domingo, 31 de janeiro de 2010

Edição Especial do “Correio” (31 de janeiro de 1958)

Como sabem todos, é praxe e tradição deste jornal, presentear seus assinantes anualmente, com uma edição especial, em formato de revista, hoje conhecida como a “Revista do Correio de Marília”. Tal edição, normalmente, têm circulado por ocasião das festas natalinas. No ano findo, deixamos de confeccionar dito trabalho, adiando a data de sua publicação, para render, agora em 1958, u’a homenagem ao 30º aniversário de Marília.

Já estamos iniciando os primeiros passos à respeito, depois de estudos e elaboração do competente plano técnico e redatorial. Assim, pretendemos presentear nossos assinantes e leitores, com éssa edição especial, por ocasião do próximo Dia do Município.

Será, como das vezes anteriores, um compêndio de fatos e acontecimentos da vida da cidade e das realizações de seu povo, ilustrado com vasto serviço de clicherie, impresso em papel de primeiríssima ordem e em várias cores.

Dentre os trabalhos da redação, enriquecidos como sempre com colaborações férteis e agradáveis em torno da oportunidade do momento, iremos executar retrospecto da vida de Marília em trinta anos. Será um serviço exaustivo, paciente mesmo. Necessitaremos rebuscar as amarelecidas pelos anos e empoeiradas pelo tempo páginas deste jornal, desde o seu primeiro número, de 1º de Maio de 1928, até a data presente. Uma compilação dos primordiais acontecimentos da trepidação e do progresso de Marília de Dirceu, inseridos nas folhas de nosso órgão. Será um apanhado dos motivos mais destacados, um acompanhamento, enfim, da caminhada progressista e vertiginosa de Marília.

Como será fácil perceber, uma iniciativa que demandará tempo e cuidados, uma vez que serão relidos todos os números do “Correio”, artigo por artigo, publicação por publicação, de uma pilha enorme de jornais. E confessamos que faremos tal trabalho com prazer, porque sempre tivemos satisfação em difundir as coisas de nossa terra e de nossa gente. Tal compilação traduzirá tripla significação: rememorará a saudade dos antigos marilienses, os “descobridores da cidade”; despertará a curiosidade natural e o orgulho normal dos novos marilienses; carreará ainda mais à Marília e seu povo, a simpatia dos forasteiros pelas realizações da “cidade menina”.

Esse será o objetivo dêsse trabalho que pretendemos fazer e que se Deus quizer, levaremos à cabo, para apreciação de nossos leitores. Se conseguiremos atingir o objetivo, sentir-no-emos satisfeitos, como satisfeitos se sentem todos aqueles após o dever cumprido.

Além disso, focalizará êsse numero especial dedicado ao Município de Marília, um plano estatístico da vida da cidade, com números oficiais, compilados paciente e estudadamente. Aspectos da vida social, realizações, finanças, empreendimentos, enfim, integrarão a referida tiragem. Focalizaremos o arraial de Marilia e a cidade de Marília.

Esta crônica é feita à guisa de uma clarinada, principalmente tendo muita gente procurado saber as razões do porque não circulou a “Revista do Correio de Marília” no último Natal.

Temos certeza de que nossos leitores serão recompensados com a demora e esperamos convictos de que nosso trabalho irá agradar a todos, especialmente os bons marilienses, os que de fato acompanham com amôr o progresso da cidade e em particular os que sempre nos prestigiaram com apôios, simpatias, confiança e atenções.

Extraído do Correio de Marília de 31 de janeiro de 1958

sábado, 30 de janeiro de 2010

Exposição Agro-Pecuária (30 de janeiro de 1958)

Notícia bastante alviçareira, divulgamos em outra parte desta edição, com respeito à Exposição Industrial que será realizada em Marília, no próximo Dia do Município, sob os auspícios do CIESP e colaboração da Associação Comercial de nossa cidade.

Simultaneamente, conforme divulgamos, é pensamento do mesmo órgão, inaugurar também uma exposição Agro-Pecuária, que teria por lugar o recinto do Yara Clube.

A primeira mostra está definitivamente assentada, sendo que a outra apenas em cogitações. Para a realização desta, será chamada a colaborar, a Associação Rural de Marília.

Não há negar de que se trata de assunto de importância e de interêsse geral, não só para Marília, como também para tôda a região. Nessas condições, daqui lançamos um apêlo aos nossos poderes constituidos, para que prestigiem e se interessem pelo assunto; igualmente, à Associação Rural, para que envide empenho, no sentido de que as cogitações aludidas sejam transportadas para o terreno da realidade.

A situação será de todo propicia. Quando comemoraremos eufóricos, a passagem do 30º aniversario da cidade, justo é que tenhamos, ao par de outros aspectos festivos relativos à efeméride, essas referidas mostras.

Nêsse particular, podemos dizer que Marília quase nada fez até o presente. Bom seria aproveitar-se o “embalo” da oportunidade e a boa vontade do CIESP e dos industriais locais. Marília precisa mesmo realizar mostras dessa natureza, fazendo convergir à si as simpatias e os interêsses gerais, ainda em maior monta.

Todos sabemos de como despertam interêsses exposições dêsse jaez, pelo alto e significativo grau de conveniência geral que apresentam. Dar a conhecer ao público o poderio de nossas indústrias e a riqueza de nossa pecuária e agricultura é um dever, u’a necessidade. Divulgar e difundir aspectos diversos das atividades relacionadas com êsses campos, uma obrigação.

Curiosidades, estudos, admirações e conhecimentos, são os principais fatores que resultam de tais cometimentos. O conhecimento mais acentuado e mais direto daquilo que temos, principalmente hoje, quando a maioria das gentes costuma viver submergida num mar de pessimismo, deve ser alargado o mais possível, difundido ao máximo.

Nossas autoridades, nossas indústrias e nosso comércio, que colaborem para a efetivação dessa medida. Nada mais feremos do que um dever normal, merecedor dos encômios mais rasgados, porque, acima de tudo, encerram tais realizações, um sentido eminentemente patriótico, uma vez que, patriotismo é também a difusão das riquezas da Pátria e as realizações de seu povo.

Oxalá possamos, desta vez, contar com a efetivação dessas medidas, que acarretarão à Marília, a lavratura de mais um grandioso tento, no rosário de suas grandes e elogiáveis realizações.

Extraído do Correio de Marília de 30 de janeiro de 1958

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Legendas de caminhões (29 de janeiro de 1958)

Afir(m)a a ciência grafológica, que todo ser humano emite, nos conceitos que escreve, um pouco de seu próprio “ego”; isto é, deixa transparecer, embora sem o desejar, resquícios interiores.

Tal assertiva é tambem confirmada em parte, pela psicanálise. Assim deduz-se de que quem escreve poesias é irretorquivelmente dotado de u’a alma cândida, por vezes boêmia; quem é suave nos escritos demonstra sensatês, gestos comedidos; quem escreve de maneira violenta, denota um espírito combativo por vêzes, revoltado em outras ocasiões; e assim por diante.

Isso nos ocorreu, ao presenciarmos a série de legendas usuais nos para-chóques e trazeiras de caminhões de transporte, algumas curiosas, outras insossas, humorísticas, satiricas, de fé, etc., etc.

Uma “jardineira”, tipo antigo, cuja carcaça se encontra “pedindo a Deus para que o mundo acabe em açúcar para éla morrer doce”, ostenta, num vermelho visível, a seguinte inscrição: “Hoje estou velha, mas já fui muito boa”. É o realismo aliado à situação, refletindo, sem dúvida, o conformismo de seu motorista.

“Sái da frente” – traduz arrogancia, petulância, sem sombra de dúvidas.

“O Joãozinho chegou” – deve significar convencimento.

“Bateu? Azar seu” – é uma inscrição que traduz indiferença.

“Vou com Deus” – atesta que o homem do volante alimenta fé.

“O mundo gira e o Ford róda” – Prestígio pela marca do veiculo, propaganda diréta de sua qualidade.

“O terror das estradas” – deve representar convencimento de forças, experiência.

“Carona, só de saia” – significa que o homem é francamente das mulheres. Só que o mesmo olvidou-se que soldado escocês tambem usa saiote.

“Cuidado, que eu peso muito” – conhecimento de potência, um aviso de alerta.

“Não vou na conversa” – Quer dizer sagacidade, pretensão, auto-confiança.

São inúmeras as legendas existentes nos caminhões de transportes. O uso passou a ser normal. Raramente vê-se um veículo dessa qualidade que não ostente sua inscrição. O espírito, a “verve”(,) a crença, a confiança, humorismo, seriedade, pretensão, são os principais motivos déssas legendas.

