sábado, 30 de julho de 2011

A nova “Miss” Universo (30 de julho de 1959)


Conforme é sabido, acaba de sagrar-se vencedora do concurso universal de beleza feminina, a jovem Akiko Kojima, representante do país do Sol Nascente. O resultado repercutiu como o efeito de uma bomba inesperada, pois, em sã consciência, nem mesmo os japoneses alimentavam uma sólida esperança de vitória.

Não vai aqui, nenhuma insinuação à falta de lisura do certame e muito menos a suspeita de que a beldade nipônica não seja merecedora do cobiçado cetro que acaba de conquistar; absolutamente.

Não vai, igualmente, qualquer ressentimento nacional ou algum motivo de “dor de cotovêlo” pela contundente classificação no quinto pôsto, pela representante brasileira, Vera Ribeiro. Mas de tudo isso, parece-nos que a finalidade verdadeira dêsse certame está ainda oculta e é desconhecida pela maioria das gentes. Percebe-se com alguma facilidade, a existência de uma certa política inter-bastidores, destinada a agradar povos e nações. Ou é isto, ou os membros do júri que decidem a sorte anual das novas “Misses” Universo, não estão muito bem cingidos ou enfronhados na questão de acertar com a escolha da mais bela concorrente. Repetimos, para que não paire dúvida, que nosso caso não se endereça a recém-eleita “Miss” Universo. Falamos em tése.

O Brasil, pelo que se percebe, ficou satisfeito com o vice-liderança em repetição, mesmo quando enviou para Long Beach a concorrente indiscutivelmente mais séria, que foi Marta Rocha. O tal caso das duas polegadas não convenceu a ninguém, mesmo os próprios americanos, que comentaram como injusta a decisão do júri, quando alojou Marta Rocha em segundo lugar. Posteriormente, nosso país voltou a “repetir a dose”, desta vez com injustiça, porque a representante do Rio Grande do Sul, sinceramente, não apresentava qualidades para a segundo classificação. Verdade seja dita. Nem mesmo a “Miss” Bahia.

Parece que o intuito do certame, é agradar os países mais diretamente ligados aos Estados Unidos, conforme já vimos. E. se assim for, considerando que nossa situação é permanentemente de “persona grata” com os americanos, dificilmente alcançaremos esse posto, pois existem outras nações que apresentam maiores motivos internos para serem alvo de agrados nesse sentido.

Está claro que isto é uma suposição. Mas que tem a sua lógica, se convenientemente analisada, isso nem se discute.

No caso de Marta Rocha, jamais nos convenceremos e voltaremos a repetir aquilo que já dissemos no passado: Nem o Brasil jamais apresentará uma candidata de méritos tão completos em beleza feminina como Marta Rocha na ocasião e difícil outra nação conseguirá apresentar uma candidata que venha a superar a Marta Rocha quando foi eleita vice-“Miss” Universo!

Autoriza-nos a afirmar tal fato (embora apresente alguma coisa de convencimento eu pretensão) a observação que temos feito, dos concursos desse jaez, de suas candidatas, após o segundo pôsto alcançado por Marta Rocha. Os que atentarem para o que estamos afirmando, convirão conosco facilmente, e se estivermos certos, no próximo ano, vencerá o concurso, não propriamente a que for mais bonita, mas sim a moça que representar um país que urja maior simpatia e entrelaçamento político com os Estados Unidos. Nessas condições, não se admirem os leitores, se sagrar-se vencedora do próximo certame, a representante da China Nacionalista, de Cuba ou da Argentina (países enquadrados mais diretamente nas considerações referidas). E, nesse pensar, afirmaremos ainda que se a Rússia enviar a mulher que de fato seja a mais bela das concorrentes, esta não pagará “nem resfriado” em Long Beach.

Vamos agradar o próximo concurso para verificarmos se estamos certos ou não.

Extraído do Correio de Marília de 30 de julho de 1959

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Parabéns, Marília! (29 de julho de 1959)


Brilhou mais uma vez a bandeira desportiva de Marília, com o belíssimo feito da mocidade mariliense, nos recentes III Jogos Abertos da Alta Paulista, realizado em Oswaldo Cruz.

A plêiade de atletas da “cidade menina” soube conquistar para as cores do desporto amador local, a maioria dos prêmios e troféus, das diversas modalidades esportivas que se desenvolveram na ocasião. Em número de participantes conquistou Marília também o primeiro pôsto e na contagem geral de pontos, sagrou-se campeã dessa competição regional de amadorismo.

Fizeram bonito os rapazes e moças marilienses, ao dar mais essa prova de sadia esportividade, de luta renhida pelas cores do desporto local. Impressionaram pela conduta, pela educação e civismo. Souberam representar condignamente as tradições gloriosas já inseridas nas páginas da história esportiva de Marília, Acrescentaram mais um belíssimo louro à “corbeille” de vitória esportivas de Marília, recentemente enriquecida com a vitória espetacular do mariliense José Carlos Segalla, atual campeão brasileiro de tênis de quadra, na categoria infantil. Ilustraram ainda mais o nome auspicioso e brilhante de Tetsuo Okamoto, do saudoso Dermânio da Silva Lima e de tantos outros nomes fulgurantes da constelação esportiva de Marília.

A Comissão Central de Esportes e a Delegacia Regional de Educação Física e Esportes de Marília, bem como seus diligentes colaboradores, conquistaram, igualmente, um honroso quinhão dessa estupenda vitória, pelo esforço, despreendimento, abnegação, orientação e assistência dispendidas para o bom êxito final dessa importantíssima jornada. Igualmente o comércio e indústria locais, bem como a imprensa e rádio, souberam prestigiar, amparar e enaltecer o feito brilhante dessa mocidade elogiável.

Vitória de Marília, conquistada por marilienses autênticos, para orgulho de Marília, de seu desporto amador e de todos os marilienses. Está Marília de parabéns, como, igualmente, de parabéns estão os jovens que tão esplendidamente foram capazes de perpetuar essa vitória magnífica e indiscutível.

Mais alto ainda foi içada a bandeira do amadorismo local, pois a vitória de Marília, disputada renhidamente, frente a adversários locais e lutadores, apresenta um sabor mais concreto, de valor ainda mais elevado e mais real.

“Mens sana in corpore sano”, lema que tão bem norteia a prática de esporte, foi o cartão de identidade da delegação mariliense, nos III Jogos Aberto da Alta Paulista. Mais gualhardão de glorias foi acrescentado ao nome de Marília esportiva, num certame escoficial, de âmbito regional, onde competiram delegações de escól, algumas de poderio verdadeiramente relevante, Marília só conseguiu vencer, porque foi mais coesa, mais capaz, mais lutadora e mais destemida. Nossos parabéns a essa mocidade brilhante, que realizou tão brilhante feito. E nossos votos para que jamais lhe falte o mesmo apôio e o mesmo carinho que tão eficientemente lhe foi proporcionado por ocasião das últimas disputas esportivas de Oswaldo Cruz.

Parabéns, jovens esportistas.

Parabéns, Marília!

Extraído do Correio de Marília de 29 de julho de 1959

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Plano de Ação do Governo Estadual (28 de julho de 1959)


Dignos dos mais altos encômios de todos os paulistas, é o plano de ação preconizado pelo professor Carvalho Pinto, norteando as diretrizes de sua gestão frente ao Govêrno de São Paulo.

Se o Estado bandeirante, de modo geral, irá receber uma onda gigantesca de impulso ao seu já vertiginoso progresso, a “hinterlândia”, de maneira será a parte mais diretamente beneficiada, eis que, os alvos colimados estenderão as raízes benéficas de uma ação extraordinária e patriótica, por todo o interior paulista.

Em síntese, será a seguinte a orientação do Govêrno Carvalho Pinto, no propalado Plano de Ação:

Aumento da capacidade elétrica do Estado, para 900.000 kw.; construção de 8.000 quilômetros de rodovias asfaltadas, construção de 400 pontes e auxilio financeiro aos municípios, para a edificação de 600 outras; reerguimento das ferrovias, substituindo a tração a vapor pela diesel-elétrica; melhoria geral dos pôrtos paulistas, marítimos e fluviais, especialmente a do Pôrto Epitácio; construção de armazéns e silos e melhores providências favoráveis à mecanização agrícola; novos rumos orientadores à pecuária, objetivando maior aperfeiçoamento e maior rendimento de produção; maior desenvolvimento industrial e modernização industrial e modernização da agricultura com mais eficiente e palpável crédito financeiro; criação e instalação de mais 7.000 salas de aula para melhor atender às exigências do ensino primário; instalações adequadas aos ginásios oficiais e construção de mais 116 estabelecimentos de ensino secundário; reestruturação do quadro do ensino profissional, com instalação de novas escolas de 1º ciclo e 4 novas escolas técnicas; aparelhar eficientemente todos os cursos superiores, como estímulo à cultura e amparar a pesquisa cientifica; melhorar as instalações esportivas de todas as escolas, em seus diversos graus; construção de 8 delegacias regionais de saúde; instalação de mais 100 postos de assistência médica; instalação de 10 unidades médicas polivalentes; instalações de mais 19 postos de saúde; instalação de mais 6 centros assistenciais; instalação de 1 posto de puericultura em cada município; auxílio às organizações hospitalares particulares, com subvenções de 18 milhões de leitos-dia; instalações de 6 dispensários anti-tuberculose e entender a atuação de todos à todas as regiões do Estado, através de 12 equipes móveis; construção de 1 Hospital de Cardiologia e instalar 20 Ambulatórios especializados, anexos às unidades sanitárias; aumento do número de leitos no Hospital Franco da Rocha; instalação de 10 ambulatórios para atendimento de enfermidades mentais.

