sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Viagem aos Pampas (II) (30 de novembro de 1973)



Quinta feira fora o dia designado para o inicio da viagem. Não fôra escolha e sim decorrência da necessidade e interesse da própria firma. Era o 15 de novembro, data consagrada à proclamação da República.

Como convencionado fôra na véspera, deveria encontrar-me, antes das cinco horas da manhã, ali na Avenida, defronte o Bar Marrocos.

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Com uma pontualidade britânica, Clóvis apareceu com seu possante veiculo. Sem demora, deu-se a partida.

Detive-me a admirar o interior do Scânia, pois antes eu jamais havia adentrado uma cabine de tal caminhão. Um banco destinado ao ajudante, uma cama dotada de colchão de espuma, bastante espaço e uma visão ampla, tanto para quem dirige, como para quem viaja.

O painel e seus apetrechos, divergem dos caminhões comuns e especialmente os mais antigos e por mim conhecidos: chave geral, botão de partida, velocímetro, marca de temperatura para movimento e funcionamento com o veiculo parado, freios de mão divergentes, para o “cavalo” e a carreta, freios de pedal em conjugação simultânea e o cambio discriminando em quadro próprio, as 10 marchas de avanço e a de ré.

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A claridade do dia principiava a dar o ar de sua presença, quando possante Scânia devorava o tapete negro da rodovia Marília-Assis, nas proximidades de Echaporã.

Pulso firme no volante, o motorista conversava ou respondia as perguntas, sem o mínimo desvio de suas atenções ao serviço. Como motorista também, pude perceber, logo de inicio, a pericia e os reflexos positivos do profissional, o que acarretou-me a certeza da sensação de segurança, para o transcurso da longa viagem.

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Nossa primeira parada, deu-se num posto de serviço, na rodovia que demanda ao Estado do Paraná, além da cidade de Assis. Ali Clóvis apanhou um martelo de madeira, para conferir a pressão dos 18 pneus do possante caminhão-carreta.

Para curiosidade: a carreta sustentada por 12 pneus, tem o comprimento de 12,5 metros. O “cavalo”, que é o caminhão propriamente dito (sem carroceria), possui 6 gigantescos pneumáticos. Entre a testa da carreta e o “cavalo”, há uma distancia de uns dois metros e da frente do capot do motor até o final da cabine, deverá haver uma outra distância, uns três metros. Isto significa que o caminhão todo apresenta um comprimento de uns 18 metros.

Ali naquele posto, um rápido cafezinho e o reinicio da jornada.

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Tudo já estava claro. Estrada plana, com pastagens laterais e terras preparadas para o plantio de cereais, possivelmente soja. A terra, apresentando-se avermelhada, denunciando a vizinhança do Paraná.

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Alcançamos e cruzamos o Rio Paranapanema adentrando o Estado do Paraná. Já tudo claro, com o sol despontado. O motorista estacionou ao chegar a uma rudimentar porteira de limite, para exibir ao fisco, as notas fiscais da carga transportada. A fiscalização paranaense tem uma exigência que nenhum Estado do Brasil tem: cobra taxa tributária extra, por todas as mercadorias que entram ou saem do Estado, denominada “classificação”.

Observei, com certa espécie, que os fiscais recebem uma pequena importância, para apor o carimbo do posto, nas notas fiscais que acompanharam as mercadorias. Como repórter curioso que é por excelência, não entendi a razão desse pagamento, por ignorar que o Estado receba do contribuinte qualquer dinheiro, sem guias ou recibos, ou sem justificar o pagamento...

(continua)

Extraído do Correio de Marília de 30 de novembro de 1973

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Viagem aos Pampas (I) (28 de novembro de 1973)



Já tornou-se-me um hábito.

Todas as vezes, quando realizo alguma peregrinação ou andança, por estes Brasis, ou mesmo pelo exterior, costumo escrever algo a respeito dessas viagens.

Considero isso uma espécie de ausência de egoísmo, tentando “repartir” com os leitores, algo do que me foi dado experimentar ou observar.

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Já relatei, dentre outras, viagens minhas feitas à Bahia, ao Recife, Mato Grosso, Alagoas, Brasília, Argentina, Paraguai, Paraíba, Amazonas, Panamá, México, Estados Unidos, etc.

Também já contei pormenores de uma viagem feita no interior de uma locomotiva da Fepasa, no trajeto de Marília à Panorama, ida e volta.

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Já relatei, em passado, um vôo por mim empreendido à bordo de uma avião militar inglês, da Royal Air Force – RAF, numa missão de bombardeio a depósitos de óleo no Rhur, quando da ocasião da II Grande Guerra Mundial.

Igualmente já contei aos meus leitores, a sensação de viagens de mais de duas semanas num navio, em téco-técos, em aviões de passageiros e em aviões de transporte da Força Aérea Brasileira.

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Sonhava, anteriormente, em fazer uma viagem à bordo de uma locomotiva, que já concretizei.

Também alimentava o sonho de fazer uma viagem longa, na cabine de um caminhão de transporte de cargas.

Esta foi recentemente realizada.

É sobre esta “aventura” que irei contar aos meus leitores, alguns fatos dessa andança.

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Para quem, como eu, nasceu na zona rural, criou-se na lavoura até praticamente a maioridade e chegou a percorrer vários países do mundo e quase todos os Estados do Brasil, o motivo traduz-se num agradável orgulho.

Em nossa terra, já havia percorrido o Paraná, São Paulo, Minas, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Ceará, Pará, Amazonas, etc..

Faltava-me conhecer dois Estados sulinos: Sta. Catarina e o Rio Grande do Sul.

E isso vem de ser possível.

E aconteceu, como pretendia, numa viagem de caminhão.

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E a viagem aconteceu. Num pesado caminhão-carreta, de uma conceituada firma mariliense, a “Ferreira da Costa & Cia. Ltda.”.

Um possante “Scania Vabis”, ano 72, tipo “110 Super”, uma garantia total. Mais do que isso, uma dupla garantia: o veiculo propriamente dito e a pericia de seu condutor, o experimentado motorista José Clóvis de Oliveira.

