segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Liberdade para Prestes (30 de novembro de 1957)

Sem atinar verdadeiramente com os motivos, porém acreditando em boas intenções, aquí estamos para atender uma solicitação que nos foi formulada, escrevendo algumas linhas acerca da propalada luta óra em vigência, objetivando a liberdade do Sr. Luiz Carlos Prestes.

Em primeiro lugar, consideramos o lider comunista como um mau brasileiro (embora nada tenhamos contra ele e nos sintamos no dever de respeitar seus pontos de vista doutrinários). Consideramo-lo mau brasileiro e não podemos perdoá-lo, por mais humanos que sejamos, uma vez que ainda está viva em nossa lembrança a sua afirmativa de que lutaria o meso contra a Pátria, caso o Brasil viesse a guerrear contra a Rússia!

Existe mandato de prisão preventiva contra o mesmo e no entanto, gente de responsabilidade, que se fantasia de defensora do povo, pactua com o ato, desprestigiando a própria Justiça e tentando a liberdade do citado cidadão.

Propugnar pela liberdade de Carlos Prestes, é um direito que assiste a qualquer um, gesto merecedor de respeito. O que não se compreende (nós, pelo menos, não entendemos), é que se lute por éssa liberdade antes do sr. Carlos Prestes solver suas dívidas com a própria Justiça, defendendo ou justificando seus erros e excessos, cuja defesa lhe é assegurada pela própria Constituição.

O desenrolar dos acontecimentos, nos dão o direito de fazer mau juizo do atual Govêrno. Nos dão o direito em pensar na existencia de interesses escusos, uma vez que não compreendemos a inércia governamental a respeito e não conseguimos tambem entender como alguns pseudos representantes do povo, ao invés de defenderem aquele que é mandatário de uma ordem de prisão preventiva pelos meios legais e em Juizo, tentam uma defesa marginal, em desprezo flagrante aos próprios preceitos constitucionais e penais.

A liberdade (condicional ou não) do Sr. Carlos Prestes, pelos meios pretendidos, sem o atendimento ao curso dos processos existentes, traduz, de qualquer módo, um “pulo” fantástico às próprias leis do país, um “amolecimento” ou “engavetamento” ilegal do curso e da vigência dos processos-crimes óra existentes.

Estamos com o Sr. Carlos Prestes, em lutar pela sua defesa e não estamos com aqueles que tentam defende-lo, em virtude exclusivamente pelos meios que estão sendo utilizados.

Apenas isso pensamos sobre o assunto, atendendo assim ao convite que nos foi endereçado para que acerca da questão emitíssemos nosso fraco ponto de vista em torno da questão.

Extraído do Correio de Marília de 30 de novembro de 1957

sábado, 28 de novembro de 2009

Liberdade e violência (28 de novembro de 1957)

Não faz muito tempo, um famoso jornalista francês que visitou nosso país, teve a oportunidade de manifestar-se verdadeiramente abismado com a destemoridade da imprensa brasileira. “A imprensa do Brasil é a mais destemida e violenta do mundo” – declarou o citado profissional de imprensa, por sinal um nome de capacidade e projeção internacional.

Para nós, habituados já ao atual “modus vivendu” da imprensa nacional, a afirmativa em apreço deu-nos um pouco que pensar. Isto, porque, em nosso modo de ver as coisas, analisando os fatos sob o prisma de imparcialidade, neutralidade e independencia – bandeira norteadora da boa imprensa nacional – habituamo-nos a encarar a decorrência natural da vida de nossa imprensa, como perfeitamente normal e idêntica à de todo o mundo. Pelas declarações do diretor do “Paris Match”, no entanto, pudemos perceber que nem toda a imprensa nacional é aquilo que se póde e deve considerar como “boa imprensa”.

Ainda ontem (27/11/1957), um amigo nos exibia duas revistas da atualidade: “Maquis” e “Confidencial”. Numa vista d’olhos que passamos sobre algumas páginas dos citados órgãos, deparamos com algumas reportagens de arrepiar os cabelos!

Ao termos conhecimento dos citados escritos, nos ocorreu então a lembrança da afirmativa do diretor do “Paris Match” – “a imprensa do Brasil é a mais violenta do mundo”. Positivamente o é. Não toda, mas de módo geral. Conta-nos a própria história, uma infinidade de acontecimentos infaustos e mesmo crimes de morte, como consequência de determinadas publicações. Volta e meia dão entrada nas varas judiciais de diversas comarcas do país, pedidos de processamento de pessoas ou jornalistas, em virtude de conceitos emitidos e julgados injuriosos pela parte ofendida.

Não vai aquí (n)esta modesta crônica, nenhuma apreciação aos artigos citados e publicados em “Marquis” e “Confidencial”. Apenas, relembrando os conceitos emitidos pelo jornalista gaulês, ficamos com “a pulga atrás da orelha” – as assertivas do diretor do “Paris Match” pódem, até certo ponto, ser interpretadas como “desorganização”, para determinados órgãos de nossa imprensa. Tal pensamos, porque não podemos compreender o vocábulo “violência”, como adjetivo qualificativo numa verdadeira folha de informação pública.

Parece que o diretor do “Paris Match” tem alguma razão.

Extraído do Correio de Marília de 28 de novembro de 1957

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Título Eleitoral (26 de novembro de 1957)

No próximo dia 31 de dezembro (de 1957) (e)xpirará o prazo de validade dos títulos de eleitor, presentemente chamados “antigos”. Depois dessa data, nenhum brasileiro maior de 18 anos estará em condições de requerer a expedição de qualquer documento ou exercer atividade dependente de apresentação de papéis necessários e oficiais, sem a posse do novo título eleitoral.

Por todos os meios possíveis, as autoridades eleitorais estão de há muito divulgando essa necessidade. Conforme escrevemos há alguns dias passados, parece-nos que o interêsse (e obrigação) geral está se apresentando um tanto “fria”, ou, mais precisamente, não correspondendo aos prognósticos inicialmente elaborados. Conforme dissemos, é bastante estranhável a atitude de grande parte dos nacionais, em não se interessar de pronto pela solvição dêsse compromisso de brasilidade.

A obtenção de carteiras profissionais, a inscrição em concursos para cargos públicos, etc., etc., será inviável e impraticável para qualquer cidadão em idade regulamentar, que descurar-se dêsse dever. Aos funcionários públicos, federais, estaduais, autárquicos ou municipais, inclusive os inativos, não serão pagos os vencimentos correspondentes, sem a apresentação do novo título eleitoral, a partir do próximo mês de janeiro (de 1958). O título é (indispensável) ainda para os interessados na obtenção de empréstimos hipotecários ou sob consignação em folha, através de caixas econômicas, institutos de providência ou caixas de aposentadoria, bem como para qualquer ato que o preceito legal exija quitação do serviço militar ou do imposto de renda.

Muita gente, no entanto, está dando pouca importância ao caso. Ignorância deve ser o fator principal dêsse estado de coisas, apesar de que a divulgação dessa carência tem sido feita a contento, em tôdas as partes do Brasil e por todos os meios possíveis.

Após o prazo fatal, estarão passíveis de multas, os infratores da lei eleitoral. Os que não trocaram o título antigo ou não se alistaram estando na idade exigida por lei, sofrerão, é óbvio, as consequências previstas pela lei, sem motivos para queixas.

Dessas exigências, só os brasileiros maiores de 70 anos, os inválidos, os estrangeiros, os nacionais residentes fóra do país e as mulheres que não trabalhem fóra de suas casas é que estão isentos.

Todos aqueles que ainda não solveram êsse compromisso e que não regularizaram suas situações a respeito, devem, sem demora, procurar o Cartório Eleitoral local, que funciona junto ao Forum da Comarca.

