segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Natal dos pobres (27 de dezembro de 1958)

Repetiram-se em Marília, como sói acontecer todos os anos, em igual dia, as manifestações de solidariedade humana e confraternização universal e cristã, com os intentos de oferecimento de pequenos óbulos em alimentos, aos pobres da cidade.

As igrejas de diversas seitas, procuraram desincumbir-se de seus papéis a respeito, obedecendo os preceitos de bondade e piedade do próprio Nazareno.

Na manhã do Grande Dia da Cristandade, por iniciativa das Conferências Vicentinas da cidade, em plena Avenida Sampaio Vidal, cerca de 1.500 pacotes contendo um pouquinho de gêneros alimentícios diversos, foram distribuídos entre os pobres.

A respeito, ouvimos de parte do povo que se ocupava a observar os “bichas” da miséria estendidas pela Avenida e descendo a Rua 9 de Julho, comentários dos mais desencontrados. Afirmavam uns, ser deprimente o espetáculo, dizendo afirmativas referentes ao espírito de organização que estava deixando a desejar, com gente maltrapilha e miserável, permanecendo horas seguidas nas filas intermináveis. E ainda avançavam em pontos de vista, acrescentando que muitas mulheres tinham, forçosamente, sacrificado o horário do almoço, para candidatar-se a um óbulo de insignificante representação.

Certo é que, apenas nêsse particular, têm razão os que assim afirmaram ou os que assim pensaram. Entretanto, à muitos, escapou a principal observação: Existe a miséria, existe a pobresa, em proporções mais alarmantes do que seria de imaginar à primeira vista. E, na missão dêsse mister, muitas trabalharam com afinco, desinteressadamente, abnegadamente, fazendo o possível. E naquêles pacotes, embora pequenos, estavam contidas as boas intenções e a cooperação de milhares de marilienses, muitos dos quais também pobres, porém de altruístico espírito caritativo.

Gostaríamos de saber, se os que se deram ao luxo de condenar abertamente, haviam realizado alguma coisa em pról da pobresa local.

Por certo, muitos daquêles que tão abertamente censuraram o espetáculo, como deprimente e “feio”, poderiam ter doado alguma pequena quantia de gêneros, ou alguma pequena importância em dinheiro, não como uma obrigação cristã, mas simplesmente como um “dever social”, uma atitude de “não desagrado” tão sòmente.

Não poderia mesmo haver beleza num espetáculo de miséria humana. Pelo menos para os olhos cristãos.

Mas havia ali uma outra beleza, mais elevada, mais fácil de ser compreendida pelos pobres, embora nem todos estivessem nas filas: a beleza da alma, a beleza da solidariedade!

Fato é, conforme dissemos, que notamos uma grande demora e regular balbúrdia, no setor da organização, cuja demora da distribuição foi bastante acentuada. No entanto, conveniente é que se considere a dificuldade em organizar-se e lidar-se com o povo em grande número, maximé faminto.

Não devem merecer censuras e sim louvores, os que pretendam servir ao próximo, especialmente os que, no Dia de Natal, se empenham em proporcionar uma passagem, senão completa, pelo menos mais esperançosa e um pouquinho mais alegre. Justo é que se compreenda, que impossível seria uma coisa melhor, porque essa coisa melhor decorreria, inegavelmente, do apoio geral e o apoio geral apresentado, nada mais permitiu fazer do que aquilo que foi feito.

Ao par disso, inegável é, existiu o alto espírito de piedade cristã e tal fato ninguém poderá contestar.

Extraído do Correio de Marília de 27 de dezembro de 1958

sábado, 25 de dezembro de 2010

Feliz Natal, leitores! (25 de dezembro de 1958)

Nesta data festiva, em que a humanidade cristã se confraterniza, estendendo-se mutuamente as mãos e entrelaçando amizades, aqui nos encontramos, leitores amigos do “Correio”.

Seguindo o exemplo do Nazareno, de amor a todos, indistinção de homens, com amor a Deus e no próximo, congratulamo-nos com nossos amigos e leitores, pelo evento mais eloquente do mundo cristão.

Natal!

Estancam-se as lutas diuturnas e cotidianas, ao aviso dos sinos que anunciam euforicamente a Grande Data.

A humanidade se confraterniza, num amplexo de compreensão sincera e amor mútuo. Tudo é alegria, porque a efeméride convida a pensar sôbre a grandeza do acontecimento.

O Filho de Deus, que se fez homem para nos salvar, nasceu no dia de hoje. E nos deu o exemplo magnífico de amor aos semelhantes, de resignação, de renúncia.

Na estrebaria de Belém, sôbre um punhado de feno, cercado pelos humildes e santos pais e observado pela pacata vaquinha, o Filho de Deus já se apresentava ao mundo de então e do porvir, como o exemplo máximo da bondade, da humildade, de amor ao próximo e de piedade permanente.

Hoje, ao comemorarmos a passagem do Dia de Natal, grata efeméride que dedicamos à Família e ao respeito mútuo, com a observância dos princípios de amor à própria História Sagrada, curvamo-nos respeitosamente ante a majestosidade dessa excelsa data.

E ao realizarmos essa genuflexão espiritual, procuramos fazê-lo examinando nossa própria consciência, analisando nossos atos frente aos mandamentos e aos exemplos do Filho do Senhor. E ao fazê-lo, indagamos em pensamento: “Será que todos os que habitam esta querida cidade poderão, de sã consciência, postar-se aos pés do Filho de Deus e confessar seus pecados dizendo as suas virtudes?”

O Filho de Deus feito homem, foi o exemplo que deve ser seguido e que muitos não seguem.

Reverenciemos, portanto, a passagem da grande data.

Unamo-nos num congraçamento de fraternidade e amor, como tão bem pregou N. S. Jesús Cristo aos homens da terra, mesmo aos seus algozes. Rememoremos a passagem Golgotiana e olhemos naquele fato a história exemplo de renúncia e resignação.

A fraternidade universal prega-se agora mais do que nunca entre os homens de boa vontade. E nada melhor do que a data de hoje, para que os próprios homens se dispam de malquerenças, de afastamentos banais, a fim de se ligarem ainda mais, pelos laços da fraternidade, galvanizados pelo espírito da solidariedade humana e exemplar.

Que Deus, na Sua infinita bondade e inalienável sabedoria, cujo transcurso do nascimento de seu Filho hoje se comemora, se digne olhar para os pobres e vulgares homens da terra, amparando-os em sua caminhada, orientando-os em suas desmedidas ambições e reprimindo-os em sua voraz fome de grandeza, dando-lhes a iluminação clara e precisa para que o exemplo de Jesús continue a ser perpetuado e imitado.

“Glória a Deus nas alturas e paz na terra entre os homens de boa vontade”.

Leitores do “Correio de Marília”, nesta data festiva e sacrossanta, congratulamo-nos com todos os marilienses, ricos e pobres, pretos e brancos, nacionais ou não; e formulamos a todos, indistintamente, os votos mais sinceros de uma passagem do Dia de Natal feliz, alegre e risonha, sob os auspícios e os beneplácitos da própria paz na terra que tanto preocupou ao próprio Filho de Deus.

Feliz Natal, leitores do “Correio de Marília”!

Extraído do Correio de Marília de 25 de dezembro de 1958

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Sofrerão aumento as mensalidades escolares (24 de dezembro de 1958)

De acôrdo com declarações do Sr. Oswaldo Coutinho, Secretário do Ministério da Educação e Cultura, as anuidades escolares sofrerão um aumento de 30% no ano vindouro (1959).

Uma Comissão Especial foi nomeada para elaborar o trabalho desse aumento, que deverá estar concluído ainda antes do fim do mês. Ao mesmo tempo, conforme se expressou aquele funcionário, a repartição referida está cuidando de um plano de fiscalização, destinado a evitar quaisquer abusos dentro do setor da cobrança dos aumentos que fatalmente virão.

Informa-se a respeito, que no Estado de Minas Gerais, um grupo de diretores de diversos estabelecimentos de ensino resolveu majorar, em 40%, as anuidades para o próximo ano letivo, à revelia do Ministério (que foi ao) Supremo Tribunal (reivindicar o direito de) controlar os preços cobrados pelas casas de ensino do país.

O sr. Oswaldo Coutinho garantiu que o MEC não permitirá qualquer aumento antes da conclusão dos estudos que estão sendo feitos pela comissão para isso constituída, nem após, acima das bases por ela estabelecidas.

“Quanto ao caso de Minas Gerais, vamos apurar; não só esse, mas todos os demais aumentos ilegais serão reprimidos e os pais dos alunos devem recusar em aceitá-los, colaborando deste modo com o Ministério da Educação” - disse.

Reunindo-se quase que diariamente, a comissão que vem estudando as possibilidades do aumento das anuidades escolares, para 1959, é formada pelos seguintes elementos: professor Ely Menegale, diretor do Departamento Nacional de Educação; professor Gildasio Amado, diretor do Ensino Secundário e professor Lafayette Del Ford Garcia, diretor do Ensino Comercial, sob a presidência do professor Clovis Salgado, Ministro da Educação.

Como se vê, é provável que até o último dia do ano expirante (1958), o Ministério da Educação e Cultura tenha em seu poder o relatório final da citada comissão, a fim de traçar e divulgar o que de verdade existirá acêrca da questão, para o ano de 1959.

Não há negar que existem algumas razões para esse pretendido aumento, pois certo é que muitos professores, atualmente, são mal remunerados. Igualmente, é inquestionável que acontecerá mais um fato para mais sacrificar as bolsas da classe pobre. Enfim, isto aqui é mesmo um “móto contínuo”...

