segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sangue para os pobres (30 de agosto de 1958)

Sabem todos, que, na ocasião em que um doente necessita de transfusão de sangue para sobreviver ou para atenuar um mal físico, encontra, quase sempre, sérias dificuldades, sendo a maior de ordem financeira, mormente se o enfermo pertencer à classe póbre.

O plasma custa um preço bastante caro, mesmo quando doado, tôdas as vezes que a transfusão é feita por um médico particular e não por um Banco de Sangue oficial.

Os pobres de Marília vinham lutando com o problema em apreço e a respeito tivemos o ensejo de ouvir, versos diversas acêrca dêsse particular. Falou-se muita coisa, especialmente criticando alguns médicos especializados nesse mister. Nós, por experiência própria, não estamos em condições de condenar ou aplaudir as referências, algumas até pejorativas, que a respeito circularam e continuam a circular na cidade.

Em fase disso, o assunto ganhou proporções tais, que veio a público e chegou a ser focalizado na Câmara Municipal. Posteriormente, criou-se e instalou-se um Banco de Sangue anexo à Santa Casa de Misericórdia local, para atender aos pobres necessitados. Informa-se que nem sempre o referido organismo dispunha de estoque de plasma suficiente, ocasionando por vezes dificuldades para seu próprio funcionamento e desobrigação de suas elevadas e humanas finalidades.

Louve-se, entretanto, o número de bons marilienses, incluindo-se ali os componentes da Fôrça Pública, que se prontificaram a doar periodicamente o sangue necessário.

Agora, o “Lions Club” de nossa cidade, prosseguindo na sua caminhada de prestígio e ações em pról da assistência social e principalmente em benefício dos pobres, resolveu também participar dêsse movimento verdadeiramente altruístico.

Tanto assim que deu os primeiros passos, oferecendo a Maternidade e Gota de Leite duas dúzias de frascos especiais para o acondicionamento do plasma e igual número dêsses utensílios à Santa Casa de Misericórdia.

Ao par dêsse oferecimento espontâneo, foi também empenhada a promessa pela diretoria da entidade, às direções dêsses dois estabelecimentos hospitalares, de que o “Lions Club” organizar-se-á de tal maneira, no sentido de que jamais falte o sangue destinado a socorrer os pobres e necessitados dêsse suco da vida humana.

Colaboração inestimável vem ser acrescentada ao movimento em apreço, óra empreendido pelos “leões” marilienses, representada pela presença pessoal e profissional do dr. Arnaldo de Barros, que dispensará em pról da causa, graciosamente, os serviços de sua especialidade.

Gestos como êsses, dos “leões” e do dr. Arnaldo de Barros, dão a certeza de que o espírito de solidariedade humana existe abundantemente em Marília e a convicção de que, por êsse motivo, nenhum pobre deixará de viver.

Congratulamo-nos com a atitude do “Lions Club” e do dr. Arnaldo Barros, nessa luta altruística e humanitária que representará a salvação de muitas vidas de nossa cidade.

Extraído do Correio de Marília de 30 de agosto de 1958

domingo, 29 de agosto de 2010

Vote bem, votando em gente nossa (29 de agosto de 1958)

Estamos há um mês e (cinco) dias do pleito de 3 de outubro.

Será chegado o momento do eleitor mariliense comparecer às urnas, para eleger, conscientemente, seu Governador, Vice-Governador, deputados federal e estadual, senador e suplente de senador da República.

Os leitores sabem da luta que vimos realizando há mais de uma década, objetivando a eleição de legítimos representantes de Marília. Essa luta nada tem a ver com o jornal, porque como órgão de imprensa, nossa Folha acolhe em suas colunas a propaganda e o pensamento de todo e qualquer candidato e igualmente noticia com imparcialidade própria dos órgãos democráticos e que não se vendem ou não pertencem a facções políticas, tudo o que a respeito de política acontecer, focalizando nomes indistintamente.

Essa campanha, neste órgão, é da responsabilidade integral do autor destas linhas. Por ela o mesmo responde, em qualquer circunstância ou situação.

Mas, como dizíamos, estamos há um mês e (cinco) do pleito eleitoral. Necessário é que todos nós, marilienses de fato e não falsos marilienses, nos compenetremos do vulto dessa responsabilidade, ao procedermos a escolha daquêles que irão representar-nos no Govêrno e nos parlamentos. Principalmente nos parlamentos, que mais diretamente vem a coadunar-se com nossa contenda, que diz respeito aos interêsses de nossa cidade e de nossa gente.

Exemplos do passado não faltam. Nossa cidade ficou abandonada, esquecida, perdeu incontáveis oportunidades de reivindicar benefícios e direitos, porque, com exceção do saudoso Bento de Abreu Sampaio Vidal, jamais contou na Assembléia com um representante legítimo, real, nosso mesmo.

Alguns deputados já procuraram beneficiar Marília. Alguns a beneficiaram, como, por exemplo, com a criação da Faculdade de Filosofia. Entretanto, outros inúmeros projetos de lei de interêsse de Marília, foram apresentados de afogadilho, às vésperas das eleições, com o fito indiscutível e indisfarçável da angariação de votos dos marilienses.

Óra, se já temos êsses exemplos, se já “apanhamos” por desleixo de nós próprios, justo é que procuremos aprender após os erros do passado e reencetemos agora, enquanto é tempo, a caminhada direita, correta, para alcançarmos o fim colimado. Se jamais experimentamos ter um deputado nosso, legitimamente nosso, façamos uma experiência: provemos agora a oportunidade de elegermos gente de nossa terra, para ver se a situação muda, para saber se as coisas melhoram para nossa cidade e nossa gente.

Por isso, repetimos o já muitas vezes repisado: O eleitor consciente de Marília tem dever moral de votar em gente de nossa terra. Tem obrigação para consigo próprio, para com sua família, de votar em candidatos de Marília.

E, o que é mais feliz, tem o ensejo de escolher entre nomes honestos, bons, capazes. O mariliense que deixar de votar em gente de nossa terra para votar em aventureiros e “caçadores de votos” será ingrato, desleal, inimigo de Marília e seu povo.

Aniz Badra e Álvaro Simões são os candidatos de Marília à deputação federal.

Fernando Mauro, Guimarães Toni e Shiguetoshi Nakagawa são igualmente, candidatos de nossa cidade à deputado estadual.

Êsses cinco nomes são os candidatos de Marília. Dentre êles, o eleitor deverá escolher, como amigo de nossa cidade, como amigo de nosso povo. Quem deixar de voltar nesses homens que são nossos amigos (e) que conosco convivem, que aqui têm as suas famílias e as suas obrigações de sobrevivência, não será um bom mariliense, não será, comprovadamente, um amigo de Marília.

Por outro lado, os verdadeiros marilienses, aquêles que aqui vivem, aquêles que aqui ganham o suficiente para sustentar suas famílias, aquêles que estão integrados ao organismo de nossa vida e de nossa cidade, devem combater, a atitude desbriada de falsos marilienses, que, relegando a segundo plano o nome de nossa cidade e de nosso povo, estão trabalhando para candidatos de fóra.

A União Eleitoral Mariliense está “de olho” nos falsos marilienses, aquêles que estão realizado campanhas para gente de fóra em nossa cidade. Conversamos com um diretor da UEM e êste nos asseverou que a União fará, democraticamente, uma campanha pública, “dando nome aos bois” e denunciando as pessoas que estão trabalhando à soldo de candidatos de fóra.

Marilienses, forme(m) vocês também no batalhão dos amigos de Marília. Vote exclusivamente em gente de nossa cidade, para deputados estadual e federal. Você estará agindo certo, estará prestigiando nossa campanha e nossa gente, nossa cidade e nosso povo, enfim. Você estará cumprindo, antes de mais nada, o dever patriótico de bom mariliense, Sim, porque o mau mariliense vai votar em candidato de fóra. Vai votar em troca de alguns cruzeiros, de algum favor ou de alguma promessa de emprego!

Extraído do Correio de Marília de 29 de agosto de 1958

sábado, 28 de agosto de 2010

Uma reunião diferente (28 de agosto de 1958)

Se existem prazeres incompreensíveis para muita gente, como por exemplo a mesa de jogo, o “snooker”, a mesa do bar, o futebol, o cinema, etc., para nós, que militamos na imprensa, nada mais agradável do que uma “conversa ao pé do fogo” – como diria o sr. Adhemar de Barros.

