quinta-feira, 31 de março de 2011

A questão da política cambial (31 de março de 1959)

Ilustre comerciante e leitor deste jornal, confessando-se admirador de nossos modestos e despretensiosos artiguetes, escreve-nos tecendo considerações sôbre os absurdos que se verificam em nosso país, no que tange a atual política cambial.

Cita nosso amigo uma série de fatores originários dêste fenômeno, que constitui num autêntico desgoverno. Simultaneamente, nos remete a um arrazoado de autoria do Sr. Luiz Toni, um dos diretores da Associação Comercial de São Paulo, acêrca da atual política cambial e suas causas dirétas. O argumento aludido foi publicado no jornal “Diário do Comércio” de 25 último.

Nosso amável leitor, que teve a gentileza de identificar-se assinando a correspondência referida, solicita-nos também a transcrição da argumentação aludida, o que iremos atender com prazer, visto tratar-se de assunto que interessa à muita gente e que diz respeito aos próprios interesses econômicos do país. Temos abordado questão inúmeras vezes, tão somente do lado de observação jornalísticas, pois para ninguém é segredo de que nós, particularmente, não somos autoridade na matéria.

Nossos comentários cingiram-se, de modo especial, ao sentido de observação pura e simples à distância, sem fundamentos técnicos ou estatísticos. Como, agora, o argumento que nos é remetido, com o pedido de divulgação, foi proferido numa assembléia de uma entidade de classe, defendido por uma autoridade na matéria e difundido em seguida por um órgão técnico de imprensa, aquí segue na íntegra, conforme nos foi remetido, a sua inserção:

“O atual sistema cambial, conjugado com a atual Tarifa Alfandegaria, resultou numa elevação dos preços das mercadorias de tal monta, que importar hoje, é uma aventura. Tivemos oportunidade de provar, nesta Casa, que uma determinada importação realizada antes do atual sistema cambial, exigiu o emprego de Cr$ 600.000,00 e que, para essa mesma importação, feita sob o atual sistema, foi necessária a quantia de 10 milhões de cruzeiros. Demonstramos que, destes 10 milhões de cruzeiros, apenas 6% se referiam ao valôr da mercadoria. Os restantes 94% foram dispensados em ágios (71%) e outras despesas (4%).

“Para usarmos uma linguagem mais acessível, diremos: um rolo de arame farpado, de 200 cruzeiros de custo, acrescido do ágio etc. vai a Cr$ 1.350,00 de custo; uma dúzia de limas para enxada, de Cr$ 38,00 de custo, com ágio etc. vai a Cr$ 900,00 de custo; a soda caustica, de Cr$ 4,00 de custo por quilo, com ágios etc. vai a Cr$ 35,00; uma lata de azeite, de um quilo de Cr$ 20,00 de custo, com ágios etc. vai a Cr$ 200,00 de custo; um quilo de bacalhau, de Cr$ 18,00 de custo, com os ágios etc. vai a Cr$ 140,00 de custo; o breu, de Cr$ 4,00 de custo por quilo com os ágios etc. vai a Cr$ 45,00 de custo. Muitos outros exemplos poderíamos dar, mas, para não nos alongarmos, poderemos generalizar, afirmando que os preços de custo das mercadorias importadas, 60 a 70% do seu valôr, correspondem a importâncias recolhidas aos cofres da União.

“O próprio governo, ao estabelecer as novas tarifas, afirmou que os ágios seriam suprimidos, tal era receio de que os preços atingissem níveis nunca antes alcançados. Pois bem, estes níveis foram alcançados e superados, pois os ágios não foram suprimidos, antes, pelo contrario, alcançados maior estação, devido a sempre crescentes escassez de moedas.”

Extraído do Correio de Marília de 31 de março de 1959

sábado, 26 de março de 2011

As evoluções da Banda dos Fuzileiros (26 de março de 1959)

Há uns três meses passados, aproximadamente em conversa com o delegado de educação física e esportes local, dizia-nos o amigo Naylor, de suas intenções em sugerir ao Prefeito Argollo Ferrão, que envidasse empenhos para trazer à Marília, no Dia do Município, a Banda dos Fuzileiros Navais.

Com nossa franqueza habitual, aplaudimos a idéia, não sem ter deixado de antecipar algumas dúvidas, pois sabíamos nós, que tal acontecimento demandaria despesas forçadas de alimentação e transporte, para duzentos homens mais ou menos. E dissemos que apesar da idéia ser algo arrojada, em face a certos aspectos econômicos, se tal viesse a acontecer, estariam os poderes municipais proporcionando ao público em geral, um espetáculo dos mais maravilhosos imagináveis.

Da idéia às providências da realidade foi apenas um pulinho. Já está confirmada, de maneira efetiva, a presença em Marília dessa colossal Banda Marcial. Nossos aplausos, portanto (a idéia e aos trabalhos neste sentido).

Sucede que também não há muito, participamos de uma reunião preparatória com respeito ao desfile cívico do Dia do Município, assembleia essa levada a efeito no Colégio Estadual. E na ocasião, indagamos sôbre o local onde os fuzileiros iriam apresentar suas evoluções demonstrativas. Foi nos asseverado que éra pensamento do Sr. Prefeito, apresentar êsse espetáculo na Avenida Sampaio Vidal. Ponderamos então, que o local é impróprio para tal acontecimento. E justificamos nosso ponto de vista, devido já termos presenciado, por mais de uma vez, tais estupendas evoluções da Banda dos Fuzileiros Navais.

Ainda há pouco, palestrando com o vereador Miguel Netto, incumbido da elaboração dos adendos ao programa oficial das festividades de 4 de abril, tocamos casualmente no assunto. E tivemos a confirmação de que as exibições da Banda serão mesmo na Avenida.

À guisa de colaboração, queremos aquí alertar o Sr. Prefeito e os Srs. Membros da Comissão dos Festejos, de que surgirá uma grande inconveniência nessa idéia de que os fuzileiros se exibam na Avenida. A maioria da população ficará privada de presenciar esse majestoso espetáculo, que, desta fórma, só será apreciado em todos os seus ângulos, pelas pessoas que consigam formar as primeiras partes da “cerca humana” junto aos cordões de isolamento e por outras pessoas que se plantem nas sacadas de alguns prédios. A maioria, o grosso do povo, não terá o ensejo de ver o espetáculo referido. Isso porque, sendo as evoluções desenvolvidas dentro de um nível igual ao terreno, não haverá chance para que milhares e milhares de pessoas póssam assistir, sob os mesmos ângulos e idêntica visibilidade, a realidade desse acontecimento. Seremos mais claros ainda: até um “camelô” que esteja apregoando suas “maravilhas”, quando cercado de gente, oferece chance para que somente os que estão perto do homem vejam o que está acontecendo; três ou quatro filas atraz da testa do “bolo” nada veem, por mais que procurem “empinar” e esticar os pescoços.

Óra, será um verdadeiro crime, privar milhares de pessoas de apreciar “de visu” esse maravilhoso acontecimento, coisa inédita em Marília, espetáculo digno de ser visto por todos, pela beleza das condenações marciais, movimentos, música, formações e mutações que apresenta.

O local apropriado é o Estádio de futebol, com suas arquibancadas em nível elevado, oferecendo visibilidade completa. Sôbre isso, falamos na reunião e ao mesmo tempo alertamos os poderes públicos, para o fato de que algumas partes das arquibancadas encontram-se oferecendo perigo para excessos de peso humano. Tornamos ainda a manifestar nosso ponto de vista a respeito, com o fito de colaborar no caso.

Verificação das partes das arquibancadas em condições impróprias e realizar no Estádio Municipal as evoluções da Banda dos Fuzileiros, será a medida que melhor agradará ao público, só não apreciando o espetáculo o numero que exceder a lotação máxima ou os que não se dirigirem para lá. Porque, na Avenida, muitos comparecerão desejosos de ver o acontecimento e não terão o ensejo conforme irão esperar.

Não se confunda um desfile, em que as tropas passam ao longo do trajeto, com as evoluções referidas, que se realizam num mesmo local, local que não poderá ser tomado pelo povo, povo que se acotovelará nas demarcações dos cordões de isolamento, cuja “testa” apreciará o desenrolar das coisas e a demais gentes, que será a maioria absoluta, nada presenciará!

Existe, é fato, o problema do encontro do futeból. Entretanto, pensamos, o deslocamento de horário da peleja, em uma hora para mais e a antecipação da exibição dos fuzileiros em algumas horas antes, talvez possa acomodar a situação e disto resultar benefícios para o público, esse público que aguarda ancioso a presença desse belíssimo e inédito espetáculo.

Póde ser que estejam errados, mas não cremos. Póde dar-se também que estejamos certos e, assim, muita gente ficará decepcionada com o fato, se nosso palpite vier a concretizar-se e pouca gente apreciar o acontecimento.