Extraído do Correio de Marília de 24 de dezembro de 1958

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal de póbre é um martírio (23 de dezembro de 1958)

Cada ano que passa, mais angustiante se torna para os pobres, a passagem da data magna da Cristandade.

O Dia de Natal, que pelo seu excelso significado, deve representar um dos maiores motivos de alegria de todo o ano, especialmente na concepção dos cristãos, transforma-se, atualmente, numa data de constrangimento, e, sem exagero, em certos, casos, de profundo desgosto.

A tradição da mesa farta, com artigos convencionadamente chamados de “próprios” a necessidade inadiável da aquisição de um presentinho para as crianças, o costume da compra de um par de sapatos novos, um vestido também novo ou mesmo uma simples camisa, representam, hoje em dia, para as bolsas dos menos favorecidos pela fortuna, verdadeiros espectros, abjetas preocupações.

Um pai de família, por exemplo, com quatro ou cinco filhos e mesmo ganhando mais do que o famigerado salário mínimo, não pode, em circunstância nenhuma, adquirir nada que se coadune com a passagem dêsse grande Dia.

Muitas pessoas, pretenderam adquirir um par de sapatinhos ou uma roupinha nova para os filhos, na ocasião da Data da Cristandade. Três ou quatro pares de calçados, do tipo “popular” (mesmo porque não existem sapatinhos do tipo “miserável”), ficam rondando a casa dos 2 mil cruzeiros. Não um terninho, mas simplesmente a fazenda (de “segunda” e da mais barata imaginável), para um feitio de roupa “a martelo”, sem muitos enfeitos, sem botões caros, etc., ultrapassa a importância de 200 cruzeiros. E sairá um “terninho” que significará uma afronta ao próprio substantivo! Óra, só aí, para uma família de quatro ou cinco crianças, já terá o pai pobre que dispender, aproximadamente, 3 mil cruzeiros, ou seja, quase o ordenado do mês de dezembro. Acrescente-se a isso, a carência da aquisição de um vestido para a esposa, a identificada e desfibrada esposa do pobre. Ou um par de sapatos (às vezes uma simples sandália – o que hoje custa o preço de um sapato de primeira há pouco tempo atrás). Ou uma camisa para o chefe da família (hoje quase pelo preço de um terno de boa casimira há 10 anos passados).

A isso tudo, acrescente-se a urgência de alguns brinquedinhos, pois mesmo filho de pobre é filho de Deus. Qualquer que seja o brinquedo, por mais simples, banal e ordinário, custa os “olhos da cara”. E filho de pobre que não ganha seu presentinho de Papai Noel, não consegue ocultar o sentimento misto de revolta a incompreensão, que lhe domina o pequenino sêr, quando nêsse grandioso Dia de Natal, vê a criançada tôda, eufórica nas ruas, exibindo brinquedos e comparando-os entre si. Cresce, por força das circunstancias, com complexos e recalques, que, sob nenhuma desculpa, podem ser condenados.

Agora, a necessidade de, no mínimo, um almoço melhor, nem que seja uma pequena variação no indefectível prato “padrão” dos brasileiros (principalmente os pobres), que é o batidíssimo feijão com arroz. Frango? Leitoas? Perús? Não; apenas um pouco de macarrão, apenas um pedacinho a mais de carne de vaca; um guaraná para as crianças e talvez um copo de cerveja ou de vinho vagabundo para os adultos.

Qualquer pessoa poderá fazer êsse cálculo e verá com extraordinária facilidade matemática, como será o Natal do Pobre êste ano.

E não computamos nessa conta, por significar uma “abusiva pretensão”, a compra de algumas castanhas, nozes, figos, avelãs, ou passas! Isso não está nas cogitações dos pobres, pelos preços verdadeiramente proibitivos que apresentam.

As comparações acima ficaram dentro do plano da vida puramente normal. Já imaginaram os leitores, que, além dêsses fatos apontados e que ninguém poderá refutá-los, se um pai de família com 4 ou 5 filhos passará um mês sem precisar de médico e farmácia? E igualmente imaginaram em quanto importa uma simples consulta e uma simples receita médica?

Depois de amanhã será o Dia de Natal. A grande Data, transformar-se-á num martírio, num verdadeiro pesadelo, para muita gente.

Infelizmente!

Extraído do Correio de Marília de 23 de dezembro de 1958

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Igreja e a Reforma Agrária (20 de dezembro de 1958)

O problema da Reforma Agrária, no Brasil, é bem mais idoso do que possa parecer à primeira vista. Do mesmo já se ocuparam estudiosos diversos que o abordaram e focalizaram-se sob diversos prismas e aspectos.

Muita gente se ocupou da questão referida: estudiosos, pseudo-estudiosos, bem ou mal intencionados, políticos ou não, até demagogos e preconizadores de doutrinas políticas aversas ao regime nacional.

A Reforma Agrária, executada conforme deve ser, sem que sirva de motivos de exploração ou aproveitamento para politiqueiros profissionais, que se enquadre em seus objetivos, precípuos, de amparo e fixação do homem do campo, dentro de seu próprio “habitat”, estancando o nocivo êxodo rural, é boa e necessária.

Muitas explorações têm sido realizadas em torno dêsse problema, que, apesar do sentido patriótico que apresenta, não escapou ao manuseio de politicagens e de politiqueiros.

Agora, a própria Igreja, talvez preocupada não só com o problema em si, mas com o andamento de idéias que em torno do mesmo se realiza, sem nenhum resultado de efetividade, resolveu também tomar parte nessa questão. D. Helder Câmara, Arcebispo Auxiliar do Rio de Janeiro, afirmou recentemente, em entrevista à imprensa:

“A Igreja fará a reforma agrária. O problema é complexo e não sòmente da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Sua execução e solução dependem de uma completa concatenação de forças oriundas de todas as dioceses do Brasil”.

Acrescentou que a Igreja dará toda a assistência técnica e financeira às famílias que se deslocarem para o Interior, a fim de habitarem terras oferecidas pelas arquidioceses e dioceses brasileiras. Casas simples, mas confortáveis, serão construídas em pleno sertão brasileiro. Transporte será fornecido e instrumentos de trabalho serão distribuídos e cada família receberá gratuitamente assistência alimentar durante os primeiros tempos de trabalho.

Mais adiante o arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro declarou: “a hora ainda não chegou, mas no momento oportuno virá a reforma agrária. A Igreja de Jesus Cristo será a primeira a dar o exemplo de pôr em prática a doutrina social-cristã. Os problemas sociais se avolumam dia a dia, os homens vão cada vez mais ficando apalermados diante da brutalidade da vida. Cumpre, portanto, à Igreja, orientá-los e encaminhá-los por um caminho seguro. Para isso tem ela a experiência adquirida em dois mil anos de lutas em todos os quadrantes da terra”.

Finalizando d. Helder asseverou: “Faremos sem dúvida a reforma agrária no Brasil e será para breve, muito breve mesmo. Não há tempo a perder. A Igreja está estudando o assunto. Medidas estão sendo tomadas e qualquer hora poderei chamar os jornalistas e dizer-lhes: “Seguiram as primeiras famílias que irão habitar em terras próprias cedidas pela Igreja”.

A idéia, como se vê, principiou a preocupar a Igreja Católica, numa demonstração evidente de que o problema é digno de atenções e que suas providências estão a exigir mais do que simples figurar em estatutos de partidos políticos ou servir de ilustrações demagógicas para candidatos à pleitos.

Vamos, pois, aguardar o desenrolar dessas providências, óra preconizadas pelo Arcebispo da Capital Federal.

Extraído do Correio de Marília de 20 de dezembro de 1958

domingo, 19 de dezembro de 2010

Aumento de taxa de água (19 de dezembro de 1958)

Em junho último, aprovava a Câmara local, a Lei n. 986, dispondo sôbre a majoração das taxas de consumo de água, a partir de janeiro próximo.

Na ocasião, comentamos o fato reservadamente, tecendo em torno da questão, nossas habituais críticas, de caráter construtivo.

Pendíamos para a conformação do assunto, quando na reunião extraordinária realizada pela edilidade na última segunda feira, nos forçou a retornarmos ao problema.

Entendemos que a Câmara Municipal de Marília laborou um grande equivoco, ao rejeitar a emenda da Comissão de Justiça, apresentada ao parágrafo único do artigo quarto do projeto n. 1062, da Prefeitura, óra aprovado e que deverá ser convertido em lei. Como sabem todos, o mencionado projeto dispõe da autorização ao Executivo, para contratar empréstimos com a Caixa Econômica do Estado, no montante total de Cr$ 6.815.000,00, destinado aos serviços de reforço de rêde de abastecimento de água da cidade.

Óra, a emenda referida, aconselhando a supressão do parágrafo citado, visava evitar que o referido dispositivo (aprovado integralmente), outorgasse poderes amplos ao sr. Prefeito, para tributar, à custa de simples decreto executivo, as taxas do consumo de água do município.

Tal autoridade conferida ao Prefeito, parece-nos ter fugido à normal legal, uma vez que o reajustamento das taxas de água é matéria privativa de lei, não de decreto puro e simples da Prefeitura, uma vez que trata de alteração tributária municipal. Assim, dêsses trabalhos, que tão de perto interessam ao povo, devem participar os dois poderes e estranhável é que a própria Câmara, por iniciativa própria, tivesse ficado alijada de participação da providência dêsse porte.