Nossa redação, de pobrêza franciscana, com três escrivanias, duas máquinas de escrever, algumas cadeiras e um sofá estofado é a prova disso. Aqui a gente fica muitas horas, como o viciado num entorpecente, “batendo papo”, aspirando o ar impregnado de tintas, gasolina e papéis velhos. Isso sem contar-se o cheiro enjoativo da linotipo, quando o Sandoval cisma de limpar a máquina.

Coisa rara numa redação é reunirem-se todos os redatores.

Outro dia, entretanto, como tôda regra tem sua exceção, conseguiu reunir-se todo o pessoal do “Correio”, da parte redatorial. Todo, não. Faltou o Antônio Fernão de Magalhães. Mas lá se arregimentaram, em feliz coincidência, além do autor desta coluna, mais João Jorge, Anselmo, rev. Simões, Lauro Vargas, Barbosa e o “senador” Aristides, como “contrapêso”. Estava reunido o “Estado Maior”. Com tôdas as “armas”, inclusive a “artilharia pesada” que quase não funcional em nosso jornal, apesar de bem preparada, bem lubrificada.

Muita conversa, atrapalhando óra um, óra outro. João Jorge, contando alguma coisa de Amparo, Lauro Vargas preocupado com seus escritos filosóficos, o reverendo atarefado com os próximos comícios, o “senador” acendendo o charuto especial (presente do Badra) e o Anselmo atendendo (a)o telefone. Barbosa relendo prospectos do Clube de Cinema e o autor destas linhas aproveitando a “deixa” e rabiscando êste artiguete, pois quando o mesmo não sai o Anselmo fica feito uma “sarna”, telefonando para a gente e dando a entender que o cronista é pago para escrever, que o linotipista precisa (de) material para compor, que o revisor deve ler a prova e que o paginador não ganha para ficar olhando moscas. E observamos como é gostoso o ambiente da redação. Como as idéias divergem, como são defendidas, mas no final, como é desfraldada a bandeira desta Folha.

Falou-se sôbre a crise das batatas em Pompéia e Quintana, motivo que um deputado estadual explorou na Assembléia. Falou-se acêrca do último comício do Auro, das próximas eleições. Fizeram-se referências sôbre a política do Brasil, sôbre Brasília, sôbre o candidato mariliense, acêrca dos que trabalham para gente de fóra e muitas outras, que, trocadas em miudo, dariam uma edição completa e poderiam inclusive “por fogo na cidade”.

A “turma” continuava falando e nós escrevendo. Verdadeira “ursada”, bem sabemos, mas sem outro remédio. A conversa animada, o relógio da parede (mais velho do que “seu” Aristides), correndo sem parar e nada tínhamos feito para encher êste espaço (sem plágio e sem consentimento do João Jorge, que é mestre em encher... espaço). E saiu isto. Alguns momentos de palestra de nossa “turma”, “turma” que é uma família.

Agora precisamos parar. A lauda está no fim e o reverendo olha disfarçadamente, mas seu olhar significa apenas isto: “como é, vai demorar muito com essa máquina?”

Lauro ameaça levantar-se. João Jorge (apesar de “beduíno”), convida para o café. Vamos tirar o papél da máquina e colocar na pasta onde se lê: Para amanhã, primeira página”. Vamos tomar o café, porque não é sempre que o João Jorge vem aqui em Marília agora e porque não é sempre também que a gente consegue reunir-se tôda (a redação) e saborear o “chibéu” aí do japonês. Tchau...

Extraído do Correio de Marília de 28 de agosto de 1958

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

“Bronca”, arma de otário (27 de agosto de 1958)

Esgaravatar feridas dói mesmo.

Escrevemos ontem (26/8/1958) um artiguete, acêrca da inutilidade e da falta de fundamento de todo e qualquer prognóstico eleitoral. Entendemos nosso ponto de vista, baseado em exemplos passados e fundamentado na própria razão. Principalmente hoje em dia, quando o eleitor brasileiro, em que pése a sua boa fé e a sua relativa ignorância, de módo geral não mais está ligando para legendas, para votar unicamente em homens. E ele faz bem. Partidos só interessam aos políticos à eles filiados; ao povo interessam os homens de valor e suas atitudes leais em pról dêste mesmo povo.

Pois não é que lógo de manhã, ao atendermos o telefone cá da redação, percebemos que um animal com voz masculina estava no outro lado da linha?

Pelo tamanho das patadas, pudemos antever que o cavalo éra grande. Se não éra, pelo menos arrotou ares de grandeza.

Gostamos de conversar com nossos leitores. Já temos afirmado isso várias vezes. Gostamos, principalmente, de ouvir as críticas que nos são formuladas. O interlocutor de ontem, não quiz declinar o nome, não quiz identificar-se, não quiz dizer a que partido político pertence ou simpatiza. Deixou antever, apenas, que é contra o Sr. Jânio Quadros. Com ogeriza e fobia. E como fala! Deve ter cuspido todo o bocal do telefone! Parecia um cão hidrófobo!

Não nos deixou falar. Gritou, esperneou e desligou o telefone, num gesto de refinada má educação e não menor covardia. Ficamos com dó, pois o fanatismo é alguma coisa que corróe, machuca, mata como o próprio câncer.

Vamos responder, agora, ao nosso leitor mal educado. Agora ele não nos poderá impedir de refutarmos sua ignorância e de externarmos nosso pensamento.

Não somos “puxa” do Jânio, amigo. Nem de nenhuma outra pessoa. Somos independentes em nossas atitudes e pensamentos, que praticamos e externamos quando bem entendemos, mercê do salutar (embora não completo) clima democrático em que vivemos. Somos, isto sim, partidários da decência, da honestidade, dos bons princípios, da lealdade, das ações insuspeitas, dos gestos escorreitos. Somos aversos, visceralmente aversos, aos desmandos, aos cambalachos, à hipocrisia, à pouca vergonha, à compra de consciência, à indecência política, aos excessos, ao desrespeito à Lei, etc..

Afirmamos o anteriormente dito: Não vimos, até hoje, desonestidade no Govêrno do Sr. Jânio Quadros. Reconhecemos que ele tenha seus erros, suas manias, como todo ser humano. Mas afirmamos uma coisa: De todos os governadores do Estado de São Paulo, desde 1.554, o que mais trabalhou, o que mais fez e o que menos póde ser chamado de desonesto é o atual Governador.

Imagine o leitor, que se o Sr. Jânio Quadros tivesse “rabos de palha”, o que não estariam fazendo agora os seus adversários políticos! E no entanto, nenhum deles conseguiu provar nada grave contra o ocupante dos Campos Elíseos. Buscaram, infantilmente, erros de engenheiros-funcionários ou de responsáveis por firmas vencedoras de concorrências públicas regulares, para incriminar o sr. Jânio Quadros, como responsável por um asfaltamento chamado pejorativamente de “casca de ovo”. Esmiuçaram departamentos públicos, onde existem chefes responsáveis, para citar irregularidades, que, por antecipação foram elevadas à quinta potência, tentando responsabilizar o Governo por tudo. Mas nada conseguiram.

Dissemos ontem que dos candidatos que ouvimos, nenhum nos convenceu de erros calamitosos do atual Governador. E não somos fanáticos. E não somos insinceros. Os que convivem mais pessoalmente conosco, sabem que a franqueza e a virtude de dizer o que se sente, embóra com prejuízos, é nosso cartão de identidade.

Repetimos o antes dito: Os políticos adversários do Sr. Jânio Quadros ou do sr. Carvalho Pinto tudo têm feito para encontrar um “galhinho” que póssa ser explorado. E não o encontraram. Porque não existe. Se existisse, por mais oculto que estivesse, já teria sido desenterrado. Ora se já!

Pergunte o leitor aos prefeitos do interior, de qualquer parte do Estado, aos moradores conscientes e imparciais de qualquer cidade, por menos expressiva que seja, qual o Governador ou Interventor que mais benefícios e reconhecimentos dispendeu em pról das comunas bandeirantes. Indague o leitor abusivo e malcriado que ontem nos telefonou, quem foi capaz de cumprir a Constituição e mandar pagar aos municípios, o dinheiro à estes devido por Lei e esquecido convinientemente por muitos dirigentes. Indague ainda o leitor, do Prefeito Argollo Ferrão e do Sr. Adorcino de Oliveira Lyrio, quando recebeu o município de Marília, durante o Govêrno do Sr. Jânio Quadros. Para não ir longe, pergunte aos prefeitos de Garça, Vera Cruz, Pompéia, etc..

