segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A eterna carestia (28 de fevereiro de 1959)

O problema desafia os argutos, os estudiosos, os técnicos, os legisladores, as autoridades e o Govêrno, principalmente o Govêrno.

Ninguém consegue deter a espiral gigantesca da carestia, assunto debatido, discutido e insolúvel, que classifica o Brasil na abjeta condição de um dos países da vida mais cara do mundo.

Não existe orçamento doméstico capaz de suportar as despesas forçadas ordinárias de hoje em dia, isso, sem contar-se com gastos extraordinários e imprevisíveis.

Todos os governantes, todos os legisladores, confessam-se alarmados com a carestia da vida. Nenhum, entretanto, conseguiu demonstrar pulso, apresentando uma ação ou pelo menos uma sugestão que viesse constituir-se num dique para estancar a roubalheira impiedosa que impera descaradamente por êstes brasis afóra.

O poder civil está desmoralizado, fraco, desprestigiado neste setor. O poder militar inativo, sem ação igualmente, nesse sentido. Em consequência, o povo, o pobre e sacrificado povo brasileiro, continua a sofrer com a condição da maior vitima, de “bode expiatório”.

Discursos, decretos, portarias, promessas, provado está, nada resolveram até aqui. A situação, nesse particular, está verdadeiramente caótica. O “moto contínuo” que constitui o círculo vicioso de ordenados e salários em corrida desabalada atrás da alta de custo de vida, frutifica os exemplos mais degradantes para a vida do próprio país.

E não venham chamar-nos de pessimistas, de derrotistas, ou de maus brasileiros!

“O pior cego é aquêle que não quer ver”.

Ensaiou-se o congelamento de preços, que não passou de um embuste deslavado, a ponto de desmoralizar mesmo a autoridade do próprio Govêrno, cujas normais ditadas foram alteradas e realteradas pelos órgãos incumbidos de tabelar e fiscalizar as cotações.

Falou-se em “marcha contra a carestia”. Financistas dispuseram-se a estudas os motivos da anomalia. E o fizeram com os êrros naturais advindos de trabalhos de muitas comissões oficiais. Porque não estudaram como deveriam, as verdadeiras fontes. A alta dos preços, pensamos, não encontra justificativa ou mesmo atenuantes, em relatórios contábeis, onde se consubstanciam as taxas e os impostos, os selos, as folhas de pagamento e os fretes e carretos. Êsses fatores exercem a sua influência, não restam dúvidas. O êrro, a falha, essa está na origem. Acontece que a origem é o próprio sistema governamental, sob aspectos variados e multiformes.

As comissões técnicas de estudos sôbre a atual carestia de vida, preocuparam-se com relatórios e pareceres, com números e cifras. Mas não cuidaram de observar o espiral inicial de certos comerciantes e o movimento em giro, as condições de certos intermediários, a vida de certas indústrias. Não foram ver as casas dessa gente, as fazendas dessa gente e as casas de campo e de “week end” dessa mesma gente!

Agora, leitor, pense você mesmo sôbre o assunto.

Extraído do Correio de Marília de 28 de fevereiro de 1959

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Não é pessimismo, não! (27 de fevereiro de 1959)

Outro dia, reunidos os redatores aqui do jornal, conversávamos sôbre assuntos diversos. A multiplicidade de questões, em comentários assim inesperados, espontâneos, traz sempre alguma coisa de útil, especialmente para quem se preocupa em encontrar um têma que se enquadre na oportunidade, para encher um espaço de jornal.

E foi o que aconteceu dessa nossa palestra “ao pé do fogo”; seguiu-nos um motivo para a croniqueta de hoje.

Falávamos sôbre a atmosfera de pessimismo, reinante em algumas camadas da cidade, dando como estagnada a fase de desenvolvimento de Marília, descrevendo como superada a espiral do vertiginoso progresso mariliense.

E propusemo-nos a pensar sôbre o fato. No pensamento, tentamos u’a análise neutra, fria. E concluimos que a razão existe mesmo, se levarmos em consideração o surto ascensional do dinamismo mariliense verificado nos primeiros vinte dias de existência de nossa “urbe”.

Está claro, Marília diminuiu mesmo um pouco o seu ritmo vertiginoso; e nem poderia ser estranhável o fenômeno, pois se a mesma trajetória inicial continuasse vigente, a cidade já estaria ligada com os municípios de Oriente e Vera Cruz, no mínimo.

Entenderam alguns em afirmar diversas vezes, que o progresso de Marília estagnou positivamente. Não é bem isso, pensamos. Firmou-se um pouco a vida da cidade, assim como a criança que cresce até um certo número de anos e depois principia a encorpar ganhando o aspecto de adulto. Depois, como adulta, a pessoa progride sob diversos aspectos. Êste é o caso de Marília. Temos já os mesmo problemas do adulto – se homem, a barba por fazer, os estudos, o trabalho, as contas, o meio de subsistência; se mulher, a moda, a toalete, a preocupação do casamento, do lar, etc..

Então surgem os problemas inúmeros, diversos daquêles da infância e do crescimento. Estamos assim. Hoje, a nossa preocupação é o setor industrial, em primeira plana. Escolas, graças a Deus, temos em número aceitável e por certo aspectos, completo. Nosso comércio corresponde, nossa sociedade, idem.

Mas da mesma maneira que a pessoa vai se tornando adulta e os problemas vão surgindo modificados, nos encontramos no que tange à ampliação de nosso parque industrial. Por exemplo, a questão da água e da energia elétrica. São fatores que dificultam e encarecem grandes indústrias, porque as origens dêsses pontos, não foram previstas para o comportamento daquilo que a cidade hoje reclama e que todos nós pretendemos. Quem duvidar, pergunte a técnico no assunto, conforme nós perguntamos.

Por outro lado, grandes indústrias não se inclinam muito a estender as suas atividades para centros interioranos muito distantes da Capital. Não poderíamos ter aqui, por exemplo, uma fábrica de automóveis, por diversos motivos: a dificuldade na aquisição de matéria prima (uma vez que nada temos entre nós), o encarecimento da mesma em face ao transporte, etc.. Além disso, um carro que fosse produzido em Marília, ficaria obrigatoriamente mais custoso, eis que seu frete para São Paulo, por exemplo, onde é inegavelmente o centro de irradiação comercial do país, encareceria mais o produto.

Assim, o problema é complexo e sob certa forma, temos que convir que se de um lado Marília apresenta deficiência no seu parque industrial, de outro não podemos ter pretensões muito elevadas.

