terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Nem sempre nobreza é título (31 de dezembro de 1974)


Sem endereço pessoal e com o devido distanciamento da pessoa física do cidadão, inúmeras vezes critiquei atos, atitudes e gestos do vereador Nasib Cury.

Nessas censuras de jornalista e observador político, cingi-me aos procedimentos do cidadão, investido em seus poderes e funções legislativas.

Não só Nasib Cury, como igualmente outros vereadores e políticos.

Fi-lo sempre limitado ao mais comezinho princípio de independência  e como porta-voz de uma parcela da população mariliense.

E o farei quantas vezes isto for necessário.

--:--

Com a mesma independência que tenho tecido críticas, também expendi louvores, todas as vezes que estes sejam conscientemente reclamados e notadamente necessários.

E isto também farei todas as ocasiões que preciso for.

--:--

Vou abordar aqui o desfecho do entrevero há pouco surgido, envolvendo os poderes Executivo e Legislativo, nas pessoas do prefeito Pedro Sola e do vereador Nasib Cury.

O final, embora para alguns tenha multi-efeitos, só apresenta uma consequência e um resultado: harmonia político-administrativa da cidade, com reflexos de bem para a própria coletividade.

--:--

Tenho notado que vozes que procuravam defender Nasib, velada, aberta ou indiretamente, mudaram de trincheira, para arremessar investidas contra o mesmo vereador. De defensores, passaram a agressores, basofiando inclusive sobre pretensa impersonalidade do focalizado.

Nesses casos, a impersonalidade reside justamente nos proprietários dessas próprias vozes. Pela incoerência de atitudes e pelo aproveitamento momentâneo de oportunidades.

São pessoas que fazem “xixi” fora do pinico.

--:--

Nenhum desdouro pode recair sobre Nasib Cury, pelo fato de sua retratação.

O reconhecer um erro e penitenciar-se, dando a mão a palmatória, jamais diminui ou desvaloriza um homem. Pelo contrário, eleva-o e dignifica-o. Prova-o detentor de um espírito público e de razão consciente.

Por outro lado, atesta que nobreza não existe somente em títulos e sim também em ações dignas.

--:--

Vejamos o recente episódio, que redundou no impedimento do ex-presidente norte-americano Richard Nixon.

Os anteriores da própria história “yankee”, que renunciaram o governo norte-americano, souberam penitenciar-se, foram capazes de reconhecer e confessar falhas e erros. Nem por isso tiveram diminuídos seus valores.

O mesmo não aconteceu com Nixon, que não teve a dignidade de penitenciar-se ou de reconhecer as falhas que grande parte do público lhe atribuiu.

--:--

Com a mesma altivez que sempre critiquei Nasib Cury e com a mesma lealdade de propósitos que assim procedi, aqui estou para louvá-lo. Nesse louvor, que é espontâneo e incondicional, como espontâneos e incondicionais foram as críticas que ao mesmo enderecei, está a minha independência absoluta.

Contrário os que entendem que Nasib se acovardou ao mudar de atitude, retratando-se. Para mim, o gesto nunca poderia chamar-se covardia e sim altives. Ele não se diminuiu por isso. Ao contrário, elevou-se, porque é digno e honrado, o reconhecer falhas. Pelo menos para os homens que pensam como eu.

Nasib teve um gesto nobre que veio beneficiar Marília.

Resta que se não metamorfose.

O vereador demonstrou nobreza de ação. E provou que a nobreza nem sempre é título nobiliárquico.

Extraído do Correio de Marília de 31 de dezembro de 1974

domingo, 29 de dezembro de 2013

MARÍLIA – analogia sincera de seu dinamismo


Passado de glórias, presente de orgulho e futuro promissor

O povoado audacioso de ontem e a metrópole de hoje – Um milagre construído por bandeirantes anônimos – Terra exuberante, clima excelente e águas salubérrimas – Tudo transpira progresso no “Intermezzo” dos rios Peixe e Feio – Uma pincelada sobre a história e a vida da “Cidade Menina”

Marília é uma fotosféra de progresso. Sua própria história já é um capítulo brilhante. Sua vida, um oásis em torno do qual gravita o dinamismo bandeirante. Seu passado, um audacioso rosário de empreendimentos gloriosos. Seu presente, um exemplo ufano e orgulhoso. Seu futuro, imensuravelmente promissor.

A própria Natureza, parece ter feito sentir seu dedo mágico nêsse “intermezzo” extraordinário onde está situada Marília, a “cidade menina”. Os espigões dos rios Peixe e Feio, encravam em seu topo, qual jóia engastada no corolário da exuberância das mais progressistas cidades do Brasil, como bandeira desfraldada no cume de um mastro, uma cidade admirável. É Marília, nossa querida Marília.

Sua própria história parece um conto de fadas. Faz lembrar lendas maravilhosas, de acontecimentos empolgantes e impossíveis. Recorda a menina feia, sardenta, de futuro incerto e sua metamorfose na moça esbelta e bela, de porte imponente e sedutor, de graça sem igual.

Seu nome já é poesia. Sua inspiração, um poema. Sua origem, uma história de amor, de beleza, de sinceridade. Marília em sí, é tudo isso, traduzido num desenvolvimento ímpar, fenomenal, gradioso.

         O povoado de ontem

Até os albores do século presente, toda ésta imensa região pertencia aos índios coroados.

Antes disso, por volta de 1890, frades capuchinos oriundos de São Paulo, intentaram, sem resultados, um trabalho de catequese entre os aborígenes.

Perdeu-se depois, na gaveta do esquecimento ou das coisas impossíveis, a idéia de colonizar ésta vasta e exuberante região de nosso Estado. Em fins de 1912, um eminente político paulista de nome Cincinato Braga, comprara cêrca de quatro mil alqueires de terras. Tal área situava-se à margem de uma longa picada que o Cel. Carlos Ferraz abrira, destinada a ligar Platina a Presidente Pena, hoje Cafelândia. Escolhendo um ponto sêco e alto, o Cel. Ferraz mandou plantar 10.000 cafeeiros, quantia de pés de café verdadeiramente fabulosa naquela ocasião. Para muitos pareceu exagero éssa medida e deram à região o topônimo de Alto Cafezal. Era o prenúncio de novo povoado.

         O primeiro civilizado entre os coroados

Através de pesquisas e consultas nas fontes mais seguras, conclui-se que o primeiro homem civilizado a habitar entre os índios coroados, senhores absolutos da região foi o Major Antonio Simões. Realizou êsse personagem parte da missão frustrada aos desejos dos frades capuchinhos.

         Um português na história de Marília

Antonio Pereira da Silva, português de nascimento, imigrante, tendo em seu sangue lusitano, aquela fibra e denodo tão característicos de seus antepassados desbravadores dos mares, lançou-se a uma empreitada de arroio sem limites: adquiriu de Cincinato Braga, 120 hectares de terras, dentro de cuja área se localiza Marília de hoje. Isso ocorreu por volta de 1910.

Lá pelos idos de 1922, José Pereira da Silva, filho de Antonio Pereira da Silva, empreendeu a abertura de um povoado, que manteve o nome já conhecido da região – Alto Cafezal.

A éssa altura, a Cia. Paulista de Estradas de Ferro já anunciava seus intentos de estender seus trilhos rumo à nova região, além de Bauru.

         Bandeirantes anônimos construíram um milagre

Gentes de todas as partes do Brasil, especialmente dos chamados “zonas velhas” de São Paulo, voltaram suas vistas para o “El Dourado” paulista, a “Terra da Promissão”. Verdadeiros bandeirantes anônimos, sem o perceber, construíram um milagre. O milagre da colonização.

         O nome de Marília

Tendo o saudoso Bento de Abreu Sampaio Vidal comprado grande área de terras na região, para cá lançou-se denodadamente, trazendo consigo aquele calor do progresso, aquela fibra desbravadora e um tirocínio esclarecedor dos mais elogiáveis. Em pouco tempo, transformou o povoado num arraial, injetando-lhe a seiva alentadora das iniciativas dinâmicas que tão bem o caracterizaram na sua invejável e gloriosa existência.

A éssa altura, depois de 1926, a Cia. Paulista de Estrada de Ferro já engatilhava as providências para penetrar a região, abrangendo seu lastro que se encontrava parado em Piratininga. Preconizava a ferrovia, a denominação em ordem alfabética (crescente) de usa estações, a partir do ponto de reinicio da extensão. Alto Cafezal, então, teria que mudar de nome. Teria que ser encontrada uma identificação que se iniciasse com a letra “M”.

