domingo, 29 de abril de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (8)


Lembrava-se. Ele era um pequeno, muito pequeno. Sete anos, talvez. Mas o fato marcara muito. Ficara indelevelmente gravado. Antes – tinha a certeza – nunca tivera observado ou sentido tal. Verdade mesmo. Nunca tivera sentido tanto medo. Medo de defunto.

Era um dia comum. Para a idade de criança assim, no sítio, todo dia é comum. Ele e mais alguns amiguinhos, os mesmos de sempre, brincavam na sombra da grande paineira.

Foi quando chegou o Mario. Também da turma. E a notícia, dada pelo próprio Mario:

- Meu pai si morreu...

Todos ficaram surpresos, como nem acreditando. Thiago disse:

- Vâmu vê?

E saíram todos. Ele também. Mas pensando em nada. Como se fôra um deslocamento natural. E isso foi o ruim. O despreparo psicológico, o impacto, a surpresa. Foi o que aconteceu.

Quando entraram na sala, havia pouca gente. O cadáver estava estendido sobre a mesa, sem o caixão, pois alí, na ocasião, a urna só era feita depois da morte, pelo carpinteiro Adão.

Ele sentiu uma coisa assim como um peixe quando engole o anzol e é fisgado com força. Sentiu uma repentina tonteira, os olhos ofuscaram, quando olhou aquele corpo inerte, de cor macilenta, olhos de brilho opaco, completamente abertos.

Saiu correndo. Entrou em casa, fechou-se no quarto. Sentiu medo, pois lhe parecia que o defunto estava alí, fitando-o sério, com os olhos abertos, brilhantes e aterrorizadores.

Não saiu de casa. Não quis almoçar, pois o bife que a mãe havia frito, lhe parecia ser de carne de defunto...

Por mais de um mês, precisou dormir na cama da mãe, apesar dos protestos do pai. O trauma fôra muito grande.

Abel, esse o menino.

Anos depois, já homem, continua com o medo de defuntos. E sempre lembra do caso do pai do Mario.

Trabalha normalmente, vive com qualquer cidadão, mas é um autentico covarde. Para ir a um velório, só quando não há meio de escape, fica do lado de fóra, nem olha para a câmara mortuária.

Consultou médico psiquiatra para saber. O médico atribuiu o caso a um trauma, mas recomendo via sugestão, o habituamento da situação, com a aceitamento e esquecimento do passado.

Mas a situação continuava insustentável. Por mais que procurasse usar a auto-sugestão, a condição permanecia a mesma: medo de defunto.

Aconselhado por um amigo, foi procurar um curandeiro, o Mané Curadô.

Expos o caso, do começo ao fim. O Mané ouviu com atenção e interesse. Pensou, pensou. Depois deu a consulta:

- Óia, seu Abér... prá combatê fôgo, se usa fôgo de contra... prá mordidura di cóbra, si usa venêno di cóbra... prá perdê medo di difunto, é pricizo infrentá difunto...

E aconselhou o Abel, que assim que morresse uma pessoa, que ele se enchesse de coragem, preparando bem o espírito e indo até o velório. E que lá, criasse bastante força de vontade e bastante coragem e... beijasse a sóla do pé do defunto. Seria o suficiente e nunca mais sentiria medo de morto.

Abel pensou bem e achou que seria melhor fazer essa tentativa, do que passar o resto da vida mergulhado nessa traumática situação.

Falou com seu mais íntimo amigo, o Carlão. Este que conhecia bem o caso, printificou-se a dar-lhe forças.

Tempos depois, morreu a Clarinda, mulher do Vicente. O próprio Carlão foi procurar o Abel e propoz-se a auxiliar. Abel relutou, mas ante a recordação das palavras do Mané Curadô, sentindo segurança no apoio e solidariedade do amigo, resolveu enfrentar o sacrifício.

Eram umas 10 horas da manhã e o sepultamento estava previsto para às 17 horas. Carlão entrou primeiro, para conversar com o viúvo, que, por sinal, sabia do problema do Abel. Este consentiu e foi preciso tirar o sapato do cadáver.

Foram buscar o Abel, que estava mais pálido do que uma vela de cera.

Este entrou amparado pelo amigo Carlão. Todo mundo em silencio. Sem que fosse notado, outras pessoas souberam ou perceberam o que ia acontecer e adentraram também na sala fúnebre.

Todos os olhares voltados para Abel e Carlão. Este cochichou para o Abel: “Crie coragem... agora ou nunca...”

Abel aproximou-se, abaixou-se junto aos pés do cadáver. Carlão levantou o pé fora do caixão. O moço tremeu, fechou os olhos e beijou a sola do pé da morta. E saiu da sala.