Nós somos apologistas do trabalho e da honestidade. E ninguém poderá negar que o Sr. Jânio Quadros não seja trabalhador e honesto. Se fôra o contrário, estaríamos falando aqui, o que, com a mesma franqueza, já dissemos de outros Governadores e Presidentes. Para isso não tememos cara feia.

Para finalizar: “bronca” é arma de otário. O nosso amigo do telefone que atente bem para isso.

Extraído do Correio de Marília de 27 de agosto de 1958

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Prognósticos eleitorais (26 de agosto de 1958)

Como simples observadores, tivemos o ensejo de presenciar em nossa cidade, comícios onde se ouviram as palavras dos três candidatos aos Campos Elíseos – Carvalho Pinto, Adhemar de Barros e Auro Moura Andrade.

Ouvimos com interesse as alocuções de diversos candidatos a deputado e de outras pessoas especialmente empenhadas na campanha eleitoral de cada um dos nomes citados.

Procuramos, dali, tirar uma conclusão própria, conscienciosa, neutra. Ao mesmo tempo, por mistér de ofício, temos ouvido pareceres e prognósticos de muita gente de nossa cidade. Adhemaristas, Janistas e “peneiristas”. Cada qual, partidário de um candidato, tem como cérta a vitória deste, apresentando razões e tabelas elaboradas, com a convicção matemática de que dois e dois são quatro.

Em nós, temos como incógnita a eleição presente. Surpresas poderão acontecer, trazendo no final da apuração do pleito, alegrias para uns e decepções para outros. Nada do que se disser poderá ter base sólida ou fundamento indestrutível. O povo, aquele que irá decidir a sorte dos candidatos, tem uma liberdade integral e só ele determinará, em conjunto e em maioria, o novo ocupante dos Campos Elíseos e os novos inquilinos da Assembléia e da Câmara Federal.

Nenhum prognóstico tem alicerce firme. Numa comparação grotesca, o resultado das eleições é como o bebê que está para nascer. Homem ou mulher? Ninguém dispõe de meios, de cálculos, de elementos para determinar o sexo do futuro na(s)cituro. Só se saberá êsse pormenor quando o rebento vier ao mundo.

Nas eleições passadas, falharam as chamadas “prévias eleitorais”, como igualmente falharam os “sapientes” astrólogos e videntes, mesmo os mais famosos.

É bobagem o afirmar-se que fulano vencerá “estourado”, como é igualmente ingenuidade afiançar-se que beltrano será o “lanterninha”.

Como dizíamos, temos observado os comícios políticos e acompanhando as orações de muitos candidatos e pessoas interessadas, com neutralidade absoluta. Uma coisa nos chamou atenção nessa particular. Os discursos dos srs. Adhemar de Barros e Auro Andrade. Quasi todos os que falaram nessas ocasiões, não titubearam em apontar o atual govêrno como corrupto e desonesto. Procuramos prestar a atenção e verificamos que todos os que fizeram as referências em apreço, jamais apontaram as desonestidades do atual governador. Procuramos conhecê-las e não as vimos, não as sentimos.

Daí, o repetimos aquilo que já dissemos outro dia.

Os candidatos, quasi todos, estão apresentando uma falha enorme, traduzida em ausência de personalidade. Mais bonito, mais dignificante seria, o candidato provar em público sua personalidade, suas intenções, seu valor e sua competência, sobrepujando com tais atitudes os defeitos (ou imaginários defeitos) do próximo, do que, apontar falhas nos adversários, falhas essas que, nem sempre existe com fundamento.

O candidato que procede de tal maneira, isto é, espezinhando o contendor, está antes de mais nada, dando demonstração de que ele é inferior ao outro e que é algo fraco de ações e também de espírito.

Entendemos que um disputante deve provar o seu real valor antes de tentar convencer o público dos defeitos do outro. Isto é o que aceitamos como campanha democrática e sadia.

Extraído do Correio de Marília de 26 de agosto de 1958

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A V Olimpíada Estudantil (23 de agosto de 1958)

No próximo dia 30 (de agosto de 1958) teremos em nossa cidade a data inicial da realização da V Olímpíada Estudantil de Marília, certame anual patrocinado pelo Yara Clube e que conta com a simpatia e a participação de todos ou quasi todos os estabelecimentos de ensino de nossa “urbe”.

Vimos no passado, o sucesso dêssas realizações. Elevada expressão técnica, ambiente de cordialidade, apesar do interesse que as disputas desportivas movimentam, a medida que as competições vão se desenvolvendo.

Objetiva o Yara Clube, entidade que se destaca entre nós na movimentação e patrocínio das diversas competições esportivas, o aprimoramento da fórma técnica do desporto amadorista. O preparo do físico é necessário e ombreia-se com o preparo do intelecto. “Mens sana in corpore sano”, lema grandemente difundido entre nós.

Brilhante folha de serviços nesse campo já prestou o Yara Clube de Marília e mesmo a região. Dos umbrais daquela simpática Casa da Av. Vicente Ferreira, já despontaram verdadeiros craques, ídolos consumados, como, por exemplo Tetsuo Okamoto, Wilson Bombarda, Adinor da Silva Freitas e outros.

O certame referido terá a duração de 30 de agôsto a 7 de setembro, quando culminará. O Congresso de encerramento será realizado a 18 de setembro, data em que se comemora o aniversário do Yara, que, no corrente ano, verá transcorrer (o) 18º ano de lutas em pról do esporte mariliense.

Ciclismo, bola ao certo, voleibol, tenis de mesa, futebol de salão, natação, xadrez, etc. serão as principais atrações desportivas do aludido certame, que, sem sombra de dúvida alcançará o mesmo êxito dos anos anteriores.

Na oportunidade em que fazemos referências ao assunto em fóco, ocorre-nos a conviniência de que sejam oficializadas em nossa cidade tais competições esportivas, que, ano após ano, aqui são desenvolvidas com raro brilhantismo, entusiasmo e interesse, sem qualquer auxílio ou subvenção oficial. O comércio e a indústria, bem como os cooperadores diretos do Yara, jamais deixaram faltar apôio ou esforços no sentido do bom e cabal desfecho déssas competições. A julgar-se pelo desenrolar dos certames anteriores, prova insofismável de desportividade e trabalho de nossa gente, justo seria que tais competições anuais fossem oficializadas por lei municipal, consignando-se anualmente uma verba por pequena que fosse, para que as realizações referidas, que já são brilhantes e nobres sentissem aquele calor de apôio da própria municipalidade.

Aquí fica, pois a lembrança, para que os senhores vereadores e prefeito estudem-na convenientemente concluindo sua necessidade.

O Yara dispende, aproximadamente, 50 mil cruzeiros com a realização dessa competições. Se fossem as mesmas oficiais e subvencionadas pela prefeitura, o que seria um dinheiro bem gasto e muita bem empregado, o certamente poderia, inclusive, ser realizado com portões abertos, propiciando maior interesse e afluência públicas.

Não será um caso para estudos? Não terá o município meios e deveres para colaboração nêssa elogiável caminhada?

A lembrança ai está.

Extraído do Correio de Marília de 23 de agosto de 1958

sábado, 21 de agosto de 2010

Candidatos & Política (21 de agosto de 1958)

Reiteradas vezes, temos confessado sem pejo algum, que nada entendemos de política. Não “política” na verdadeira extensão do vocábulo, mas sim certas sujeiras morais que por aí se cometem à miude, sob o rótulo e pretexto de que se trata de política.

O povo brasileiro, em sua maioria, ignorante e sincero quanto ao dar crédito a qualquer “doutor”, deve ficar estarrecido dentro de sua filosofia matuta e de seu gesto leal, frente aos absurdos que não entende e que nésta época de pré-eleições, tão abusivamente campeia por ai.

Dissem(os) que não compreendemos de política. Exemplifiquemos: não entendemos a balburdia e a pouca vergonha, os engodos, as mentiras e as delongas, os embustes e os processos escusos, condenáveis, que tanto deturpa a real acepção da palavra “política”, que interpretamos como uma ciência, uma arte de dirigir e orientar o govêrno do povo soberano, com lealdade, com
(h)ombridade, de maneira Franca, esclarecedora, que coloca em seu devido lugar e em igualdade de condições, embora ressalvada a ação pessoal, todos os seres que habitam o mesmo sólo, dentro de um único e só regime político propriamente dito.