Aquí fica a sugestão.

Extraído do Correio de Marília de 26 de março de 1959

sexta-feira, 25 de março de 2011

Marcial Lago e as Casas Populares (25 de março de 1959)

Em entrevista concedida a um repórter do “Diário de São Paulo”, o sr. Marcial Lago, presidente da Fundação da Casa Popular, dentre outras afirmativas, lançou um repto aos prefeitos municipais de todo o país. O desafio referido, diz respeito ao seu apêlo anterior, em que afiançara que construiria núcleos de residências populares em todos os municípios brasileiros, desde que êstes oferecessem os respectivos terrenos, dotados de água e luz.

Em certo trecho de sua entrevista, assim se expressou o sr. Marcial Lago:

- “Em 1956 lancei, através da imprensa e do rádio, aos prefeitos de todo o Brasil, um repto no sentido de que qualquer deles me apresentasse, em seu respectivo Município, terreno com água e luz, para que neles a Fundação da Casa Popular fizesse erguer núcleos residenciais. O prefeito de Santos, na época, nem sequer “deu bola” para meu repto. No entanto, todos aqueles chefes de Executivos Municipais que levaram a sério aquilo que afirmei, receberam imediatamente os benefícios da Fundação. No Estado de São Paulo, posso citar, assim de memória, os Municípios de Lins, Vera Cruz e São José do Rio Pardo. Ao todo atendi a Municípios de 19 Estados e não é minha culpa se os prefeitos do Estado de Minas se interessaram mais pelo problema do que os de outros Estados”.

- “Naquela época – prosseguiu o sr. Marcial Lago – a Fundação da Casa Popular possuía para pronto emprego, uma verba de 800 milhões de cruzeiros. Sei que o atual prefeito de Santos já adquiriu o terreno necessário à construção do núcleo de casas populares no Município. No entanto, há seis meses atrás, quando lá estive, o citado terreno não contava ainda com os benefícios de água e luz, sem o que a Fundação não constrói”.

No caso de Santos, nada sabemos e nada temos a ver “com o peixe”. No caso de Marília, que o que nos interessa, de pronto e de perto, entendemos que o repto deve ser aceito pelo sr. Prefeito Municipal, que está em condições de esclarecer e lembrar ao reptista, que no que tange à Marília, a F. C. P. não cumpriu o prometido.

Em 1954, aqui esteve a deputada Ivete Vargas, em campanha eleitoral. E na ocasião, em praça pública, prometeu-nos as casas populares, garantindo ao público de nossa cidade que seria ela a advogada direta de nosso povo, junto à Fundação da Casa Popular, intercedendo pessoal e diretamente junto ao seu presidente Marcial Lago.

A Prefeitura de Marília acreditou nas promessas (e na conversa) da deputada e principio a agir. Conseguiu, por doação, o respectivo terreno de propriedade dos Irmãos Ohara. Levou à gleba referida, os benefícios da água e da luz. Estabeleceu o necessário plano topográfico de demarcação de vias. Procedeu, enfim, ao cumprimento dos quesitos exigidos para o fim.

A Câmara Municipal tomou partido, vindo de encontro às providências do sr. Prefeito e fazendo também seus trabalhos no sentido. Nós, igualmente, divulgamos o fato e reiteradas vezes lançamos nosso apêlo (desde 1.954) para a medida se consumasse na parte da responsabilidade da F. C. P..

O tempo passou e nada foi feito. Telegramas foram trocados, tendo inclusive algumas pessoas mandado transcrever em nosso jornal, afirmativas de providências do sr. Marcial Lago a respeito das casas populares de Marília.

Ivetinha voltou a Marília 4 anos depois, sem ter cumprido a promessa.

O sr. Marcial Lago, no que tange a Marília, não tem nenhuma razão para lançar reptos indistintamente “aos prefeitos de todo o Brasil”. Nós é que lançamos agora o repto ao sr. Marcial Lago: Se é da maneira que S. S. afirmou na entrevista (publicada pelo “Diário de São Paulo em 18-3-59), qual a razão que Marília ficou “de fóra” dêsse plano? Existe a total verdade nessa afirmativa?

Para nós, tal declaração não apresenta a verdade completa. Para nós, repetimos, marilienses.

Extraído do Correio de Marília de 25 de março de 1959

quinta-feira, 24 de março de 2011

Pessimismo crônico (24 de março de 1959)

A onda de pessimismo que nos domina, de que tudo anda de mal a pior, póde ter, como julgamos ter de fato, as suas razões de ser. Nós mesmo, em funções de imprensa, abordamos seguidamente a questão, menos em causa própria do que tentando interpretar os clamores públicos que nos chegam ao conhecimento ou que foram por nós observados.

Uma coisa, entretanto, é certa em tudo isso: existe um trabalho animador em quasi todos os ângulos de Marília e se nós somos apenas uma célula viva do Estado líder da Federação, justo é que se avalie, numa síntese despretensiosa e algo fria, que o pessimismo é crônico. Não que pretendemos afirmar que a vida está “côr de rosa”, porque isto seria uma insensatez. Mas a gente em Marília, trabalha como póde, esticando-se em ações com o fito de garantir a própria subsistência, ações essas que representam o combustível que a máquina do progresso vai consumindo insaciavelmente.

Os clamores em maior elevação, verificam-se na Avenida, onde muita gente “ajuda o João” durante todo o dia. Mas saindo-se desse ambiente, onde quer que nos projetemos neste município, para qualquer ponto cardial que nos dirijamos, constataremos sem dúvidas, que o trabalho existe, a engrenagem da possante máquina do trabalho e o inconteste sinal dos tempos, continua a ser alimentada e lubrificada com as ações dos marilienses, em todos os campos, em todos os setores, sob todos os prismas imagináveis das atividades humanas.

Bem ou mal remunerado, muito ou pouco compensador, leve ou pesado, difícil ou fácil, existe o trabalho, existem as possibilidades de suas ações, existem os que labutam em qualquer canto e em diversos setores.

Clama o comércio, de “paradeira” inacreditável, reclamam as indústrias de dificuldades várias, mas a vida continua, embora tenha perdido um rítmo colimado ou esperado por alguns. O trânsito das ruas é imenso, os ônibus inter-municipais ou inter-estaduais viajam quasi sempre com lotações completas, na gare ferroviária embarcam e desembarcam, seguidamente, milhares de pessoas.

E Marília vai produzindo, vai se agigantando. Sua gente continua a faze-la crescer, chorando ou rindo, queira ou não. O trepidar da máquina deste dinamismo irrefreável, só deixa de atingir ou preocupar um número pequeno e por sinal, é o número dos que mais se lamentam da situação em geral. O fato é que ninguém morreu de fóme até hoje; ninguém deixou de existir, quando trabalha, embora exista com dificuldades várias, com poucas facilidades de levar a vida pretendida. Mas todos vivem, todos “se viram”, numa demonstração de que existe aquí o campo suficiente para isto tudo, que em primeira análise, traduz a garantia de um grande centro, de uma cidade dinâmica.

Façamos uma excessão a diversas pessoas que trabalham de fato, não alimentam esse pessimismo crônico, sem chegar a viver conforme esperavam. Mas exclusamos dessa cogitação, os que deixam de trabalhar de fato, os que ficam na expectativa de negócios “caídos do céu”, que são, por sinal, os que mais clamam contra a situação nacional, que, de fato, não se apresenta nos dias atuais, conforme seria de esperar-se. Entretanto, entre uma coisa, existe um pessimismo abjeto e de caráter simplista, quando deveria existir, por parte de alguns marilienses, mais trabalho e gritaria menor.

Extraído do Correio de Marília de 24 de março de 1959

segunda-feira, 21 de março de 2011

Ontem e hoje (21 de março de 1959)

Qualquer pessôa que tenha hoje seus trinta ou quarenta anos e que foi criada no interior, convirá conosco que de que a vida atual é propícia à nossa juventude.

No passado, a mocidade não dispunha a não ser em raríssimas exceções, das dificuldades que hoje depara. No setor de estudos, tudo é mais fácil, mais completo, no que tange aos meios para haurir as luzes da ciência. No sentido de diversões e passeios, os jovens de hoje em dia encontram ampla liberdade.

O intercâmbio estudantil é um fato; bolsas de estudos premiam alunos que se destacam nas aulas. Existem firmas, govêrnos ou pessoas que patrocinam excursões estudantis.

Estudantes brasileiros já viajaram para diversas partes do globo e o Brasil já recebeu também visitas de estudantes de vários países do mundo.

