quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Brasil, a Bolivia e o Petróleo (31 de julho de 1956)


O assunto – petroleo – até arrepia, quando se tem que escrever a respeito. Principalmente quando tudo o que se diz acerca do mesmo lembra logo o comunismo e suas campanhas. Acontece que não somos comunistas, derrotistas ou anti-patriotas. E também, a rigor, somos “meios” leigos na matéria.

Entendemos a questão da exploração do petróleo, como necessidade nacional, como uma riqueza tão poderosa como o café, o cacau ou a borracha – um índice verdadeiro de independência econômica da nação. Por isso, achamos que a exploração da maneira como é apregoada à larga, óra iniciada pela Petrobrás, está já com uma centena de anos de atrazo. Mesmo assim, não concordamos com a obrigatoriedade de proprietários de veículos serem compulsados a adquirir ações da empresa. É um ponto de vista nosso.

O assunto primordial desta nossa crônica de hoje, sobre o petróleo, “são outros quinhentos cruzeiros”.

O Sr. Hernan Silles Zuazo (foto), Presidente da República da Bolívia, declarou à imprensa brasileira, quando de sua passagem pelo Rio de Janeiro, que em seu país, nada menos do que 32 mil quilômetros quadrados de áreas petrolíferas, serão controladas pelo Brasil, para a exploração do ouro negro. Se, por um lado, nos envaidece o motivo, a confiança com que os bolivianos nos distinguem, a honra mesmo, por outro lado, nos dá com que iniciar alguns “tratos à bola”. Óra, se estamos ainda engatinhando nêste campo, se estamos provando, à sociedade, inúmeras deficiências acerca dêsse momentoso, palpitante e necessário assunto do próprio progresso do Brasil, como é que poderemos apresentar condições capazes de assumir e bem desenvolver um compromisso de tamanha monta? É o mesmo que um chefe de família que vive em dificuldade para sustentar a própria casa e que se propõe a arcar com a incumbência de sustentar um novo lar!

À primeira vista, as notícias tiveram uma repercussão estranha; só mais tarde, é que o “zé povinho” (como nós), começou a “maturar” sobre a questão. Desde 1938, existe tratado a respeito, entre os dois paises. Vejam bem os leitores: em 1938, o Brasil nem siquer “havia nascido” nessa questão de trabalho: de exploração de petróleo. Se bem que dependamos ainda hoje, em grande parte do capital estrangeiro, naquela época estavamos na dependência total. E já assumimos um compromisso dêsse porte! O fato, em si, é algo curioso. Nem sequer podemos proceder a exploração total do produto nacional por nossa conta, por falta de dinheiro, de técnicos especializados em número suficiente, de aparelhagem adequada etc., e, no entanto, vamos explorar o petróleo em outro país!

Dissemos acima, que tal fato representa um orgulho para os brasileiros. Isso não se discute. Mas se o negócio chegar a bom têrmo, na prática, vai apresentar uma faceta bastante curiosa: vai ser “gozado”, o Brasil explorando o petróleo na Bolívia, enquanto o seu sub-sólo, riquíssimo, está “dando sopa” e o brasileiro não dispõe de todos os meios para explora-lo e enriquecer a própria nação.

Não vejam os leitores nenhum sentimento anti-patriótico nestas assertivas. Pelo contrário, elas estão impregnadas de sentimento verde e amarelo!

Extraído do Correio de Marília de 31 de julho de 1956

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O Curso Ginasial Noturno (28 de julho de 1956)

O povo mariliense, através das providências de suas autoridades e das lutas de seus vereadores, conseguiu tornar realidade um velho sonho, uma antiga e justa aspiração de sua mocidade estudantil: a criação e instalação de um curso ginasial noturno e gratuito, de carater oficial.

Não há necessidade de relatarmos aqui, com minúcias, as oportunidades que tal curso oferecerá aos estudantes pobres, principalmente àquêles que trabalham durante o dia e pretendem estudar à noite. Maximé considerando-se as elevadas taxas educacionais dos dias de hoje. Há no entanto, uma ressalva a fazer-se ao povo mariliense, em especial a sua mocidade estudantil: É que, segundo estamos informados, está se apresentando aquém das expectativas, o interêsse que a criação de tal curso deveria despertar. Parece mesmo que o número dos pretensiosos a desfrutar dêsse privilégio, será diminuto e poderá inclusive, acarretar o não funcionamento do aludido curso noturno, se o coeficiente de matrículas não atingir o limite mínimo previsto por lei.

Ora, isso é um fato que não deixa de se mostrar como doloroso para um centro como Marília. Que se tal acontecer, não deixará de constituir-se numa decepção às lutas daquêles que mais se empenharam para tornar realidade sua vigência. Que estará acontecendo à margem de tudo isso? Quais serão os motivos dêsse desinterêsse tão acentuado, quando tanta gente demonstrava, há pouco, uma vontade indômita de haurir as luzes da ciência e bradava por aí que não poderia estudar, em virtude da necessidade de trabalhar para o próprio sustento ou para auxiliar a subsistência da família?

Não sabemos, mas procuraremos saber o que se está passando a respeito.

O fato é que o povo de Marília deve reconhecer os trabalhos desenvolvidos por uma plêiade de marilienses que tomou parte nessa luta; igualmente, deve ser grato ao sr. Governador do Estado, que atendeu a essa reivindicação de Marília.

Se o curso ginasial noturno, que deverá funcionar a partir do próximo mês não tiver vida, pelos motivos citados, com que armas poderemos continuar na trincheira que nos colocamos há anos, nessa contenda gloriosa, encetada pela criação da Faculdade de Marília?

Pensem todos, pois o problema apresenta maior gravidade do que possa parecer à primeira vista. Bom será que reflitam os jovens em idade escolar, em especial os que sempre sonharam em estudar e que precisam trabalhar. Reflitam, também, os pais pobres que têm filhos em idade escolar.