Política hoje, com pouquíssimas e honrosas prerrogativas, é fazer politicagem, realizar “política”; isto é, deturpar a verdade dos fatos, inventar mentiras, atirar-se contra homens ou nomes, fomentar quezilhas, desenterrar “podres” e idealizar outros tantos. É praticar o áto indébito de violar (a) honra do próximo (e) chegar mesmo a atingir a família do adversário.

Em resumo, é covardia. É demonstração cabal, irretorquível, indiscutível, de falta de personalidade. É covardia, repetimos.

Temos visto ultimamente, o que já presenciamos no passado, em épocas semelhantes, ou seja, nas ocasiões pré-eleitorais: a devassa imoral no seio da família dos candidatos contrários, uma torrente de embustes, que, antes de elucidar o povo, termina por confundi-lo, por atirá-lo de roldão ao “deus dará” da oportunidade, num misto de aventura, justo na ocasião em que deve exercer, com a mais pura e cristalina consciência, o sagrado dever do voto.

Como observadores neutros, sem pertencer a nenhum partido político, sem morrer de amores por fulano ou beltrano, na análise fria e imparcial de nossa missão jornalística, observamos os absurdos mais “cabeludos” imagináveis. Temos visto a podridão moral de muito candidato que engana, ludibria, confunde a boa fé da gente de nossa terra, especialmente o bem intencionado e laborioso trabalhador do interior de São Paulo.

Temos observado intitularem-se póbres e desgraçados, exatamente os maiores “tubarões” do Brasil. Temos conhecido fantasiados “amigos da pobresa” e “compreendedores da miséria”, exatamente os que dispõem de indústrias, fazendas, casas de campo, “cadilacs” e “senhoras” em penca. Temos visto intitularem-se de póbres e miseráveis, apelarem para a miséria do homem interiorano, justamente os que vivem como lordes, nababescamente, gastando milhares de cruzeiros com mulheres devassas, em cassinos camuflados e pagando centenas de milhares de cruzeiros à gente sem emprego fixo e sem módo correto de vida, denominada “cabo eleitoral”, quasi sempre sem excessão.

Está verdadeiramente prostituída a real concepção da política nacional. Política hoje, para a maioria de nossa gente, significa embustes, trapaças, engodos, ilusões, compra de votos, promessas de empregos. E dinheiro. Sobretudo, dinheiro. Especialmente para os “cabos eleitorais” de mentalidade tacanha e inépta. De patriotismo abjeto.

O político honesto, antes consigo mesmo do que com o próprio povo, deveria ser mais leal, mais vergonhoso: deveria apontar as suas intenções, as suas qualidades, a sua folha de serviços, antes de fuçar, qual porco num chiqueiro imundo, as “sujeiras” de seus adversários políticos e concorrentes. Deveria mostrar sua (h)ombridade moral, sua personalidade, fazendo profissão de fé, procurando sobrepujar com decência as qualidades de seus adversários e não procurando diminuir mesquinhamente estes, provando, antes de tudo, que ela é pior do que o outro.

Porisso, como caboclos, cansados de promessas, saturados de embustes, fartos de engodos, cheios de demagogia barata e mentirosa, mais uma vez alertamos o eleitorado mariliense, que seu dever patriótico é votar nos candidatos locais, aqueles que são incapazes, por índole e por princípios, de agir de maneira covarde e desleal, conforme muitos por aquí estão aportando.

Extraído do Correio de Marília de 21 de agosto de 1958

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Nova e modelar Casa de Carnes (20 de agosto de 1958)

Desde domingo último (18/8/1958), foi o comércio de Marília enriquecido com a instalação e inauguração de mais um estabelecimento digno das grandes cidades: A Casa de Carnes Rural, órgão pertencente a Cooperativa Agrícola Mista da Alta Paulista.

Alí estivemos, em missão de imprensa, assistindo a inauguração. Ficamos maravilhados com as instalações, a higiene, a qualidade dos produtos. Estão de parabéns os dirigentes da grande cooperativa tupãense, óra brindando o povo de Marília com mais esse estabelecimento especializado e contribuindo para amenizar um pouquinho as agruras da vida da classe póbre, oferecendo a todos, indistintamente, produtos bons, por preços accessíveis em relação as demais cotações do mercado normal.

Representa a inauguração referida, mais um marco de progresso de nossa cidade. Prova que Marília vai acompanhar, “pari passu”, a trajetória dos grandes centros, dentro de um comércio moderno, eficiente, prático, delineado nos moldes da hodiernidade.

Estamos aos poucos, assim como as grandes capitais e grandes “urbes”, vendo desaparecer os açougues arcaicos e obsoletos. Principiamos a desfrutar o conforto digno de nossos dias e próprio de nossa éra.

A representação foi das melhores possíveis, como não poderia deixar de ser. Preços bons, repetimos, em relação aos comuns do mercado vigente. Quem lucra com isso é a classe póbre, que póde dispor de mais um estabelecimento especializado para abastecer-se. Quem lucra é o povo, porque num comércio moderno, a concorrência é necessária, imprescindível. Fórça o círculo denominado “oferta e procura”, beneficiando as gentes. Acarreta benefício da população, a maior interessada, a maior autorizada a preferir ou preterir.

Ficamos contentes, pois é nosso hábito, nosso feitio, o ressaltarmos os bons empreendimentos surgidos em Marília. Gostamos sempre de colocar um relevo especial naquilo que é digno de destaque e que se relacione com Marília ou sua gente. O novel estabelecimento é digno de ser conhecido, apreciado, consultado.

Ao par disso, fazemos também nossos protestos para que os preços inicialmente adotados nos produtos de carne e seus derivados não sejam unicamente um “chamarisco” temporário, saltando mais tarde na mesma pista dos demais preços. Que seja mantido, pois isto foi afiançado aos presentes ao áto inaugural, por um dos diretores da referida Cooperativa. Os marilienses agradecerão e saberão reconhecer éssa deferência.

Nossos parabéns, portanto, aos dirigentes da Cooperativa Agrícola Mista da Alta Paulista, na pessoa do gerente local da citada Casa de Carne, sr. Michel Mussi. Nossas congratulações e desejos que o mencionado estabelecimento venha de fato de encontro aos anseios de nossa população, mantendo a mesma linha de ação preconizada no momento em que solenemente foi a Casa inaugurada.

Parabéns, senhores.

Extraído do Correio de Marília de 20 de agosto de 1958

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Música e leitura (19 de agosto de 1958)

Duas coisas importantes e necessárias à sensibilidade, espírito e lazer de toda a gente: música e leitura. Nem todos, entretanto, sabem apreciar u’a melodia ou uma boa leitura. Sôbre os que sabem ou gostam, as preferências variam. Há os que gostam de u’a música clássica, os que apreciam um motivo popular, os que se deliciam com uma passagem folclórica. Existem os que gostam de um romance de amor, de um conto policial e por incrível que pareça, há os que tem predileções pelo vernáculo ou determinada ciência.

Música e leitura, obrigatórias em todas as escolas, não conseguiram ainda convencer a maioria de nossa gente, de sua utilidade, de sua necessidade. Mesmo dentro das divergências naturais de predileções, não vemos difundidas em grande escala éssas duas importantes alavancas que ajudam a gente a viver.

O que gosta de música, que tem um senso emotivo musical firmado, sente um conforto incrível ao ouvir meia hora das melodias de sua predileção. O que aprecia a leitura, seja de qual gênero for, passa horas e horas mergulhado num livro, indiferente ao que ocorre no mundo e mesmo em seu derredor.

Ouvir música – para quem gosta – e ler – para quem sabe –, é o mesmo que nadar: enquanto se nada, não se póde pensar em outra coisa, por mais importante que seja.

Lembramo-nos disto, ontem à noite. Ao vasculhar nossa pequena e acanhada biblioteca particular, de franciscana pobresa em óbras de importância, deparamos com um volume que ganhamos de presente lá pelo ido ano de 1936, quando ainda não tínhamos concluído o curso primário. Um romance sobre a Amazônia, escrito por Abguar Bastos, intitulado “Terra de Icamiaba”. Trata-se da 2ª edição, do ano de 1934.

Já tínhamos lido dito livro mais de uma vez. Quando o devoramos pela primeira oportunidade, não fomos capazes de interpretá-lo claramente. Posteriormente, relemos o volume, para “matar o tempo”. Mais tarde, outra vez. Ontem, caiu-nos às mãos dito objeto, mais uma vez. Abrimos suas páginas e deixamos correr os olhos. E gostamos, embora em reprise, fomos adeante.