Cada qual procura delinear seu melhor pensamento, pensamento que, de conformidade com o normal, representa um pouquinho de espírito interior de seu idealizador.

Coisas curiosas, por vezes bonita, outras vezes até estúpidas. De qualquer maneira, pensamos, significam alguma coisa de útil. Representam a exteriorização de pensamentos, atraem a curiosidad(e), provocam risos ou simpatias, servem de comentários.

Uma vez que a vida está tão difícil mesmo, nada melhor do que certas coisinhas, aparentemente insignificantes, para contribuir de qualquer módo para despertar atenções públicas ou ocupar pensamentos, por instantes que sejam. O brasileiro costuma levar a “vida flauteada”, o que é uma grande coisa, uma grande qualidade.

Os letreiros citados tornaram-se, hoje, necessários. Costume que vai se tornando tradição.

Um misto de coisas, idéias, pensamentos e desejos, existem nessas legendas. Além das utilidades citadas, descobrimos nós outro valor nessas inscrições: deram-nos motivo para a crônica de hoje.

Extraído do Correio de Marília de 29 de janeiro de 1958

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

“Mens sana in corpore sano” (28 de janeiro de 1958)

Uma leitora procurou-nos outro dia, para queixar-se do desinteresse geral manifestado em nossa cidade, pelas moças estudantes, no setor desportivo local.

Disse-nos éssa pessoa, que Marília, presentemente, nesse campo do desporto feminino (basquete, volei e natação), está aquem das mais pessimistas previsões, não representando siquer sombra daquilo que foi no passado. E, amarguradamente, atribuiu o fato ao meio-ambiente, uma espécie de ignorância e desconhecimento das verdadeiras finalidades do esporte amador, tão necessário à formação física e arejamento intelectual da mulher moderna.

Tem razão éssa leitora. O fenômeno, entretanto, é complexo, aparentemente. Enquanto em todos os paises do mundo mais se acentua o gosto e o interesse feminino pelo esporte, de modo geral, a evolução nêsse terreno, no Brasil, vai diminuindo. Poder-se-ia dizer que as atribulações de nossa vida hodierna, onde a maioria dos estudantes trabalha, contribui com a escassês de tempo para tal anomalia. Entretanto, seria uma argumentação inaceitável, uma vez que na Europa de hoje, onde vários países sofrem ainda as consequências do período de reorganização de após guerra, o índice desportivo feminino aumentou de maneira palpável. Até o Japão e a China, onde a tradição conservadora de caráter milenar imperava e se arrastava seguidamente, em cujas ações só os homens se destacavam, estando as mulheres cingidas exclusivamente aos deveres caseiros, as mulheres de hoje se destacam no campo desportivo.

Aquí no Brasil, principalmente no interior, a perpetuação desse fenômeno, deve, em parte, motivos à ignorância e às vêzes, à maldade dos próprios homens. Não ha muito, costumava-se censurar u’a moça que vestisse um calção e adentrasse uma quadra pública de tenis ou basquete. Não faltavam línguas ferinas, para atribuir à citada desportista, insinuações de que a mesma “desejava mostrar as pernas”; muitas vezes, as insinuações chegavam a eivar-se de pejorativismos.

Em consequência, tanto as moças como os próprios pais, começaram a evitar – muitas vozes contra vontade ou princípios –, a propagação do esporte feminino.

O erro, portanto, deve-se à outra parte das gentes – àquela que não pratica o desporto e que vê nessa ação o que em realidade não existe. Esta é a parte ignorante, prejudicial.

De fato, é mistér acabar-se com esse pensamento, a fim de facilidade possibilidades e liberdade às moças que tem o gosto pelo esporte condigno com o sexo. Nada existe de vergonhoso nu’a moça praticar basquete, volei ou natação.

Dizia-nos ainda nossa leitora, das dificuldades que deparam os departamentos esportivos dos diversos estabelecimentos educacionais da cidade, para arregimentar o número suficiente de moças para a formação de um “team”. E isto, dentre de centenas de jovens. Outras vezes – segundo nossa informante –, quando um valor está convenientemente preparado e correspondente (às vezes significando estrela de primeira grandeza no quadro), afasta-se dos compromissos, pelo simples fato de que tendo arrumado um namoradinho, este impõe, lógo de início, a proibição de que a moça continui a jogar. Casos como o citado, repetem-se à miude e deixam em palpos de aranha os treinadores, o quadro, o nome esportivo da Escola, muitas vezes refletindo inclusive nas esferas desportivas amadoras da cidade.

Assim, atribuiu a nossa leitora o fato dos últimos insucessos desportivos do setor feminino mariliense e a pouca expressão atual desse campo.

É preciso que todos comprendam que o esporte feminino é necessidade e que o esporte sadio, honesto, bem intencionado, como é o mariliense, deve ser estimulado, prestigiado e não combatido indiretamente, como está acontecendo.

O lema “mens sana in corpore sano” não está sendo bem defendido em Marília.

Extraído do Correio de Marília de 28 de janeiro de 1958

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Placas de ruas (25 de janeiro de 1958)

Focalizou não há muito tempo um jornal cinematográfico, com eivas de humorismo e sátira sadia aos poderes públicos da Capital Federal, o fato de existirem, no Rio de Janeiro, incontáveis ruas sem as devidas placas nominativas e outras onde numa distância de três, quatro ou mais quarteirões, nota-se a ausência de tal painél.

O fato, não é de todo novidade. A anomalia dêsse porte, existe em quase tôdas as cidades do Brasil, principalmente no interior. Há uns 15 anos passados, por exemplo, poucas eram as cidades interioranas que possuíam tal melhoramento, bem como suas casas identificadas pelas placas numéricas.

Marília, como sempre seguindo todos os exemplos de fóra, não pode, indiscutivelmente, fugir à regra. Andamos inúmeras ruas em que sòmente de longe em longe nota-se a placa com a denominação da via pública. Para nós, daqui, o caso tem pouca importância. Para os de fóra, entretanto, a questão muda de figura.

Mas não é só isso. Ruas existem já com denominação oficial, porém sem êsse necessário complemento. Pergunta-se a qualquer cidadão, por mais antigo que seja, onde ficam determinadas ruas da cidade e êle ficará em dúvida. É claro que ninguém é obrigado a saber de cór a localização de tôdas as vias públicas da “urbe”. Entretanto, as ruas de bairros mais novos, abertas há pouco tempo, sem tal melhoramento, criam embaraços terríveis, não só aos marilienses, como, especialmente, aos forasteiros.

Contava-nos ontem um cidadão que tendo necessidade urgente de procurar outra pessoa e sabendo o nome da rua, procurou para lá dirigir-se. ficou num dilema terrível, andando de um para outro lado, sem localizar a pretendida via pública, embora estivesse no bairro certo. perguntou, auscultou, sondou, andou e nada. Não encontrou placas indicativas de ruas.

Furioso contou-nos o fato. Perdera precioso tempo e não conseguira seu intento, de carater urgente.

Acreditamos no aludido cidadão, porque conhecemo-lo de sobejo, sabendo-o incapaz de exagerar tal afirmativa. Nós mesmos já deparamos, não há muito, fatos mais ou menos idênticos, em que percorremos até cinco quarteirões sem encontrar uma placa indicativa de ruas.

O assunto, ao que percebemos, não será “bicho de sete cabeças” para ser resolvido. A municipalidade dispõe de meios suficientes para solucionar tal fato e entendemos que a morosidade a respeito está já representando, de certo modo, uma negligência da Prefeitura. Sabemos perfeitamente que o sr. Prefeito Municipal tem inúmeros outros problemas, de maior monta e de maior urgência a tratar. Acontece que as pequenas coisas também devem ser (re)solvidas e o assunto em tela é merecedor de atenções.

Aqui fica a lembrança.

Extraído do Correio de Marília de 25 de janeiro de 1958

domingo, 24 de janeiro de 2010

Marechal Rondon (24 de janeiro de 1958)

Verdadeiramente, raras pessoas conseguem reunir tantos e tão elogiáveis atributos pessoais, como aconteceu com o desaparecido Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon.

A morte dêsse ilustre militar, consternou todos os quadrantes do Brasil e repercutiu mesmo fóra de nossas fronteiras.

Figura invulgar, sertanista sincero e devotado, militar brilhante, mercê de seu magnânimo coração, o marechal Rondon dedicou tôda uma existência na defesa e na sorte dos indígenas de nosso país. Foi o mais intransigente e leal advogado dos homens simples que habitaram nossas selvas e que nada mais aspiram do que uma vida em paz, distanciados da civilização, afastados da maldade e das dificuldades daquilo que chamamos “vida moderna”.