Extraído do Correio de Marília de 28 de julho de 1956

domingo, 27 de julho de 2008

Um problema grave (27 de julho de 1956)

Já tivemos o ensejo de dizer, através desta mesma coluna, que entendemos, com razão, que o meretrício é um mal necessário. E que em especial, nada temos contra as infelizes mulheres que mercantilizam o amor fazendo intercâmbio do próprio corpo. Continuamos ainda com o nosso ponto de vista (que não é segredo para ninguem), de que em Marília, o problema, colocado no pé em que se encontra, está a exigir atenções urgentes das autoridades constituidas.

É mesmo inadmissível, que se verifique a imiscuidade tão flagrante como está acontecendo em nossa cidade, entre famílias e meretrizes, às vezes em casas intercaladas numa mesma via pública. A zona do pecado, felizmente é delimitada; infelizmente tais limites não são observados. Existem ruas em nossa urbe, onde os forasteiros que procuram o “bas fond” não sabem onde entrar e chegam a bater em casas de família!

Publicamos, ha dias, neste jornal, um abaixo assinado, contendo cerca de cem assinaturas, em que pessoas residentes nas imediações da chamada “zona”, se dirigiram à autoridade policial competente, solicitando providências a respeito.

O referido problema, apresenta ainda uma outra consequência mais grave: é a locação de casas naquelas proximidades, onde “cidadãos ilustres” colocam suas amantes, em cujos locais, por vezes, para lá até as meretrizes se deslocam.

O fato, em sua verdade, é êste: o número de casas suspeitas, aumenta, ao invés de diminuir. As famílias, por outro lado, vão alugando casas sempre que possível nas imediações (principalmente na atual crise de moradias), e, sem que percebam, aumentando a promiscuidade. Várias ruas, além de já apresentar essa face desagradável da questão, são de trânsito obrigatório de homens, senhoras e até crianças escolares. Vez por outra, se presenciam espetáculos que poderiam ser evitados, se a zona do meretrício fosse realmente isolada e perfeitamente delimitada, sem que se verificasse, como está acontecendo, a transgressão ao preceito estipulado pelo artigo 42 do Código de Contravenções.

Em nosso entender, a extinção do meretrício na cidade é contraproducente; mas, por outro lado, a obrigatoriedade da delimitação e a rápida mudança para um local próprio, isolado e já existente, é uma urgência inadiável.

Extraído do Correio de Marília de 27 de julho de 1956

sábado, 26 de julho de 2008

A Cooperativa Banco de Marília (26 de julho de 1956)

Faz muitos anos. Um grupo de pessoas, oriundas de outras paragens, mas que sentiram, logo que aqui aportaram, um amor verdadeiro por estas plagas, entendeu de criar em nossa cidade, um banco cooperativo. Da idéia à realização, pouco tempo decorreu, porque êsses homens puseram mãos à obra sem medir sacrifícios. Sem considerar as dificuldades naturais que se deparam às grandes iniciativas. E surgiu, então, a Cooperativa Banco de Marília Ltda.

A princípio, embora contasse com o apôio de muita gente, gente que conhecia sobejamente a capacidade de trabalhos e de intenções daqueles timoneiros, não deixou a organização de atravessar suas séries de dificuldades. Um estabelecimento, especialmente de crédito, assegura suas bases de solidês, não só no capital integralizado, mas, em particular, na capacidade e na integridade moral e de trabalhos de seus responsáveis e dirigentes.

O início, como todos os começos de grandes realizações, foi cheio de percalços, de incontáveis dificuldades. No final, a vitória. Justa, premiando trabalhos e intenções. Hoje, a Cooperativa Banco de Marília Ltda., é uma organização que orgulha a cidade. Tem seu conceito firmado no comércio e na lavoura. Sua diretoria foi e continua composta, desde o início, de homens probos, autênticos apaixonados do progresso de Marília.

De início a organização nasceu como todos os grandes empreendimentos: sem outras pretensões, que não a desincumbência das finalidades previamente colimadas. O tempo, porém, passou a exigir a dilatação. E esta veio, paulatinamente, como exige a firmeza de todos os bons átos. Hoje, além de sua séde, explendidamente montada, na rua 9 de Julho, 1284, a Cooperativa Banco de Marília possui os departamentos de Ocauçú, Nova Colômbia, Avencas, e, domingo próximo, será inaugurada a Agência de Lupércio.

É sobre esta inauguração, que falamos hoje. Sobre o progresso que representa para a progressista localidade, e, consequentemente, para a própria região. Com mais êsse passo, dentro do progresso de sua própria vida bancária, a Cooperativa Banco de Marília continua, sem alardes e sem estardalhaços, a cumprir sua corajosa e dificil missão.

Assim, pois, ao registrar mais êsse lance do progresso da Cooperativa Banco de Marília Ltda., desejamos nos congratular com seus dirigentes e funcionários, e, em especial, com o povo laborioso do município de Lupércio.

Extraído do Correio de Marília de 26 de julho de 1956

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Reflorestar é u’a necessidade (25 de julho de 1956)

O problema do reflorestamento é mais necessário e urgente do que à primeira vista possa parecer. A rigor, é mesmo uma necessidade das mais patrióticas.

O Brasil, embora com uma vastidão de terras “por descobrir”, considerando-se a sua pouca idade em face dos demais países do globo, apresenta-se, nesse particular, como uma verdadeira lástima.

De acôrdo com as estatísticas, cerca de 80% do combustível destinado às indústrias, meios de transportes e atividades domésticas, é representado pela lenha e carvão de lenha. Ainda conforme os mesmos dados oficiais, 500 mil hectares de matas são derrubados anualmente no país. Afóra isso, as chamadas “zonas novas” alimentam também o consumo de madeira para as moradias, etc..

No ritmo que caminhamos, nesse particular, não mui distante, o país se transformará num deserto de florestas, mesmo apesar das enormes áreas do “Brasil desconhecido”.