No passado, tal não acontecia. O interior não propiciava as facilidades de hoje em dia e os próprios pais de família alimentavam mentalidade diferente, quando só os ricos mandavam seus filhos às Capitais, para cursar universidades. Os moços tinham uma vida sedentária, cingida a uma circulo que éra mais ou menos um móto-contínuo de estudar em grupo escolar, crescer trabalhando, casar trabalhando e continuar trabalhando, segundo as pegadas dos próprios ancestrais. Raros rapazes (e muito menos as moças), sentavam-se atraz de um volante, mesmo que os pais possuíssem um veículo. Não existiam muitas cidades que possuíssem piscinas e bons clubes. Não existiam a chamada “vida noturna” e ninguém se preocupava como hoje, com os passeios que dizem ser necessários ao físico e ao espírito. Os jovens não empregavam parte dos lazeres e parte do dinheiro em bebidas ou petisqueiras em bares. Só comiam fóra de casa, em restaurantes, por exemplo, em motivos externos. Pouquíssimos eram os que tinham o ensejo de uma viagem de trem, um passeio longo. Muitas pessoas atingiam a maturidade, sem ter visto um avião, a não ser no ar. Ninguém viajava de primeira classe, a não ser que fosse a situação financeira perfeitamente consolidada. Poucos usavam ternos de linho ou de casemira e os que dispunha de um “pareio” de brim cáqui, consideravam-se bastante felizes.

Hoje tudo é diferente, tudo mais fácil, tudo facilitado.

Talvez sejam esses os motivos de que a mocidade de hoje não se interessa de modo geral, tanto pelos estudos, tanto pelo trabalho, tanto pelo trabalho, como no pretérito. Talvez sejam esses os motivos da decadência moral em que estamos submergidos, a razão da juventude transviada, a oriundidade dos chamados “play boys”.

Assim pois, para aqueles que tiveram uma vida diferente dos jovens de hoje, o motivo em aprêço dá o que pensar. Dá o que pensar em duas razões perfeitamente distintas: primeiro, uma certa inveja de não haverem desfrutado as mesmas condições tão fáceis dos rapazes de hoje; segundo, porque devem sentir, intimamente, que lucraram mais com a vida diferente que levaram e com os bons exemplos que aprenderam, tornando-os em certos casos, homens de têmpera moral alguma coisa diferente.

Ontem, a palavra de um homem, ou um simples fio de barba, valia mais do que um documento. Hoje, até os documentos de fé legal mais fortes e positivos, são desfeitos inclusive até dentro de cartórios, com documentos ou manobras fáceis, fictícias e imorais, por expedientes que muitos chamam de sagacidade, mas que, na realidade, nada mais representam do que pouca vergonha e deslealdade.

Serão os sinais dos tempos, as contingências da vida? Ou será, em contra-pêso ao progresso geral do mundo e dos homens, a decadência da palavra, da moral e da dignidade, apanágios que tão belamente identificavam os homens do passado?

Nossos avós, se hoje vivessem, ficariam estarrecidos hoje em dia, nesse particular.

Extraído do Correio de Marília de 21 de março de 1959

domingo, 20 de março de 2011

Banditismo moderno? (20 de março de 1959)

Não fôra o desassombro do jornalista David Nasser e um crime dos mais abomináveis dos últimos tempos, ter-se-ia cingido a uma repercussão pequena, ganhando a indiferença poucos metros além do local onde fôra cometido e onde fôra pela primeira vez julgado.

Entretanto, a série de reportagens a respeito, divulgadas pelo aludido profissional de imprensa, sacudiu a opinião pública nacional, desde o Amazonas ao Rio Grande do Sul. O ato do juiz Souza Neto, de impronunciamento do acusado, foi anulado por estância superior e o mesmo já se encontra atrás das grades, para ser efetivamente julgado.

Se houver ou não êrro da Justica, não competirá a nós, que não somos leigos, mas sim “analfabetos” em leis, comentar o fato. Uma coisa será inegável, ante o desenrolar das circunstâncias vigentes no setor de excessos e liberdades de centenas de “mocinhos bonitos” e “play bestas”: São Paulo e Rio estão hoje entregues ao banditismo moderno!

Como se não bastasse os casos sem conta, registrados pela crônica policial acêrca dessa casta de depravados e marginais, aponta constantemente a imprensa, a série interminável de roubos, assaltos e latrocínios nos dois maiores centros da nação. Até os famosos “gangsters” de Chicago possuem imitadores em São Paulo e na Capital Federal, assaltando em pleno dia e fugindo em “condução própria”!

O banditismo prolifera e se expande incrivelmente, tornando atônitos os que têm sobre os ombros a responsabilidade de zelar pela integridade física da sociedade e pelo segurança do bem comum. Pensando bem, o assunto chega a causar pânico aos que mais acuradamente raciocinam sôbre suas consequências seguidas e irrefreáveis.

Tornam-se urgentes medidas mais drásticas, fôra de dúvida, contra os que se utilizam de tão abjetos expedientes.

Jornais de São Paulo e do Rio, trazem sempre várias páginas consubstanciadas no noticiário dêsse tipo. São assaltos, mortes, latrocínios, seduções sem conta; são estupros, são barbaridades de toda a forma, como os casos recentemente ocorridos em Araraquara, o caso de Aída Curi, os casos dos mendigos queimados vivos!

Afinal, para onde caminhamos?

Temos a impressão de que ninguém está seguro ou sossegado nas grandes capitais hoje em dia, em decorrência dêsse estado de coisas.

Está imperando sem sombra de dúvidas, um banditismo moderno. E no seio da própria civilização, entre os povos residentes nas duas maiores e mais dinâmicas cidades do Brasil!

De um lado, a facilidade de aquisição de armas, deve ser responsável em parte pela situação em fóco; de outro, o dinheiro e a liberdade de “filhinhos de papai”, os cognominados “play boys”, cuja identificação deverá ser melhor ajustada como “play bestas”.

Os excessos de lotações nos cárceres, ocasionando “faltas de vagas” e em alguns casos “falta de verbas” para a manutenção dos fóra da lei, tem feito, segundo se diz, com que muitos marginais mesmo os mais perigosos, após presos, sejam fácil e prontamente postos novamente me liberdade. E sabido é que os errados nesse particular, apresentam uma cifra ínfima de regenerações; a maioria retorna à senda do crime, terminando por habituar-se. E então cria-se o círculo vicioso de prende-rouba (ou mata) solta.

O próprio Código Penal Brasileiro, que apesar de constituir-se numa das completas óbras correlatas de todo o mundo, tem também as suas válvulas de escape, suas interpretações múltiplas, resultando daí, em alguns casos, até a impossibilidade de provas contra fatos que se encontram “na cara”, o que em certas ocasiões, compromete até a polícia em certas deterncoes.

Baseados nesse pormenor indiscutível e “argumentados” com algumas cédulas de mil cruzeiros, muitos criminosos são soltos, saem arrotando “direitos e razões” e retornam confiantes ao mal anterior.

Precisam os govêrnos tomar providências mais enérgicas com respeito ao caso, aparelhando e amparando melhor a própria polícia.

É urgente o acabar-se com esse banditismo moderno entre nós.

Extraído do Correio de Marília de 20 de março de 1959

sábado, 19 de março de 2011

Precisamos de mais um posto de abastecimento do Sesi (19 de março de 1959)

Não há muito, escrevemos sôbre a necessidade do Serviço Social da Indústria voltar suas vistas para Marília, instalando em nossa cidade, maia um de seus bem organizados Postos de Abastecimento.

Nosso escrito encontrou favorável repercussão entre os industriários marilienses, uma vez que, seguidamente, temos sido procurados, para que continuemos a dirigir o referido apêlo a quem de direito. Isto quer dizer, sem sombra de dúvidas, que a interessada aguarda, confiante, as atenções do SESI nesse particular.

Todos sabem que já possuímos um dêstes Pôstos, localizados na Rua São Luiz. Trata-se de um estabelecimento de primeira grandeza dentro do âmbito de interêsse de uma grande e laboriosa classe, como é a classe dos industriários. Acontece que em virtude da densidade demográfica de Marília, a localização de uma única dessas casas na cidade, coloca em dificuldades diversas famílias de industriários, em face à sua localização. Uma só dessas casas é insuficiente para nós. Nessas condições, bem obraria a alta direção do SESI, se se dignasse atender ao apêlo que fizemos (e que hoje já representa uma legítima reivindicação da classe industriária), instalando mais um Pôsto de Abastecimento, localizado em outro ponto da “urbe”, num local que poderíamos chamar de “ponto estratégico” e que viesse servir aqueles que, por residirem ou trabalharem distanciados da atual localização, tivessem assim a facilidade de se utilizar dêsse novo melhoramento.