Soldado brilhante, sua arma sempre foi a palavra amiga e sincera, o bom senso, as iniciativas comedidas, os gestos ponderados e razoáveis. Sua espada, o amor pelos nossos irmãos silvícolas. Sua trincheira, a defesa dessa gente.

Sertanista e indianista dos mais compenetrados, bandeirante dos mais nobres e dignos e patriota dos mais conscientes, o marechal Rondon tinha como bandeira um lema dos mais cristãos imagináveis, em relação aos nossos indígenas – “antes morrer do que matar índios”.

Desde 1881 (26 de novembro), o marechal Rondon servia o Exército Brasileiro. Possuidor de tôdas as promoções e condecorações de nossas Fôrças Armadas terrestres, o homem sempre se identificou pelo espírito simples e humilde são nossos silvícolas –, à despeito de sua grandeza representativa hierárquica e em relação à majestade de seu grande e humano coração.

“Sua obra é uma gloria para o povo. É um símbolo dos pioneiros que construíram o Brasil” – declarou o Presidente da República.

Mais do que meio século de serviço ativo prestou ao Exército. Tôda uma existência dedicou à defesa dos sertanejos, procurando integrá-los na civilização, propiciando-lhes conhecimentos civilizados, conforto, assistência médica, etc.. Jamais alguém deixou de compreender-lhe os propósitos tão elevados que sempre comungou e pôs em execução. Tornou-se um ídolo, mercê de seus trabalhos bem intencionados, térreos e sem esmorecimentos. Conquistou fama, que ultrapassou os limites da Nação. Detentor de altas condecorações estrangeiras (París, Bélgica, França, Peru, Colômbia, etc.).

Sua conduta que foi um orgulho em vida, constituirá, por certo, uma bandeira de exemplos após a morte, exemplos dignificantes, que devem ser seguidos pelos brasileiros patriotas.

Nenhum favor se faria, concedendo-lhe “post mortem”, o Prêmio Nobel da Paz, anteriormente pretendido pelo Brasil e sôbre todos os modos além de merecido.

Extraído do Correio de Marília de 24 de janeiro de 1958

sábado, 23 de janeiro de 2010

“Marcelino Pão e Vinho” (23 de janeiro de 1958)

Até aquelas pessoas que não tiveram ainda o ensejo de assistir o mais famoso e comentado filme de todos os tempos, vivem empolgadas pelas referências à respeito.

“Marcelino Pão e Vinho” está sendo aguardado com desusado interêsse e curiosidade pelos cinemeiros marilienses.

A maioria das gentes, já conhece a história de Pablito Calvo, o intérpetre principal do citado celudóide. A música, as historietas em quadrinhos, as figurinhas, os comentários da crônica especializada, as alusões acêrca do filme, etc., tornaram conhecido por antecipação o enredo do filme. Mesmo assim, os que não viram a mencionada fita, aguardam ansiosos a possibilidade de presenciá-la.

Nós, por exemplo, tivemos já a oportunidade de ver dita película. E confessamos que gostamos imensamente de seu desenrolar. Tudo causou impressão nessa história: a ausência de cenários faustosos e pré-arranjados; o ambiente de pobresa franciscana dos frades do mosteiro, mostrando em tôda a realidade, a miséria e as dificuldades interiores; a simplicidade e a fácil aceitação da história, que nada tem de fantástica ou de fértil imaginação; a naturalidade do desenrolar dos fatos, perfeitamente acatáveis, pelos motivos espontaneidade e de verdadeira lógica que encerram; a ausência absoluta de passagens incríveis e só acontecíveis em filmes cinematográficos; a aceitação de que a história é plausível, passível de acontecimento que pode dar-se em qualquer parte do mundo; tudo, enfim.

Merece destaque especial, a atuação do garoto extraordinários dêsse filme. Executou e interpretou a vida de um menino, sem exagero, sem nada forçado. Naturalmente extraordinária, digna de todos os elogios já recebidos. Simplesmente extrema, mostrando o viver de um garoto normal, em condições normais. Traquina e bom ao mesmo tempo, como tôda criança. Feliz e despreocupado como todos os meninos. De coração bondoso como todos os meninos bons. Sincero em seus propósitos.

O filme é gostoso de assistir. Ameno, prende a atenção. Empolga. Impressiona. Comove e emociona.

Agrada sua história, ressalta-se a fé cristã. Prova que os inocentes andam sempre mais próximos de Deus do que os pecadores. Demonstram o carinho celestial para com os corações bons. Atesta, por outro lado, a inocência pura e santa da alma infantil bem formada e bem orientada.

O filme é belo, para todos aquêles que apreciam a beleza natural e que nem sempre se iludem com cenários fantásticos e exuberantemente custosos. A naturalidade da história e a magnificência de seu desempenho são empolgantes, agradando aos espectadores.

Película digna de ser vista. História bonita, humana, de fundo real.

Façamos então, um apêlo ao sr. Pedutti, para que brinde os marilienses muito em breve, com a exibição dêsse famoso e agradabilíssimo filme – antes de que seu uso contínuo faça aparecer os naturais cortes e dilacerações tão desagradáveis.

Extraído do Correio de Marília de 23 de janeiro de 1958

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

As 7 Maravilhas do Mundo (22 de janeiro de 1958)

Solicita-nos por carta um leitor a divulgação das famosas 7 Maravilhas do Mundo Antigo. Revendo as coleções do “Correio”, encontramos a matéria pedida. Aqui vai o relato:

AS PIRÂMIDES DO EGITO

Construídas de 3.000 A. C. a 1.800 A. C. foram as pirâmides os túmulos monumentais dos faraós egípcios. A mais antiga de tôdas fica em Sacara. As maiores acham-se situadas em Gizé, perto do Cairo. A grande pirâmide de Queops cobre uma área de mais de 50.000 metros quadrados e tinha, originalmente, 147 metros de altura, enquando o polígono da base media cêrca de 230 metros de lado. Com a retirada de uma de suas pedras, ficou reduzida a uma altura de 137 metros.

JA(R)DINS SUSPENSOS DA BABILÔNIA

Conta-se que Nabucodonozor, que destruiu o Templo de Salomão, construiu para a rainha, uma série de jardins sôbre terraços de Babilônia, mais ou menos no ano de 600 A. C.. De acôrdo com a lenda, havia cinco terraços, cada um dêles situado a 15 metros acima do outro, e ornamentado com árvores e flôres. Localizados na planície do Eufrates, êsses jardins mereceram a admiração de todo o mundo antigo. Dêles não ficou traço algum.

ESTÁTUA DE ZEUS, POR FÍDIAS

A estátua de Zeus (Júpiter) em Olímpia, na Grécia, feita de marmore e decorada com marfim e ouro batido, foi esculpida por Fídias, depois de 432 A. C.. Foi destruida no decorrer de uma grerra.

TEMPO DE ÊFESO

O Templo de Diana (Artemisa), em Êfeso, também na Grécia, foi construido pelas cidades jônicas, tornando-se jogo famoso. Media 130 por 70 metros e possuia 127 colunas de mármore, cada uma com mais de 18 metros de altura. O Templo de Êfeso foi saqueado por Nero e destruido por Alarico.

TÚMULO DO RIO MÁUSOLO

Quando morreu Máusolo, rei de Caria, na Ásia Menor, sua viuva fez construir um grande túmulo de mármore em Halicarnaso, mais ou menos em 325 A. C.. A palavra mausoléu derivou-se do nome do Rei Maúsolo. O túmulo partiu-se com um terremoto. Alguns fragmentos ainda existentes foram transportados para o Museu Britânico no século XIX.

COLOSSO DE RODES

Consta que o Colosso era uma estátua de Apolo, feita de bronze, com mais de 30 metros de altura e dirigida na ilha de Rodes, perto da Ásia Menor. Erguida em 280 A. C. o Colosso foi derrubado por um terremoto. Depois de permanecer estendido no solo por muitos anos, foi cortado para se aproveitar o seu material.

FAROL DE ALEXANDRIA

Construido na ilha de Faros, a pequena distância do porto de Alexandria, tornou-se famoso com êsse nome. Ptolomeu Filadelfo construiu-o em mais ou menos 200 A. C., nele fazendo constar a seguinte inscrição: “Do Rei Ptolomeu aos deuses, os salvadores em beneficio dos marinheiros”.

Conserva-se um fogo aceso no tôpo do farol. Parcialmente destruido em 400 D. C., desapareceu completamente durante um terremoto, em 1375 D. C..