Tem razão o vereador J. Coriolano de Carvalho, quando manifesta publicamente a sua preocupação a respeito do problema, cuja gravidade nem todos se deram ao trabalho de estudar. Vários países da Europa, não dispõem hoje de matas, sequer para as mais comesinhas necessidades internas. Alguns até importam o chamado carvão de pedra, para suas indústrias, desviando rios de dinheiro de suas fronteiras, porque fizeram no passado, exatamente o que está acontecendo no Brasil no presente. Na Itália e na França, existem propriedades agrícolas, que não dispõem sequer uma arvore para fazer sombra! Até a África, que sempre foi mais “misteriosa e desconhecida” do que o Brasil, já apresenta claros gigantescos, que se estendem por milhares de hectares, como consequência da exploração de madeira, que tem sido carreada para Portugal, França, Itália e outras nações.

Para citar-se um exemplo que já é contundente, basta que relembremos que a própria Alta Paulista é uma zona novíssima. Analisando bem, a Alta Paulista quase não tem mais matas, por incrível que pareça. A região da Noroeste, também nova, já apresenta crise, quando muitas cidades noroestinas já estão recebendo lenha para o consumo domestico, do vizinho Estado do Mato Grosso. Ora, com a propalada mudança da Capital Federal para Goiás, daqui há algumas dezenas de anos, a lenha principiará a escassear em Goiás e Mato Grosso. Quando menos se esperar, o povo já estará “entrando” no inferno verde do Amazonas e então estará consumado o futuro do Brasil: teremos o Gigante transformado numa vastidão de terras áridas e teremos também aumentado mais uma conta no rosário de nossas importações.

O problema do reflorestamento é uma imposição nacional. O combate às derrubadas, igualmente.

Que melhor reflitam os homens do govêrno, acerca disso.

Extraído do Correio de Marília de 25 de julho de 1956

quinta-feira, 24 de julho de 2008

A nova “miss” Universo (24 de julho de 1956)



A srta. Carol Morris (foto), representante do Estado de Iowa, U. S. A., acaba de ser coroada “miss” Universo de 1956, no concurso de beleza recentemente realizado em Long Beach, na Califórnia.

As finalidades do concurso referido, não vamos comentar, porque não as vemos e nem tampouco as entendemos. Nesse particular, só conseguimos observar o espírito de propaganda comercial, feito com bastante vontade e com muito dinheiro. Vamos apenas, hoje, tecer umas consideraçõeszinhas acerca de nossa representante, a gauchinha Maria José Cardoso, que partiu para a terra de Tio Sam vislumbrando um horizonte verde de esperança e regressará agora imersa num mar de desilusões. É que muitos brasileiros, andam por aí a clamar de injusta a decisão do juri, alegando parcialidade do julgamento, “marmelada”, etc. e tal. Pode ser que hajam se verificado tais expedientes; mas acontece, que mesmo que isso tenha sucedido, não temos a respeito, o mesmo modo de pensar que há um ano passado externamos acerca de Emília Correia Lima, a “Miss” Brasil de 1955: O Brasil dificilmente será tão condignamente representado em certames dêsse jaez, como o foi quando elegeu Marta Rocha!

Não pretendemos, em absoluto, classificar como feia, a popular gauchinha; e nem de indigna de representar a beleza da mulher brasileira. Acontece, que, conhecendo aproximadamente as exigências das bases do concurso, no que tange as medidas plásticas, prevíamos, de ante-mão, que a Zezé não conseguiria chegar às finalíssimas, embora tenha conseguido colocar-se entre as semi-finalistas.

O fato é que o Brasil não se fez bem representar, com Maria José Cardoso e os que apreciarem os dotes físicos e as medidas corporais das candidatas colocadas nos primeiros postos, por certo, hão de convir conosco. Não vejam os nossos leitores, derrotismo ou espírito do contra nesse ponto de vista. É que estamos repetindo exatamente aquilo que pensamos e escrevemos sôbre a cearense Emília Correia Lima, no ano passado. Pensamos mesmo que a comissão julgadora de Quitandinha não foi feliz na escolha, em dois anos seguidos. Por falar em “marmelada”, não dizem por aí que o juri teria sofrido interferência do sr. João Goulart, que também é gaucho e é vice-presidente da República? Dizem.

O fato é que embora para muita gente, a decisão do julgamento de Long Beach pareça ter sido bafejado por ar de parcialidade, para nós, entendemos, houve muita justiça na decisão. Pelo menos confrontando nossa representante frente às primeiras classificadas.

Extraído do Correio de Marília de 24 de julho de 1956

segunda-feira, 21 de julho de 2008

É inacreditável (21 de julho de 1956)

No Brasil aconteceram coisas extraordinárias, como nos Estados Unidos. Só que de maneira diversa. O norte-americano é prodigioso em criar situações curiosas, emoldurar fatos umas vezes ridículos, outras ocasiões cômicos e trágicos. Regra geral, prendem-se à pessoas, refletem-se um espírito onde aquilo que se póde chamar “esportividade” supera o fator conhecido como individualismo. Já com o nacional, fatos desse jaez, curiosos, exóticos, são conhecidos à miude, como verdadeiras aberrações, onde presponta um espírito de oportunismo, egoísmo, menosprezo ao próximo, num áto indistinguível de “salve-se quem puder” ou de “puchar a sardinha para o seu lado”.

Não queremos dizer que todos os brasileiros sejam assim. É que, de modo geral, assim se apresenta a “radioscopia” do espírito da maioria de nossos patrícios.

Todos clamam da vida, jamais vimos muita gente satisfeita com seu próprio ‘modus vivendi’. O pobre, mais conformado, vai vivendo aos “trancos e barrancos”. O da classe média, sempre esperançoso de melhorar mais. O rico, insatisfeito com seus milhões, sempre procupado em aumentar as pilhas de cruzeiros de sua burra ou o número das cifras bancárias em seu nome. “C’este lá vie”, como dizem os franceses conformados e tambem os conservadores.

A verdade, porém, é que muita gente que vive por aí, a bater no peito com entusiasmo e arrotando orgulho de ser brasileira, não foge a regra. Só pensa no estômago. Os outros, que se danem. E mesmo que as possíveis melhorias sejam das mais ilegais, não importa. O “venha a nós” é a oração de todo o momento.

Agora mesmo, está noticiando a imprensa da Capital Federal, um fato verdadeiramente incrível: alguns funcionários da Prefeitura do Distrito Federal, se sancionado o novo aumento de vencimento dos servidores da Comuna, irão perceber até 126 mil cruzeiros por mês! Nem o Chefe de Governo, legalmente, tem tais proventos da Nação!