Extraído do Correio de Marília de 26 de novembro de 1957

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ruas, passeios e buracos (23 de novembro de 1957)

Sem nenhum negar, o atual Prefeito Municipal é um administrador de grandes realizações. A construção do Paço Municipal, por si só, recomenda seu govêrno, como um administrador dinâmico e bastante trabalhador. O prolongamento da rede de água e esgoto, a extensão da rede de iluminação, o aumento do calçamento da cidade e os planos de asfaltamento, são, sem sombra de dúvida, elogiáveis atividades do sr. Argolo Ferrão.

Sucede, conforme dissemos em outras ocasiões, que os problemas municipais são complexos variados e diversos. Ao par das grandes realizações, mistér é que se olhe também para pequenas questões, aparentemente fúteis. Os buracos de determinadas ruas, o desnível do calçamento em inúmeros pontos da cidade e os buracos dos passeios públicos, são também assuntos que devem merecer atenções da administração municipal.

Muitas reclamações nos chegam ao conhecimento, acerca de buracos nas ruas da cidade. Ponderamos aos reclamantes, que problemas de maior monta estão ocupando as atenções do Prefeito e que assuntos de pequena importância serão resolvidos em tempo oportuno. Isso temos feito, não em defesa do sr. Prefeito, mas unicamente em consonância com nosso espírito de compreensão. Um cidadão, no entanto, nos desarmou, numa ocasião em que lançamos mão dessa argumentação. Disse-nos que o Prefeito não iria mesmo ter a obrigação de, pessoalmente, estar correndo ruas da cidade, para verificar onde existem buracos, onde a rede de esgoto foi ligada e a terra não foi aplainada, onde os passeios (principalmente os de “petit-pavè”) estão em estado miserável, etc.. Para isso – justificou a pessoa em questão – a Prefeitura dispõe de órgãos auxiliares especializados, com pessoal próprio e responsáveis também.

Refletimos sôbre a argumentação em tela e achamo-lá razoável. De fato, muitas coisas dêsse porte, aparentemente insignificantes, poderiam merecer melhor atenção da Prefeitura, através dos departamentos responsáveis.

As ruas onde não existem calçamento, esgoto ou mesmo guias de sarjeta, apresentam estados contraditórios ao próprio progresso e importância de Marília. Quarteirões há em que pequenos trechos apresentam paralisado o progresso em virtude da falta de conclusão de poucos metros de rede de esgoto.

O pior, no entanto, diz respeito aos passeios esburacados. Em pleno centro da cidade, estamos percebendo trechos que dificultam o próprio trânsito pedestre, tal o abandono em que se encontram certos “pedaços” de passeios. O chamado “petit-pavè”, por exemplo, empregado em maioria nesses serviços, apresenta o inconveniente de desfazer-se facilmente, desde que uma única pedrinha seja deslocada de seu devido lugar. Em pouco, aquela pedrinha dará lugar a uma verdadeira “cratera”, que fica indefinitivamente irreparável, não sabemos se parte de providências da Prefeitura ou por descuido dos proprietários responsáveis pelos imóveis enquadrados nesse caso.

Urgem remendos em diversos passeios da cidade. Para sermos francos, em quase tôdas as ruas ou em tôdas as ruas de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 23 de novembro de 1957

domingo, 22 de novembro de 2009

Voto de analfabetos (22 de novembro de 1957)

Continua em discussão o problema atualmente em foco na Câmara Alta, acerca da instituição do direito de votos para os analfabetos.

As opiniões são diversas. Ainda não se conseguiu apurar u’a maioria esmagadora pró ou contra a questão. Os pareceres daquêles que têm sôbre os ombros a missão de solucionar tão grave questão, divergem entre si, mas nenhuma parte conseguiu, de modo positivo e cabal, subjugar a parte contrária.

Entendemos, nós, que a instituição do direito de voto aos analfabetos representa uma verdadeira imprudência política. Reconhecemos nos brasileiros em geral, iguais direitos, menos êste. É verdade que estamos num regime democrático e que numa democracia não há lugar para distinção de preferências políticas, não se justificando o afastamento dessa órbita dos que não sabem ler e escrever. Mas também é verdade que o colegiado eleitoral brasileiro ainda está bastante “verde”, crú mesmo. Se estamos nessas condições, ao entendermos êsses direitos aos analfabetos, estaríamos, ao invés de aprimorar isso que poderia ser chamado de “educação eleitoral”, estaríamos contribuindo para o desvirtuamento (já existente) do sagrado voto livre. Estaríamos, por outro lado, contribuindo para a consignação em massa de votos ingênuos ou mal intencionados a elementos confusionistas e indignos de bem representar-nos. Se já apresentamos êsse fenômeno, que é sem dúvida alguma uma decorrência natural da pouca burilada “educação eleitoral” que presentemente usufruimos, motivada por um lado pela má fé de certos candidatos embusteiros e advogados de causa própria e por outro pela boa fé e pouca compreensão do atual eleitorado, a situação seria mil vezes pior e mais degradante.

Não vemos nenhum desprezo ou indiferença de nossa parte, em sermos contrário ao direito de votos dos analfabetos. Acontece que se nos parece contraproducente tal instituição e pensamos que todos aqueles que têm um pouco de senso estão conosco.

Aqui em Marília mesmo, os analfabetos tiveram direito ao voto, estamos certos e até apostaremos que muitos analfabetos serão conduzidos no próximo pleito eleitoral a poltronas na Câmara Municipal, na Assembléia e mesmo no Palácio Tiradentes. Reflitam os leitores sôbre o assunto, que não encerra nenhum absurdo como possa à primeira vista parecer.

Nosso ponto de vista afirma-se ainda mais, em virtude de que no Brasil, qualquer cidadão que sabe “rabiscar” o nome é considerado alfabetizado!

Extraído do Correio de Marília de 22 de novembro de 1957

sábado, 21 de novembro de 2009

Porteiras da paulista (21 de novembro de 1957)

Voltou-se a agitar a questão da necessidade de encontrar-se uma solução cabal e correspondente, para o problema verdadeiramente calamitoso que representa para Marília as “célebres” porteiras da Cia. Paulista.

Há longos anos êste jornal vem focalizando (o) fato, tendo provocado, inclusive, entendimento de autoridades municipais e associações de classe com os altos dirigentes da grande empresa ferroviária. O problema, no entanto, permaneceu insolúvel.

Recordamo-nos que no passado, sugerimos entendimentos diretor do sr. Prefeito Municipal (ainda antes do atual período de redemocratização nacional) com a direção da Paulista. Tais entendimentos foram levados a cabo, mas as providências até hoje não surgiram.

O dr. Jaime Cintra, já recebeu por diversas vezes emissários da cidade, que expuseram pormenorizadamente ao ilustre diretor da Paulista, os problemas e a necessidade de sua solução. S. S. não ignora, portanto, a urgência do fato, e, apesar das boas intenções anteriormente demonstradas a respeito, as providências continuam na estaca zero.

A Câmara Municipal, por sua legislatura atual e passada, já procurou contornar a situação por mais de uma vez. Os entraves são tão numerosos e tantos, que parece que a solução do problema demandará providências elevadíssimas, custosas e difíceis. Entretanto, parece-nos que melhor boa vontade da Paulista, essa empresa que tão bem serve (e tão bem cobra), poderá resolver em definitivo o problema.

Aguarda-se agora novo colóquio de marilienses com o dr. Jaime Cintra. As exposições que serão levadas ao conhecimento do ilustre dirigente ferroviário, nada mais serão do que a repetição de assuntos já conhecidíssimos de S. S.. Portanto, é de esperar-se alguma providência, alguma solução, alguma promessa, enfim, porque uma promessa do grande dirigente da Paulista, por certo será um compromisso solvível.