Importantes outros serviços, fazem parte dessa méta governamental, como, por exemplo, de interesse da saúde e assistência social, da justiça e segurança pública, do sistema de água e esgoto, comunicações, etc...

Com a efetivação desse Plano de Ação, durante a sua gestão nos Campos Elíseos, o professor Carvalho Pinto conquistará, em definitivo, uma condição de excelente governador e de perfeito administrador de Estado, carreando-o para o ról dos mais completos governadores da própria História de São Paulo.

Urge o acercamento de todos os paulistas, inspirando ao professor Carvalho Pinto, os votos sinceros de real concretização desse maravilhoso e bem concatenado plano de ação, coordenadas de grande visão e extraordinário tirocínio administrativo, que trarão felicidade, progresso e desenvolvimento ímpar ao nosso grande e rico Estado.

Parabéns, Senhor Governador!

Extraído do Correio de Marília de 28 de julho de 1959

terça-feira, 26 de julho de 2011

Cavalos “papa milhões” (26 de julho de 1959)


Chegou a Santos ante-ontem, tendo ancorado no cais do armazém 30 da Cia. Docas daquela cidade praiana, o navio “Carlos Harnever”, procedente de Valparaiso, Chile. O vapor referido trouxe 14.490 sacas de aveia, num total de 932.400 quilos do citado cereal.

Até aí, nada de mais, conforme poderá parecer. E para alguns leitores, a informação que serve de preâmbulo ao nosso escrito de hoje, poderá parecer esdrúxula ou insôssa. Acontece que não o é. Vejamos porque.

Simplesmente pelo motivo de que a carga em alusão, destina-se à alimentação de cavalos de corrida, dos cavalos “papa milhões”, de propriedade de “tubarões” paulistas, os autênticos e indiscutíveis “barões da jogatina” de São Paulo.

Quanto custará, em cruzeiros, a fabulosa carga referida? Isso não importa, é lógico, porque o que prevalece no caso é o capricho de alguns endinheirados, o gosto pela jogatina desenfreada.

Enquanto a mesa do póbre falta o mais elementar alimento brasileiro, que é o pão (sem contar-se o leite, a manteiga, o calçado e o agasalho) os cavalos “papa milhões” do Jockey Club de São Paulo são alvos de tratamento verdadeiramente principesco. É mesmo um escárnio dos mais flagrantes e acintosos à piedade humana, o que ocorre a êsse respeito, enquanto milhares de crianças póbrem morrem sub-alimentadas em nosso país. Criancinhas esfarrapadas e mal alimentadas, sucumbem na própria Capital, nas infectas favelas e nas ruas da paulicéia, por falta de alimento. Os “barões” do turfe de São Paulo, procuram iludir a caridade pública, atirando de vez em quando, pequenas migalhas a fome da pobreza, numa falsa filantropia, para iludir os incautos e continuarem na caminhada abjeta e impune que empreenderam. Isto porque os cavalos de raça desses “tubarões” valem (para eles) mais do que a miséria, a fome, o impaludismo e o permanente estado de subnutrição do povo brasileiro.

O que é de admirar no caso em téla, é a facilidade com que esses desalmados “tubarões” do turfe paulista conseguem importar aveia e até leite em pó para os cavalos “papa milhões”, ficando a população póbre, à margem da concessão das necessárias divisas oficiais para a importação de leite em pó, medicamentos e outras necessidades imprescindíveis. A aveia chegada para os cavalos “papa milhões”, será desembaraçada pela Alfandega, com a brevidade possível, exigida pelos “barões” do turfe bandeirante, em contraste fragrante e desumano, com os estoques de leite que recentemente apodreceram nas dócas de Santos, por dificuldades burocráticas alfandegárias, cujo alimento tinha o destino piedoso de socorrer milhares de crianças famintas e póbres de nosso Estado!

A verdade aí está, para quem quizer contradize-la. A desfaçatez desse cometimento é tão ponteaguda, que fére, não só os brios da gente paulista, como, igualmente, a própria consciência da gente de nossa terra, se os “barões” do turfe tiverem consciência, é claro.

O que está acontecendo, o que já aconteceu e o que sucederá ainda nesse particular, não deixa de ser verdadeiramente abomináveis. É incrível, que algumas dezenas de “tubarões” endinheirados, continuem a pisotear tão impunemente abomináveis. É incrice da miséria paulistana e paulista, com a desenfreada contingência citada e a principesca vida dos cavalos “papa milhões”.

Extraído do Correio de Marília de 26 de julho de 1959

domingo, 24 de julho de 2011

Dia dos Motoristas (24 de julho de 1959)


Amanhã, 25 de julho, marcará a data consagrada aos motoristas. Na oportunidade, congratulamo-nos com a laboriosa classe dos profissionais do volante, gente que tem também a sua parcela de contribuição ao progresso nacional. Sejam os motoristas de praça, sejam os condutores de caminhões de transportes, os “chauferes” são dignos de admiração, pelo papel que desempenham no comércio, na indústria ou na sociedade.

Os motoristas de praça, transportam alegrias, tristezas ou esperanças de um povo. A eles recorre a maioria das gentes nos momentos mais urgentes. Para o batizado, casamento, doença urgente, viagem à negócios ou à passeios, para o transporte de quem foi acidentado ou de quem foi acidentado ou de quem necessita u’a maternidade. Quando o mau tempo impéde a locomoção fácil, recorre-se também aos motoristas de praça; ou quando existe pressa e transito pessoal.

Os motoristas de caminhões, especialmente os de transporte inter-estadual, são os verdadeiros condutores do progresso do país. levando cargas diversas, transportam a produção nacional, a seiva da terra, de um para outro ponto. Levam o nome das cidades a lugares distantes, fazendo a publicidade necessária e indiréta, do progresso de cidades ou regiões. Passando dias seguidos e muitas vezes noites a dentro, em peregrinação longínquas, estão contribuindo para o trepidante progresso do país, impulsionando a máquina do dinamismo nacional, acionando a engrenagem da própria evolução. Os motoristas de transporte não deixam o progresso estagnar.

Nesse labutar comum, eivado de contendas diversas, quando muitos têm sacrificado, inclusive, o confronto do lar em muitas horas ausentes das famílias, vários profissionais têm perdido a vida, por circunstancias múltiplas. E quasi todos têm caído sôbre o volante sem afastar-se da responsabilidade do encargo, de maneira honrora e digna, tal qual o soldado que cai na trincheira em defesa de um ideal sagrado.

Como se isso não bastasse, mistér é que se recorde o grande número de profissionais do volante, abatidos inocentemente por balas ou punhais traiçoeiros, de desalmados ladrões assaltantes.

O motorista profissional, aquele que de fato executa e vive da profissão de dirigir veículo, tirando dêsse trabalho o sustento necessário para sí e para os que lhe são caros, é um cidadão digno, porque executa um trabalho digno e honrado. A ele, os nossos respeitos, nesta oportunidade, quando, amanhã, será comemorado o Dia dos Motoristas.

Nossas congratulações, portanto, à grande e unida classe dos motoristas profissionais de todo o Brasil, nas pessoas dos motoristas profissionais de Marília. Nossos desejos para que esses homens continuem a servir a sociedade e o progresso brasileiro, com o mesmo brilhantismo, eficiência e operosidade como até aquí tem feito, para que continuem a merecer a estima e o respeito de todos, como até aquí sempre tem acontecido.

Parabéns, motoristas de Marília, pelo transcurso do Dia do Motoristas!

Extraído do Correio de Marília de 24 de julho de 1959

sábado, 23 de julho de 2011

Reverência ou interesse? (23 de julho de 1959)


Ninguém poderá negar que o ex-Presidente Getúlio Vargas foi um dos mais atinados e perfeitos políticos brasileiros do último século. Ninguém, em sã consciência, nem mesmo aquêles que foram seus adversários doutrinários, poderão jamais deixar de reconhecer no homem que pelo mais longo lapso de tempo governou o país, qualidades excepcionais de administrador arguto, de político de escól, de inteligência ímpar.

Os advogados em especial e aquêles que possuem algumas noções de direito comercial em particular, se analisarem de maneira neutra e desapaixonada, o compêndio das leis trabalhistas, a criação dos institutos de previdência social, suas reais finalidades, direitos e obrigações (hoje desgraçadamente mal cumpridas), convirão que o sr. Getúlio Vargas legou à posteridade brasileira, uma verdadeira riqueza moral. E, sensatamente, de maneira alguma será plausível o atribuir ao criador dessas mesmas leis, o atual e flagrante desvirtuamento de suas finalidades específicas. Seria o mesmo que condenar um pai, pelo crime praticado por um filho que lhe não deu a necessária obediência filial.

