quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Arquivo pessoal de José Arnaldo




Por causa de incêndio e enchente que afetaram a sede do Correio de Marília, estão faltando nos arquivos do jornal as colunas escritas por José Arnaldo nos meses de março, abril, maio e junho de 1973. Temos apenas os textos de janeiro e fevereiro, já blogados. E aqueles referentes a julho, agosto, setembro, outubro e novembro de 1973, que blogaremos futuramente.



Portanto, vamos lançar mão de textos inéditos que encontramos no arquivo pessoal de José Arnaldo para suprir a falta das colunas de março a junho de 1973. O primeiro texto será blogado amanhã, 1º de março de 2012.

São Paulo, 29 de fevereiro de 2012


Os Editores

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Feliz carnaval, leitores (27 de fevereiro de 1960)



Oficiosamente, inicia-se hoje (27/2/1960) o período carnavalesco de 1960. Começa portanto neste sábado, o tríduo carnavalesco. Tríduo de quatro dias.

Que se divirtam todos, como podem e como devem. De maneira respeitosa e sensata, sem os exageros que algumas pessoas procuram lançar mão, sob pretextos de carnaval. Somos, de nossa parte, favoráveis aos folguedos carnavalescos (embora não gostemos de “pular”), porque entendemos que o público tem o direito de divertir-se de quando em vez, principalmente o público brasileiro, eternamente sacrificado com a própria vida tão difícil de nossos tempos. O que não aplaudimos, isso sim, são os excessos, as bebedeiras inúteis, os “rolos” que aprontam alguns maleducados e irresponsáveis. Não pactuamos com o desrespeito, justificado insensatamente como sendo seus próprios das festas momescas.

Nos últimos tempos desapareceram praticamente o carnaval de rua. Passou a imperar apenas nos salões fechados, ou de já não transcorre com o mesmo típico brilho, em virtude de acentuada ausência de ricas fantasias, confétis, lança-perfumes e serpentinas. Para que tal se complete, verdade seja dita, há que se dispor de muito dinheiro, face aos preços exagerados de tudo hoje em dia; e acontece que o “alumínio” não anda “dando sopa” assim facilmente.

Nas ruas, de alguns anos para cá, o carnaval passou a inexistir. Os “corsos” completos, com incontáveis carros alegóricos, “ranchos”, cordões e préstitos desapareceram. Habitualmente, vem-se apenas desfiles de carros, repletos em maioria por crianças e multidões imensas plantadas ao longo da Avenida, procurando ver, exatamente aquilo que não existe: o carnaval de rua.

No ano em curso, ou mais precisamente, no carnaval que hoje terá início, pronuncia-se a repetição de fatos idênticos; maximé tendo-se em conta de que a cidade em si, a exemplo dos anos anteriores, não apresenta em suas ruas quaisquer motivos alegóricos aos folguedos de Mômo, para agradar um pouquinho que seja as vistas dos pobres, e, particularmente, daqueles que não frequentarão os clubes diversos.

De qualquer maneira, o povo gosta de carnaval, por índole e tradição. Carnaval é produto genuinamente nacional. Pelo menos o nosso, que difere de todos os carnavais do mundo, mesmo do famoso carnaval italiano desenvolvido em Viareggio ou do Francês desenrolado em Nice. Que se divirta o povo, espraiando o espirito causado das lides da vida. Mas que saiba divertir-se sem conspurcar o verdadeiro sentido e o real significado dos folguedos.

Esses são os nossos votos, para todos os marilienses, para todos os foliões.

Simultaneamente, formulamos também desejos de que os folguedos momescos em nossa cidade, em repetição aos anos pretéritos, transcorram dentro de um clima de elevada compreensão, alegria impar e controlada, sem quaisquer exageros ou excessos, prejudiciais ao bom nome da grande e laboriosa família mariliense.

Feliz carnaval, leitores!

Extraído do Correio de Marília de 27 de fevereiro de 1960

domingo, 26 de fevereiro de 2012

“Galo de briga”? (26 de fevereiro de 1960)



O fato ocorreu mais ou menos assim:

Certo leitor nos parou ali na Avenida um dia dêstes. Convido-nos para o clássico cafezinho. Enquanto aguardávamos a ocasião de saborear a rubiácea, o nosso amigo principiou a falar sôbre multiformes assuntos. Primeiro foi o caso da vitória espetacular do São Bento sôbre o Bragantino; depois o carnaval; e outras questões diversas. Nosso amigo saltava de um motivo para outro, qual canguru picado por marimbondo.

A vida de hoje demanda urgência. Estávamos apressados, pois tínhamos adiante compromisso de trabalho com hora marcada. O rapaz estava, não há dúvidas, com vontade de falar e nós, embora sem a indelicadeza na ocasião de dizer-lhe que não estávamos dispostos a ouvir muita coisa, dissimulávamos, olhando insistentemente o velho relógio – forma indireta de dizer que se está com pressa.

Nosso amigo não percebia ou não queria entender a insinuação. Continuava a abordar uma série de assuntos. Nuns 10 minutos de “conversa mole”, o rapaz já havia “solucionado” uma série de problemas: os viadutos, a visita de Eisenhower, o custo de vida, etc..

Foi quando o rapaz se voltou para os elogios “de corpo presente”, dirigidos ao “escriba”. E a par dos “confetis” que nos atirou, ousou até dar-nos assim improvisamente, algumas “aulas de jornalismo”. “Jornalismo” existente lá na sua concepção, é claro. Insinuou que nossa missão está algo errada, pois não “metemos o pau”. E falou que deveríamos “descer a lenha” em fulano, beltrano e cicrano, pelos mais absurdos motivos que imaginou!

A três por dois fazia questão cerrada de frisar, com alguma ênfase e com inusitada convicção, de que “se êle fôsse jornalista” as coisas andariam “na linha” aqui em Marília e muita solução seria encontrada para uma infinidade de problemas!

Mas o negócio não parou aí. O rapaz, multi-reprisadamente confesso nosso ardoroso fã, nos convidou para uma festa que realizaria em seu lar. Com questão cerrada. “Olhe, não vai faltar”, repetiu inúmeras vezes.

Na festa programada, conforme nos asseverou, deveriam comparecer as mais expressivas autoridades e personalidades da Comarca; ao lado, é lógico de seus amigos particulares. E o rapaz nos colocou na “sinuca”, quando, falando sério afirmou:

“Na hora do “grude” eu falarei alguma coisa e em seguida passo a palavra a você. Então você aproveita e “mete o pau” em fulano...”

Até aquêle momento, estávamos ouvindo o homem “papagaiar” incessantemente; foi então que não aguentamos mais. Afinal não somos “galo de briga”. Explicamos ao nosso amigo que êle procurasse outra pessoa para “tábua de bater roupa”. Nossa missão, no jornalismo provinciano é bem outra.