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Foi uma viagem com a tonalidade de aventura, pois experimentei durante uma semana, o “modus vivendi” dos motoristas de caminhões, em longos percursos.

Trata-se de uma classe que muito trabalha e muito sofre, mas que leva a vida sempre com um sorriso nos lábios, “à la esportiva” e embuida de uma responsabilidade muito grande: a própria vida, a vida alheia e um considerável patrimônio dos patrões (o veiculo e as cargas).

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Como combinado fôra antecipadamente, cingi-me ao nivelamento do motorista, passando a viver a vida do mesmo, com a única exceção: não dirigir. Em outras palavras, sendo um companheiro de viagem, um ajudante “ah doc”, comendo quando o mesmo comia e do mesmo que ele comia e dormindo nas mesmas condições em que o mesmo era obrigado a dormir.

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Em futuros artigos desta “Antena”, relatarei para conhecimentos e curiosidade dos leitores, o transcorrer da viagem.

Extraído do Correio de Marília de 28 de novembro de 1973

domingo, 25 de novembro de 2012

Uma psicose diferente (25 de novembro de 1973)



Podem crer.

O absurdo também acontece.

Assim como o incrível, o extraordinário, o inusitado, o fantástico, o desnexo.

Em Marília está existindo uma espécie de psicose.

Uma psicose diferente.

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De um lado, revela o prestigio, o valor e a personalidade de um cidadão mariliense. Por sinal, respeitado e estimado.

De outra parte, patenteia a existência dessa autêntica epidemia, um inconformismo em alto grau, essa dita psicose.

Crônica, aparentemente incurável, mesmo sem apresentar qualquer risco de alastramento. Nem de contaminação. Sentou praça, fixou morada, dentre um pequeno grupo.

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Esse pequeno grupo, situa-se entre os marilienses que, no último pleito municipal, estiveram formados ao lado do ilustre engenheiro Armando Biava.

Biava disputou ponderada e democraticamente as eleições. Não saiu vencedor, mas nem por isso sua pessoa apresentou qualquer metamorfose moral ou pessoal. Demonstrou a altivez de sua personalidade, na disputa propriamente dita. Soube perder, sem atirar pedras no adversário. E à ninguém responsabilizou pela não vitória. Com isso, provou ser forte. Mostrou-se respeitado. E admirado.

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Esse pequeno grupo, tomado por essa espécie de psicose, não conseguiu ainda aceitar a realidade irreversível dos fatos. Se não conforma, não com a derrota de Biava, mas sim com a eleição de Pedro Sola.

Como a maioria dos comunistas brasileiros, que são comunistas, não como admiradores ou adeptos das doutrinas de Marx ou Lenine, mas simplesmente para terem o prazer de ser “contra” os americanos. Assim são os integrantes desse grupo: são contra Pedro Sola, somente porque Biava perdeu as eleições.

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Pessoalmente, tenho sobejas provas do que estou afirmando. Homem de imprensa, sou um termômetro da opinião pública.

Tenho sentido isso.

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Gente há, que só pelo fato de Biava não ter sido vencedor, é contra o prefeito eleito. Mas contra, mesmo. Dotada dessa psicose, desse inconformismo doentio, torce desesperadamente para que surjam fracassos e insucessos na administração municipal.

Não estão torcendo contra a pessoa física do prefeito.

Estão torcendo contra Marília.

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Conheço muitos dos integrantes desse grupo dominado por essa psicose. Sei de muitos deles, inconformados, torcedores contra Pedro Sola, porque o atual alcalde não lhes deu chance de conseguir “mamatas” que esperavam de Biava, se este fôra eleito.

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Pósso, se quizer, até citar nomes.

Inclusive de funcionários municipais que tinham aspirações, pretensões, ou quiçá promessas, de dependuramento nas grossas tetas do erário público.

Com a eleição de Pedro Sola, esses anseios e esses sonhos, transformaram-se em pesadelos.

E tornou-se psicose. Psicose diferente.

Que domina um grupo. Grupo que torcendo desesperadamente pelo fracasso do atual prefeito, está torcendo contra Marília. Contra o povo mariliense. Contra suas próprias famílias.

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É chegada a hora de abandonar a psicose.

De compreender a realidade dos fatos.

Biava não foi eleito, passaram as eleições, reconduzindo-se o mesmo às suas atividades particulares e profissionais.

Se ano justifica, portanto, que esse grupo, continue, só pelo fato de que Biava não se elegeu, a hostilizar, ojerizar e podendo, até torpedear a atual administração.

É hora de trabalhar por Marília, em termos de Marília.

Não de ser contra Marília, fazendo do prefeito um bode expiatório.

Extraído do Correio de Marília de 25 de novembro de 1973

sábado, 24 de novembro de 2012

Para Carolo ler (24 de novembro de 1973)



Concentração política situacionista tem palco e séde hoje em Marília.

Figuras centrais desse conclave, deverão ser forçosamente, o senador paulista Carlos Alberto Carvalho Pinto, o presidente da ARN estadual, deputado Jacob Pedro Carolo, o deputado federal mariliense Diogo Nomura, o presidente do diretório local Sebastião Monaco e o prefeito Pedro Sola.

Na pauta dos trabalhos dessa concentração política figura um móvel de elevada importância para o porvir da cidade: a indicação do nome ou dos nomes do candidato ou dos candidatos, para concorrer à deputação.

Falando em termos de Marília, nosso interesse maior, situa-se marcante e indelevelmente, em torno da deputação estadual.

É necessário que Carvalho Pinto e Carolo saibam que Marília está saturada com a condição de sua orfandade política no Palácio 9 de Julho.

É preciso, também, que ambos saibam que os marilienses autênticos, aqueles que de fato amam a cidade e se preocupam com seu futuro e sua representação, não estão, em maioria, vendo com bons olhos e nem com toda a simpatia, os nomes que se anunciam em perspectiva.

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Eu falo de cátedra, doutor Carolo.

Tenho comigo, a elevada honra mariliense, de ter sido o primeiro a levantar a bandeira, pró eleição de um deputado mariliense. Isso, no ido ano de 1947. Por intermédio deste Jornal. Antes da Câmara mariliense, formada após o chamado período de redemocratização do país. Antes da coesão e formação na mesma trincheira, das demais forças vivas do município.