Bem, nesse particular, podemos nos ufanar de uma coisa: Deixamos até os americanos “por baixo”.

É mesmo inacreditável, mas no Brasil, tudo póde acontecer. Tudo, menos o que é indispensável ao bem estar dos brasileiros!

Extraído do Correio de Marília de 21 de julho de 1956

domingo, 20 de julho de 2008

O Salário Mínimo (20 de julho de 1956)

A elevação dos níveis salariais no Brasil era mesmo uma contingência inadiavel, decorrente da própria ordem natural da subsistência nacional, tão dificil em nossos dias. Já tivemos o ensejo de nos manifestar a respeito, sob o ponto de vista puramente jornalístico. E concluimos sem dificuldades de que a situação não será atenuada um tiquinho siquer. Pelo contrario, tornar-se-á mais crítica, mais desesperadora. Não vai nisso nenhum mistério, nenhuma novidade. Nem tampouco espírito derrotista ou anti-patriótico. A verdade é que o atual e desagradável estado de coisas, continua a desafiar a argúcia e a capacidade administrativa de nossos governantes, sem que seja possível, pelo menos aparentemente, um dique à corrida altista do custo de vida.

Desde que foram (tornados) públicos os primeiros “balões de ensaios” acerca do salário mínimo óra decretado, provou-se que os gêneros de primeira necessidade e os utensílios domésticos deram “saltos” gigantescos, incrivelmente contundentes à própria vida do (trabalhador) nacional de classe média e pobre. E continua ascendendo, pirotécnicamente. E, ao que se deduz, pelo que estamos verificando, as coisas tendem a piorar. Parece-nos que jamais se verificou no Brasil, com tanta agencialidade, o descontrole nesse campo. A vertigem da alta atingiu, ultimamente, índices inacreditáveis, que chegaram a colocar o Brasil em situação de destaque nesse setor, perante todas as nações do mundo.

Ninguém está satisfeito hoje em dia. não existe mais termômetro para medir a febre dos constantes aumentos das coisas. Não existem fórmulas e nem ações para deter um pouco essa verdadeira onda de desgraça. Infelizmente. A situação está a exigir melhores ações de nossos governantes, no sentido de pelo menos conter a corrida altista. No nordeste, o drama é de fome, como decorrência da seca implacável. Aqui no sul, o drama poderá tornar-se tão angustiante quanto a fome dos nordestinos, se nossas autoridades governamentais não tomarem outras providências em beneficio do povo, controlando melhor ou congelando o custo de vida.

A verdade é que desde que iniciaram-se os primeiros passos pela majoração do salário mínimo no Brasil, até a sua decretação e até ainda a sua vigência, a aquidistância geral de todas as coisas, no coeficiente da porcentagem de altas, deixou longe a diferença do propalado aumento. Isto sem se contar com outra faceta da questão: o número de desempregos, que a vigoração da lei trará à milhares de brasileiros.

Extraído do Correio de Marília de 20 de julho de 1956

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Teatro Amador Mariliense (14 de julho de 1956)

O redator destas linhas, jamais teve a oportunidade de apreciar, no passado, aqueles belíssimos espetáculos teatrais que nos contam todos, que eram levados a efeito pelo Gremio “Leopoldo Fróes”, sob os auspícios da “União dos Treze”. No entanto, estamos informados que belas noitadas foram apresentadas em nossa cidade, arrancando aplausos de toda a gente, especialmente daqueles que amam esse tipo de apresentações.

Fazia muito tempo que não víamos em Marília, um espetáculo teatral de vulto e de grande repercussão, pois se não fora uma ou outra festa estudantil a respeito, nada se tinha feito em Marília nesse sentido. E verdade, diga-se, que mesmo entidades estudantis e religiosas tem apresentado boas peças; estas, no entanto, não tiveram, como é lógico, uma irradiação como o espetáculo de quinta feira última no Cine Marília, “Sinhá Moça Chorou”.

Assistindo a peça, embora não tivéssemos gostado cem por cento da história profundamente extensa, gostamos sobremaneira de como se conduziram os rapazes e moças que na mesma interviram. Gostamos, porque vimos uma plêiade de jovens capazes de representar, como amadores, melhor do que muitos profissionais, verdadeiros “medalhões” das Capitais. E foi daí, que nos afluiu um pensamento. Poderá parecer algo ousado, mas no entanto é perfeitamente viável, e, de certo modo, necessário ao progresso de Marília e as exigências artísticas de seu grande povo. Por que não fundamos em nossa cidade o “Teatro Amador Mariliense”?

Ficou provado que temos gente capaz em Marília. Para dirigir, para ensaiar, para encenar, para “maquilar” e para representar. Com uma união dêsse grupo, poderiamos ter uma equipe para representar Marília, de modo permanente e satisfatório, no campo do teatro amadorista. É claro que haveria dificuldades de várias ordens. Mas após termos visto as que transpuseram os responsáveis pela apresentação de “Sinhá Moça Chorou”, nos convencemos que as dificuldades serão contornadas e que Marília poderá ter o seu teatro amador.

Aquí, fica a idéia, que é tambem, uma necessidade. Que se organizem algumas pessoas de boa vontade, amantes da arte teatral, coadjuvadas por esse grupo de jovens e se funde em Marília o Teatro Amador Mariliense.

Extraído do Correio de Marília de 14 de julho de 1956

domingo, 13 de julho de 2008

O V Congresso dos Municípios (13 de julho de 1956)

Já estão surgindo as teses dos vereadores marilienses, que serão apresentadas no V Congresso Estadual dos Municipios, certame êsse que terá lugar em Botucatú, nos dias 18 a 22 do corrente mês. O conclave será patrocinado pela Associação Paulista dos Municípios, sob a presidência do Dr. Aniz Badra.

Em nossa edição de ontem, publicamos, na íntegra, o trabalho que será apresentado e defendido pelo Dr. J. Coriolano de Carvalho, sobre o impedimento da devastação de matas, o reflorestamento propriamente dito e o incentivo à plantação de oliveiras.