O prestigio de Getúlio Vargas continua latente em todos os quadrantes do Brasil. Sua memória continua a ser reverenciada e cultuada de maneira condigna e merecida. Entretanto, ao lado dêsse preito de saudade, campeia também a exploração política, com o fito de iludir o povo e tirar vantagem de caráter estomacal, por parte de incontáveis politiqueiros contumazes, que alguém já denominou de “exploradores do cadaver e da memoria de Getúlio Vargas”. Até a declarada sobrinha do ex-Presidente (que se afirma nem ser parente distante de Getúlio Vargas!), teve o desrespeito de sair à praça pública, exibindo o pijama ensanguentado do Sr. Getúlio Vargas!

Um núcleo partidário ostenta um retrato gigantesco do ex-Presidente. Poderá parecer normal ou mesmo obrigatória a permanência daquele painel em fugar semelhante. Nós entendemos que não. Daquela maneira, o retrato não traduz uma saudade ou uma reverência. Não significa, pensamos, um preito de respeito ao criador do Partido Trabalhista Brasileiro (hoje tão confuso, tão desrespeitado, tão incompreensível e tão desvirtuado nas suas origens, onde homens se degladiam em idéias divergentes e onde u’a minoria quer saciar desejos e impor condições). Representa – continuarmos a pensar –, a demonstração pública de interesses políticos, que obedecem conchavos realizados por algumas pessoas, em contra-partida aos interesses consultados pela maioria, pelos verdadeiros getulistas. Representa assim, alguma coisa como enfeite de vitrina comercial, onde se usam artimanhas próprias para iludir o público.

A reverência ao ilustre morto e digno ex-presidente, não se faz, absolutamente, com a exposição de um retrato gigantesco numa séde de partido político, com fins eleitoreiros.

Pensamos até o que diria o saudoso Presidente, se pudesse agora manifestar seu pensamento, ao ver a injustiça e os propósitos de interesses de voraz apetite político, que pairam sôbre a sua memória, a lembrança de sua figura altaneira e a dignidade de seu nome.

Alguém poderá pensar de maneira diversa ao que estamos expendendo. Nós assim entendemos.

E perguntamos: o que diria o Sr. Getúlio Vargas, se vivo fôra, ao saber de que maneira se explora seu nome, seu vulto e sua óbra?

Extraído do Correio de Marília de 23 de julho de 1959

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Filosofia popular (22 de julho de 1959)


Curioso como o cidadão comum, expende as vezes, tiradas filosóficas ímpares. Quem se der ao cuidado de prestar atenção às conversas corriqueiras e espontâneas, nascidas do livre pensar de quem-quer-que seja, verificará, que, ao lado de muitas idéias inconcretizáveis, poderão ser aproveitados alguns pontos de vista, condutores de alguma parcela de lógica e razão.

Cronista, por dever de ofício, habitua-se auscultar o que se lhe apresenta, sem que isso signifique intromissão. Força de hábito.

O elemento de imprensa, bem como o político, gosta de conhecer o módo de pensar de outrem, para avaliar e analisar o entender alheio. Disso embora não o perceba, sempre tira bom proveito, porque vai ficando ao par dos pensamentos uniformes e ao mesmo tempo vai conhecendo disparidades diversas de pensares alheios.

A filosofia popular é uma força latente, tão bem preceituada em nosso regime democrático, que faculta ao cidadão, pensar e agir como bem entende, desde que dentro das delimitações prescritas pelas nossas leis magnas.

Ouvíamos ainda ontem à noite, num dos bares da cidade, numa “rodinha” de amigos, conversas variadas. Os pontos principais focalizados cingiram-se ao futeból e as marchas e contra-marchas políticas da cidade, verificadas nos últimos dias.

A derrota sofrida pelo futeból local, domingo passado, na cidade de Presidente Prudente, continuava a representar, para muitos daqueles que trocavam idéias, espinha de peixe entalada na garganta. Comentou-se naquele circulo, as funções do técnico do clube, a conduta da diretoria, o comportamento dos jogadores, etc., numa análise profunda aparentemente. Surgiram opiniões diversas a respeito e o assunto “pegou fogo”.

Nós estávamos “de camarote”, ao lado da “assembléia”, acompanhando o desenrolar da troca de pareceres.

Do futeból, a conversa enveredou pelo rumo político e da mesma maneira que alguns dos presentes se constituíram em técnicos em assuntos pebolísticos, igualmente se transformaram em argutos observadores da política. Foram emitidos conceitos diversos, nos quais duas figuras primordiais serviram de alvo. Censurou-se na oportunidade, a ação de determinado político, de maneira até bastante impiedosa. Houve quem fizesse a defesa do elemento visado, tentando desbaratar, com argumentações poliformes, as afirmativas da parte contrária.

Dessas conversas, percebemos algumas “tiradas” dosada de boa lógica, ao mesmo tempo que conhecemos diversos “venenos” e entederes infundados. A filosofia popular, em evidência, ao par de seu lado bom, poderá trazer à cavalo, a parte desagradável. Isto, se os pontos de vista razoáveis foram divulgados sem contestação e se os motivos de “onda” expirassem no nascedouro. Por exemplo, vimos na análise referida, referências elogiosas a determinado político, com a demonstração de um verdadeiro “curriculum vitae” da pessoa; apresentou a face boa do homem, as qualidades insuspeitas do indivíduo. Simultaneamente, no emaranhado de idéias que estavam sendo trocadas pelos cidadãos comuns, vimos a demonstração de uma outra faceta da mesma pessoa. E, francamente, achamos até graça no contraste flagrante, formando, no conceito diferente de algumas pessoas, a identificação de uma bi-personalidade alheia.

Ficamos pensando ainda, ao abandonar nosso ponto de escuta, o que não seria então, se aqueles pensamentos díspares, em proporção, atingissem a todos, indistintamente. Seria uma balburdia dos diabos e uma dificuldade incrível, o passar-se a verdade numa peneira desapaixonada.

Extraído do Correio de Marília de 22 de julho de 1959

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Compêndio de notícias (21 de julho de 1959)


Pela segunda vez o jovem Stanislau Gwiazdowski, de 15 anos, residente na Capital bandeirante na rua 7, Vila Pirituba, teve frustrada sua tentativa de viajar para os Estados Unidos, utilizando o trem de aterrissassem de um DC-7 da Pan-American. A primeira vez foi em novembro de 1957, quando foi descoberto ainda em São Paulo. Agora conseguiu chegar até o Rio, viajando uma hora e quinze minutos, e só foi descoberto acidentalmente no Galeão, quando o aparelho estava sofrendo reparos.

Stanislau, que é poliglota, falando sete línguas, deseja ser aviador e pretendia estudar nos Estados Unidos. Preso pela polícia do Galeão, foi entregue ao Departamento de Aeronáutica Civil, que o encaminhou ao 80º Distrito Policial.

--:-:--

Pelo sr. Mendonça Falcão, do P.S.T., foi entregue à presidência da Assembléia Legislativa requerimento, com mais de 50 assinaturas, para convocação de uma sessão extraordinária amanhã, destinada à discussão da emenda de sua iniciativa que objetiva a concessão de um abono de três mil cruzeiros aos servidores públicos.

A emenda em apreço foi apresentada ao projeto que reestrutura os cargos de chefia e direção.

Na sessão ordinária de 6ª feira, não houve quórum para a votação de nenhum dos itens em pauta, sendo apresentados requerimentos de adiamento da discussão de todos os projetos constantes da ordem do dia. Os requerimentos de adiamento tiveram, também, sua discussão encerrada, adiando-se sua votação por falta de numero.

--:-:--

Esteve na Secretaria da Fazenda, tendo sido recebido em audiência pelo titular da Pasta, sr. Vicente de Azevedo, Aniz Badra, presidente da Associação Paulista de Municípios.

Cumprindo resolução da Associação que preside, o sr. Aniz Badra transmitiu ao Secretário da Fazenda o pensamento dos agricultores dos municípios de São Paulo, que irrestritamente aplaudem a enérgica atuação que S. Exa. vem desenvolvendo em favor da economia cafeeira, não só deste Estado, como também de todo o país. Acrescentou a esse pronunciamento a sua saudação pela brilhante e extraordinária atitude tomada em defesa dos cafeicultores.

--:-:--

“A crise nacional virá, certamente, por ocasião do próximo pleito presidencial” – disse à imprensa o deputado Raul Pilla, presidente do Partido Libertador e autor da emenda constitucional que propõe a adoção ao Brasil do sistema parlamentarista de governo.

- “Não há, propriamente, crise no Brasil – afirmou o sr. Pilla. Crise é um fenômeno agudo, intercorrente ou concludente, num processo mais ou menos crônico. Não chegamos, ainda, à crise nacional, no sentido rigoroso da palavra, mas dela já se observam sinais premonitórios. Ela virá, certamente, por ocasião do próximo pleito presidencial. Não há quem disto possa ter, razoavelmente, alguma duvida. Milagre será se ela não ocorrer”.

--:-:--

A Polícia dominicana frustrou um tentativa de fuga clandestina do ex-presidente cubano Fulgencio Batista, de avião, para os Estados Unidos.

--:-:--

Se não houver um entendimento entre a Mesa e a Maioria, no Palácio 9 de Julho, o “engarrafamento do transito” legislativo tornar-se-á mais grave, ainda, na medida em que se forem acumulando as proposições. No ritmo em que as coisas vai indo, prevê-se que vamos ter um fim de sessão legislativa conturbadíssimo.

Se o Executivo planificou a sua ação para quatro anos, por que o Legislativo não segue esse exemplo, na medida do possível?