O progresso mariliense, verdade se diga, como se já não contasse com alguns motivos contrários à sua vertigem ascensional, depara com as porteiras da Cia Paulista, especialmente as das Ruas Paraná e 9 de Julho, uma barreira incrível.

Urge que a direção da Paulista, que tanto prestigio recebe do público mariliense, que tanto orgulha o povo que serve, se digne também a dispender u’a melhor atenção as reivindicações de nosso povo e nossa cidade, com respeito ao tormentoso e antigo problema de suas clássicas porteiras.

Extraído do Correio de Marília de 21 de novembro de 1957

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Mercado Municipal (20 de novembro de 1957)

Há muito tivemos a preocupação de escrever alguma coisa acerca da necessidade de remodelação total do atual Mercado Municipal de Marília. Ainda no govêrno do sr. Adorcino de Oliveira Lírio, martelamos o assunto por diversas vezes. Mais tarde, com a posse do sr. Argolo Ferrão, voltamos ao assunto, que fô(r)a anteriormente focalizado, quer na administração do sr. Neves Camargo e Adhemar de Toledo.

Agora, na última sessão da edilidade mariliense, o vereador dr. Fernando Mauro voltou a agitar a questão, dizendo em plenário da carência de Marília em face (da situa)ção total do atual Mercado.

Tem razão o edil pedecista, como também nós há muito tempo. O prédio do obsoleto Mercado Municipal, de há muito deixou de acompanhar o progresso e as necessidades marilienses. Tornou-se pequeno, acanhado, insuficiente para atender as suas reais finalidades. Até as condições da moderna higiene não encontram cabal acomodação dentro dêsse próprio, uma vez que a sua construção passou a figurar no ról das coisas antigas.

Um Mercado Municipal e não um jardim, conforme afirmam alguns, deve ser o cartão de visitas de uma cidade. E nós temos em mente o fato de que será das piores a impressão dos forasteiros que visitam Marília e conhecem o acanhado Mercado Municipal, incompleto e insuficiente para as atuais necessidades de Marília. Juntamente com os problemas da água, luz e esgôto, a construção de mercados municipais modêlos está sendo uma preocupação de todos os prefeitos dos grandes centros do interior. Marília não poderá, certamente, ficar indiferente ao fato em tela, maximé tendo a questão merecido anteriormente atenções e estudos, que, segundo nos consta, não puderam ser levados avante, por motivos vários.

Temos a impressão de que se os descobridores de Marília e seus primeiros administradores tivessem previsto o surpreendente progresso da cidade, o atual Mercado Municipal jamais teria sido construido num “pedaço” de quarteirão e sim num quarteirão interior. A reforma ou remodelação do atual, pouco ou nada resolverá, há não ser a aparência visual e as condições de higiene; o espaço vital, que é o primeiro fator da necessidade do novo Mercado, ficará na mesma. Urgem, portanto, estudos a respeito do caso.

O que é certo é que Marília não pode e não deve permanecer indiferente ao assunto referente à necessidade de possuir um Mercado Municipal à altura de seu progresso e de suas exigências.

Extraído do Correio de Marília de 20 de novembro de 1957

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Esporte e amor à Marília (19 de novembro de 1957)

Ainda está servindo de “prato do dia”, o acontecimento esportivo da última sexta-feira. Não a realização da peleja amistosa entre o Vasco da Gama e o Brasil Bandeirantes, propriamente dita, mas sim o rumo que as circunstâncias tomou.

Muitos pormenores e alguns nomes relacionados com o caso em téla são de todos conhecidos.

Existe, todavia, um fato que deve merecer atenções públicas. É o sentimento de zelo e amor à Marília, demonstrado na hora propícia por alguns cidadãos marilienses, muitos dos quais nem poderiam ser considerados esportistas em toda a extensão do vocábulo. Alguns cidadãos, numa demonstração de cuidado pela repercussão desfavorável que surgiria fatalmente em torno do nome de Marília, praticaram uma atitude salvadora, procurando e resolvendo o “impasse” criado pela decorrência de uma irreflexão (sem negar bem intencionada) de uma só pessoa.

O problema foi contornado de módo satisfatório, com a sua responsabilidade pesando sobre os ombros de duas outras pessoas “que nada tinham a ver com o peixe”. Ha quem diga que tais cidadãos fizeram mal e que deveriam ter deixado que “o pau quebrasse sobre os costados” do autor diréto do acontecimento. É um módo errôneo de pensar, uma vez que o reflexo do cometimento, as consequências do fato e a publicidade adversa que surgiriam fatal e inevitavelmente em redor da questão, não iriam destacar um nome ou um clube de futebol, mas sim pesar contra os marilienses em geral, suas autoridades em particular e contra o nome de Marília em especial.

Está certo de que ninguem fazer o papel de borracha, apagando os erros alheios. No entanto, existem circunstâncias, que, pelo modo com que se desenrolam, arrastam tambem, como as águas de um rio em enchente, pedras e vegetais que se encontram nas imediações do leito. Isto sucedeu com respeito ao acontecimento esportivo de sexta-feira última, quando, não por se encontrarem nas proximidades do palco desse desenrolar, mas sim por uma questão de amor e zelo ao nome de Marília e do povo mariliense, algumas pessoas deixaram-se ir no roldão, impedindo consequências mais graves e infautas.

Agora, duas pessoas estão arcando com um compromisso inesperado e sobremodo pesado, que contraria frontalmente seus interesses particulares. Fizeram-no movidos exclusivamente em defesa do bom nome da cidade e do povo mariliense e bom seria que o próprio povo reconhecesse as minúcias do que aconteceu, partilhando assim dêsse peso, aliviando um pouco aqueles que tiveram a iniciativa de enfrentar a questão. Seria um tanto ingrato para os próprios marilienses, especialmente para aqueles que pódem, o deixar nêsse sacrifício imprevisto, algumas pessoas. Sugeriríamos, então, por nossa livre iniciativa, que aqueles que sempre demonstraram amor por Marília e seu povo, olvidando o erro de um só cidadão, tivessem a iniciativa de vir estender tambem a mão aos marilienses que óra se encontram suportando esse fardo.

O assunto é digno de ser conhecido em toda a extensão de sua realidade e merecedor da consideração de muita gente. Seria injusto o indiferentismo e a apatia em relação ao caso, permitindo tamanho sacrifício à algumas, quando duas delas transportam sozinhas o maior peso.

Extraído do Correio de Marília de 19 de novembro de 1957

domingo, 15 de novembro de 2009

Miscelânea de Notícias (II) (15 de novembro de 1957)

A primeira “miscelânea” saiu somente “para variar de tempêro”. No entanto, alguns dos nossos amáveis leitores gostaram e pediram bís. Se sinceridade ou brincadeira, não sabemos; assim pois, com nossa costumeira bôa vontade, vamos atender os pedintes. Por isso, ésta “segundona”.

--:--

Comemora-se hoje o 68.o aniversário da proclamação da República. Se o Marechal Deodóro da Fonseca fôra vivo e visse às quantas anda a “sua” República, por certo a “desproclamaria”.

--:--

Dona Conceição da Costa Neves, ex-Conceição Santamaría, uma das integrantes da Comissão de Parlamentares que visitou ha pouco a Rússia, fez uma série de palestras através da Rádio Piratininga de São Paulo. E não disse nenhuma coisa adocicada. Falou “misérias” do regime soviético e do “pêso” da doutrina comunista! Coisas de arrepiar os cabelos!

Agora chegou a vez do deputado Lucioninho, outro integrante da aludida caravana. Vamos aguardar o que o mesmo disser, para, posteriormente, tendo já ouvido “dona” Conceição, formarmos tambem o nosso juizo...