Todo mundo em silencio. Teodorico, que havia chegado instantes antes e que não sabia do caso, depois de ver o Abel ter beijado a sóla do pé da falecida, não se conteve e falou:

- Bejá pé di difunto?... Isso é gosto di porco...

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 18/8/1988

segunda-feira, 23 de abril de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (7)



Razão tem antigo brocardo, quando afirma: “Na briga de sirí com caranguejo, quem acaba apanhando é o camarão”.

Assim era a cidadezinha de Varjão da Purunga. Situada entre duas outras cidades desenvolvidas e visceralmente rivais. Não tinha tempo, nem espaço, nem chances de progresso. Estava fadada a um ostracismo permanente. De um lado, Poço do Sossego, crescendo sempre. De outro, Bananeiral, igualmente desenvolvendo-se. E ambas procurando cada vez maior agigantemento progressista, estavam sufocando Varjão da Purunga.

Esta havia nascido fadada ao acomodamento compulsório. Município de pequena área; cidade pequena, cheia de problemas; arrecadação municipal, diminuta; carente de tudo: escolas, rede de água, esgôto, estradas, guias de sarjetas e tudo o mais que representa sinal de mínimo comezinho progresso.

Aproximavam-se as eleições municipais e havia muita frieza quanto à eleição do novo prefeito. Os que por ignorância de realidade se animavam a candidatar-se, possibilidades não tinham. Os que, havendo chances preferenciais, sabedores do espeto e das pepineiras que iriam topar pela frente, não se animavam à disputa.

Edgard éra o secretário, tesoureiro e fiscal geral da prefeitura. Entrava e saia prefeito e ele lá, firme como o Pão de Açúcar. À rigor, ele sempre fôra o prefeito de fato. Não o revelava, mas ele, o Edgard, éra o mais interessado e o mais preocupado na eleição do novo prefeito, pois disso dependeria sua permanência no cargo, até quando chegasse a aposentadoria.

Porisso Edgard bolou o lançamento da candidatura do Onofre Perdigão à Prefeitura de Varjão da Purunga. Hábil e sigilosamente, conseguiu dobrar e convencer seu Perdigão, que era sitiante e tinha a única olaria do município, sendo inclusive fornecedora de tijolos para setores de construções de Poço do Sossego e Bananeiral.

Além do Onofre, mais dois outros candidatos surgiram também. Os nomes – como não poderia deixar de sê-lo – foram arquitetados por Edgard, numa estratégia que passara desapercebida por todos os varjenses. Sem possibilidades, sem lastro política, sem programa de governo e, ainda, semi-analfabetos.

Chegou o dia do pleito, a expectativa e a ansiedade – do Edgard, claro. No final da apuração, vitória folgada do Onofre Perdigão.

Passada a euforia eleiçoreira e a posse do novo alcaide, a vidinha de Varjão da Purunga voltou à normalidade. Perdigão comparecia pontualmente ao gabinete, mandava chamar Edgard e com ele traçava os planos de trabalho. Melhor dizendo, era informado pelo assessor de tudo o que deveria fazer e assinar naquele dia.

Por sugestão de Edgard, pediu uma audiência ao Governador e lá foram os dois ao Palácio. Levaram mapas e plantas, esboços e planos e acabaram arrumando um regular empréstimo governamental. De regresso, devidamente instruído por Edgard, o prefeito deu entrevista à Rádio Difusora e ao jornal “A Cidade”. Expos planos de remodelação de duas pontes, de início aos trabalhos da construção de guias de sarjeta na parte central e de melhoria na estrada que ligava ao matadouro.

O povo exultou e para a felicidade do Onofre, tudo caminhou bem, sendo certo de que, quatro meses após, muita melhoria já era visível na cidade.

O prefeito estava verdadeiramente endeusado e eufórico. Edgard traçou uns pauzinhos e conseguiu atrair repórteres de Bananeiral e Poço do Sossego para alardear o progresso de Varjão da Purunga e as obras do prefeito, “o maior administrador do século”.

Um dia, Edgard sugeriu ao prefeito, que organizasse uma visita de inspeção às obras em realização no município e para isso convidasse a imprensa e pessoas interessadas.

Foi feito. No carro da Prefeitura e no jipe do Fiscal Geral, a caravana visitou diversas realizações, como aterros, combate à erosão, reparos de pontes e de estradas e outras.

Onofre ficou intrigado, mas nada disso no momento. Ficou “cabreiro”, porque em todas as realizações de sua administração lá havia uma tabuleta, que ele não entendia porque.