E, nessas assertivas, não existe nenhum pessimismo.

Extraído do Correio de Marília de 27 de fevereiro de 1959

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Propaganda gratuita? (26 de fevereiro de 1959)

Deu-se o fato não há muito. Seus efeitos repercutiram e o éco perdura até hoje.

Falou-se em Marília, por todos os meios e modos, que a Cervejaria Brahma, ao pretender instalar uma de suas fábricas aquí, fôra afugentada pela para a vizinha cidade de Vera Cruz, em face da exorbitância dos preços dos terrenos cogitados em Marília, para o fim de referência.

Óra, se os marilienses de modo geral e os poderes públicos de maneira especial empenham-se seguidamente e sob todos os aspectos e possibilidades, no sentido de que Marília possa continuar sua marcha elevatória de progresso, justa foi a repercussão do acontecimento. E assim, durante vários dias, só se falou nessa questão, num misto de pessimismo, esperanças esburacadas e certa espécie. Os jornais comentaram o fato, idem as emissoras e também o público. A Câmara tomou partido, discutiu a questão e concluiu pela designação de uma comissão de edís, para estudar o problema, diretamente com os dirigentes da Bhahma.

Por outro lado, os veracruzenses, com justas razões, tornaram-se eufóricos, ao terem ciência da possibilidade da Brahma alí sediar uma de suas cervejarias.

O caso, segundo deduzimos nós, é bem outro. Embora nada tenha de censurável, é digno de ser relatado aos nossos leitores. E o estamos fazendo, por dedução ou por intuição. Vejamos então:

A Brahma demonstrou possuir um departamento de publicidade sagaz e eficientíssimo. Tanto assim, que logrou fazer uma propaganda enorme em tôrno de seu nome e de seus produtos, completamente “grátis”. Por vários dias ninguém falou em outra coisa, a não ser na Brahma.

Pusemo-nos a campo, para descobrir o que de verdade existe sôbre o fato. E tivemos uma surpresa. Surpresa mesmo, quando procuramos o japonês proprietário do terreno e da fonte de água natural, que, segundo se propalou, teria pedido um preço proibitivo, espantando os dirigentes da Brahma. E o nipônico arregalou os olhos, incrédulo, ao conhecer nossa missão. É que êle não sabia de nada acêrca de algum comprador para sua propriedade. Tanto não sabia, que nos confessou estar interessado em vender a fonte e mostrou inclinação indisfarçável pelos primeiros contatos com a parte que se disse estar interessada.

Vejam aí os leitores, como funcionou bem o departamento de propaganda da Brahma! Ninguém esteve em contacto com o japonês proprietário do terreno, êste nada sabia, e a notícia circulava por aí, levada aos quatro ventos e comentada de boca cheia em todos os cantos da cidade!

Ninguém esteve em contacto com algum dirigente da Brahma com respeito a essa questão. Portanto, “até aí morreu o Neves”.

Isso foi a conclusão nossa. Se errados estamos, a boa intenção em esclarecer o fato está antecipadamente apresentada.

Se estivermos certos, conforme pensamos, aquí fica êste nosso artiguete, como nossa contribuição também ao estrondoso sistema publicitário (sem ônus), no caso empregado pela Cervejaria Brahma.

Extraído do Correio de Marília de 26 de fevereiro de 1959

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Balaio de gatos (21 de fevereiro de 1959)

No setor de controle econômico atual, a grande massa popular, representada pelos empregados, continua a ser a eterna vítima do país.

Um balaio de gatos existe entre nós. Ninguém poderá nega-lo. Não há hoje em dia, um orçamento domestico equilibrado, desde que se trate do orçamento de um empregado comum. Seja comerciário, industriário, operário, funcionário público, etc..

Estes trabalhadores são os que mais sentem as agulhadas do descontrole da vida nacional, pois não dispõem de nenhuma válvula de escape para “tirar uma casquinha”, para fazer uma defesazinha qualquer. Só os parcos ordenados.

Os outros, não. Os outros defendem de qualquer maneira, sob qualquer meio ou módo.

O vendedor de amendoim, de limões, de laranjas; o pipoqueiro, o açougueiro, o alfaiate; o patrão, o engraxate, o médico; o dentista, o hospital, o comerciante, o barbeiro, o dono do bar, o sorveteiro, enfim, todos, todos, “se viram” como pódem, aumentam as ações ou gêneros comercializados, vão dando um jeitinho de acompanhar a espiral inflacionaria, que asfixia a nação.

Mas os empregados em geral, não dispõem de nenhuma condição dessas, são obrigados a aguentar as despesas incríveis somente com os minguados e sacrificados vencimentos mensais e sôbre seus costados ricocheteiam todos os resultados, todas as consequências desses descontrôle, desse anômalo estado de coisas.

Empregado, de modo geral, não tem defesa. De nenhum jeito, de nenhum modo. “Urrar e comer grama” é o seu direito; sentir, dia a dia, a corda das dificuldade apertando o pescoço, ao mesmo tempo que ele próprio aperta cada vez mais a cinta.

Dizem até que a cinta de póbre já une a fivela com o pé do couro junto à própria fivela!

Estamos vivendo um verdadeiro balaio de gatos.

O homem na classificação de empregado, qualquer que seja a sua fórma, porém desde que viva só e exclusivamente de um vencimento fixo, não póde viver; tem mesmo que vegetar, que sofrer, pois as despesas compulsórias de um lar, por mais modesto que seja este e por mais controladas que sejam aquelas, não cabem dentro do quadro advindo do ganho mensal. Isto é, a despesas forçadas (só o extritamente necessário para subsistir) do mês corrente, é superior à do mês passado e será mais superior ainda à do mês vindouro!

Então, é o caso de parodiar-se a verve de um humorista paulistano, afirmando-se sem pejo e com razão, que empregado não tem mesmo nenhum meio de defesa. Quando empregado tenta uma “defesazinha”, é posto lógo no olho da rua...

É ou não um balaio de gatos?

Extraído do Correio de Marília de 21 de fevereiro de 1959

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Só o cego não enxerga a verdade (20 de fevereiro de 1959)

Tem alguma razão você, compadre N. E..

Nós jamais fomos contra a construção de Brasília. Fomos e somos contra, isso sim, é com o processo com que a Novacap está sendo edificada. Ainda somos caboclos daquêles que desconfiam das exibições do trator moderno e que, posteriormente, verificam que o trator ainda não pode percorrer determinados trechos de roça, que só o enxadeiro pode executar.