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NOTA à parte: - Alguns italianos costumam dizer, com inuzado orgulho, que a oitavo Maravilha do Mundo chama-se Gina Lollobrígida.

Extraído do Correio de Marília de 22 de janeiro de 1958

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Eterno Sacrificado (21 de janeiro de 1958)

Falar-se em povo, misérias, sacrifícios, vida cara, etc., até dá a impressão de imprensa de idéias contrárias ao atual regime, uma vez que tais “chapinhas” são por demais exploradas por órgãos dessa qualidade.

No entanto, de nossa parte, a questão nada tem de ideológica, a não ser a ideologia verdadeiramente nacionalista e sobretudo mariliense.

O povo é mesmo o eterno sacrificado.

Indiscutivelmente, muita coisa anda “fóra dos eixos” néstes Brasís.

O custo de vida em geral, é mais ascensorial do que um foguete pirotécnico. Tudo sobe, dia a dia. Se dispuséssemos de um quadro estatístico oficial, poderíamos afirmar aos nossos leitores, um índice de aumento extraordinário nos últimos meses. Em tudo e por tudo. E essa onda de acréscimos acentuou-se mais, apenas se propalaram os estudos para a reestruturação do salário-mínimo no Brasil. Do período de discussões e estudos, até a sanção da lei em referência, muitas tirar sairão ainda dos costados da população. Isso é inegável.

As tarifas de fôrça e luz subiram assustadoramente. As taxas telefônicas ensaiam um acréscimo dos mais contundentes. A carne subiu, o arroz ameaça um “pulo” fantástico, os calçados foram às nuvens. Tudo sobe no Brasil, exceto o índice de vergonha de muita gente.

Deputados adquirem “cadillacs” ao câmbio oficial, para comércio em causa própria. Os magnatas dos lucros enriquecem do dia para a noite. Mesmo assim, afirmam os economistas, o comércio brasileiro, de modo geral, não apresenta hoje a solidez de 20 anos passados.

O Presidente da República, em várias ocasiões, afirmou de público que o custo de vida baixou no Brasil!

Até os livros e os estudos em nosso país, custam caros. No entanto, os professores queixam-se de que percebem insuficientemente.

Deve faltar alguma coisa em nossa República. Deve existir alguma falha em nossa administração governamental. O espírito de patriotismo, muitas vezes, não permite que analisemos as coisas como realmente são. A gente tem a obrigação de ser otimista. Sucede que o otimismo, sempre, justifica o fechar-se os olhos à dura realidade.

O povo brasileiro continua a ser o eterno sacrificado.

Hoje já nem a classe considerada média, vive folgadamente. Até os ricos se queixam da vida!

O homem pobre, chefe de família numerosa, por mais trabalhador e bem intencionado que seja, chega a desanimar-se. O ganho é insuficiente hoje em dia, para a mais modesta das vidas.

E parece que não haverá remédio, enquanto não se proceder uma transformação radical no setor administrativo do país. Nem sempre, é claro, pode-se culpar os governos. O número de auxiliares diretor destes, arca com maiores responsabilidades, mercê da mesquinhez de espírito de muitos brasileiros. A maioria de nossos patrícios, só pensa em “se arrumar”. O resto que se dane.

O salário mínimo “vai sair”, segundo se afirma. Se anotarmos a base do custo dos gêneros, roupas, calçados, serviços médicos, hospitalares e farmacêuticos, etc. de hoje, em comparação àqueles que pagaremos alguns dias após a promulgação da lei em cogitações, deduziremos sem dificuldades que a diferença da elevação dos salários em nada “refrescará”, em relação aos aumentos que verificar-se-ão fatal e matematicamente desta data até lá.

Tais fatos, se já servem para gritos de nossa parte e da parte de tôda a imprensa, inúmeros outros motivos apresentam para órgãos subversivos ou de idéias exóticas.

O povo é mesmo, o eterno sacrificado.

E para nós, no Brasil, sem tantas razões.

Extraído do Correio de Marília de 21 de janeiro de 1958

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

“A leitora do telefone” (18 de janeiro de 1958)

O autor desta coluna equiparou-se ao João Jorge. Possúe, igualmente, a sua “leitora do telefone”. Todos os dias, em hora quase matemática, conversa conosco. Pelo jeito, pessoa letrada e ilustrada. Idealista. Bem mariliense, sobretudo.

Por vezes, nos critica severamente. Outras ocasiões, nos estimula sobremaneira. De início, quando os primeiros telefonemas coincidiam com momentos de “apêrto” na redação, chegamos a ficar um tanto aborrecidos com a longa conversa. Depois, não; principiamos a perceber que as palestras dessa leitora (que diz não perder um de nossos modestos escritos), começaram a dar-nos a certeza de que o interêsse mariliense alentando pela mesma, é muito mais cimentado do que à primeira vista se nos pareceu.

No telefonema de ontem, a misteriosa personagem abordou o artigo que escrevemos sôbre o título “JK contra os aumentos”. Verberou em têrmos a conduto do atual Presidente da República, considrado pela mesma, como “não correspondendo” ao alto cargo. De acôrdo, senhora (ou senhorita). De pleno acôrdo. Nós mesmo temos dispendido uma série de críticas ao sr. Juscelino Kubitschek. Sucede que, com alusão aos despachos referidos nas exposições de motivos citadas em nossa crônica em tela, a atitude presidencial mereceu um voto de louvor. Pelo menos assim entendemos. Tanto que “torcemos” para que outras medidas idênticas, em diversos outros setores, fossem igualmente tomadas.

Quanto à Brasília: Não somos, em absoluto, contra a sua “fabricação” (porque, pensamos, Brasília, realmente, não está sendo construida e sim “fabricada”). Somos contrários, isto sim, quanto à fórma com que a nova Capital Federal vem sendo executada. Somos visceralmente aversos ao processo déssa instalação, na época atual, em que vemos na operação, mais um motivo de vaidade pessoal, que chega a relegar a planos inferiores, assuntos de maior importância e interesses momentâneos da nação, e, que, indisfarçadamente, objetivam imortalizar a passagem do sr. Kubitschek pelo Catete. Nos sentiriamos mais felizes (patrioticamente falando), se a imortalidade presidencial do sr. JK ocorresse, como por exemplo, nos móldes da ação do saudoso sr. Washington Luiz.

A imprensa em geral, sentinela avançada de nossa democracia, não tem poupado críticas a atitude do sr. Juscelino Kubitschek, acêrca de Brasília e sua construção. Só órgãos “oficiais” ou financiados politicamente, através de jornalistas e reporteres pouco imparciais, é que têm louvado tal proceder, de modo indistinto e sem restrições.

Nós, realmente, não conhecemos a “nova capital”. E, sinceramente, pelo que nos informaram pessoalmente aqueles que já tiveram êsse ensejo, não alimentamos, tão já, tais pretensões.

É claro (conforme assevera nossa leitora), não podemos fazer juizo aprofundado da questão. Jamais fizemo-lo. Apenas comentamos em alguns de nossos artiguetes, a fórma de execução e abordamos pareceres ou comentamos escritos à respeito. Isso é perfeitamente normal, enquadrando-se nas atividades jornalísticas. Errariamos, isso sim, se nos atravessemos a provar (por “a” mais “b”), que o Presidente está certo ou errado nessa empreitada.

De qualquer maneira, as observações e mesmo as palestras (a de ontem durou cerca de 20 minutos) de nossa “leitora do telefone” trazem sempre alguma utilidade para nós.

Quanto ao assunto referido, póde estar certa a pessoa com quem falamos, será focalizado nestas colunas. Iremos apenas coligir mais alguns pormenores e “soltaremos a bomba”.

Extraído do Correio de Marília de 18 de janeiro de 1958

domingo, 17 de janeiro de 2010

Marília precisa de um ambulatório do IAPC (17 de janeiro de 1958)

Falando em tese, supomos, que não existam razões plausíveis, que justifiquem certos descasos, praticados por diversos institutos de previdência, aposentadoria e pensões ou caixas beneficentes, para com seus contribuintes, especialmente os interioranos.

Os que militam na imprensa, chegam a aborrecer-se, tantas são as queixas à respeito conhecidas. A maioria ostenta procedências irretorquíveis.

No entanto, para aqueles que conhecem as leis originárias que criaram a série dêsses IAPS, o assunto causa espécie. Isto, porque, em sua essência, a lei é completa, bem intencionada, esplêndida. Na sua aplicação é que costuma aparecer o “nó górdio” da questão.