É claro, que não iremos aqui insinuar, nem de leve, que a promulgação do projeto de lei 1062, deixaria o sr. Prefeito à cavaleiro, para tributar arbitrariamente as referidas taxas. Acontece, que, por força dêsse diploma legal, êle poderá fazê-lo, sem que a ninguém (nem mesmo a Câmara) assista o direito de protestar!

Estamos encarando a questão, pelo lado legal e embora não sejamos nós cultores de direito, bem sabemos que o êrro laborado pela Câmara nêsse particular, está merecendo algumas críticas, pela espécie que causou em diversas camadas sociais da cidade. Por outro lado, agrava-se mais ainda a medida em referência, em vista de que, a própria Comissão de Justiça, cônscia de suas altas responsabilidades e com a credencial da paternidade da emenda de supressão ao parágrafo único do artigo quarto do mencionado projeto, alertou convenientemente aos senhores vereadores, acêrca da questão. Os edís Durval Sproesser e Álvaro Simões, ocuparam a tribuna da Câmara, para chamar as atenções dêsse pormenor, cujos apêlos não foram considerados no resultado final da votação. Daí, o julgarmos que maior é o êrro referido.

Nessas condições, seria justo que a edilidade mariliense, na sua primeira reunião ordinária do próximo ano, votasse uma lei que revogasse o disposto no preceito referido, corrigindo assim, o lapso patente óra apontado.

Nenhum desdouro existe em errar. Má repercussão causa a realização de um êrro consciente.

Extraído do Correio de Marília de 19 de dezembro de 1958

sábado, 18 de dezembro de 2010

Motivo que dá tratos à bolas (18 de dezembro de 1958)

Escrevemos ontem (17/8/1958), sôbre a questão do congelamento dos preços, óra preconizada pelo sr. Presidente da República. Finalizamos nosso artiguete, citando um dito humorístico de um jornalista colega, que, a julgar pelas medidas propaladas, os grandes comerciantes, teriam mesmo, em face ao congelamento, que “se conformar com um lucro de 300% e nem um tostão a mais”.

De início, poderia tal afirmativa parecer uma exageração sem precedentes, ou confu(n)dir-se simplesmente com uma ironia à uma classe. Entretanto, se analisarmos um único fato (dos muitos que existem), constataremos que, no fundo, a sátira em apreço tem lá a sua razão de ser.

O afirmar-se que, com o congelamento dos preços, os lucros seriam fatalmente reduzidos a apenas 300% para alguns comerciantes, poderá encontrar alguma ressonância dentro do cabível, se atentarmos para um particular que se verifica à miude, não só em Marília, como também em Niterói, na Conchinchina e mesmo na Gomarábica. É a questão das “grandes baixas” e “formidáveis liquidações” (“liquidações” que precisam ser liquidadas)!

Vê-se constantemente, no comércio atual, especialmente no chamado “moderno”, o fato de um artigo que vinha sendo vendido por um preço “x” e que, em uma ocasião posterior, é remarcado para o preço “y”, isto é, com uma baixa, assim “de cara”, de até 50%!

Exemplificando: O comerciante Balduino vende um produto, durante o ano todo (e já há anos), pelo preco de Cr$ 2.998,00 (o que significa 3 mil cruzeiros). Um dia, assim sem mais nem menos, êsse mesmo produto, sem mudar de posição ou de vitrina, surge com um pomposo cartaz onde se lê: “De Cr$ 2.998,00 por Cr$ 2.049,00”.

Óra, não é preciso ser-se muito inteligente, para deduzir logo, que a citada mercadoria, “baixada” para Cr$ 2.049,00, está oferecendo ao comerciante a natural margem de lucros. E, se por Cr$ 2.049,00 já dá a compensação desejada, porque nenhum comerciante trabalha mesmo de graça (uma vez que nenhum comerciante é relógio), não é difícil concluir, que o lucro seria extraordinário, quando vendida a mesma mercadoria ao preço anterior. Quer dizer, que, por exemplo, a mercadoria vendida depois de “remarcada” por Cr$ 2.049,00, estará dando, no mínimo, 550 a 600 cruzeiros de lucro, correspondendo aos 30% (será que todos se conformam com essa “insignificante” margem?); deduz-se então, facilmente, que antes do “remarque”, o lucro cogitado seria de 160 a 185%, sem outra apelação.

Não é um motivo que dá tratos à bola? Não é um fato que faz com que o consumidor desconfie de certas “baixas de preços” que campeiam por aí afóra, em todos os rincões do país?

Isso até nos faz lembrar a anedota seguinte:

O caixeiro de uma casa de roupas e artigos para homens, explicou ao gerente que as gravatas (“italianas”, fabricadas em São Caetano), pelo preço de Cr$ 90,00 não estavam “saindo”, porque todos os clientes achavam-nas demasiado caras. Foi então que o gerente, velha “raposa” no comércio paulistano, sem se agastar e sem muito pensar, assim instruiu o banconista:

- Ponha essas gravatas na “vitrine de liquidação”, com a seguinte legenda: “De 210 por 115 cruzeiros”. Verá como não sobra uma!

Extraído do Correio de Marília de 18 de dezembro de 1958

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Congelamento de preços (17 de dezembro de 1958)

O efeito da bomba que se esperava, no tocante ao congelamento de preços, aquí em Marília, até agora, não teve siquer o espoucar de um traque.

Se os comerciantes estão atarantados e incertos, como não estará o próprio povo, com respeito a esse problema, que, por antecipação, se apresentava como um paliativo esperançoso para a atenuação das agruras das bolsas póbres?

O certo é que o mariliense, até hoje, não sabe explicar o que é o congelamento de preços como tão-pouco não é capaz de dizer se o mesmo traz benefícios ou malefícios. Em nossa cidade, na prática, nenhuma medida existe em pról da economia popular nesse sentido. Alguns comerciantes, receiosos de quaisquer aborrecimentos, estão vendendo determinadas mercadorias sem aqueles saltos de preços fantásticos, por conta própria e baseados nas cotações divulgadas para a Capital.

Não temos nenhuma COMAP organizada (e isso há vários anos). Buscamos conhecer os membros do organismo próprio, aos quais estivesse aféta a responsabilidade dessa fiscalização e das providências necessárias, tão rijamente apregoadas pelo sr. Presidente da República e nada conseguimos apurar.

A situação, ao contrário, tende a piorar. Os pequenos comerciantes, especialmente aqueles que estão lutando com capital ínfimo, estão desesperados, alguns pensando até em mudança de ramo ou de profissão. E justificam a ameaça ou o pensamento, alegando que certas mercadorias, na cidade, são vendidas pelos atacadistas, aos preços constantes na lista oficial do congelamento imperante em São Paulo (que refere-se aos consumidores). Óra, é justo que se esses pequenos comerciantes adquirirem mercadorias aos preços tabelados pelo congelamento (que em Marília até agora não passa de uma utopia), não poderão vende-los, senão por preço superior, uma vez que terão que considerar os acréscimos naturais de impostos, carretos, lucros normais, etc.. E qual o comerciante sensato que irá adquirir uma mercadoria por um preço tabelado em seu této, para revende-la expedindo um(a) Nota Fiscal com uma cotação acima da tabela? Só um idiota, é claro.

Daí o perceber-se que se não se tomarem medidas esclarecedoras e providenciais com respeito ao fato, estaremos nós, os marilienses, sacrificados.

Por outro lado, o congelamento parcial, conforme foi declarado, é como um nocivo analgésico: engana que cura apenas, quando vicia e traz consequências piores. Como se isso não bastasse, verificamos nos últimos dias, um movimento altista incrível, no setor dos preços das mercadorias não tabeladas, especialmente no que diz respeito às latarias. Quer dizer, grandes comerciantes estão tirando uma “casquinha” por outro lado, compensando a diminuição dos lucros advindos dos produtos cotados na tabela do congelamento que em Marília ainda é um mito.

Em face disso, em vista da pusilanimidade da COMAP ou de outro organismo que se desincumba da missão conforme aguarda esperançoso o povo sacrificado, só mesmo parodiando uma oportuna piada de um jornalista amigo:

- Com esse negócio de congelamento os grandes comerciantes terão mesmo que se conformarem com um lucro de 300% e nem um tostão a mais!

Extraído do Correio de Marília de 17 de dezembro de 1958

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Ave, Araçatuba! (16 de dezembro de 1958)

Com inusitado orgulho, estão os araçatubenses comemorando o evento feliz, do transcurso do primeiro cinquentenário de sua belíssima cidade.

Só os que de perto conhecem a “Capital da Noroeste” e seu grande, bom e laborioso povo, melhormente poderão aquilatar as razões da natural e incontida euforia, que, tão justamente domina os habitantes da majestosa “urbe” noroestina.

Os que tiveram a felicidade de privar com aquela gente amiga, desfrutando o bem estar da família araçatubense, partilham também, embora à distância, da alegria dêsse acontecimento tão grato e tão auspicioso.

Nós, que, por excelência, somos apologistas daquilo que se convencionou chamar de “bairrismo” e que isto entendemos não como um pejorativo, mas sim como um sentimento natural de patriotismo e amor a um torrão, congratulamo-nos na oportunidade dessa efeméride, com o grande povo araçatubense.

Araçatuba, completando cinquenta anos de independência municipal, pode ostentar com orgulho uma folha de realizações que ultrapassa sua idade, assim como o cidadão vivido, que, embora apresente 30 anos em seu registro de nascimento, é capaz de defender realizações e experiências mais avantajadas e mais sólidas e eficazes do que o indivíduo de 60 pusilânimes primaveras.