No passado, nenhuma Constituição da República deixou em branco a necessidade da mudança da Capital Federal. Nenhuma.

E se você, compadre, nos disse que pretende construir uma casa de um milhão de cruzeiros, só podendo gastar 100 mil cruzeiros por mês, saberemos que se a casa for construída antes de 10 meses, existiu alguma coisa errada, alguma “marmelada” na construção.

Não, não somos contra o sr. JK. Somos contra o atual governo da União.

Somos e somos. E por várias razões. Razões já ditas. E repizadas.

O sr. Juscelino foi e está sendo o pior governo que o Brasil já teve em tôda a sua história, desde que somos República. Só tem uma coisa que êle prometeu e cumpriu com vantagem: Êle prometeu que o Govêrno progrediria 50 em 5 anos e progrediu mesmo. Só que na inflação, na alta dos preços, na sem-vergonhice. A meta, nesse sentido, foi atingida com grande antecipação.

Veja, compadre N. E., um exemplo contundente: O feijão apodrece em cima da terra e não há feijão; e se há, os preços não são para nós. O petróleo dorme em baixo da terra. Os nacionalistas, que nada mais são do que falsos nacionalistas ou comunistas disfarçados, encontram, na sua inviolável covardia, um remédio ou uma válvula de escape: que os americanos não toquem no nosso petróleo, desde que nos enviem feijão e petróleo, ou desde que nos permitam importar os produtos de outras nações.

E, não é “gozação”, compadre N. E.. A situação ficará boa, sem sombra de dúvida. Poderemos em breve importar feijão, petróleo e tudo o mais, à larga, “a la voluntè”; poderemos importar feijão, petróleo, máquinas, matéria plástica, carne, sapatos, couros, etc., etc., e tal. O Brasil, graças a Deus, está montando a maior fábrica de papel moeda da América Latina. Com o dinheiro que for fabricado, poderemos adquirir tudo, até a vergonha. Não precisaremos mais plantar, colher e vender. Teremos meios para importar tudo e até pagar à vista (desde que os outros povos sejam ingênuos e aceitem “Zé Cruzeirinhos” em substituição ao dólar). Teremos mais automóveis, geladeiras, televisores e muitas outras coisas de “primeira necessidade”.

A vida vai ser fácil, compadre N. E., não tenha dúvida. Até agora, Brasília consumiu mais dinheiro do que cimento. Mas daquí há pouco, teremos dinheiro à rôdo, suficiente para construir uma Brasília em cada nação do mundo. E ainda sobrará muito, póde você ter a certeza.

Depois, então, consagraremos nosso Presidente. Ele, de fato, está construindo Brasília. Pensando bem, não está construindo Brasília; está construindo seu próprio nome. Embóra sôbre e a miséria de um povo, é justo que o homem tenha um motivo de consagração. Se não, como justificará ele a sua passagem (passagem é bem o têrmo) pelo Palácio do Catête)?

Sei, compadre, que você não tem nem siquer bicicleta, mas que poderemos nós fazer? “Viscounts” e helicópteros hoje custam muito caro. E, aviões da FAB, só para pequenas viagens ou que levar os filhos ao dentista, dão um “rôlo” dos diabos.

O melhor mesmo é você amargar mesmo com a sua vidinha. Dar duro, “torear” os credores, levar “no bico” o judeu da prestação e ir tocando a vida. A culpa é dos seus pais, compadre N. E.. Quem mandou eles não darem um jeito para você nascer em Minas e ser prefeito de Belo Horizonte? E quem mandou você não comprar terrenos em Goiás e depois ter a idéia de alí fundar uma Capital? Como você vê, o mundo é dos sabidos; portanto, não se queixe.

O melhor que você faz, compadre N. E., é deixar as coisas como estão, para ver como ficam. Você não percebeu ainda, que todos os foram a Brasília e voltaram dizendo maravilhas de lá, ganharam dinheiro para isso? Ou com o comércio lícito, ou com comércio ilícito, ninguém reclamou da Novacap? Mas você já falou de fato, com uma pessoa que viajou sem ser como turista, sem ser como caravanista, sem ser como convidado, sem ser comerciante e sem ganhar dinheiro, que só viajou por viajar, às suas expensas? E você sabe o que essa pessoa disse, se foi sincero, honesto, consciencioso?

Sabe?

Então, estamos conversados, compadre N. E.

Extraído do Correio de Marília de 20 de fevereiro de 1959

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cultura e dialética (19 de fevereiro de 1959)

Repetidas vezes e de há muito, pregamos através desta coluna, a necessidade de Marília organizar um Centro de Civismo de Conferências, onde pudessem os marilienses, especialmente os intelectuais, expor dados e idéias, defender teses e externando pensamentos, de maneira a aprimorar a cultura e a dialética, abordando, de preferência, temas que dissessem respeito a assuntos palpitantes.

Nossos escritos, pelo que estamos informados, encontraram éco. Não total, porque idéias embora simples, porém de aparência arrojada, deparam sempre dificuldades e barreiras enormes.

Ensaiou-se em Marília, a formação de um Centro de Cultura. Diversas personalidades de proeminência nos círculos sociais e intelectuais da cidade, estiveram reunidos, dando os passos iniciais da organização do mencionado corpo. Nós, infelizmente, não estivemos presentes. Por dois motivos distintos: porque não teríamos a ousadia de arvorarmo-nos em intelectuais e porque não pretendíamos aparecer como timoneiros da organização, a fim de não dar margem a comentários desairosos (infelizmente tão comuns em Marília), que pudessem insinuar, mesmo levemente que fosse, a existência de um interêsse terceiro.

Parece que o assunto esfriou. Esfriou, conforme antevemos em alguns escritos transatos. Não por falta de gente capaz, gente suficiente; por falta de entusiasmo, por carência de boa vontade, por deficiência de tempo ou de outros fatores quaisquer.

O fato é que o Centro de Cultura nasceu praticamente numa tenda de oxigênio. E disso mais nos convencemos, domingo último, quando tivemos o ensejo de participar de um concurso de oratória, no Clube Kai Kan, organizado pela Sociedade Esportiva e Cultura de Marília. O certame referido, foi de âmbito regional. Do mesmo participaram nove cidades da Alta Paulista e nós, juntamente com os senhores dr. Nelson Ferreira, K. Miyabara, Octávio Barretto Prado e Otávio Simonato, fizemos parte da comissão julgadora.