Não será necessário afirmar-se que Marília cresce e se expande dia a dia e que em certos casos, torna-se difícil a locomoção das gentes, até determinado ponto, para a aquisição de gêneros alimentícios, pelos preços abaixo da cotação normal, conforme são fornecidos aos industriários pela Casa em referência.
O assunto merece ser apreciado devidamente pelo pessoal especializado do Serviço Social da Indústria, organismo que sempre primou em bem representar uma classe digna e grandiosa. E se o Sesi sempre pautou êsses princípios, que são, na realidade uma das principais metas de sua própria organização e existência, acreditamos que nosso apêlo há de encontrar, a esperada guarida por parte de seus dirigentes e responsáveis.

A questão, repetimos, é digna de apreciação e de estudos. Suas razões são facilmente explicáveis, facilmente aceitáveis e também facilmente discutíveis.

Ao tornarmos ao assunto, queremos esclarecer que o fazemos em atenção ao éco que nosso primeiro artiguete encontrou e às manifestações de esperança que a idéia alcançou dentro da classe interessada. Significa isto, que o grande número de industriários de Marília, os diretamente interessados e portanto dignos dêsse atendimento, estão confiantes em que a alta direção do Serviço Social da Indústria há de vir de encontro aos reais, mais amplos, mais fáceis e melhores interêsses da grande classe.

Isto delineado, resta-nos a certeza e mesmo a confiança de que o apêlo que óra reiteramos, venha a alcançar a devida consideração e os indispensáveis estudos nêsse sentido, de vez que se refere a um clamor que acreditamos justo e inegável e que se destinará a favorecer, de maneira mais direta e legal, diversas famílias de industriários da cidade.

Aquí fica mais êste rôgo. À êle, anexamos ainda nosso empenho de urgência nesse particular e a garantia de que se trata de um pedido com fundamento lógico e de necessidade inquestionável.

Com a palavra os senhores responsáveis por essa máquina estupenda que se chama Serviço Social da Indústria.

Extraído do Correio de Marília de 19 de março de 1959

sexta-feira, 18 de março de 2011

O dia do município (18 de março de 1959)

Avisinhamo-nos de 4 de abril, o Dia do Município de Marília, data que marcará a passagem do 30º aniversário de nossa emancipação política co-administrativa.

Grandes festividades estão programadas e os membros da Comissão de Festejos continua incansável no mistér de tudo providenciar, de maneiras a realizar as festividades do evento, sem que possam deixar margens a desejar alguma coisa.

Câmara e Prefeitura, coesas como sempre, estão com suas vistas voltadas para o fato, preocupadas em que tudo transcorra de maneira brilhante, de modos que os marilienses sintam a grandeza da data festiva e os forasteiros e autoridades visitantes perceberam de que em nossa cidade existe, antes e acima de tudo, o espírito de unidade, a demonstração inequívoca de amor por Marília e de respeito às autoridades constituídas.

Mistér se faz com que a indústria e o comércio colaborem positivamente para melhor ilustrar tal efeméride. Enfeites de vitrinas, dísticos, fatos alegóricos etc., devem ser os motivos primordiais, para um ar diferente, um aspecto de alegria à cidade.

O programa, embora não divulgado, está completo e seus elaboradores estão sendo preocupadamente sinceros na sua confecção. A Banda dos Fuzileiros Navais, a visita do Presidente da República e Governador do Estado, a realização da Primeira Jornada Odontológica de Marília, o espetáculo pirotécnico, a grande parada cívico-militar, o Museu Relâmpago da F. E. B., futebol e cestobol, são, dentre muitos motivos, os atrativos principais da data.

Os marilienses terão um dia inteiro tomado, pois segundo nos asseverou um elemento da Comissão dos Festejos, a ordem das realizações está sendo arquitetada de tal maneira, que desde as primeiras horas da manhã até as últimas horas da noite, em horários diferentes e continuados, sejam realizadas as diversas partes das festividades referidas.

Por aí se verifica que existem comprovadamente boas intenções em alcançar êxito total. O prestígio do público, êsse se conta com antecipação, pois duvidamos que possam existir entre nós, alguns marilienses que não sintam, por mais apáticos que possam ser, uma certa euforia pelo acontecimento, que marcará o transcurso da terceira década de nossa vida municipal.

Se dizem por aí que somos bairristas, nós que entendemos o bairrismo como um sentimento natural de amor a um torrão, pensamos que devemos continuar a ser bairristas e propagar com orgulho e em vozes altas, a grandeza de nossa cidade e o espírito laborioso de nossa gente, responsável direta pela construção da “urbe” que nos orgulhamos em habitar.

Marília tem razões para fazer uma festa de aniversário de município, com as pompas que a cidade é merecedora; principalmente tendo-se em conta que no passado, as comemorações de igual jaez, de modo geral, cingiram-se a presenciação de uma parada cívica, uma sessão solene na Câmara Municipal e uma partida de futebol. Em resumo, o povo, êsse que trabalha e produz, êsse que é responsável pelo dinamismo dêste adiantado centro, ficou restrito a presenciar, na ocasião, apenas o desfile e a tarde esportiva. Desta vez, não; só o espetáculo que lhe será oferecido pela Banda dos Fuzileiros Navais, valerá uma fortuna de encantamento para os olhos. Nós podemos afirmar isso, porque, com diversas outras pessoas, tivemos o ensejo de apreciar, por mais de uma vez, as maravilhosas evoluções dessa banda marcial, famosa e tradicional no Brasil e mesmo em todas as partes do mundo. A mesma corporação que já se exibiu na Inglaterra, a convite da Rainha Elizabeth e que tem convites para apresentar-se em outras nações do mundo, estará se exibindo aos marilienses em geral e aos visitantes oriundos de outras cidades, no vindouro Dia do Município.

Afóra isso, repetimos, só esse ineditismo em Marília, já representaria um grande espetáculo. Acontece, porém, que teremos outras tantas coisas a apreciar. O povo, desta vez, pelo que estamos percebendo, vai ter uma festa a altura e vai ter alguma coisa para vez na data magna de nosso município.

Extraído do Correio de Marília de 18 de março de 1959

quinta-feira, 17 de março de 2011

Ainda o preço dos estudos (17 de março de 1959)

Sôbre nosso artiquete de poucos dias, intitulado “Difícil estudar hoje em dia...” (12/3/1959), tivemos o prazer de receber incontáveis manifestações de solidariedade.

Diversos pais de família nos procuraram, para nos solicitar que continuássemos a campanha encetada, com o objetivo de alertar e despertar os interesses dos govêrnos, para o fim que focalizamos na ocasião. Ponderamos que nossos clamores, assim sózinhos, jamais poderiam produzir bons frutos e que mistér se faria que outros órgãos, inclusive poderes constituídos, formassem também ao lado de nossas intenções.

Efetivamente, é difícil estudar-se hoje em dia, apesar mesmo do notável progresso atualmente em curso, com a descentralização do ensino de vários níveis, processo revolucionário que constituiu-se numa das mais gratas providências de nossas autoridades educacionais, procurando propiciar meios aos jovens interioranos, de melhor e mais positivamente travarem conhecimento com as luzes do saber.

Note-se que nos referimos, na ocasião, apenas ao ensino primário e médio, sem termos abordado frontalmente a questão universitária, cujos cursos são caríssimos e difíceis para os filhos do póbres e mesmo até dos considerados da classe média.

Retivemos em nossa análise, de maneira especial, aos ciclos primário, ginasial, normal e de contabilidade. Fizemos alusões aos cursos noturnos e também aos gratuitos. E procuramos demonstrar o custos dos mesmos, no dias atuais.

Reforçamos a idéia, acrescentando que hoje em dia, já o ensino elementar que é o primário, torna-se alguma coisa de custosa e dispendiosa para as famílias póbres e em alguns casos, até para as chamadas “médias”. Um chefe de família que tenha três ou quatro filhos (o que não é raro) estudando, mesmo o curso inicial e mesmo sendo êste gratuito, como é o caso dos grupos escolares e das escolas congêneres oficiais, precisa fazer algumas “ginásticas” e esticar com elasticidade seu orçamento doméstico, para dar conta do recado. Cadernos e livros, lápis e até uma simples borrachinha, custam preços elevados, cuja soma das compras necessárias, adicionada as despesas de uniformes, (por mais simples que sejam) e de calçados (por mais baratos que póssam ser) representam verdadeiros “arrombos” no controle de “receita” e “despesa” de qualquer chefe de família.

Não há exagero, se afirmarmos que entre uniformes, cadernos e outros materiais necessários, a monta dos gastos de um aluno de apenas terceiro ou quarto ano, “raspa” (as vezes ultrapassa) a casa dos dois mil cruzeiros. Só as despesas iniciais, fóra as que continuarão a aumentar a corrente durante o ano letivo e sem contar-se com a gratuidade do ensino!

E o curso ginasial, o cientifico (ou clássico), o normal e o de contabilidade? Existem cadernos do tipo “brochura” que custam quasi 60 cruzeiros. E existem classes que exigem, “de cara”, a compra de até 10 desses cadernos! Fóra os livros e outros complementos e execto os uniformes, calçados e custo do ensino, quando este é pago!