Os institutos, em geral, amealham arrecadações fabulosas anualmente. Dispõem, sem sombra de dúvida (embora algumas direções tenham asseverado o contrário), de meios (e obrigações) para melhor e mais efetivamente prestar auxílios concretos aos seus contribuintes obrigatórios. E não se completam, desgraçadamente.

Citemos, por exemplo, o caso do IAPC em Marília (deixando de lado outros órgãos nas mesmas condições): Até novembro último, a estimativa de arrecadação das contribuições devidas ao aludido Instituto, foi calculada em 8 milhões de cruzeiros, em números redondos. Ultrapassou muito essa apreciação prévia, atingindo 12 milhões, em números também redondos. Portanto, verificou-se um acréscimo de arrecadação de 25%.

Agora, perguntamos: Seria um favor ou uma obrigação, o mencionado organismo “premiar” nossa cidade, com um moderno e eficiente Ambulatório Médico, à exemplo dos existentes nos grandes centros interioranos? Seria pedir muito ao Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários, nêsse sentido? Não terá o IAPC obrigações legais à respeito? Ou será que existe alguma “peninha” de carater político, para atrapalhar a concretização dessa necessidade?

O fato é que o IAPC tem essa dívida para com a classe comerciaria mariliense e ninguém poderá negá-la.

Gostaríamos que a alta direção do mencionado instituto viesse à público esclarecer as razões do “por que” ainda Marília não foi beneficiada com êsse melhoramento tão imprescindível e de carater inexplicavelmente inadiável.

Uma classe que contribui com mais de 12 milhões de cruzeiros anualmente, deve, sem dúvida, merecer do IAPC, não gentileza, mas sim apenas, a execução de direitos. Isto, pensamos, não está acontecendo.

Ao ensejo dêste comentário, que é antes de tudo rotineiro trabalho jornalístico, desejamos fazer um apêlo veemente, em nome dos comerciários marilienses, à alta direção do IAPC, para que volte suas vistas para nossa cidade, determinado estudos (quase desnecessários) e providências (indiscutivelmente necessárias), no sentido de ser a cidade dotada com um Ambulatório Médico, moderno e capaz, eficiente sobretudo.

Ao que nos consta, até um terreno destinado ao fim em tela, já existe em nossa cidade. Para não fugir à regra de quase tudo o que tem cunho “oficial”, deverá estar “mofando”, ou criando “cobras e lagartos”.

Voltaremos ao assunto em época oportuna.

Extraído do Correio de Marília de 17 de janeiro de 1958

sábado, 16 de janeiro de 2010

Pedintes Mirins (16 de janeiro de 1958)

Jamais deixamos de compadecer-nos, daqueles que, por necessidade, estendem a mão à caridade pública. Temos sobejas razões para isso.

Combatemos a malandragem e o vício de mendigar, useiro e vezeiro por muito gente. Para ninguem constitui segrêdo, o fato de que muitos imploram caridade, mesmo sendo capazes de exercer uma determinada atividade.

Não raro, a imprensa das grandes capitais, localiza e aponta à Polícia, casos como o que estamos referindo.

Não ha muito, um casal de jornalistas cariocas, dispôs-se a executar, com o consentimento da Polícia, um empreendimento de falsa mendicância, a fim de conhecer o espírito caritativo do povo da Capital Federal. Colocaram-se em pontos diferentes, perfeitamente caracterizados. Ela, maltrapilha, envergando uma sujeira artificial, desgrenhada, de óculos pretos e com uma criança conseguida por empréstimo num orfanato; ele, tambem caracterizado, com uma posta de fígado de vaca amarrada na perna, aparecendo sangue coagulado; ambos, estendendo a mão e entoando a conhecidíssima e tradicional cantilena de “uma esmolinha”. Durante seis horas consecutivas, os dois profissionais da imprensa executaram tal proceder. Notaram que os olhares de compaixão que receberam, foram simplesmente rápidos e que a maioria dos transeuntes “largava” logo um trocado, com um sinal de desobrigação, prosseguindo caminho. No fim do tempo pré-estabelecido, juntaram as “férias”: cinco mil e tantos cruzeiros!

Com o material obtido, realizaram a reportagem posteriormente, inclusive com a divulgação de clichês. Objetivaram alertar o público, de que uma grande porcentagem dos pedintes exerce a profissão por simples vício ou conveniência.

Isso também já aconteceu em São Paulo; somente que o reporter que empreendeu tal missão fê-lo por conta própria.

Em Marília, grande é o número de pedintes e temos cá as nossas dúvidas, se todos, realmente todos, são verdadeiramente necessitados e impossibilitados de exercer outras obrigações. Entretanto, o que causa espécie, na cidade, é o número assustador de pedintes mirins. De ambos os sexos e de tenra idade. Muitas vezes, ficam pedindo esmolas ou “auchílios”, até tarde da noite. E insistem de módo comovedor; tal fórma que raras são as pessoas que não atendem tais solicitações. Correm atrás da gente; cercam os transeuntes.

Tais fatos sucedem em pleno centro e estão a chamar as atenções do Comissariado de Menores. Urgem providências coibitivas a respeito, pelo menos durante a noite e em horas avançadas. Faz-se mistér uma sindicância dêsse Poder, junto aos pedintes mirins da cidade, cujo número é constrangedor.

Deixamos o registro, com vistas à quem de direito.

Extraído do Correio de Marília de 16 de janeiro de 1958

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

II Festa dos Jornaleiros (15 de janeiro de 1958)

À exemplo do ano passado, promoverão êste ano, a Rádio Dirceu e o “Correio”, em colaboração, a II Festa do Jornaleiro mariliense.

O acontecimento está marcado para o próximo dia 26 e deverá revestir-se, com toda a certeza, do mesmo sucesso anterior. Para isso, já vem contando a Comissão competente, com uma série de adesões, das mais significativas, por parte de grandes personalidades e autoridades de nossa “urbe”.

Não ha negar de que o sentido de tal homenagem, encerra, antes e acima de tudo, uma deferência toda humana e especial, com a qual se procura render um pequeno tributo de reconhecimento, à uma classe humilde por excelência, prestativa, simpática e sempre benvida.

Os garotos que entregam os jornais à domicilio, são sem dúvida os mensagem da simpatia, cuja visita é ansiosamente aguardada em todos os lares – ricos ou póbres –, cuja recompensa, regra geral, quasi nunca passa de um simples “muito obrigado”. Faça chuva ou sól, frio ou calor, o jornaleiro tem u’a missão a cumprir e sabe desempenha-la com galhardia, desenvolvendo uma atividade de aparência pequena, porém de grande elevação significativa. A prova disso, são as queixas e as “broncas” exteriorizadas pela parte interessada, todas as vezes que o menino jornaleiro comete u’a “mancada” ou atrazo.

Por excelência – excelência que póde ser desdita mas nunca desdouro –, o jornaleiro é humilde e póbre, oriundo de família também humilde e póbre. Justo a que se recompense, pelo menos uma vez por ano, seu trabalho do ano todo. Merecido é que se lhe renda um preito de gratidão, convivendo com ele algumas horas, proporcionando-lhe alguns momentos de alegria, alguma certeza de que nós, os que não somos jornaleiros – muitos dos quais fomos, no pretérito –, proporcionaremos aos mesmos, um motivo de estímulo, fazendo nascer em seus coraçõeszinhos, u’a mais acentuada chama de confiança e de fé nas futuras lutas, dentro do mistér de levar diariamente aos lares marilienses, as notícias e as informações traduzidas em letras de fôrma.

Igualmente, aos adultos jornaleiros, quer sejam aqueles que permanecem nas bancas especializadas, quer os outros, que nas esquinas e nos passeios, vendem jornais e revistas para substituir honradamente.

O vereador Nasib Cury e o vice-prefeito Otávio Barreto Prado, foram algumas das primeiras pessoas que acorreram prontamente, no sentido de prestigiar e colaborar com a II Festa do Jornaleiro, como tinham feito por ocasião da primeira. Outras pessoas e autoridades, estão tambem emprestando seu apôio. O comércio e a indústria, por certo, como no ano passado, far-se-ão presentes, colaborando com éssa solenidade, pequena para os que a tributam, porém grandiosa e significativa para os que a recebem.

Até S. Excia. Revdma., D. Hugo Bressane de Araujo, prestigiou e abençoou, no ano passado, a classe dos jornaleiros de Marília. Novamente, com aquela tradicional e costumeira boa vontade, terão os jornaleiros marilienses, no próximo dia 26, por ocasião de sua festa, a presença agradável e confiante de nosso Bispo Diocesano.