Depois de muitas escolhas, criou-se confusão entre várias idéias apresentadas. Certa ocasião, o sr. Bento de Abreu – o “Pai de Marília” – viajava para a Itália. No navio, encontrou na biblioteca, uma edição em portugueses, de 1.780 (mais tarde reeditada no Brasil) do livro “Marília de Dirceu”, do poeta Thomaz Antonio Gonzaga. Apreciador da boa leitura, o Sr. Sampaio Vidal empolgou-se pela história e pelo nome de Marília, a mulher bela e sedutora amada por Dirceu. Telegrafou então ao Brasil, decidindo em definitivo sobre a escolha do nome da cidade: seria MARÍLIA.

         Fatores influenciais do dinamismo inicial de Marília

A quatro pontos, atribui-se de modo insofismável, o dinamismo inicial de Marília.

Primeiro, ao espírito empreendedor de Bento de Abreu Sampaio Vidal.

Segundo, ao movimento migratório europeu, consequente da I Guerra Mundial.

Terceiro, devido ao surto cafeeiro revolucionário verificado na região, atraindo gentes de todo os quadrantes do Brasil.

Quarto, à penetração do lastro ferroviário.

         MARÍLIA DE HOJE (1958)

         Distrito de Paz

No dia 22 de dezembro de 1926, foi assinada a Lei 2.161, criando o Distrito de Paz de Marília, sob a jurisdição do Município de Cafelândia.

         Município

Pela Lei nº 2.320, de 24 de dezembro de 1928, Marília foi elevada à categoria de Município, cuja instalação se deu em 4 de abril de 1929.

         Comarca

Através do Decreto nº 5.956, datado de 27 de junho de 1933, o município de Marília foi guindado à condição de Comarca. Em 16 de outubro e3 1944, o decreto-lei 14.234 classificou Marília como Comarca de 3ª entrância. Oriente e Vera Cruz pertencem a Comarca de Marília.

Avencas, Lácio, Amadeu Amaral, Padre Nóbrega, Dirceu, Rosália e Ocauçu compreendem os distritos do município de Marília.

         Localização e Limites

Marília localiza-se na parte noroeste do Estado, a 22º, 13’, 10” de latitude sul e 49º, 56’, 46” de longitude.

Limita-se Marília pelos seguintes municípios, de acôrdo com o disposto na Lei 2.456, de 30/10/53: Oriente, Pompéia, Getulina, Guaimbê, Júlio Mesquita, Álvaro de Carvalho, Vera Cruz, Lupércio, São Pedro do Turvo, Campos Novos Paulista e Echaporã. A zona de Marília propriamente dita, sem as obediências da Lei citada que estipulou os municípios limítrofes: Oriente, Pompéia, Getulina, Guaimbê, Júlio Mesquita, Álvaro de Carvalho, Vera Cruz e Lupércio. Campos Novos Paulista e Echaporã fazem limites com o município de Assis.

         Aspectos físicos do Município

A temperatura média em Marília, em gráus centígrados é: máxima, 37; mínima, 12; compensada, 24.

Com 652 metros acima do nível do mar, Marília apresenta uma área de 1.438 quilometros quadrados.

         População

Por estimativas, calcula-se em 110.000 habitantes, séde e município, para 1958, a população de Marília. Tal população representa menos de 1/5 da de Santos, que é a segunda cidade do Estado de São Paulo, sendo Marília a 8ª cidade populosa do Estado.

         Formação física

O sólo do município é formado em sua maioria de arenitos, idênticos aos da zona noroeste, classificados na série cretácea.

A altitude do município varia entre 500 e 700 metros acima do nível do mar, dentro dum espraiado de dois longos rios – Peixe e Feio. Sua água é salubérrima e abundante. O clima, regra geral, é variável, dando assim um “quê” da temperatura da paulicéia – calor, frio, ventos e até garôa. De setembro a fevereiro os ventos de leste exercem relativa predominância na região. As chuvas, normalmente, caem em períodos certos e esperados.

         Matas virgens

Poucas matas virgens restam ainda no município. Explica-se o fato em consequência da civilização da região, em ritmo acelerado, incrível. Como decorrência, muitas derrubadas foram feitas, muita madeira foi empregada, muito comércio madeireiro foi realizado, inclusive com as Capitais de São Paulo e de Estados limítrofes. Peróba, canela, pau d’alho, ceboleiro e outras madeiras “de lei” identificam a fertilidade das terras da região.

Em compensação, as florestam deram lugar a grandes oceanos verdes de café e de outros cereais.

         Pecuária e agricultura

Muita importância representam para Marília os ramos de pecuária e agricultura. Os dados a seguir divulgados, atestam bem o que estamos afirmando.

A produção de café no município é estimada em 658.000 arrôbas; de algodão, 585.000 arrôbas; de amendoim, 6.776 toneladas; batatas, 80 alqueires, com 32.240 sacas de 60 quilos; soja, 10 alqueires, com 500 sacas de 60 quilos; laranja, 86.150 pés, com 87.000 caixas; uva, 45.480 pés, com 90.500 quilos; mandioca, 519 alqueires, com 19.200 toneladas; cana de açúcar, 1.230 alqueires, com 137.760 toneladas; mamona, 73 alqueires, com 4.380 sacas de 50 quilos; banana, 46.000 pés; com 50.000 cachos.

50.000 bovinos e 30.000 equinos, representam a maior força do campo pecuário de Marília. O valor do gado bovino foi estimado em 132 milhões de cruzeiros e o do suíno em 40 milhões de cruzeiros. O município conta ainda com um número aproximado de 4.600 equinos, 4.300 muares, 3.350 caprinos e 22 asininos.

         Indústria

Em relação ao tempo de vida da cidade, Marília tem relevantes acentuação no parque industrial interiorano, com reflexos já além das fronteiras do município. O município de Marília ostenta hoje a altura do 10º lugar em valor de produção no Brasil. Destacam-se as indústrias de beneficiamento do café e algodão, óleos, cervejas e refrigerantes, artigos laminados.

Mais de uma centena de estabelecimentos industriais do município dão trabalho à cerca de um milhão e meio de operários de diferentes categorias, sendo de cerca de um bilhão de cruzeiros o valor de produção dos citados estabelecimentos industriais de Marília.

Em transformação existem diversas outras indústrias e planos, como de produtos têxteis, alimentação, etc.

O valor da produção de café beneficiado é de cêrca de 300 milhões de cruzeiros. O de óleos e vegetais destinados a alimentação aproximou-se da casa de 200 milhões de cruzeiros. O de algodão beneficiado e recuperação de resíduos soma o montante de 300 milhões de cruzeiros.

13.000 toneladas de óleo de amendoim, num total aproximado de 110 milhões de cruzeiros são produzidas no município atualmente.

Por vários anos seguidos, Marília vem ocupando o lugar de destaque de o 1º município do Estado produtor de óleo de amendoim e o 2º na produção de óleo de caroço de algodão.

         Comércio

Não se pode negar que o município de Marília é um dos grandes centros comerciais do Brasil. Mais de meia centena de comerciantes atacadistas e cerca de dois mil estabelecimentos comerciais de varejo existem no município, numa prova exuberante e irrefutável da pujança de seu comércio.

Nas vendas anuais realizadas pelo comércio atacadista de Marília, figura o município entre os principais do Estado. Tanto assim, que, dentre os 6 municípios principais dêsse cômputo (conforme dados do IBGE), em que figura Marília, concentra-se 93% das vendas atacadistas do grupo principal do Estado!

No campo do comércio varejistas, dentre os 7 principais municípios do Estado, Marília ocupa lugar de destaque, eis que dêsse número traduz-se a cifra de 58% do movimento comercial varejista do Estado de São Paulo.

         Fisiografia

Marília pertence a uma das 33 zonas fitográficas em que está dividido o Estado de São Paulo, distando da Capital, em linha réta, 372 quilometros.

         Movimento bancário

Somente São Paulo, Campinas, Santos e Ribeirão Preto ultrapassam Marília no movimento bancário. O município inclui-se, justamente, dentre os maiores centros bancários do Estado.

         Finanças públicas

No ano de 1957, foi a seguinte a relação das arrecadações públicas em Marília: Federal Cr$ 72.510.383,20 e Estadual Cr$ 157.169.518,80.

O Orçamento Municipal para 1958 é de Cr$ 67.150.000,00.

         Ensino

As crianças matriculadas nos diversos estabelecimentos de ensino da cidade, nas idades compreendidas entre 7 e 14 anos, representam 66% da população mariliense. De conformidade com dados elaborados por ocasião do Censo de 1950, constatou-se que mais de 60% dos marilienses são alfabetizados.