Cem mil almas aproximadamente, representam a população da linda cidade. Ruas inteiramente asfaltadas, dentro de um traçado urbanístico original e “sui generis”, com “arranha-céus” imponentes que se lançam ao éter e sintetizam o progresso de um centro e uma gente, fervilhando o próprio dinamismo do Estado líder da Federação, identificam Araçatuba, como uma das mais ricas, exuberantes e prosperas cidades da “interlândia” paulista. Vida trepidante, onde o germe do modernismo não encontra anti-biótico que o combata, alentado e alimentado pelo calor progressista de sua própria gente, Araçatuba torna-se digna de admiração e respeito. Região invejável no campo pecuário, tem projeção definitiva dentro do setor agrícola em geral e distingue-se facilmente no parque manufatureiro do interior.

Sua projeção dentro do prisma social, literário e assistencial, é qualquer coisa de admirável, impondo um respeito natural, como decorrência de sua própria e irretorquível importância.

Gente boa, comunicativa, amiga, a gente de Araçatuba, onde o cidadão mal chegado torna-se também amigo daquêle povo bondoso e digno.

Na oportunidade dêste registro, permitimo-nos traduzir os sentimentos de todos os marilienses, para enviar daqui, através destas colunas, nosso abraço sincero a Araçatuba e seu grande povo, pelo ensejo dêsse magnífico evento.

Ave, Araçatuba!

Extraído do Correio de Marília de 16 de dezembro de 1958

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O Natal e os órfãos da Filantrópica (14 de dezembro de 1958)

Aproxima-se o dia de Natal, a festa máxima da Cristandade. Com ele, a alegria natural pelo evento e a esperança verde de dias melhores para o ano porvindouro.

Toda gente procura bem interpretar o significado dessa data majestosa e por todos os lares, desde o mais humilde ao mais abastado, tenta-se emprestar à efeméride um valor invulgar e uma tradução.

Felizes os que, embóra póbres, possam passar tão magnífica data reunidos com suas famílias, ausentes de doenças e aborrecimentos que destas resultam.

Há os que, entretanto, não possuem o calor de um lar de sua propriedade natural, não contam com o aconchego daquele calor paterno e materno, embora vivam num ambiente condigno e humanitário. Várias facções se incluem nesse particular, mas as que mais sofrem e as que mais sentem essas agruras, são, por certo, as criancinhas com a mente em formação. Pensamentos infantís não estão bem aparelhados para receber o impacto desses resvaloes da própria desdita, desdita atenuada ou diminuída pelo carinho e amor do próximo, conforme é o caso das crianças que se abrigam sob os tétos do Lar da Criança e da Associação Filantrópica.

Jamais faltou, entre nós, mercê de Deus, pessoas que não cooperassem com as piedosas missões referidas. Entretanto, a Filantrópica, como todos os anos, faz um apêlo mais profundo aos marilienses em geral, no sentido de que todas as famílias que podem, vão buscar na “chácara dos órfãos”, uma ou duas crianças, para que estas passem o Dia da Cristandade num Lar verdadeiro, tenham o convívio de uma família, sentando-se à mesa dentre poucas pessoas, convivendo, enfim, num ambiente diferente daqueles que, embora completo, habitam durante o ano inteiro.

Por nosso intermédio, os dirigentes da Filantrópica esperam, como tem sucedido nos anos anteriores, que famílias marilienses proporcionem nas medidas possíveis, essa felicidade aos meninos alí internados. Portanto, os que pretenderem proporcionar aos meninos da Filantrópica uma passagem do dia de Natal junto aos seus familiares, que se comuniquem com a direção da entidade, apontando o número de menores que poderão ir buscar. Essas medidas de comunicação prévia, muito auxiliarão os dirigentes do mencionado organismo, que poderão assim, em tempo hábil, proceder a distribuição normal dos meninos e ao mesmo tempo controlar a questão da alimentação, sem o risco de preparar comida de mais ou não como tem acontecido no passado, quando poucos meninos deixaram de ser procurados no Natal, na mesma ocasião em que a cosinha da Filantrópica, sem base certa, preparara a alimentação para a totalidade.

Aquí fica, portanto, o apêlo da Filantrópica, que, em síntese, traduz também o desejo e a alegria dos garotinhos órfãos ou desamparados que sob aquele této se encontram recolhidos.

Extraído do Correio de Marília de 14 de dezembro de 1958

domingo, 12 de dezembro de 2010

Mais um Posto de Abastecimento do SESI (12 de dezembro de 1958)

Na última reunião da Delegacia Regional do CIESP, por ocasião da indicação de nome para figurarem como membros da COMAP, veio à baila uma questão de sua importância para a classe industriaria mariliense: à idéia de empenhos junto ao Serviço Social da Indústria, no sentido de dotar Marília de mais um Pôsto de Abastecimento daquêle organismo.

Nossa cidade já conta com um dêsses estabelecimentos, que incontáveis préstimos e facilidades oferece aos contribuintes do IAPI. Ali, em virtude da isenção de determinadas taxas e impostos, gêneros de primeira necessidade são adquiridos pela grande e laboriosa classe, por preços inferiores aos do mercado normal. Significa isso, numa ocasião em que tantas queixas existem contra os IAPS, no que tange a falta de amparo condigno aos contribuintes interioranos, uma forma de retribuir pelo menos em parte direitos adquiridos.

Nossa cidade, embora não seja “velha”, não deixa de apresentar a condição de um grande centro. Suas dimensões são gigantescas e a “urbe” se espalha num apreciável raio de quilômetros quadrados de número superior a inúmeras outras importantes comunas interioranas. Uma única casa dêsse gênero, lógico é, não pode prestar serviços a todos os industriários, em virtude de sua localização que só pode servir de fato a uma parte da cidade. Nessas condições, urgente se faz a criação e instalação de outro Pôsto, localizado em ponto divergente e estratégico, de maneiras a oferecer facilidades aos demais industriários de Marília. O problema, portanto, é localizar duas (no mínimo) casas dêsse gênero, em pontos diferentes que atendam dentro do máximo possível, a classe que ali se beneficia por direito formal.

A idéia, conforme estamos vendo, é ótima e deve merecer as atenções de quem de direito. Igualmente, os empenhos da Delegacia do CIESP local e mesmo de nossa Câmara Municipal. Que se faça chegar ao conhecimento dos responsáveis pelo citado órgão, essa carência de Marília. E que no pedido, não conste apenas isso, como igualmente se reivindique para nossa cidade, especialmente para os industriários, um Ambulatório do IAPI, organismo que Marília reclama de há muito e que até agora não foi instalado, apesar do grande número de contribuintes locais ao citado Instituto e apesar ainda da necessidade imprescindível que tal fato apresenta entre nós, habitantes de uma cidade moderna, dinâmica e progressista.

Já dissemos, repetidas vezes, que as leis que criaram os diversos IAPS são, em seu verdadeiro espírito, coisa muito boa; entretanto, as suas execuções, sob diversos aspectos, desde o nascedouro estão deixando muito a desejar.

Como se tratam de assuntos que devem merecer melhor atenção de quem de direito, aqui fica nosso apêlo, que, esperamos, deverá ser secundado por aquêles que podem, se não interferir, pelo menos reivindicar êsses melhoramentos para a classe dos industriários locais.

Alguém nos ajudará?

Extraído do Correio de Marília de 12 de dezembro de 1958

sábado, 11 de dezembro de 2010

A Segunda Vara Judiciária (11 de dezembro de 1958)

Não data de hoje os esforços de Marília, através de seu povo e seus diversos órgãos representativos e poderes constituídos, além da imprensa, no sentido de serem desdobrados os serviços forenses da Comarca, com a criação de mais uma Vara Judiciária.

O assunto, prenhe da mais integral justiça e sem nenhuma aparência ou realidade de pretensão pura e simples, mereceu atenções especiais de nossa edilidade, da Sub-Secção local da Ordem dos Advogados do Brasil e também de nossa parte (Jubileu de Prata da Comarca, artigo publicado em 16 de setembro de 1958).

Muitos empenhos foram feitos nesse sentido, com justificativas das mais abalizadas e com a apresentação de provas as mais satisfatórias possíveis. O número de processos, de diversas faces, a serem apreciados e julgados por um único magistrado em Marília, demandam esforços verdadeiramente sobre-humanos, tornando impossível a uma só pessoa, por maior boa vontade que possua e por mais despreendida que seja, sem desempenho completo e rápido. Mesmo assim, mercê do espírito de abnegação do Juiz de Direito da Comarca, que, por força legal acumula também os cargos de Juiz de Menores e Juiz Eleitoral, a situação a esse respeito caminha de modo aceitavelmente satisfatório. Entretanto, se desafogados esses serviços, sobrecarregar-se-ia menos um único Juiz, seriam criados mais cartórios de oficio e Marília conquistaria, nesse setor, sua verdadeira posição, principalmente tendo-se em conta que incontáveis cidades de menor movimento forense contam com mais de uma Vara Judiciária, atendendo perfeitamente os reclamos de suas próprias exigências e necessidades.

Séte anos duram os trabalhos desse porte, em que os marilienses não esmoreceram jamais, uma vez que das mais necessárias são as providências desse desdobramento.

A idéia e a luta, que assemelhava apresentar aquilo que se chama “caveira de burro”, parece que agora tende a chegar a um bom têrmo, com a manifestação favorável do Egrégio Tribunal de Justiça, que, vindo de encontro aos marilienses e dando uma demonstração inequívoca de competência de julgamento das necessidades à sí afétas, enviou mensagem à Assembléia Legislativa, encarecendo a urgência Marília poder contar com mais uma Vara Judiciária e no mínimo, com mais um cartório de ofícios.