Extraído do Correio de Marília de 21 de julho de 1959

Compêndio de notícias (21 de julho de 1959)


Pela segunda vez o jovem Stanislau Gwiazdowski, de 15 anos, residente na Capital bandeirante na rua 7, Vila Pirituba, teve frustrada sua tentativa de viajar para os Estados Unidos, utilizando o trem de aterrissassem de um DC-7 da Pan-American. A primeira vez foi em novembro de 1957, quando foi descoberto ainda em São Paulo. Agora conseguiu chegar até o Rio, viajando uma hora e quinze minutos, e só foi descoberto acidentalmente no Galeão, quando o aparelho estava sofrendo reparos.

Stanislau, que é poliglota, falando sete línguas, deseja ser aviador e pretendia estudar nos Estados Unidos. Preso pela polícia do Galeão, foi entregue ao Departamento de Aeronáutica Civil, que o encaminhou ao 80º Distrito Policial.

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Pelo sr. Mendonça Falcão, do P.S.T., foi entregue à presidência da Assembléia Legislativa requerimento, com mais de 50 assinaturas, para convocação de uma sessão extraordinária amanhã, destinada à discussão da emenda de sua iniciativa que objetiva a concessão de um abono de três mil cruzeiros aos servidores públicos.

A emenda em apreço foi apresentada ao projeto que reestrutura os cargos de chefia e direção.

Na sessão ordinária de 6ª feira, não houve quórum para a votação de nenhum dos itens em pauta, sendo apresentados requerimentos de adiamento da discussão de todos os projetos constantes da ordem do dia. Os requerimentos de adiamento tiveram, também, sua discussão encerrada, adiando-se sua votação por falta de numero.

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Esteve na Secretaria da Fazenda, tendo sido recebido em audiência pelo titular da Pasta, sr. Vicente de Azevedo, Aniz Badra, presidente da Associação Paulista de Municípios.

Cumprindo resolução da Associação que preside, o sr. Aniz Badra transmitiu ao Secretário da Fazenda o pensamento dos agricultores dos municípios de São Paulo, que irrestritamente aplaudem a enérgica atuação que S. Exa. vem desenvolvendo em favor da economia cafeeira, não só deste Estado, como também de todo o país. Acrescentou a esse pronunciamento a sua saudação pela brilhante e extraordinária atitude tomada em defesa dos cafeicultores.

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“A crise nacional virá, certamente, por ocasião do próximo pleito presidencial” – disse à imprensa o deputado Raul Pilla, presidente do Partido Libertador e autor da emenda constitucional que propõe a adoção ao Brasil do sistema parlamentarista de governo.

- “Não há, propriamente, crise no Brasil – afirmou o sr. Pilla. Crise é um fenômeno agudo, intercorrente ou concludente, num processo mais ou menos crônico. Não chegamos, ainda, à crise nacional, no sentido rigoroso da palavra, mas dela já se observam sinais premonitórios. Ela virá, certamente, por ocasião do próximo pleito presidencial. Não há quem disto possa ter, razoavelmente, alguma duvida. Milagre será se ela não ocorrer”.

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A Polícia dominicana frustrou um tentativa de fuga clandestina do ex-presidente cubano Fulgencio Batista, de avião, para os Estados Unidos.

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Se não houver um entendimento entre a Mesa e a Maioria, no Palácio 9 de Julho, o “engarrafamento do transito” legislativo tornar-se-á mais grave, ainda, na medida em que se forem acumulando as proposições. No ritmo em que as coisas vai indo, prevê-se que vamos ter um fim de sessão legislativa conturbadíssimo.

Se o Executivo planificou a sua ação para quatro anos, por que o Legislativo não segue esse exemplo, na medida do possível?

Extraído do Correio de Marília de 21 de julho de 1959

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O II Posto de Abastecimento do Sesi (18 de julho de 1959)


Sabem os leitores, várias vezes abordamos, através desta secção diária, a necessidade de Marília ser atendida pelo Serviço Social da Indústria, no sentido de ser nossa cidade aquinhoada com mais um Pôsto de Abastecimento do Sesi.

Esplicamos, dentro das bases que conseguimos apurar, as razões justificadas dessa reivindicação, os motivos de inquestionável necessidade para a grande classe industriária mariliense.

Ao nosso apêlo, fizeram-se ouvir outros rogos do mesmo sentido, provando que preiteamos um melhoramento reclamado pelo próprio progresso de nossa “urbe”.

Acabamos agora de receber a correspondência nº 10879, datada de 6 último, assinada pelo Sr. Oscar Augusto de Camargo, diretor regional de São Paulo, do Serviço Social da Indústria. É o seguinte o conteúdo da aludida missiva, relacionada com mais um Posto de Abastecimento do Sesi em nossa cidade:

“Vimos acompanhando com interesse seus artigos pugnando pela criação de mais um Posto de Abastecimento do Sesi nessa cidade e temos a lhe informar o seguinte:

“É parte do nosso programa assistencial, a ampliação de todos os serviços, a fim de se poder atender a tôdas as necessidades da Indústrias; porém, trabalhamos dentro de orçamento previamente aprovado, e com verbas certas, pois nossos recursos não são ilimitados. Assim, essa ampliação vai se processando aos poucos, segundo o Sesi, um critério de urgência e antiguidade dos pedidos.

“Marília terá seu segundo Pôsto de Abastecimento, tão lógo chegue sua vez e nos seja possível instala-lo.

“Apraz-nos acrescentar, que para nós, a campanha movida por V. Sa. não deixou de ser lisonjeira, por representar um atestados dos bons serviços prestados por esta Entidade à classe operária de Marília”.

Agradecemos, de nossa parte, a atenção que nos foi dispensada a respeito dessa contenda. Entretanto, a julgar-se pelo conteúdo da missiva óra transcrita, parece que as possibilidades desse entendimento, condicionadas à previsão de verba própria, não estarão muito próximas de nosso objetivo, objetivo que é menos nosso pessoalmente do que dos industriários de nossa cidade.

Nessas condições, ao registrarmos o fato, cumpre-nos ainda engrossar os apelos já anteriormente formulados aos dirigentes do Serviço Social da Indústria, pedindo-lhes, simultaneamente, que providenciem então, no sentido de que a respectiva verba para a instalação do II Pôsto de Abastecimento do Sesi em Marília, seja consignada para o próximo exercício, no mínimo.

A necessidade de Marília, a respeito, é indiscutível, tanto assim que o próprio departamento regional do Sesi em São Paulo, pelo que se vê na correspondência aludida, não a refutou.

Nêssas condições, ao que parece, deveremos contar então, com os bons ofícios, interesses e boa vontade do Sr. Oscar Augusto de Camargo e seus auxiliares diretos. Isso faremos e deixamos claro que aquí estaremos, vez por outra, para lembrar aqueles funcionários, a urgência de cumprimento dessa promessa.

Extraído do Correio de Marília de 18 de julho de 1959

domingo, 17 de julho de 2011

Duas funções diversas (17 de julho de 1959)


As funções são diversas e antagônica, fóra de qualquer dúvida.

Numa comparação grosseira, o jornalista apresenta algo em comum com o sacerdote. Embora sejamos pecadores comuns, somos forçados a ouvir algumas vezes, autênticas confissões, manifestadas espontaneamente, em sinal de confiança irrestrita e em fórma de solicitação de conselhos; tal qual ocorre com o piedoso padre, que a todos paroquianos atende indistintamente e com inigualável carinho.

Dissemos acima, que é uma comparação grosseira e sem pretensão. Mas é uma verdade. Principalmente para aqueles que firmaram um conceito respeitável entre uma cifra de uma população, que conseguiram impor uma personalidade, um módo de ver as coisas, um jeito de tratar os fatos, à custa de vários anos de luta, de experiência, de privações até. Jornalista nessas circunstâncias, acaba por tornar-se alvo de especiais atenções, muitas vezes dos mais céticos. Principalmente se comprovada a sua intenção, a nobreza de sua luta, a ausência absoluta de motivos de interesses subalternos ou razões simplistas. Então, sem o esperar, principia a tornar-se alvo de simpatias em número maior do que a porcentagem de antipatias prováveis que o possam cercar.

Algumas vezes, alguém nos procura, embaraçando-nos até. É que muitos leitores nos expõem até com problemas de caráter familiar, solicitando-nos conselhos. Coisas que escapam, por completo a nossa alçada, mas que demonstram uma confiança ímpar em nossas pessoas. Nessas ocasiões, sentimo-nos em dificuldades, ao contrário do que seria de esperar – convencidos e orgulhosos. Sentimo-nos em situações difíceis, porque somos forçados a travar conhecimento com certos aspectos da vida humana, conhecendo misérias, injustiças, erros e ingratidões, sem nada poder fazer, sem uma ação confortadora ou prática a aconselhar ou solucionar.

Tal fato, não ocorrerá apenas com o autor destas linhas, é claro. Acontece certamente, com outras pessoas que nem de leve sonhem em rabiscar para jornais. Basta que sejam experimentados na vida, direitos nas suas obrigações, conhecidos e exemplares, para que não falte uma pessoa em situação aflitiva, que os procurem para um conselho, uma consulta, um parecer, uma idéia.