--:--

Por falar na tal de Comissão de Parlamentares brasileiros que esteve na URSS em missão observatório, bom é que se diga que a imprensa paulistana “deu a bronca” porque dentro dessa caravana foram incluidos tambem alguns “paraquedistas”, fantasiados de parlamentares.

--:--

Os marilienses terão na tarde de hoje, o ensejo de ver em ação o Clube de Regatas Vasco da Gama. O grêmio cruzmaltino enfrentará o quadro de Antonio Luiz Fiorelli, o conhecido e “tradicional” “meia cancha”. Oxalá não chova, porque senão, as boas vontades do “Fiori” acarretarão ao mesmo um prejuizo bem grandinho!

--:--

Todos sabem que o Prefeito Argollo Ferrão é um administrador de grandes realizações. Acontece que certos “buraquinhos” que existem nas ruas da cidade tambem merecem atenções da municipalidade.

Determinados trechos de ruas mais parecem queijos suissos – tantos são os buracos.

--:--

Dizem as más linguas, que um eminente mariliense pretende “remover” u’a mulher suspeita, do “bas bond” para uma casa particular em zona residencial, mas não acreditamos.

--:--

Transcorre hoje o aniversário do Conservatório Musical Santa Cecília, estabelecimento de instrução artística notável, um verdadeiro orgulho da cidade. No ensejo deste rápido registro, desejamos apresentar nossas congratulações ao Maestro Sílvio, professor Mário, “dona” Chiquinha e “dona” Oxide, bem como aos demais mestres e alunos do mencionado Conservatório.

--:--

A “carrocinha” da Prefeitura esteve um dia destes dando umas “voltinhas” pela cidade. “Colheita” regular. Não foi melhor, porque muitos cachorros, inclusive “vira latas” (sem nenhum faro de “policial”), andam tão sabidos que quando a “carrocinha” aponta no começo de uma rua eles “se arrancam” para outra direção!

--:--

Prossegue a campanha de saneamento de maus costumes empreendida pelo delegado de polícia adjunto, Dr. Severino. Muita coisa têm “entrado nos eixos” ultimamente. Parabéns, Dr..

--:--

O reverendo Alvaro Simões, colaborador assíduo e eficiente do “Correio”, está empreendendo uma campanha das mais meritórias, visando criar um “Banco de Sangue” para Marília. Parece que nem todos interpretaram bem a nobilíssima intenção dêsse moço, o que é uma pena.

--:--

Se não falharem os prognósticos de nossa observação política, teremos para breve o lançamento de mais dois nomes marilienses para concorrerem ao próximo pleito, como candidatos à deputado estadual! Ótimo.

--:--

As torres da Matriz de Sto. Antônio estão “subindo” vertiginosamente. O padre César arregaçou as mangas e pretende concluir a estrutura da torre central dentro de poucos dias mais. Depois disso, a Prefeitura deverá construir um jardim na praça da mencionada Matriz. Oxalá tal logradouro seja feito nos moldes do Jardim Maria Isabel, isto é, com rapidês e sem muitas delongas.

--:--

As obras do Paço Municipal caminham aceleradamente. Nossos votos para que o presente impulso não arrefeça em nada.

--:--

Está de regresso de sua viagem ao Velho Mundo o Dr. Aniz Badra, Presidente da Câmara Municipal e Presidente da Associação Paulista de Municípios. Enquanto o referido dirigente da APM viajou, registrou-se um movimento de “apronto de cama” do mesmo.

--:--

A tradicional “Revista” deste jornal, habitualmente dada à luz na época do Natal, este ano sofrerá alterações da data de sua divulgação. Será distribuída no dia 4 de Abril, o Dia do Município de Marília.

--:--

Vai ser publicado um romance de nosso companheiro João Jorge. A Livraria José Olympio terá êsse encargo. O “escript” agradou em cheio aos editores e a nova obra estará circulando dentro de poucos meses.

--:--

Breve nos encontraremos novamente neste cantinho. Até lá.

Extraído do Correio de Marília de 15 de novembro de 1957

sábado, 14 de novembro de 2009

Fiscalização de presos (14 de novembro de 1957)

Existem opiniões diversas quanto à reorganização da COMAP mariliense. Os que acreditam na possibilidade do mencionado órgão controlador e fiscalizador de preços ser dirigido por gente capaz e bem intencionada, são de parecer que sua existência e atividades só poderão trazer benefícios públicos. Os que, desanimados e desiludidos com exemplos pretéritos, vêem na vida do citado órgão, apenas a continuidade de uma inércia e uma pusilanimidade “tradicionais”, são, com razões, contrários à sua reestruturação.

Nós somos ainda dos que se enquadram no primeiro pensamento. Entendemos que a COMAP deve ser reorganizada para trabalhar com afinco e dentro dos princípios básicos de suas precípuas finalidades controladoras e fiscalizadoras.

Ultimamente o mariliense tem sido vítima de uma série de explorações das mais descabidas. Todo o mundo “tira a sua casquinha” na primeira oportunidade. Não que estejamos pretendendo baixas absurdas em determinados artigos e gêneros de primeira utilidade ou complementos dos mesmos. Não somos tão ingênuos assim. Apenas aspiramos, razoavelmente, um paradeiro a êsse rosário de explorações que se verifica à miúde. Os preços dos frangos, nesta vizinhança do Natal, já principiaram a pular como cangurús. De 60 a 70 cruzeiros na semana passada, já custam 80 a 90. Nêsse passo, pela data magna da cristandade, uma “penosa” atingirá e provavelmente ultrapassará a casa das 100 “pratas”.

Até as melancias e o milho verde custam os “olhos da cara”. Verdura, ovos, frutas, etc.. Coisas que nem sempre pagam imposto, porque existem determinadas isenções fiscais ou porque se verificam naturais sonegações.

Compreendemos perfeitamente, a situação de algum modesto vendedor, que já adquire na fonte de produção mercadorias por preços assustadores, não lhe cabendo culpa pela alta. O que não entendemos são as explorações de intermediários e que a respeito não se tomem providências cabíveis, contra essa maratona altista, cada vez maior e mais acentuada.

Talvez estejamos errados, nêsse ponto de vista; no entanto, pensamos que se existisse um órgão controlador, que bem se desincumbisse de suas primordiais finalidades fiscalizadoras, a situação tenderia a mudar para melhor.

Não há (como) negar, entretanto, que Marília ostenta plana de realce nesse sentido, mesmo em relação aos centros onde a vida é considerada caríssima.

O fenômeno existe e sua solução ou pelo menos atenuação visível, não é “bicho de sete cabeças”. A condição atual dessa referência é decorrência lógica e indiscutível do atual estado de coisas, motivado pela ausência absoluta (ou descuido) da fiscalização e tabelamento de preços de determinados produtos, necessário ao consumo público.

Essa é a verdade. Irretorquível verdade.

Extraído do Correio de Marília de 14 de novembro de 1957

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Miscelânea de Notícias (13 de novembro de 1957)

Clamava ainda ontem à tarde, determinado cidadão, queixando-se amargamente do tempo em Marília. “Veja você(“), explicava o homem, (“)se póde existir saúde bôa com um clima tão instável. Faz um calor dos diabos e duma hora para outra, o tempo muda, ventando, fazendo frio, chovendo e voltando o calor repentinamente(“).

Em verdade, o tempo tem estado verdadeiramente “camaleonesco” nos últimos dias. Acontece que todo o ser humano é, por si só, insatisfeito. Se chove, reclama. Se venta, reclama. Se faz frio ou calor, reclama tambem.

Reclamar é um mal de todos nós.

Acontece, que poucos minutos depois, deparavamos um outro cidadão, que mostrava-se infinitamente satisfeito com a chuvazinha da tarde e dos últimos dias. Motivo: o homem possue algumas dezenas de alqueires de terras semeadas de algodão.