Em outro local desta tiragem, publicamos a tese que será defendida pelos vereadores Reverendo Alvaro Simões e Edmundo Lopes, sobre o exercício gratuito da vereança municipal.

Por sua vez, o Dr. José Guimarães Toni está coligindo num só apêndice, uma serie de dados para formar a sua tese, que versará sobre a melhor distribuição de rendas aos municípios, incluindo nesse trabalho a reforma de um dispositivo constitucional, de vez que tanto se fala presentemente em reforma da Carta Magna.

Três trabalhos são conhecidos, por óra, que representarão a contribuição dos vereadores de nossa cidade, ao certame máximo do municipalismo, que terá lugar de 18 a 22, na bela “urbe” de Botucatú. É possível que novas teses venham a ser presentes, defendidas com conhecimento de causa por representantes marilienses. O que nos levou a comentar hoje tal assunto, é o nosso desejo de que nossa gente conheça bem a importância dos oportunos e valiosos temários, com que Marília, através da comissão especial de seus edís, participará do aludido conclave.

Os assuntos antes citados, são oportuníssimos e de interesse vital para a vida interiorana do Estado, que, em última analise significa a própria seiva do progresso do coração do Brasil, uma vez que a vida econômica da nação, está diretamente ligada, antes de tudo, ao interior.

Por certo, outros trabalhos poderão ainda surgir, da lavra dos representantes marilienses. Nossos desejos são que sejam tambem valiosos e oportunos como os que estamos referindo, que representam, indubitavelmente, esperanças de melhoria para dias futuros. Principalmente agora, no momento presente, quando esse força máxima que se chama municipalismo, começa a despertar de seu sono letárgico de centenas de anos e chamar, com justiça, a sí, as atenções dos poderes centrais, fazendo-os ver quantos erros foram praticados no passado, com a apatia e o indiferentismo que sempre se relegou os homens do interior.

Embora um pouco prematuramente, aquí deixamos consignados os nossos votos de boa viagem à comissão mariliense que integrará o V Congresso Estadual de Municípios e os auguros sinceros de que o êxito total seja realidade na realização do aludido certame, principalmente na aprovação unânime das teses que serão apresentadas em nome de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 13 de julho de 1956

sábado, 12 de julho de 2008

Nova manobra à vista (12 de julho de 1956)

Indubitavelmente, a situação é de desesperar. Não existem meios e nem pessôas capazes de frear um pouco a incontida elevação do custo de vida no Brasil. Os monopolistas, com a faca e o queijo na mão, ditam as cartas a bél prazer. A classe pobre (e a média tambem) do povo brasileiro, vai vivendo aos trambolhões, num mar crescente de dificuldades, na luta pela própria subsistência.

Ninguém dá jeito. Bafejam-se providencias, divulgam-se ações, mas a situação cada vez piora mais. Desgraçadamente.

Nova manobra vislumbra-se agora nos negros horizontes da vida nacional: a sonegação da farinha de trigo, visando forçar a alta do pão e seus derivados. Forçar a alta, não será bem o têrmo, pois esses produtos não tem controle. Os derivados do trigo sobem seguidamente. O pão, se não sobe no preço, diminui em tamanho, o que vem dar na mesma.

Dissemos ha dias, nesta coluna, que mais de 450 mil toneladas de trigo apodrecem no sul, por falta de uma série de providências governamentais. Agora, queixam-se os industrializadores da farinha, em São Paulo, que as entregas do produto estão apresentando sérias irregularidades. Muitos moinhos, recusam-se a adquirir o produto nacional, que continua armazenado inclusive em igrejas católicas, no sul do país. Enquanto isso, as cotas de importação do cereal, continuam em elevação. O que podemos deduzir de tudo isso? Simplesmente que acontecerá o que está sucedendo com o famoso, doloroso e indesejável “caso do açucar”: vai já sair mais uma tira de couro dos costados da gente. Isso não tem dúvida!

Denunciou ha pouco a imprensa paulistana, que alguns moinhos importam clandestinamente o trigo americano e canadense, vendendo-o como produto nacional, sendo que no entanto, o principal Estado produtor do mantimento grita que seu produto está apodrecendo nas fontes, por falta de amparo, preços e principalmente transportes!

Para nós, não será novidade, mais essa manobra, que, a julgar pelo grande “progresso” do Brasil no sentido da elevação do custo de vida, já está até demorando um pouco. Parece até que estamos ironisando, quando na verdade estamos é rindo para não chorar. A situação desafia os governos e estes provam a sua impotência para colocar “nos eixos” muita coisa errada que campeia por aí.

Infelizmente.

Extraído do Correio de Marília de 12 de julho de 1956

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O Fisco e as Notas Fiscais (11 de julho de 1956)

Há tempos, as autoridades fazendárias do Estado, iniciaram uma campanha de orientação pública, acerca da necessidade de os compradores – comerciantes ou não – exigirem, no ato de suas compras, a competente expedição das notas fiscais. Visou a campanha referida, educar parte do próprio povo, no sentido de sua colaboração com os próprios interêsses do Estado, a fim de evitar-se a evasão de rendas estaduais, com consequência da sonegação de impostos de vendas e consignações.

No momento, as mesmas autoridades, por intermédio de todos os seus fiscais de rendas espalhados pelo interior, estão pondo em prática a rigorosidade de tal urgência. Os motivos não podem ser discutidos, uma vez que são justos. No entanto, cumpre-nos fazer uma pequena ressalva à referida campanha, que, a nosso ver, está apresentando algumas falhas.

Consta-nos que até para uma parte do público, a campanha está sendo mal recebida, em virtude de como está sendo levada a efeito. Não sabemos se é verdade, porém estamos informados, que, há dias, na avenida Carlos Gomes, um dêsses funcionários abordou u’a mocinha que conduzia nos braços um embrulho de frutas e legumes adquiridos numa quitanda. Interrogada sôbre a nota fiscal, alegou a moça não possuí-la. O fiscal, então, teria aventado a hipótese de encontrar-se o referido documento embrulhado com a mercadoria. A jovem ainda insistira negativamente. Aí, então, o funcionário teria arrebatado violentamente o pacote da moça e tentado desembrulhá-lo, quando esta reagiu, esbofeteando o servidor público. Não sabemos se a verdade está bem delineada no caso que ouvimos na rua e que acima referimos. Se verdadeiro, estamos com a moça, entendo haver existido exagero por parte do funcionário, do desempenho de suas funções, no caso em tela.

