terça-feira, 14 de junho de 2016

A nova sinalização do trânsito (14 de junho de 1983)


Delegado de Trânsito e presidente da Comissão Municipal de dito Trânsito deu roupagem nova à sinalização oficial em toda a cidade, especialmente no centro urbano. Motorista que não tenha obtido carteira por telefone e que tem por obrigação conhecer os sinais oficiais consubstanciados no Código específico, não tem nenhuma razão para ser infrator. Basta observar e obedecer a sinalização. Só isso.

Todavia, convém o motorista fazer os sinais convencionais e compulsórios de conversões. Em palavras outras, ligas as setas direcionais, para orientar os semelhantes. Nada custa, não quebra osso e demonstra que no volante de um veículo existe uma criatura consciente e conscientizada, que respeita a Lei e, sobretudo, detentora daquilo que se chama comezinhamente “educação”.

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O Fundo Mundial de Vida Selvagem está dando divulgação a um relatório, informando sobre a realização que discutiu medidas de proteção às baleias. A convenção, de fundo internacional, realizou-se em Botsuana – que nem sei onde fica.

A informação dá ciência de que o Brasil se opôs à adoção de tais medidas (de proteção aos cetáceos).

Se procedente a notícia, vai cair a máscara brasileira de que nos interessamos pela proteção da Natureza.

A mesma fonte ainda dá conta de que, por ocasião da convenção levada a efeito em Gland, na Suíça, o Brasil votou favoravelmente pela continuidade indiscriminada de eliminação das baleias!

Talvez ai esteja a coincidência de que o pantanal mato-grossense já se transformou num vasto cemitério da nossa fauna.

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Não é porque eu seja de pouca escolaridade e até meio analfabeto, em comparação com a alta capacidade de manuseio de números e cifras, como é o caso do Sr. Antônio Delfin Netto. Também não é por inveja, não.

Acontece que o Ministro Delfin criou para ele mesmo um enclausuramento de egocêntrica sapiência. Como titular de um Ministério e como “veterano” de quase todos os demais – exceto os da área militar – pelos quais já passou ele, deve considerar-se um craque de seleção: seleção de Ministérios.

Na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos, no Japão e em outras nações desenvolvidas, Delfin Netto tem botado falação técnica e citado números em profusão. Isso lhe tem dado um ibope fenomenal e o tem postulado como um dos mais eficientes técnicos de economia de todo o mundo.

Sabido como é, tem falado em números e teorias e jamais revelado a situação real da dificuldade angustiante do meio de vida da maioria da população brasileira.

Dia deste, seo Delfin criticou os economistas brasileiros e os chamou de ‘gaiatos’, quando estes passaram a reclamar estímulos ao desenvolvimento do mercado interno. Esclareceu, na sua linha teórica: “O mercado interno tem que vir depois. Se  dermos a ele as mesmas condições e benefícios de que desfrutam as exportações, provocaremos um verdadeiro desastre na balança de pagamentos”.

Eu não tenho condições de discutir ou contestar. Mas que ele puxou o umbigo de muitas vovozinhas, isso puxou. Inda bem que eu sou o obscuro Zé Arnaldo e não sou nenhum Severo Gomes, nenhum Celso Furtado, nenhum Pastore, nenhum Galvêas, nenhum Hélio Beltrão e nem também nenhum Teotônio Vilela...


Extraído do Correio de Marília de 14 de junho de 1983

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Cabo do Exército (06 de junho de 1983)

Foram muitos anos. Foi em 1943. Eu me encontrava servindo o Exército. Tinha a graduação de Cabo. Havia um curso geral de Transmissões, que me habilitava ao grau de 2º. Sargento. Executava funções que tais, assim era considerado, mas não havia na ocasião sido ainda promovido, por falta de vaga. O que vale dizer, operava como Sargento e recebia como Cabo.

Fôra designado para ministrar aulas de comunicações radiotelefônicas aos pelotões de transmissões de duas companhias de fuzileiros. No Exército, quem leciona não é professor. É monitor. Eu era monitor.

Era uma segunda-feira. Sol escaldante. Eu havia recebido simplesmente a ordem de ensinar. Nenhum programa, nenhum currículo, nenhum diagrama. Cabia-me, então, aquilatar até que ponto os soldados haviam progredido ou estacionado nos estudos daquela área, para poder ministrar o temário improvisado e a meu bel escolher. Era assim.

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Apresentei-me ao comandante de uma das companhias para a qual eu fora designado. Este encaminhou-me ao Tenente comandante do Pelotão. O oficial apresentou-me à tropa e se mandou, ao saber que minha primeira aula terminaria momentos antes do rancho (almoço).

Inexperiente, com divisas de Cabo, teria que ministrar aulas inclusive ao sub-comandante do Pelotão, que era primeiro Sargento. Procurei não ficar apavorado (no Exército diz-se “afobado”). Pensei um pouco e como não existia sala de aula e sim apenas o pátio ensolarado, tomei a iniciativa que se me pareceu mais acertada.

Determinei aos soldados, todos, que sentassem no chão, formando um círculo ao meu redor. Assim eu ficaria no centro, em pé. Poderia ver a todos e conversar à vontade, com todos os olhares convergindo para mim. Deu resultado, além do esperado, pois eu podia ver diretamente a todos e todos eles eram obrigados a mirar-me diretamente também.

Depois de um bate-papo informal, procurei identificar-me e deixar o pessoal à vontade, consistindo nisso a primeira aula daquela turma, para o ensino “prá valer” nos dias imediatos.

Faltavam alguns minutos para o toque de chamada para o rancho, quando o Tenente comandante do Pelotão se aproximou. Foi informado por mim e pelo sub-comandante e parece que ficou satisfeito – eu não fiquei sabendo se sua satisfação fôra pelo aproveitamento aparente ou pela ‘molesa’ que ele encontrou, deixando sua tropa.

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No rancho, todos entraram em forma (fila), para pegar a bóia e procuravam acomodar-se no chão, sentados ou de cócoras, para comer. Findo o almoço, o Tenente confidenciou-me:

- Cabo véio (é um termo militar carinhoso), quando vi você em pé, toda a soldadaiada sentada em seu redor, não resisti ao pensamento de ter visto um pagé na roda... (riu).

Ri, sem graça, mesmo porque o inferior sempre ri de qualquer piada do superior.

Respondi:

- Certo, meu Tenente... eu era de fato um pagé... mas estava pregando, estava ensinando e ninguém me contestava, nem mesmo aqueles que poderiam não botar fé no que eu dizia... porque eu era a única autoridade com credencial e capacidade para dominar a todos...
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Lembrei desse fato por causa da televisão. Vi a tevê mostrando o Ministro Delfim. E ele falou. Então lembrei do caso citado. Hoje o Delfim é o Cabo monitor e a soldadaiada toda, que ouve sem entender e sem contestar, somos nós, é o zé povinho...

Extraído do Correio de Marília de 06 de junho de 1983