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Bato-me seguidamente (toda Marília é prova disso), para que, na oportunidade que hoje se apresenta, indique-se um candidato único de Marília. Igualmente tenho insistido, para que, se concretizada essa hipótese, o eleitorado local, cerre alas em torno desse mesmo nome.

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Não se poderá garantir a eleição de um candidato à deputação estadual, se o mesmo não conseguir um coeficiente mínimo de 25.000 votos.

E, com mais de um nome indicado, considerando-se a evasão de votos, que serão destinados por eleitores marilienses a candidatos alienígenas, jamais Marília elegerá seu representante à Assembléia Legislativa.

Anotem isso, embora eu próprio deseje equivocar-me.

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Não há muito, parte dos membros arenistas locais teriam deixado transparecer, que apoiariam determinado cidadão, mesmo que o diretório regional não homologasse seu nome. Não seria uma rebeldia?

Existe ainda uma incoerência, pois no passado a própria Arena teria negado (legenda) ao mesmo para disputar uma cadeira da vereança local!

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O senador Carvalho Pinto e o deputado Jacob Pedro Carolo irão outorgar uma procuração na noite de hoje. Procuração para um ou mais cidadãos tentarem representar Marília no Palácio 9 de Julho.

A procuração terá, por natureza própria, poderes amplos e ilimitados.

Procuração não se designa e nem se confia a quem não tenha capacidade para sua desincumbencia e que merecedor não seja de toda a confiança.

Será Marília, sua população de 110 mil almas, quem estará passando por substabelecimento de Carvalho Pinto, Carolo, Nomura, Monaco e Sola, essa procuração.

Vai daí, sobre os costados desses substabelecedores recairá uma importância pesada, enorme, responsável.

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Vai ser uma espécie da domação de um burro chucro: Carvalho Pinto, Carolo, Nomura, Mônaco e Sola se incumbirão de selar o animal, colocar o bridão, apertar a barrigueira, firmar o rabicho e o peitoral, taparão os olhos do burro, para Marília montar. Depois largarão por conta da própria sorte o temeroso domador. Ele que se arrume, que se dane, que procure aguentar os corcovos e os saltos, ou mesmo uma possível “boleada”.

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À distancia, Pinheiro, Sólon, Dualibi, Dabus, Agnaldo e outros alienígenas, estarão assistindo a doma. Eles tirarão proveito do próprio burro, sem o risco de quedas e de fraturas.

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Se Marília cair do burro, os culpados só poderão ter os seladores do animal.

Garanto, sob palavra de honra, que nem eu nem o técnico do Corinthians teremos culpa...

Extraído do Correio de Marília de 24 de novembro de 1973

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Para início de papo... (23 de novembro de 1973)



Por um “erro de cálculo”, esta coluna sofreu numa interrupção de três dias nesta semana.

É que estive viajando e antes de partir escrevi uma série de “Antenas”, para a competente publicação. O número de escritos, todavia, foi insuficiente em relação aos dias do meu afastamento.

Aqui ficam consignadas desculpas, com a devida justificativa.

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Regressei a Marília ao entardecer de ante-ontem, quarta feira. Durante uma semana não tive notícia alguma de nossa cidade. Assim ao adentrar a redação, quando de minha chegada, fui logo indagando do resultado do jogo do MAC no último domingo, em São José do Rio Preto.

Tive uma surpresa alegre, ao conhecer o resultado do empate. Para mim, teve sabor de vitória, pois ainda continuo reputando o América como o melhor time do Paulistinha.

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Também na noite de ante-ontem vi pela primeira vez o número dois do novo jornal mariliense, “Diário de Marília”.

A circulação desse novo confrade, igualmente alegrou-me. Representa mais uma conta, a enriquecer o rosário da atuante imprensa mariliense. Mais um elo na corrente do dinamismo local. Mais uma prova e um insofismável atestado do crescimento vertiginoso de Marília.

Marília crescendo, expandindo-se, alargando suas fronteiras de intelectualidade, reforçando o seu já vasto e invejável campo de comunicações.

Aqui, o descalque de minhas congratulações pessoais ao novo órgão de imprensa mariliense, seus diretores, funcionários e gráficos.

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Como disse de início, uma semana estive fóra de Marília.

Durante esses dias, percorri vários pontos dos Estados do Paraná e Santa Catarina, terminando a peregrinação em Guaiba, no Estado do Rio Grande do Sul.

Vi e observei muita coisa, mesmo a despeito da viagem ter sido meio “corrida”. Em verdade, não é brinquedo rodar cerca de 3.000 quilômetros, passando por várias dezenas de cidades de três estados sulinos.

A partir da próxima semana, publicarei alguns artigos, contando aspectos dessa improvisada viagem, eivada de um clássico e indesviável aventurismo.

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Aliás, sempre foi de meu feitio, narrar em alguns capítulos, as “peripécias” dessas viagens que já realizei pelo Brasil e por países estrangeiros.

É uma espécie de repartir com os meus leitores as observações por mim captadas nessas andanças.

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Amanhã, a Arena deverá reunir-se.

Pelo disque-disque, deverá desta vez, “sair” o nome do candidato, ou talvez o ról dos nomes dos candidatos à deputação estadual.

Nesse campo e a esse respeito, meu ponto de vista já formado, foi delineado e exteriorizado inúmeras vezes. E não mudará, mesmo.

Vou aguardar, como os outros também irão esperar.

Por enquanto, a espera, atalaia, até mesmo o leve receio de uma sortida política, de uma infiltração em limites impróprios, no dizer do número de nossos eventuais candidatos.

Paira no ar a quase certeza da continuidade de nossa orfandade política na Assembléia Legislativa.

Aguardemos, pois.

Imitemos o gaúcho, no seu alerta simples: “Te cuida, tchê”.

Extraído do Correio de Marília de 23 de novembro de 1973

sábado, 17 de novembro de 2012

Uma utopia oficial (17 de novembro de 1973)



O vereador emedebista da Câmara Municipal de São Paulo, Sr. Horácio Ortiz, conseguiu que a edilidade bandeirante aprovasse uma moção assinada pelas “Mães da Periferia” da Capital paulista.