Foi um concurso de improvisação, do qual participaram jovens estudantes. E estudantes “niseis”. Uma realização das mais bonitas imagináveis, despertando o interêsse da oratória na mocidade de origem estrangeira. E o mais interessante, é que a maioria dos participantes foi da zona rural.

A Comissão consignou, individualmente, seu voto descoberto. Até 40 pontos, por desenvoltura do assunto (tese); até 30 pontos, pela objetividade e clareza; e até 30 pontos, pela ética parlamentar e eloquência.

Não vamos comentar aqui os que venceram ou os que foram derrotados.

Não vamos citar, é claro, pequenos defeitos de dicção, falhas verificadas, incompetência, titubeios, falta de “tarimba”, decorações olvidadas no último momento. Vamos referir, apenas e tão somente, o espirito de compreensão, consciência e colaboração ao fato.

Dezenas e dezenas de pessoas, de tôdas as idades e ambos os sexos, permaneceram horas a fio, presas ao acontecimento, com um respeito profundo, com uma atenção sublime e encantadora, num suspense digno de nota.

Se por um lado, os filhos de japoneses nos deram um exemplo dos mais completos e exuberantes, por outro, a frequência, o silêncio, a atenção, merecem nossos encômios. O espírito de reconhecimento e de atenção, sem “broncas”, e sem aborrecimentos, nos credenciam o dizer que os japoneses, nessas situações, são mais calmos, tolerantes e pacientes do que nós, chamados “brasileiros legítimos”.

Dentro de um ambiente disciplinar elogiável e invejável, os japoneses se submeteram aos regulamentos do certame e do mesmo participaram com uma altivez notória. Desfilaram obedientes perante o público e abordaram temas verdadeiramente entusiasmadores, como, por exemplo, “o patriotismo”, “o panamericanismo”, “o analfabetismo”, “a assimilação”, etc.

Vendo aquele espetáculo de disciplina, de compreensão, de amor cívico, de interesse incontestável pelas coisas de brasilidade, representadas pelo pensamento externado na oratória, ficamos a matutar como é por que não temos em Marília ainda, um Centro Cívico de Conferências digno de nossa cidade e de nossa gente. E concluímos com facilidade a razão: o nosso espírito destruidor e impaciente, pejorativo em certos casos. Na comparação do caso, com nossa gente (que se diz brasileira), haveria fatalmente algazarra, comentários, risadas, gente saindo para fumar, “cornetas”, e tantas coisas mais. E os oradores, visitas de críticas atrozes, perderiam a estribeira, não contariam com o estimulo necessário, não seriam ouvidos com atenção, não receberiam palmas, etc.

Os presentes, se esforçaram ao máximo, por dedicar integral atenção ao transcorrer do certame. Os participantes, tudo fizeram para corresponder as atenções de que estavam sendo alvos. E, assim, nos deram um grande exemplo.

Pena que outras pessoas, especialmente intelectuais de Marilia, tenham perdido um espetáculo tão rico em grandes moldes, apesar de singelo em sua apresentação.

Extraído do Correio de Marília de 19 de fevereiro de 1959

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Governo Municipalista (18 de fevereiro de 1959)

Inegavelmente, o sr. Jânio Quadros foi um excelente Governador de São Paulo. A rigor, para nós, aqui da “hinterlândia”, foi o melhor governador que já tivemos em tôda a história administrativa bandeirante. O ex-governador procurou, por todos os meios, entender as suas ações e atenções para as comunas paulistas, tendo realizado e auxiliado a grandes obras, que hoje representam índice vertiginoso do progresso interiorano.

O sr. Quadros, por ocasião de sua posse, teve uma expressão em que afirmou: “Governarei de costas voltadas para o mar”. E de fato isso fez, para felicidade de nossa gente do interior.

O ex-governador, foi, em nosso entender, um Govêrno Municipalista, dos mais completos em tôda história da administração paulista.

Agora, o seu sucessor, o honrado professor Carvalho Pinto, nos dá a certeza de continuar essa grandiosa caminhada, trabalhando pela descentralização, vindo de encontro ao progresso das comunas, que são, na verdade, as cédulas vivas do dinamismo do próprio Estado. Por ocasião de sua primeira entrevista coletiva com a imprensa paulistana, o Governador Carvalho Pinto declarou à certa altura de suas palavras: “Tudo o que puder ser feito no interior, deve ser feito no interior”.

Trata-se, sem dúvida alguma, de uma promessa de continuidade do progresso interiorano. Uma asseveração de esperança e garantia e u’a sombra, ao sentido de pseudo suntuosidade, que, quando mais agiganta uma capital, mas asfixia e amesquinha os seus habitantes.

Existem em São Paulo, já, muitas repartições públicas, muitas faculdades, muitas indústrias; as ruas transbordam de gente, gente que móra em apartamento descômodos, crianças que não têm liberdade, que não tem escolas adequadas e fáceis, que não encontram vagas em parques infantís e que possuem, abundantemente, escolas de maus exemplos, de uma vida atribulada, de um corre corre insano, um lufa lufa intenso, irritante, neurótico.

Se obrou bem o Sr. Jânio Quadros, melhor obrará o Sr. Carvalho Pinto, descentralizando tudo, fazendo impulsionar o progresso interiorano, evitando a continuidade dêsse abjeto êxodo à paulicéia, onde a gente vive aos atropêlos, muitas famílias passando até misérias, só pela alimentação da mania de residir na Capital.

Em São Paulo existe exiguidade de espaço, fumaça de fábricas, apêrtos, atropêlos, explorações comerciais inacreditáveis, humildade, etc., enquanto no interior existem residências com quintais para crianças, espaço, calma, sól e ar livre. E, sobretudo, campo idêntico à São Paulo, para que o progresso se irradie, se expanda, se concretize em todos os sentidos.

Fez bem, repetimos, o Sr. Jânio Quadros, fará bem igualmente, o Sr. Carvalho Pinto, se levar avante a mesma diretriz de seu antecessor.

O municipalismo é isso, em uma das suas principais facetas. E esses dois governos, podem todos ter a certeza, estão caracterizados pelo germe do progresso municipalista, éssa bandeira de redenção do interior.

Nossos parabéns a ambos.

Extraído do Correio de Marília de 18 de fevereiro de 1959

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Essa, não! (14 de fevereiro de 1959)

A notícia vem de fora. Da Califórnia, Estados Unidos.

Parece fantástica, mas é real. Assemelha-se incrível, mas é verdadeira. É inédita. Vejamo-la, tal qual como nos chega ao conhecimento:

“Uma fábrica de conservas da Califórnia, começou a lançar no mercado refeições completas em lata, para homens solteiros.