A falta que cumpre apontar, é que a campanha que inicialmente lembramos, no sentido de educar o próprio povo (parte dêle, é claro), deveria ser reavivada, em sentidos mais amplos, para evitar-se fatos como êsses. O povo estando convenientemente esclarecido, passará a habituar-se a exigir, êle próprio, as notas fiscais das compras que fizer.

Nos deu ciência a imprensa paulistana, que, há pouco, em São Paulo, na rua 25 de Março, uma equipe de 60 fiscais, num só dia, constatou a sonegação de impostos de vendas e consignações, num total de 22 milhões de cruzeiros, cujo coeficiente de impostos devidos aproxima-se da casa dos mil contos de réis. Todos os comerciantes, de Marília ou de qualquer cidade do interior, que adquirem mercadorias em estabelecimentos da citada via pública, dificilmente conseguem notas fiscais, pois aquêles comerciantes negam-se, terminantemente, a expedi-las. Portanto, a campanha deve ser procedida, com mais rijeza, na própria Capital.

Aqui no interior, antes de ser a mesma encetada com tamanho rigor, melhor seria se existisse uma orientação prévia mais aprimorada, tanto para os comerciantes como para os consumidores, de sua necessidade, de sua urgência, de suas altas finalidades para os próprios interêsses econômicos do Govêrno. Isto afirmamos, porque bem sabemos que o povo convenientemente preparado, melhor colaborará com os poderes públicos e então, o próprio consumidor, por mais humilde que seja, irá, para o futuro, exigir do comerciante, a sua nota de compras.

Extraído do Correio de Marília de 11 de julho de 1956

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Devolvido o revolver do Guarda (10 de julho de 1956)

Ha dias, escrevemos nesta mesma coluna, acerca do verdadeiro desastre moral sofrido por um galhardo Guarda Civil, que, na instalação sanitária do Cine Bar, esquecera o revolver de propriedade da Corporação.

Na ocasião, fizemos um apêlo à pessôa que encontrara a arma, para que a devolvesse, uma vez que o soldado estava moralmente abatido e com sua folha de serviços, até certo ponto comprometida.

Ontem, a pessoa que tinha o revolver em seu poder, talvez refletindo bem sobre o caso, resolveu devolver a arma ao seu legítimo dono. Dirigiu-se ao Padre Cesar Luzzio Júnior, vigário da Matriz de Santo Antônio, ao qual confiou a arma. O sacerdote, áto contínuo, encaminhou ao Sr. Chefe da Guarda Civil, o referido revolver.

Não procuramos indagar do sacerdote referido, quem foi a pessôa, por dois motivos: primeiro, porque a ninguem interessará saber quem, movido talvez pelo remorso, devolvesse a arma que conservara em seu poder durante vários dias; segundo, porque o Padre Cesar, como bom sacerdote que é, jamais iria divulgar o segredo, jamais iria trair o sigilo do confessionário.

Nisso tudo, ressalta-se o valor moral e espiritual do sacerdote a confiança ao mesmo depositada pela pessoa que havia encontrado a arma. O gesto merece ser tornado público. Do cidadão que devolveu o revolver, confiando-o ao sacerdote para a entrega sigilosa ao seu legítimo dono, e, deste, que, representando um ponto de confiança moral e espiritual para o outro que tinha uma pesada carga sobre a consciência, foi capaz de fazer a entrega sem divulgar a origem, sem comprometer o nome da pessoa, que embora tivesse conservado consigo o objeto durante alguns dias, reparou o erro da não devolução imediata.

Temos que louvar ambos os gestos, especialmente do homem que com sua atitude, veio prestar um motivo de alívio de consciência a si próprio e de solução para a própria vida profissional para o guarda civil Mario Manzano.

Isso vem atestar, de modo insofismável, que ainda nem tudo está perdido neste mundo, no que diz respeito a moral e a honestidade.

E o caso, que tanto deu para falar e que tantos aborrecimentos déra ao democrático soldado da Guarda Civil, voltou a normalidade.

Como todos os marilienses, estamos satisfeitos pelo desfecho favorável da tormentosa questão.

Extraído do Correio de Marília de 10 de julho de 1956

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O advogado analfabeto (07 de julho de 1956)

Apesar de todo o exagero aparente no epígrafe de nosso artigo de hoje, nada mais existe do que a verdade, nua e crúa, crúa e núa. E o mais interessante, é que o fato passou-se no Brasil, neste nosso Brasil amado e idolatrado.

A Ordem dos Advogados do Brasil, Secção do Distrito Federal, viu-se ha pouco, em palpos de aranha, para resolver um caso “sui generis”: inscrever um bacharel em direito, que não sabe ler! Verdade, leitores. A papelada atinente ao processo, foi apresentada de acordo como manda o figurino, isto é, de acôrdo com a própria lei que regula a matéria. As petições, assinadas quase “em cruzes”, foram apresentadas de acôrdo. O candidato ao registro apresentou todos os documentos, inclusive o diploma. Preencheu, enfim, todas as exigências formais para o caso. Sem saber ler.

O fato parece até brincadeira. Se tivesse acontecido nos Estados Unidos, por exemplo, não nos causaria tanta espécie, uma vez que naquela nação irmã se verificam, à miude, fatos curiosos e verdadeiramente inacreditáveis. Mas... no Brasil, francamente! Lamentamos não conhecer os pormenores do fato, isto é, como se houve a O.A.B., para safar-se da enrascada. Concluimos, porém, que se o candidato apresentou o diploma registrado, pagando as taxas e selos devidos e entrou com a papelada em ordem, está dentro da lei. Óra, estando dentro da lei, tem que ser merecedor das prerrogativas previstas pela mesma. O erro, neste caso, não será da Ordem dos Advogados, que apenas cumpriu a vigência de um diploma legal. O erro vem de traz, da própria vida escolar (?!!) do “advogado”. Bôas intenções, é o que parece não existir nessa questão. Algum “objeto misterioso”, como se diz naquela “Marmelandia” de Max Nunes, com bom som e representado por alguns pacotinhos de “retratinhos” do saudoso Pedro Alvarez Cabral, deve ter influenciado nesse caso, sem sombra de dúvidas. Senão, como esplicar um acontecimento dêsse jaez?