E é verdadeiramente triste, especialmente para aqueles que se julgam de coração bem formado e que são no íntimo, cristãos e sentimentais, o conhecer dificuldades, sofrimentos e misérias alheias, principalmente sem nada poder fazer, desapontando os que buscam pelo menos uma palavra orientadora.

Porisso, dissemos, numa comparação grosseira, temos algo em comum com a sacerdote, ao qual recorre muita gente, em busca de conselhos (que solicitamente são dados).

Se, de um lado nos entristece o fato de algumas vezes causar desapontamento a alguma pessoa que nos procura com o objetivo referido, por outro nos causa felicidade o motivo experimentado, qual seja a demonstração de confiança com que fomos alvo.

Ainda ontem, tivemos o ensejo de conversar com determinada pessoa, que, apresentando claríssima franqueza, nos pedia um conselho sincero, de amizade, leal, acêrca de importantíssima decisão. E não se tratava, em absoluto, de nenhum “pé rapado”, mas sim de um cidadão respeitável e considerado entre nós. Confessamos que não pudemos, sinceramente, emitir um ponto de vista que representasse o conselho aguardado e nos sentimos, ao envés de honrados com confiança, aborrecidos em não poder satisfazer a intenção de quem nos procurara.

Estes fatos, não representam nenhum convencimento. Pelo contrário, significam a humildade ante certas deferências que situações nos apresentam. Representam uma consideração especial a alguns modestos trabalhos em Marília, muitas vezes sacrificando o conforto do lar ou o aconchego da família, com o desiderato único de servir uma causa, uma cidade, um povo. Pelo menos, essa é a nossa intenção. E se tal conseguirmos realizar, legaremos aos nossos herdeiros apenas uma coisa: um nome honrado e ações insuspeitas.

Extraído do Correio de Marília de 17 de julho de 1959

sábado, 16 de julho de 2011

Dia do Comerciante (16 de julho de 1959)


Assinala-se hoje, 16 de julho, o Dia do Comerciante.

Coincide a data com a passagem do 208º aniversário de nascimento de José Maria da Silva Lisboa, posteriormente o Conde de Cairú, pessoa que pode ser chamada e considerada como o Pai do Comercio brasileiro.

Importante, sob todos os pontos de vista, foi a ação do Visconde de Cairú, para o desenvolvimento econômico-comercial brasileiro.

No ocaso do século passado, em 1808, encontrava-se em efervescência político-beligerante, toda a Europa. Napoleão Bonaparte acabara de decretar o chamado na ocasião “bloqueio continental”, objetivando o asfixiamento de sua inimiga fidagal, a Inglaterra. Portugal éra na ocasião, um dos maiores aliados dos ingleses, tendo-se esforçado por desbaratar o bloqueio referido. Ante isso, Napoleão enfurecido, ordenou ao general Junot, que invadisse o pequeno país. D. João, a personalidade mais visada dessa operação invasôra, teve que abandonar Portugal, refugiando-se no Brasil, onde veio juntar-se aos seus familiares.

No impedimento de D. Maria I, ocupou D. João as funções de Regente do Império. Personalidades brasileiras, acercaram-se de D. João, dizendo-lhe sentir as necessidades de maior desenvolvimento das atividades comercial da Colônia.

As personalidades que instaram D. João assim proceder foram os primeiros comerciantes do final do século XIX. Levaram de viva voz ao Regente do Império, a convicção de que o desenvolvimento do comércio brasileiro dependia de transações com outras nações e com outros povos. Representava o abrir as cortinas de novos palcos de progressos, dando o ensejo de trabalho em maior escala, propiciando maior desenvolvimento das atividades comerciais e colaborando para o maior enriquecimento da própria Colônia.

Um baiano ilustre e patriota, professor emérito e economista insigne, Dr. José Maria da Silva Lisboa, mais tarde o Visconde de Cairú, teve papel preponderante nessas operações de abertura dos portos brasileiros com os países amigos. Era o comércio em sua força viva, lutando por um objetivo dos mais louváveis e dignos.

A Confederação Brasileira do Comércio, numa feliz e inspirada iniciativa, houve por bem, em desejo inquestionável de perpetuar a memória do ilustre Visconde de Cairú, instituir a data de 16 de Julho como o Dia do Comerciante, por coincidir com a efeméride de nascimento do verdadeiro Pai do Comércio brasileiro, Dr. José Maria da Silva Lisboa.

Justo é portanto, que lembremos esta data, como justo é o preito de homenagem que daquí endereçamos aos comerciantes de todo o mundo, através dos comerciantes de Marília.

O comerciante, em seu labor, tem um papel importante – o de aproximar os povos, traduzindo um élo de união entre as gentes civilizadas e uma propulsão sem precedentes ao próprio progresso da humanidade.

Desde os tempos primitivos, nos conta a própria história da civilização, os comerciantes se uniram tribos ou grupos, através do comércio. Os fenícios, pelo seu talento comercial demonstrado e pelas excepcionais qualidades de navegadores, foram até denominados de os “ingleses do mundo antigo”. Dessa razão partiu a nossa iniciação no comércio.

Tanto na época presente como nos tempos pretéritos, sempre o comerciante foi um motivo inconteste de entendimento entre os povos e uma alavanca propulsôra do progresso das nações.

Visconde de Cairú, Dr. José Maria da Silva Lisboa, foi o timoneiro em nosso país, no sentido da expansão comercial brasileira. A ele, “o primeiro comercial do Brasil”, nosso reconhecimento e nosso preito de saudade, nossa gratidão pela importância de sua ação, na própria vida nacional.

Extraído do Correio de Marília de 16 de julho de 1959

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Vale a pena ser cientista? (15 de julho de 1959)

De fato: a pergunta que nos serve de epígrafe, ao que parece, oculta uma segunda intenção. E realmente a esconde.

Repetimo-la: Vale a pena ser cientista?

Vale – responderão quasi todos; ou todos.

Nem sempre – responderemos nós.

Por certo, não existirá um pai, u’a mãe, irmão, cunhado ou primo, que não estufe os pulmões, para declarar euforicamente na primeira oportunidade que se lhe apresentar, que “fulano, famoso cientista”, é seu parente em tal gráu.

Encarando a questão sob êsse aspecto, vale a pena ser cientista; pelo menos para os parentes do mesmo, para os que se dizem seus amigos e privam de sua amizade. Mas a pergunta é mais objetiva, mais clara, mais suscinta: sob o lado de observação real, vale a pena ser cientista?

Nós provaremos que nem sempre, conforme asseveramos. E citaremos, para corroborar o fato, apenas um único exemplo. Irrefutável, lógico, preciso. Limpo como as águas que jorram das cachoeiras. Claro como a luz fluorescente. Inapagável, como a tinta “nankin”. Matemático, como dois e dois são quatro. Irretorquível, como o “goal” confirmado por um árbitro da Federação Paulista de Futeból.

Nosso exemplo: César Lattes. César Lattes, físico patrício que deveria orgulhar o Brasil, porque em seu campo de pesquisa técnicas e científicas, já projetou o renome da ciência nacional além-fronteiras. Embasbacou meio mundo, deixando boquiabertos, cientistas “tarimbados”, renomados, famosos, extraordinários. Paralizou até cérebros habituados a ciência, decanos da física universal. E quem reconheceu seus préstimos à própria ciência, quem reconheceu seus serviços ao Brasil? Quem? Pergunte-se a um escolar qualquer se ele sabe que é César Lattes. Inclusive aos do curso primário que “escrevem” fatos ligados com História da Civilização e que “sabem” abordar passagens da própria História Romana, através de jornaizinhos escolares. Perguntem mesmo a alguns contadores e professores normalistas, até a alguns cidadãos considerados cultos, o que sabem sobre César Lattes. Não é uma figura histórica do passado. É um vulto do presente, que se não projeta como deve, por acanhamento ou modéstia. Nós pensamos que é por vergonha de como é considerado, como é tratado, como é assistido pelos poderes públicos!

Pois bem: César Lattes assombrou há poucos anos os cientistas dos Estados Unidos. Foi consagrado. Foi respeitado. Foi cultuado pelo seu talento, pelo seu sacerdócio no campo da física, enriquecendo a fonte dêsses estudos. E regressou ao Brasil. Deram-lhe um laboratório. Obsoleto. Do tempo do Império. Com aparelhos que não funcionam. E um ordenado. Pequeno, diga-se de passagem.

Ninguém se lembrou do cientista, do seu nome, de sua capacidade, de seu devotamento, de importância. Afóra as noticias corriqueiras da imprensa, ninguém mais se preocupou com esse jovem brasileiro que engrandeceu o Brasil nos Estados e que é diminuído pelo Brasil dentro próprio Brasil!

César Lattis fechou-se num mutismo paquidérmico. Aceitou tudo que lhe foi dado provar, com a resignação de um beneditino. Leciona apenas, cingindo-se aos programas elaborados, cada ano mudados mais e cada ano piorados mais. É um professor apenas, na Universidade do Brasil. Um cérebro, ombreado ao lado dos demais professores, alguns ordinariamente comuns.

Vai sair do Rio de Janeiro. Virá para nosso Estado, para lecionar na Universidade de São Paulo. Continuará a ser um simples professor e ganhará 22 mil cruzeiros por mês! Como se vê, ganhará quasi como um jogador de futebol de um grande time da paulicéia! Não é uma beleza?