Aquí lançamos, portanto, nosso apêlo aos bons marilienses, indistintamente: colaborem com o “Correio” e Rádio Dirceu, auxiliando-nos na obtenção do êxito total nesta II Festa do Jornaleiro.

Eles a merecem.

Extraído do Correio de Marília de 15 de janeiro de 1958

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

J. K. contra os aumentos! (14 de janeiro de 1958)

Existe mesmo motivo, para a exclamação no epígrafe dêste artigo. O Presidente da República insurgiu-se, de modo contrário, às pretensões de novos aumentos de preços de lubrificantes e trigo.

Numa exposição de motivos apresentada pelo Conselho Nacional do Petróleo, requerendo providências para alterações nas tarifas de lubrificantes, exarou o sr. Juscelino Kubitschek o seguinte e incisivo despacho:

- “Não concordo, em absoluto, sob pretexto algum, com o aumento de lubrificantes. Seria ferir frontalmente a política do govêrno, no sentido de impedir o aumento do custo de vida. Providencie-se para que isso não se verifique”.

Numa outra petição de exposição de motivos, elaborada pelo Instituto de Resseguros, justificando necessidade de majoração do preço do trigo em grão, assim se manifestou em despacho, o Chefe do Govêrno:

- “A política do govêrno só tem um objetivo: impedir a alta do custo de vida. A providência que o Instituto tomou, aumentando as taxas de seguro para o trigo em grão, redundará em aumento do custo do pão. Recomendo expressamente o reexame do assunto, a fim de que não sofra êsse produto indispensável ao povo, qualquer alta no preço”.

Através desta mesma coluna diária, em têrmos e respeitando a autoridade constituída, não temos poupado oportunidades de censuras ao atual regime governamental, por motivos diversos, delineados convenientemente nas ocasiões.

Justo é também que, neste ensejo, manifestemos nosso contentamento pelas decisões referidas, augurando por outro lado, que iguais providências possam e venham a ser tomadas em diversos outros setores de nossa economia, com providências urgentes, de igual jaez. Sabemos todos, que, em diversos campos comércio-industrial de nossa vida brasileira, medidas coibitivas de igual porte estão, de há muito, sendo reclamadas. Ninguém ignora, que a fiscalização e vigilância governamentais, sob diversos prismas, frente aos órgãos ou empresas competentes (ou intermediários), encarregados da distribuição de gêneros e artigos de consumo públicos, e a melhor maneira de colocar-se, pelo menos parcialmente, um dique ao rosário de descalabros (e muitas vezes abusos), que se verificam, à miude, em detrimento direto contra os interêsses de tôda uma população.

É preciso, entretanto, ter braço forte e contar, de antemão, com uma colaboração precisa e honesta, das pessoas que, de um ou outro modo, colaboram com o próprio govêrno. Senão, nada feito.

Infelizmente, tal fato, nem sempre tem se concretizado no Brasil. A mentalidade nacional, em grande parte, pensa com o estômago, desconhecendo a fome ou a miséria alheias e com as cabeças cheias de azonaidos sonhos de cifrões. Desgraçadamente.

Já citamos, não há muito, um exemplo dignificante a respeito, após um contacto casual que tivemos, no Rio, com um membro da famigerada COFAP. Os leitores devem, por certo, recordar a referência.

O fato é que o atual Presidente da República, pelo que se percebe, está tentando acertar, embora não tenha isso ainda conseguido. Em todo o caso, valem as boas intenções. Oxalá o sr. Juscelino Kubitschek tenha forças e ânimo suficientes, para continuar tomando medidas como as citadas. E, olhem, existem inúmeros setores onde providências semelhantes, estão sendo grandemente reclamadas.

Esperemos que o sr. JK possa perceber isso!

Extraído do Correio de Marília de 14 de janeiro de 1958

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

“Se eu fosse jornalista...” (11 de janeiro de 1958)

O amigo leitor já se imaginou na pele de um trabalhador da imprensa? Já pensou em ser procurado por A ou B, que não gostando de C ou D, vem exigir que o rabiscador assuma a posição de taboa de bater roupa, isto é, resolva casos particulares que muita gente não tem oportunidade ou coragem para solver?

Pois isto nos acontece quase diariamente. Muita gente entende que a pessoa que escreve num jornal, é obrigada a “meter o pau”, a desmoralizar, a difamar, a encetar campanhas contra Pedro ou Benedito, porque Pedro ou Benedito desagradou êste ou aquêle.

E quando ouve a negativa, explode logo: “Você tem é medo; se eu fosse jornalista eu fazia, acontecia, etc. e tal”.

Interpretar uma crítica, não é fácil. Especialmente para a pessoa ou pessoas criticadas. Receber elogios, “confetis”, todo mundo gosta, todo mundo se regala. Uma “peninha” na vida, ou ação de qualquer cidadão que não esteja em condições de avaliar a liberdade de crítica, os méritos da mesma, o direito de quem escreve, é um Deus nos acuda. Pode acontecer um empastelamento do jornal ou um incêndio na cidade. Pode acontecer tudo, menos a integral compreensão de uma pessoa dessa natureza.

Isto dizemos, porque somos procurados à miúde, pelos mais variados tipo de leitores, para os mais variados tipos de reclamações e contra as mais variadas pessoas ou empresas.

Óra é um que deseja que “casquemos a ripa” na Paulista, porque não tem leitos para o “seu abóbora” viajar; outra vez, é o homem que está há oito anos na lista da Telefônica aguardando a instalação do aparelho e a Telefônica “não liga”; há também os que desejam que “desçamos a lenha” em determinado médico, porque o mesmo cobrou determinados milhares de cruzeiros para fazer determinada operação cirúrgica; há ainda o caso daquele que tem raiva ou ojeriza por determinada pessoa, e, descobrindo um “podre” da mesma, vem eufórico ao nosso encontro, desejando que divulguemos o fato.

Nossa missão, entretanto, é bem outra:

Temos por finalidade combater o errado, sugerindo medidas corretivas. Censuramos o ilegal, batalhamos pela justeza de ações, divulgamos e informamos. Orientamos em certos casos, porque essa é a missa da mesma imprensa, essa é a função do jornalista.

Acontece que o “gozado” de tudo isso, é que quando somos procurados para uma “bronca” ou “desabafo” de interêsse, colocamos logo nossas colunas à disposição do reclamante. Com uma única condição: que o mesmo assine o artigo, assumindo, em consequência, a sua inteira responsabilidade. Aí, então, o gajo “pula na parede”, isto é, “afina”.

Nesses casos, nada melhor do que a gente repetir para as pessoas assim enquadradas, aquele trechinho de u’a marchinha carnavalesca do passado: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco?”

Extraído do Correio de Marília de 11 de janeiro de 1958

domingo, 10 de janeiro de 2010

O preço do amendoim (10 de janeiro de 1958)

Não discutimos de cátedra o assunto, porque dele pouco ou nada conhecemos. Baseamo-nos apenas nas informações que nos prestaram alguns agricultores locais, quando trouxeram até nós uma reclamação de que em Marília não estão sendo atendidas as bases da fixação governamental do preço mínimo do amendoim.

Informamo-nos os queixosos, de que o mercado deveria ser cotado no preço mínimo de 162 cruzeiros por arroba, estando sendo pago a 120 cruzeiros. Por outro lado, os próprios reclamantes informam não acreditar em culpa no caso, dos compradores locais e sem das máquinas de São Paulo e Santos.

O assunto em sí, não é bem o que interessa ao motivo désta crônica. O que nos interessa e a desgarantia e o inestímulo com que até aquí tem sido vitimas os nossos lavradores. E quando falamos em lavradores, estamos nos referindo aos pequenos agricultores, aos meeiros, aos empreiteiros e não nos grandes proprietários, os quais sempre dispõem de meios de sair melhor da empreitada do que aqueles outros.

A lavoura, até aquí, tem sido praticamente esquecida. O financiamento agrícola, o fornecimento de máquinas e implementos, adubos e sementes, o crédito rural, a garantia de preços mínimos, a assistência técnica, etc., tem servido de oratória demagógica a quasi todos os candidatos políticos. Entretanto, aqueles que realmente precisam de todas essas coisas (sem contarmos com escolas, higiene, assistência médica, e muitas outras), tem sido olvidados sacrificados.

Temos observado que na abertura das cotações do mercado de diversos produtos agrícolas, os preços tem sido ínfimos. Esse fato tem forçado os que são fracos a vender o produto das safras mesmo com prejuízos, porque as dividas e os compromissos assumidos durante o período agrícola avolumou-se de tal sorte, não permitindo a espera, o armazenamento ou deposito das safras. O mesmo não sucede com os que podem, que conseguem deixas as colheitas armazenadas enquanto o preços não chegar a casar-se, se não totalmente, pelo menos em parte com seus próprios interesses.