E mais ainda, que a referida moção fosse (como deve ter sido) enviada ao Presidente Médici, ao Congresso Nacional e ao Governador Laudo Natel e ao prefeito da paulicéia, Miguel Colasuonno.

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“Para onde vão a carne, o feijão e o leite?” – perguntaram as “Mães da Periferia”.

O memorial, devidamente firmado, revela a angustia dessas mães de família, ante o brutal e incontrolável aumento do custo de vida. Exterioriza o terror da fome, a dificuldade da própria subsistência.

As signatárias acusam a contradição entre a “riquesa do Brasil” e os pouquinhos recursos, disponíveis para alimentação mínima dos brasileiros pobres e assalariados, afirmando que “o feijão e o arroz eram a comida dos pobres, mas agora os pobres não podem comer mais”.

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As autoras da moção fizeram inclusive uma pesquisa com base a doze meses seguidos, ou seja, de outubro de 72, a outubro de 73, conseguindo provar que o custo de vida em São Paulo, nesse ano de decurso atingiu o absurdo aumento de 120%.

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E a gente, mesmo aqui no interior, especialmente a assalariada, que sente também o problema nas próprias carnes, é levada a acreditar na pesquisa percentual das “Mães da Periferia”, mesmo com a Organização Getúlio Vargas divulgando dados estatísticos de que o custo de vida sobre a mixaria de 1,2% ao mês.

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As estatísticas referentes à alta do custo de vida que até aqui foram divulgadas oficialmente pelo citado organismo são utópicas. Oficialmente utópicas e até lamentávelmente desacreditadas.

Vou transcrever a seguir os dados e números que as “Mães da Periferia” comprovaram e que atestam que de outubro do ano passado ao (mesmo) mês do ano em curso, o custo de vida subiu 120% - apesar da preconização e do apelo do honrado Presidente Médici e a despeito das fajutas estatísticas do OGV.

Vejam os leitores.

Depois, concluam

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Produto     outubro     outubro     porcentagem
                   de 72       de 73        de aumento

Feijão        2,30           6,70           191%
Arroz         1,25           2,40             92%
Carne         7,00           15,00         114%
Açúcar       0,85           1,25             47%
Ovos          1,60           3,80           137%
Café           4,50           8,40              86%
Leite          0,75           1,50           100%
Macarrão   1,26           3,30           161%
Pão            0,60           0,90             50%
Farinha      1,20           2,10             75%
Margarina 1,10            1,90             72%
Óleo          2,60           4,00             53%
Sabão        0,40           0,84           110%
Tomate      0,75           3,57           376%
Gaz           13,80        17,00             23%
Batata        0,85           2,90           241%
Queijo       5,36         12,00           123%

Total de aumento: 120 por cento.

Extraído do Correio de Marília de 17 de novembro de 1973

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Hoje, Dia da República (15 de novembro de 1973)



O calendário das datas históricas da Nação assinala hoje, 15 de novembro, a efeméride do Dia da República.

A República Brasileira, proclamada no dia 15 de novembro de 1989, teve como proclamante o Marechal Manuel Deodoro da Fonseca.

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O Marechal Deodoro da Fonseca era alagoano, nascido no dia 5 de agosto de 1827. Deodoro fizera uma carreira militar das mais brilhantes, tendo ingressado na Escola Militar do Rio de Janeiro, no ano de 1843, com 16 anos de idade.

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Mal terminado o curso de Artilharia, foi enviado a Pernambuco, para combater a chamada Revolução Praieira, ocasião em que se distinguiu como militar e como comandante, nos combates travados no Recife e Barra de Natuba.

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Em 1858, com 31 anos de idade, Deodoro viera a ser o Comandante da Escola Militar que o havia formado antes.

No ano de 1864, deixando o Comando da Escola Militar do Rio de Janeiro, participou da campanha do Uruguai. Na Guerra contra o Paraguai, obteve a distinção por bravura e heroísmo, tendo sido ferido nas batalhas de Itororó e Angostura.

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No ano de 1868, galgou o posto de corenalato e em 1874, foi promovido ao posto de Brigadeiro. Dez anos depois, conseguia por merecimento, a promoção ao posto de Marechal de Campo.

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Como Marechal, foi designado Governador do Estado do Rio Grande do Sul. Quando ocupava o referido cargo político-administrativo, veio a acontecer, na vigência do ministério de Cotegipe, o movimento em favor dos direitos políticos dos oficiais.

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Tendo Deodoro assumido posição nesse movimento, foi exonerado do cargo de Governador gaúcho.

Em 14 de maio de 1887, assinou juntamente com o General Pelotas, um manifesto político, que veio aumentar-lhe a popularidade e estima no seio das Forças Armadas.

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Regressando ao Rio de Janeiro, depois de exercer o governo sul-riograndense, dispunha-se Deodoro a terminar seu tempo militar distante da política, quando irrompeu o chamado Movimento Republicano.

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Deodoro foi chamado a assumir o comando do Movimento, que principiava a desenhar a próxima República. De início, negou-se a comandar a ação, alegrando sua amizade pessoal com o Imperador Pedro II.

Insistentemente pressionado, acabou aceitando o comando do Movimento Repúblicano.

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Formou sua tropa, apesar de encontrar-se enfermo.

Defronte o Quartel General, ao assumir oficialmente o comando do movimento, após explanar o plano e o idealismo nacional, cujo primeiro passo fôra a Independência, gritou, a plenos pulmões: “Viva a República”.

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Marechal Manuel Deodoro da Fonseca foi eleito o primeiro Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil. Ocupou o cargo até 1891, quando renunciou, face a revolta chefiada por Custódio de Melo, passando a Chefia da Nação ao Marechal Floriano Peixoto.

Extraído do Correio de Marília de 15 de novembro de 1973

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Daltonismo político (14 de novembro de 1973)



Daltonismo é uma deficiência visual, que impede seu portador, de distinguir com certeza e facilidade, as diversas tonalidades de cores.

O cidadão daltônico, por circunstância óbvia, não pode “tirar” carta de habilitação como motorista, pois que, incapaz é de distinguir o verde, o vermelho e o alaranjado de um semáforo.