108 escolas de ensino primário (estaduais, municipais e particulares) conta o município, além de 7 estabelecimentos de ensino médio (ginasial, comercial e normal) e duas faculdades de ensino superior – uma particular, de Ciências Econômicas e uma oficial, de Filosofia, que deverá funcionar integralmente no próximo ano.

         Meios de Transporte

Por via aérea, Marília é ligada diariamente à Baurú, Tupã, São Paulo e Londrina, através de linhas regulares da VASP. Existem ainda duas excelentes companhias de taxi aéreo – a COMTAX e o Taxi Aéreo Hugo Simeone.

Por rodovia, Marília dista de São Paulo, 529 quilometros. É servida a cidade pelos esplêndidos trens de bitola larga da Cia. Paulista de Estrada de Ferro.

         Comunicações

Marília é servida por telefones automáticos, da Cia. Telefônica Brasileira, num total de cêrca de 1.900 aparelhos ligados.

         Iluminação

A Cia. Paulista de Fôrça e Luz serve o município de Marília. Na cidade contam-se perto de 9.200 ligações elétricas.

         Veículos

Dentre ônibus, automóveis e caminhões, Marília apresenta o número aproximado de 3.000 viaturas, além de cêrca de 1.800 bicicletas e tricíclos.

         Imprensa e rádio

Quatro tipografias, nove livrarias, dois jornais diários (CORREIO DE MARÍLIA e “Jornal do Comércio”) representam a imprensa de Marília. Três rádio-difusoras – Rádio Dirceu de Marília, Rádio Clube de Marília e Rádio Vera Cruz de Marília, traduzem a força da palavra falada de nossa cidade.

         Setor hospitalar

Dos melhores possíveis é o setor hospitalar de Marília, servindo não só a região, como Estados vizinhos, especialmente o Paraná. Uma completa Sta. Casa de Misericordia, dotada de todos os apetrechos cirúrgicos modernos e indispensáveis, um Hospital Marília nas mesmas condições, além de um Hospital Espírita especializado em moléstias nervosas e mentais, traduzem a força do campo hospitalar da cidade. O corpo clínico dos aludidos nosocômios, bem como a classe médica da cidade representam o que de mais eficiente póde ser desejado nesse terreno. Cerca de 60 médicos exercem a profissão no Município.

         Diversões e esporte

No setor de diversões populares, Marília ainda não está completa de todo. Falta-lhe um teatro, apesar de existirem na cidade esplêndidos valores do teatro amador, perfeitamente aproveitáveis. O município possui 5 cinemas, dois dos quais na séde, número insuficientíssimo para acomodar o público mariliense.

Como entidades recreativas, destacamos o Marília Atlético Clube, o Yara Clube de Marília, o Marília Tênis Clube, o Esporte Clube Mariliense, a Sociedade Luso-Brasileira e a União dos Treze.

Além do clube de futebol profissional da cidade (Marília Atlético Clube), conta o município com cerca de 40 clubes da cidade e dos distritos, filiados à Liga Municipal de Futeból.

         Farmácia e Odontologia

Poucas cidades do interior podem gabar-se de estarem tão bem servidas de farmácia e odontologia. Além disso, Marília é uma das poucas cidades interioranas que possui, em parte central da “urbe”, uma Farmácia Noturna, que funciona todos os dias, das 18 horas até às 8 horas do dia seguinte, prestando serviços inestimáveis e socorros urgentes aos munícipes e mesmo à população de cidades adjacentes.

         Água

A água potável de consumo público de Marília é considerada de superior qualidade. Mesmo assim, Marília possui o seu serviço de fluoretacão de águas, tendo sido o município o primeiro no Estado a utilizar-se de tal processo. Tal fato ocorreu na administração do atual prefeito municipal, Eng. Argollo Ferrão.

         Autoridades do Município

Juiz de Direito da Comarca, Dr. José Gonçalves Santana; Promotor Público, Dr. Carlos Ubaldino Bueno de Abreu; Bispo Diocesano, D. Hugo Bressane de Araujo; Prefeito Municipal, Eng. Argollo Ferrão; Presidente da Câmara Municipal, Dr. Fernando Mauro Pires Rocha; Delegado Regional de Polícia, Dr. Érico Novaes Ferreira; Delegado de Polícia Adjunto, Dr. Francisco Severino Duarte; Delegado Regional de Ensino, sr. Arnaldo de Arruda Mendes; Deleg. Regional da Caixa Econômica do Estado, Sr. Rubens Fukugawa Tomatu; Delegado Regional da Saúde, Dr. Odilon Enout Coutinho; Delegado Regional das Indústrias, Sr. Domingos de Léo.

         Marília, a bela

Marília é assim. Uma colmeia de trabalho. Um povo realizador, coeso, constituindo uma só família. Progride diuturnamente. Apresenta cerca de 10.000 prédios, sendo dotada quase totalmente de iluminação, excetuando-se alguns novos bairros recém abertos. A rêde de água e esgôto apresenta um índice de mais de 62% das exigências totais da “urbe”. O mesmo acontece com o sargeteamento e construção de guias. O calçamento está sendo feito rapidamente, mas mesmo assim não parece tão rápido, tamanho é o desenvolvimento da cidade e o crescimento de suas zonas periféricas.

Arranha céus gigantescos, emolduram o alto da serra, proporcionando a identificação da cidade, por via aérea, há muitos quilômetros de distancia. Politica harmoniosa, Marília jamais deu exemplos desastrosos entre seus homens públicos, eis que, todos eles, acima de suas cores partidárias, desfraldam a bandeira do município, os interesses da cidade e sua gente.

Várias seitas religiosas são professadas entre os marilienses – inclusive o budismo –, com a mais absoluta liberdade. Predominando a porcentagem católica, Marília é também séde de bispado.

Seduz e encanta Marília, pelo seu dinamismo irrefreável, pela hospitalidade de seu povo, pelo que os marilienses foram capazes de construir.

         Epílogo

Aqui estão, leitores amigos, num rápido apanhado e num bem intencionado trabalho jornalístico, algumas coisas do sangue dêsse coração que se chama Marília. Se omitimos alguns pormenores, dados ou detalhes, confessamos que não o fizemos intencionalmente. Um compêndio, uma compilação de fatos, de dados estatísticos, além de algo difícil, póde deixar escapar algum detalhe. Nossos intentos, entretanto, são demonstrar aos marilienses, com números concretos, a grandeza de Marília. Para os que residem fóra e que acompanham a vida de Marília e a atuação de seu grande povo, por quaisquer meios, aqui está um motivo de orgulho, um ponto para despertar e reviver a saudade. Para os forasteiros, especialmente aqueles que não conhecem a “cidade menina”, um motivo de apreciação da grandeza desta terra.

Se atingirmos nosso objetivo, sentir-nos-emos felizes e satisfeitos.

Texto extraído da revista especial de Natal do Correio de Marília de dezembro de 1958 

39 imagens ilustraram texto de Marília

O texto acima foi ilustrado pela revista do Correio de Marília, na edição especial de Natal, por 39 fotos, que, infelizmente, não temos como reproduzir.

Reproduzimos, entretanto, as legendas de todas as fotos, uma a uma.