O rapaz, teimoso como êle só, não se deu por vencido. Contra-argumentou que essa atitude nos colocaria ainda mais em evidência, pois representaria uma coisa que ninguém até aqui tinha possuído: a coragem de “lascar a lenha” em fulano, na presença de gente, mesmo na cara do sujeito!

Acabamos por largar o rapaz falando sozinho, apesar de que não gostamos de ser mal educados. Mas fizemos o que nos competia fazer, pois estávamos saturados de conversa sem base.

E “estouramos”, é verdade. Afinal, logo na nossa sombra o rapaz pretende fazer “pic nic”? Vá ao Rio do Peixe, amigo!

Afinal, não somos “galo de briga”.

Extraído do Correio de Marília de 26 de fevereiro de 1960

sábado, 25 de fevereiro de 2012

“Santo de Casa...” (25 de fevereiro de 1960)



Dito jocoso êsse, que afirma que “Santo de casa não faz milagre”. Sua comparação grotesca, em sentido figurado, atesta uma verdade insofismável: certo descuido ou indiferença, algumas vezes até descrédito pelo que nos pertence, para ver consignada uma preferência direta pelo alheio. Mesmo que tenhamos entre nós, em melhor condição, justamente aquilo que buscamos fora.

Em outras palavras e em outro brocardo: “a galinha do vizinho é sempre mais gorda”.

Ocorreu-nos essa idéia, após uma palestra que mantivemos ainda ontem (24/2/1960), com o professor Milton Póvoas, acêrca das solenidades de formatura da terceira turma de bacharéis em economia, da Faculdade de Ciências Econômicas de Marília. Ao indagarmos do ilustre mestre, sôbre a cifra de matrículas daquele estabelecimento de ensino superior para o ano letivo em curso, ficamos sabendo que a preferência pelo citado curso, acentua-se em índice de projeção, por alunos provindos de outras plagas.

Isto é, a maior porcentagem de acadêmicos da Faculdade de Ciências Econômicas é de fora. Cidades da noroeste, da velha paulista, da velha e nova sorocabana, mesmo procedentes de centros onde existem estabelecimentos congêneres, frequentam hoje a Faculdade da Avenida Sampaio Vidal.

Enquanto isso, afiançava-nos êsse nosso amigo, dezenas e dezenas de marilienses, alçam asas anualmente de nossa cidade, para cursar ciências econômicas e filosofia em outros centros.

Sabem os leitores ao que se pode atribuir êsse “fenômeno”? Aquilo que se pode chamar de falta de “bairrismo”. “Bairrismo”, esclareçamos, não no sentido simplista de caráter pejorativo, mas, sobretudo, envolvente de uma camada de amor pelo que é nosso, de nossa gente e de nossa cidade, que bem poderá ser chamado de “patriotismo mariliense”.

Essa é a verdade.

Estranhável é o fato de alguns pais de família enviar os filhos a outras cidades, com o fito exclusivo de cursar ciências econômicas ou filosofia, quando possuímos aqui mesmo, dias excelentes escolas de tais especialidades. E além do mais, perfeitamente legalizadas, condignamente fiscalizadas e ostentadoras de competentíssimos corpos docentes.

Enquanto marilienses rumam para faculdades análogas em outras “urbes”, gentes de outras paragens afluem a Marília, prestigiando, dando valor e haurindo as luzes da ciência aqui entre nós. E, automaticamente, transportando a grandeza de nossa terra e a beleza de nosso nome lá fora.

Pode-se dizer que tal fato representa uma contingência perfeitamente normal, irretorquivelmente natural. Convenhamos que sim, contra-afirmando que nem sempre possa ser plausível a mudança de quem aqui reside com seus familiares, sòmente para cursar em outros centros, exatamente aquilo que aqui possuímos, maximé com a comprovada condição de bom e completo.

Estaremos errados? Absolutamente. Errados estarão, sem sombra de dúvidas, os que alçando asas de nossa “urbe”, vão bater às portas de outras faculdades, menosprezando aquilo que possuímos.

Daí o afirmarmos que se nos urge dose maior de “bairrismo”, esse “bairrismo” sadio, normal, lógico, que traduz antes e acima de tudo, o amor à terra.

Bom seria que os estudantes e os pais dêstes procurassem analisar atentamente, as afirmativas que aqui estão contidas.

Extraído do Correio de Marília de 25 de fevereiro de 1960

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Exemplo de pais... (24 de fevereiro de 1960)



Fato verídico êste. Sucedeu na noite do último sábado (20/2/1960), num dos bailes pré-carnavalescos realizados na cidade. Assim póde, ser resumido.

O policial em serviço no aludido recinto, procurou, à certa altura da noite, um comissário de menores, para relatar que do lado de fora do recinto (na rua, bem entendido) se encontravam algumas crianças, chorando. O comissário acercou-se de três menores, procurando saber as razões da permanência dos mesmos naquele local e os motivos do choro. Ficou admiradíssimo ao ter conhecimento de que as mães dos meninos, sabedoras de que os mesmo não poderiam ter acesso ao recinto, determinaram a sua permanência ali, enquanto elas (as mães) entraram no salão e principiaram “a se esbaldar”.

O comissário conduziu para o interior do baile dos garotos, pedindo-lhes que demonstrassem as respectivas progenitoras, o que foi feito. Viu-se o agente de menores na obrigação de “passar um sabão” nas duas mulheres, intimando-as a deixar imediatamente o recinto e conduzir aos seus lares os próprios filhos.

O fato foi presenciado por diversas pessoas, que, conhecendo-o, louvaram a atitude do servidor da Justiça.

Até aí (poderá pensar alguém), nada de mais existiu e muito menos motivo para ser o fato mencionado assim, em letra de fôrma. Sucede que os que pensaram de semelhante maneira, estarão pensando erroneamente, pois o assunto encerra suma gravidade, visto apresentar reflexos diretos de mau exemplo, praticado exatamente por pessoas que tem sob os ombros, responsabilidade enorme na formação moral das citadas crianças – as próprias mães.

É claro que não vai aqui uma censura diréta pelo fato das mencionadas mães “pular o carnaval”; vivemos numa democracia, onde toda pessoa juridicamente adulta é dona do próprio nariz. Ninguém, é verdade, tem nada a ver com o fato de as citadas mulheres dançar o carnaval; muito menos nós; podem as mesmas “rasgar a fantasia”, como se diz por aí. O que não está certo, ninguém discutirá o contrario, é o papél insensato de quem tem a responsabilidade de mãe de família, pretender divertir-se num baile carnavalesco, deixando na rua em completo abandono, os próprios filhos!