Os Estados Unidos nos dão exemplos frizantes de como se ampara, regra geral, o agricultor norte-americano. Nós, brasileiros, que primamos pelo fato de imitar tudo aquilo que se nos assemelha correto, exato, beneficente, por que, então, não seguimos o mesmo caminho?

As eleições logo virão. Nas plataformas políticas, não faltará a “chapinha” acima explicada. Aguardem e verão.

Extraído do Correio de Marília de 10 de janeiro de 1958

sábado, 9 de janeiro de 2010

Conservação de ruas (9 de janeiro de 1958)

Já dissemos outras vezes, que o jornalista ganhava muita idéia em ouvir conversas alheias. Talvêz por isso, de vez enquando, gostamos de sondar o que pensa o público, com o que conseguimos, vez por outra, material substanciado para a continuidade de nossas idéias ou mesmo objeto de idéias novas, relacionadas ou não com algum ponto de vista. Isto é, muitas vezes uma pessoa dizendo que “faz calor”, póde, sem o querer, auxilia-nos, para que opinemos ao público que compre cobertores e artigos de lã agora, com preços mais em conta do que no período inbernoso.

O jornalista torna-se, por força de habito e de profissão, um abelhudo. Dizem por aí que ninguém mais apropriado para meter o nariz na vida alheia do que o profissional de imprensa. o fato é que aquêles que escrevem, sempre lucram alguma coisa em idéias, ouvindo as “broncas”, os “desabados” e as opiniões alheias. Nós somos prodígios em descobrir “técnicos”. É só sair com os ouvidos afiados, captando o que dizem os populares, para sabermos que muita gente seria melhore do que o dr. Argollo se estivesse na Prefeitura ou que muito mariliense na direção técnica do Corinthians, o alvi-negro não teria perdido o campeonato de 57.

Outro dia, aquí mesmo na redação, numa “rodinha”, comentava-se alguma coisa de repercussão alguma coisa de repercussão do artigo escrito pelo (Geraldo) Tassinari (*), acerca das atividades do Prefeito, das ruas e buracos e da água e esgôto. Opiniões surgiram de variados aspectos. Houve os que apoiaram e os que verberaram o mencionado jornalista.

O homem externou um ponto de vista. Disse o que pensa, como um direito que lhe assiste. Para isso, estamos num regime democrático. Pelo menos, é o que dizem por aí.

Por sua vez, Pedro Bruno, refutou as ponderações do Tassinari. Tambem usou seu direito.

Entendemos que de tudo isso, alguma coisa de útil póssa surgir. Se, conforme diz o ditado, “o pior livro sempre tem alguma coisa de bom”, o mesmo poderíamos dizer acercado “do pior artigo”. Referimo-nos, é lógico, aos dois.

Mas, como íamos dizendo, na “rodinha” em que “batíamos papo” aquí na redação, depois de muitas conversas e nenhum café, o velho “senador” Aristides, baseando-se em exemplos de antanho, declarou que se ele fôra Prefeito, o estado de conservação das ruas seria impecável, inédito na Alta Paulista, beneficente e útil, e, sobretudo, barato. Em Dourado, neste Estado, em tempos pretéritos, a Prefeitura lançou em sistema “sui generis” para capinar e conservar as vias públicas – o concurso da criançada escolar. Com alguns tostões diários “per capitã”, uma fiscalização eficiente para medir-se desenvolvimento dos trabalhos em relação à capacidade infantil, ao lado do sentido de esportividade desfrutado pelos pequenos, trouxe a muitas famílias a certeza de que seus filhos não estavam lendo livros imorais, nem vendo filmes de “mocinho”, nem roubando laranjas, nem tomando banhos em rios, nem “pegando” rabeiras de caminhões, e outras coisas mais.

E asseverou “seu”Aristides que a medida foi tão bem recebida pela população , a ponto de muitas crianças, chocarem porque não conseguiram vagas para tais obrigações.

Isso foi em Dourado, no passado. Nós estamos em Marília, no presente. No entanto, isto, como muitas outras coisas, são questões que ouvimos por aí seguidamente e que, como agora, nos proporciona motivo para encher este espaço diário, pelo qual o “seu” Raul nos paga alguns cruzeiros.

Extraído do Correio de Marília de 9 de janeiro de 1958

(Nota dos editores: Geraldo Tassinari foi amigo de Marília e do jornalista José Arnaldo. Morreu em São Paulo na madrugada de 1/8/2004 aos 74 anos. Foi publicitário, jornalista e radialista. Trabalhou na McCann e na própria agência, a Tempo Publicidade, com Ricardo Ramos e Francisco Gracioso. Completou mais de 50 anos de carreira no radio, segundo
www.blubus.com.br)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Mercado Modelo Municipal (8 de janeiro de 1958)

Em relação à muitas cidades, Marília até não está mal servida no setor do Mercado Municipal. Isso, em comparação àqueles centross que ainda não dispõe desse melhoramento em sua “urbe”. Entretanto, em comparação as exigências de sua própria vida e desenvolvimento normal, relativamente ainda às cidades que já solveram essa questão, construindo seus Mercados Modêlos, Marília está aquém das expectativas.

Ha muito reclama o dinamismo e a expansão da cidade, tal empreendimento. Ninguem poderá desconhecer ser insuficiente e em certos pontos obsoleto, o atual mercado municipal de nossa cidade. Na época em que foi construido, ocasião em que Marília principiava a desabrochar, representou uma óbra de vulto, extraordinária. A cidade cresceu vertiginosamente, exigindo, não só no setor de construções públicas, mas em vários outros prismas, o acompanhamento de seu progresso. O que ontem satisfazia as necessidades da vida mariliense, hoje passou a ser insuficiente e a exigir reformas, melhorias, ampliações.

Não só no setor de estética, de grandeza exterior, de modernismo. Todos sabem que precisamos ser práticos e objetivos. Podemos muito bem prescindir, em certas ocasiões, desses requisitos, conquanto que tenhamos de outra fórma, a compensação plena de que determinado utensílio, prédio, repartição ou objéto é completo dentro daqueles ditames ou desideratos a que se destina. Isto, principalmente quando se trata de coisa pública ou de interesse público.

Nêsse particular, não podemos dizer que Marília possui um Mercado Municipal. Possui, isso sim, uma casa onde alguns comerciantes se aglomeram, onde as condições higiênicas não são as melhores e onde os preços não trazem nenhuma vantagem ao consumidor, como acontece em todos os mercados do mundo.

Assis, cidade de recursos próprios indiscutivelmente inferiores à Marília, fez inaugurar sábado último, seu Mercado Modêlo Municipal. Lins está construindo igual empreendimento. Por que Marília, que ha tempo reclama éssa necessidade, até agora não passou ainda da fase de estudos à respeito?

O forasteiro que chega à Marília, vê suas avenidas e seu progresso, conhece seu parque industrial e o trabalho de sua gente, por certo ficará abismado ante o acanhado prédio onde funciona o Mercado, a falta quasi total de espaço vital, a dificuldade de exposição de mercadorias, etc.. À rigor, não temos mercado municipal. Temos apenas uma casa, onde vários comerciantes e quitandeiros se reunem e onde o povo se comprime, iludido em estar obtendo melhores preços que os normais da praça e que está realmente num Mercado.

Extraído do Correio de Marília de 8 de janeiro de 1958

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O Vereador do Ano de 1957 (7 de janeiro de 1958)

Divulgamos em nossa edição de domingo (5/1/1958), notícia acêrca da escolha do rev. Álvaro Simões, edil mariliense e nosso apreciado colaborador, como o Vereador do Ano de 1957.

Tal revelação causou, como não poderia deixar de ser, grande contentamento para nós, que sempre vimos no distinguido com éssa condição, um homem operoso, bem intencionado, inteiramente devotado aos interesses de Marília e seu grande povo.

Longe de nós, a alternativa de que os demais vereadores de nossa Câmara, não ostentem igualmente éssas qualidades. Sucede, entretanto, que a escolha foi procedida por pessoa neutra, através de um órgão de imprensa dos mais tradicionais no Brasil, conforme é o “Correio Paulistano”, e, consequente de um trabalho compilatório, cuidadoso e imparcial, executado pelo jornalista Urbano Cordeiro, responsável pela coluna interiorana do mencionado diário.