--:--

Não resta dúvidas de que no próximo ano funcionará a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília.

Trabalhos insanos vem sendo desenvolvidos pelas autoridades municipais e pela Comissão pró instalação dêsse curso oficial de ensino superior.

Entretanto, bom é que não se verifique nenhum descuido nas providências a respeito, porque o tempo, inexorável, caminha velozmente; 1957 vai se escoando com uma rapidês íncrivel e o mês de Março, para início das atividades da Faculdade, já está batendo às portas.

--:--

Decidiu-se o Sr. Governador a amparar um “pracinha” da F.E.B. de nossa cidade. Trata-se de Augusto Gonzaga Moura, o popularíssimo “Donga”, que vai exercer agora o cargo de motorista na Delegacia Regional de Fazenda local.

É uma medida que deveria ter sido pósta em prática ha muito tempo, uma vez que assiste esse direito expresso em lei, para o amparo aos ex-combatentes. Por sinal, a legislação acerca dêsse assunto, entre nós, quer no âmbito federal, quer no estadual, é bastante vasta.

Pessoas de proeminente expressão política de nossa cidade, à cuja frente figurou o nome do Sr. Prefeito Municipal, empenharam-se no pedido de ha muito.

--:--

Com grande rapidês e em perfeita ordem, os vereadores marilienses aprovaram em segunda discussão, na última quinta(-)feira, a proposta orçamentária para 1958. Foi u’a mostra de compreensão e de grande responsabilidade, mais uma vez demonstrada pelos legisladores da cidade.

--:--

Sem decisão definitiva até o momento, a vergonhosa luta de diversos deputados federais, pela prorrogação de mandatos.

A confiança do público, repousa apenas no bom senso da maioria dos parlamentares, que deverá derrubar a citada imoralidade.

--:--

Morreu a cadelinha russa que se encontrava no “Sputnik II”. Alguem declara que o animal foi sacrificado em pról da ciência. Nós pensamos que não e embôra nada entendendo de ciência e muito menos de veículos interplanetários, sabiamos de antemão, por uma lógica intuitiva muito natural, que o fim da “Laika” éra mesmo “esticar as canelas”.

--:--

Choveu azul. Tão azul, que até manchou roupas brancas que se encontravam nos varáis. As informações dão conta disso, segundo a voz do Herón Dominguez, o “Reporter Esso”, da Rádio Nacional.

Se “ésso” não foi piada...

--:--

Os “discos voadores” continuam aparecendo em diversos pontos do mundo. Em Amparo, segundo nosso companheiro João Jorge, que de lá regressou ontem, os “discos” são vistos por todo o mundo e quasi toda hora.

Será que nós não teremos tambem êsse privilégio?

--:--

A respeito dos pedidos que temos recebido de vários marilienses, para que continuamos a alertar o eleitorado local, acerca de que possamos eleger um deputado por Marília, limitamos a responder como o “Jeca Tatu” do Monteiro Lobota: “Não paga a pena”.

--:--

Após o pleito vindouro e depois de conhecermos o resultado das eleições, voltaremos ao assunto. Isto é, se não conseguirmos eleger ninguém.

--:--

Assim como a cachaça, que é combatida por uns e apreciada por outros, a COMAP parece que está fazendo falta. Está existindo muita exploração por aí, com referência aos preços. Quem duvidar, que se dê ao cuidado de observar.

--:--

Estávamos quasi sem assunto para a crônica de hoje. Sem assunto propriamente, não, porque cada tópico désta “salada” daria uma crônica completa. Acontece que preferimos variar hoje e “matar diversos coelhos com uma só cajadada”.

Extraído do Correio de Marília de 13 de novembro de 1957

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Parques Infantis (12 de novembro de 1957)

Na votação da proposta orçamentária municipal para 1958, aprovou a edilidade mariliense uma oportuníssima emenda de autoria do reverendo Álvaro Simões. A reconsignação de uma verba de um milhão de cruzeiros, destinada a construção de Parques Infantís em nossa cidade.

Como sabem todos, Marília possui um único Parque Infantil – diga-se de passagem, moderno e bem aparelhado. No entanto, insuficiente para atender as necessidades locais e difícil para muita gente interessada, uma vez que a densidade demográfica da “urbe” está de há muito a exigir novas localizações dêsse melhoramento imprescindível, em outros pontos da cidade.

Os parques infantis, hoje em dia, não são privilégios de filhos de ricos, como possa alguém assim pensar. Nesses recantos, tantos filhos de ricos como de pobres, pretos ou brancos, encontram um ambiente sadio e alegre, uma vida ao ar livre, a prática de esportes e a leitura de bons livros, ao lado de brinquedos adequados e uma alimentação suplementar sadia e bem dosada em calorias e vitaminas. As crianças aprendem a camaradagem entre sí, a respeitar as professôras e o contacto com gente estranha, o que não acontece com aqueles criados dentro de casa. Arejam as mentes e distraem o corpo, através de uma série de brinquedos próprios e seguros, sempre supervisionados pelas mestras atenciosas e orientadoras.

Aquêle que se der ao trabalho de passar algumas horas no atual Parque Infantil, poderá constatar o que estamos afirmando e sentirá, logicamente, uma satisfação agradecida o ter Marília um recanto dêsse porte, para folguedos necessários da petizada mariliense.

Nossas congratulações com o autor da mencionada emenda e com a edilidade em geral, pela compreensão demonstrada na votação da mesma. Isso prova que os legisladores marilienses compreendem perfeitamente a situação das crianças de hoje – os homens de amanhã –, voltando para o mundo infantil, tambem suas carinhosas providências.

Da formação e educação das mentes infantis dependem o brilho das ações dos homens do futuro.

Marília, como já dissemos, precisa de mais parques infantis. Em diversos pontos da cidade, para favorecer as crianças de variadas zonas residenciais.

A verba de um milhão de cruzeiros, no entanto, poderá ser insatisfatória, se tiver a municipalidade que adquirir terrenos para a construção de novos empreendimentos como o referido. Bom seria que alguns marilienses proprietários de grandes áreas da cidade, doassem ao município, para êsses fins, glebas próprias. Aliás, já temos um exemplo dêsse porte, executado pelo Comendador Dr. Cristiano Altenfelder Silva, o “Cidadão Mariliense de 1956”, uma vez que S. S. já doou um quarteirão de sua propriedade, na Vila Palmital.

Bauru, ao que nos consta, possui nada mais nada menos do que meia dúzia dêsses recantos, a maioria construida sob a atual administração da “cidade sem limites”. É um exemplo elogiável, sem dúvida.

O primeiro passo foi dado, graças a iniciativa do reverendo Álvaro Simões, com o apoio integral da totalidade da Câmara Municipal. Esperemos a possibilidade de uma colaboração particular tambem. As crianças marilienses merecem essa deferência.

Extraído do Correio de Marília de 12 de novembro de 1957

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um passado no presente (9 de novembro de 1957)

Curioso, como algum fato passado, enterrado nas gavetas do esquecimento normal, possa transportar uma pessoa a recordações pretéritas das mais vivas!

Assistimos na última quinta-feira, no Cine São Luiz, como “aperitivo” do estupendo filme de James Mason intitulado “Delírio da Loucura”, um interessante “short” colorido. A curta metragem referida, colocou em evidencia determinadas telas elaboradas por um artista do século XVII na Itália, cuja memória e arte hoje são consagradas em todo o mundo. Apresentou aquilo que se poderia chamar de uma história, um acontecimento natural numa vida: o retorno de um ex-combatente à legendária Itália, com o espírito de observar no presente, aquilo que êle vira por acaso no passado, numa época de guerra na qual participava.

O homem principal, que apareceu como soldado adentrando o local em apreço, retornou, conforme nos mostrou o filme, alguns anos depois, como um apreciador das artes do pincél.