É esta a atitude que condenamos.

Ao proceder de tal forma, as mães deram um exemplo dos mais indignos aos filhos (duas meninas e um menino). Os três já são possuidores de certa compreensão, pois suas idades devem variar entre 8 e 13 anos. Provou isso o desapontamento estampado nas facezinhas das crianças referidas e o choro das mesmas.

É de ficar-se pensando, num caso destes, qual o grau de juizo e de responsabilidade dessas mulheres, que, visando exclusivamente, a diversão pessoal, não titubearam em abandonar os filhos na rua, com a determinação de que ali permaneceram esperando-as, enquanto elas próprias, com a maior calma e naturalidade do mundo, se entregavam aos folguedos de Mômo!

Agora, julguem os leitores esta questão: Com um exemplo dessa natureza, qual a autoridade que poderão ter essas mães, se, amanhã, uma dessas crianças pretender frequentar um recinto (recomendável ou não), e, tendo um parecer contrario das progenitoras, as crianças lançarem-lhe na face a afirmativa de que ela própria já praticara o que eles cogitam fazer?

Os exemplos dos pais são os que mais calam no espirito dos filhos. E o que é certo é que os maus exemplos são os que melhor se arraigam, mais facilmente frutiferam e mais rapidamente são seguidos.

Extraído do Correio de Marília de 24 de fevereiro de 1960

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O que “Ike” deveria ser (20 de fevereiro de 1960)



A não ser que o cidadão morra de amores por uma conhecida política exótica de fundo vermelho, para ostentar o “vírus” do anti-americanismo, acreditamos que, todo e qualquer pessoa, desde que dotada do suficiente senso de neutralidade e razão, e, por naturalidade, amiga dos norte-americanos. Amiga e admiradora, porque se trata, em verdade, de um povo merecedor dêsses predicados.

De nossa parte, tendo convivido com os “yankees” durante um ano inteiro, conhecendo “de visu” o espírito de organização e o trabalho sem preguiça dêsse povo, sua “verve” inconfundível e o inequívoco manuseio daquilo que chamamos democracia, somos, como não poderia deixar de ser, admiradores e amigos dessa gente.

Iremos receber no Brasil, como hóspede oficial do Govêrno nacional, a honrosa visita do presidente Eisenhower, chamado pelos americanos apenas por “Ike”, assim como nós chamamos o Sr. Kubitschek por JK. Acontece que existe uma pequena diferença, pois o “Ike” dos americanos significa alguma coisa de íntima, enquanto o tratamento de JK, muitas vezes, apresenta um certo pejorativismo.

Como dizíamos, o presidente dos Estados Unidos virá ao Brasil e o serviço de relações públicas do Itamaratí já organizou o programa oficial, inclusive o “menu” para os faustosos, fulgurantes e opíparos banquetes. 3.000 quilos de alimentos serão consumidos em apenas dois banquetes, onde se contarão as iguarias mais famosas e caras do mundo, algumas procedentes até do exterior. Nesse particular, pensamos que estamos operando algo errado, pois cremos que o mais certo, seria apresentar nesses banquetes, apenas o que é nosso, legitimamente nosso. Isto é, deveríamos oferecer ao ilustre visitante, o cardápio com a cozinha tipicamente brasileira (olhem que é variada, farta e completa), vinhos, licores e mesmo uísque e champanha nacionais, além dos pratos, talheres e cristais de nossa exclusiva fabricação. Assim é que fazem todos os povos do mundo; apresentam com orgulho o que gostam, o que produzem, o que têm de melhor.

Acontece que o brasileiro é assim mesmo. Espalhafatoso por excelência. Em sua bondade extrema, com o interêsse de agradar, de ser um anfitrião de primeira grandeza, comete exageros até. E, o que é pior, costuma preparar a sala de visitas convenientemente adornada, sem esquecer os mínimos detalhes para impressionar o visitante. Enquanto isso, amontoa o lixo na própria cozinha, sabendo de antemão que o visitante não irá “fuçar” o referido cômodo.

Nós pensamos diferente no caso. Entendemos que o visitante deve ver tudo o que possuímos e não apenas o que preparamos para que conheça. Se êle for observador arguto (como é!), notará logo o exagero dos aparatos. E perceberá que existindo fartura, bom gosto, boa ordem e organização num local, não faltará outros em que se apresente o reverso da medalha.

As visitas oficiais são sempre assim; o visitante conhece os pontos mais bonitos, mais pitorescos, as obras de maior vulto, tudo enfim que é exibido, não sòmente com o intuito de mostrar o que possuímos, mas, antes e acima de tudo, com o objetivo de esconder o que não temos, o que não realizamos.

Pode parecer um absurdo êste pensamento mas não nos pejamos em externa-lo: Se não fôra mais bonito, seria pelo menos mais honesto, que o visitante visse os dois extremos da Nação; a beleza do programado para a visita e as carências e misérias do país e dos nacionais; o abandono de nossas lavouras e as deficiências de nossos transportes; o filho do brasileiro morrendo de verminoses e subalimentação, descalço e maltrapilho; a sêca do nordeste; e tantas outras coisas.

Acontece que isto não acontecerá. O presidente “Ike”, se for curto de idéias observadoras (o que não acontece), declarar-se-á posteriormente, “encantado” com as maravilhas, beleza, hospitalidade e farturas brasileiras. E estará certo, porque apenas isso lhe foi propiciado conhecer.

No caso, é o mesmo de todas as visitas oficiais que diversos “cobras” já realizaram em Marília: conheceram o Paço, a Faculdade de Filosofia, o Restaurante Marília, a Água Fluoretada, etc.. A nenhum dêles se mostrou as erosões, a miséria dos bairros, as deficiências diversas que possuímos em abundância.

Isso é o que “Ike” deveria ver.

Extraído do Correio de Marília de 20 de fevereiro de 1960

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Salada de Notícias (19 de fevereiro de 1960)



Pelo que sabe, nada menos do que sete clubes realizarão bailes carnavalescos em Marília. São êles: Marília Tênis Clube, Esporte Clube Mariliense, Kai-Kan, Legião Negra do Brasil, Yara Club de Marília, “Boite” Vogue e Associação dos Alfaiates.

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A pedido do govêrno guatemalteco, o Instituto Butantan enviou para aquele país, por via aérea, uma vultosa partida de vacinas de sôro anti-ofídico. O sôro destina-se a auxiliar no combate as mordidas de cobras, que afluem em grande número em consequência das enchentes que assolaram a Guatemala. O Instituto Butantan é o único centro cientifico no mundo que prepara tais medicamentos preventivos, e porisso é sempre solicitado por inúmeros países.