Nós, que participamos ativamente dessa luta desde o ano de 1951, nos sentimos satisfeitos pelo andamento esperançoso que a mesma acaba agora de apresentar, dando-nos a certeza de que, a digna Assembléia Legislativa, considerando o pedido constante da Mensagem em apreço, bem saberá interpretar as necessidades de Marília, vindo ao encontro dessa luta de todos os marilienses.

Está, portanto, em vias de concretização esse nobre ideal, cuja vida representa necessidade indiscutível para todos nós.

Oxalá a Assembléia pense como pensam os marilienses e se digne aprovar e votar a lei que disporá sobre o desdobramento dos serviços forenses em nossa dinâmica Comarca de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 11 de dezembro de 1958

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ser póbre é ser malabarista (6 de dezembro de 1958)

Em conversa conosco, mostrava-se um amigo, admirado de que ele, com apenas dois filhos e ganhando relativamente bem, não conseguiu nada mais fazer do que tratar a família com palpável dificuldade, enquanto outras pessoas, com família mais numerosa e ganhando menos, conseguem até dar-se ao luxo de possuir casa própria.

De fato, têm razão, apenas que não se dignou encarar as coisas como elas realmente são. Por exemplo, a outra pessoa citada pelo nosso amigo, embora “dando-se ao luxo de possuir casa própria”, leva, forçosamente a vida de maneira diversa, não vivendo, mas apenas vegetando. Um mês paga a farmácia e não paga o armazém. Outro, paga o armazém e não paga o açougue. No outro, paga o açougue e não paga a quitanda. E assim por diante. Os filhos vivem mal vestidos e sub-alimentados.

Milagre ninguém faz, a não ser Deus. Os filhos da “outra pessoa” não podem usar calçados, “embora morem em casa própria”, não vão ao cinema e nada mais estudam do que o elementar curso primário.

Só assim se é possível, portanto, explicar o “fenômeno” que tanto impressionou nosso interlocutor. Isto porque, ser póbre, hoje em dia, é ser malabarista e malabarista de primeira categoria. Senão, vejamos:

Supondo que uma família com três filhos menores ganhe, não o salário mínimo, mas seis mil cruzeiros, como será distribuída éssa importância, ante os gastos naturais e forçados(?) Numa “ginástica” dos diabos, o póbre homem deverá pagar no mínimo 2 mil cruzeiros por uma “tapera” de táboas, num bairro distante da cidade. O ordenado já ficou reduzido a 4 mil cruzeiros. Óra, uma família de três filhos (5 pessoas ao todo), come com cautela (e sem desperdício), 15 quilos de arroz, 5 de feijão, 2 latas de manteiga (com miséria, neste caso), cebolas, café, etc, etc., etc.. Isto tudo, comprando só o mínimo e escolhendo o pior artigo pelo preço mais barato possível, custa aproximadamente 3 mil cruzeiros (por baixo, bem entendido). Já sobrará apenas mil cruzeiros. Leite, lenha, luz, água, não se contando pequenas extravagâncias normais na vida de todo o ser humano, não se incluindo taxas escolares, cadernos, uniformes, etc., é possível viver um cidadão nessas condições?

E observe-se que fizemos a hipótese da pessoa ganhar seis mil cruzeiros, quantia éssa que poucos bons e antigos empregados de nosso comércio ou indústria conseguem perceber!

Isso, sem contar-se com um simples xaropinho para tosse, que custa 80 cruzeiros. E os calçados(?) E as roupas? E a necessidade de adquirir, vez por outra uma coisa rara e extraordinária, como duas castanhas agora para o Natal? E se o homem fumar?

Também isso não é nada. O pior, o pior mesmo, é quando o póbre fica doente. Serviços médicos custam fortunas. Medicamentos, idem. Uma consulta fica em 300 cruzeiros, quando não fica em quinhentos e quando não sai até em mil cruzeiros, dependendo do volume da conta em face do número de visitas. Serviços dentários, idem. Uma chapa de Raio X já passa de meio “conto de réis”, quantia que um operário trabalha quasi uma semana para ganhar. E a cirurgia, quando é preciso? Póbre póde ficar doente? Uma operação, conforme o caso, fica até em 20 ou 30 mil cruzeiros, importância que muita gente não ganha em seis meses ou mais de trabalho. Os serviços hospitalares também são caríssimos.

Por aí, verá nosso amigo, que tudo está certo (infelizmente), para os póbres. Muitos médicos falam em 5, 10, 20 contos para o doente, assim tão calmamente, que o doente pensa que os mesmos estão brincando! Hoje até a morte está cara, até a morte subiu de preço. Em São Paulo, por exemplo, o humorismo de algum já declarou: “De agora em diante acabou o perigo de herdeiros matarem-se entre sí por causa da herança; não haverá mais herança; acabará com o próprio enterro”.

Resta ainda um consôlo ao póbre: que o tal de congelamento tenha vida longa e que de fato o beneficie um pouco, com o aumento do salário mínimo... porque fazer malabarismo também cansa!

Extraído do Correio de Marília de 6 de dezembro de 1958

domingo, 5 de dezembro de 2010

Brinquedos para as crianças pobres (5 de dezembro de 1958)

Aproxima-se o Natal, data máxima da Cristandade. Ao par das festividades naturais e tradicionais do grande dia, comum é o premiar-se as crianças com brinquedos. O costume generalizou-se e não há criança que não alimente uma esperança, por mais leve que seja, de ser aquinhoada com um presentinho qualquer.

Pais de família, mesmo pobre, realizam esforços por vezes ingentes e sacrificiosos, para fazer com que seus filhos não fiquem em condições de inferioridade ante os filhos dos vizinhos, para que não cresçam com complexos ou para que não apresentem recalques ou afetações. É natural, pois, tal sacrifício dos pais de família.

Entretanto, muitas crianças não poderão ser beneficiadas com essas providências. Principalmente as órfãs ou desamparadas.

Com respeito a êsse fato, êste diário inicia hoje, fundamentada na compreensão do público mariliense, uma campanha de aparência que poderá até ser interpretada como pueril, mas que não significará oneração para ninguém e que tem por objetivo único, oferecer brinquedos aos meninos da Filantrópica e às meninas do Lar das Crianças.

Como dissemos, trata-se de uma campanha que não acarretará dispensa de dinheiro aos seus colaboradores, aos marilienses que da mesma quiserem acercar-se. Consiste no seguinte:

Todas as crianças que possuam em suas casas, brinquedos já considerados velhos (bonecas, carrinhos, etc.), e que deverão receber, no próximo Natal, à exemplo dos anos anteriores, a visita de Papai Noel, que nos dispensem os objetos em desuso (ou que serão substituídos), para que possamos nós, em nome da própria petizada mariliense, distribuí-los aos meninos que se abrigam na Associação Filantrópica e às meninas que são amparadas pelo Lar da Criança.

Como vêem, fácil será colaborar nessa campanha. Dificilmente haverá um lar onde existam crianças, que não se encontre um brinquedo velho, porém prestável. Pequeno será o sacrifício de desfazer-se de um objeto nessas condições, em favor daquêles que não teriam outras chances de conseguir também um presentezinho próprio de sua idade e próprio de tão majestosa data como o Dia de Natal.

Portanto, nosso apêlo aos garotos marilienses, às meninas de Marília, para que nos tragam seus brinquedos velhos a fim de que nós o entreguemos àquêles que não podem comprar brinquedos novos. E que venham os próprios meninos e meninas até nossa redação, dando-nos o nome e endereço, para que possamos oferecer, em seus próprios nomes, os brinquedos aos órfãozinhos de nossa cidade. Não haverá nenhum motivo de vergonha, em oferecer-se um brinquedo usado a um menino ou menina que foi marcado pela desdita de não ter um lar com o calor materno e paterno; pelo contrário, haverá neste gesto, um mundo de compreensão, de amor ao próximo, de solidariedade.

É um meio fácil de remediar-se uma situação de aparência ínfima, mas que apresenta grandiosidade problemática, especialmente para os dirigentes das duas instituições referidas. Por outro lado, alegres ficarão os que receberem, da criançada mariliense, um presentinho amigo, embora usado, desde que se encontre ainda em estado aproveitável.

Lembramos aos meninos e meninas marilienses que quiserem colaborar conosco nessa campanha, que os brinquedos embora usados, deverão estar em condições utilizáveis, pois não disporemos de meios ou tempo para reconstituir brinquedos inutilizados.

Ao lançarmos êsse primeiro apêlo aos marilienses, dirigido em especial aos meninos e meninas de Marília, certos estamos de que a criançada de nossa cidade saberá, assim como os adultos, compreender e cerrar fileiras em tôrno dêsse encarecimento.

Garotos, garotas, tragam portanto à redação do “Correio de Marília”, os brinquedos usados (dos anos passados), para que êles que já alegraram a vocês, possam ainda alegrar os coraçõeszinhos de mais de duas centenas de outras crianças, que se encontram sob os tetos do Lar da Criança e da Filantrópica.

Vocês vão colaborar?

Extraído do Correio de Marília de 5 de dezembro de 1958

sábado, 4 de dezembro de 2010

Círculo de conferências (4 de dezembro de 1958)

Não há muito, dissemos através desta coluna, que urge em Marília a arregimentação de valores intelectuais, em projeção ou formação, no sentido de fundar se em nossa cidade um Círculo Cívico de Conferências.

Tal organismo, é hoje em dia imprescindível aos grandes centros e aos grandes povos. O despertar-se o gosto por assuntos diversos, com palestras, conferências e mesmo debates democráticos e esclarecedores, representa uma lacuna para os marilienses, especialmente para aqueles que alentam ou alimentam gosto pela intelectualidade.