Leitura deliciosa, apesar da ortografia pretérita. O escritor parece u’a máquina fotográfica, gravando em letra de fôrma, os mais minuciosos detalhes da vida do caboclo amazônico, sua óbra, sua miséria, suas crendices.

Não somos lá bons interpretadores de grandes óbras, mas gostamos do que relemos. A vida núa e crúa do amazonense distanciado da civilização, sua odisséia pela própria vida, suas agruras, enfim.

Tem dois fundos, o citado volume: o patriótico e um outro, que poderíamos considerar como de ogeriza ao estrangeiro, um nacionalismo exagerado, por vez pecador. Entretanto, sua leitura, sob o aspecto puramente literário, é uma obra prima. Tem quadros maravilhosos, fazendo com que o leitor se sinta integrante e acompanhante do desenrolar da história, passando a viver com ela todos os passos de seus personagens.

Descreve com pormenorizados detalhes, o movimento de uma perna no andar, o jogo desenvolvido pelo “pomo de Adão” de uma pessoa que engole o café e outras coisas, exemplificando. É claro que não é bem isso, mas cremos que os leitores nos compreendem. Uma máquina fotografando em quadros coordenados a realidade, a vida de uma gente, numa determinada região do Brasil. Coisas curiosas, diferentes dos melosos romances de amôr, divergentes dos contos policiais por mais empolgantes que sejam. Mostra a vida do sertão amazônico como éla é, seus espinhos, suas dificuldades, seu abandono. É uma clarinada de alerta aos govêrnos, para que volte suas vistas para aqueles irmãos que alí habitam e que tanto amam aquele rincão.

O que mais impressiona no citado volume, é a facilidade do linguajar, os quadros tecidos pela fértil imaginação observadora do autor. Leitura gostosa, amena, prendedora.

Ao revermos o livro, ao abrirmos o volume e repassarmos suas páginas, sentimos aquela satisfação que sente uma pessoa em rever alguma coisa querida e que a tempo não vê. Saudades de sua leitura, saudades de sua história.

Leitura e música, que tanto bem fazem ao espírito da gente, especialmente dos homens de nossos dias, tão assoberbados pelas responsabilidades da própria subsistência, deveriam preocupar mais a todos, indistintamente, a começar pelos pequenos. O gosto por éstas duas artes, talvez contribuísse para que os jovens de hoje (1958) crescessem com mentalidades diferentes das dos atuais e indesejáveis “play boys”.

Extraído do Correio de Marília de 19 de agosto de 1958

domingo, 15 de agosto de 2010

Parlamento ou “ring”? (15 de agosto de 1958)

A história se repete. Mais uma vez, deputados paulistas se engalfinharam, qual moleques de rua, em plenário da Assembléia Legislativa de São Paulo. Trocaram sôcos e ponta-pés a valer. O acontecimento, como das vezes anteriores, não teve maiores consequências, porque entrou logo em cena a turma do “deixa disso”.

O sr. Cássio Ciampolini e outros deputados, apresentaram ao plenário do Palácio 9 de Julho, um requerimento propondo a constituição de uma comissão parlamentar de inquérito, para apurar as irregularidades apontadas pela imprensa, no caso da censura de aparelhos telefônicos em São Paulo.

A proposição de “panos p’ra manga”, quando a deputada Conceição da Costa Neves foi à tribuna e “desancou a lenha”, atribuindo ao Governador do Estado e ao sr. Pedroso Horta, ex-Secretário da Segurança Pública, a responsabilidade do fato. Como não tem “papas na língua”, disse “cobras e lagartos” do sr. Jânio Quadros.

O sr. Araripe Serpa (por sinal envolvido mais de uma vez nesses lamentáveis acontecimentos), como deputado situacionista, subiu à tribuna. E de lá refutou as verberações de “dona” Conceição. Nisso entrou na conversa o sr. Figueiredo Ferraz(,) um dos subscritores do requerimento, contradizendo o orador em apartes seguidos, chamando o sr. Araripe Serpa, inclusive, de “deputado transviado” e tachando-o de sem idoneidade moral. O “Araripinho”, valendo-se de um copo com água à sua disposição, arremessou o vidro sôbre o deputado Figueiredo Ferraz. Êste revidou, convidando o outro a descer da Tribuna e mostrar que “braço é braço”, desafio que foi aceito e os dois se engalfinharam, numa cena de “farwest”. A turma do “larga disso, deixa disso, não faça isso”, conseguiu apartar os turbulentos.

Mais tarde, o sr. Martinho Di Ciero, apesar da idade, resolveu “tomar as dores” do sr. Figueiredo Ferraz e demais signatários do requerimento e “comprou briga também”. E ainda com o sr. Araripe Serpa. E “quebrou o pau” mais uma vez, no mesmo dia, na mesma sessão plenária.

Fatos desagradáveis, deprimentes, vexatórios. Deputados eleitos pelo povo, para defender seus interêsses, dão sobejas mostras de pugilato, com polpudos vencimentos que nós, o povo, lhe pagamos! Os interêsses reais, êsses são relegados a plana secundária, porque a turma é mesmo de “carnaval” e de “far-west”.

Por sorte, não entrou na briga também o sr. Ralf Zumbano; senão, teria a crônica política com assento na Assembléia noticiado u’a meia dúzia de “knout out”!

Se é assim, bom seria que, para as eleições de três de outubro, os eleitores de São Paulo mantivessem o Zumbano e elegessem também o Luizão, Paulo de Jesus e outros. A coisa seria mais divertida e os ingressos para o público gratuitos, pois o Estado paga bem os deputados, mesmo sem contar-se que para a próxima legislatura êles vão ganhar 60 mil cruzeiros fixos, que, trocados em graúdos, representarão mais de 100.

Só no Brasil é que se vêem essas coisas. Socos, pontapés, revólveres e até “lurdinhas” em plenário! Isto está ficando uma “belezura”... Ora se está!

Extraído do Correio de Marília de 15 de agosto de 1958

sábado, 14 de agosto de 2010

Irresponsabilidade penal aos menores (14 de agosto de 1958)

De acôrdo com o Código do Processo Penal vigente no Brasil, a responsabilidade penal só atinge as pessoas de 18 anos de idade em diante. Êsse dispositivo, no pretérito, justifica-se perfeitamente, em virtude de que o “modus vivendu”, aquilo que seja convencionado chamar “educação familiar”, éra diferente.

Os pais éram austeros, o princípio religioso apresentava maior respeito e maiores efeitos, a tradição dos séculos não fôra disvirtuada e não existiam os excessos e as facilidades de hoje, vulgar e erradamente chamados de “modernismo”.

A marcha do tempo, nesse tocante, criou uma verdadeira contenda, quer contra o dever social, quer contra a garantia das famílias, contra a própria lei e contra as próprias autoridades constituídas. As coisas mudaram. E mudaram tanto, que urge agora, conforme já está sendo ventilado, ação de recuo do limite de 18 para 14 anos, no que tange à responsabilidade penal dos brasileiros.

A princípio, para os menos avisados, póde parecer uma aberração ou mesmo uma insensatez a medida agora preconizada, mas não é. É absolutamente necessária e urgente.

Não é justo, que continuemos a presenciar, átos de vandalismo praticados por menores, êsses chamados “play boys” (que mais acertadamente deveriam ser denominados “play bestas”), continuando o povo à mercê dessa série de desatinos e a própria lei amarrada, sem poder puni-los convenientemente.

O próprio Presidente da República sugeriu a reforma urgente do Código Penal Brasileiro, o famoso e belíssimo C.P.P., em virtude da necessidade irretorquível de fixar-se um novo limite da irresponsabilidade penal. E o fez, baseado em fatos deprimentes, ultimamente ocorridos no país, acerca de crimes reiteradamente praticados por uma juventude transviada. O assunto, em sí, não chega nem mesmo a servir de motivo para discussões de doutrinas originárias déssa onda de crimes e perversidades.

Nos dá ciência o noticiário dos jornais de toda a nação, da onda de abusos, crimes e roubos (e até assassinatos), praticada por êsses indesejáveis. A punição dos mesmos só será possível, após a reforma preceitual do C. P. P., no que diz respeito ao recúo da irresponsabilidade penal aos menores do Brasil.