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Aguardam os marilienses, com regular interêsse, os resultados dos conchavos que serão mantidos entre uma comissão de edis locais e a alta administração da Cia. Paulista de Estradas de Ferro, com respeito ao até aqui insolúvel problema das passagens de nível da citada ferrovia.

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O Serviço de assistência financeira aos municípios enviou instruções aos prefeitos do interior, pedindo-lhes que apressem o envio da papelada necessária ao pagamento das quotas a que tem direito as comunas bandeirantes, e referente à devolução do imposto de vendas e consignações cobrados no destino. Algumas prefeituras além de retardar a papelada, ainda manda documentos errados, o que faz com que a divisão das quotas sofra atraso.

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Esboça-se na cidade, movimento visando a reestruturar a A. A. São Bento. Tal movimento deve ser cercado de todas as simpatias e apôio. Significa a garantir do “lugar ao sol” conquistado pelo desporto mariliense, óra integrante da primeira divisão de profissionais.

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Novo e espetacular desastre ocorreu na Via Dutra, a mais perigosa rodovia do país. Um ônibus do Expresso Brasileiro chocou-se violentamente com um carro frigorifico à altura do quilômetro 93, em Volta Redonda. Da colisão resultaram 33 feridos, sendo 4 em estado grave e 1 morto. Todos os feridos foram internados em hospitais da Cidade do Aço.

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De bom alvitre será que a delegacia de polícia, a exemplo dos anos anteriores, proceda o tabelamento das bebidas alcoólicas durante os festejos carnavalescos.

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O Promotor Maurílio Bruno, que funcionou no julgamento dos matadores de Ainda Curi, desmentiu hoje categoricamente a falta testemunha, Lecy Gomes Lopes, a qual afirmara que Ronaldo sentando num banco de jardim quando Ainda era jogada fora do edifício “Rio Negro”! Lecy Gomes deverá ser processada por falso testemunho, pois não viu nada, menos que algumas “amarelinhas” de mil, que alguém lhe deu para libertar o “play-boy” assassino!

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A Divisão do Imposto de Renda anunciou que vai agir energicamente contra os sonegadores do imposto de renda, entre os quais os radialistas se alinham em primeiro lugar. Divulgou aquela repartição a lista dos radialistas que estão devendo imposto de renda, e que são os seguintes: Angela Maria deve 6 milhões; Luiz Vassalo 4 milhões; Cezar de Alencar 3 milhões; Manoel Barcelos 3 milhões; Edú da Gaita 1 milhão e Aurélio de Andrade 1 milhão!

Extraído do Correio de Marília de 19 de fevereiro de 1960

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Não está legalizada a mudança para Brasília (18 de fevereiro de 1960)



A transferência da Capital do país para Brasília não está legalizada. Dest’arte, a lei que ordenou a mudança do Poder Federal para a “cidade à jacto” pode ser desobedecida!

Não somos nós, simples leigos em matéria de direito, que o afirmamos; e nem tão-pouco os que estamos “levantando a lebre”. Quem fez essa taxativa revelação foi um ilustre catedrático de direito, o professor José Ferreira de Souza. Em entrevista à imprensa carioca, assim se manifestou o insigne catedrático:

“Uma Capital não se constrói apenas porque se demarcou a respectiva área, nem se habita porque o legislador o quis, batizando-a como tal. Nessas condições, se a lei ordena a mudança para um lugar qualquer, sem a delimitação territorial, sem estar juridicamente organizada como Distrito Federal e sem as mínimas condições de habitabilidade e de funcionamento dos serviços públicos, ela não pode ser obedecida”.

Repetimos sem qualquer pejo, que nada entendemos de direito. Todavia, estamos impregnado de clareza a afirmativa supra, convimos com êsse professor, cujas declarações representam não só uma clarinada de alerta para um êrro de direito, como, igualmente, não deixa de ostentar em seu bojo, uma leve insinuação de que existem por êstes brasis muitos legisladores completamente “tapados”.

O professor Ferreira de Souza acrescentou ainda: “Essa lei seria absurda, passível mesmo de classificação entre as “leis tirânicas”.

Em síntese, as declarações referidas do aludido catedrático, condensam os seguintes pontos de legalidade e ilegalidade:

a) – A transferência da Capital Federal pressupõe a existência de uma cidade evidentemente organizada e provida dos elementos essenciais à vida dos seus habitantes.

b) – Não admite, possa o legislador ordenar o impossível ou tornar em realidade o que não é, nem pode ser.

c) – Brasília não tem organização jurídica. Continua a se situar em território goiano, sujeita à jurisdição das autoridades do Estado de Goiás. Nenhuma lei lhe providenciou a organização jurídico-política.

d) – Nessas condições, o Supremo Tribunal Federal deverá ficar no Rio de Janeiro e todos os seus atos serão válidos, mesmo depois da transferência da Capital para Brasília.

Pela sintetização consoante da letra “d” já referida, subentende-se que o STF, como o marco máximo na distribuição e aplicação do direito, não irá, êle próprio, proceder errado, ainda mais de maneira consciente. Em outras palavras, não poderá endossar uma grave falha de organização e aplicação jurídico-política.

Ainda há remédio para o fato, é lógico. O que causa espécie, fóra de dúvidas, é que possuindo nosso país excelentes “safras” de senadores e deputados federais, com um candel imenso de enamorados da obra JK que se chama Brasília (mas que não representa, em circunstância alguma nenhum “Ovo de Colombo”), tenham inobservado êsse importante fato.

De qualquer maneira, o “caso está criado e a exigir solução, solução que surgirá fatalmente, mas que poderá, nestas atuais condições da vida política (política com “p” minúsculo) nacional, acarretar as “tradicionais” marchas e contra-marchas”.

Nós, daqui, iremos acompanhar o caso, assistindo “de camarote” o desenrolar dos fatos a respeito.

Extraído do Correio de Marília de 18 de fevereiro de 1960

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Pingos e respingos esportivos (17 de fevereiro de 1960)



Augusto Efigênio é o nome do novo técnico sambentista, contratado em substituição ao sr Antônio Lourenço, que já pouco demitiu-se do clube.

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Domingo passado o São Bento ganhou mais uma experiência em sua vida: jogou sobre um “gramado” de saibro!

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Jogou uma excelente partida de futebol domingo em São Paulo, o arqueiro suplente sambentista, Zeca. Se o rapaz continuar assim e não “mascarar” contará o alvi-rubro com mais um esplêndido goleiro.

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Domingo passado, frente ao Estrela de Saúde, o extraordinário médio Bassú completou a sua 48ª partida ininterrupta defendendo a camiseta número seis do São Bento. Domingo vindouro, frente ao Bragantino jogará pela 49ª vez e para o prélio frente ao Batatais, no dia 28 vindouro, completará meia centena de jogos sem interrupção no plantel sambentista. Não merece um prêmio êsse jogador?

