De nossa parte, limitávamos a ouvir atentos, embora disfarçadamente, o transcorrer da polêmica. Dizia o chamado mau mariliense, que o candidato “X” prometera-lhe a importância de 500 cruzeiros por cada voto que conseguisse em Marília! E acrescentava que sendo póbre, não iria deixar escapar éssa “boca rica”, que só aparece de quatro em quarto anos.

Está claro que o rapaz é póbre. Póbre de espírito, póbre de patriotismo e póbre de amor por Marília. Póbre, não(:) miserável.

A argumentação do que combateu a atitude da pessoa citada, não resultou em positividade. O outro terminou por retirar-se, tendo deixado no ar a certeza de que votaria em gente de fóra, por 500 cruzeiros. Isto é, que sua própria consciência nada mais vale do que meio conto de réis.

Depois que a turma se desfez, permaneceu sozinho, exatamente ao nosso lado, o homem que combatera a ação do mau mariliense. Indisfarçadamente encontrava-se acabrunhado com o resultado e o rumo da conversa. Tanto assim, que à guisa de desabafo (não sabemos se o mesmo nos conhece pessoalmente ou não), voltou-se para nosso lado. E perguntou-nos se ouvíramos a conversa. Quando lhe respondemos afirmativamente, quiz saber nosso ponto de vista. Dissemos-lhe que obrára bem e que estávamos com ele nesse ideal. Aí o rapaz tomou as rédeas da palestra casual e demorou-se a citar exemplos e pregar idéias. Exatamente a copia de nossa luta. Perguntamos ao moço em quem iria votar, esperando uma confirmação ou um titubeio em sua resposta, para certificar-nos da verdade de suas alegações anteriores. Foi franco: “Votarei em Fernando Mauro, para deputado estadual”. E perguntou: “Não é bom?” Dissemos que sim, que éra bom e que acima de tudo é candidato de Marília. E indagamos sôbre o deputado federal. O homem tornou a dizer a verdade. Explicou-nos que embóra reconheça no reverendo Álvaro Simões um homem digno e de valor, não simpatisa muito com o mesmo. E declarou também que não aprecia o Badra. Arrematou: “Mesmo não simpatisando com o Álvaro Simões e não apreciando o Badra, escolherei um dos dois e votarei, pois não irei votar, sob fórma alguma, em candidatos de fóra”.

Felicitamos o homem e enaltecemos seu valor de mariliense e sua compreensão à luta sacrossanta que óra se encontra em vigência em Marília, em pról da eleição de gente de nossa cidade. E fomos mais adiante, pedindo-lhe, não como favor à nós, pessoalmente, mais sim à Marília e seu povo, que se ele tivesse algum parente ou amigo que se encontrasse na mesma situação dele, isto é, sem ter a preferência marcante pelos candidatos daquí, tivesse a mesma atitude que ele próprio acabara de confessar, escolhendo um nome que melhor lhe aprovesse para votar, desde que fosse um homem de Marília.

Essa pessoa é um homem do povo. Conhecemo-la de vista, há muitos anos, embora não saibamos o nome e nem onde trabalha. Mas temos a convicção de que é um bom mariliense. E nos demonstrou a sinceridade de átos dignos de um bom mariliense.

Não fôra a importância dêsse exemplo, não teríamos delineado este fato; acontece que éssa mostra de amor por Marília é digna de ser relatada, ser reconhecida e ser imitada. Um homem comum deu um grande exemplo. Sigamos os que ainda estão indecisos ou os que estão “caindo” pela “bicaria” dos candidatos forasteiros.

Extraído do Correio de Marília de 3 de setembro de 1958

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Atitude elevada (2 de setembro de 1958)

Fomos assistir, como convidados, dois comícios realizados domingo último (31 de agosto de 1958), pelos candidatos marilienses Guimarães Toni e Álvaro Simões. Os “meetings” referidos desenvolveram-se nos distritos de Amadeu Amaral e Avencas, com grande afluência pública.