Sempre se criticou, por inúmeros prismas, a bandalheira desefreada que existe no Brasil, com referência ao ensino mercantilizado. Não raro, a polícia é obrigada a arregaçar as mangas e intervir em autênticas “fábricas de diplomas” de cursos universitários. Mas depois de nos inteirarmos dêsse fato, do advogado analfabeto, pr’a nós, chega!...

Extraído do Correio de Marília de 07 de julho de 1956

domingo, 6 de julho de 2008

O problema do Trigo (06 de julho de 1956)

Já dissemos, inúmeras vezes, através desta mesma coluna, que, no Brasil, desgraçadamente, a maioria das coisas úteis, necessárias à própria vida nacional, dificilmente passam dois “períodos de experiências”. Para azar nosso, para azar do próprio progresso nacional.

Não ha muito, escrevemos sobre uma entrevista concedida na Capital Federal, concedida à imprensa pelo diretor da rede ferroviária do sul do país, na qual a referida pessôa fez críticas pesadas (porém verdadeiras) a vários problemas nacionais, especialmente nos que dizem respeito ao auxilio governamental aos produtores, transportes, financiamentos agrícolas, etc.. Naquela ocasião, o entrevistado fez revelações até certo ponto estarrecedoras, no que diz respeito ao trigo do sul do Brasil, que apodrece em depósitos improvisados e até dentro das igrejas (por falta de acomodações apropriadas), enquanto o Brasil continua a importar trigo dos Estados Unidos, Canadá e Argentina. Agora, por exemplo, lemos num jornal da Capital, o seguinte telegrama:

“Deverão chegar, ainda este ano, ao Brasil, procedentes da Argentina, 800 mil toneladas de trigo, que o nosso governo acaba de contratar no vizinho país, a fim de suprir faltas previstas. O trigo argentino foi adquirido à razão de 64 dollars para o produto do sul que corresponde a 65 por cento do volume total e a 58 cruzeiros o “Rosa Fé” que corresponde aos 35 por cento restante. Contudo, ao que nos foi adiantado somente regerão tais preços para as 200 mil toneladas iniciais, ajustando-se novamente de acordo com as cotações internacionais.”

Por aí, verificam os leitores, especialmente aqueles que leram o nosso artigo anterior e antes referido, a situação verdadeira da nação, nesse campo. Um senador dizia ha pouco, que no Brasil o que existe, antes de tudo, é “crise de autoridade, de ações verdadeiras”. De fato. Até nessas compras, nossa Pátria fica sujeita a pagar mais caro por 600 mil toneladas de trigo que já estão compradas e que serão remetidas oportunamente, cujos preços serão “ajustados novamente, de acôrdo com as cotações internacionais”.

Já está além de provado, que o trigo nacional, especialmente o do sul do país, é tão bom quanto ao melhor tipo do estrangeiro por nós importado. Ninguem ignora, tambem, que o Brasil já foi exportador de trigo. Então, como esplicar esse estado de coisas? Só de um modo: falta de pulso dos governos responsáveis.

Ha poucos anos, importavamos o trigo, porque não o plantavamos. Hoje não; hoje o trigo é plantado, não tem preço, não tem compradores, não temos moinhos modernos, não dispomos de meios de transportes; o cereal apodrece no sul... Mas nós continuamos a importando o produto. Até fazendo compras estapafúrdias, como é o caso dessa que o telegrama acima transcrito nos dá ciência”...

Extraído do Correio de Marília de 06 de julho de 1956

sábado, 5 de julho de 2008

O revolver do Guarda Civil (05 de julho de 1956)

José Arnaldo (na foto, com o uniforme de cabo do Exército brasileiro)

O assunto é, até certo ponto, desagradável, para ser comentado. Acontece que temos necessidade de torna-lo público, com intenções de colaborar e de auxiliar um funcionário exemplar, um dos valentes e garbosos soldados que integram a democratica e querida Guarda Civil de Marília.

Aconteceu uma coisa que não deixa de ser natural, embora possa parecer extraordinária: um guarda civil, em serviço no Cine Marília, no último sábado, precisou dirigir-se a uma instalação sanitária. Como a do aludido cinema encontrava-se recem-pintada, o guarda civil recorreu a do Cine Bar. Muito naturalmente, desvencilhou-se de sua arma – o revolver calibre 32, carregado, pertencente à própria corporação que serve.

Preocupado em não permanecer muito tempo afastado do local de serviço, como um bom soldado, apressou-se demais, esquecendo-se a arma de fogo no cômodo referido. Só mais tarde deu pela falta, tendo procurado, inutilmente. Alguem estivera depois de sua saída, encontrara o revolver e desaparecera com ele, certamente. Indagados os presentes, ninguem poude responder, ignorando o fato. E o rapaz, profundamente ferido em seu amôr próprio, por ter sido vítima de um acontecimento inesperado, que poderá mesmo comprometer sua conduta dentro do organismo policial que ele tanto bem representa, está desolado. E com razão.

O fato é o mesmo daqueles que comumente acontecem aos caixas de estabelecimentos bancários. Ver por outra, um pagador engana-se na contagem do dinheiro, pagando a mais. Nem sempre o recebedor é honesto e devolve o dinheiro. Às vezes, póde pensar que o prejuízo será do banco, quando, na realidade, o banco nada perde, porque o funcionário responsável é obrigado a repor a diferença, sem qualquer outra desculpa.