Agora, repizamos a pergunta: Vale a pena ser cientista?

Claro que nem sempre; da mesma maneira que não vale ser defensor da Pátria, nada vale ser “pracinha” da FEB. O que vale, não tenham a menor dúvida, é ser jogador de futeból. E se for “campeão do mundo”, então, o valor é maior ainda...

Extraído do Correio de Marília de 15 de julho de 1959

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Não, não somos candidatos! (14 de julho de 1959)

Não raro (e não sabemos porquais cargas d’agua), algum leitor faz questão de perguntar se somos candidatos à próxima vereança municipal. Houve alguém que até nos confundiu, asseverando-nos até a certeza de um “acôrdo” com um comitê eleitoral de determinado bairro da urbe, pelo qual, nosso nome teria a égide de representante lídimo de uma parte da cidade! Quem nos informou tal assunto, chegou até a teimar e nos citou a fonte de informação, inclusive envolvendo nomes de terceiros.

Não sabemos a quem atribuir o fato. Ignoramos a origem dêsse boato, que chegou a trazer a nossa presença, uma “delegação especial” de moradores do bairro, com uma lista de reivindicações para nos incluída em “nossa” plataforma de ação!

Interessante, como tal aconteceu. Para outros, temos a certeza, o fato encontraria uma representação das melhores; para nós, o acontecido nos causou espécie e ficamos até acabrunhados, ante as palavras que nos foram dirigidas e o desapontamento sofrido pela citada delegação.

Não somos candidatos a nenhum cargo eletivo e se o fossemos, nenhum pejo nos ocorreria em divulgar qualquer pretensão que alimentássemos. Verdade é que tivemos a honra de ser distinguidos com convites dêsse jaez, de vários partidos políticos da cidade; a todos agradecemos a lembrança de nosso nome, a todos agradecemos a distinção e a todos recusamos, de maneira gentil.

Isso não implicaria, sob nenhuma fórma, na “peça” que tentaram pregar (e pregaram) a um grupo de marilienses e por mais que procurássemos atinar com as origens do sucedido, não conseguimos. Acreditamos que talvez houvesse confusão de nomes, mas os que nos procuraram refutaram tal idéia, afirmando o contrário.

Repetimos, então, mais uma vez, a afirmativa de que não somos candidatos a vereador e nem a qualquer outro posto eletivo. Essa afirmativa estende-se aos integrantes da comissão que nos procurou há dias e também a alguns amigos que nos perguntaram repetidas vezes sôbre a veracidade do fato em aprêço. Somes somos candidatos a uma coisa: a prosseguir com nossa luta em prol daquilo que consideramos boas causas, que entendemos como assuntos de interesse geral, da cidade e dos marilienses. Nossa aspiração é continuar a viver bem e com o respeito e carinho que há quinze anos os marilienses nos dispensam, dando-nos alento para que próssigamos na luta que vamos mantendo através das colunas dêste jornal. Nada mais.

Com respeito aos futuros vereadores, só temos uma coisa a dizer: Marília precisa remodelar seu corpo legislativo em alguns sentidos e assim, o que pensamos a respeito, é que cada eleitor mariliense deverá saber escolher seus futuros representantes, votando em nomes e homens, ao envés de se preocupar com legendas, simpatias pessoas, interesses subalternos ou pedidos de amigos. Só isso. De nossa parte, isso faremos, porque entendemos ser esse a medida exata, que se casa perfeitamente bom com os pontos de vista que de há muito defendemos através desta coluna.

Achamos que a questão ficou bem clara, pois não?

Extraído do Correio de Marília de 14 de julho de 1959

terça-feira, 12 de julho de 2011

Não confundam, senhores! (12 de julho de 1959)

Não foi o primeiro, não. Foi mais um cidadão, antigo e respeitável mariliense aliás, que, ao conversar conosco, nos admoestou severamente, pelo fato de termos criticado, repetidas vezes, a atuação do atual Presidente da República.

Graças a Deus, vivemos num regime democrático, em que nós jornalistas, podemos dizer o que pensamos, expor nossas idéias da maneira que bem entendemos, falando inclusive mal de nossas autoridades, autoridades que nos defendem o direito de liberdade de pensamento e ação.

Bendita seja a Democracia!

Mas, como dizíamos, nosso amigo implicou conosco, pelo fato de termos criticado certos atos do sr. Juscelino Kubtschek. Êle pode ter as suas razões, como nós tempos as nossas também, é claro. Nós respeitamos os seus pontos de vista, como, pensamos, êle respeita também os nossos pensamentos. Sucede, entretanto, que êsse moço não se conforma com nosso procede e quer saber, à toda custa, o porque condenamos o atual govêrno brasileiro.

Já dissemos, incontáveis vezes, que nada temos contra o sr. Juscelino Kubtschek, o homem, o cidadão, mineiro, o político, o médico. Nossas críticas são para o cargo; contra o sr. Juscelino Kubtschek, o Presidente da República. Temos nossas restrições contra o seu govêrno, como muita gente tem. Acontece que nós não somos políticos e nossos desagrados têm algum valor, porque não objetivam interêsses, porque não têm alvos colimados, especialmente alvos de conveniências próprias.

Respeitamos o sr. Juscelino Kubtschek como o maior Magistrado da Nação, como o Presidente da República eleito pela maioria dos desejos dos brasileiros eleitores. Defendemos-lhe o direito de cumprir o mandato elevado para qual foi eleito fazendo votos para que acerte em todos as suas decisões, que de uma ou outra maneira, reverterão em pról do povo de nossa Pátria. Mas podemos, graças a Deus e graças à nossa Democracia, criticar-lhe os átos, desde que o façamos em têrmos, de maneira decente, leal e respeitosa. É isso é o que vimos fazendo todas as vezes que abordamos tão melindroso assunto.

Sabem os leitores que já censuramos inúmeras vezes diversas ações do sr. Juscelino Kubtschek e que continuaremos a condenar diversos de seus átos. Igualmente sabem os leitores que, quando da hostilização pública da Associação Rural de Marília contra o Presidente da República, nós sem que significasse a quebra de nossa maneira de pensar, nos pusemos ao seu lado, na defesa de seu nome e de seu ilustre e honrado mandato eletivo. Sabem igualmente os leitores que diversas vezes citamos ações de seu govêrno, analisando-as meticulosamente e manifestando nossa formal e contrário ponto de vista.

Citamos toda uma infinidade de coisas da atual administração federal, conforme devem nossos leitores estar lembrados. E, para testemunhar ainda mais nosso ponto de vista aqui vai mais uma: Nos últimos discursos do sr. Kubtschek, podem ter todos notado, o Presidente abordou mais distanciadamente a questão dos preços no país. Não falou no mito do congelamento como igualmente não falou em nenhuma outra medida destinada a deter a carestia nacional. Pelo contrário, falou até de uma suposta baixa do custo de vida! Falou em auxílio à produção, discorreu sôbre a criação de novas zonas agrícolas vizinhas aos grandes centros, falou sôbre transportes, falou enfim sôbre uma série de outras coisas que nós já conhecemos de sobejo, que não tem solução e que sôbre elas sempre se fala. Mas o sr JK não falou nada acêrca dos verdadeiros motivos que contribuem para o alto custo de vida no país, não falou na famigerada e inerte COFAP, nas suas “filhas” COAPS e COMAPS, num sinal evidente, de que o govêrno ainda não descobriu o mínimo múltiplo comum das verdadeiras razões da carestia no país.

Esqueceu-se S. Excia. que não adianta produzir mais, plantar mais, pois tudo é tolice, a ganância devora tudo. O sr. JK precisa descobrir, enquanto é tempo, que o problema do Brasil não é produzir mais; o problema é furtar menos.

Extraído do Correio de Marília de 12 de julho de 1959

sábado, 9 de julho de 2011

“Sombra e água fresca” (9 de julho de 1959)

Interessante, como um dito jocoso, nascido talvez de um simples acaso, tenha vinda a casar-se tão sob medida, para o espírito de muita gente.

Positivamente, uma grande maioria de nossos patrícios, enquadra-se perfeitamente dentro dos postulados dessa oração, que, insignificante em sua expressão de sentido, geral, passou a constituir-se num verdadeiro cartão de identidade de muitas pessoas.

Claro, estamos falando em tése; mas que o adágio referido, de “sombra e água fresca”, adapta-se de maneira especial, hoje em dia, à muita gente destes Brasís, isso é inegável.

O fenômeno parece inalienável e sei análise. Será alguma coisa que “está no sangue” do nacional? Será influência do clima tropical? Será consequência da mescla originária e da variedade de raças ancestrais dos brasileiros?

É difícil uma resposta sábia e certa. A observação de qualquer pessoa, afeita ao trabalho e “escolada” pelo mundo póde muito bem aquilatar a razão dos motivos que estamos referindo. Regra geral, sobre partidários do rifão que nos serve de epígrafe. Gostamos, é verdade, de “sombra e água fresca”. Porisso, em análise geral, enquanto um brasileiro genuíno demora vinte anos para progredir na vida, o estrangeiro diligente, aproveitando as facilidades de nosso comércio ou a dadivosidade de nossa terra, prospera num quarto desse lapso de tempo.