Depois da visita, já no seu gabinete, mandou chamar o secretário. E disse: “Seu Edgard, tenho ouvido falar em Petrobrás, Eletrobrás, Gasbrás e outros nomes parecidos... mas em todas as obras que visitamos hoje, em todas elas, havia uma tabuleta com uma firma que eu não conheço e que nem sei o que ela faz na minha cidade... que tal “Emobrás” é essa que encheu a cidade de tabuletas e que eu não conheço?”

Aí o assessor baixou a cabeça para evitar um sorriso e esclareceu:

- Seu prefeito, as tabuletas que o senhor viu não dizem “Emobrás”... dizem simplesmente “Em obras”...

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 18/8/1988

domingo, 15 de abril de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (6)



A laboriosa população da pacata cidadezinha de Varjão da Purunga andava preocupada. O povo conversava e comentava sobre a seguida onda de assaltos a bancos, a postos de gasolina e até contra pacíficos rapazes de escritórios, quando estes se dirigiam a estabelecimentos bancários.

“Aqui não há perigo”, diziam muitos, numa tentativa de falso auto-controle, mas temendo que um dia o caldo pudesse também entornar.

“Qual o que! Varjão é cidade pequena e póbre e ladrão de fóra não vai querer perder tempo em vir assaltar nosso banco aqui”, é o que dizia seo Matias, o gerente da agência bancaria da cidade.

Mas uma espécie de psicose disfarçada tomava conta de todos. Medo, mesmo. Queriam ocultá-lo, dissimulá-lo, mas ele, o medo, existia.

Também, aquele locutorzinho da Rádio Difusora, rapazinho pernóstico que havia chegado da Capital – segundo ele mesmo dizia – estava criando um clima de muita tensão. Ele lia ao microfone as notícias mais trágicas e sensacionalistas, extraídas de um pasquim tipo pinga-sangue, que ele recebia diariamente pelo ônibus que chegava à tarde.

Anézio, esse o nome do locutor, esmiuçava, recortava, montava notícias para o resto do dia e para o dia imediato, até a chegada da nova edição de novo pinga-sangue. Era um recurso profissional, não havia dúvidas, mesmo porque os fatos naturalmente ocorridos no local eram poucos e praticamente rotineiros e também, porque a emissora não dispunha de nenhum veículo ou fonte de informativa para manter e alimentar os horários de todo o dia, cuja maioria do espaço-tempo era consumida com as apresentações de sessões de oferendas musicais.

A vida continuava.

Um dia o desassossego tomou conta dos habitantes de Varjão da Purunga. É que o banco da cidade vizinha de Poço do Sossego havia sido assaltado em plena luz do dia, com o estabelecimento cheio de clientes. Os ladrões levaram tudo o que puderam e disso se aproveitou o Anezio para sensacionalizar a notícia, inclusive chamando as atenções de todos, como se estivesse, ele próprio, a prever um assalto ao banco de Varjão da Purunga.

O povo ficou revoltado. O Padre Bartolo, mais algumas autoridades, inclusive o delegado e o prefeito, estiveram na emissora e reclamaram do proprietário, contra o comportamento do locutor Anezio, pedindo medidas de prudência e ausência de sensacionalismo, na divulgação das notícias gerais e especialmente os policiais.

Alguns dias depois, todo aquele sensacionalismo caiu no esquecimento e a vida da pacata Varjão da Purunga retornou seu padrão de normalidade.

Mas aconteceu.

Éra dia 10 do mês. Dia de pagamento da maioria das poucas empresas. Todo mundo feliz, com os cheques nas mãos, lotando o banco e aguardando a vez do atendimento. Uns conversando, outros exteriorizando planos, num papo informal e espontâneo.

Foi rápido como um relâmpago.

Uma meia dúzia de indivíduos estranhos, todos armados, tomaram posições estratégicas, exibindo os “paus-de-fogo” e gritando que era um assalto, que ninguém se mexesse, pois comeriam chumbo.

Todo mundo quieto, todo mundo lívido.

Seo Armando, o inspetor de quarteirão, notou que os assaltantes pareciam todos estrangeiros. Um deles pediu ao caixa Carlos que pusesse todo o dinheiro numa sacola e não tentasse nada. Todo mundo com os olhos esbugalhados. O funcionário, olhando assustado para o cano de um grande revolver para ele apontado, foi soltando todo o dinheiro. Quando a sacola estava cheia e ele ameaçou levantá-la por cima, vez que não cabia na boqueta do caixa, o ladrão guardou o revolver e disse num bom vernáculo, em alto e bom tom:

- Póde guardaire todo o dinheiro... isto não foi assalto, foi apenas um ensaio... o assalto verdadeiro vai aconteceire quarta-feira, às 14 horas...