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Conheço um mariliense, que nunca revelara sua condição de daltônico e que mesmo os que com ele convivem, ignoravam tal circunstância.

Certa feita, observando o mesmo praticar o jogo de bochas, convenci-me dessa anomalia. Foi quando, no inicio do jogo, o adversário recolheu e separou “suas” bolas. Observei que ele prestava a atenção, onde paravam as dele, “marcando” mentalmente os locais. Quando acontecia do mesmo distrair-se e o jogo mudar o local das bochas, o mesmo ficava sem saber quais as dele, entre as vermelhas e verdes.

Perguntei-lhe e o mesmo confessou. Quis saber se não conseguia distinguir nenhuma cor e a resposta foi que não, que eram todas quase semelhantes e que só nos casos de grande contraste, como um vermelho forte e um branco bem alvo, ele percebia uma pequenina diferença, desde que prestasse bastante atenção.

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Paralelamente e à grosso modo, Marília está vivendo um lamentável daltonismo político.

Nossos lideres políticos não conseguem distinguir as cores da realidade atual, apesar da diversificação de suas tonalidades.

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Refiro-me ao próximo pleito eleitoral.

As eleições que irão determinar os candidatos que se vitoriarão nas urnas.

Como as bolas de bocha, eles terão cores variadas.

Mas o daltonismo político reinante irá impedir que se determine as cores exatas e as bolas certas.

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Um candidato único de Marília, representa uma cor.

Dois candidatos locais, significam outras tonalidades.

Três candidatos da cidade, traduzem-se em outros tipos de coloridos.

Os inúmeros candidatos alienígenas, representam também cores diversas.

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Ai, então, vai ser gerado a confusão:

A inobservância dos partidos políticos, quanto a necessidade imprescindível e inadiável de um candidato único.

O fatiamento da destinação de sufrágios, entre mais de um candidato.

A distribuição de votação, entre os candidatos de fora.

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E o resultado final, dessa confusão daltônica, politicamente falando, vai constituir-se, nada mais, nada menos, na repetição dos fatos já experimentados: a continuidade da orfandade política de Marília, no Palácio 9 de Julho.

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Com mais de um candidato local, mui dificilmente o eleitorado conseguirá carrear em torno de um nome, o coeficiente mínimo de 25.000 votos. E sem essa sifra, mais difícil ainda, será a garantia e a certeza da eleição de um nosso representante na Assembleia Estadual.

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Quantos mais candidatos locais existirem, maior será a confusão daltônica, pois melhormente serão beneficiados os candidatos de outras plagas.

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Tomara que eu esteja enganado.

Todavia, creio que não.

O porvir irá dizer.

Como já provou no pretérito.

Extraído do Correio de Marília de 14 de novembro de 1973

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Influência dos mendigos (13 de novembro de 1973)



Entre nós, um fenômeno existe.

Ultimamente vem ganhando forma e características crônicas e condenáveis.

Que se traduz no perpetuamento de pedir, de rogar, de implorar, no aguardo de obséquios alheios.

Favores que jamais se converterão em realidade, mesmo porque inexistirá a razão fundamental de seus atendimentos.

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Nossa cidade, sempre foi um eterno paraíso de pedintes.

As coisas estão caminhando à tal têrmo e ponto, que Marilia penderá também, no terreno moral e político, para a condição de pedinte.

A cidade, de acordo com o que se percebe e a julgar pela situação e “modus operandi” da política local, somados à indiferença de muitos marilienses, com um salpico indisfarçável de desamor à terra, irá (mais uma vez), pedir, mendigar. Não nas ruas, não nos bancos, não nas repartições públicas, não nas portas de residências.

Terá de pedir, de chapéu na mão.

Pedir à políticos estranhos, profissionais, caçadores de votos, aventureiros enfim, que jamais conseguiram, puderam ou interesses provaram, de amor por Marília.

A influência dos pedintes, vai mostrar a submerção de Marília, na necessidade de pedir também.

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Tudo isto decorre, da falta da mais comezinha organização sócio-política da cidade, que exige, para a eleição de um lídimo deputado, a indicação de candidato único. Mais ainda, o cerco, prestigio e votação mariliense, em favor desse hipotético candidato único da cidade.

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Com as perspectivas palpáveis existentes e até agora imutadas, prevê-se a viabilidade de intenções, do lançamento, indicação e apôio, de mais de um nome.

Essa circunstância, adicionada ao desvio inevitável de votos marilienses para candidatos alienígenas, garante, por antecipação, o fracasso político mariliense, com a repetição de fatos pretéritos e a não eleição de seu legítimo candidato.

A influência dos pedintes, em terreno antagônico, virá, inevitavelmente, tornar Marília em pedinte também.

Com a desvantagem de que os mendigos e falsos mendigos, sempre conseguem alguma coisa e que Marília não irá conseguir.

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Não se faz sapatão com couro de pulga.

Também se não tapa o sol com peneira.

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Um candidato, para ser eleito deputado, deverá conseguir uma cotação de um mínimo de 25.000 votos.

Marília, dividindo seu coeficiente eleitoral, entre mais de um candidatos locais e distribuindo o restante de seus sufrágios aos candidatos de fora, como sempre fêz, não irá, por nada do céu e nem da terra, eleger seu representante.

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Desejo estar equivocado nesse modo de entender.

Mas se me não enganei no passado...

Oxalá esteja errado.

Oxalá.

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Sem um deputado, Marília não terá sua liderança política, seu advogado de defesa, na Assembléia Legislativa. Restará ao prefeito (atual e futuro), andar qual cigano, de chapéu na mão, pedindo como favores, o que direito devido é ao município.

E não sejamos ingênuos a tal ponto, de acreditar que Dabus, Agnaldo, Dualibi, Sólon, Pinheiro e outros, que daqui levam todos os pleitos preciosos e ricos votinhos, irão defender Marília.

Eles jamais fizeram isso.

Quando muito, nas vésperas eleitorais, movimentam-se, para engordar, usando o falso mandato de “trabalhadores por Marília”. Como até aqui tem acontecido. Como está presentemente acontecendo.

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Depois da fritura dos ovos, não irá sobrar nenhuma gordura. Existem exemplos concretos disso.