Assistimos o filme e não conseguimos evitar a vibração de nossa lembrança, que, à revelia, nos transportou também para o ido ano de 1945, quando estivemos no mesmo local e apreciamos aquela maravilhosa coleção de pinturas célebres e famosas. A focalização da objetiva cinematográfica nos trouxe a certeza de uma filmagem “in loco”, sem qualquer artimanha ou “montagem”. Diversos ângulos da cidade, o famoso Rio Arno, as ruas apertadas e tradicionalmente européias, nos acarretaram uma saudade indiscritível. Chama-se Palácio Pitti o local focalizado, embora Ramos Gadelha, o narrador da película tivesse omitido o nome.

As recordações nos foram mais acentuadas e indeléveis, porque ali entramos por acaso, “fazendo hora” que estávamos, com dois dias de folga na retaguarda, instalados no “American Rest Camp” em Florença. Leigos que somos em matéria de pintura, não conseguimos apreciar artisticamente o valor da fenomenal coleção de quadros ali existente. No entanto, dentro de nossas observações apenas normais, ficamos verdadeiramente maravilhados com tudo aquilo que vimos e a lembrança da visita ao Palácio Pitti permaneceu conosco por muito tempo. Isto porque em matéria de arte, duas coisas sempre nos calaram mais profundamente na Itália: O Palácio Pitti com suas telas magistrais e a beleza do Cemitério de Gênova, o famoso “Campo Santo di Staglieno”.

Sentimo-nos, confessamos, como uma criança que se alça nas asas da fantasia, imaginando coisas impossíveis e irreais. Voltamos ao passado e enquanto o foco projetava na “panorâmica” as imagens daquelas maravilhas tôdas, recordávamos o nosso andar desajeitado dentro daquêle recinto maravilhoso, arrastando os pesados galochoes com barro e neve, boquiabertos ante tanta beleza artística. Lembramo-nos das explicações do “guida” (guia) do Palácio, atenciosas e precisas, tão minuciosas que nos confundiam. Recordamo-nos das exclamações de espanto de uma primeiro tenente enfermeira americana que tentava incutir-nos em nossa mente caipira, a apreciação dos ângulos das pinturas, explicando-nos nu’a mistura sofrível de inglês e italiano as partes técnicas da arte e os motivos primordiais de apreciações. Lembramo-nos ainda da inevitável admiração que externamos, ao sabermos dos preços em dólares de diversos daquêles quadros, embora os mesmos não fossem negociáveis.

Durante alguns minutos, ante-ontem (7/11/1957), no Cine São Luiz, vivemos um pouco do passado em pleno presente.

Há algum tempo atrás, conversando com o pintor Brás Alécio, fizemos menção ao Palácio Pitti e à sua maravilhosa coleção, tentando descrever com nossa fraca lembrança, tôda aquela beleza. Se Brás Alécio assistiu o filme referido, deve ter melhor compreendido aquela nossa conversação.

Por isso, repetimos aqui aquilo que dissemos na ocasião ao Brás: Ou porque somos caipiras, ou porque vimos naquela oportunidade tantas obras de arte, até hoje não conseguimos compreender isso que se chama “arte moderna”, que, para nós, sinceramente, significa uma verdadeira estupidez dentro da nobre e difícil arte da pintura.

Extraído do Correio de Marília de 9 de novembro de 1957

domingo, 8 de novembro de 2009

Prorrogação de Mandatos (8 de novembro de 1957)

A prorrogação de mandatos, óra pretendida por alguns parlamentares, eiva-se, sem sombra de dúvida, de uma verdadeira imoralidade. É um processo que denota temor indisfarçado de alguns deputados, que não souberam cumprir fielmente suas obrigações parlamentares e receiam a inevitável derrota nos próximos pleitos. Um meio, enfim, de continuar mais algum tempo dependurado às grossas tetas do herário público, mercê de um expediente condenável, onde se advoga em causa própria.

Gostaríamos que aquêles que são apologistas dêsse processo de prorrogação de mandatos, realizassem um plebiscito para auscultar a opinião pública a respeito.

Apesar de combatidos, os defensores dessa infeliz idéia tentam argumentar de modo infantil, as “necessidades” da questão, quando nenhuma necessidade existe e apenas conveniências pessoais que beneficiarão uns poucos, em prejuizo de muitos.

Os partidários da prorrogação dos mandatos, são, sem dúvida, os que poucas realizações de destaque conseguiram efetivar; a maioria valeu-se do cargo outorgado pela boa fé do eleitorado brasileiro, para tirar proveito próprio e para desfrutar, ao lado de uma centena de privilégios facultados por lei ou pelas circunstancias do título, aquilo que se chama “imunidades parlamentares”, qualidades desnecessárias para os que agem direito e sabem colocar-se no seu devido lugar, merecendo respeito público, como decorrência de seus próprios atos.

Hoje, como não poderia deixar de ser, as opiniões estão divididas com respeito ao interêsse em tela, da prorrogação de mandatos eletivos.

As ponderações dos favoráveis ao mencionado acontecimento já estão em palpos de aranha para argumentar convincentemente. As “razões” levantadas pelos partidários da imoral iniciativa não convenceram ainda. Os seus propugnadores tentam incutí-las no espírito público, como se fôsse um xarope que se dá às colheradas e sob promessas fantasiosas a uma criança. Acontece que a criança já percebeu o gosto do remédio e insinuações, promessas e mesmo ameaças não estão conseguindo os resultados necessários, uma vez que a recusa pela ingestão da droga está sendo um verdadeiro problema.

Não sabemos ainda o desfecho final dessa infausta luta que alguns parlamentares tão desbriadamente defendem. O que sabemos, é que a totalidade dos brasileiros alimenta muitas esperanças acerca da dignidade e bom senso da maioria dos deputados, esperando que essa maioria saiba, com a mão na razão, derrubar essa idéia imoral.

Extraído do Correio de Marília de 8 de novembro de 1957

sábado, 7 de novembro de 2009

Um Banco de sangue para Marília (7 de novembro de 1957)

Não há (como) negar, que nosso apreciadíssimo colaborador, reverendo Álvaro Simões, ao utilizar-se do espaço diário que prazerosamente lhe é reservado nêste jornal, do mesmo só se tem valido para patrocinar boas causas, em favor direto da coletividade, e, em especial, dos desamparados e necessitados sob qualquer forma.

Como se já não bastassem as inúmeras vitórias conquistadas nessa caminhada, em decorrência de sua brilhante e bem intencionada pena, o incansável cidadão, sempre preocupado com o bem estar comum, olvidando seus próprios interêsses, vem de encetar agora uma das mais nobres e dignas, campanhas – a criação de um Banco de Sangue para Marília.

Já dissemos anteriormente, repetidas vezes, que as intenções desta coluna diária objetivam o destaque de acontecimentos mais importantes da ocasião, relacionados preferencialmente com a cidade ou povo mariliense. Por isso, aqui estamos para colocar no devido relevo, essa elogiável iniciativa do mencionado articulista, paradigma como sempre, encomiosa como outras inúmeras campanhas hoje vitoriosas.

Efetivamente, a idéia, que agora toma corpo e atrai atenções, pela importância que representa, dentro do sentido verdadeiramente humano, deve merecer, como está merecendo, as atenções gerais. O significado da existência de um Banco de Sangue numa cidade, é alguma coisa de majestoso, pela importância representativa que ostenta, em relação com a própria vida humana, principalmente tendo em vista que só se recorre a estoques de plasma e sangue em casos extremos ou delicados, para salvamento de vidas humanas.