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Waltinho, meia esquerda sambentista, dentro de sua natural modéstia, não se vexou em confessar à reportagem que só veio a conhecer S. Paulo, graças ao São Bento.

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No Hotel das Bandeiras, alguns craques sambentistas viram, pela primeira vez, o que é televisão. E apreciaram o segundo gol dos paulistas, de magistral feitura, construído por Pelé e assinalado por Servilho.

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Voltou a jogar bem o ponteiro Amaurí, o mesmo Amaurí que disputou duas dezenas de jogos de péssimo futebol. Parabéns.

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Domingo vindouro, o São Bento terá pela frente um dos líderes do Torneio dos Campeões, ou seja, o C. A. Bragantino. No primeiro turno o alvi-rubro foi derrotado por 3 x 1, quando poderia ter vencido se a sua linha atacante tivesse jogado pelo menos regular. Aguardemos o resultado do prélio de domingo.

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Está certa a permanência do goleiro Zeca na meta mariliense para o jogo de domingo entre São Bento e Bragantino. Enquanto isso, periga a escalação de Pacheco e Fidelcino. Em consequência terá o técnico Agostinho, dificuldades fortes para formar o sexteto final mariliense.

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Com as prováveis ausências de Fidelcino e Pacheco, haverá necessidade de chamar-se o zagueiro Tião ao time titular. E mesmo assim, a defesa não ficará completa.

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Em S. Paulo, domingo último, bem como em Presidente Prudente, dia 7, não se registraram “molesas” ou “má vontade” por parte dos craques, o que vinha acontecendo no passado. Todos jogaram para valer e para vencer e as derrotas quando os craques se empenham “no duro”, não são tão amargas.

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Cronistas em São Paulo que se encontravam na cabine de imprensa do campo do Estrela da Saúde, confessaram à reportagem ter gostado muito do jogo de Zéca, Fidelcino, Pacheco, Bassú e Waltinho.

Extraído do Correio de Marília de 17 de fevereiro de 1960

O Carnaval vem aí (17 de fevereiro de 1960)



Aproxima-se os dias dos folguedos de Mômo. Vem aí, o tríduo carnavalesco. Tríduo quatro dias, é verdade.

Clubes e associações especificas, preparam-se covenientemente, para proporcionar aos seus filiados, o lazer próprio desses festejos populares.

Particularmente, gentes a guardam com ansiedade a chegada dessas folias. Apesar do elevado custo de vida, muitos darão um jeito de dispor o suficiente dinheiro para “brincar” o carnaval.

De nossa parte, gostamos de apreciar os que se divertem nessa época, encarando os folguedos carnavalescos como um motivo de diversão geral. Espontânea, franca, moderada e bem intencionada. Achamos justa essa oportunidade das gentes se divertirem. Principalmente entre nós, onde o brasileiro trabalha no duro, ano inteiro, necessitando, por isso mesmo, um ensejo para arejamento do espírito cansado.

Gostamos, assim, do carnaval inocente, o carnaval carnaval.

O motivo de alegria em sí. As brincadeiras sadias e comedidas. Honestas, para sermos mais claros.

Somos aversos aos exageros que comumente se praticam por aí, sob o pretexto de que “carnaval é assim mesmo”. Somos contrários aos excessos, à liberalidade. Aos gestos atentatórios à moral, a não refreação de impulsos escusos, que costumam se manifestar ao espírito de algumas pessoas de formação indelineada.

Carnaval, no passado, éra uma festa diferente. Alegre, sadia, completa, cingindo-se numa trajetória de alegre decência.

Para muitos, continua a ser assim. Para outros, apresenta uma oportunidade “de ouro” para uma vazão de má educação e por vezes desrespeito. “Encher a cara” e praticar excessos não é, em circunstância alguma, “brincar o carnaval”. É incorrer ao ridículo, transgredir as boas normas do respeito ao próximo, à sociedade. Não há justificativa plausível, de que em carnaval tudo é permitido, tudo tolerável, tudo normal. Brincadeiras sadias não se misturam com átos de cafajestismos, com excessos.

Nem todos brincarão o carnaval, é certo. As coisas não andam muito fáceis. Muitos se plantarão ao longo da Avenida do Fundador, com o objetivo de conformador de apreciar os que se divertem, o que já é alguma coisa confortadora. Daí a razão de que estes tenham o ensejo grato de apreciar o carnaval como êle deve ser, sem excessos.

Ao ensejo desta focalização, fazemos nossos votos para que os marilienses em geral os que apreciam o carnaval, em particular, se divertiam bem e alegremente. Que os folguedos carnavalescos em Marília transcorram, como sempre, dentro de um clima de elevada educação e respeito mútuo, sem arruaças, sem a inclusão de “cachaçadas” e “rolos”, atitudes próprias dos curtos de educação. E sem indesejáveis átos de indesejáveis “play boys” endinheirados, abusados e embriagados.

Marília e sua gente são dignas disso.

No passado, sempre demos exemplos frizantes nesse particular porque apenas alguns “engraçadinhos” procuram deslustrar a beleza natural dessas brincadeiras populares. Para esses, como sempre, estará em ação a polícia, com a sua ação preventiva e repreensível.

Carnaval é festa do povo. Ricos e póbres, pretos e brancos.

Que se divirta esse mesmo povo, cada qual conforme puder, sempre tendo em mente que os folguedos devem ser conduzidos dentro de um clima de decência alegre.

Feliz carnaval, leitores!

Extraído do Correio de Marília de 17 de fevereiro de 1960

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A desbriada corrida altista (13 de fevereiro de 1960)



Inegavelmente, o assunto encerra uma equação indeterminável, a desafiar a argúcia dos govêrnos e a capacidade de seus auxiliares mais diretos. Assunto insolúvel, questão de trabalho ou motivo de vergonha? Não será, por outro lado, uma urgência daquilo que se enquadra claramente na exigência de um maior patriotismo?

Parece-nos que nos falta um pulso mais firme, uma orientação mais sadia, mais direta e mais efetiva. Ou um plano de ação (com licença do sr. Carvalho Pinto) mais equânime, mais racional, irradiado em todos os setores. Êsse negócio de amparar de maneira direta e decisiva a indústria automobilística, deixando ao sabor da própria sorte os demais ramos manufatureiros, é o mesmo que trancar bem a porta da frente de uma casa, deixando aberta a porta dos fundos. Um contra-senso, vamos ver mais claros.