O que possui o estrangeiro mais do que nós? Para aluguem como nós, paga os mesmos impostos, compra os mesmos calçados e as mesmas roupas, vai aos mesmos restaurantes ou aos mesmos cinemas, matricula os filhos nas mesmas escolas e frequenta as mesmas igrejas; no entanto, em pouco tempo “dá um geitinho” para comprar uma casinha, ou adquire um sítio, ou se estabelece por conta própria. E isso é tudo, sem que ninguém o ajude, a não ser ele próprio. Acontece que ele procura trabalhar o mesmo que póde e gastar o menos que póde também. Conosco, já o negócio é diferente; salvo excessões, tratamos de trabalhar o menos possível, gastar até o que não podemos e viver como não poderíamos viver. Repetimos, estamos falando em tése.

O nacional se acomoda facilmente e poucos são os que “se matam”, procurando meios diversos de ganhar dinheiro. Existindo um emprego e uma renda certa, mesmo que seja insignificante, o “negócio” está bom. Não existe ambição e sim conformismo, o que, não se póde negar, já é uma grande qualidade (embora com as suas desvantagens).

É comum, hoje em dia, um desocupado procurar simplesmente “um emprego”, enquanto o estrangeiro procura serviço.

Até no funcionalismo público se observa êsse particular; o candidato, antes de ingressar na vida funcional, alimenta a pré-concebida idéia de “mamata”, de boa vida, de ganhar dinheiro “no mole” e antevê num sonho azoinado, um “dolce far niente”.

Como não há regras sem excessões, o caso não se aplica e todos indistintamente; mas que representa a maioria, isso representa. Da mesma fórma, existem estrangeiros que se radicaram no Brasil já cinquenta anos, mal tendo hoje em dia, um “terno do missa”. Mas que são poucos, isso são.

Vejamos uma fazenda de café, por exemplo: qualquer pessoa mesmo que seja pouco arguta e pouco observadora, distinguirá, com facilidade, numa colônia, a residência de um estrangeiro e de um nacional; regra geral, a casa do caboclo é suja, abandonada, sem móveis, sem nada; a residência do estrangeiro já tem lá uma hortazinha com um pé de alface, um chiqueirinho com um porquinho de ceva, algumas galinhas no terreiro e alguns sacos de cereais constituindo a despensa. O caboclo, não; este vive solicitando “ordens”, está “pendurado” no armazém, na farmácia e na fazenda. Também cria frangos e junta óvos. Mas vem vende-los na cidade, para jogar no bicho ou beber cachaça!

Porisso, dissemos no início deste artiguête, nunca um dito jocoso como este de “sombra e água fresca”, calhou tão exatamente bem para uma grande parte de nossa gente.

Mas, um consôlo nós temos, sobretudo isso: No carnaval e no futeból ninguém nos bate, óra bólas!

Extraído do Correio de Marília de 9 de julho de 1959

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Obrigado, Brasil! (4 de julho de 1959)

Algum leitor poderá ter se aborrecido conosco, quando, ver por outra, advogamos através desta coluna, os direitos dos “pracinhas”. Se tal acontecer, os que se encontrarem na condição citada, que atentem primeiramente para os motivos dessa contenda, antes de formularem qualquer juízo precipitado, que, invariavelmente, poderá ser errôneo.

Não apenas porque o autor desta secção seja também um dos soldados que contribuíram para a preservação da Democracia e Liberdade, lutando pelo Pavilhão Verde-Amarelo, na última guerra mundial. Absolutamente. Em nosso caso, por exemplo, nada reivindicamos em causa própria. Nossa luta, continua a ser em pról de desventurados companheiros, que, por motivos vários, fáceis de explicar por um psicanalista, não conseguiram reintegrar-se totalmente ao organismo da vida civil.

Citamos, há poucos dias, o caso de um “pracinha” de Marília, que, por motivos de comprovada perseguição de um superior, foi exonerado de suas funções da briosa Guarda Civil de São Paulo, quando estava lotado na Sub-Divisão de Presidente Prudente. Com seis filhos menores, com uma boa folha de serviços prestados à coletividade (porque a Guarda Civil não presta serviços à corporação e sim à coletividade paulista), o “pracinha” foi dispensado de suas funções, unicamente porque não se deixou ridicularizar por um superior hierárquica, que o agarrou pela camisa, rasgou-lhe as vestes a arrebatou-lhe de maneira ignóbil a placa numérica, espezinhando-o publicamente, numa ocasião em que o guarda não estava de serviço. O policial, fóra de suas atribuições de trabalho, é um cidadão como outro qualquer e ninguém pode privar-lhe o direito de conviver com a sociedade, como foi o caso do “pracinha” Raul Neves, que representou Marília no ultimo conflito mundial e que hoje se encontra na rua da amargura.

Nós não conhecemos o servidor que “aprontou a cama” de Raul Neves, mas sabemos e estamos informados de sua conduta em perseguir azoinadamente o “pracinha” referido. A respeito estamos até documentados.

Por isso, não silenciaremos. Se existem mais brasileiros ou pessoas que ainda não se deram ao trabalho de pensar e analisar a situação psíquica e biológica daqueles que combateram numa guerra moderna, frente a um inimigo experimentado na arte de matar, por certo ainda contamos com um número maior (graças a Deus), de bons brasileiros e bons patriotas, que não se acovardaram ante a realidade, que sentem ainda nas veias o latejar do sangue da gratidão por um dever cumprido, pelo pagamento de uma dívida sagrada: a dívida de ser herói (“a estupidez de ser herói” – David Nasser).

Como integrantes que somos da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil (entidade de âmbito nacional), sentimo-nos no dever de lutar em pról da reinclusão do “pracinha” Raul Neves, no efetivo da Guarda Civil de São Paulo. E isso estamos fazendo. E isso estaremos fazendo. E esperamos que nosso apêlo amoleça o sentimento de solidariedade humana e patriotismo do Sr. João Silvério Sobrinho, diretor geral da Guarda Civil de São Paulo, única pessoa que até agora está obstando o retorno de Raul Neves à aludida corporação. Isso podemos provar, com documentos escritos, do Palácio dos Campos Elíseos e da Secretaria da Segurança Pública!

A dispensa do “pracinha” Raul Neves, do quadro de militantes da Guarda Civil de São Paulo, é mais uma fórma de ingratidão da Pátria, aos que souberam servi-la. E, enquanto o Palácio do Govêrno e a Secretaria da Segurança Pública não voltarem atrás em suas afirmativas escritas que se encontram em nosso poder, continuaremos acreditando que o único inimigos dos “pracinhas” e especialmente inimigo figadal do “pracinha” Raul Neves, dentro de todo o organismo da Guarda Civil, é o seu diretor geral, quem está impedindo (conforme informações oficiais que dispomos), que o caso seja solucionado, com a revogação do áto oficial que exonerou nosso companheiro.

O diretor geral da Guarda Civil de São Paulo, como colaborador direto (e de confiança) do Sr. Governador, tem também a sua obrigação de contribuir com sua parcela, para que São Paulo (que o Estado líder da Federação), auxilie o Brasil a pagar a sagrada dívida do Tributo de Sangue. Sim, pois os homens do Govêrno são os mais autênticos filhos de u’a nação. E, bom é que se lembre, uma nação é uma Pátria e a Pátria deve ser mãe e nunca madrasta!

Obrigado, Brasil!

Extraído do Correio de Marília de 4 de julho de 1959

domingo, 3 de julho de 2011

A menina dos olhos (3 de julho de 1959)

O atual Presidente da República apenas cumpriu o seu terceiro ano de govêrno. E já convidou (em proporção), mais Chefes de Estados estrangeiros à visitar nosso país, do que quaisquer presidentes anteriores.

E, invariavelmente, todos viram Brasília, a fenomenal Brasília, aquilo que um jornalista já denominou de “elefante branco das selvas de Goiás”.

Pensamos nós, é justo que o Sr. Juscelino Kubtschek faça questão cerrada de mostrar aos visitantes ilustres, maximé de outras nações, a “menina dos olhos” de seu govêrno, a extraordinária e exótica óbra arquitetônica que se chama Brasília. Existe nessa atitude do Presidente brasileiro, um fenômeno absolutamente normal, qual seja, o exibir euforicamente, aquilo que se constitui para um individuo, uma obsessão permanente. A julgar pelas seguidíssimas viagens do “Viscont” presidencial a Brasília, pelas verbas fabulosas que para lá são canalizadas, pelas “mamatas” que representa para certos “boas vidas” a construção da Novacap, pelos ensejos de enriquecimento fácil que oferecem os negócios imobiliários em Goiás e por outra infinidade de coisas, não há negar, que, o Sr. Kubtschek está verdadeiramente apaixonado pelo óbra. Ele próprio divide o tempo dedicado aos trabalhos de administração destes Brasís, num triângulo curioso: uma parte em Brasília, outra voando e outra no Catete. Nem para a família tem sobrado tempo, pois Dona Sarah tem viajado oficialmente prescindindo da campanha do esposo.