Os culpados, os que facilitarem desses fatos, não aparecerão, nem serão identificados.

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A guisa de consôlo, restarão duas desculpas, para justificar a condição de Marília-pedinte:

Primeiro: “ripar-se” o prefeito, que nada conseguirá por não possuir Marília seu legitimo representante.

Segundo: culpar o técnico Urubatão.

E estamos conversados!

Extraído do Correio de Marília de 13 de novembro de 1973

sábado, 10 de novembro de 2012

Como trabalhar contra Marília (10 de novembro de 1973)



1 – Os partidos políticos apresentam vários candidatos à deputação estadual.

2 – Um candidato, para ter assegurada a sua eleição, deverá obter a “mixaria” de 25.000 votos.

3 – Marilienses já iniciaram seus trabalhos de cabalo de votos para candidatos forasteiros.

4 – O eleitor mariliense, em grande escala, continua a ser apático contra Marília.

5 – Como apático e indiferente, não fica lá muito preocupado em eleger ou não um representante da cidade.

6 – No dia do pleito, o eleitor procura ir cedo à secção eleitoral, vóta em qualquer um e vai fazer sua pescaria.

7 – Os candidatos de fóra ficam tranquilos, porque sabem que aqui existe puxa-sacos e trouxas.

8 – Há eleitores que votam na esperança de alguma vantagem – vantagem que é utopia e embuste.

9 – Há quem nunca trabalhou por candidato de Marília, só por políticos de fóra.

10 – As vêzes, o cão bernento e faminto, investe contra a mão que lhe deu alimento e lhe expremeu os bernes.

11 – O eleitor irresponsável, vota em quem fala mais e em quem mente mais, não se dando ao trabalho de analisar as condições pessoais ou morais de muitos candidatos.

12 – Partidos políticos não manifestaram nenhum interesse em unir forças para apresentar um candidato único, mesmo sabendo que assim agindo, estarão servindo Marília.

13 – Cabos eleitorais de gente de fóra, já estão pedindo votos para aventureiros, que nunca moveram uma palha em favor da cidade ou em beneficio do povo mariliense.

14 – Caçadores de votos, de outras cidades, muitos que nem siquer conhecem Marília, estão fantasiando-se de “amigos” e de “trabalhadores” por nossa cidade, mas só enganarão os trouxas e mal intencionados, os maus marilienses.

15 – Interesses próprios, de amisades, de indiferença, de desamor por Marília irão pujar as legitimas intenções e necessidades da cidade líder da Alta Paulista, em detrimento de 120 mil almas.

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“IPSO FACTO”:

a)    – O eleitorado mariliense que votar para valer, estará repartindo, bondosa e ingenuamente, os sufrágios entre os candidatos locais e de fora.
b)   – Marília não irá conseguir eleger um seu lidimo representante.
c)    – Vale dizer, continuará órfã e desamparada na Assembléia Legislativa.
d)   – Os de fora que daqui levarem votos e que serão auxiliados por Marília a elegerem-se ou reelegerem-se, nunca mais lembrarão Marília, a não ser na ocasião dos próximos pleitos.
e)    – A cidade ficará sem advogado próprio, junto ao Palácio dos Bandeirantes e Secretarias do Estado e assim, terá maiores dificuldades em conseguir aquilo que por direito lhe é devido.
f)     – Restará ao eleitor irresponsável e mau mariliense, e, também indiretamente aos partidos políticos, um único consôlo: “meter o pau no prefeito” porque o mesmo terá dificuldade em trazer para Marília, maiores benefícios e bafejos oficiais.

Extraído do Correio de Marília de 10 de novembro de 1973

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Pobre burro velho (9 de novembro de 1973)



Era uma vez...

Um caboclo, com seu aspecto simples, seu jeito simples de todo caboclo.

Por uma estrada carroçável, conduzia, puxado pelo cabo de um cabresto, um burro velho.

Dois cabeludos da cidade, munidos de espingardas, divertiam-se à beira da estrada, caçando pardais e anúns.

Quando o caboclo aproximava-se dos dois “moços da cidade”, tirou respeitosamente o chapéu, pronunciando seu sincero “tardi” aos rapazes.

Um deles, querendo dar vazão ao seu “espírito” de frustado “gozador”, entendeu de fazer graça para o outro, “mexendo” com o caboclo. E, dirigindo-se ao homem da roça, assim falou:

- Ei! Onde é que vão vocês dois?

O caboclo parou, olhou para o engraçadinho, deu uma cuspidela de lado e respondeu:

- Tô indo cortá capim prá nóis quatro.

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Estamos nos aproximando do próximo pleito eleitoral, que deverá eleger os futuros deputados federais e estaduais.

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O caboclo da história, pôr certo dirigia-se para cortar capim para o burro velho. Mas, na resposta à “gozação” de um dos rapazes, não teve pejo em auto-classificar-se de burro também, uma vez que igualmente assim considerou-se os “moços da cidade”.

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Aqui, a oportunidade, de um grosseiro paralelo comparativo:

O burro velho, Marília.

O caboclo simples, o eleitor consciente da cidade.

O capim, os votos eleitorais.

Os dois moços, os candidatos alienígenas.

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O caboclo seguiu o seu caminho.

Os dois pretensos “caçadores”, ficaram algo chocados, mas acabaram rindo, achando graça.

O caboclo havia dito uma grande verdade. Isso eles não deixaram de conscientemente reconhecer.

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O capim deveria ser cortado, apenas para o burro velho.

O caboclo tinha somente esse interesse.

As coisas não iriam, dali para diante, acontecer conforme desejava o caboclo simples.

O capim não seria alimento só para o burro velho. O caboclo simples convencera-se disso.

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Muita gente vai comer o capim cortado pelo caboclo simples. Capim que deveria ser exclusivamente para o burro velho.

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Assim vai ser o resultado das próximas eleições.

Um ról imenso de votos dos marilienses, os caboclos simples, irá ser dividido. Em verdade, o coeficiente total da votação, terá três destinos distintos:

1.    Parte aos candidatos locais.
2.    Parte aos candidatos forasteiros.
3.    Parte em branco, sem valor.

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E repetir-se-á a história:

Marília continuará órfã e desamparada na Assembléia Legislativa.