Sendo desnecessário discutir-se os pontos de vista psicológicos, que procuram, por êste ou aquele meio ou processo de desculpa, condicionar a responsabilidade dos menores classificados por fato e direito néssas condições, estamos com o parecer do ministro Bento de Faria, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, afirma, “ser público e notório, que êsses jovens delinquentes são expressões de vício protegido, bem alimentado e bem vestido. Não são desgraçados, têm um lar, vivem de abastança mas em permanente conflito com o dever social, com a lei e com a autoridade”.

A idéia das providências para a reforma do disposto no Código Penal, que limita a idade de responsabilidade penal déve merecer o apôio de toda a gente, especialmente de nossos juristas e legisladores.

É o único meio aparentemente possível, capaz de colocar um dique ao vandalismo dêsses cafajestes, que, sendo menores de 18 anos, praticam toda a sorte de crimes e abusos, sem que póssam ser punidos. Ademais, existindo éssa reforma, se os pais de família ou a própria sociedade não conseguir freiar êsses desatinos, a própria Justiça terá elementos e meios suficientes para aplicar a éssa cambada, o necessário corretivo.

Recue-se o limite da irresponsabilidade penal de 18 para 14 anos e muita coisa entrará “nos eixos” nêsses Brasis.

Extraído do Correio de Marília de 14 de agosto de 1958

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Eleições à vista (13 de agosto de 1958)

Menos de dois meses nos separam do pleito de 3 de outubro, quando os marilienses deverão comparecer às urnas, visando eleger seus governadores e deputados estaduais e federais.

Convém sempre estar bem lembrado, de que existe necessidade irretorquível em que todos os eleitores locais se atenham ao pensamento único de que Marília deve eleger, desta vez, seus legítimos representantes. Convém não esquecer de que é um dever moral o consignar-se os votos aos marilienses legítimos e, não, aos candidatos alienígenas, especialmente aquêles que para Marília e seu povo só apresentaram promessas e discurseiras inúteis.

Está a cidade credenciada a ser bem advogada nos parlamentares – estadual e federal. Nomes capazes, honrados, de pessoas trabalhadoras, fazem parte do ról (meio grandinho, diga-se de passagem), dos marilienses óra disputando o páreo eleitoral referido.

Urge a centralização de votos em torno dos nomes conhecidos, para que consigamos, désta vez, tirar da orfandade parlamentar e política a nossa cidade de Marília. Urge a coesão de todo o eleitorado mariliense, néssa cruzada de redenção política de nossa terra e nossa gente, velha aspiração dos marilienses patriótas.

Estamos fartos, assim como todo o povo désta terra, de engodos eleitoreiros, de promessas de caçadores de votos. Estamos saturados da permanência de orfandade política que de há anos identificada Marília no cenário legislativo federal e estadual.

Precisamos e podemos, com regular facilidade, consertar os erros do passado, reencetar a méta déssa caminhada que deveria ter sido empreendida há muitos anos pretéritos.

3 de outubro está praticamente às portas. Não existirão motivos sensatos para desculpas posteriores em viabilidade de não conseguimento desse ideal, porque o público em geral está devidamente esclarecido. Todo o mariliense de boa razão, sabe de sobejo que a luta em fóco é justa e digna. Sobretudo, bem mariliense. Aí estão as razões porque ninguém deve abandonar os candidatos da terra, para consignar votação em torno de gente de outras plagas. Não que não existam, no rosário daqueles que aquí aportam, solicitando votos, gente de bem, capaz e bem intencionada. Acontece que no caso, o coração não deve intervir. Devemos ater-nos ao fato de que Marília tem possibilidades de eleger, desta vez, legítimos representantes. E o fará, temos a certeza, se existir compreensão e boa vontade do eleitorado local. Este, só este, é agora o responsável pela eleição ou não de nossos advogados legítimos aos Palácios 9 de Julho e Tiradentes.

Extraído do Correio de Marília de 13 de agosto de 1958

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Propaganda política (9 de agosto de 1958)

Qual medicação granulada, que, dentro do cópo ao qual se lhe deita água e começa a efervescer, assim está a campanha eleitoral de nossos dias.

Começa a cidade a ser invadida por cartazes e pixamentos. Nomes que jamais vimos em nossa vida, estão agora conhecidos como verdadeiros homens amigos do interior, inteiramente devotados ao bem estar público. Verdade é que cada qual tem o direito de fazer propaganda como bem entende, pois para isso vivemos num clima euforicamente tachado de democracia. E acontece que nem todos os que assim pensam, pensam direito ou agem direito.

Os postes, muros, diversos outros locais, principiam já a apresentar aquele aspecto característicamente lastimáveis de emporcalhamento, com letreiros, cartazes e fotografias.

E o que menos vemos nesse particular, guardadas as devidas proporções, é a propaganda dos candidatos locais. Os alienígenas, mercê de gente de Marília à soldo em espécie ou traduzido em promessas de empregos, estão invadindo tudo.

Néssa invasão e corrida de pregar cartazes, está faltando o próprio respeito mútuo entre os encarregados desses serviços, de diferentes candidatos. Passa um, prega o cartaz do “seu Abóbra”; em seguida vem o outro e “lasca” o retrato do “João dos Anzois” sôbre o primeiro. Vem o terceiro, tambem com a mesma “luminosa” providência e coloca o retrato do Benedito sobre os outros dois!

Isso, sem dúvida, como sinal de respeito ao próprio municipal ou a propriedade alheia, como mostra de consideração aos direitos dos adversários, é um atestado irretorquível de serviços de verdadeira corja de irresponsáveis e desrespeitadores. Presenciamos outro dia, por méro acaso, um quase “péga” entre dois pregadores de cartazes de dois políticos diferentes (e por sinal, dois homens de fóra, dois “caçadores de votos”). Quase se engalfinharam os rapazes. Por simples curiosidade jornalística, pois o reporter, dizem, costuma sempre meter o nariz em tudo o que vê (alguns, até no que não vêm), indagamos de um desses rapazes, quanto estava ganhando por aquele serviço. Respondeu-nos que percebia 200 cruzeiros por noite para executar o referido mistér. Perguntamos ao outro o preço de seu trabalho e ele de início procurou esquivar-se à resposta. Insistimos, tal qual boi sonso, sem nos identificarmos e ficamos sabendo que o mesmo não estava ganhando nada, mas que tinha a promessa de emprego público, caso seu candidato vencesse!

Assim é que os forasteiros estão invadindo nossa cidade, tentando arrebanhar votos dos marilienses, quando nós dispomos de três candidatos locais à deputação estadual e dois a deputação federal.

O eleitor mariliense que deixar de votar em gente da terra para preferir consignar sufrágios a gente de fóra precisará mesmo apanhar com um gato morto...

Extraído do Correio de Marília de 9 de agosto de 1958

domingo, 8 de agosto de 2010

“Sete Dedos”, o Evangelizador (8 de agosto de 1958)

A notícia tem o seu sabor extraordinário. Benedito de Lima César, o famoso delinquente “Sete Dedos”, que por muito tempo ocupou os noticiários dos jornais pelas suas espetaculares fugas de diversos presídios do Brasil, óra recolhido à Casa de Correção de Belo Horizonte, confessou-se regenerado e disposto a ingressar no caminho do bem.

Vários processos de seus fenomenais crimes ainda estão em andamento. “Sete Dedos” tornou-se temível pelas incríveis fugas e pelo expediente utilizado para levar a cabo diversas evasões, tendo deixado a polícia completamente boquiaberta.

Agora, Benedito de Lima César, apegado à leitura da Bíblia, sentiu melhor o problema do espírito e decidiu-se, conforme confessou, a ingressar na vida normal da verdade, do trabalho e de honestidade. Tanto, que, do próprio cárcere, dirigiu veemente apêlo e consêlho ao não menos famoso “Promessinha”, para que abandone a vida marginal, para que se entregue à Justiça expiando os crimes e retorne depois para o caminho do bem!

Em entrevista concedida a um reporter, “Séte Dedos” declinou o “trabalho” de sua sensacional fuga da Penitenciária do Carandirú em 1951, através de um “túnel” que tinha 16 metros de comprimento e 9 de profundidade. A respeito, inocentou milicianos e funcionários da Penitenciária, alegrando que não houve nenhuma conivência com os mesmos.

Diz o reporter que “Séte Dedos” está mudado, que suas palavras são sensatas e nem de longe deixam transparecer o perigoso miliante do passado. Lendo a Bíblia, seguidamente, Benedito de Lima César principiou a sentir dentro de sí, aquilo que desconhecia: o amôr ao próximo, a necessidade do caminho do bem. Ficou impressionado com a história da vida de São Paulo. E declarou que o conforto que consegue através da leitura do Livro Sagrado, dá-lhe desejos de transmiti-lo aos demais infelizes que, como ele, se dedicaram à senda do crime.