Nos conta a experiência médica e as circunstancias mais variadas, que muitas vidas já se perderam, devido a falta, em certas ocasiões, do precioso sangue destinado a alimentar organismos debilitados. Todos sabem, que o sangue é classificado em diversos tipos, os quais nem todos se casam entre si e que a transfusão só é praticável em obediência aos mesmos, isto é, sendo desaconselhável e perigoso a injeção de um tipo de sangue diferente no organismo de quem possui uma qualidade superior. Se tal não fosse, por certo, o problema das transfusões de sangue não significariam as dificuldades e os riscos que apresentam; bastava numa emergência dessas, uma transfusão qualquer e o assunto estaria clinicamente resolvido. Acontece que o selecionamento dos tipos de sangue demandam tempo e as circunstâncias das necessidades dêsse jaez, regra geral não podem esperar. Eis, como finalidade primordial, o desiderato do Banco de Sangue: a existência do estoque de plasma, devidamente classificado e pronto para uso urgente. Outro ponto, também importante, será a sua aplicação gratuita ou quase, aos necessitados e impossibilitados de realizar o pagamento devido. Para isso, devem os marilienses que podem e desejarem, constituírem-se em doadores gratuitos.

Se não houver coesão real e efetiva em torno de uma idéia como essa lançada pelo reverendo Simões, então, poderemos dizer que estamos verdadeiramente perdidos e que o sentimento de humanidade dos marilienses é um mito. Por isso, esperamos que a concretização da iniciativa seja um fato exemplar e digno, dentro de breves dias.

Extraído do Correio de Marília de 7 de novembro de 1957

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Finados que passou (6 de novembro de 1957)

O Dia de Finados, êste ano, parece que apresentou menor afluência pública ao Cemitério Municipal. A não ser que estejamos equivocados, foi menor a porcentagem das visitas ao Campo Santo de Marília êste ano do que nos anteriores.

Em proporção, o grosso do movimento humano verificado nas partes da manhã e da tarde do último sábado, deve ter sido bem menor daqueles movimentos dos últimos anos. Parece que está “caindo da moda” o visitar-se as necrópoles no Dia dos Mortos.

Não pretendemos dizer com isso que registrou-se pouco movimento, mas sim que nos pareceu menor. Nos anos anteriores, principalmente no período da tarde do mencionado dia, o próprio trânsito de pedestres no interior do Cemitério fôra bem mais acentuado, por vezes difícil, não pelo sentido de desorganização do movimento dos visitantes, mas sim pela menor afluência pública. Êste ano, a locomoção de um para outro lado foi relativamente mais fácil, levando-se a crêr o que estamos afirmando.

O trânsito motorizado, pareceu-nos que equiparou-se ao dos anos anteriores, com a vantagem de ter sido melhor e mais eficientemente organizado desta vez. A êsse respeito, justo é que lavramos um voto de louvor à garbosa Guarda Civil, incansável e precisa na orientação dêsse pormenor.

Uma coisa, no entanto, vem se perpetuando a cada ano que passa, no Dia de Finados: A tristeza habitual, necessária e tradicional, vai cedendo lugar, no entender de uma grande maioria, ao pensamento de que o Dia dos Mortos é um dia alegre, festivo. Isso deduzimos, depois de termos verificado algumas ações pouco condizentes com a importância do ato visitatório ao Cemitério, como brincadeiras, risadas (por vezes escandalosas) e um verdadeiro “footing” em algumas avenidas da necrópole.

Vimos em determinado ponto, um grupo de marmanjões, arrotando ares donjuanescos, dizendo “gracinhas” a senhoritas que por ali transitavam. E lamentamos sinceramente que o dr. Severino Duarte não estivesse por perto...

No passado, não muito remoto, as coisas eram diferentes. O Dia de Finados era um dia de compenetração, de respeito, de preces e de tristeza.

Não estamos dizendo que todos os que se locomoveram até a Avenida da Saudade tenham procedido da maneira censurável que estamos referindo. É claro que apenas uma parte, possuidora de mal educados sentimentos, assim agiu. Graças a Deus, apenas uma parte.

Presenciamos casualmente, uma conversa de dois “engraçadinhos” sôbre determinadas “aventuras”. E o faziam em altas vozes, com visíveis intenções de que fossem ouvidas pelas pessoas que se encontravam nas imediações.

Enquanto muitos, contritos e compenetrados da importância do transcurso oravam ou permaneciam ao lado das sepulturas de entes queridos, outros faziam do lugar e da oportunidade uma verdadeira festa, uma autêntica diversão. Isto está errado, embora vivamos num regime democrático. Principalmente quando a liberdade e o direito de um termina exatamente onde começam os direitos do próximos. Vimos, por exemplo, uma senhora protestar contra uma verdadeira corja de desocupados, que promovia algazarras ao lado do local onde a mesma se encontrava, envolta em saudosas recordações e rendendo um tributo de saudade a alguém que lhe fôra caro no passado.

A homenagem aos mortos vai, aos poucos, ganhando um aspecto diferente, revolucionário, festivo. Pelo menos para aquêles que não são fracos de sentimentos ou doentios de compreensão e respeito.

Extraído do Correio de Marília de 6 de novembro de 1957

terça-feira, 3 de novembro de 2009

José Arnaldo (3 de novembro de 1957)

José Arnaldo, nosso colega de trabalhos, que vem colaborando com o “Correio” desde 1944, quando, nos campos de luta da Itália já nos remetia apreciadas crônicas sobre a vida dos “pracinhas” brasileiros, acaba de demitir-se do quadro de locutores da Rádio Dirceu de Marília.

Na citada emissora José Arnaldo exercia as funções de Diretor do Departamento de Reportagens e Titular de Esportes.

José Arnaldo continuará na imprensa mariliense, acumulando as funções de reporter dêste jornal, conforme vem acontecendo ha doze anos.

Extraído do Correio de Marília de 3 de novembro de 1957

Homenagem a um municipalista (3 de novembro de 1957)

No próximo dia 9 de dezembro, serão tributadas sensíveis homenagens póstumas ao grande municipalista que foi Stelio Machado Loureiro.

O municipalista Stelio, um dos precussores da bandeira dos Municípios em todo o Brasil, como todos sabem, foi desditosamente tragado pelas águas do Rio Paraná, nas proximidades do Salto de Urubupugá.

À 9 do mês vindouro, deverão reunir-se no local, prefeitos e vereadores de diversos municípios do Brasil, para render êsse tributo de saudade e homenagem póstuma à memória do saudoso Stelio Machado Loureiro.

Defronte do local do desaparecimento do inditoso municipalista, foi erguida, pelo Prefeito da cidade de Castilho, uma capéla, em cujo local, no dia mencionado será celebrada Missa por intenção da alma daquele grande soldado do municipalismo.

Será u’a homenagem singela, das mais sinceras e reconhecidas. Render um preito de saudade à memória daquele que no passado, deixando em segunda plana as reivindicações das capitais e o conforto do asfalto, para voltar suas vistas aos problemas do interior, focalizando e lutando ardorosamente pelas causas das comunas, é um dever justo dos homens públicos interioranos.

O nome de Stélio Machado Loureiro é hoje uma bandeira, uma força de incentivo para os batalhadores déssa causa, que de um pensamento arrojado no início é hoje uma força viva e patente. Graças aos ideais de homens como Stélio Machado Loureiro, os municípios de hoje em dia estão encontrando seu verdadeiro lugar no conceito das mais diversas e divergentes esferas político-administrativas das capitais. A descentralização, ponto-chave da luta muncipalista, principía já a demonstrar seus verdadeiros frutos e convivências, embora contem todavia com a antecipação de idéias contrárias, que poderiamos tachar de possuidores de carater pejorativo.