A questão de Brasília é outro “nó górdio”. Pelo menos, no entender de muitos. De nossa parte, repetimos mais uma vez, não somos contra Brasília e sim aversos ao sistema alucinado de sua construção “à jacto”, extra orçamentária, caríssima, exigindo seguidamente novas emissões, novos encargos de dívidas extraordinárias. É verdade que se deve fazer hoje aquilo que deveria ser feito amanhã. Mas dentro do cabível, da lógica, do senso, convenhamos.

Ninguém poderá negar que o atual presidente da República, irretorquivelmente obcecado na “feitura” da nova Capital, tem ressentido falta de mais tempo para dedicar-se às demais contas do imenso rosário de necessidades brasileiras.

Isso, sem contar-se com o ensejo que tal “construção” vem propiciando a dezenas de safados, que enriqueceram e estão enriquecendo à custa do próprio erário oficial e em detrimento à miséria dos nacionais.

Enquanto tal vai acontecendo, a desbriada corrida altista caminha em ascensão pirotécnica em todos os sentidos e em todos os setores. É o reflexo inconteste de um desgovêrno. Ninguém, pelo menos até aqui, foi capaz de erguer um dique estancatório ao movimento incrível da alta dos preços das coisas e utilidades de primeira urgência. Para exemplo, estão trombeteando por aí mais um “aumentozinho” de 30 a 40% nos preços dos medicamentos em geral. Os calçados, segundo consta, terão também em breve a sua vez. Idem os vestuários em geral. Hoje em dia, ganha menos o comerciante que não remarca semanalmente os artigos que vende. Sinal dos tempos?

Pode ser sinal dos tempos, mas ninguém nos convencerá que tal estado de coisas é a sombra perfeita de um perfeito descontrôle, que parte, antes e acima de tudo, “de cima”; isto é, dos próprios poderes públicos. Os órgãos fiscalizadores e controladores de preços, como a famigerada COFAP e suas “filhas” COAPS e COMAPS, poços de inércia, apresentam injustiçada e seguidamente, aquilo que se chama os efeitos do tiro pela culatra. A não fixação do preço mínimo para o produtor nacional, com a limitação do preço máximo para o consumidor, com média controlada para o intermediário, os elevados preços de transporte e a incompleição de meios de escoação, são, não há dúvida, os fatores mais importantes e mais responsáveis pela desbriada corrida altista que sufoca os brasileiros e que classifica nosso país na pejorativa condição de u’a nação onde a vida é das mais caras no mundo e onde a moeda é das mais raquíticas.

No Brasil, embora não seja segrêdo para ninguém, tudo sobe diuturnamente; tudo, menos o índice de vergonha de muita gente!

Extraído do Correio de Marília de 13 de fevereiro de 1960

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Monstruosidade originada do Diabo (12 de fevereiro de 1960)



De fato, o epígrafe dêste artiguete não poderia ser outro, embora rude, medonho e algo tétrico. Possivelmente tenha sido um motivo a maior, para que o leitor amigo se detenha com mais interêsse em sua leitura. Referimo-nos à guerra química, essa irretorquível monstruosidade verdadeiramente originada do diabo.

Na última grande Guerra Mundial, da qual o Brasil tomou parte, tendo enviado à Itália vinte e cinco mil soldados, apesar dos preparativos existentes nesse particular, não houve, graças aos céus, necessidade ou urgência de emprego dêsse horripilante processo de matanças humanas. Isto face à rendição incondicional das forças do “eixo”, constituídas pelo Japão, Alemanha e Itália.

Muitos “pracinhas” e oficiais da Força Expedicionária Brasileira, sabem, por ciência própria, embora de maneira relativa, o quão monstruoso é o processo de guerra química. Verdadeira obra de Satanaz. Coisa incrível de efeitos, inenarráveis e de extensões imprevisíveis. Capaz de extinguir, em poucos minutos, populações inteiras, arrasando as gentes (homens, mulheres e crianças) e inutilizando os que não mata!

Recordamo-nos o fato de que, antes de os brasileiros entrarem em combate ao norte de Pisa, recebendo o “batismo de fogo”, recebemos uma série de instruções sôbre o perigo da guerra química, uso de máscaras, etc., bem como nos foram explanados incontáveis exemplos dos efeitos desse diabólico engenho de guerra. Efeitos e causas verdadeiramente inacreditáveis, alguns dos quais sem o mínimo meio cientifico de resguardo ou proteção, pois a própria ciência dos homens ainda está impotente nesse particular. Foram citados, nessas preleções, variadas consequências advindas como resultado de possíveis ataques com o processo da guerra química; a primeira foi a morte inexorável, angustiante, sufocante, medonha; outras, a loucura, a epilepsia incurável e diversa da comum, o desespero, chagas abrindo-se por todo o corpo e uma infinidade mais de resultados inacreditáveis. No ensejo, foi também apresentada uma exposição com detalhes de um engenho na ocasião em poder das forças alemãs, também de guerra química, que consistia no seguinte: após a explosão de um certo tipo de granada lançada por canhão, o obuz expendia átomos de um estranho poder mortífero, que, qual invisíveis braza, menor do que a ponta de uma agulha, penetrava em carnes vivas (humanas ou não), sem que naquela altura, tivesse sido encontrada uma fórmula qualquer para salvaguardar as vidas. Êsse engenho penetrava por sôbre quaisquer tipos de vestimentas, inclusive as de amianto, atingindo as carnes e causando mortes horríveis a homens e animais!

Daí, sem dúvida, a razão da epígrafe que encima êste artigo.

Isto nos ocorreu, ao lermos uma notícia telegráfica procedente de Washington, dando conta de que um senador democrata do Estado do Colorado (Byron L. Johnson), ter declarado, na Câmara dos Representantes, durante uma discussão sôbre a guerra química, que “as reservas de gás dos Estados Unidos são suficientes para matar todos os homens, mulheres e crianças do mundo”.

Não há dúvida também de que tal afirmativa chega a constituir-se numa réplica ao declarado há pouco pela Rússia, de que esta estaria em condições de destruir, a qualquer distância, qualquer país do mundo, com a utilização de poderosos engenhos teleguiados.

Se é verdade que a civilização progrediu, avançou, que os homens avantajaram seus conhecimentos e espírito de compreensão, o que significa isso tudo? Nada mais do que uma loucura da própria humanidade, que, a continuar assim, poderá exterminar-se tôda!

Extraído do Correio de Marília de 12 de fevereiro de 1960

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Escrever, ler e interpretar (11 de fevereiro de 1960)



Inda ontem “batíamos papo” com um velho companheiro que, por muito tempo, mantendo uma secção periódica, foi colaborador dêsse jornal. No vai-e-vem da conversa espontânea, essa conversa que toma diversos rumos, mudando facilmente de rota, veio a baila a questão de nossa incumbência como “rabiscadores” de jornal provinciano. No ensejo, indagamos dêsse amigo o porque da “aposentadoria” de sua pena. O rapaz alegou falta de tempo, atribulações de serviço e uma série de outras coisas, perfeitamente justificáveis.