A notícia, como dissemos, tem o seu sabor excepcional de extraordinário, pois recorda bem o dito antigo que nem tudo está per(d)ido entre os homens. Verdadeiramente, é uma lição. Lição de consciência, de reconhecimento, que mostra um espírito forte. Principalmente em nossos dias, quando poucas são as pessoas que tem a suficiente coragem moral e (h)ombridade de reconhecer seus e procurar corrigi-los, assumindo integralmente suas consequências.

No entanto, para muita gente, a notícia a respeito, não deixa de transparecer um pequeno véu de dúvidas. Estará mesmo o “Séte Dedos” falando a verdade, ou estará simplesmente (inteligente como é) tentando despertar o interesse e complacencias gerais, para, oportunamente, empreender outra de suas espetaculares fugas?

Nenhum juízo se poderá fazer. O tempo se incumbirá de confirmar ou não as declarações de “Séte Dedos”.

Extraído do Correio de Marília de 8 de agosto de 1958

sábado, 7 de agosto de 2010

Um casamento curioso (7 de agosto de 1958)

Não existiu nada de mais, mas tornou-se curioso um casamento realizado ha dias na Matriz de Sto. Antonio, em Guaratinguetá. Curioso e inédito.

Maria Gianne, solteira, 80 anos, a noiva. Geraldo Lourenço, solteiro, 42 anos, o noivo. Ela, empregada doméstica. Ele, sapateiro.

Na hora do “conjugo vobis”, a igreja se encontrava literalmente tomada por curiosos, justificando-se a curiosidade pelo ineditismo do fato. O rapaz quiz um casamento simples; sem muitas despesas e sem muitos alardes. A mulher, como uma boa representante do sexo feminino, exigiu mais: quiz a cerimônia completa – véu, vestido de noiva, grinalda, lírios, flores de laranjeira, órgão, “marcha nupcial” e arroz crú. Depois, “lua de mél” em lugar desconhecido.

Quando o padre eficiente da cerimônia perguntou a idade de Maria, ele titubeou um pouco e declarou “30”; depois voltou atraz e declinou a verdade: 80!

A reportagem foi feita por um jornal da Capital, com algumas “pitadas” de curiosidade, o que realmente se torna plausível. Maria Gianne não se deixou impressionar pelo místico e inexorável tempo e taxativamente confessou ao reporter: “na vida não devemos nos apressar, tudo tem seu dia marcado e a sua hora certa”.

É verdade que a afirmativa acima encerra uma boa dose de fatalismo, mas poderá servir de exemplo para muita gente de nossos dias. Temos visto e conhecido uma série de insucessos matrimoniais, motivado exclusivamente pela precipitação de ambos os lados. Da mulher, principalmente.

Toda a moça, desde que seja mental e biológicamente normal, sonha, bem assim como o rapaz nas mesmas condições, com um casamento feliz e duradouro. Muitos rapazes não se casam jovens demais, por questões pecuniárias. Muitas moças não se consorciam tambem jovens em demasia, porque não encontram com quem. A moça de nossos dias, regra geral, mórbido de ficar “titia”, de passar da idade e não encontrar um casamento em tempo hábil. Daí, muitas casarem cedo e sem um tempo conforme de estudos de gênio e possibilidades frente a grande responsabilidade, e, em grande parte, os motivos de incontáveis insucessos na nova vida. Sabemos de casos em que não conseguimos atinar com as razões declaradas de “amor” e “querer bem” quando cismam de casar, mesmo que a família se oponha, com razões fortes e irrefutáveis. Muitas moças, ao transportarem a casa do quarto de século, ficam verdadeiramente desesperadas, receiosas de não mais se apresentar a “chance” para o casamento. Nesses casos, muitos conhecidíssimos mesmo aquí entre nós, a moça “agarra” o primeiro que aparecer e nem sempre a felicidade habita por muito tempo o novo lar.

A dose de fatalismo nas declarações da noiva de 80 anos aquí referida, para esses casos, poderia ser um excelente remédio.

Não, não pensem que estamos sugerindo ou insinuando que as moças devem esperar a casa dos oitenta para casar. Absolutamente. É que, conforme disse Maria Gianne, “tudo tem seu dia marcado e sua hora certa”.

Temos a certeza de uma coisa, após a leitura deste comentário: muita gente daria uma boa soma para saber qual foi o “segrêdo” de Maria, a fim de “laçar” o seu Geraldo...

Extraído do Correio de Marília de 7 de agosto de 1958

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Ainda os Contra-senso (6 de agosto de 1958)

Temos em nós, que o estrangeiro observador, vivendo no Brasil, embora não o diga, há de sentir uma certa espécie e indisfarçável incompreensão, ante muita coisa que ocorre entre nós, principalmente nesta época de pré eleições.

Sabem todos que se fala muito mal da política em nosso país. Não que a política em si seja nociva, mas como tão tradicionalmente vem sendo deturpada e mal empregada, justifica perfeitamente o pejorativismo que em tôrno da mesma gravita.

Por outro lado, os bons políticos de nosso país (tão poucos, infelizmente), tem suas ações apagadas pela maioria dos politiqueiros profissionais e contumazes.

Óra, falando-se tão desairosamente da política e dos políticos, é forçosamente passível de estranhesa, o fato de aumentar seguida e gradativamente o cordão dos candidatos a postos eletivos no Brasil. Nomes apagados, personalidades que nem sempre inspiram confiança moral em virtude de gestos ou ações pretéritas, semi-analfabetos, leigos em legislação, etc., etc., incorporam-se ao exército fabuloso daquêles que aspiram ou desfrutam incompreensivelmente, da condição de “imunidades parlamentares”.

Ao par de uma série infindável de êrros administrativos dos país, o fato de possuir o parlamento nacional algumas centenas de pseudo-legisladores, deve representar, sem sombra de dúvida, o entrave ao próprio progresso e bem estar de nossa Pátria e nossa gente.

Qualquer empregozinho público, para o padrão inicial de uma carreira, qualquer função inicial num estabelecimento bancário de renome, exige do candidato, quando não um diplomata de curso secundário, pelo menos conhecimentos equivalentes, demonstrados em prova de habilitação. Isto para um cargo de 4 ou 5 mil cruzeiros, de pouca importancia dentro do panorama de administração do país. Entretanto, qualquer semi-analfabeto, desde que tenha dinheiro para contratar cabos eleitorais, custear a campanha e comprar votos, pode ser eleito legislador, mesmo que nem saiba o significado da palavra “lei”.

Se é exigida prova de habilitação para um simples emprego de banco ou no funcionalismo público, mesmo para cargos insignificantes, não é mesmo um contra-senso dos mais flagrantes, o permitir-se que seja inscrito como candidato (votado e eleito) um leigo em legislação?

Isso, sem contar-se o caso da maioria dos deputados e senadores, que nada mais fazem do que advogar causas próprias, defendendo uns os produtores de leite, outros os usineiros de açúcar, outros os pecuaristas, etc., que eleitos pelo povo para defender êste, defendem-se a si próprios, advogando interêsses pessoais.

Deveria a lei especifica, exigir, para os casos de inscrição de candidaturas a postos eletivos, no mínimo a prova de um curso ginasial. Para sermos mais francos, em alguns casos, seria até bom que ao par dessa exigência, os candidatos fossem também obrigados a apresentar “folha corrida” da polícia!

O dia em que isto acontecer, podemos ter certeza de que o Brasil melhorará e deixará de continuar “deitado eternamente em bêrço esplêndido”...

Extraído do Correio de Marília de 6 de agosto de 1958

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Contra-senso (5 de agosto de 1958)

Ainda está bem vivo no espírito de todo o Brasil, o éco das fantásticas festividades e empavonamento tributado pelos poderes públicos oficiais e pelo povo brasileiro, aos campeões mundiais de futebol.

Já frizamos e repetimos que jamais fomos contra as homenagens, porque nós também as achamos dignas e merecidas. Nos insurgimos, isto sim, contra os excessos que a respeito se praticaram, maxime em comparação a muitos descasos corroborados e especialmente no que tange à alguns milhares de “pracinhas” da FEB, ainda desempregados, desajustados e doentes.

Vivemos num clima irretorquível de contra-sensos e ninguém poderá nega-lo. Ou se faz absurdos, ou se procede injustiças. Não existe, regra geral, meio têrmo.