Proporcionar às pessoas nessas condições, a oportunidade de travar conhecimento mais direto, com problemas e causas educacionais, científicas ou históricas, especialmente questões de mais importância momentânea, é uma urgência inquestionável.

Raras vezes, conforme dissemos no passado, tem tido o mariliense o ensejo de apreciar palavras de autoridades diversas em assuntos variados, que, sob o patrocínio de uma ou outra entidade, aquí tenham se apresentado.

O ponto que estamos focalizando, faz parte integrante da própria cultura de nossa gente e não sabemos como até agora ninguém lembrou de pô-lo em prática. Conforme ainda dissemos anteriormente, não fôra os esforços da Sociedade Luso-Brasileira, União dos Treze e outras entidades, dificilmente teríamos apreciado ilustres personagens falando aos marilienses, em palestras ou conferências sôbre coisas sérias e úteis.

Existem em nossa “urbe”, pessoas capazes de avivar a idéia e coloca-la rapidamente em vigência. Ilustres professores, médicos e advogados, além de diversos outros estudiosos e amantes desse ideal, poderiam unir-se em torno desse objetivo, instituindo em Marília um Círculo Cívico de Conferências e Debates, que não tivesse cor política sob nenhum pretexto, religiosa, racial ou filosófica. De início, seu funcionamento poderia operar-se exclusivamente com elementos locais (e os há muitos!); posteriormente, quando as condições facilitassem, poderiam ser convidados outros valores exponenciais de São Paulo ou outros centros interioranos.

Aquí fica a idéia, para ser aproveitada pelos intelectuais marilienses, pelo vulto que representará a sua realização e pelos efeitos benfazejos que significará, não só no âmbito de nosso município, como também perante a opinião pública de outros centros.

Fácil será aproveita-la, se houver interesse das pessoas que se encontram em condições para tal, que, conforme dissemos, existem em número bastante apreciável entre nós.

Extraído do Correio de Marília de 4 de dezembro de 1958

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Gritas sem razão (3 de dezembro de 1958)

Nosso colega Antônio Fernão de Magalhães, num de seus brilhantes artigos há pouco publicado neste jornal, fez referências à mocidade mariliense e à falta de meios de diversão ou preocupação da mesma.

Não têm razão total, os rapazes que se queixaram ao nosso prezado companheiro. Marília, de fato, é uma cidade pobre no chamado sentido de oferecimento divertivo aos seus filhos. Entretanto, considerando-se a sua idade, Marília ostenta lugar de maior projeção do que muitas de suas irmãs mais velhas e de maiores recursos.

Vejamos: a mocidade clama, porque é u’a mocidade diferente. Diversão de moço de hoje, regra geral, é excesso em qualquer sentido. Comedimento quase não existe.

Temos uma bem organizada Biblioteca Pública, só procurada em último recurso pelos estudantes, como extrema fonte de consultas. Temos uma Sociedade Luso Brasileira, com suas portas abertas, boas discos e aceitável biblioteca. Temos uma piscina regulamentar no Yara Clube. Temos bailes todos os sábados e “brincadeiras” todos os domingos. Temos diariamente meia dúzia de sessões cinematográficas (embora não satisfatórias no que diz respeito à distribuição de filmes). Temos uma Delegacia de Esportes e Educação Física, que vive a queixar-se ante o desinterêsse flagrante da mocidade mariliense, pela cultura física e recreação do corpo, alheiando-se completamente ao esporte amador. Possuímos uma esplêndida Liga Municipal de Futebol, etc..

Não sabemos o que pretendem êsses queixosos. A maioria, pouco estuda. A preocupação que apresenta é a de “passar de ano” apenas, ostentar um diploma, pouco se importando (com raras exceções) se poderá orgulhar-se ou não do título recebido.

Outro dia, presenciamos um fato interessante: o ciclo noturno do ginásio estadual foi dispensado na véspera dos exames, para proporcionar aos seus alunos dos diversos cursos, oportunidade de melhor preparo técnico e teórico com respeito às provas. Dezenas e dezenas de alunos saíram correndo do ginásio e rumaram para os cinemas. Um Comissário de Menores, assustado com a anomalia, procurou entrar em contacto com o diretor do estabelecimento, a fim de saber as razões daquela estranha afluência. Foi inteirado do fato acima e constatou que os próprios alunos, ao invés de aproveitarem a folga para o fim especifico, desvirtuaram a sua finalidade.

Antônio Fernão de Magalhães deveria, na ocasião em que os jovens lhe reclamaram acêrca de falta de divertimentos para a mocidade mariliense de hoje, deveria saber quais as pretensões dessas pessoas. Ou será que êsses moços se incluem no ról dos que como divertimento, dançar o “rock and roll”, tomar entorpecentes, roubar carros e outras coisas?

Somos capazes de apostar que os que se queixaram assim ao Antônio Fernão são filhos de “gente bem” ou então filhos de gente remediada. Filho de pobre, em geral, trabalha e estuda. E sabe discernir a situação, sabe distribuir o tempo, saber aproveitar suas folgas.

Gritas dêsse jaez, são sem razão. E não venham dizer-nos que nós já estamos velhos e não aprovamos o excesso de energia e entusiasmo da mocidade. Absolutamente. Primeiro, porque não somos velhos; segundo, porque já vivemos a vida da mocidade de hoje e em nosso tempo “as comidas” era(m) diferentes, terceiro, porque os que assim gritaram não têm razão nenhuma... ou será que além dos tópicos anteriormente apontados, esses jovens desejariam casinos, jogatinas, caberés tipo “Pigalle”?

Para muitos casos conhecidos de todos nós, não só em Marília mas em todo o Brasil e especialmente na Capital, o que faz falta, não é a diversão pretendida pelos moços, mas sim um pai tipo ditador, daqueles que sua voz em casa é respeitada e trabalho de fato... principalmente trabalho.

Extraído do Correio de Marília de 3 de dezembro de 1958

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Remodelação de valores (2 de dezembro de 1958)

Com vistas à formação da próxima Câmara de Vereadores e com o objetivo de encontrar-se um categórico substituto para o atual Prefeito Municipal, toma vulto na cidade o chamado movimento de renovação de valores.

Do povo, atingiu até os partidos políticos. Pelo que vimos e pelo que conseguimos entender, em rápidos colóquios com altos dirigentes da política local, a idéia contaminou a todos em geral. Hoje em dia, só se fala e só se pensa em aplicar uma vassourada (com licença do sr. Jânio Quadros), nos velhos políticos da cidade, para substituir o número por elementos chamados novos (em idade e em política).

Está aí uma coisa que embora tenha as suas vantagens, não deixará também de apresentar inconveniências, que o bom senso manda analisar e atentar. Se fato é que temos entre nós antigos políticos, hoje carcomidos pelos anos e cujas idéias nem sempre se amoldam aos pensamentos dos novos, ingrato será o desmerecer assim, tão flagrantemente, aqueles que já souberam emprestar um pouco de seu labor e de sua vida pública, à Marília e seu povo. Muitos dêsses homens, se não conseguiram atingir o objetivo colimado, pelo menos, acreditamos, alimentaram ideais são e lícitos, em beneficio de nosso próprio povo. Principalmente, tendo-se em conta que todos os políticos “velhos”, aqui residem há anos, e, melhor do que a gente “nova”, conhecem os problemas gerais.

A nova geração, por sí só, não poderá de uma hora para outra, assumir a Prefeitura e a Câmara, desprezando os conselhos e as experiências dos “velhos”, a menos que aconteça um milagre. Ademais, pelas auscultações que conseguimos captar, os novos políticos que “entrarão na dança”, desta vez, nada mais serão do que discípulos e empregados (o têrmo é rude, mas é real) dos antigos políticos; em resumo, mudar-se-á apenas a fachada do estabelecimento, cujo interior continuará o mesmo.

Então, que não se engane o povo e que não se enganem os próprios políticos – tantos os “velhos” como os “novos”.

Remodelação de valores, conforme está proclamada e divulgada faustosamente, não pode ter meio têrmo; ou é remodelação ou é apenas um enxerto exterior, uma ostentação, de mentira, porque serão apresentados ao público, como nova mercadoria na prateleira de uma casa comercial, apenas nomes que obedecerão diretrizes, normas e ações traçadas pelos partidos e ditadas pelos “velhos” políticos de nossa terra.

E nem poderia ser de outra forma; pelo menos para nós, que não costumamos dormir “com os olhos dos outros”.

Claro está que a adição do chamado “sangue novo” numa legenda partidária sempre causa revoluções, sempre modifica a questão. Isto, entretanto, é quase impraticável. Vimos mesmo na legislatura que expirará no próximo ano (e aqui mesmo em Marília), que o chamado “sangue novo” foi um impecilho à rota política de algumas legendas e que “casos” sem conta foram criados dentro de u’a mesma facção política.

Por aí poderá ver-se que estamos falando com base. E vamos mais adiante ainda, dizendo que os novos dos “novos” óra focalizados pelos dirigentes políticos, obedeceram, regra geral, sugestões e indicações dos “velhos”.

O livro será o mesmo, apenas a encadernação é que variará.

Só creremos na propalada remodelação, no dia em que os “velhos” políticos estiverem, em definitivo, “fóra do páreo” e fóra das direções políticas da cidade. Isso não sucederá, temos a certeza. E se acontecesse, as consequências teriam possibilidades mínimas de êxito total.

Nós somos pela remodelação de valores; mas não do jeito que se está processando e tende a continuar. Não que sejamos contra os “velhos”, porque sempre admiramos e respeitamos a sua experiência, com exceção quando descambam para a politicagem e a caturrice; mas não acreditamos e não temos muita certeza de que se a remodelação se desse como deveria ser, pudesse disso advir o resultado esperado.