Cada lata contém um cupom e o possuidor de 100 cupons tem o direito de apresentar-se no escritório local da fábrica, onde um funcionário encarregado facilitará o seu encontro com uma jovem, elegante e bonita, com a qual poderá casar...

O “slogan” da fábrica é: “de nossos almoços aos banquetes de casamento...”

As vendas dêsses produtos alimentícios aumentaram 10 vezes, quando foi publicamente anunciado que as moças apresentadas nos escritórios da fábrica de conservas são bonitas de verdade, boas donas de casa e que tratam o assunto seriamente.

Vejam os leitores, até que ponto a perspicácia comercial explora o sentido da propaganda!

Distribuindo moças casadoiras, pode-se dizer. Oferecendo mulheres para casamento!

É o sinal dos tempos, sem dúvida, como afirmaria o novelista inglês. Pode ser. Para nós, é a decadência inquestionável da própria moral, pois o fato mais importante na vida do homem e da mulher, que é o casamento, passa assim, a constituir-se num motivo abjeto. Imaginem os amigos leitores, qual será o grau de porcentagem feliz e completa num enlace matrimonial surgido em decorrência dêsses fatos. A mulher sorteada, como um objeto de uso comum, através de 100 cupons distribuídos nas referidas refeições enlatadas para solteiros!

“Gozado” mesmo, êsse “negócio”.

A notícia não dá conta alguma de “câmbio negro” na venda de cupons dêsse tipo, mas certamente tal prática existe. Muitos homens estarão interessados em “amarrar-se” e por certo se impacientarão com a demora em juntar 100 papeletes que “valem u’a mulher”. Por outro lado, as “mulheres-prêmio”, estarão inegavelmente ansiosas por serem contempladas, sequiosas para se constituírem na “carga” de algum “burro”. Essas cogitações não podem mesmo ser afastadas do ról do acontecimento.

Um assunto seríssimo como o casamento (ou mesmo o namoro), explorado de maneira tão rude e condenável como essa, é um caso que dá para pensar.

Aliás, sob outro aspecto, nós já temos, no Brasil, processo mais ou menos semelhante. Trata-se das diversas secções de intercâmbio de correspondência, mantidas por algumas revistas. E o curioso, é que grande parte das divulgações que empregam o referido sistema, são, inegavelmente, atentatórias a própria moral, combatidas seguidamente por autoridades competentes.

Todos ou quase todos conhecem êsse tipo de intercâmbio que estamos referindo. E aqueles que já se deram ao trabalho de ter e analisar os anúncios dêsse jaez, constatarão, com facilidade, que as boas intenções num casamento seguro, se apresentam nesses anúncios, em índice verdadeiramente baixo. A maioria ostenta a inequívoca condição de intenções terceiras!

Poderá alguém dizer que, no nosso caso, só escreverá ou responderá tais anúncios, quem quer. Fato, porém a questão é mais grave do que parece e poderia merecer até melhores atenções de nossas autoridades. Da maneira como está sendo procedido o mencionado expediente, está oferecendo margem não só a encontros escusos, como, em certos, a motivos condenáveis. Vejamos, por exemplo, um anúncio que lemos numa dessas revistas, e que está assim redigido: “Moço rico, solteiro, boa situação financeira e possuindo automóvel, deseja corresponder-se com moças louras ou morenas, de qualquer idade, que sejam independentes e que gostem de bailes, praias e passeios”.

Precisa-se ser muito inteligente para perceber o real interêsse ali contido?

Extraído do Correio de Marília de 14 de fevereiro de 1959

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Trânsito de bicicletas (13 de fevereiro de 1959)

Comentamos há pouco, a feitura de uma Portaria policial, da lavra do delegado Severino Duarte, quando êste respondia pela Regional local.

E, na ocasião, focalizamos a oportunidade e iniciativa útil e feliz da citada autoridade, visando colocar os menores que dirigem bicicletas motorizadas, em condições de melhor pilotarem os referidos veículos.

Conforme o contento do aludido documento, o regulamento respectivo deverá ser baixado dentro em breve e todos os ciclistas motorizados serão chamados à polícia, para receber instruções iniciais, sôbre o regulamento de trânsito.

Na ocasião, fizemos alusão, aos benefícios que tal medida acarretará aos próprios ciclistas, ao trânsito em geral e mesmo aos funcionários incumbidos de sua fiscalização.

Fomos procurados por um ilustre cidadão e político mariliense, com respeito ao assunto. Sugeriu-nos êsse amigo, que lembrássemos ao Dr. Lélio Peake, atual delegado regional, para que, dentro ou à margem da citada portaria e seu respectivo regulamento, se incluam os ciclistas em geral, isto é, grandes e pequenos, de veículos motorizados ou não.

E apresentou-nos essa pessoa, uma série de razões que justificam a aludida necessidade em Marília, para melhor normalização do trânsito e com o fito de diminuir-se o índice dos constantes perigos que estão expostos os ciclistas, por imprudência ou ignorância, felizmente sem maiores consequência, mercê dos cidadãos dos motoristas em geral. Citou-nos casos diversos, de ciclistas andando “contra a mão”, cruzando carros em lugares proibidos ou impróprios e atravessando na frente de veículos, sem o senso de medir psicologicamente a gravidade que resulta da comparação entre a velocidade e a distância percorrida por um autor; isto é, muito ciclista atravessa imprudentemente a frente de um veículo em marcha, numa distância pequena, obrigando o motorista do carro a freiar ou diminuir a velocidade, para evitar o desastre.

Tal fato não acontece com dois carros, porque os motoristas tem por obrigação, conhecer o regulamento.

Achamos oportuna a lembrança, e, data vênia, transmitimo-la ao Dr. Lélio Peake, para que, estudando a sugestão, ache por bem incluir, no teor do regulamento que está sendo elaborado, todos os ciclistas, de modo geral e indistinto, excetuando-se apenas os que já sejam detentores de cartas de motoristas ou motociclistas.

Algumas aulas práticas e noções teóricas do serviço de trânsito, ministradas por autoridade competente, só poderão produzir bons frutos. Teremos, em pouco tempo, maior harmonia nesse sentido, evitar-se-á a parada irregular e “contra-mão” de bicicletas nas ruas, impedir-se-á imprudências por parte dos que dirigem bicicletas e observar-se-á maior respeito e ordem ao trânsito em geral, colocando-se a cidade, nesse particular, em sua verdadeira órbita.