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 17/8/1988

segunda-feira, 9 de abril de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (5)



Ele se sentia ofendido. Mais do que ofendido, ferido em seu amor próprio. Só uma vingança, mesmo que fôra sórdida, poderia cicatrizar a marca da ingratidão que entendia ter sofrido.

Ele iria vingar-se, sim. De que forma, não sabia, mais iria vingar-se. Iria ser o último a rir, mesmo que ela chorasse com o resultado.

Sentado junto à mesa do bar do Tonhão, rodava lentamente com a mão direita o copo de cerveja quase vazio. A garrafa estava com mais da metade do líquido, mas tanto tempo fazia que fôra aberta, que já havia esquentado.

E pensava:

Sempre gostara dela, sim. E dera mostras disso. Ele sabia que sempre fôra trabalhador e honrado, estimado por todos, porque sempre se comportara como homem de responsabilidade.

Tudo caminhava bem, até o dia em que chegou na cidade, indo hospedar-se na pensão da mãe da Diva, aquele carinha metido, cheio de coisinhas, funcionário do banco e que havia sido removido da Capital.

Num abrir e fechar de olhos, aquela coisa, o Nivaldo, conseguira impressionar a Diva, sua namorada. Dona Maria, mãe de Diva, tratava o hospede como um filho, cercando-o de todo carinho e conforto. E aconteceu: Diva resolveu romper o namoro antigo com o Fausto, que trocou pelo Nivaldo.

Sim, ela foi franca: contou que havia sentido despertar um verdadeiro amor. Fausto contra-argumentou, mas ela estava decidida e irredutível. E foi mais além, afirmando que Nivaldo, moço fino e de grande futuro, lhe havia aberto os olhos, porque ele, Fausto, não passava de um simples pé-de-chinelo. Na ocasião ele sentiu-se inativo, baixou a cabeça com o rude golpe, virou as costas e saiu. Tudo estava irremediavelmente perdido.

Fausto levantou-se da cadeira, dirigiu-se ao balcão, pagou a cerveja e saiu do bar.

A cachorrada latiu com a aproximação do visitante. A porta da casa foi aberta, apareceu o Dito Benzedô, que gritou com os cachorros e disse em tom alegre:

- Bom dia, sô Fausto... póde chega... os cachorro não vai mordê, não.

Dito Benzedô era curandeiro, fazia benzimentos, lidava com búzios, realizava simpatias e dava garrafadas de remédio, resolvendo todas as espécies e casos complicados e carentes.

Fausto contou tudo, tim-tim-por-tim. E pediu solução para sua vingança engendrada.

O curandeiro falou que ele tinha que arranjar cinco sapos, fechá-los num cubículo, deixando uma vasilha com água. E não alimentá-los de forma alguma. Todos os dias, olhas os bichos. Com o passar do tempo, eles começariam a definhar, pela fome. Um teria que morrer primeiro. Quando encontrasse um sapo morto, soltasse os outros quatro.

Fizesse um amassado de carvão, até reduzi-lo a pó. Com o pó de carvão, desenhasse uma cruz nas costas do sapo. Jogasse um pouco de água benta nos olhos do réptil morto. Fizesse um embrulho e mandasse entregar à Diva. Por portador ou pelo correio. Ela iria assustar-se ao abrir o embrulho, mas o efeito já estaria configurado, só no recebimento da encomenda.

Garantiu o Dito Benzedô:

- Dentru di treiz dia, ela procura u sinhô. I vai pidí prá si intregá tudinha. Aí u sinhô faiz a vingança nela i nu armofadinha du Nivardo...

Passaram-se dois meses e um dia, na porta da farmácia do Juvencio, o Dito Benzedô topou o Fausto. Cumprimentaram-se e o curandeiro perguntou:

- Feiz a mandinga? Deu certo, num deu?

Fausto contou que acertou com o Paulinho da dona Lavinia, para ele caçar os cinco sapos. Demorou quase uma semana e o Paulinho apareceu, trazendo os cinco répteis.

Fausto colocou os animais num viveiro, como fôra instruído e só no segundo dia é que notou que o Paulinho se enganara e, ao invés de trazer cinco sapos, trouxera cinco rãs.

E o Dito indagou o que ele havia feito com as rãs.

Respondeu o Fausto:

- Comí elas...

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com data de 17/8/1988

segunda-feira, 2 de abril de 2012

TIPOS & COISAS E CASOS (4)



Tudo aconteceu de maneira que ninguém esperava.