De qualquer maneira, o certo será dizer-se que em Marília se cogita e se trabalha pela “inclusão” de “gente nova” na política local, mas nunca dizer-se que se trata de remodelação de valores, porque isso é embuste. Pelo menos, assim pensamos, a menos que consigam provar-mos o contrário.

Extraído do Correio de Marília de 2 de dezembro de 1958

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Curso de jornalismo (29 de novembro de 1958)

Às vezes, acontece. Numa circunstância qualquer, uma pergunta qualquer, de aparência simples ou inocente, pode embaraçar um indivíduo.

Sucedeu conosco tal fato, ainda há poucos dias.

Uma pessoa nos parou na rua. Pessoa que embora conhecêssemos de vista, jamais soubemos o nome e onde trabalha, ou quem é a sua família. Enfim, um mariliense comum. Desculpando-se pela interrupção de nossa caminhada, nosso interlocutor fez questão de confessar-se ledor de nossos escritos e nos atirou, “de corpo presente”, uma carroçada de elogios. Pela abundância de adjetivos com que fomos mimoseados, quase chegamos a crer que David Nasser, Assis Chateaubriand e outros “cobras” fossem “café xicrinha” perto de nós.

Mas, como dizíamos, as perguntas às vezes embaraçam, mesmo sendo banais. Nosso amigo espontâneo, em dado momento da palestra nos perguntou: “Como você aprendeu a escrever?”

Pensando que se tratasse de brincadeira, uma vez que a pergunta nos deixara em situação um tanto esdrúxula, levamos o caso pelo lado que o interpretamos e respondemos que tínhamos aprendido a escrever no grupo escolar.

O homem não se deu por achado e esclareceu melhor seu pensamento: quís saber qual o curso de jornalismo que ostentamos e quando e onde começamos a escrever. E foi mais adiante, dizendo que nós (o autor destas linhas) deveríamos fundar em Marília um curso de jornalismo!

Percebendo que a pessoa falava sério, apressamo-nos em esclarecer-lhe que um curso de jornalismo, embora de duração inferior aos estudos universitários, equipara-se e ultrapassa em certas ocasiões os citados cursos. E que, da mesma maneira que a medicina, engenharia, advocacia, etc., nem todos os que realizam tal curso conseguem sair bons jornalistas, assim como muitos médicos, advogados, engenheiros, etc., que embora diplomados por escolas de renome, jamais deixam de apresentar a condição de profissionais medíocres ou de apagada projeção. Portanto, a questão no caso tem muita relatividade. Ademais, no Brasil, poucos cursos de jornalismo funcionam e poucas pessoas dispõem de meios, vontade e abnegação para realizá-los. A maioria dos bons jornalistas já nasceu feita, embora seus diplomas profissionais, quase geral, sejam de advogados, professores, médicos, engenheiros, etc..

Nosso interlocutor mostrou admiração quando lhe afirmamos que nós nem de vista conhecemos uma escola de jornalismo. E que a maioria dos profissionais de imprensa, especialmente no interior, assim é. No futuro, as coisas tendem a mudar um pouco, porque hoje em dia, infelizmente, estamos vendo muitos jornalistas envergonhando esta pobre, sacrificada e nem sempre bem compreendida profissão.

Nosso amigo não se deu por satisfeito e continuou a afirmar que pelo medo e variedade de assuntos que focalizamos, tendo-se em conta a facilidade de expressão que empregamos, que deveríamos instituir um curso de jornalismo em Marília, mesmo que fôsse de caráter particular, para propiciar aos que alimentam entusiasmo pela arte, o ensejo de aprenderem também um pouco dessa profissão.

Pobre coitado, como está iludido! Querer ser jornalista, para passar necessidade. Jornalista honesto, principalmente do interior, se viver exclusivamente da profissão é capaz de passar fome. Proprietário de jornal, embora reconheça e deseje, não pode remunerar bem seus auxiliares. Jornalismo é um poço de sacrifício, “uma cachaça”, como dizemos em nossa gíria. A incompreensão é muita e a integridade física de quem escreve é uma só. Escrever é quase sempre indispor-se com alguém, porque o que agrada a 50 não deixa de desagradar a 10 ou 20. Toda gente gosta de ser elogiada, todo mundo gosta de “confetis”. Ninguém aprecia ser censurado, mesmo que em têrmos, mesmo que suave ou indiretamente, que logo vem com ameaças de “pegar na esquina”, processar, etc..

Em todo o caso, se êsse amigo tem vocação para o malabarismo de servir como nós, que somos chamados de jornalistas, que vá adiante, que tente. O curso de jornalismo, mesmo particular, apesar das argumentações e insinuações de nosso amigo, não poderá ser feito, pelo menos por nós. Por vários motivos, difíceis de explicar num só escrito. Em todo o caso, para que o mesmo não venha a pensar que ao procurar-nos dispensando-nos ilimitada confiança deixamos de ampará-lo moralmente, de encaminhá-lo pela estrada direita, recomendamos-lhe que procure outra pessoa. Existem muitos jornalistas em Marília mais capacitados do que nós e como professores ou detentores de cursos universitários, talvez possam corresponder aos anseios dessa pessoa.

O dr. Geraldino Furtado de Medeiros é velho jornalista, fundador da Associação Paulista de Imprensa. Dr. Coriolano de Carvalho, reverendo Álvaro Simões, dr. Laércio Barbalho e muitos outros, talvez estejam dispostos a “pegar o pião na unha”... procure-os.

Extraído do Correio de Marília de 29 de novembro de 1958

domingo, 28 de novembro de 2010

Um problema educacional (28 de novembro de 1958)

Nosso companheiro de redação, reverendo Álvaro Simões, eterno preocupado com os problemas de ensino, tendo dado já, sobejas provas de seu acendrado amor pelas causas educacionais, abordou outro dia, na Câmara Municipal, um problema assaz interessante. Diz respeito à necessidade de extinção do chamado tresdobramento dos cursos primários, mantidos pelo Govêrno.

Sabido é que o autor destas linhas não é professor e nem poderia, ante isso discutir a questão dentro de alicerces sólidos e irrefutáveis. Entretanto, por dever de ofício, temos a preocupação natural de apreciar as questões diversas, que digam respeito aos problemas gerais e de interêsse público. No que tange aos problemas de educação, sempre tivemos o interêsse de advogar em suas causas, pela grandeza extraordinária que tais questões encerram em nosso país. Assim é que sempre formamos ao lado daqueles que batalharam ou venham a batalhar sob qualquer forma, pela melhoria ou aperfeiçoamento das coisas educacionais.

Isto posto, resta-nos emitir nosso ponto de vista, que nada mais é do que um endosso ao ideal preconizado pelo ilustre vereador mariliense, cujas idéias seguidamente ilustram as páginas de nosso jornal.

O tresdobramento do ensino primário chega a ser prejudicial à criançada escolar, porque apresenta diversos inconvenientes.

O primeiro deles é de fundo moral e alimentar, pois com a diminuição das horas de ensino e o acréscimo de um terceiro funcionamento de cursos, a garotada integrante do segundo período é amais sacrificada. Os que residem mais distante dos estabelecimentos, por exemplo, terão que almoçar lá pelas 10 horas e sabido é que nesse horário, a alimentação não se casa bem com o organismo de quem vive na cidade e levanta, por isso mesmo, mais tarde (o que não sucede ao adulto, trabalhador rural, que se alça bem cedinho e já toma seu almoço por volta das 10 horas). As crianças assim, se almoçam cedo demais, fazem-no geralmente de modo suficiente (principalmente entre nós e mui principalmente entre as classes pobres e média, onde o número de calorias da alimentação normal fica aquém do exigido pelos dietistas); se deixam para almoçar depois das 14 horas, prejudicam mais ainda o próprio organismo em formação. Além disso, convém frizar que tais cursos não oferecem “recreio” aos alunos que permanecem nas salas de aulas durante três horas consecutivas.

O correto mesmo é o funcionamento desses cursos em dois períodos e não em três, com a assistência de quatro horas de aula, incluindo-se o descanso representado pelo natural “recreio”.

Nossas autoridades escolares devem, portanto, analisar a questão em fóco, pois, parece-nos (falamos como simples pais de alunos e não como entendidos no assunto), é este o processo que melhor se coaduna com os interêsses gerais e com o próprio bem estar da garotada estudantil. Por outro lado, uma vez que os programas letivos são estandardizados, lógico é que os estabelecimentos que funcionam pelo processo de tresdobramento têm que apertar o programa, uma vez que idênticas matérias que seriam normalmente ministradas num período de quatro horas diárias, ficam obrigatoriamente cingidas a três horas apenas.

Estamos com o ponto de vista do nosso companheiro e com ele nos solidarizamos na defesa desse ideal, digno, por todos os sentidos, de merecer uma atenção das autoridades responsáveis pelo ensino primário em nosso Estado.

Extraído do Correio de Marília de 28 de novembro de 1958

sábado, 27 de novembro de 2010

O Divórcio (27 de novembro de 1958)

Por mais de uma vez, foi feita no Brasil a tentativa da instituição do divórcio entre nós. Por mais uma vez também, frustrada foi a idéia, que movimentou inúmeros intelectuais e estudiosos, com o acarretamento de discussões, polêmicas e apreciações sôbre âugulos diversos.

O problema é complexo, dizem.