Por certo, será trabalhoso esse mister; entretanto, não urgindo pressa em sua execução, poderão tais providencias ser consumadas gradativamente, fornecendo-se uma prova, mesmo extra-oficial, a todo o ciclista que haja frequentado as aludidas aulas, isso não representará, fóra de dúvida, que o ciclista se considere em igualdade de condições com uma pessoa legalmente habilitada a dirigir um veículo. Provará tão somente que adquiriu noções elementares de trânsito, e, por conseguinte, estará obrigado a respeitar o regulamento, estando sujeito, em decorrência desse fato, a sofrer as consequências de qualquer imprudência e arcar com a responsabilidade de qualquer observação ou autuação, por desrespeito ou inobservância de leis.

A medida, pensamos, é bôa.

Aquí fica a sugestão.

Extraído do Correio de Marília de 13 de fevereiro de 1959

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Cessou a folia... (12 de fevereiro de 1959)

Findaram-se os quatro dias que constituem o chamado tríduo carnavalesco. Acabou a barulheira noturna dos bailes de Mômo, o cheiro fraquíssimo de pouco lança perfume.

Em Marília, praticamente, não existiu o denominado carnaval de rua. E não poderia mesmo existir, tão cara e difícil ainda a vida atual.

Milhares e milhares de pessoas, permaneceram pacientemente algumas horas postadas ao longo das duas margens da Avenida do Fundador, procurando “ver” o carnaval que não existiu. Não fôra a caprichosa abnegação de Consuelo Castilho, ninguém poderia jamais justificar a “pernada” inútil ao centro da cidade.

Consuelo e seus partidários, com as “invenções” estrambólicas, proporcionaram qualquer coisa para que o povo não ficasse alí plantado vendo veículos desfilar e “tomando banho” de bisnagas. Poder-se-á dizer que as apresentações do “C. C.”, afóra as das crianças, foram as mais inocentes do carnaval. A baleia “Moby Dick”, o “Galo” (que mais parecia um pavão de cauda fechada) e o touro e toureiros, foi o único que existiu de carnaval de rua em Marília. O mais foi um desfile de carros, algumas crianças esforçando-se para entoar marchinhas carnavalescas, moleques correndo de um para outro lado e muita gente esperando ver o que não existiu.

Bem, o carnaval passou. Olvidemos os festejos de Mômo e reiniciemos a luta cotidiana, a luta do ganha-pão. Até a natureza, parece, convida-nos a meditar sobre a divergência do transcorrer dos dias de carnaval e quaresma. O ar, o vento, a temperatura, tudo, tudo, divergem entre sí. Diferenças extraordinária, convidando a pensar, a meditar, sobre o acontecimento que marcou com seu fim, o início do fato mais importante da história da cristandade.

Ontem, alegria desmedida de um lado, forçada de outro, improvisada por outro.

Hoje, tudo diferente. Até o ar, o cântico dos pássaros, o Ego de qualquer um, apresentam um contrate palpável e inalienável.

São passagens naturais da vida das gentes, dir-se-á então. Todo ano é assim.

Nós diríamos que não. As coisas estão se modificando. O carnaval, em verdade, deixou de ser como no passado. O de rua, que éra o ponto alto do acontecimento, deixou de existir. Com ele, como o vento que escapa de uma câmara de ar alfinetadas, fugiu de módo geral, aquela beleza das brincadeiras sadias, das quais participavam grandes e pequenos, póbres e ricos, brincando com entusiasmo e tirando uma justificada fórra das agruras da vida.

Certo é que ninguém poderá mudar essa metamorfose facilmente, porque a tramutação do fato vem ocorrendo gradativamente, bem cimentada.

De qualquer maneira, ainda existem os que buscaram nos festejos carnavalescos, um brinquedo é uma distração sadia, moral, insuspeita. Se existe o número dos que assim não pensam ou assim não agem, esse número, graças a Deus, ainda é minoria.

Felizmente.

Extraído do Correio de Marília de 12 de fevereiro de 1959

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Cada louco com sua mania (10 de fevereiro de 1959)

É inegável, que todo o homem, depois de viver trinta anos, está naturalmente em condições de dizer-se conhecedor da vida, dos homens e das coisas.

Embora sem nenhuma identificação de “globe trotter”, todo cidadão que nasceu do trabalho e do trabalho vive, teve, por força de circunstâncias, que servir de receptáculo a uma série de marchas e contra-marchas, que redundaram-lhe, compulsoriamente, no porte de uma bagagem de experiências indeléveis e inapagáveis.

Porisso, comum é o encontrar-se cidadãos afirmar que jamais teriam casado, se tivessem a experiência de hoje. Ou que gostariam de retroceder à idade de 15 anos.

Essa experiência, acarretou nos indivíduos, especialmente nos bem moldados de espírito, uma atitude diversa em alguns pontos, porém firme como o aço em outras situações. Obrigou o homem a observar melhor o caminho da vida, forçou-o a lobrigar o futuro com uma preocupação ferrenha e perfeitamente justificável, tendo-o colocado, em dois prismas distintos: Ou tornou-se manhoso como a raposa, ou constitui-se numa demonstração inconteste de previdência e cuidados.

Dissemos linhas acima, que isso ocorre aos homens de espírito maldoso. Portanto, existem excessões diversas, que ficam fora das cogitações deste escrito.

Mas o homem, depois dos trinta anos, dá-se ao emprego de manias. Talvez sem perceber. Até a citada idade, seus pensamentos e predileções são bastante variáveis. Depois é que a firmam e fundem de modo mais categórico, mais solido.

Então surgem as chamadas manias. Manias que não são bem manias, pois são uma decorrência natural de uma vida. Referimo-nos ao jogo, aos esportes, à bebida e a outros hábitos. Fazemos a comparação, em tese, excluindo de cogitação os casos de manias crônicas ou vícios incorrigíveis e prejudiciais sob qualquer aspecto analítico.

Daí o observar-se o homem que, mesmo nada tendo o que fazer, passe o dia todo no banco do jardim, “batendo papo” com todo o mundo, sem nenhum proveito, sem nenhuma vantagem. Ou o que jogando uma ou outra partida de boccie, é capaz de permanecer doze horas junto ao campo desse jogo; ainda o que lê o jornal inteiro diariamente, não podendo nem os anúncios fúnebres; ou o que, sem beber ou pouco bebendo, perambula o dia todo pelos bares, discutindo política (sem conhecer a ciência) ou esporte (sem ser esportistas).