Conforme dissemos, o problema é completo e só providências governamentais como as que aventamos em nosso artigo anteriormente citado, é que poderão atenuar um pouco essa situação. Isto é, os govêrnos devem isentar de todos os impostos e taxas o material escolar (inclusive calçados e uniformes) e vende-lo a preço de custo, através de órgão público especializado, exclusivamente aos estudantes. E que essa venda seja feita por gente capaz e honesta sobretudo, sem “marmeladas”, “caminho negro” ou preferências à determinadas classes ou pessoas!

Senão, nada feito.

Extraído do Correio de Marília de 17 de março de 1959

segunda-feira, 14 de março de 2011

“Museu relâmpago” (14 de março de 1959)

Decidiu a Associação dos Ex-Combatentes, emprestar também a sua colaboração aos festejos organizados oficialmente pela Câmara e Prefeitura, pertinentes ao 30º aniversário do município.

Os “pracinhas” organizarão entre nós, no centro da cidade, um “Museu Relâmpago”. Esse acontecimento significará uma contribuição modestíssima, é verdade, porém sincera e terá o sabor do ineditismo em Marília. Suas proporções será mínimas, porque pequeno é o número de “pracinhas” marilienses e em consequência, não poderá ser grande o repositório de troféus, medalhas e objetos utilizados pelos expedicionários de Marília na última guerra mundial, onde uma parcela de gente de nossa cidade, juntamente com os demais brasileiros de todos os rincões do país, sugrafaram, ao lado das bandeiras das Nações Aliadas, o sacrossanto pavilhão Verde-Amarelo.

Mas não deixará, convenhamos, de constituir-se em algo diferente entre nós, não deixará de representar um motivo a maior dentro do plano de alegria que representará feliz evento e que marcará o transcurso de meia dúzia de lustros de nossa emancipação municipal.

Os marilienses tomarão conhecimento e contacto com pequenas coisas, muitas de aparência banal, mas cujos significados encontram-se encravados na consciência, no dever e em recordações pouco felizes dos expedicionários marilienses. Verão nossos munícipes, objetos e roupas de uso pessoal da ocasião, verificarão diversos recursos próprios da estratégia e da ciência, conhecerão armas e munições diversas e outros diversos assuntos e objetos desconhecidos de muita gente.

Por exemplo, poderão conhecer a famosa metralhadora alemã, “batizada” pelos brasileiros como “Lurdinha”, a mais poderosa arma portátil até agora vista em todo o mundo; conhecerão diversas outras coisas inéditas, como, por exemplo, até o tipo de pó dentifrício utilizado pelos combatentes brasileiros, granas de mão e de fuzil, roupas para enfrentar o terrível inverso europeu e diversas outras coisas e fatos.

Será, portanto, uma demonstração algo diferente para nós todos. Pena que os “pracinhas”, sendo em número relativamente pequeno entre nós, não tenham maior quantidade desses objetos que eles guardam como verdadeiras relíquias, para exibir aos marilienses em geral. Em todo o caso, valerá a boa intenção dos ex-combatentes, que, encontraram no fato, a única fórma de colaborar com a cidade e com os poderes públicos, néssa ocasião em que o Presidente da República e o Governador do Estado, com suas presenças, prestigiarão também o aniversário de nossa cidade.

Não restará dúvida que será um acontecimento inédito, embora frizemos, de pequenas proporções, em face ao número de ex-combatentes aquí radicados. Como todos sabem, cada qual tem consigo no mínimo um objéto, guardado com carinho inviolável, pois cada objeto desses, significa um trecho inolvidável da vida de cada “pracinha”. Entendem os ex-combatentes, que os marilienses têm também o direito de conhecer esses fatos, que tão profundamente calaram recordações em suas próprias vidas, recordações éssas indeléveis e inapagáveis.

Os “pracinhas”, com essa iniciativa, estão imbuídos das melhores intenções e com o fato nenhuma outra coisa farão, a não ser exteriorizar o desejo de mostrar sob alguma fórma, sua gratidão a Marília e aos marilienses, por ocasião da passagem do 30º aniversário de nosso município.

E eles fazem muito bem, não restam dúvidas. Nossos votos para que esse movimento, óra apregoado pela Secção local da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, consiga o êxito almejado.

Extraído do Correio de Marília de 14 de março de 1959

domingo, 13 de março de 2011

Notícias Diversas (13 de março de 1959)

Cresce no Rio de Janeiro, movimento que principia a alastrar-se por todo o país, visando empenhos no sentido de que o Presidente da República extinga a COFAP e órgãos correlatos.

Uma vez que, o mencionado organismo não cumpre mesmo suas finalidades precípuas, não há razão de ser de sua existência, cujas provas mais concretas, tiveram-nos (e têm-nas) os brasileiros, com o propalado e recente congelamento de preços, que nada mais significou do que um mito.

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Por falar em COFAP, o autor destas linhas, certa ocasião no Rio de Janeiro, ficou conhecendo determinada pessoa, estabelecida com escritório de contabilidade, corretagens e despachos. Em conversas variadas sôbre assuntos diversos, veio à baila a atuação da COFAP. E esse novo amigo confessa na ocasião, entre um aperitivo, que, tento sido nomeado membro da COFAP, “mascava” 12 mil cruzeiros por mês, para comparecer a duas reuniões mensais!

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Os marilienses apreciarão no Dia do Município, a Banda dos Fuzileiros Navais, o maior e mais perfeito conjunto musical-militar da América do Sul e um dos mais famosos do mundo inteiro.

Será um espetáculo maravilhoso, inédito em Marília, digno de ser visto por grandes e pequenos.

Nós, que já tivemos de assistir espetáculos proporcionados pela referida corporação, discordamos da idéia vigente, de que a exibição das evoluções e formações diversas da Banda seja feita na Avenida. Pouca gente terá o ensejo de ver, porque além das poucas pessoas que se plantarem nas sacadas dos prédios e das gentes que constituírem a “testa” da cêrca humana, os demais (a maioria), sofrerá empurrões, pisões e nada verá.

O lugar adequado, pelas observações que já fizemos, é mesmo o Estádio Municipal, porque facultará ao público a visibilidade completa, em virtude das arquibancadas.

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Já que falamos nisso, bom seria que a Prefeitura Municipal proceda a uma revisão nas arquibancadas do Estádio, onde muitas taboas se encontram apodrecidas ou depredadas, constituindo perigo para lotação pública.

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É possível que os “pracinhas” de Marília emprestem também a sua colaboração aos festejos do Dia do Município, organizando um “Museu Relâmpago”, onde exporão diversas armas, munições, objetos e roupas, além de outros fatos relacionados com a última guerra e de uso dos ex-combatentes. Será, pelo que soubemos, uma contribuição modesta e simples (em virtude do pequeno número de “pracinhas aqui radicados), porém inédita para os marilienses.

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Preços incríveis estão alcançando em Marília os frangos e óvos nesta quaresma. Produtos isentos de impostos e taxas, estaduais e municipais, não se sabe a razão de tão elevadas cotações dos mesmos.

Aliás, não somente óvos e frangos, mas tudo o que se vende nas feiras e nas ruas hoje em dia está assim.

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Moradores da Vila Fragata, continuam reclamando a quem de direito, por nosso intermédio, acêrca do abandono que se encontra o bairro mais próximo do centro da cidade.

Sem serviço coletor de lixo, sem policiamento diurno ou noturno (dizem), com o mato crescendo e ameaçando dominar tudo, o perigo ronda constantemente os alí residentes, ameaçando mocinhas que estudam ou trabalham e que regressam à noite aos lares.

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Se, efetivamente a Banda dos Fuzileiros Navais vier à Marília através de aviões da FAB, conhecidos como “vagões voadores”, os marilienses terão mais uma vez a ocasião de apreciar mais demoradamente esses colossais “gigantes do ar”.

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O comércio mariliense deverá tudo fazer para bem ornamentar os estabelecimentos por ocasião do Dia do Município, colaborando assim com o brilhantismo que esperam alcançar as autoridades e o público mariliense.

Extraído do Correio de Marília de 13 de março de 1959

sábado, 12 de março de 2011

Difícil estudar hoje em dia... (12 de março de 1959)

Recordamo-nos de que quando ainda garotos e cursávamos o grupo escolar, eram difíceis os estudos médios e superiores. Eram difíceis, porque não eram todas as cidades interioranas que dispunham de estabelecimentos estudantís além daqueles do curso primário. Mesmo os ciclos ginasial, comercial e normal, dificilmente eram encontrados em cidades consideradas adiantadas na ocasião.

Temos muitos professores normalistas e muitos contadores (na ocasião guarda-livros), que se locomoveram para a Capital ou grandes centros, onde se formaram. Naquele tempo, o concluinte do curso ginasial, éra considerado erroneamente como “bacharel”.