1.    1958 – Trecho da Rua São Luiz
2.    1958 – Trecho da Av. Sampaio Vidal, vendo-se a primeira vista a Praça Saturnino de Brito
3.    1958 – Trecho da Rua Prudente de Moraes
4.    Banco do Estado
5.    Colégio Sagrado Coração de Jesus
6.    Residência
7.    Residência
8.    Vista noturna do Edifício do SENAI de nossa cidade
9.    A benemérita “Mansão Ismael”
10.                      MARÍLIA – 1958 – Vista Parcial da Cidade
11.                      Marília – 1958 – Prédio da Delegacia da Fazenda
12.                      Defronte à indústria Amendoim Mariliense Ltda., da qual é sócio o Sr. Iraha, parentes e amigos, notando-se também a sua frota de veículos
13.                      Fachada do edifício de Amendoim Mariliense Ltda., à Rua São Luiz
14.                      1958 – Rua Prudente de Moraes – Vista noturna
15.                      Ginásio do Estado – Marília – 1958
16.                      Av. Sampaio Vidal – Vista noturna – 1958
17.                      Trecho comercial da Av. Sampaio Vidal – 1958
18.                      Trecho da Rua 9 de Julho
19.                      Trecho da Avenida Sampaio Vidal – Domingo, comércio fechado, ausência de movimento acentuado que caracteriza essa via
20.                      Magnifica visão aérea do Hospital Espírita de Marília
21.                      Catedral de S. Bento – Marília
22.                      Avenida Sampaio Vidal
23.                      Grupo Escolar “Thomaz Antônio Gonzaga”
24.                      Trecho da Rua São Luiz
25.                      Caixa Econômica Federal
26.                      Pavilhão Infantil “Dona Antonieta Altenfelder”, estabelecimento hospitalar para servir à Marília e à região
27.                      Maternidade “Maria Isabel Sampaio Vidal” e Santa Casa de Misericórdia de Marília
28.                      Edifícios dos Correios e Telégrafos e SENAI
29.                      PARQUE INDUSTRIAL
30.                      RUA 9 DE JULHO – MARÍLIA
31.                      DESFILES ESTUDANTIS EM MARÍLIA
32.                      Fachada do Cine São Luiz
33.                      Fachada da Associação Feminina Maternidade e Gota de Leite
34.                      Aspecto de uma indústria de Marília
35.                      Estação Rodoviária de Marília
36.                      Pateo interno do Asilo de São Vicente de Paulo
37.                      Monumento em homenagem a Bento de Abreu Sampaio Vidal, grande benemérito de Marília. Localiza-se à frente da Santa Casa de Misericórdia de Marília
38.                      Monumento dos ex-combatentes
39.                      Recanto pitoresco de Marília – a cidade descansa... é domingo

Os editores: Sueli Bravos do Amaral e Cláudio Amaral

sábado, 28 de dezembro de 2013

O próximo ano (28 de dezembro de 1974)


Quatro dias, inclusive o de hoje, separam-nos do início do ano de 1.975. Quarta-feira próxima estará marcando o alvorecer do ano novo.

Setenta e quatro expirará a zero hora de terça-feira.

--:--

Para muitos, 1.974 foi um “ano bom”. Para outros, o ano a findar-se “correu mal”.

Os que tiveram em 74 um ano bom, esperam para 75 a repetição de todas as alegrias e felicidades e os que não se satisfizarem com o desenrolar do ano que expira, almejam a esperança de melhores dias em 75.

--:--

O ano de 1.975 irá corresponder a…

Ano 6.688 do Período Juliano.

2.880 da Fundação de Cartago.

2..728 da Fundação de Roma.

2.635 da Era Japonesa.

483º. Ano do descobrimento da América.

458 da Reforma de Lutero.

186º. da Revolução Francesa.

153º. Ano da Independência do Brasil.

86º. ano da Proclamação da República.

98 da invenção do telefone.

78º. ano da invenção da aviação.

40º. ano da invenção da televisão.

13 de voos espaciais tripulados.

12 do Pontificado do Papa Paulo VI.

6º. ano da chegada do primeiro homem à Lua.

47 da fundação do CORREIO DE MARÍLIA.

30º. ano do final da II Guerra Mundial, em cujo conflito armado o Brasil se fez presente, através dos pracinhas da gloriosa Força Expedicionária Brasileira.

46 da instalação do município de Marília.

12º. aniversário da morte do ex-presidente John Fritzgerald Kennedy.

40 da intentona comunista.

15º. ano da instalação oficial de Brasília.

11º. aniversário do falecimento do jornalista Raul Roque Araujo, co-fundador deste jornal.

421 da fundação de São Paulo.

43º. do Movimento Constitucionalista.

139 do nascimento do Maestro Antonio Carlos Gomes.

25º. do falecimento da cantora Carmem Miranda.

167 da fundação da imprensa brasileira.

67º. aniversário da chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao Brasil, a bordo do navio “Kasato Maru”.

7º. ano do falecimento do Marechal João Baptista Mascarenhas de Moraes, comandante em chefe da Força Expedicionária Brasileira que lutou na Itália.

7º. aniversário da instituição oficial do “Dia da Ave”, discriminando o sabiá como ave-símbolo do Brasil (Decreto 63.234/68).

86 da adoção da atual Bandeira brasileira (Decreto no. 4, de 19/11/1.889).

42º. aniversário da instalação da Comarca de Marília, criada pelo decreto estadual no. 5.956 de 27/6/33.

3º. ano da atual administração municipal.

Ano de estreia do MAC no campeonato “Paulistão”.

--:--

Que além disso, o ano de 1.975 registre e traga consigo, também, paz e compreensão entre os homens, harmonia entre as nações, saúde e felicidade para todos e aceleramento da febre do progresso mariliense.


Extraído do Correio de Marília de 28 de dezembro de 1974

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Assuntos vários (27 de dezembro de 1974)


Passadas as comemorações natalinas, a certeza de que tudo tenha transcorrido, conforme pensamentos e desejos de todos.

Neste curto “intermezzo” do Natal findo e do alvorecer do Novo Ano, o recrudecimento das operações normais de todos, da responsabilidade comum e elementar, da luta cotidiana e do ganha pão normal e diário de cada um.

--:--

Sem ornamentação especial, a cidade não conseguiu oferecer aquela sensação de alegria das festividades natalinas, durante o período oficial de abertura noturna de nosso comércio.

--:--

Dois jovens, um dirigindo um Opala e outro pilotando um Corcel, sem qualquer ligação aparente entre si, usaram e abusaram do direito de guiar loucamente na cidade.

Demonstrando a mais absoluta falta de respnsabilidade, esses dois “Fittipaldis” puzeram em jogo suas próprias vidas e em perigo a de muitas pessoas.

--:--

O Sr. Moisés Teixeira Véspera, prefeito de Rubiácea, município sito na Noroeste, vem de ser selecionado pelo Centro Internacional Universitário e Tecnológico de Brasília, para fazer um curso sobre Administração Pública na Espanha.

O curso terá a duração de 45 dias, sendo ministrado no período de 14 de janeiro a 28 de fevereiro próximos, em Madrid.

--:--

Nas mesmas condições e para o mesmo curso, também foi selecionado o Sr. Idenolphi Semeghini, prefeito de Tupã.

O alcaide tupãense, no entanto, parece não estar muito inclinado a realizar os referidos estudos, por entender que o tempo de duração do curso é muito longo e que seu afastamento, durante cerca de cinquenta dias, poderá ocasionar prejuízos à administração municipal.

--:--

Mariliense Roberto Camargo, que iniciou-se no jornalismo na redação deste diário e que hoje é figura de primeira grandeza no jornalismo paulistano, apesar de relativamente novo, publicou recentemente, no jornal “O Estado de São Paulo” – onde milita com destaque – consubstancioso artigo, afirmando a queda de 30% no campo de vendas especiais no período do Natal.

Robertão enfocou cifras e dados, demonstrando tecnicamente, que em relação ao mesmo período do ano passado, este ano a quebra do movimento comercial citado, na Capital, registrou o referido índice diminuitivo.

--:--

Este escribra, que tem muita admiração e estima pelo Robertão, considerando-se, mesmo ousadamente, um dos “professores” de Roberto Camargo, quando de seu início nas lides jornalísticas, sente-se satisfeito, pela trajetória progessista do mariliense.

--:--

O recorte do mencionado artigo, inclusive assinado pelo autor, me foi remetido pela leitora Maria Cristina.

Para quem não sabe ainda, Roberto Camargo exerceu até há pouco, as funções de responsável pela abertura de um tele-jornal da TV Record, intitulado “Chekap”.

Foi o primeiro locutor negro a realizar semelhante trabalho na televisão brasileira – a abertura de um bem montado e completo programa de um tele-jornalismo vibrante e objetivo.

--:--

Outro mariliense que está ascendendo firme e rapidamente na radiofonia bandeirante é o narrador de esportes Osmar Santos.

Osmar Santos está cotado presentemente como o melhor locutor esportivo de toda São Paulo.

Aqui um “reparozinho” para o Osmar:

Ultimamente ele tem olvidado de promover Marília, omitindo aquelas suas constantes referências “à minha Marília”, ao “meu MAC”, etc.

Por que, Osmar?