Ocorre-nos semelhante idéia, ao fazermos a comparação imaginária, de como se sentirão os visitantes forasteiros, ao conhecerem Brasília, hospedarem-se luxuosamente no Palácio da Alvorada, receberem um tratamento dos mais condignos a bordo do avião presidencial e travarem contacto com a mais “high society” carioca, se conhecerem, realmente, nosso país, “por dentro”. Se vissem o estado de fome do caboclo de nossas roças, o impaludismo e a verminose “comendo por uma perna” o filho do caiçara, a choça insegura e infecta do lavrador comum, as péssimas estradas do sertão bravio, os métodos rudimentares da lavoura nacional, as deficiências do ensino no Brasil, a burocracia esdruxula da maquina administrativa da federação, as “sugeiras” da política brasileiras e outras tantas coisas, os visitantes ilustres teriam uma conceito diverso do Brasil. Veriam que em nossa Pátria, nem tudo são banquetes faustosos, de fraque e cartola; que as estradas brasileiras são intransitáveis; que o ensino no país é falho e deficiente, com diversos aspectos de obsoletismo; que a assistência social claudica; que os heróis da Força Expedicionária Brasileira se suicidam envergonhados, deixando cartas que constituam verdadeiros libelos contra nossos govêrnos mal agradecidos e pouco patriotas; que o produtor comum, aquele que amanhã toma a terra e tira do seu ventre o cereal que sustenta o homem é espoliado; que os institutos de previdências social são, na prática, autenticas utopias; que o Brasil não é a praia de Copacabana, a Av. Rio Branco, a Av. Atlântica, as belezas naturais do Rio de Janeiro, os milhares de automóveis de granfinos do asfalto. Veriam, com extraordinária facilidade, que o Brasil não é, em absoluto, a menina dos olhos do Presidente Kubtschek, não é Brasília!

Desgraçadamente, o Brasil por dentro é a Pátria que não mostramos aos estrangeiros.

Extraído do Correio de Marília de 3 de julho de 1959

sábado, 2 de julho de 2011

Custo de vida, uma equação (2 de julho de 1959)

Se o chefe da casa é o responsável direto, de fato e de direito, dentro do lar, justo é que prevaleça o ponto de vista que o presidente de um país é também o principal responsável por tudo o que ocorra nessa nação.

Êsse chefe usufruirá as honras totais, se o país progredir, agigantar-se, destacar-se no concerto das demais nações. Igualmente, a êle caberá a primordial responsabilidade, em caso de negativismo em qualquer sentido.

É o nosso caso, com referência ao atual Presidente da República. Terá a sua consagração em face do erguimento de Brasília; terá, por outro lado, o desagrado quase geral, em face da impotência sumamente demonstrada, no sentido de deter um pouco que seja, o espiral inflacionário do país e a pirotécnica ascenção do custo de vida no Brasil. A ganância desenfreada reclama um freio e êsse freio vive a falhar lamentavelmente. Todos se queixam da vida, inclusive os que comerceiam, que principiaram há pouco tempo e que já possuem palacetes, “cadillacs” e amantes à granel.

A vida sóbe dia a dia, apesar de que as trombetas de publicidade do próprio Palácio do Cadete anunciam, vez por outra, que o custo das coisas está decrescendo!

O custo de vida, entre nós, é uma equação e as suas incógnitas ainda não foram delineadas, por falta de um grande matemático. Tudo o que se disser ou se pretender fazer a respeito, será inútil, porque o êrro é de origem e não de causas. Os milhares e bilhões de cruzeiros já empregados na construção dêsse monumento arquitetônico que se chama Brasília, se tivesse sido empregados numa política de efetividade em pról da produção nacional, teriam surtido um efeito melhor e mais positivo, em pról do pobre e sacrificado povo brasileiro.

Os leitores, por certo, perguntarão como tal poderia ou deveria ser feito. A resposta é fácil, facílima de interpretar, mesmo para um garoto do curso primário. E fácil de executar, para qualquer administrador de tirocínio, desprendimento, clarividência e amor à terra. Para eliminar o vertiginoso índice da ganância desenfreada que impera entre nós, mister é que se proceda uma esquematização de processos de maior patriotismo, obedecendo, em primeira plana, os seguintes tópicos:

a) – Maior número de quilômetros de estradas de rodagem e melhores rodovias, para garantir e facilitar o escoamento das produções agrícolas e industriais.
b) – Maior e mais efetivo sistema de amparo e financiamento à lavoura e especialmente aos pequenos agricultores.
c) – Fornecimento a preços mais accessiveis de sementes, adubos, inseticidas, máquinas e implementos para a lavoura.
d) – Garantia e fixação do preço mínimo para o produtor e do preço máximo para o revendedor, limitando os lucros dos comerciantes e obstruindo o exagero de ganhos de certos intermediários, principalmente os que adquirem o produto nas safras, por preços baixos, estoqueia-o para vende-lo nas épocas de pré-safras, por preços exorbitantes, em detrimento dos interesses de toda uma população.
e) – Diminuição das excessivas taxas de descontos em fôlha, reconhida em pról dos IAPS, organismo que vivem pecando pela falta de um atendimento eficiente e regular aos seus assistidos.
f) – Modificação geral nas cobranças dos impostos e taxas, simplificando os processos de arrecadação e economizando rios de dinheiro com os complexos e exdruxulos sistemas de fiscalização.
g) – Amparando melhor a indústria.
h) – Extinguindo milhares de cargos públicos pró-forma existentes no país, destinados na prática a servir tão somente de “cabides políticos”.
i) – Propiciando um clima de segurança e unidade nacional, onde os brasileiros todos tenham maior gosto pelo trabalho e onde se confraternizem entre sí, abandonando aquele sentimento próprio dos lagartos, que é a preocupação do mais ágil devorar a cauda do próximo.

Apenas com estes pontos-base, serão determinados os valores-incógnitas dessa equação que é o custo de vida no Brasil.

Extraído do Correio de Marília de 2 de julho de 1959

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Coisas que acontecem... (1 de julho de 1959)

Repetidas vezes temos focalizado nesta coluna, a deficiência que apresentam, especialmente na “hinterlândia”, os serviços assistenciais dos diversos IAPS. Simultaneamente, temos deixado claro, a certeza de que, em origem, as leis que instituíram tais organismos, são, em essência, magnificas e completas. Quem se der ao trabalho de folhear os mencionados diplomas legais, constatará com facilidade, mesmo sem ser muito inteligente, de que a feitura dêsses dispositivos está plana de cuidados e atenções aos direitos dos comerciários, industriários, bancários e empregados em transportes de cargas. Tudo foi meticulosamente estudado, verificado, analisado com carinho ímpar, antes de ser transformado em lei. Tudo, tudo.

No papel, como se diz na gíria, tudo está perfeitamente normal, digno de encômios. As leis dêsse jaez, em si, constituem verdadeira obra prima. Mas só no papel, repetimos. Na aplicação, a coisa muda de figura. O caso representa estão, “outros quinhentos”.

O motivo dêste intróito, nos foi acudido em face e termos sido procurados por um cidadão, um leitor dêste jornal. Relatou-nos um fato que tem alguma coisa e contundente, máxime ocorrido com uma pessoa pobre, contribuinte de um dêsses famigerados institutos e as necessidades totais de seus contribuintes. Passou-se mais ou menos assim: Com um filho menor sofrendo de amigdalite e necessitando intervenção cirúrgica, o homem procurou o médico contratado pelo IAPC. Este, não sendo otorrinolaringologista, nada pôde fazer em defesa da necessidade do citado homem ou do menor doente. Recomentou a ida ao mesmo a Baurú, onde existe um mais completo serviço assistencial do instituto. Lá chegando a esposa do comerciário, não pôde ser atendida, porque o facultativo responsável pela especialidade se encontrava em goso de férias regulamentares. O homem não teve outro recurso, senão realizar a operação do filho, através de médico particular. Após isso, tentou ser reembolsado das despesas, uma vez que só os fatos anteriormente narrados motivaram a utilização de outro facultativo. Mas não conseguiu. Deparou com uma barreira burocrática incrível. Pediu, implorou, bateu em diversas portar e acabou por desistir, completamente desiludido com o IAPC.

Trata-se, é evidente, de um descaso desse órgão, de um não cumprimento fiél de suas obrigações. Motivos inúmeros existem, para justificar essa deficiência. Entretanto, bom é que ressalte, nenhuma culpa no caso possuíam os contribuintes, uma vez que o erro existe dentro dos próprios institutos. Não erro de direito, mas erro de fato.

Seguidas vezes temos batido sôbre a questão de que nem siquer ambulatórios médicos capazes e condignos, possuem os marilienses assistidos (?) por diversos institutos de aposentadorias. E temos frizado também, as verdadeiras fortunas que desses trabalhadores de Marília, são carreadas para os cofres dos IAPS, sem nenhuma recompensa prática, urgente e efetiva.

Os casos desse pórte são normalmente corriqueiros entre nós, como devem se-lo igualmente na maioria das cidades interioranas. Sucede que Marília não é uma cidadezinha qualquer, pois é um centro adiantado, com uma densidade demográfica considerável. Só em Marília e em outros centros dinâmicos e progressistas tal fato sucede com frequência, como serão assistidos os comerciários, industriários, bancários e empregados em transportes de outras cidades menores? Claro, é facílimo de analisar.

O fato supra referido constitui-se num motivo de desculpa esfarrapada, de que são “coisas que acontecem”. De fato, o é. Mas, perguntamos, com um pouquinho de melhor boa vontade por parte das altas administrações dos IAPS, não haveria um meio de sanar, pelo menos em parte, tamanha e desumana irregularidade?

Responda quem for capaz.

Extraído do Correio de Marília de 1 de julho de 1959