Dizia-nos êsse antigo colaborador, que, a par da verdadeira “cachaça” que identifica o jornalismo, para aqueles que escrevem por convicção e por prazer, a profissão possui as suas eivas de espinhos, sendo a sua análise mais difícil do que se pode prever assim de chofre, maximé pelo leigo.

E justificou:

- Veja você, como nem todo o mundo sabe ler ou interpretar o que o jornalista escreve. Tenho notado que muitos artigos, muitas vezes encerrando em seu conteudo assuntos de suma importância, condicionando questões dignas de ser discutidas, estudadas, apreciadas ou levadas em conta, perdem-se no indiferentismo da opinião pública; outras vezes, um artigo medíocre (mesmo o bom e “tarimbado” jornalista, alguma ocasião escreve um artigo insosso), que, por sua natureza chega a revestir-se de uma filosofia barata ou simples sofisma, consegue “fazer onda”, conforme a maneira e a capacidade de interpretação de que o lê.

Existe, de fato, uma grande verdade nesse entender do nosso amigo. A questão, não há dúvida, pode ser considerada, nesse particular, como os “ossos do oficio”. Efetivamente, essas coisas acontecem mesmo. O homem, regra geral, é muito sensível à crítica e observações. Isto, trocado em miúdo, significa que nem todos gostam ou estão em condições de aquilatar quaisquer referências de censuras, mesmo que em têrmos, fundamentadas e honestas. Por outro lado, todo mundo gosta de receber “confetis”, elogios, embora o expediente dêsse jaez traduza, por antecipação, a peça que calha e se ajusta àquilo que se convencionou chamar de vaidade.

Com essas pequenas coisinhas, o jornalista passa a vestir, automaticamente, um colete de diplomacia, para saber onde e como se pisa; isto é, utilizar-se de ações comedidas e cuidadosamente estudadas, porque, é verdade, nem todo o mundo aprecia o escrito, de maneira neutra e fria, imparcial como deve ser.

Dissemos que o jornalista usa diplomacia e ações comedidas. Isto, entretanto, não pode ser interpretado como receio de ferir melindres ou como medo de escrever a verdade. Esta, embora em têrmos suaves, deve ser dita sem rebaços e de maneira objetiva e não estará cumprindo bem a sua missão, o “escriba” que assim não agir.

Aí está, pois, a corroboração da afirmativa que expendemos ao nosso ex-colaborador, de que os fatos pelo mesmo justificados, são em realidade as contingências da própria profissão, vulgarmente chamadas de “ossos de ofício”.

A gente, quando escreve, o faz na esperança de que todos os que passam os olhos sôbre o artigo, estejam em condições de saber interpretar o escrito. Se, nos casos citados, algumas pessoas assim não fizeram (ou não fizerem), por certo a culpa não é do “rabiscador” de jornal, especialmente se êste é bem intencionado e procura ser claro. A culpa, no caso, é tão sòmente da capacidade de interpretação ou do tipo do “Ego” de quem lê sem saber ou sem querer interpretar as coisas como elas sao.

Extraído do Correio de Marília de 11 de fevereiro de 1960

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fragmentos de Notícias (10 de fevereiro de 1960)



Amanhã, quinta feira (11/2/1960), deverá reunir-se a edilidade mariliense. Esperam muitos e especialmente os preocupados com a constituição da Comissão Municipal de Arte e Cultura, que os vereadores consigam apreciar e votar o projeto de autoria do sr. Sebastião Mônaco, que dispõe sôbre a criação do referido e útil organismo.

A respeito, sabe-se que um outro projeto de lei, vasado em teor diferente, porém consubstanciado à fim análogo, está sendo “cozinhado” para ser submetido à Câmara. Êsse segundo projeto, dizem, se não for dada última forma, ao invés de auxiliar, virá prejudicar o anterior!

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Pelo que pudemos perceber, existe na Câmara, intenções totais e por intermédio de todas as bancadas com assento na edilidade mariliense, em prestigiar incondicionalmente as ações do atual Prefeito, facilitando ao Chefe do Executivo, o máximo possível. Isto é, oferecendo, “de bandeja”, todos os meios, recursos e possibilidades. Haverá, pelo que deduz, harmonia entre os dois Poderes e isso traduzirá, inegavelmente, além do espírito de compreensão sempre demonstrada pelos marilienses, mais uma prova de que as forças sempre se uniram em Marília, em todas as circunstâncias que exigiram ações em pról dos interêsses da cidade e do bem comum dos marilienses. Por outro lado, terá o sr. Barretto Prado, mais claras faculdades para operar uma boa e proveitosa administração municipal.

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Em boa hora a polícia empreende uma campanha moralizadora contra o “trottoir” nas ruas da cidade. Positivamente, a vida nesse particular, nos últimos tempos, vem apresentando aspectos que de fato não se casam com os foros de dignidade da família mariliense. Nos últimos tempos, aumentou muito em nossa cidade, o número de mulheres desocupadas e de vida suspeita em circulação pela “urbe”, realizando um comércio condenável.

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Caminham a passos largos os preparativos para os folguedos carnavalescos nos clubes sociais da cidade. Nada menos do que quatro grandiosos bailes de carnaval serão feridos em quatro pontos diferentes da cidade.

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Domingo vindouro, o São Bento terá que enfrentar o Estrela da Saúde, em São Paulo. Se o alvi-rubro conseguir imprimir ao seu plantel o mesmo espírito de luta posto em prática domingo passado em Presidente Prudente, e, se pudermos contar com a felicidade de uma arbitragem parcial (e honesta), é possível que o clube mariliense consiga um resultado honroso para as suas cores.

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Excelente foi a safra de amendoim no município de Marília no ano corrente. Constitui-se mesmo num autêntico “record” e proporcionou excelentes preços aos agricultores e esplêndida margem de lucros aos intermediários. Como contraposição, podem todos estar certos de que os derivados dêsse utilíssimo produto serão duas vezes mais caros!

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Procede a Prefeitura a capinação das gramíneas nos vãos dos paralelepípedos. O mato está sendo acumulado em pequenos montes, ao longo das guias das sarjetas. No passado, em muitas ruas, êsses “montinhos” de capim e terra não foram recolhidos pelos carros coletores de lixo. Quer dizer, o serviço ficou feito pela metade. Esperam os marilienses que desta vez tal não se repita.

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O número de cães sem dono que perambulam pelas ruas da cidade aumentou consideravelmente. Por vezes, oferecendo espetáculos contundentes em plenas vias públicas, por onde transitam crianças e mulheres. Problema difícil de solução êsse, embora de solução urgente.