Extraído do Correio de Marília de 27 de dezembro de 1974

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Porque matei (Natal de dezembro de 1973)


Conto de José Arnaldo, especial para Edição de Natal – 1954 

Na lufa lufa comum e cotidiana da grande cidade, o povaréu corre apressado em direções diversas. Apático e indiferente ao borborinho de vidas que tenho em redor, como um perdido na mole humana, caminho eu, qual um autômato errante. Modestamente vestido, com uma fatiota um tanto fóra de uso, um surrado chapéu na cabeça, sapatos sem cordões e u’a mala pendurada na mão direita, vou andando, aereamente, à esmo, sem destino pré-fixado, sem a mínima preocupação para com a agitação das gentes que domina as ruas. Quase não me apercebo do trânsito barulhento e incessante. Meu olhar é morto, transpirando exaustidão. Minhas afeições são pálidas, sulcadas de rugas indeléveis, semi-ocultas por uma barba de dois dias, documentam uma vida de sofrimentos precoces. Meu andar é incerto, atabalhoado, inseguro. Meu destino parece claudicar, sem ponto certo de direção aparente. Até em minha mão, crispada como uma garra sôbre a alça da malha vermelha e anti-estética, a minha indecisão está patente. Tenho, em aparência, dez anos mais do que na minha certidão de idade.

Chego a uma esquina, parando indeciso por momentos; retomo o passo, automaticamente, ainda titubeante, como que com medo. Sigo em frente, atravessando a rua, direção à uma praça pública. Árvores frondosas protegem os bancos de granito madreperolado, sombreando-os. Nos canteiros, outrora bem cuidados, campeia a mescla de cascas de frutas, caixas vazias de fósforos e cigarros, papéis abandonados e folhas de árvores. Pequenos pássaros, salpicam a paisagem, aqui e ali, mudando de pontos, quando sêres humanos se avizinham. Vendedores ambulantes apregoam frutas e refrescos. Engraxates maltrapilhos, vendem sujeira e trabalham em algazarras. Fotógrafos típicos de jardins e portas de igrejas, com idosas máquinas ladeadas de retratos-modêlos, completam a vida do característicos logradouro. Nos bancos públicos, pessoas conversam.

Paro, como se fôsse um turista num país desconhecido; lobrigo um lugar vago, dirijo-me até êle, sentando-me; abandono ao lado, no chão de “petit pavê”, a velha mala; cruzo as pernas, recostando-me para traz, braços abertos e cotovelos apoiados sôbre o espaldar do banco, abandonando o olhar pusilânime no azul do céu, em alguns pontos tintos de fumaça das fábricas.

E penso:

Há nove anos que aguardei, com ansiedade inalienável, êstes momentos de liberdade. Nove anos de sofrimentos, de angústias, de desesperos, em silêncio, numa luta titânica de submissão e estrangulamento de meu próprio coração, sem protestos, sem queixas ou lamentações. Nove anos de penitenciaria!

Eu, que desde pequeno havia sonhado com um mundo de felicidade, uma felicidade simples e completa, à meu modo, vi, por um inexorável golpe do destino, o catastrófico desmoronamento de minha própria vida, como uma antevisão do transcorrer de meu próprio funeral. Eu, que alimentei carinhosamente, desde jovem e inexperiente, a ilusão de casar-me e constituir família, amparando na velhice o meu querido pai, vi-me, de um momento para outro, tropeçando no meu próprio destino, cometendo um crime de morte e passando a minha mocidade na prisão!

Nove anos de angustiosa expectativa por esta ocasião, quase dois lustros de ansiedade, de desespero, de lutas revoltas contra a própria razão, de férreo auto-controle pessoal, e, agora, chegado o tão esperado momento, chego a considerá-lo indesejável, inoportuno. Sou um covarde ou um vencido. Tenho medo da realidade.

 Dos catorze anos que me foram sentenciados, por um júri de velhos taciturnos e sonolentos, em que um inexperiente advogado de defesa, designado por mercê do próprio Juízo, foi impotente e inépto para derrubar a argumentação de aço de um quase satânico e hábil promotor público, que me apontou como um autêntico e profissional criminoso, como um monstro, cinco me foram perdoados por indulto, “como prêmio à excepcional conduta”. Dá-me asco a recordação. Eu, Isidoro Marques, de uma tradição pobre, porém briosa, sem manchas de antecedência, fui indultado por bôa conduta na prisão! Nos últimos dias de presídio, quando a novidade chegou ao conhecimento dos detentos, fui o centro de convergências obrigatórias da casa. Até invejado fui. E, com que desprazer, obrigado várias vezes, a ouvir, do próprio Diretor, nas formaturas de revista diária, elogios, endeusamentos, nomeações “ad-hoc” de exemplo vivo para os demais encarcerados!

--:--

Tudo começou há dez anos pretéritos. Um longo período. Um lapso de tempo carregado de amarguras e desespero, de descrenças do próprio mundo, de nojo das injustiças dos homens, da prepotência do dinheiro. Matei um homem. Mas... matei um homem? Cometi, realmente um crime que bem justificasse catorze anos de cárcere? Não, não foi bem isso, pois na balança do reconhecimento abalizado, duas bôas ações deveriam apagar u’a má ação. E foi o que eu fiz. Prestei mesmo dois serviços relevantes: vinguei a morte covarde e brutal de meu velho pai e aboli da sociedade, simultâneamente, um cafajeste, ladrão, vagabundo e contumaz desordeiro. Tenho a certeza disso. E não me arrependo. Indigna-me, isto sim, a própria sociedade, que, hipocritamente, ao envez de medir com o metro da razão e sensatez as devidas proporções dos fatos, apontou-me como um verdadeiro bárbaro, como um calejado criminoso, condenando-me.

Minha velha mãezinha, de há muito, quando eu era ainda mui pequeno, faleceu por deficiência de recursos médicos. Fiquei, então, só, com meu velho pai extremoso, devotado, que jamais quisera casar-se, conforme sempre afirmava, para não dar-me u’a madrasta. Não pude educar-me convenientemente, mas as derrapagens inóspitas do caminho da vida, haviam curado em mim, uma adolescência extemporaneamente madura. Conclui, com sacrifício, apenas o curso primário, em escola rural mantida pelo Estado. Mal saído dali, lancei-me ao trabalho, ajudando meu velho pai. Assim cresci, muito distante de conjecturar o meu futuro. Apesar de tudo, era feliz. Levava uma vida rude, trabalhando na lavoura, enquanto meu pai, com a carroça puxada pelo cavalo “Pingo”, transportava para a cidade, onde vendia, frutas e legumes, de cuja renda subsistíamos. Doente e velho, nada mais do que isso lhe seria permitido realizar, e, não sem sacríficos. E assim íamos vivendo, até que um dia – a lembrança me é nítida e cristalina – tivemos aquele golpe desolador: roubaram o “Pingo”!

Num canto da cerca, entre dois mourões, o arame havia sido cortado, criminosamente, a golpe de alicate. O velho ficara desolado. Eu, sem saber o que fazer. Sem o cavalo, como faríamos para continuar vivendo? Comprar outro, na ocasião, não era possível, pois a safra do ano anterior foram grandemente prejudicadas pelas rudes estiagens e renda geral obtida não fora suficiente nem sequer para pagar a metade dos compromissos assumidos durante o exercício. Ademais, o “Pingo” era como se fosse a terceira pessoa de nossa família. Manso, amestrado, de confiança no serviço, era até pretendido pelos fazendeiros vizinhos.

Meu pai estava inconformável. Uma tarde, quando nos encontrávamos sentados na soleira da porta, debulhando milho para o próximo plantio, o velho me dissera:

- Meu filho, Deus que me perdoe, porém ninguém me tira da cabeça que o ladrão do “Pingo” não é o Zé Preto. Hoje o malvado passou por aqui, quando você não estava. Sorridente, alegre, gentil, fez questão de falar várias vezes no animal, como se estivesse esgaravatando uma ferida em meu peito. Fez crescer como um bambu as minhas suspeitas. Convidei-o a ir comigo, procurar o cavalo roubado. Aceitou. Tenho a certeza de que cometerá um gesto qualquer de contradição e se trairá, para que eu descubra o roubo...

- Mas – atalhei eu – isso é uma imprudência: o senhor sabe que ele não presta, que é um elemento perigoso e capaz de qualquer desatino, se, de leve, desconfiar de suas intenções... Não permitirei, a menos que eu os acompanhe.

--:--

Partimos os três, dias após. Andamos errantemente pelos mais distantes lugares típicos de permutas e comércio de animais. Zé Preto dava fluentes mostras de concordância para com tudo, com calma inacreditável, como um artista habituado na representação de seu papel. Já estávamos propensos a desistir da jornada, quando num sábado à tarde, aportamos num local chamado “Bairro Branco”; desmontamos à porta de um boteco de beira de estrada, onde uma fieira de animais sem encontrava amarrada aos palanques da cerca. Entramos no asqueroso recinto, em cujo balcão encostavam-se peões, segurando copos de pinga, fumando cigarrões de palha, riscando o chão de barro batido, com grandes e enferrujadas esporas e cuspindo seguidamente por terra.