Pouca gente conseguiu estudar na ocasião, em virtude dos motivos explicados.

Hoje, não; hoje as coisas são diferentes. Nos últimos vinte anos, progredimos extraordinariamente nesse setor. Qualquer cidade da “hinterlandia”, principalmente no Estado de São Paulo, tem seu ginásio (quasi sempre oficial), tem a sua escola de comércio (quasi sempre particular). Apesar dos clamores, o ensino primário foi desdobradíssimo e até os mais longínquos rincões da zona rural, possuem hoje uma escola primária, seja municipal, seja estadual. E ainda faltam estabelecimentos desse gênero, ainda estando insuficientes em certos casos, o número de vagas em disponibilidade.

Acontece que, se por um lado progredimos admiravelmente nesse campo, por outro, êsse progresso nos acarretou dificuldades sem conta, em face do custo elevado dos estudos, uniformes, livros e cadernos. Hoje em dia, se não fôra os cursos noturnos, cinquenta por cento dos atuais estudantes, contentar-se-iam obrigatoriamente apenas com o curso primário.

Pouca são as famílias que podem superar o problema da educação dos filhos, tão elevado é o custo do ensino hoje em nosso país.

Vejamos, por exemplo, para não nos aprofundar muito, apenas o curso primário, mesmo sendo gratuito: material escolar de uma criança do terceiro ou quarto ano, só de início, alcança, em certos casos (como ficou provado há poucos dias) até a soma astronômica de 600 cruzeiros. Uniformes escolares do mesmo ciclo, chegaram a custar muito conto de réis (ou mais).

E o ginásio? E o científico (ou clássico)? E os vestibulares? E os cursos superiores?

Por aí se vê, claramente, que é difícil estudar hoje em dia. Principalmente para o filho de pobre e muito principalmente para a família de muitos filhos.

Nos estabelecimentos pagos, as mensalidades sobre quasi sempre e mesmo assim, segundo sabemos, muitos professores deixam de ser convenientemente remunerados. E não se póde pagar o mesmo de uma escola particular, sem cobrar a mensalidade do estudante.

Qual será a solução do problema, então?

É difícil dizer-se, pois a questão parece insolúvel, sem caminho certo. Todos apresentam as justificativas: o fabricante ou o revendedor de livros ou cadernos, o sapateiro, o alfaiate, enfim os que fornecem o material em geral para os estudantes. A vida está cara, tudo subiu de preço. Porisso, o ensino, mesmo o primário e mesmo o gratuito, torna-se caríssimo hoje em dia.

Só duas coisas, pensamos, poderiam atenuar um pouco a situação em téla: arcar o governo com maiores ônus, em prol do ensino oficial (embóra muitos “técnicos do asfalto” combatam a descentralização do ensino) e monopolizar a industrialização do material escolar, isentando-o de impostos e taxas, para ser vendido aos que estudam, a preço de custo de produção, por órgão exclusivo e honesto.

Ou será que existem outras fórmulas, que venham de encontro a necessidade inadiável de tornar mais accessível o ensino aos póbres?

Extraído do Correio de Marília de 12 de março de 1959

sexta-feira, 11 de março de 2011

Visita do Presidente da República (11 de março de 1959)

Conforme é sabido, o Sr. Juscelino Kubtschek foi convidado oficialmente para visitar Marília, no próximo dia 4 de abril (de 1959), data do 30º aniversário do município de Marília.

O assunto foi comentado sob diversos aspectos entre muitos marilienses. Alguns, até, com pejorativíssimo, o que está errado. Verdade é que vivemos numa democracia e cada qual tem o seu direito de externar um ponto de vista, em termos, cuja liberdade lhe é assegurada pela Constituição Federal. Outro mostraram-se céticos ou mesmo apáticos acêrca da questão em téla, que tanta celêuma criou nos últimos dias em nossa cidade.

Nós mesmo, em nosso mistér jornalístico, temos inúmeras vezes, abordado a atuação governamental do Sr. Presidente da República, dentro de termos perfeitamente publicáveis e em obediência aos postulados da Lei de Imprensa. O fato de termos citado certas faces da atual administração federal, condenando-as ou não, elogiando-as conforme o caso, não significa, em circunstância alguma, que sejamos contrários, pessoalmente ao Sr. Juscelino Kubtschek. Restrições ao administrador, não significam restrições ao homem.

Acontece que o Presidente da República foi convidado oficialmente para visitar nossa cidade e aquí deverá comparecer como o maior magistrado da nação. E como tal, deve ser recebido pelos marilienses em geral. Não é qualquer cidade que formula um convite dessa natureza a autoridade tão elevada e póde contar com a aquiescência e o acolhimento gentil do convite, conforme aconteceu com a comissão de autoridades marilienses que foi recebida pelo Chefe da Nação.

Devemos pensar, antes de mais nada, em Marília e na importância para nossa gente e nossa cidade, nessa visita oficial do Presidente da República. Devemos nos ater para a oportunidade que se nos oferecerá, em apresentar, de viva voz, ao Sr. Juscelino Kubtschek, as reivindicações que sentimos e que são de alçada do Govêrno Federal. E isto só podemos fazer de maneira gentil e cavalheiresca, proporcionando ao Chefe do Govêrno, uma recepção condigna, uma vez que a Câmara, num de seus átos oficiais e pela decisão da maioria de seus vereadores, assim pensou e agiu.

Afinal, Marília receberá o Govêrno Federal, eleito pela vontade da maioria. Embora nós, confessamos, não tenhamos sufragado nas urnas o nome do Sr. Juscelino Kubtschek e embora tenhamos nós, em certas ocasiões, feito restrições a átos de seu governo, estaremos ao lado daquele que o receberão de braços abertos, com os respeitos que deverão ser consignados a uma autoridade legalmente constituída.

Significa muito para Marília, a visita do Sr. Juscelino Kubtschek de Oliveira. Significa mais algumas esperanças nos anseios de nossa gente e nas necessidades de nossa “urbe”. E nós, que nos orgulhamos de ser amantes de Marília, assim pensando, formamos gostosamente junto ao número de marilienses que tributará ao Sr. Presidente da República, as boas vindas necessárias, embora tenhamos, como jornalistas e como humanos, nossos pontos de vista delineados e fundamentos em fatos que inúmeras vezes foram externados nesta mesma coluna.

Com nossos respeitos ao Sr. Juscelino Kubtschek, investido na alta magistratura de Chefe de Estado, apresentamos a S. Excia. os nossos protestos de boas vindas e magnifica recepção em Marília.

Extraído do Correio de Marília de 11 de março de 1959

quinta-feira, 10 de março de 2011

Fábricas de papel moeda (10 de março de 1959)

Existem acontecimentos, mesmo por parte das maiores autoridades do país, que dão margem a comentários por vezes de escárnio. São consequências das próprias contingências momentâneas, resultados suplantam os pontos de vista colimados, ou que estendem raízes que avançam em sentido contrário ao esperado.

Daí a margem para “gozações”, como se diz vulgarmente.

É o caso, agora, da indústria de papél moéda no Brasil, manufatura que se apregoa, terão o caráter de uma das mais importantes do mundo. E, segundo se afirma, não servirá a nenhum país estrangeiro, pois sua produção será exclusivamente para nós próprios!

Óra, u’a nação que monta uma fábrica de dinheiro exclusivamente para uso próprio, não significa que seja um motivo de progresso, conforme entendem muitos. A sua repercussão tem lá no fundo, resquícios de pejorativíssimo, sem sombra de dúvidas. Representa que, antes de seu funcionamento, a encomenda de papél moéda do Brasil, a outros países estava sendo algo fabulosa e algo dispendiosa, a ponto do Govêrno interessar-se por uma providência dêsse naipe.

Daí a razão dos conceitos glosados acêrca do assunto.

Se o Brasil vai tornar-se um dos maiores fabricantes de papél moéda do mundo, sómente para seu consumo interno, é claro e suscinto que nosso país se não é, pretende tornar-se o maior consumidor de dinheiro de todo o mundo. É a própria lei do consumo forçando a produção.

Talvez suceda com a fabricação do papél moéda, o mesmo que aconteceu no passado, com o lança perfume. O Brasil importava cifras tão gigantescas dêsse produto da Suíça, produzido pela Química Rhodia, que os nacionais acharam mais interessante e oportuno transferir as fábricas de lança perfume para nosso país!

Nós não entendemos bem do assunto, mas mesmo assim, achamos que o Presidente da República está certo. Está certo, uma vez que nunca nosso dinheiro valeu tão pouco como agora. E, com uma fábrica aqui produzindo dia e noite, conforme se propala, mesmo que o dinheiro pouco ou nada valha, teremos quantias suficientes para ir comprando tudo o que for necessário. Mesmo que sejam necessárias uma, duas ou três notinhas de mil cruzeiros, para comprar-se um quilo de feijão e meio quilo de manteiga!