“Ossos do oficio”, póde se dizer, nesta oportunidade. O caso do guarda civil de Marília, que deixou por esquecimento seu revolver na instalação sanitária do Cine Bar, deveria ser meditado pela pessoa que encontrou a arma. E esta pessoa deverá saber que o soldado está em situação desagradável, perante os seus superiores, se bem que tal fato não venha a representar negligencia no cumprimento do dever e sim, unicamente, um verdadeiro desastre.

Porisso, é que resolvemos citar o fato. Para fazer um apêlo veemente ao cidadão que encontrou, no W.C. do Cine Bar, o revolver referido. Que o entregue à Séde da Guarda Civil local, nesta redação, nas estações de rádios da cidade, ou mesmo a qualquer Guarda Civil. Essa pessôa não será censurada por não ter devolvido antes o revolver. Pelo contrário, será recompensada em dinheiro e terá a gratidão de um valente soldado, que se salvará de uma situação desagradável até, para sua honesta e brilhante carreira.

Aquí fica nosso apêlo: Quem encontrou o aludido revolver, que pense bem na situação dêsse Guarda Civil e o devolva. Com isso, além de praticar um áto de honestidade, prestará um grande favor a um funcionário esforçado, a um soldado da tranqüilidade pública, a uma pessôa que foi vítima de um autentico desastre moral em sua própria carreira profissional.

Extraído do Correio de Marília de 05 de julho de 1956

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Alvaro Simões (04 de julho de 1956)

É para nós, do CORREIO DE MARILIA, uma grata satisfação registrar o aniversário natalício do reverendo Álvaro Simões, que hoje transcorre. Amigo incondicional da turma cá da casa, o aniversariante colabora conosco, escrevendo a sua apreciada “crônica do dia”, sempre impregnada de idéias sadias, de exemplos humanitários e de bons conselhos. Como bom pastor protestante que é, o reverendo Álvaro Simões muito se preocupa com os problemas sociais, especialmente da cidade. Como mestre, sempre procura orientar os jovens no caminho do bem, com conhecimentos úteis às lutas da vida, ministrando lições de civismo, amor e solidariedade. Como político, mereceu por mais de uma vez, sua eleição para ocupar o cargo de vereador à Câmara Municipal, onde se destaca pelas suas atitudes serenas e ponderadas, defendendo intransigentemente seus pontos de vista e objetivando a todos os momentos a luta sincera de todas as causas e coisas do povo mariliense.

O que mais admiramos no aniversariante de hoje, ao qual dedicamos nossa modesta crônica, é o seu espírito batalhador no setor educacional da cidade! É um homem verdadeiramente admirável, pelo seu espírito incansável nas contendas constantes e árduas, das aspirações da juventude estudantil mariliense. O autor destas linhas, considera-se à vontade para poder falar assim, publicamente, das ações e personalidades do homenageado. Principalmente pertencendo a uma religião diversa da do reverendo Álvaro Simões. É que, de fato, êsse moço tem tido, até aquí, uma atuação destacada, ao lados dos muitos marilienses que de ha muito lutam pela concretização do sonho de todos nós: a criação e instalação de um curso oficial de ensino superior em Marília. E nós temos autoridade para fazer tal referencia: nos encontramos na mesma trincheira, onde, ombreados, ha muito lutamos por esse mesmo ideal.

É porisso, que dedicamos nosso artigo de hoje, para o registro bem merecido do aniversário dêsse homem admirável que é o reverendo Álvaro Simões. Às inúmeras felicitações que o aniversariante receberá nesta data, pública e prazerosamente, adicionamos as nossas, augurando ao reverendo Álvaro Simões, muitos e muitos anos de vida, continuando essa trajetória brilhante e invejável que o tornou credor de nossa estima e da amizade de todos os marilienses.

Parabens, revendo Álvaro Simões!

Extraído do Correio de Marília de 04 de julho de 1956

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O Clube de Cinema (03 de julho de 1956)


José Arnaldo (foto, na Redação do Correio de Marília)

Muita gente não sabe bem o que é o Clube de Cinema em Marília, como vive, o que faz enfim, dentro de suas finalidades de difundir a sétima arte em nossa cidade. A verdade é que essa entidade merece encômios de nossa parte, bem como dos marilienses em geral, pelo que conseguiu realizar até agora e pelo que cogita fazer ainda para o futuro.

Infelizmente, o referido Clube conta com um número de sócios relativamente pequeno, apesar da suavidade da mensalidade, que é de vinte cruzeiros apenas. Isso vem provar, que muita gente não sabe perfeitamente as finalidades da citada sociedade, ignorando, por outro lado, as lutas com que seus diretores mantem a entidade.

Presentemente, empenha-se o Clube de Cinema, em aumentar seu quadro social e está fazendo um apelo aos marilienses, para que cerrem fileiras em torno da campanha. Quanto maior for o número de seus associados, maiores serão as possibilidades de ação de sua diretoria, brindando seus filiados com bons espetáculos, num recinto agradável e ambiente sadio, como é o caso de sua sede social, funcionando no edifício da “Associação dos Alfaiates de Marília”.

Mesmo assim, se formos considerar o que já foi feito pelo aludido Clube, teremos que reconhecer, sem fazer favor, que o mesmo está até ultrapassando as expectativas e fazendo alguma coisa aparentemente de sacrifício. Películas premiadas em festivais de cinema, filmes históricos e documentários, pertencentes ao Museu de São Paulo, já foram exibidos aos marilienses. O Clube de Cinema tem um ponto interessante a ser observado: só exibe filmes de grande importância técnica e de grande valor interpretativo.

Além disso, aos domingos, oferece sessões especiais para os filhos de seus associados, no período matinal.

Aí está uma entidade a merecer o interesse e apôio dos marilienses que ainda não vieram contribuir com o Clube de Cinema de Marília.

Suas finalidades recreativas não deixam de ser também educativas, uma vez que só películas selecionadas são apresentadas em sua tela, com exclusividade para os associados.

Os marilienses, que estiverem dispostos a contribuir com o referido Clube, tornando-se sócios, poderão procurar os Srs. Roberto Cimino, na Alfaiataria Cimino e Luiz Felipe de Melo Filho, na Casa Verde.

Extraído do Correio de Marília de 03 de julho de 1956