Hoje, os homens do interior, principalmente os homens públicos, já possuem melhor identidade quando se acercam dos poderes centrais, tendo facil acesso aos órgãos administrativos e governamentais, onde suas reivindicações e clamores já são ouvidas. No passado, antes da luta municipalista, tais afirmativas éram uma contundente utopia.

Ninguem mais do que nós, os interioranos, é capaz de bem avaliar o trabalho do muncipalismo no Brasil, embora ainda dentro dos propósitos déssa contenda verdadeiramente digna e nobre, possa haver lugar para pequenas explorações demagógicas ou de interesses pessoais e políticos.

Se atentarmos para o lado bom, o lado verdadeiro e intencional da luta municipalista, outra coisa não nos cumpre fazer, a não ser partilhar com carinho e boa vontade, direta ou indiretamente déssa contenda que é, acima de tudo e sob todos os prismas, de exclusivo interesse das comunas brasileiras.

Aí está a razão porque achamos meritória e elogiável a homenagem póstuma que será tributada à memória do saudoso Stélio, no próximo dia 9 de Dezembro.

Marília, que é uma cidade que póde ser chamada “berço do municipalismo”, não poderá permanecer indiferente ao acontecimento mencionado, devendo, por isso mesmo, fazer-se representar ao áto citado, na Ilha Grande, no vindouro 9 de dezembro.

O nome de nossa cidade, mesmo que seja através de um único representante, deverá tambem ser desfraldado junto as bandeiras municipalista dos diversos rincões do Brasil, que, numa única coesão, renderão éssa homenagem póstuma à memória saudosa do grande e intransigente municipalista que foi Stélio Machado Loureiro. Principalmente tendo-se em conta que Stélio Machado Loureiro fôra, no pretérito, agraciado com o título de “Cidadão Mariliense”.

Extraído do Correio de Marília de 3 de novembro de 1957

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Mortos & Vivos (2 de novembro de 1957)

Em nosso artigo de ontem, focalizamos a importância e o significado do dia de hoje – Dia de Finados –, sob o aspecto social e cristão. Dispendemos fracas considerações em torno do transcurso dêste dia dedicado à memória dos Mortos.

O dever de solidariedade cristã, a ninguém deve passar desapercebido. A elevação de uma prece de saudade, em intenção daquêles que foram entes queridos e que hoje repousam sob a terra dos Campos Santos, é dever geral, mesmo para os mais materialistas que possam existir sôbre a face do globo.

O Dia dos Mortos é um dia de respeito, de solidariedade cristã, de preces e meditações. De visita aos túmulos de pessoas queridas e saudosas.

Se tocamos no assunto do respeito aos mortos, oportuno é que falemos nesta oportunidade, alguma coisa acerca daquêles que consideramos mortos-vivos e que são os ex-combatentes da F. E. B.. Não vamos referir-nos aos mortos de Pistóia, mas sim aos “pracinhas” vivos, que hoje se encontram salpicados pelos mais diversos quadrantes do Brasil, em sua maioria desajustados socialmente, neuróticos, reumáticos e enfermos moral e fisicamente.

Estão vivos em sua maioria, mas só vivos aparentemente. Moralmente estão mortos, mercê do descaso de nossos govêrnos, que jamais souberam dispensar-lhes a devida consideração e o necessário readaptamento social e humano, embora tivéssemos nós, exemplos exuberantes dos Estados Unidos, França e Inglaterra.

Existem no Brasil, diversas dezenas de leis e decretos de amparo aos ex-combatentes da F. E. B.. Só no papel. Sem aplicação, regra geral.

O ex-“pracinha” que bate às portas dos govêrnos, é quase sempre recebido com evasivas e desculpas das mais variadas, sem merecer as atenções que lhe deveriam ser tributadas, não só como dever moral, mas tambem como solidariedade patriótica. Desgraçados daqueles que não tiveram um moral mais forte e uma consciência mais acurada, para tratarem-se convinientemente, trabalhar e exercerem, sobre sí próprios, um auto-dominio digno de ser apreciado, retendo em seu fôro mais íntimo, uma convulsão de injustiças e descasos. Esses ainda trabalham, vivem; os outros vegetam , são mortos-vivos, são um exemplo de vergonha para nossas tradições democráticas e sociais.

Os “pracinhas” de hoje, principalmente aqueles que acudiram o apêlo da Pátria e se apresentaram voluntariamente para lutar em defesa dos princípios da Democracia e Liberdade, se não dizem, estão certos de que preferiam arcar com a pecha de covardes ao nome mal empregado e mal reconhecido de “herois”. Muitos tem até vergonha de serem brasileiros e apresentam um mutismo cercado dos mais indesvendável mistério, acerca de suas próprias ações em combate, quando deveriam ter orgulho de comentar feitos heróicos do teatro da guerra.

A Pátria, que nos ensinaram ser Mãe, para os “pracinhas” até aquí tem sido Madrasta!

Neste Dia de Finados, quando todos os corações se amolecem pelas circunstâncias e tradição cristã dos fatos, bom seria que os senhores homens dos govêrnos, pensassem tambem um pouquinho siquer nesses mortos-vivos que são os ex-combatentes da F.E.B., êsses herois anônimos que continuam cada vez mais anônimos, cada vez mais abandonados e cada vez mais desgraçados.

Que apenas se cumprisse a bagagem legislativa existente no país, com respeito ao amparo aos ex-combatentes da F.E.B..

Ou então, que se lavrasse um decreto, com um único artigo, no qual constasse: “As Leis e Decretos de amparo os ex-combatentes são Leis mesmo e como tais, devem ser cumpridas.”

Extraído do Correio de Marília de 2 de novembro de 1957

domingo, 1 de novembro de 2009

O Dia dos Mortos (1º de novembro de 1957)

Como sempre, comemorar-se-á amanhã, 2 de novembro, o dia consagrado aos Mortos. Data de respeito e recolhimento profundo, quando todos, ricos e pobres, pretos e brancos, se irmanam em idêntico sentimento – o de reverenciar a memória daquêles que foram caros em vida e continuam sendo caros em saudade.

Até a Natureza costuma partilhar com a humanidade nêsse dia. Tudo aparenta uma espécie de tristeza, palpável e indelével, forçando mesmo os espíritos mais indiferentes, à meditação e prece.

Os mais puros sentimentos de uma lembrança saudosa, vivida no pretérito por um ente querido, nêsse dia, mais do que nunca, sobem à tona do âmago dos corações, mesmo os mais empedernidos, transbordando torrentemente.

Flores, ciprestes e velas queimando, juntamente com as feições contritas daquêles que sentem a dor da saudade, é o espetáculo comum nos Campos Santos, no dia de amanhã.

Preces são elevadas aos céus, rogando por aquêles que deixaram o mundo dos homens.

Multidões dirigem-se aos Cemitérios, para solver êsse dever de solidariedade cristã, rendendo um tributo de saudade à entes queridos.

Tudo parece triste no Dia de Finados!

Tudo faz comemorar a lembrança de alguma coisa agradável e querida que mais não existe!

Sob diversas formas e crenças religiosas, nenhum sêr humano deixa de render êsse preito de saudade aos Mortos.

Recordar a memória daquêles que nos precederam com o sinal da fé, é uma obrigação preceituada no Evangelho.

Rememorar a lembrança e reviver a imagem dos extintos, impõe-se no Dia de Finados.

As oficinas, os escritórios, o comércio, a indústria e mesmo a lavoura, paralisam suas atividades, em sinal de respeito, de compenetração, pelo transcurso dêsse dia, diferente, elevado, forçando tôda a gente à meditação profunda, em holocausto à uma saudade que é, sob todos os pontos de vista, claramente indisfarçável.

Nessa data, cumpre pois, a todos os cristãos, a elevação do pensamento a Deus, em preces fervorosas em intenção dos Mortos.

Extraído do Correio de Marília de 1º de novembro de 1957