Pensávamos, de antemão, que iríamos presenciar comícios comuns, baboseiras, conversas fiadas como tantas vezes tem acontecido nas vésperas das eleições. À êsse respeito, tivemos uma grata surpresa: vimos gente de Marília tomando contacto com as populações distritais, falando de igual para igual, desprezando adjetivos pomposos e sinônimos confusionistas; ouvimos a palavra amiga de marilienses, sem ataques, sem censuras a adversários políticos, sem promessas absurdas e impossíveis. Vimos, enfim, a palavra simples e sincera, aquela que professamos e que tanto gostamos de ouvir; a voz tocante e pura, sem verborragia inócua, sem pompas ilusórias, sem ostentação demagógica, sem cantilenas inúteis.

Jamais, em nossos escritos, nesta trincheira em que há mais de uma década participamos, pela eleição de gente de Marília, personificamos a questão. Sempre tivemos a preocupação de recomendar votos para gente de nossa cidade, sem pender preferencialmente para um ou outro candidato. E, nessas condições, assistimos com prazer os comícios referidos. Ouvimos falar o popular Tatá, os vereadores Leonel Pinto Pereira, Nasib Cury e Lourenço Senne; os bacharéis Antônio Alcalde e José Scarabôtolo e os candidatos da coligação UDN-PSP, Guimarães Toni e Álvaro Simões, respectivamente concorrentes à Assembléia Legislativa e à Câmara Federal.

O que mais nos prendeu a atenção, o que de maneira mais profunda calou em nosso espírito de observadores, foi a atitude nobilíssima desenvolvida pelos senhores Álvaro Simões, Guimarães Toni e Lourenço Senne em seus discursos. Depois de historiar os motivos da necessidade da compreensão dos eleitores locais em torno dos nomes dos candidatos da coligação, legítimos candidatos de Marília, os três oradores proporcionaram aos presentes e à nossa reportagem, de modo natural e espontâneo, uma verdadeira aula de civismo, uma real demonstração de maturidade e educação política, de inconfundível amor por Marília e seu povo. É que, apregoando as qualidades reconhecidas dos candidatos referidos, todos se abstiveram de incentivar ou apelar para o espírito público, com alusão à governança estadual, tendo deixado claro a liberdade de escolha pelos eleitores, indistintamente. E foram mais além, num gesto nobilíssimo, elevado: tiveram a sinceridade de externar ao público, que, se êste, por qualquer motivo não conhecesse ou não simpatizasse com os nomes de Guimarães Toni e Álvaro Simões, preferindo votar em outras pessoas, que o fizesse, mas contanto que votasse em candidatos de Marília, que não dispensasse sufrágios à gente de fóra, principalmente aos aventureiros alienígenas(,) àqueles que só se lembram de nós e de nossa cidade em épocas que precedem as eleições.

Num tempo como êste, em que os políticos agem como os lagartos – o mais esperto procura devorar a cauda do outro –, uma atitude como a que praticaram esses cidadãos, é digna de respeito, pelo cunho elevado de patriotismo e amor por Marília que encerra, pela demonstração cabal de cultura cívica e de exemplos de sadio respeito apresentado e pelo inconfundível ideal da batalha em pról de Marília e dos marilienses.

Pensem bem os leitores, acêrca déssa atitude; reflitam a condição, a sinceridade irretorquível desses candidatos, que, pedindo votos para sí próprios, tiveram a suficiente ombridade de apelar para o público, que se este público não pretendesse votar neles, que votassem em outros candidatos desde que fossem de Marília. Isso demonstra que eles encaram com o mesmo interesse as suas próprias eleições, como vêm a vitória dos adversários políticos, desde que sejam de nossa cidade. Isso atesta que os mesmo tem amor por Marília e por nossa gente e é algo confortador, algo eivado de esperança, algo que dá a certeza de que a luta que vimos empreendendo há tempos, agora engrossada, pelas diligências e operações da União Eleitoral Mariliense, não está sendo em vão.

Portanto, justo é que finalizemos esse comentário, lembrando aos marilienses de coração, que os próprios candidatos, embóra opostamente na luta, encaram com carinho a eleição de marilienses, sem tanta preocupação em causa própria. Resta, portantos, ao povo de Marília, que interprete bem éssa belíssima atitude, que a analise com calma e frieza e perceba a enorme responsabilidade que lhe oferece o próximo pleito, para eleger gente de nossa querida terra.

Extraído do Correio de Marília de 2 de setembro de 1958