O negócio deve ser tão interessante e sua função dentro da economia privada do país deve ser tão importante para os brasileiros, que até uma grande companhia inglesa está agora, conforme noticia a imprensa, encontra-se interessada em montar aqui, uma de suas filiais de fabricação de papél moéda!

Que é que os leitores acham sôbre isso?

Extraído do Correio de Marília de 10 de março de 1959

segunda-feira, 7 de março de 2011

Crimes sem precedentes (7 de março de 1959)

Estávamos “matutando” sôbre o assunto que destinar ao espaço de hoje nesta coluna, quando o amigo Anselmo (Scarano) nos exibia um jornal interiorano, no qual estava estampada uma notícia verdadeiramente revoltante. Tratava-se de um crime sem precedentes, praticado contra um menor indefeso.

Eis, mais ou menos, a notícia que lemos estarrecidos:

Aconteceu há pouco, na cidade de Araraquara. Um monstruoso indivíduo alí residente, conhecido pela alcunha de João Mineiro, fez criminosa aposta com um companheiro, sem dúvida alguma do mesmo timbre moral. Apostaram os dois, que João Mineiro não seria capaz de arrancar, à dentadas, o órgão genital de determinado menor. “Topada” a aposta e estipulada a quantia em dinheiro que deveria ser paga a João Mineiro pela realização do compromisso, este designou-se a levar a têrmo a inominável empreitada. Praticou o monstruoso crime, em plena via pública, acuando a vítima indefesa, que foi derrubada, desnudada, pisoteada e denominada pelo citado monstro, de extrema periculosidade, que consumou a aposta, seccionando o órgão genital do menino!

O desditoso menor encontra-se agora internado no Hospital de Sta. Casa de Araraquara, em rigoroso tratamento, que, conforme opinião dos médicos que o tratam, jamais poderá conquistar a sua perfeita integridade.

O monstruoso indivíduo foi preso e prestará contas de seu áto, estando a polícia empenhada na captura do outro elemento, o apostador com João Mineiro, pela co-autoria e responsabilidade do hediondo crime.

A notícia, fóra de dúvida, é de arrepiar. É de desejar, apesar de todo o nosso sentimento cristão, a existência da pena de morte para monstro que pratique um crime tão incrível como o referido.

Pra onde caminhamos, para onde caminha a humanidade?

Seguidamente manuseamos noticiários policiais verdadeiramente abismadores. Crimes sem nome, sem precedentes dentro de nossa própria vida. Quais as garantias que dispomos, contra monstros disfarçados que circulam pelas ruas, que perambulam pelos bares, alguns até que trabalham e são estimados pelos patrões?

Já pensaram os leitores, como se encontrarão agora os pais desse infeliz menino, vitima da sanha perversa desse anormal?

Não estamos fazendo sensacionalismo com êsse noticiário, que provêm, por sinal de boa fonte. Não o pincelamos ou colorimos com filosofia, idéias ou sofismas. Revelamo-lo como o conhecemos.

Não é mesmo um crime revoltante e sem precedentes? Não é mesmo um caso passível de pena de morte?

Extraído do Correio de Marília de 7 de março de 1959

domingo, 6 de março de 2011

Miscelania de notícias (6 de março de 1959)

No Triângulo Mineiro (e mesmo em São Paulo), continuam diversas pessoas a explorar a miséria dos desditosos nordestinos. Os retirantes do nordeste, famintos e miseráveis, ao tentarem a vida melhor no sul do país, são desumanamente vilipendiados em sua dignidade humana e negociados como animais, por “intermediários” desonestos.

Um verdadeiro tráfico de escravos brancos. Uma vergonha para o Brasil, a juntar-se ao rosário interminável da canalhice que, desgraçadamente, campeia por aí!

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O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico acaba de receber, sob empréstimo do chamado Ponto IV, mais dois bilhões e 350 milhões de cruzeiros.

Pergunta: Com tanto dinheiro, porque está tardando tanto a construção de Brasília?

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Desde terça-feira última, os preços dos pneumáticos sofreram um “aumentozinho” de mais de 18%. É esta a terceira elevação do custo dos pneus nos últimos 6 meses. Em média, um aumento cada 60 dias. E enquanto isso, o seringueiro do Amazonas anda nú, é explorado, morre de fome, de impaludismo e de esquistossomose. Viva o Brasil!

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Informou à imprensa o sr. Diogo da Silva Neto, superintendente do Serviço Funerário de São Paulo, estarem devidamente caracterizadas várias transgressões de agências de luto. Serão levadas ao juízo. Uma das transgressões ficou provado que haviam cobrado Cr$ 4.900,00 por um enterro de terceira classe, cujo custo real é de Cr$ 590,00. Tratava-se de gente muito pobre, que teve que fazer subscrição para conseguir tal quantia.

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Pergunta: Será que nem o preço da morte os Govêrnos não conseguem fazer baixar em nosso país?

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Dirigentes sindicais, estudantís e de organizações diversas, anunciaram ao Presidente da República, que, no próximo dia 19, partirá de São Paulo, rumo ao Catete, a “Maratona da Fome”. No Rio, os caravanistas encontrar-se-ão com os cariocas, mineiros e representantes de outros Estados, para protestar junto ao Presidente JK, com respeito ao absurdo custo da vida, pedindo a respeito, “providências enérgicas e imediatas”.

Dará resultado?

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O deputado federal Gabriel Passos, cujo nome está em evidência pela Frente Parlamentar Nacionalista para figurar na chapa dos candidatos a Vice-Presidência da República, declarou que o símbolo dos “nacionalistas” passará a ser uma onça, “que é um animal cem por cento nacional”.

O sr. Passos será no Brasil o maior amigo da onça, pois não?

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As companhias de aeronavegação, Real-Aerovias e Vasp, acabam de decidir oficialmente, a redução de 20% nas tarifas de suas linhas interioranas. A redução citada entrará em vigor no próximo dia 10.

Pergunta: Num país onde tudo sobe dia a dia (mesmo as passagens aéreas), não é de estranhar êsse fato?

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O gás liquefeito deu mais um “pulinho” de R$ 6,10 por unidade de quilo.

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Em São Paulo, o cidadão português Franklin Monteiro Cardoso atirou da janela de um apartamento na Av. Casper Líbero, regular quantia em dinheiro, representada por moedas divisionárias e cédulas de 5, 10, 20 e 50 cruzeiros.

A “chuva de dinheiro” foi disputada pelos populares, a sôcos e ponta-pés.

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No Estado do Pará, a COAP local acaba de tabelar o café a razão de Cr$ 120,00 o quilo.

Justificou a “mamãe” COAP paraense que o produto foi encarecido por que é transportado por via aérea.

Excelente desculpa, não?

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Em Cuba, com a execução do tenente Júlio Fernandes, o número de fuzilamentos de “criminosos de guerra”, ordenados por Fidel Castro, elevou-se a 365!

Certa feita Fidel Castro declarou-se católico. Não será o caso de perguntar se no Catecismo que êle estudou existe ou não aquêle mandamento que diz: “Não matarás”?

Extraído do Correio de Marília de 6 de março de 1959

sábado, 5 de março de 2011

Um problema gravíssimo (5 de março de 1959)

Aqueles que, por quaisquer motivos, tenham contacto constante com a Polícia e Juizado de Menores em Marília, ficarão por certo alarmados, em face ao índice acentuadíssimo de seduções de menores na cidade.

Raros são os dias em que as autoridades não se vêm obrigados a manusear ou instaurar processos desse quilate aqui em Marília.

São casos sem conta. Seguidamente as autoridades tomam conhecimento de motivos de seduções de meninas de até 13 ou 14 anos. As histórias originárias desses fatos, são quasi sempre as mesmas, embora com pequenas variações, mas resumem-se numa única e principal causa: negligência e abandono dos pais ou responsáveis.

Várias dezenas de menores foram seduzidas em Marília nos últimos tempos, colocando-nos, nesse setor, numa condição lastimável. Incontáveis menores, em consequência desses fatos, passaram a integrar o gigantesco exército das mulheres infelizes. Inumeráveis famílias foram tisnadas em sua honorabilidade, com o aparecimento de seduções de menores em seu seio e a maioria, senão a totalidade dessas desditosas meninas, dificilmente completará a função precípua da própria natureza, como donas de casa e mães de família dos dias de amanhã.

O problema póde ser social, póde ser moral, póde ser religioso. Seus estudos são complexos, as medidas de segurança e estancamento desse estado de coisas são múltiplas, variadas e difíceis de ser adotadas, escapando seus reparos à competência das próprias autoridades responsáveis, uma vez que a culpa, antes e acima de tudo, cabe aos pais e responsáveis dessas mesmas menores.