O velho pedira água, tomara a caneca cheia do líquido, enquanto seus olhos perscrutavam, como os de um esquilo, todo o ambiente. Zé Preto mandara vir um copo de aguardente, fizera um gesto rápido de oferecimento aos presentes, desses gestos proforma, e, lépido, emborcara o conteúdo garganta adentro; lambera, a seguir, os grandes lábios com satisfação e limpara a boca no punho da camisa suja e surrada.

Naquêle momento, aproximou-se da porta da venda, um caboclo manteudo, barba rala, cachinco de barro num canto da boca, cavalgando um animal: o “Pingo”! Meu pai empalideceu e ficou como que petrificado. Olhou para mim, como a pedir socorro, a indagar uma ajuda, a solicitar uma providência. Refeito do choque, readquiriu a ação e adiantou-se para o desconhecido:

- Moço, me desculpe, mas onde o senhor comprou êsse animal?

O recém-chegado lançou um olhar atencioso ao interlocutor, desviou as vistas para o cavalo escurecido pelo suor, e, como satisfeito por haver o mesmo despertado o interesse do velho, respondeu:

- Uái, moço, eu “barganhei” êle no domingo retrasado, lá na venda das “Duas Pontes”... e já enjeitei muito negócio bão pelo cavalinho...

Zé Preto continuava apoiado sôbre o balcão, de costas voltadas para a porta, mantendo animada conversa com o botequineiro. Não percebera e nem tampouco ouvira a conversa dos dois, pois, prosseguia bebendo, intermitentemente, seguidos “martelos” de cachaça.

Meu pai ficou, naquêle momento, inativo; eu, por meu turno, fiquei apoplético, com aquela aparição inesperada do animal procurado.

Nisso, Zé Preto voltou-se para nós e seus olhos se cruzaram com os do visitante. O malandro mudou de côr, ao ser observado por mim e meu pai. Pareceu até haver perdido o sangue do rosto. O cavaleiro, constando a pessôa do negro, apontou-o a meu pai, dizendo:

- Foi dêsse aí, que eu possuí o cavalinho...

Com a rapidez de um raio, Zé Preto levou a mão à cintura; uma grande faca “peixeira” reluziu em sua mão nodosa, descrevendo um círculo velocíssimo e foi cravar-se no peito de meu pai, com surpreendente rapidez. Não existiu qualquer palavra ou gesto do famigerado, senão a ação inesperada, que não nos permitiu, siquer raciocinar sôbre o que estava acontecendo. Em fração de segundos, consumou-se o crime covarde e brutal. Meu pai tombou sem palavras, deitando pelo peito golfadas de sangue. Atirei-me, azoinadamente sôbre o velho, como se não acreditasse naquilo que meus olhos estavam vendo. O criminoso, tal um felino, saltou para fóra do recinto. Terrificados, os demais presentes, voltaram a si, despertados pelo galopar de um animal, que conduzia em disparada louca, o terrível assassino, deixando na estrada uma impermeável nuvem de poeira. Alguns saíram, certificando-se então da inutilidade da perseguição e voltaram para acudir o ferido, que expirava apoiado em meus braços.

--:--

Desolado, cabisbaixo, voltei para a casa, conduzindo um cavalo com a montaria inerte e uma onda de revolta a dilacerar-me o peito.

--:--

Doze dias depois o assassino apresentou-se à prisão, acompanhado de um advogado, notório em tôda a redondeza, pelas suas inexcrupulosas ações e pelas vitórias profissionais vergonhosamente conquistadas em defesa dos mais abomináveis facínoras do lugar. Seu caráter e suas qualidades condenáveis, eram cobertas pelo grande valor dotilóquio que possuía e que chegava mesmo a torná-lo respeitável.

Para mim, desde o dia em que Zé Preto se apresentou à Justiça, até o dia do julgamento, decorreram vários séculos.

Chegou, afinal, o fatídico dia. Na cidade, pelos bares, na rua, nas esquinas, só se falava nisso. Era o “prato do dia”, parecia mesmo ser um acontecimento de interêsse geral.
Muito antes da hora aprazada, a sala do júri estava literalmente repleta. Gente de tôdas as categorias e posições sociais, ali se encontrava, para acompanhar o desfecho tão ansiosamente aguardado. O corpo de jurados era composto por elementos que eu, de antemão, considerava meus inimigos, advinhando-lhes as decisões finais. Parecia-me tudo adredemente preparado para a absolvição do bandido. Relutei, em vao, para afastar de minha razão, aquelas conjecturas, aquela certeza. Tive ainda a última esperança, de que, dentre os membros do Conselho de Sentença, alguém não morresse de amores pelo sagaz dr. Patesco e não se deixasse influenciar e atemorizar pelos argumentos convincentes e habilmente cultivados que iriam brotar da boca daquêle advogado de criminosos. Confiante, a defesa andava de um para outro lado, sobraçando a pasta volumosa e velha, revendo papéis, transpirando segurança, cumprimentando os retardatários e distribuindo sorrisos a todos, com a confiança de um gladiador. Aquelas atitudes, apertavam em torno de si, a cada minuto, o auto-domínio de sua importante capacidade ciceriana, que o dr. Patesco mais aperfeiçoava e multiplicava, naquela caminhada condenável em pról dos criminosos.

A sessão teve início, com a chegada ao recinto, do Presidente do Tribunal, a promotoria e os jurados. Em seguida, adentrou Zé Pinto, com dois soldados da Polícia, a guisa de damas de companhia. Mas, o dr. Patesco, psicologicamente, convertera o assassino. O criminoso entrara na sala, transmudado de peão vagabundo em um aparentemente completo “gentleman”, envergando um discreto terno claro, barba e cabelos cortados, gravata e até colarinho engomado! Até sapatos de verniz! A presença do negro assassino teve um efeito esperado. Pelos olhares curiosos dos presentes e pelos dos próprios jurados, não me foi difícil deduzir de que eram enormes as possibilidades de sua absolvição.

Fôra, sem dúvida, uma sagaz artimanha de defesa. Era o mesmo que a recaiacão da fachada de um prédio velho, acrescido de um fabuloso e extravagante anúncio a “gaz neon”. Zé Preto mostrava-se confiante e confundentemente calmo. Inquestionavelmente, o dr. Patesco lhe adiantara a certeza de sua vitória, que iria aumentar o ról de inúmeras outras do mesmo porte. O clima estava pesado, denotando ansiedade. O silêncio perdurava e o mais leve ruído num papel era nitidamente pressentido.

Abertos os trabalhos, o Juiz ordenou ao escrivão encarregado, a leitura dos autos, cujo mistér o funcionário desenvolveu com rapidez espantosa. O Presidente deu a palavra ao representante do Ministério Público, um velho que ostentava uma toga mais idosa do que o dono, com uma cara de fuinha e alguns ares napoleônicos. Logo ao iniciar as suas primeiras considerações da preliminar da acusação, sofreu um bombardeio de apartes da defesa, ferinos e irônicos. No princípio, a assistência permaneceu passiva. Depois, como se fosse uma “torcida” que aos poucos se inflamasse, começou a dar mostras de gostosa e favorável predileção pelos satíricos, extravagantes e bem baralhados apartes do temível advogado. Debalde o Juiz pediu silêncio, e, por duas vezes, ameaçou fazer evacuar o recinto.

O defensor, confundia, a olhos vistos, a acusação, que, por sua vez, chegava a expor-se ao ridículo, sem encontrar argumentos para anular os incrivelmente “fundados” apartes do dr. Patesco, que desfazia, habilmente, os pontos nevrálgicos da questão, lançando sôbre os mesmos e o conceito dos jurados; uma espessa rede de dúvidas. Para mim, a luta ali travada, o estava sendo entre o Ministério Público e dois bandidos, um dos quais, intelectualmente, estava, gradativamente, levando notória vantagem sôbre a acusação.