Há os que gostam de “receitar” para os amigos. Só ouvir falar de uma doença, que já ante-põem a opinião categórica de um remédio tal, que “é um porrete”. Os que analisam os atos dos vereadores, do Governador, dos deputados e do Presidente da República. Os que tem soluções certas para o problema da carestia, da malandragem e da roubalheira. E por aí afóra.

Depois de ter vivido a metade da vida, o homem já conseguiu firmar o seu ponto de vista e ser também o detentor de suas próprias manias. E assim, escuda-se naturalmente contra o sôro dos demais.

Daí, o resultado de firmar-se que cada louco tem a sua mania. E como cada louco tem a sua mania, nós também temos a nossa, fundamentada nos motivos já citados. E a nossa mania é não ir na mania da loucura dos outros loucos.

Extraído do Correio de Marília de 10 de fevereiro de 1959

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Carnaval (7 de fevereiro de 1959)

Extra-oficialmente, inicia-se hoje no Brasil, o tríduo carnavalesco. Tríduo de quatro dias, bem entendido.

O carnaval, afirmam, é uma festa popular. Nós entendemos que “foi” popular, porque hoje em dia, “brincar” o carnaval, só mesmo como muito dinheiro e com muita boa vontade. A vida anda caríssima, não permitindo aos orçamentos modestos, a aquisição de fantasias ou apetrechos próprios para os folguedos de Mômo.

Por outro lado, o carnaval dos últimos tempos, metamorfoseou-se por completo, perdendo aquele sentido bonito de uma diversão sadia, onde participavam ricos e póbres, com o objetivo único de animar o espirito das agruras da vida. Temos visto, nos últimos anos, o disvirtuamento quasi total dos folguedos carnavalescos, quando foliões desbancaram para o excesso das liberações alcoolicas e daí para os exageros, muitas vezes atentatórios à própria moral e à família.

Certo é que nem todas as pessoas assim agem. Ainda existe o grande numero dos sensatos e conscientes, daqueles que procuram, nas brincadeiras carnavalescas, tão somente o sentido intrínseco da diversão pura.

Nós, embora não seja do tipo chamado “carnavalesco”, não somos, em absoluto, contra o carnaval. Entendemos que o povo tem o direito dessa diversão, principalmente quando aprecia de fato tal acontecimento. É justo portanto, que os que trabalham durante o ano todo, nesta vida atribulada, tenham o ensejo de “pular” durante êsse tríduo de quatro dias. Nós somos pelo carnaval, porém o carnaval pelas brincadeiras puras e sem excessos, inocente mesmo. Brincadeiras que não comprometam os que das mesmas participam ou que as mesmas prestigiam com suas presenças.
Somos eversos, isso sim, aos exageros que os cometem comumente, sob o pretexto de que nos carnaval “é assim mesmo”. Principalmente quando tais excessos pendem para comprometer a moral e os bons costumes, a família, a tranquilidade os mais exemplos públicos. Nesse ponto, somos contra o carnaval e não podemos conceber deslizes e imoralidades em qualquer sentido, justificados pelos folguedos de Mômo.

O povo, não se nega, precisa divertir-se, necessita de motivos para arejamento das suas preocupações cotidianas. Assim, os que são francamente do carnaval, justo é que se divirtam na ocasião, porém de maneira bonita, cavalheiresca, educada. Fazendo-nos recordar o carnaval inocente e divertido do passado, que saudosamente nos relembram nossos avós.

Que se divirtam todos, pois. Que o façam com sensatês, com moderação, com altivez, de maneira bonita, digna de encômios.

São os nossos votos sinceros, aos foliões marilienses.

Extraído do Correio de Marília de 7 de fevereiro de 1959

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Excelente providência (6 de fevereiro de 1959)

Uma excelente providência, que resultará, por certo, em medidas de esclarecimento, de prevenção de acidentes e facilidade para o próprio trânsito. Trata-se de uma portaria baixada pelo então delegado Dr. Severino Duarte, cujo regulamento deverá ser tornado público dentro em pouco.

A resolução referida, tendo em vista que o Código Brasileiro de Trânsito dispensa a exigência de carta de habilitação, para os que dirigem as chamadas bicicletas motorizadas, cuja capacidade em cilindradas não ultrapasse uma determinada potência de HP, objetiva, em caráter instrutivo, colocar em condições de manuseio de tais veículos, em fase das exigências do trânsito, todos os cliclistas que pilotam tal tipo de bicicletas.

Em sua maioria, os que trafegam pelas ruas da cidade em “monaretas”, “gulivetes” e outras marcas dessa qualidade de bicicletas, são menores; e como tal, não habilitados com respeito aos regulamentos do trânsito, podendo expor ao perigo e comprometer, às vezes, até a integridade física dos transeuntes.

Temos visto inúmeras ocasiões, garotos com as citadas motorizadas, “podando” automóveis “contra a mão”, entrando em desvios proibidos, cruzando erradamente (e com perigo) as esquinas, estacionando em lugares indevidos, etc.. Até para a fiscalização do trânsito, com a juventude que dirige as motorizadas, mais disciplinas em todos os sentidos, a medidas em fóco beneficente e digna dos maiores encômios e simpatias.

Outro dia, presenciamos em plena Avenida, um automóvel trafegando em direção ao Cine Marília, ser “podado” por dois ciclistas motorizados, ao mesmo tempo; isto é, um pela esquerda e outro pela direita, ultrapassaram o carro referido, com espanto geral e com maior admiração do motorista, que, mesmo no volante, abanou a cabeça como se considerasse uma desaprovação insolúvel, um caso perdido, a imprevidência dos dois garotos.

Depois de que entrar em vigência o regulamento respectivo, com uma aplicação de aulas de trânsito aos menores enquadrados nas condições citadas, teremos então a garantia de que se pequeno é o índice de acidentes nesse particular, ínfimo ou nulo virá a ser no futuro.

Trata-se de uma providência verdadeiramente elogiável, que veio demonstrar a preocupação das autoridades responsáveis pelo trânsito, no sentido de que mesmo os menores não sujeitos a apresentação de carteiras de habilitação, fiquem, praticamente, instruídos de como utilizar suas máquinas e como manobrar as mesmas em face ao público e aos regulamentos.

Por outro lado, trata-se também de um fato que deverá merecer as simpatias gerais e que poderá mesmo merecer acolhimento digno de exemplo, por outras autoridades de outros centros, cujo trânsito seja deverás movimentado.