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Enquanto não se constrói o novo Mercado Municipal, seria de bom alvitre uma limpeza e pelo menos uma caiação no prédio do atual. E, simultaneamente, uma “limpezazinha” nos mitórios do mercado existente, que, diga-se de passagem, reclamam essa providência.

Extraído do Correio de Marília de 10 de fevereiro de 1960

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Incoerência (6 de fevereiro de 1960)



Por qualquer motivo, o rapaz precisou viajar para São Paulo. Comprou passagem para o chamado trem de luxo, acomodou-se na poltrona, deixando o barco, isto é, o trem correr.

Fazia um calor infernal. A certa altura do percurso, o rapaz despiu o paletó. Ficou, por conseguinte, em mangas de camisa como se diz vulgarmente. Camisa de mangas compridas, colarinho fechado e gravata amarrada ao pescoço. Aí surgiu o desapontamento: o funcionário da estrada avisou: “não é permitido viajar sem paletó”. O rapaz ponderou que diversas outras pessoas se encontravam sem paletó naquele mesmo carro. O ferroviário justificou: “com camisa esporte é permitido, mas camisa de colarinho, não”.

Acatador de ordens, respeitador de regulamentos, o rapaz tornou a vestir o paletó, mesmo com o calor sufocante. Enquanto isso, seu vizinho estava sem dita peça vestuária, isto é, sem o paletó. Então o viajante improvisado pensou: estará menos vestido ou mais indecentemente vestido aquele que se apresenta com uma camisa branca, limpa, de colarinho fechado e engravatado, com mangas compridas e punhos abotoados, do que o outro, que, com camisa esporte, fica com o colarinho aberto e as mangas de camisa arregaçada? Não é uma incoencia?

Esquisito isso, não há dúvidas. Esquisito e esdrúxulo êsse entender, proceder e exigir da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Que exista ordem e disciplina, inclusive na questão do vestuário dos viajantes, vá lá. Mas que se obrigue o passageiro, só porque êle está engravatado, a não poder tirar o paletó, mesmo com um calor infernal, chega a ser um absurdo. Sim, pois tanto a camisa esporte, como a camisa de colarinho (para gravata), sem o paletó, significam que a pessoa está apenas de “calça e camisa”, isto é, sem vestir aquilo que apesar de constituir-se de apenas duas peças, é conhecido pela alcunha de “terno”.

A Paulista, através de sua direção, deveria tolerar o desuso do paletó, para aqueles que viajam engravatados, nos dias de muito calor. Seria u’a medida plausível e não significaria a incoerência tão flagrante que vem sendo adotada e que acima referimos.

Essa incoerência atinge um plano mais alto ainda: Enquanto um homem não pode tirar o paletó só porque não viaja com camisa do tipo chamado “esporte”, algumas mulheres podem viajar com vestidos infinitamente decotados, mostrando certas rotundâncias de determinadas partes do corpo, com cavas que mais parecem gigantescas manilhas, costas à mostra, vestidos curtos, daqueles que mostram alguma coisa até nas proximidades do “paralelo 38”, quando sentam e cruzam as pernas!

E isso está certo?

A Paulista deve ater-se a êsse ponto. Nesse particular dos viajadores poderem e não poderem viajar sem paletó, conforme o tipo de camisa que usam, está a existir absoluta falta de aquidade. E como a C. P. prima pelo galhardão de servir bem e com pontualidade (embora cóbre bem por isso!), justo é que a sua alta direção atente para êsse pormenor, que, embora insignificante aparentemente, ostenta alguma coisa de lógico e necessário.

Aqui fica o lembrete, para merecer as atenções que digno fôr, por parte do sr. Jayme Cintra.

Extraído do Correio de Marília de 6 de fevereiro de 1960

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Um problema cruciante (5 de fevereiro de 1960)



Por certo, muitos leitores deverão recordar que no passado, mais do que uma vez, dissemos através desta coluna, que somos partidário de tudo o que diga respeito a escolas, inclusive as escolas de samba.

E somos mesmo.

Sempre que o ensejo se nos dá vasa, gostamos de focalizar alguma coisa com respeito ao problema escolar, no Brasil tão desgraçadamente mal cumprido ou incompleto, deficiente em alguns pontos, espezinhado em outros, mercadejado em outros.

O ensino no Brasil, queiram ou não os mestres e os entendidos e “estudiosos” na questão, continua a ser um autentico “calcanhar de Aquiles”. Continua a ser uma barafunda, um problema insolúvel, difícil, um verdadeiro “bicho de séte cabeças”. Na zona rural, além de deficientes, distantes, mal localizadas, mal distribuídas, as classes dos cursos primários, são incompletas, pois não apresentam nem os quartos e nem os quintos anos. Nas zonas urbanas, mesmo nas grandes cidades e nas grandes Capitais, o vergonhoso problema das faltas de vagas, arrasta-se ano após ano, vergonhosamente, insoluvelmente, para desespero dos pais de família e para a própria desgraça do país.

Neste período de inscrições de alunos, para o curso primário, bem entendido (pois não focalizamos aqui o estudo intermediário), estamos vendo a repetição dos mesmos fatos passados, acrescidos do natural índice elevatório, sem que os governos tenham conseguido encontrar uma solução, apesar de que esta mesma solução é, sobre todos os modos, realmente facílima.

Citemos, por exemplo, apenas o caso de São Paulo, a Capital do Estado líder da Federação. Para ilustração do cruciante problema, tão somente, onde, no ano de 1959, cêrca de 60 mil crianças, em idades compreendidas entre 7 e 12 anos ficaram sem matriculas nos diversos cursos primários na Capital. Essa estrondosa cifra deverá ter aumentado no ano em curso, especialmente nos dias presentes.

No ano passado, existiam no Brasil (notem bem, no Brasil!) 168.376 classes primárias, de conformidade com o que asseverava o Anuário Estatístico. Tal número de classes acolheram 5 milhões e 700 mil estudantes, enquanto o número exato de crianças em condições de estudos, foi, conforme as estatísticas, de 9 milhões. Assim, cêrca de 3 milhões e 300 mil crianças não puderam iniciar ou prosseguir seus estudos no Brasil, no ano passado, por falta de classes! Esse número é lógico, deve ter crescido bastante no ano em curso.

Por aí, verificarão os leitores, que o problema é grave, gravíssimo, que desafia a argúcia, a capacidade, as intenções e as promessas politicas de diversos candidatos nas épocas pré-eleitorais.

Isso nos ocorreu exatamente na circunstancia atual, em que Marília, face a interdição do 2º Grupo Escolar, terá que deslocar seus alunos para outros pontos. Fácil a solução, não é verdade?

Extraído do Correio de Marília de 5 de fevereiro de 1960