A Promotoria falou cerca de uma hora, dando por concluída a acusação. Depois falou a defesa. Torrentemente. Nem gosto de recordar-me daquelas passagens. O dr. Patesco principiou seus trabalhos defensivos, como se contasse uma história, onde criou personagens semelhantes à vítima e ao acusado, fantasiando pontos a bel prazer e pincelando a gosto, locais pitorescos e empolgantes, com uma fertilidade de imaginação digna de nota, como uma lenda de Sidney Horler, em que o vilão passou a ser herói e a vítima o vilão. Depois, com convicção galvanizada, desfez, para meu desespero, tôda a argumentação da Promotoria, desdizendo uma por uma, as afirmativas do acusador e arrazou, vitoriosamente, alguns pontos da acusação, que porventura ainda teimassem em ocupar lugar nas mentes de uma pequena parte da assistência ou dos jurados. O efeito ia surtindo a olhos vistos, como uma injeção de penicilina milagrosa. Todos os presentes, me parecia, haviam-se transferido, com armas e bagagens, integral e incondicionalmente, para a “verdade” contida nas sábias palavras do dr. Patesco. No fim de duas horas deu por encerrada a defesa, não sem apontar Zé Preto como um autêntico herói, e – cúmulo – um mártir!

O Conselho de Sentença recolheu-se à sala privativa. Nem meia hora depois, voltou. O Presidente leu o “veredictum” que surtiu o efeito de uma bomba: absolvido por unanimidade!

Foi um reboliço. A assistência movimentou-se qual um enxame, invadindo o recinto da sessão, caindo aos abraços e cumprimentos sôbre o famigerado, como num golpe de mágica transformado em herói. Por certo, se a alguém tivesse acudido a idéia, não teria deixado de solicitar um autógrafo do bandido!

--:--

Vencido, desiludido, humilhado, abismado e revoltado contra todos, contra a própria Justiça, abandonei a cidade. Nenhuma desculpa, nenhuma ponderação, nenhuma providência, poderia, jamais, apagar de meu coração, a tão descomunal e abominável injustiça, que a própria Justiça, tão mal representada por meia dúzia de amedrontados e insensatos jurados, fizera cravar no mais profundo recôndito de meu coração próprio. Uma revolta tremenda, nauseabunda, acobertava meus mais sagrados sentimentos filiais, profundamente feridos; os meus brios e o último resíduo de esperança, desapareceram, em consequência do ardiloso resultado que o dr. Patesco soube trabalhar e inequitativos jurados corroboraram.

--:--

Mudei-me para longe. Não podia, de nenhum modo, encontrar ambiente para mim, naquêle lugar. Dois meses depois, movido pelo dever de solver um determinado compromisso anteriormente assumido, regressei à antiga cidade, que eu tanto amei antes e que agora me parecia abjetamente repulsiva. Senti-me, na rua,, o alvo de curiosidade de todos e notei a deserção em massa de meus mais chegados amigos. A revolta pela ingratidão sofrida, por mais que eu tentasse sufocá-la, emergia, vindo entalar-se em minha garganta, num protesto mudo. Ao passar por um botequim, que mais não era do que um quartel general de bandidos e desvergonhados vagabundos, fui chamado pelo proprietário. Êste, impingindo-me u’a mentirosa intenção de cumprimentar-me, nada mais pretendeu do que auscultar-me os sentimentos e a mágua que me dominava transbordantemente. E o fez, com segundas intenções, a menos que fosse muito estúpido. Isso eu pude perceber, logo ao entrar no asqueroso antro. Encostado a um lado do balcão, com o indefectível copo de pinga entre uma das mãos, lá deparei Zé Preto. Esfriei. Ao ver-me, sorriu para mim, sarcástico, atrevido, como um general vitorioso que passa em revista a tropa vencida. Os presentes sustiveram a respiração, como a aguardar um motivo de transe, prestes a ferir-se. Surpreso, perdi a ação. Não esperava encontrar ali, naquelas condições de desafio, o matador de meu pai. Tentei controlar-me e para enganar a minha própria consciência, pedi água. O vendeiro trouxe-me uma caneca esmaltada, com o líquido. Nos lábios de Zé Preto, estava desenhado um sorriso de mofa que me indignou. Sem desejar, revivi o quadro dantesco que pouco tempo antes fez parecer meu pai, estupidamente, sob o pontaço covarde daquêle canalha. Sentí um frêmito gritante dentro de mim. O sangue fugiu-me das faces. Chamei, com insistência, o auto-domínio, inutilmente. Perdi o tino. Como se uma fôrça sobrenatural movesse meu braço direito, minha mão agarrou uma barra de ferro que fazia peso sôbre papéis de embrulho no seboso balcão. Com uma força incrível, que concatenasse a potência de meus dois musculosos braços, a arma improvisada desceu em cheio sôbre a fronte luminosa do bandido, que não teve siquer tempo de esboçar a defesa. De relance, vi o olhar apalermado dos demais e a inútil e tardia tentativa de reação do bandoleiro. Pude notar a metamorfose do sorriso irônico em máscara de dor, um gemido surdo e o escorregamento gradativo de um corpo mole e desgovernado, que, como uma enguia, desceu escorregando-se junto ao balcão e ficou meio sentado no chão imundo. Como o riscar de um relâmpago, meu bom senso me preveniu: fugir.

Recuei, quando um caboclo magro e alto, com a camisa aberta ao peito, lançava chispas pelos olhos vermelhos de álcool, pulou sôbre mim. O adversário gratuito teve ainda tempo de agarrar-me pelo braço e por pouco não me dominou. Dei um rápido e violento giro no membro prisioneiro, fazendo o inimigo perder o equilíbrio, desgarrar-se e bater estrondosamente no balcão, que rangeu, aluindo-se do lugar. Ato contínuo, corri, abandonando o recinto, apalermado com a minha repentina e inesperada atitude. Atrás de mim, um vozerio uníssono, gritava um desprezível côro: “Assassino! Assassino!”

Perambulei, qual um bicho de mato, pelos campos, ocultando-me até a chegada da noite. De madrugada, com as idéias extremamente confusas, temendo uma futura represália de Zé Preto, regressei ao velho rancho em que morei com meu pai.

--:--

- Tá preso! – disse a voz no escuro, segurando em violento sopetão o meu ante-braço. Mesmo no lusco fusco, percebi que a pessôa que me prendeu, bem como outras duas, estavam fardadas.

Não opuz resistência. No caminho do Posto Policial, vim a saber que Zé Preto morrera, em consequência da pancada recebida. Fiquei aliviado; cheguei mesmo a ficar contente.

--:--

E agora, eu, Isidoro Marques, ex-convicto, aqui estou após nove anos de encarceramento. Perdi os melhores anos de minha mocidade, o período mais profícuo, mais róseo que existe na vida de um homem sonhador e entusiasta. E, aqui me encontro, sózinho, indeciso, sem destino a seguir, com medo da vida, com medo da própria realidade.

--:--

O sól vai descampando no poente. Seus raios mais longos percebem-se ainda, nos intermezzos de alguns prédios distantes. Na rua, o movimento do cair da tarde, aumentou. As luzes se acendem. Os fotógrafos e os engraxates desapareceram. Alguns mendigos, a passos trôpeços, reiniciam a caminhada de volta. A noite veste-se para aparecer sôbre a terra.

Levanto-me, apanho a velha e anti-estética mala, e, com o mesmo passo indeciso e lento que ali me trouxera, atravesso a praça, ganho a rua e perco-me entre a multidão...


Extraído da revista especial de Natal do Correio de Marília de dezembro de 1954

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Esse inventor pernambucano… (24 de dezembro de 1974)


Conheço um mariliense. O que não é nenhuma novidade, pois conheço milhares de marilienses.

Esse mariliense hoje não mais aqui reside.

Até há alguns anos era ele bancário em nossa cidade.

Tinha um hábito diário, infalível e imutável.

Quando saia do banco, para o almoço, passava num bar da cidade e fazia questão fechada de jogar uma partida de bocha, antes de ir “pegar o rango”.

Quando, por vezes, alguém perguntava se ele estava em férias, dizia que não, que ia almoçar e voltar a tempo para o trabalho do Banco. E o fazia, mesmo.

Mas, seus amigos, na base da “gozação”, diziam:

- Mas quando o fulano vai chegando em casa, a mulher dele põe o feijão-com-arroz no liquidificador, bate, despeja num copo, ele “engole” o almoço e volta para o banco…

--:--

Lembro-me desse episódio porque o presenciei muitas vezes.

Mas a razão que me faz sua revelação vem residir num outro fato, ligado por analogia.

Esse outro fato não aconteceu em Marília, mas sim lá no Recife.

É que lá existe um pernambucano “da peste” para inventar coisas. É o Sr. Augusto Farias.

--:--

O inventor pernambucano Augusto Farias está notabilizando-se por dar tratos à bola e a propagar invenções verdadeiramente “sui generes”, algumas até de interpretação ou aparências esdruxulas.

Mas são invenções cuja primazia coube ao pernambucano, que prova ser detentor de uma imaginação das mais férteis e que exerce uma atividade constante, na preocupação de descobrir coisas novas.