Extraído do Correio de Marília de 6 de fevereiro de 1959

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Pessimismo e otimismo (4 de fevereiro de 1959)

É bem verdade que a notícia da paralização de atividades do Instituto de Educação, produziu, como seria de esperar, certa espécie e não menos espanto, entre grande número da população local.

Um estabelecimento de ensino que fecha as suas portas depois de uma série de benefícios públicos no setor da instrução de nossa mocidade, ocasiona mesmo motivos de apreensão popular. Mesmo dando margem ao ensejo citado, em hipótese algumas, pensamos, poderia justificar um pessimismo tão elevadamente exagerada que por aí campeia, como se fôsse uma gramínea malígna que, com a mesma indiscutível força recebida da selva umedecida pelas últimas chuvas, brota da terra.

Os que comentam o fato, pintado o quadro do mais negro imaginável, prognosticando inclusive o futuro de um gigantesco espectro a dominar e prestes a cair, de um momento para outro, sôbre nossas cabeças, estão propalando notícias desairosas e “prevendo” imaginações fantásticas e condenáveis.

O mínimo que essas pessoas poderiam fazer no caso, uma vez que demonstram uma “preocupação” sem limites e sem comparativos, seria o conhecer o mais minuciosamente a situação da escola e auxiliá-la.

Isto, porque, os que tantos adjetivos de negativismo proferiram a respeito e tão abjetamente pincelaram o futuro de Marília, esqueceram-se de dizer, quando falaram (e falam) nesse fechamento da citada escola, o número exato das outras tantos que foram instaladas ultimamente em Marília.

Se é lamentável para todos, o fechamento de um centro de educação, não é justo que olvidemos que no final do ano passado e nos primeiros dias do exercício óra iniciado, tivemos progressos nesse setor, com as inaugurações de outras escolas, como, por exemplo, o ginásio “Dr. Bezerra de Menezes”, o curso técnico de contabilidade do SESC, a majestosa Faculdade de Filosofia, a transformação do Colégio Estadual e Escola Normal em Instituto de Educação, etc..

Muita gente esqueceu-se de avaliar êsses cometimentos, para concentrar atenções pejorativas e baterias pessimistas, com exclusividade, na paralização das atividades de ensino do Instituto de Educação de Marília.

Enquanto a cidade perdeu uma escola, ganhou várias outras. E nossas autoridades e pessoas interessadas, continuam ainda lutando para aquinhoar Marília com outros grupos culturais, como, como exemplo, a transformação da Escola Artesanal em Escola Industrial.

Apesar de que existem praticamente, muitos motivos que justifiquem, de módo geral, um certo pessimismo dos marilienses, em certos ângulos da própria vida, nêsse particular o negativismo não encontra paralelo uma vez que a equidistância entre as comparações em téla é galvanizada e palpável.

Nesse particular, portanto, para os sensatos, existe o otimismo num volume gigantesco, que, apesar dos pesares, não chega a receber, qualquer sombra de prejuízo tão assustador assim, como se propala com êsse exagero pessimismo, que, tão incrivelmente, passou a habitar as cabeças de muita gente nos últimos dias.

Os que assim estão obrando, devem atentar, depois da análise da realidade, que “o diabo não é tão feito assim como o pintam”.

Extraído do Correio de Marília de 4 de fevereiro de 1959

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Selecionando os candidatos à vereança (3 de fevereiro de 1959)

Temos percebido nos últimos dias, que a efervescência política, embora sem transparecer, está sendo um fato na cidade.

Com exceção da UDN que já lançou seu candidato à sucessão do prefeito Argollo Ferrão, os demais partidos políticos, estão ainda algo indecisos e baralhados. A preocupação é um fato; a necessidade de um homem ideal, que reúna qualidades administrativas, simpatia pública e possibilidades de vitória, embora pareça difícil para os prognósticadores da Avenida, é um “calçanhar de aquiles” para os dirigentes políticos.

No tocante ao relacionamento e homologação dos nomes para disputar as cadeiras de vereadores, o problema também existe, se bem que em menor monta. Temos notado a preocupação indisfarçável dos dirigentes partidários na feitura dessas listas. Está em foco a cogitação de nomes que, de fato, venham a representar condições as diversas legendas, nomes êsses mesclados por pessoas de diversas, de maneira a constituir-se um corpo de edís, fundamentalmente técnico e indiscutivelmente completo.

A verificação dessas idéias e das sondagens que a respeito estão sendo executados, dá a perceber, com clareza meridiana, que a maturidade política dos dirigentes de partidos, está sendo agora, mais do que nunca, realidade e compreensão não imitadas no preterido.

A questão, em sí, não deixa de ser grata e auspiciosa. Principalmente agora, quando estamos vendo o fundar de uma legislatura que caiu muitos furos no cenário público, mercê de alguns atos de repercussão negativa. Não que pretendemos afirmar, inutilidade ao nosso Poder Legislativo; acontece, que, em comparação com os corpos de legisladores do passado, especialmente da primeira legislatura, a força viva da edilidade mariliense, no presente, não encontra paralelo de indiscutível apreciação eqüitativa.

Não será segrêdo para ninguém, o dizer-se que poucos foram os edís da presente safra, que souberam correspondem plenamente aos votos recebidos, sem um mínimo de desapontamento aos seus eleitores. É a prova disso é que os próprios partidos políticos notaram, ainda em tempo, a mencionada anomalia, agindo como agora estão, no que tange ao selecionamento de candidatos à vereança municipal.

Embora os partidos políticos não afirmem o ponto de vista supra emitido, a realidade é a que estamos afiançando. E obram bem, inegavelmente, os responsáveis pelos destinos e pelos nomes e ações das variadas facções partidárias da cidade.

Ao inverso do que possa parecer, nada existe de espécie numa atitude como a que estamos referindo; pelo contrário, apresenta êsse processo de seleção de valores,, um índice inquestionável de maturidade política, dignos de encômios. De fato, urge que nossa Câmara Municipal seja remodelada, no que diz respeito a muitos de seus integrantes, alijando-se das suas poltronas, pessoas que pouco ou nada tenham produzido em pról dos interêsses da população mariliense.

Congratulamo-nos com os que estão alimentando e defendendo o ideal preconizado e óra em fóco. E nesta croniqueta, que não é nenhum “Ovo de Colombo”, nada mais está impregnado, do que o desejo de que essa caminhada prossiga e obtenha o alvo colimado.

Extraído do Correio de Marília de 3 de fevereiro de 1959