Os pais e responsáveis, que soltam suas filhas pelas ruas, concedendo-lhes todas as liberdades de movimentação e sem limites de horários, são os principais co-participantes dessa anomalia, que em Marília assume proporções tão assustadoras e desagradáveis.

Claro é que as autoridades à cuja responsabilidade estão afétos os casos citados, procuram, dentro da lógica e do próprio direito, atenuar ou consertar as situações, da maneira mais condizente possível. Esses “reparos”, entretanto, nem sempre contornam a situação, porque existem casos verdadeiramente “inconsertáveis”.

Muitos casos que aparecem na Polícia e no Juizado de Menores, a êsse respeito, não são na verdade, “casos de polícia”. São casos únicos dos próprios pais de família ou responsáveis pelas menores infelicitadas.

Devem portanto, os responsáveis e pais das mocinhas marilienses, especialmente as menores consideradas mais ingênuas, freiar mais e melhor as movimentações das mesmas, em primeiro lugar. Se isto não suceder, continuaremos a presenciar fatos verdadeiramente incríveis, no registro de ocorrências policiais e de menores em nossa cidade.

Todos os fatos oriundos dos diversos processos a respeito, prendem-se ao princípio da completa soltura soltura das meninas atingidas pelo fato em fóco; ou estudam à noite e “enforcam” as aulas para namorar, sem que os pais se preocupem em observar a frequência das escolas; ou andam livremente com “amiguinhas” mal selecionadas; ou viajam por onde querem, também com “amiguinhas”; algumas tem a liberdade de dormir fóra de casa diversas ocasiões, com a concordância plena dos pais ou responsáveis, que ignoram a verdade, aceitando as desculpas maliciosas das meninas, que alegam terem pousado “em casa de u’a amiga”.

Como se vê, descuido completo, total, inquestionável dos responsáveis. Estes são os co-participantes involuntários dos casos de seduções das próprias filhas, cuja cifra é verdadeiramente assustadora entre nós.

Extraído do Correio de Marília de 5 de março de 1959

sexta-feira, 4 de março de 2011

Um exemplo a ser imitado (4 de março de 1959)

Domingo passado, de regresso do aeroporto, fomos dar uma “sapeada” no “ginasium” do Yara Clube, onde estava sendo realizada uma competição de “jiu jitsu”.

Fomos como curiosos, porque para nós, pouca ou nenhuma diferença constatamos entre “jiu jitsu” e “judô”, uma vez que nada entendemos da técnica das mencionadas lutas.

Gostamos daquilo que vimos, embora tivéssemos alí passado como meteóro. Ordem, disciplina e organização, marcaram as demonstrações referidas, que concentraram lutadores de várias categorias e idades e de diversas cidades da Alta Paulista, inclusive Baurú.

Dentre as competições, na maioria “niseis”, tivemos a satisfação de constatar uma cifra considerável de brasileiros de origem não nipônica. E ficamos pensando na ocasião, os benefícios para o físico e para o espírito, daqueles jovens que alí se encontravam, disputando renhidamente o aludido campeonato. Ficamos pensando, como não seria melhor para a mocidade de hoje, se, ao envés de permanecer ocupada em outras ‘distrações’ inúteis, como porta de cinemas, namoricos improdutivos dentro do setor precípuo das normas da própria vida, bebericagem nos bares etc., se interessasse mais e melhor pelos esportes, especialmente os esportes amadores, aqueles que são rígidos por técnicas comprovadas, que só pódem fazer bem física e mentalmente.

Felizmente, tais classes de esporte, que até há pouco, eram considerados privilégio dos nipônicos e seus descendentes, estão conseguindo atrair as atenções e a preferência de outros brasileiros. O número dos praticantes desses esportes tem aumentado gradativa e consideravelmente nos últimos tempos.

Pensando nisso, comentávamos o fato com os nossos companheiros da curta viagem. E, apontado as vantagens entre um rapaz preocupar-se nas horas de lazer entre o esporte sadio e bem intencionado e bem dirigido e o “dolce far niente” das avenidas, todos conviram com nosso ponto de vista. Na ocasião, até um companheiro aproveitou a “deixa”, para “passar um sabão” num filho que nos acompanhava, fazendo-o ver as vantagens de uma vida assim, dentro do esporte e a vida que o garoto pretende levar, isto é, “descansar”, dormir e ir aos cinemas, quando não está nas aulas.

O outro amigo nos dizia também que vive a insistir com seus filhos jovens, para que se dediquem à natação ou outras modalidades esportivas, cujos benefícios serão usufruídos pronta e positivamente.

Daí pensamos então, em dirigir um apêlo à nossa mocidade, no sentido de que se aproxime mais dessas competições. Os japoneses nos dão exemplos frizantes e indispensáveis nesse setor. Amor ao esporte, disciplina e respeito às regras, com a prática das contendas de maneira sincera e cabal, tão francamente demonstrados pelos “niseis”, são exemplo dignos de ser imitados por nosoutros.

Toda a pessoa, especialmente sendo pai, que se dignar apreciar tais modalidades esportivas o espírito de confraternização que impera em certames como citado, verificará facilmente que de tais práticas, só advirão benefícios físicos e espirituais para seus contendores. E por certo, há de preferir que seus filhos cuidem com mais insistência desse campo, do que de outras “atividades” que se consideram por aí afóra, “próprias da idade”, mas que, na realidade, contém toda a perniciosidade inimaginável.

Extraído do Correio de Marília de 4 de março de 1959

quinta-feira, 3 de março de 2011

Calor, sim, “seu” guarda? (3 de março de 1959)

O cinema estava repleto, apesar do calor infernal. Nem uma leve brisa soprava na cidade. Até a esquina conhecida como “ventilador de póbre”, alí na confluência da Avenida com a Rua 9 deixava de apresentar as costumeiras correntes do “vento levanta saia”.

Nos bares, os refrigeradores não venciam o esfriamento de bebidas, água ou refrescos.

Mesmo assim, o cinema estava super lotado. Gente transpirando a bicas, senhoras e senhoritas movimentando leques e ventarolas sem cessar, alguns cidadãos até sem paletó, apesar de contrariar o regulamento da casa de diversões.

Não suportamos o calor de estufa e saímos da sala de projeção. O guarda civil em serviço, deixou também o recinto e dirigiu-se à sala de espera. Estava com a túnica molhada de suor.

Perguntamos ao policial, qual a razão que nos últimos dias a guarda civil deixara de dar serviço em recintos fechados e mesmo nas ruas, com a camisa do tipo passeio, sem túnica.

Como bom policial e compenetrado funcionário, esquivou-se de entrar em detalhes sôbre o assunto, tendo nos declarado, tão somente, que “éra ordem”.

Não pretendemos aquí afirmar erro na referida ordem da direção da Guarda Civil, mas entendemos que em determinadas épocas do ano e em certas regiões do Estado, onde a canícula é mais acentuada, a Guarda Civil poderia permitir aos seus auxiliares, o uso de uniforme mais leve, com a dispensa da túnica. Aliás, até há pouco, mesmo aquí em Marília, tal fato se verificava. O uniforme para essas condições, era constituído apenas da calça de casimira ou de brim caqui e camisa tipo passeio, com gravata, placa numérica e a arma ou cassetête, conforme o caso. Um uniforme também decente, limpo, em ordem. E oferecendo aos militares nessas condições, a situação de sentirem menos o efeito do calor causticante de certos dias e certas noites do ano.

A Força Pública utiliza esse tipo de uniforme em serviço, a Guarda Civil já o empregou e pensamos que poderia continuar a empregá-lo. Afinal, o militar em serviço ou não, tem que andar cingido aos regulamentos, não póde andar “alterado” (desabotoado, etc) e deve ser um suplício, para um guarda civil principalmente nos cinemas, exercer as suas atividades dentro de uma túnica quente, num dia de calor sufocante, por três e até quatro sessões cinematográficas, em pé, sem poder sentar como é o caso dos policiais em serviços.

Não seria então o caso da Guarda Civil permitir aos seus auxiliares, que, conforme as regiões e as épocas de verão, voltassem a trabalhar sem túnica?

Esse problema é tão importante, que chegou recentemente a merecer até as atenções das autoridades eclesiásticas, que permitiram aos sacerdotes localizados em regiões quentes, a substituição da batina de casimira pela de linho leve e branco.

Nós não sabemos bem o que pensarão os senhores administradores da Guarda Civil, mas temos a certeza de que os próprios guardas, principalmente os que trabalham nas ruas e nos cinemas, receberão bem a modificação que permita o trabalho no calor, com a dispensa das túnicas de casimira, apesar de que as mesmas obedecem um talhe ajustável ao corpo, de maneira folgada e sem dificultar movimentos dos membros.

Será que estaremos errados?

Extraído do Correio de Marília de 3 de março de 1959