Isto nos convence daquele ponto de vista por nós repetidas vezes externado: o trabalho, quando persistente, comedido e bem intencionado, jamais deixará de encontrar seu merecido éco. Ninguém poderá negar que o rev. Álvaro Simões é portador dessas qualidades. Ninguém desconhece sua brilhante folha de trabalhos na edilidade mariliense, sua atuação serena e imparcial, sua manifesta boa vontade, em todas as circurtâncias da vida mariliense, com uma disposição digna para qualquer trabalho.

Além disso, o homem tem movimentado, através da tribuna da Câmara e por intermédio das colunas dêste jornal, uma série de campanhas sociais das mais humanas, nobres e elogiáveis.

O autor déstas linhas sente-se à vontade para falar do reverendo Simões. Nenhum favor lhe fez ou do mesmo mereceu. Sob o ponto de vista religioso, encontramo-nos em ângulos opostos. Não somos políticos e nem simpatia alimentamos pelo partido no qual ao mesmo pertence. Apreciamos o homem em sí e sua atuação, dentro da vida mariliense. Sem necessidade de análise, porque todos nós, sobejamente, conhecemos seu dinamismo, sua operosidade, sua disposição e suas boas intenções em pról da causa comum.

Incansável, dinâmico e modesto. Criterioso em suas alocuções e em seus escritos. Sem jamais ter-se apaixonado desmedidamente, por um ponto de vista, tem sido um exemplo nas suas lutas, dentro e fóra da Câmara. Homem que jamais praticou excessos.

A ponderação, a sensatês e o conhecimento de causa, formam o triângulo principal de suas atitudes. A honestidade de propósitos, sua bandeira.

O “Correio Paulistano” elaborou uma lista dos prefeitos e vereadores interioranos, analisou suas atuações, mediu convenientemente a produção de cada um per sí e revelou o Vereador do Ano de 57. acreditamos, pelos motivos expostos, que a mais absoluta imparcialidade norteou os átos dessa escolha. Temos a certeza, tambem, que a ninguem constituiu surpresa, exceto ao próprio distinguido, embuido sempre em sua modéstia, jamais visando recompensa própria.

Entendemos e acreditamos que o mesmo à respeito pensam todos os marilienses, especialmente seus colegas de edilidade.

Ao ensejo desse registro, apresentamos nossas felicitações ao rev. Álvaro Simões, e, simultâneamente à Câmara Municipal de Marília, porque da Casa do Legislativo Mariliense, de onde tantos exemplos dignificantes surgiram ao Brasil todo no passado, acaba de ser revelado o Vereador do Ano de 1957.

Extraído do Correio de Marília de 7 de janeiro de 1958

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ocauçu quer ser município (4 de janeiro de 1958)

Divulgamos em nossa edição de ontem, a íntegra de um memorial subscrito por diversas pessoas residentes em Ocaucu, entregue à Mesa da Assembléia Legislativa, pelo deputado Márcio Porto, aspirando a emancipação política daquêle distrito.

Pretensão justa, sem nenhum negar. Responsabilidade enorme, pretendida pelos ocauçuenses.

Em palestra ontem com um vereador situacionista local, quisemos ouvir através do mesmo, o pensamento do Prefeito a respeito da questão. Nosso entrevistado expendeu, não o ponto de vista do Chefe do Executivo mariliense, mas sim o seu próprio. “Seria bom para Marília”, declarou. E justificou a afirmativa, dizendo que, com exceção de um único distrito de nosso município, todos os demais apresentam “deficits” anuais, sobrecarregando o passivo do orçamento muncipal.

“Estradas, água, luz, telefone, etc. para os distritos custam somas estimáveis à Prefeitura. Regra geral, a receita dos distritos nem de leve se equipara à tais despesas. Nessas condições, para a Prefeitura é de certo modo interessante a emancipação de alguns distritos” – concluiu nosso entrevistado.

Efetivamente, temos visto muitos casos no passado, em que distritos de grandes centros pleitearam e conseguiram sua independência administrativa. E realizaram aquilo que se diz comumente na gíria – “a pior viagem”.

Nosso vizinho Oriente, por exemplo, encontra-se nessas condições, Lutou muito para emancipar-se politicamente, conseguindo-o. Hoje traduz-se num município bastante pobre, com um progresso apenas regular e acarretando para tôdas as administrações da comuna, uma série de dificuldades, uma vez que a receita é insuficiente para fazer face à despesa.

Conhecem-se inúmeros casos com o citado. A maioria como consequência de manobras políticas e interêsses eleitoreiros. “Tramam-se os pauzinhos”, sai a decretação da independência administrativa dos distritos pretendentes e o povo dêsses núcleos, sem o perceber, passa a viver condições municipais piores do que as anteriores.

Não é a primeira vez que Ocauçu tenta êsse desiderato. Em absoluto não censuramos o povo ocauçuense por essa pretensão; apenas lembramos aos interessados nesse movimento, que, antes de mais nada, se dêem ao cuidado de apreciar a arrecadação que adviria ao eventual município, fazendo uma comparação com as despesas forçadas do funcionalismo municipal, máquinas, gastos necessários etc..

Para a Fazenda Estadual, a criação de novos municípios significa novas despesas de orçamento, novos aumentos de funcionários públicos, uma vez que, no mínimo, de início, devem ser criados um Centro de Saúde e uma Coletoria.

Em todo o caso, interêsses ou não do Estado a respeito, ou dos municípios acerca do desligamento de seus distritos, nem sempre são consultados. Nos casos em tela, o que mandam são as manobras políticas e estas, vez por outras vencem.

Aguardemos o desfecho, respeitando os desejos do povo de Ocauçu.

Extraído do Correio de Marília de 4 de janeiro de 1958

domingo, 3 de janeiro de 2010

Pronto Socorro Municipal (3 de janeiro de 1958)

Dissemos em nossa edição de ante-ontem (que infelizmente não foi localizada pelos editores deste blogue), que voltaríamos ao assunto. Aquí estamos.

Não póde Marília prescindir da criação do Pronto Socorro Municipal. Não póde e não deve. Cidade culta, destacada dentre suas irmãs (mesmo as mais velhas e progressistas), dinâmica e moderna, com 110 mil almas em seu município, Marília, que sempre primou em acompanhar as exigências do progresso hodierno, deve dispensar atenção especial ao fáto em téla.

Numa das primeiras sessões ordinárias que a edilidade realizar no ano em curso, deverá a Câmara apreciar o projeto de lei existente à respeito, de autoria do vereador Durval Sproesser, proposição éssa que trata do assunto óra focalizado.

Referimos em nosso comentário anterior, que o projeto deverá ser aproveitado, com alguns retóques. Exemplificaremos nosso ponto de vista:

Não tivemos o ensejo de manusear o aludido trabalho, que ainda não se tornou público, porque não foi discutido em plenário. Entretanto, bem feito, explêndidamente confeccionado, encerrando assunto de suma importancia, encontrará, certamente, alguns impecilhos para a sua aprovação, da maneira como foi elaborado. O transtorno primordial, sem nenhum negar, será de carater financeiro.

Um quadro de médicos e enfermeiros municipais, onerará muitíssimo o erário público, embóra seja obrigação da municipalidade dispender verbas em pról do sossego e segurança de seus munícipes. Por outro lado, o ambulatório necessário ao Pronto Socorro, não custará pouco. Melhor seria então, fazer-se um convênio com um hospital da cidade, onde ficasse firmado que os médicos de plantão no citado nosocômio, prestassem serviços ao Pronto Socorro. Igualmente aos enfermeiros. Disporia apenas o município, além de uma ou duas ambulância(s), os medicamentos de emergência e uma verba destinada anualmente.

O ideal, seria mesmo o Pronto Socorro Municipal próprio da Prefeitura. Acontece que o município teria que contratar seis a oito médicos (no mínimo), de maneiras a que um facultativo sempre estivesse de plantão, durante as 24 horas do dia. Os honorários médicos, como todos sabem, são caros. Uma ou duas ambulâncias, sua manutenção, seus motoristas, o corpo de enfermeiros (de quatro ou mais), drogas e medicamentos, além das despesas de água, luz, telefone, etc., custariam muito mais do que um convênio com um hospital. Principalmente se atentarmos que poderemos obter em nossa cidade, como deferência e colaboração, um contrato de serviços por um preço regular e a cooperação inestimavel da classe médica em trabalho de rotina.

Assunto digno de estudos(.) A sugestão presente, ao lado de um rotineiro trabalho jornalístico, é bem intencionada. Bem mariliense.

Extraído do Correio de Marília de 3 janeiro de 1958