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O capim que à primeira vista não parecia, tem um volume maior do que se julgava ter.

O caboclo simples, auto-considerando-se burro velho, vai acabar comendo apenas uma pequenina parte.

A parte maior das gramíneas e ciperáceas adrede e caprichadamente cortadas, vai ser devorada, com avidez e voracidade, pelos dois “moços da cidade”.

Pobre burro velho!

Desgraçado caboclo simples.

Extraído do Correio de Marília de 9 de novembro de 1973

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O arrôto de um ex-foragido (8 de novembro de 1973)



Confesso que não sou lá muito entendido em política internacional. É um mecanismo bastante complexo, que na interpretação dos críticos especializados, pode apresentar sabores diferentes, paladares amargos ou insôssos.

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Com a atual crise beligerante no Oriente Médio, não estou disposto a esquentar a cabeça, porque sei por antecipação, que os judes vencerão a guerra. Se não vencerem, vai ser esta a primeira vez, que o dinheiro perderá uma causa.

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Vou deter-me mais perto daqui. Na Argentina.

O “caudilho” Perón, concedendo recentemente uma entrevista ao jornal italiano “Domenica del Corriere”, não teve o mínimo pejo, em declarar sem temerosidade, seus “ideais” exóticos. A exemplo de Fidel Castro, “desceu a lenha” nos americanos. Anunciou que bandeará a Argentina, para a política de Pequim.

Como raposa política, usou o termo “Pequim” que até o mais inocente observador, percebe que o significado é outro.

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Perón olvidou-se do que recentemente aconteceu ao seu colega Allende. O chileno “abriu as pernas” para a baderna, a desorganização e as greves e o resultado, fatal lhe foi.

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O que me deixou “mordido” nessa entrevista de Perón ao semanário italiano, foi a sua taxativa afirmação de que “o Brasil irá à Argentina de chapéu na mão”.

Bah!

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Perón tentou enganar-se à si próprio, porque o povo argentino não deve pensar assim. O Brasil já está praticamente liderando a América do Sul e em breve, a liderará em total sentido. Liderança sócio-econômica e não liderança de poder e imposição de força, como sonha o atual presidente portenha.

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Perón esteve ausente de sua terra durante 17 anos. Mesmo acompanhando à distância, os acontecimentos argentinos e sulamericanos, não tem o conhecimento próprio da realidade dos fatos.

Dezessete anos esteve exilado. Exilado é o termo que se dá aos políticos, porque na verdade, ele esteve foragido.

Com quase 80 anos de idade, está na segunda infância, oriunda da decreptidade e da senilidade. Em outras palavras, sem responsabilidade dos homens amadurecidos, porque, em verdade, ele já passou a fase do amadurecimento, descambando para aquilo que os fruteiros dizem das laranjas extemporâneas: “passado”.

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Foi muito intempestiva a sua afirmativa. Mais do que isso, a uma ameaça. Uma ameaça à América livre. Uma ameaça de sufocamento ao Brasil.

E ele está completamente enganado “com a cor da chita”.

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Perón deveria pensar na Argentina, em termos de grande nação, de boas relações com os países visinhos, numa operação de atrair simpatias internacionais e acelerar o intercâmbio comercial entre os países, especialmente os da América do Sul.

Mas, não.

Arrotou grandezas e ameaças.

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Seguirá o caminho dos títeres, dos déspotas, dos caudilhos, dos que se julgam semi-deuses.

Alguém precisa dar para Perón ler, a historia dos ditadores, desde Nero, Napoleão, Hitler, Mussolini, até o recente Allende.

Extraído do Correio de Marília de 8 de novembro de 1973

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Liderança política, a falta (7 de novembro de 1973)



Praticamente oito anos, é o lapso-tempo, em que Marília encontra-se órfã, no cenário político-legislativo do Estado.

Completamente desamparada e sem voz no Palácio 9 de Julho, Marília é uma cidade destituída de liderança política.

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Os quatro anos da administração municipal passada, provaram, à sociedade, essa orfandade representativa e essa ausência de liderança política. Os poucos meses da atual fase administrativa do município, ratificam o atual estado de coisas.

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Difícil não é, saber-se quem (são) os culpados disso tudo.

A duas classes, pode-se atribuir a responsabilidade dessa nossa falta de liderança política: de um lado, aos próprios partidos, indicando, apoiando e pretendendo a eleição de mais de um candidato. De outro, ao grosso do eleitorado local, que facilita a distribuição inequânime de sufrágios e abre as comportas, consignando preciosos votos para candidatos alienígenas.

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A morosidade dos trabalhos operacionais do Governo, para a implantação total da séde da Região Administrativa, não teria, por certo, o corpo atual, se Marília tivesse o “seu” deputado próprio.

A repercussão negativa, que atingiu todos os quadrantes do Brasil, quando das denúncias infundadas e precipitadas de Ruy Codo na Assembléia, não teria ocorrido, se na Assembléia estivesse um lídimo representante mariliense.

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Os prefeitos do pretérito e o atual, teriam mais tranquilidade administrativa, se tivessem contado com um deputado mariliense, ativo, operoso, amante de Marília. Um deputado que fosse o advogado legítimo dos marilienses, junto às Secretarias de Estado, Autarquias estaduais e paraestatais e o próprio Palácio do Governo. Um representante de Marília e um dos prefeitos marilienses.

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Restou-nos, a contingência de pedir, de contar com favores alheios, como até aqui tem acontecido. E como aconteceu ao antigo prefeito, que teve várias vêzes, que recorrer a um Franciscato ou a um Agnaldo.

Inclusive para conseguir a construção asfáltica da rodovia que demanda ao nosso aeroporto.

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E, parece, vai continuar repetindo-se a história.

Cogita-se do lançamento de mais de um candidato ao Palácio Nove de Julho. Com mais de um cidadão disputando o pleito e com os votos “certinhos” que muitos marilienses darão à candidatos de fora, Marília vai continuar a chupar o dedo, porque, nessa hipótese, não conseguirá centralizar, um mínimo de 25.000 votos, em torno de um só nome.