Levou-nos a tecer este comentário, fato recente ocorrido no Brasil; mais precisamente, em São Paulo.

A própria imprensa, mesmo a especializada em esporte, deixou de dar o fato que iremos referir, o devido registro. Nenhum paredro esportivo, nenhum representante das muitas federações desportivas compareceu ha poucos dias, ao aeroporto de Congonhas, para recepcionar uma delegação esportiva nacional, que de maneira idêntifica ao “onze” de futebol, soube postar-se dignamente em pistas estrangeiras, competindo com as maiores expressões mundiais da especialidade. Não apenas competindo, mas conquistando para a bandeira esportiva do Brasil, novos e honrosos louros e inclusive dois (dois, não um) campeonatos mundiais!

Tal heroísmo, que não póde jamais de ser interiorizado a conquista da Taça “Jules Rimet”, foi representando pelo ganho na Grécia, no Campeonato Mundial de Pentatlo Militar. A equipe de equitação, que não tão bem representou as tradições desportivas de nosso povo e de nossas Forças Armadas, regressou conduzindo o título maximo desse esporte. Nenhum emprego publico, nenhuma casa de 1 milhão de cruzeiros e nenhum presente foram ofertados a esses rapazes.

Dentre os disputantes desse certame mundial, figura o jovem Nilo Jaime Ferreira, que trouxe que trouxe para o Brasil (posse definitiva e não transitória como a Copa do Mundo, que poderá ir para outra nação logo em 1962), o título mundial de lançamento de granadas (distancia e precisão), além de ter batido o “record” do mundo néssa prova. Pois não é que êsse jovem e toda a brilhante equipe chegaram sem que ninguém os tivesse recebido com as devidas festas que de fato devem ser tributadas aos verdadeiros campeões?

Sabem lá como deverão estar se sentido esses desportistas, ao terem conhecimento do “carnaval” que foi realizado em nosso país, por ocasião da(s) chegadas dos campeões de futeból?

Só no Brasil mesmo é que se vê esses contra-sensos!.

Extraído do Correio de Marília de 5 de agosto de 1958

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Será verdade? (2 de agosto de 1958)

Tipo de notícia besta. Mas foi divulgada por diversos órgãos da imprensa paulistana e carioca. Mais ou menos, isto:

Pecuaristas mineiros e capixabas, utilizaram em seus rebanhos destinados ao córte, para fins de engorda, hormônios femininos.

O fato, em si, causou espanto natural. Acontece, que, após tal processo, principiaram a circular rumores de que a carne dos bovinos tratados com hormônios femininos, vinha apresentando influências biológicas que estavam redundando em fenômenos estranhos, prejudicando em sentido direto o sexo masculino. Isto é, comentam as notícias, que muitos homens, após ingerir a carne de vaga nessas condições, principiaram a perder pêlos do rosto e falar em todo de falsete. Diversos médicos das cidades de Mantena e Colatina foram procurados por homens nessas condições, verdadeiramente alarmados.

Alguns facultativos alertaram o público, acêrca do perigo do uso de hormônios femininos para a engorda de gado. Supõem-se que êsse simples alerta tenha causado a confusão e aquilo que poderia ser chamado de “psicose de virar mulher”.

Disso tudo, resultou que as donas de casa foram proibidas pelos maridos, de adquirirem e usarem na cozinha, carne bovina e tôda a região, de acôrdo com o noticiário divulgado, está vivendo um clima de verdadeiro pânico.

Alguns moradores da região, vão até o exagero de acreditar que o consumo da carne referida poderá fazer inclusive que nasça cifres entre os consumidores!

Divulgam ainda sôbre a questão, tão grave fato de que caiu tanto o consumo da carne verde, que, uma casa especializada que abatia sessenta reses por dia, só está matando três cabeças diariamente! O uso do bife foi boicotado de tal modo, que a maioria dos açougues se viram obrigados a cerrar suas portas.

E a informação conclui:

“A verdade, porém, é esta: o gado de fato está sendo engordado com hormônios femininos, principalmente no período das secas, devido a falta de pastagens. Como a experiência deu excelentes resultados, os pecuaristas usaram e abusaram do recurso. Não esperavam, contudo, que as consequências seriam as que hoje ocorrem, isto é, o temor dos homens em consumir,carne de boi que, agora, pode ser chamada, sem medo de êrro, de carne de vaga.

“Os marchantes de Vitória, de algumas cidades mineiras e do Estado do Rio (lugares onde o gado abatido procede da região em que só fazendeiros estão empregando hormônios femininos na engorda dos bois), dizem que isso não passa de manobra dos frigoríficos, interessados em diminuir o consumo interno da carne, aumentando assim a exportação dêsse produto para o exterior.

“Os técnicos do Ministério da Agricultura procuram desfazer os boatos, enquanto os médicos estudam o problema com maiores cuidados. Ninguém, nem mesmo os técnicos e os médicos, arrisca-se, no entanto, a comer um “filet mignon”, por mais saboroso que êle possa apresentar-se. Carne, não entra em casa de ninguém, nem como remédio”.

Extraído do Correio de Marília de 2 de agosto de 1958

domingo, 1 de agosto de 2010

Depois da “Moda Saco”, a “Linha K” (1 de agosto de 1958)

Já ricocheataram em São Paulo, os efeitos da primeira apresentação o novo tipo de vestido feminino, recente levada a efeito em Paris. Trata-se da “Linha K”, que, segundo opinião dos costureiros parisienses e dos “entendidos” entre nós, irá alcançar pleno sucesso.

O costureiro paulistano Pepe Pastor esclarece que a citada “Linha K” foi inspirada nos movimentos do Segundo Império, de Napoleão e Josefina. Alguns modêlos apresentam os decotes exageradamente baixos e outros as saias tão curtas que nem chegam aos joelhos!

Vai ser mesmo uma “gracinha”!

Veja o que a respeito declarou à imprensa o costureiro referido:

“Jean Patou, ao trocar seu antigo modelista Júlio Laffite pelo atual Roland Karl, vai substituir a característica de elegância própria da escola “Robert Piguet” pela estrutura mais exagerada, mais espetacular do desejo do comércio. Trata-se de explorar, antes de tudo, a beleza do corpo feminino, até o extremo que ela deve ser cortada pela técnica do soutien Gorje, que modela completamente o busto da mulher. Por outro lado, nas linhas e nas costas com objeto que não resulte excessivamente sensual. A determinante da linha “K” está, portanto, fixada. Fica inspirada nos movimentos do II Império de Napoleão e Josefina, com a diferença que nas costas pode ser reta ou em curva. Patou busca na linha “K” estruturar a silhueta da mulher.

Acredito que terá uma aceitação completa e total, porque inclusive prevaleceu entre nós a linha “colher”, como ocorreu também com a aceitação das linhas “saco” e “trapézio”. A côr que dominará êste ano vai ser a côr natural do tijolo. O sucesso será absoluto”.

As declarações acima dizem tudo: Atestam que muitos “marmanjos” precisariam ser obrigados a arrumar outras ocupações, ao invés de preocupar-se com um comércio dêsse tipo. Demonstram, conforme transcrição supra, o sentido duplamente condenável de um comércio desenfreado e ganancioso e o espírito sádico “de explorar a beleza do corpo feminino até o extremo...”

Não há negar que o mundo marcha ininterruptamente para o cáos moral e que nós, os brasileiros, habituados a imitar sempre, nem sempre nos preocupamos em copiar tudo o que é bom, limitando-nos, regra geral, a copiar simplesmente “tudo”.

A exemplo daquilo que dissemos anteriormente, quando abordamos a questão da “Moda Saco”, expressamos também o nosso ponto de vista de que talvez o assunto “pegue”, porque existem entre nós muita gente do sexo feminino que tem “água de côco” na cabeça; é possível ainda que nós próprios venhamos a ver na rua, sob os olhos complacentes da própria polícia de costumes, u’a mulher com vestido cuja saia não atinja os joelhos e com um decote que deixe transparecer o umbigo!

O que é certo, isso ninguém poderá duvidar, é que os “barbados” que apresentam idéias tão “luminosas” assim, como os modistas e costureiros profissionais, deveriam ser obrigados a pegar na picareta, para amenizar um pouquinho a febre de “invenções” de absurdos e atentados à moral, que convencionaram denominar “modelos femininos”.

Bah!

Extraído do Correio de Marília de 1 de agosto de 1958