--:--

Não sei se os leitores já leram ou ouviram falar algo a respeito desse homem.

Mas acredito que todos conhecem, saibam o que é e já tenham no mínimo provado uma gigantesca fruta que se chama jaca, que, se não é do agrado do paladar de todos, pelo menos em termos de aroma agrada muito, por ser muito cheirosa.

Pois bem.

O pernambucano queimou pestana, dispendeu energia mental, queimou fosfato, fez testes, permaneceu fazendo experiências duradouras e cansativas em seu laboratório, para conseguir seu intento: inventou a carne de jaca!

--:--

Mas o Augusto Farias não parou ai.

Cismou de inventar um tipo de sorvete diferente, até então existente em todo o mundo.

Pasmem.

O inventor pernambucano, depois de anunciar a sua descoberta (carne de jaca), divulgou a bomba: sorvete de caranguejo!

--:--

Não sei se os pernambucanos estão comendo a carne de jaca com “macaxêra” ou não e se, como sobremesa, estão lançando mão do sorvete de carangueja. Isso eu não sei.

--:--

Mas o inventor pernambucano continuou pesquisando e realizando novas experiências, no afã de novos inventos.

E acabou por conseguir mais outra extraordinária invenção.

O Sr. Augusto Farias acaba de inventar o feijão em pó, instantâneo e solúvel apresentado sob a forma de farinha e de altor teor alimentício.

“Si non é vero, é benne trovatto”.

Extraído do Correio de Marília de 24 de dezembro de 1974

domingo, 22 de dezembro de 2013

O advento do petróleo (22 de dezembro de 1974)


Em fins de 1945 – há 29 anos passados – através desta mesma coluna, que na ocasião identificava-se como “Mensagem do Observatório”, ao envés de “De Antena e Binóculo”, como se mantém há mais de 20 anos, escrevi consubstancioso artigo enfocando a descoberta do petróleo brasileiro.

--:--

Foi um artigo impregnado de otimismo – lembro-me bem.

Justificava-se perfeitamente, a razão da euforia íntima, que transferi em letras de forma, para os leitores deste jornal.

Era eu, recém-chegado do fragor dos combates da guerra da Itália, recém-desligado do Exército. Trazia, vivíssimos no sub-consciente, os episódios e as imagens dantescas dos embates armados, a lembrança tenebrosa das passagens funestas das mortes e ferimentos de muitos “pracinhas”.

Experimentava a natural dificuldade de readaptação no organismo da vida civil. Vivia a sensação inenarrável da liberdade e da distância da guerra e vibrava ininterruptamente pela felicidade do retorno à Pátria.

Esses fatos, adicionados ao patriotismo e brasilidade que em mim transpiravam, fizeram-me euforizar, ao redatoriar o alvorecer da era do petróleo, cujo óleo negro principiava a jorrar no município de Candeias, Estado da Bahia.

--:--

Era mais uma prova das muitas riquezas do solo brasileiro, dizia eu, que viria a provar aos povos do mundo a grandeza e a segurança futura do Brasil como país do porvir, que em menos de meio século assombraria as nações mais adiantadas.

--:--

Sentia-me ferido em meu patriotismo, porque, em mais de um ano no exterior, havia travado contacto com norte-americanos, italianos, ingleses, franceses, sul-africanos, russos, gregos, marroquinos e canadenses, cujas pessoas tinham do Brasil a mais errônea das concepções: julgavam eles, em absoluta maioria, que o Brasil “era uma terra de índios, de muitas matas virgens, animais selvagens, gigantescas cobras e muitos crocodilos”.

Essa mágoa fizera-me “vomitar” um verdadeiro libelo de brasilidade ao focalizar aquilo que refutei como “o advento do petróleo brasileiro”.

--:--

Essa lembrança ocorreu-me agora ao conhecer um pronunciamento do Ministro das Minas e Energia, Shigeaki Ueki, sobre a descoberta de petróleo no Estado do Rio de Janeiro.

Declarou o Ministro bastense que “o Brasil não precisará mais importar petróleo, se pelo menos dois dos doze novos poços que vão ser perfurados no litoral de Campos revelarem o mesmo potencial do poço de Garoupa”.

--:--

Mais tarde, em São Paulo, o mesmo Ministro Ueki, em palestra com jornalistas paulistanos, afiançou que a Petrobrás não tem interesse em associar-se a grupos estrangeiros para a exploração do petróleo.

Essas duas afirmativas do ex-bastense, Ministro Shigeaki Ueki, apresentam o mesmo e análogo sentimento que me fez, em fins de 1945, escrever o artigo que aqui refiro e recordo, sobre o evento do petróleo nacional.

E garante-me a convicção de que, sem que isto venha a representar profecia, de que me não equivocava na ocasião em que expressava a minha mais absoluta certeza e confiança, de que daquela época há 50 anos futuros, o Brasil teria a mais absoluta independência na produção de petróleo para seu consumo interno e poderia, inclusive, chegar à condição de exportador do produto.

Por enquanto, tudo vai indo bem certinho e bem ajustadinho ao citado escrito, que, na ocasião, fez-me merecer de um médico mariliense, ainda aqui radicado, a contundente expressão de um “coitado sonhador”.

Extraído do Correio de Marília de 22 de dezembro de 1974

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Assuntos vários (20 de dezembro de 1974)


Este ano (1974) não haverá castanhas para o Natal.

Os pobres não iram mesmo comprar, mas nem os ricos, nem os remediados poderão adquirir o referido produto.

É que o carregamento da referida fruta, proveniente da Europa, chegou ao porto de Santos já deteriorado, em virtude de uma avaria nas câmaras frigoríficas do navio que fazia o transporte das castanhas.

--:--

Não há muito, através do “Correio”, os marilienses tomaram conhecimento de que a firma japonesa “Honda Motor Company”, produtora das motocas Honda, estava “campeando” um local em nosso Estado, para a instalação de uma filial de sua empresa.

No aludido comentário, dissemos que Bauru havia entrado no páreo, mas que tínhamos ciência de que a Honda já havia adquirido uma grande área de terreno para o mesmo fim, no município de Sumaré, próximo a Campinas.

Mesmo assim, o vereador Quico apressou-se em propor à Câmara a constituição de uma comissão de vereadores, para ir pessoalmente coloquiar com os dirigentes da Honda, no sentido de estudar as possibilidades de estudos para a instalação dessa empresa em Marília.

Agora nada adianta, porque até Bauru já perdeu o lance, vez que comunicação oficial a respeito foi feita ao prefeito Edmundo Coube pela própria empresa, informando que vai instalar-se no município de Sumaré.

--:--

Notícias de Brasília dão conta de que assessores do ministro Arnaldo Prieto, do Trabalho, informaram à imprensa de que no próximo ano será regulamentada a profissão de radialista.

O informe adianta que o próprio ministro já designou comissão especial para elaboração dos referidos estudos.

Medida justa e racional, essa, que, a exemplo dos jornalistas, virá regulamentar a profissão de uma nobre e operosa classe.

--:--

Na cidade de San José, Estado da Califórnia, a senhora Charlote Lange, de 26 anos de idade, deu à luz seis gêmeos.

Desses sextuplos rebentos, cinco vieram a falecer, restando apenas a menina Jolene Rene, com poucas possibilidades de sobrevivência.

--:--

Serviço de Trânsito de Marília necessita urgentemente da recuperação do carro-guincho ou de dotação de um novo veículo desse tipo.

A ausência do carro-guincho no trânsito mariliense vem contribuindo para uma série de desmandos e de abusos de trânsito, praticados por motoristas descuidados ou irresponsáveis.

--:--

Parece que irão se cometer muitos abusos no comércio especializado de aves, por ocasião deste Natal.

Estão falando por aí, preços abusivos e bárbaro, no que tange a leitões, frangos, perús, cabritos, etc.

Se nenhuma medida preventiva se fizer surgir, muitos abusos irão se verificar, muitos deles, inclusive, ocasionando prejuízos aos açougueiros e casas de carne legalmente existentes.

É que os “atravessadores” já principiaram a agir.

--:--

Chuvas copiosas e intermitentes tem caido nestes últimos dias sobre o município, provocando estragos nas rodovias municipais não pavimentadas e danificando inclusive margens das estradas oficiais e pavimentadas.

Até o solo asfáltico das ruas da cidade está sentindo essas consequências, apresentando uma infinidade de buracos, todos com tendências aumentativas.

Extraído do Correio de Marília de 20 de dezembro de 1974