A orfandade política de Marília, no Palácio 9 de Julho, continuará perpetuada.

A liderança política da cidade, continuará ausente.

Isto será inevitável.

Oxalá esteja eu equivocado.

Oxalá.

Extraído do Correio de Marília de 7 de novembro de 1973

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Fagulhas de fatos (6 de novembro de 1973)



Homens trajando bermudas, como se estivessem na praia. Rapazes, metidos a engraçadinhos, dirigindo gracejos às moças e “topando” o revide de um familiar da mesma. Jovens empoleirados abusivamente sobre muros públicos. Crianças fazendo algazarras e promovendo correrias desenfreadas entre uma multidão. Gente discutindo negócios. Gente “serrando” cigarros. Vi isso, Dia de Finados, no Cemitério Municipal.

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Trânsito do Dia de Finados, muito bem controlado e muito bem dirigido, com várias dezenas de PMs executando serviço de orientação dos motoristas e pedestres.

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Crianças num bar do Estádio, domingo, embriagadas. De posse de copos de papel, pediam “um pouquinho” aos torcedores e bebiam e palestravam, quando do jogo do MAC x São Bento. Desavisadamente, um dava “um pouquinho” aqui, outro, inadvertidamente, “um pouquinho” alí. E alguns menores, estavam, sem o saber, completamente de “fogo”.

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Correrias infernais, de veículos, na noite de sábado último. Rapazes e moças, brincando com o perigo, executando peripécias e uma barulheira dos diabos, ignorando o exagero cometido e os riscos de vida à que se expunham, expondo também a terceiros.

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Diferença incrível de preços, no mercado comum mariliense. O que custa X num determinado local, custa invariavelmente Y em outro.

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Nada custa, à quem dirige um veiculo, ligar a seta de sinal de direção, ou, no mínimo, dar o sinal com a mão, conforme é norma e preceito vigente do próprio Código de Trânsito.

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Em motorista falando, tantos existem por aqui em Marília, que ainda não se aperceberam, que curva à esquerda se faz “aberta” e curva à direita deve ser “fechada”.

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Por óbra e graça de Deus, nenhum acidente grave, com vítimas a lamentar, aconteceu ainda, na “esquina dos milagres”, confluência da 9 de Julho com a Vicente Ferreira.

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Domingo, no Estádio, opiniões divididas contra a diretoria maqueana, face à dispensa de um e à contratação de outro preparador técnico. Desentendimentos surgiram, “ensaios” de briga corpo a corpo, tendo alguém “vomitado”, de que até questões políticas haviam envolvido o atual estado de coisas no panorama esportivo!

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Continua a cabalação de votos na cidade, visando a beneficiar gentes de fora, cidadãos que nunca moveram siquer uma pena em pról de Marília e sua gente.

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Muito bom, conjuntivamente falando, o elenco amador do Marília Atlético Clube. Não somente pela goleada imposta ao Chantebled, domingo passado. Sim, pelo valor individual e coletivo da equipe. Ali está uma “sementeira” para alguns dos futuros craques do time principal. Podem acreditar.

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Pedintes, continuar a infestar as ruas da cidade, a adentrar estabelecimentos comerciais e bancários e assediar transeuntes. E a pedir nas portas das residências, de maneira insistente e até abusiva.

Nem todos são mendigos, na extensão do têrmo. Muitos são vadios e a maioria são “marrudos” e pinguços.

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Sinalização do trânsito urbano da cidade, deixando muito a desejar. Placas avariadas, semáforos quase sempre defeituosos, etc..

Extraído do Correio de Marília de 6 de novembro de 1973

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Amanhã, Finados (1 de novembro de 1973)



Amanhã será o Dia de Finados.

Data em que os homens dedicam-se ao culto dos mortos queridos.

Nos campos santos, encontram-se a saudade e o respeito.

Sepulturas lavam-se, com recentes e sentidas lágrimas.

Flores falam a língua da nostalgia. Parecem espelhar olhares ressequidos e cansados pela saudade.

O brilho da saudade dos que já não vêm, substitui-se pelas chamas bruxuleantes das velas, que aos poucos vão se consumindo.

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Doces e saudosas recordações, contrastam com o amor da ausência dos que nas campas repousas.

Há uma união de suspiros e preces. O silencio traduz a fala de sonhos desfeitos, relembrando ilusões anteriormente vividas.

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Os corações de pedra, aqueles que são céticos, os homens duros de consciência, não escapam à realidade dos fatos: curvam-se também, participam mesmo que assim não o desejem, da comunhão geral e comum. E cultuam, igualmente, a memória daqueles que partiram um dia.

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É a dor. Dor que se irradia. Que fala até mais alto do que o evangélico preceito: “Deixai que os mortos enterrem seus mortos”.

Ninguém está morto no Dia de Finados.

A saudade, a nostalgia e o respeito, fazem o milagre da ressuscitação. Fazem ressuscitar, em nossos interiores, a lembrança daqueles que partiram e que esperam por todos nós.

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É hora de pensar: o Juízo particular é quem decide sobre a sorte da própria alma na eternidade ou será destinada aos céus, ou ouvirá  a sentença terrível da morte eterna.

É o próprio Cristo, quem já falou dos pecados. Pecados que não serão perdoados, nem aqui e nem no outro mundo.

É o Finados, dia de meditação, exatamente naquilo que poucos meditam: na transitoriedade da vida.

Data de recordar a lembrança e as figuras dos que se foram.

Só assim se poderá, bem e melhor, pautar as próprias existências, num “curriculum” de ações mais caritativas, mais humanas, mais elevadas, e, o que é imprescindível, mais cristãs.

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O cheiro das velas, mistura-se com o odor imaculado dos ciprestes. As rosas sobre as campas, mostram-se tristes.

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Esperar o perdão, é apenas um momento.

Encontrar a gloria eterna é bem outra coisa.

A dor sofrida por pais, irmãos, parentes e amigos, não pode e não deve ser limitada à simples manifestações exteriores.

Oremos, pois.

Orando, poderemos transformar a dor e a saudade, naquilo que reclama e está a exigir a data do Finados: penitência e caridade.

Extraído do Correio de Marília de 1 de novembro de 1973