Miro, o Waldomiro da olaria, co-protagonista da estória, nem poderia sonhar com semelhante fato. Mas acabou acontecendo.

Waldomiro gostava e costumava passarinhar. Caçar algumas rolinhas, pombas e perdizes, de preferência. Suas caçadas eram marcadas pelo fracasso. Quase sempre “perdia a viagem”, isto é, pouco ou nada consegui de uma boa caça.

Ele justificava que era falta de sorte, mas o fato mesmo é que o Miro além de ter uma espingardinha do tipo pica-pau muito velha e ultrapassada, era bem ruinzinho de tiro.

Certa feita, disposto a fazer uma boa figura e sonhando azoidamente em mostrar para os amigos todos uma caçada convincente e de fazer inveja, Miro avançou mais do que de costume. Acabou por atingir uma pequena várzea.

Lá perscrutou, observou, sondou, andou e acabou dando em nada. Apenas uma perdiz num vôo rasteiro, inesperado, assustada com o homem, acabou assustando também o caçador.

Nem um tirico, nem uma avezita.

Desanimado, com sempre, Miro resolveu sentar para descansar um pouco. Tomou um gole de café, no gargalo do vidro de xarope de limão bravo que trazia sempre cheinho do móca.

Nisto, uma algazarra tremenda, guinchos, assobios. Era um bando de macacos que viajava de árvore em árvore, saltando com muita graça e maestria de um galho ao outro.

Inopinadamente deu na moringa do Miro de abater um mico.

Engatilhou o cão da espingarda, apoiou-se junto a uma árvore e ficou mirando o lugar melhor. Quando um deles ameaçou pular para o outro galho, Miro pregou fogo.

Aconteceu que dois dos macacos ensaiaram e marcaram o mesmo pulo, para o mesmo galho. Mas um chegou primeiro e com o peso a copa da árvore envergou. Fração de segundo, o outro vinha com o mesmo objetivo, mas encontrou o vácuo e por mais que tentasse agarrar-se em algo, acabou estatelando-se no sólo. A pancada deixou o símio semi-desmaiado. Waldomiro tirou depressa a camisa, enrolando-a no braço e aproximou-se do animal, agarrando-o, com a camisa protegendo a mão das possíveis dentadas do mico.

Waldomiro chegou em casa trazendo o macaco, ao invés de rolinha, pomba ou perdiz.

Aproveitou uma coleira que pertencia ao cachorro Duque e ajustou-a no pescoço do macaco, que batizou com o nome de Chico.

Chico ficou amuado por uma temporada, mas com o passar do tempo já aceitava as bananas e os afagos do amo. Em menos de dois meses o macaco já estava adaptado com o novo lar e provavelmente algo olvidado de seu verdadeiro “habitat”.

Miro, aos domingos, ia até os vizinhos e levava o Chico. Todos apreciavam o macaco e pediam-no para o Miro ou ofereciam-se para compra-lo. Mas Miro era irredutível, achava-se um grande herói pela façanha e um cara muito feliz por ser proprietário do Chico.

Durante o dia, Chico perambulava pela casa, sempre amarrado e à noite Waldomiro punha-o num viveiro, no quintal, onde o macaco dormia.

O que tinha que acontecer, aconteceu.

Miro já tinha muito amor pelo macaco. Dispensava-lhe muitas atenções e carinho.

Num sábado, seria realizado um grande baile no sítio do Bonifácio e Miro estava doidinho para ir, pois pretendia bater um papo longo com a Dirce, filha do anfitrião. De há muito Miro alimentava a esperança de namorar a moça, que diziam na ocasião éra “um pedaço”.

O baile transcorreu todo animado. Miro feliz, pois encontrou a correspondência de Dirce em seus planos e alí começou o esperado namoro.

Lá pelas tantas, o tempo mudou. Começou a ventar, escureceu mais e acabou caindo um verdadeiro toró.

Waldomiro pensava no macaco, que sempre tivera muito medo de chuva e trovoadas.

Ao chegar em casa, na manhã seguinte, Miro teve uma surpresa que quase lhe provocou um colapso: Chico estava dependurado pelo pescoço e sem vida.

Provavelmente, ao tentar escapar do temporal, acabou enrolando-se com a corrente e os suportes que utilizava para pular e acabou morrendo por asfixia.

No dia seguinte, depois do almoço, a namorada Dirce foi até a casa do Miro para saber sobre o macaco, pois o rapaz estivera muito preocupado.

Chegou e perguntou pelo Chico.

E o Miro, sem poder disfarçar profunda e decepcionante dor, explicou:

- S’inforcou-se!

Extraído dos arquivos pessoais de José Arnaldo com a data de 18/8/1988