Encontramos em nossa redação, correspondência dirigida ao autor desta coluna, solicitando nosso pensamento a respeito. Certo é que a carta veio com endereço errado, pois seríamos nós os menos capazes de emitir uma opinião segura sôbre tão arrebatadora questão.

Não nos furtaremos, entretanto, em atender o pedido. Exato seja, representará uma opinião puramente pessoal, de competência lógica de qualquer cidadão. Como dissemos, o assunto jamais nos apaixonou de fato. Sempre ficamos à sua margem, como expectadores dos mais neutros possíveis.

Isso não nos impede, entretanto, de formarmos um juízo próprio, de conformidade com nossa própria razão.

Em princípio, somos anti-divorcistas, por convicção religiosa. Entendemos o divórcio, não como um remédio preconizado para sanar o mal do imoral desquite, mais como uma agravante ainda pior. Concebemos o divórcio, como uma prostituição oficializada, porque facilita aos que desejam, possuírem gradativamente, quantas mulheres ou homens pretenderem.

Alegam os que são partidários dêsse processo, que o desquite faz no país mais divórcios do que na própria Inglaterra. Acontece que no Brasil o desquite significa um freio. Os que alegam que o desquite é um convite ao cumcubinato não estão certos, porque as citadas relações existem de maneira assustadora hoje em dia, até entre solteiros!

País divorcista apresenta condições piores do que a separação desquital. No desquite o separado não pode casar-se novamente, enquanto as duas partes viverem; portanto o vínculo matrimonial, perante a Lei, continua a ser respeitado, queiram ou não os que se sentem prejudicados. O desquitado tem um freio nêsse particular e ações correlatas, dizentes a aproximação de corpos de sexos diferentes não encontram apoio em Lei. Já com o divórcio é diferente. Vemos o degradante fato de mulheres que se casaram e divorciaram diversas vezes, possuir filhos oficialmente de três ou mais homens e não sabemos como o espírito do brasileiro poderia aceitar semelhante situação.

Não sabemos como o nacional aceitaria a condição de possuir no futuro alguns irmãos, filhos de pais ou mães diversas.

Poderá algum contra-argumentar que pelo menos no país divorcista, os filhos têm os nomes dos pais. Acontece que aqui também, embora com a condição de “naturais” e a êsse respeito, já se movimentaram legisladores, tentando anular essa disposição, para que sôbre os ombros daquêles que assim nascem, não tenham, no futuro, pejo perante a sociedade, vergonha por um crime em que êles são inconscientemente as vítimas diretas, muitas vezes encarnecidas pela sociedade.

Perguntamos agora ao nosso leitor e missivista, numa comparação grosseira: Se você, amigo, tivesse duas irmãs, uma casada nos Estados Unidos e uma no Brasil; se a que aqui residisse, por motivo qualquer, viesse a desquitar-se e ficasse, por isso mesmo, impossibilitada de casar-se novamente; se a que residisse nos USA, tivesse casado e divorciado três vezes e disso lhe apresentasse três sobrinhos de três diferentes cunhados; perguntamos então a você, para que nos responda, não baseado em argumentações dos que falam bonito sôbre a questão, mas para que nos informe com a sua própria consciência: qual das suas duas irmãs lhe seria mais desditosa? A que estava impossibilitada de casar-se ou a outra, a que poderia casar-se quantas vezes entendesse e ter filhos de quantos homens desposasse?

Mais uma outra coisa ainda: Como o espírito próprio do brasileiro, o divórcio no Brasil seria um verdadeiro cáos moral. Você já imaginou êsses magnatas, êsses brasileiros ricaços e esbanjadores, êsses mesmos que sentem até vergonha de apresentar as esposas em público, quanto tempo permaneceriam casados? Quantas vezes se casariam, mesmo que o divórcio custasse caro?

Extraído do Correio de Marília de 27 de novembro de 1958

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mais telefones para Marília (26 de novembro de 1958)

Êste jornal em especial e esta coluna em particular, sempre debateram a questão da insuficiência de telefones em Marília, maximé nos últimos tempos, quando o vertiginoso progresso ultrapassou as expectativas mais otimistas, dos marilienses e dos observadores forasteiros.

Efetivamente, nossa cidade, pelo vulto de seu progresso, pelo calor de seu dinamismo, pela voragem de sua expansão em todos os sentidos, reclama, de há muito, melhor serviço telefônico, não no sentido técnico propriamente dito, porém sob o ângulo de arraigamento.

No ano passado, ao conhecermos o plano da Companhia Telefônica Brasileira, no sentido de aumentar o número de telefones na cidade, manifestamos nossos aplausos pela intenção, cumulados de nossos protestos pelo modo com que se pretendeu realizar a idéia. Discordamos dos planos da CTB, porque os entendemos prejudiciais e contrários aos interêsses dos marilienses. Buscamos elementos justificativos e os encontramos na cidade de Araraquara, onde o contrato fôra firmado em condições mais favoráveis do que as pretendidas em Marília, em ocasião semelhante. Prometemos mesmo a divulgação da minuto do contrato assinado na Capital da Alta Araraquarense e não o fizemos por motivos alheios à nossa vontade.

Um ano após, reavivar-se o problema. Estiveram há pouco reunidos, justamente com o sr. Prefeito e pessoas gradas de Marília, dirigentes da mencionada Companhia. O assunto foi o mesmo, o processo foi o mesmo, com a modificação do sistema de concretização, em cujo esboço a Prefeitura, sob a condição de proprietária percentual, teria responsabilidade enorme, sem meios de fiscalização direta, sem técnicos competentes, sem departamentos especializados, ficando dona sem capital, dum dinheiro público respeitável. A municipalidade, no caso, poderia fazer uso de uma faca de dois gumes: ser proprietária sem dinheiro e obter, conforme o caso, lucros à custa do próprio povo necessitado. Isso sucedendo, tudo acabaria bem; o contrário acontecendo, surgiria fatalmente um dilema de proporções inesperadas: a Prefeitura poderia responder diretamente pelas responsabilidades, por não ser, à rigor, proprietária, por ser administradora; a Companhia poderia facilmente “descalçar as botas”, alegando sua administração apenas, como participante à base de percentagem.

Existem outros fatores mais graves ainda. No ano passado, cogitou-se o preço do aparelho telefônico na base de 22 mil cruzeiros, amortizáveis em prestações, para ligação após o pagamento, com a condição de variações aceitáveis em caso de mutações oficiais de câmbio. E, pelo plano anterior, os aparelhos só seriam instalados após pagos, ou seja, após um ano da vigência do contrato que não foi assinado.

Agora a cotação subiu para cêrca de 33 mil cruzeiros, havendo a possibilidade de atingir mesmo 40 mil e ninguém garantindo a sua instalação imediata ou dentro de curto prazo.

Se a CTB sempre serviu o povo sem a consumação de programa semelhante, estranhável é, por todos os sentidos, a pretensão óra cogitada.

Não estivemos, por motivo de força maior, presentes à última reunião à respeito realizada, da qual participaram o sr. Prefeito, vereadores, dirigentes da Telefônica e outras pessoas gradas. Procuramos nos inteirar do resultado da assembléia e confessamos que não apreciamos o que sentimos, porque consideramos prejudicial aos marilienses a pretensão da CTB.

Se isso vier a ser efetivado, podem estar certos os nossos amigos que a situação continuará a mesma e daqui há 5 anos, um telefone custará por volta de 100 mil cruzeiros, o que representará, não um comércio, mas verdadeiro absurdo!

Se a CTB, de acordo com a lei e a assinatura do contrato legal não cobra nada por um telefone no momento (embora a “fila” seja grande, grande seja a esperança e pequena a possibilidade de conseguí-lo), não sabemos porque, no futuro, se vigorar o absurdo projeto óra em referência, que um cidadão há de comprar um aparelho por 30 e tantos contos, se a Companhia o cederá gratuitamente, desde que haja número desocupado e principalmente se o interessado puder usar o privilégio da “prioridade” legal. Resumindo: se o desta coluna tiver que vender o seu telefone, comprado por 33 mil cruzeiros no novo plano, à você, leitor; e se você tiver a chance de obtê-lo sem ônus (apenas as taxas de ligação e instalação), perguntamos a você se você dispensaria a condição legal de obtenção e iria comprar o outro.

Ademais, é um absurdo, processo oneroso o que se pretende fazer agora, na questão dos telefones em Marília.

O sistema que a CTB pretende realizar é bom, em causa própria. Pelo processo referido, o autor desta coluna é capaz de comprar a Fazenda do Montolar, a Fazenda Bonfim e muita “cosita más”. Se vocês duvidam: “entrem” antecipadamente com a “gaita”. Depois vocês ficarão como “sócios” e terá lucros... Mas não se esqueçam: A partir de leão já terá dono...

Extraído do Correio de Marília de 26 de novembro de 1958

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O colunismo Social (25 de novembro de 1958)

Noticiar fatos ocorridos dentro da sociedade, é missão imprescindível de todo e qualquer órgão de divulgação. Seja jornal ou rádio, é veículo tem o dever de noticiar o que acontece, dentro do raio de suas ações. Entretanto entre o noticiar e o nortear e insinuar, existe uma diferença enorme.

O colunismo social de hoje em dia, principalmente nos órgãos de imprensa de São Paulo e Rio de Janeiro, em que pese a força e os resultados comprovados, constitui-se num verdadeiro cancro, prejudicial à própria moral e índole de nosso povo.

Revolta a qualquer sêr, especialmente aquêles que constituem a maioria e que não se incluem na “panelinha”da absurdamente chamada “gente bem”, as notícias dêsse timbre. Só interessam, de fato, a u’a minoria (minoria pequena, sem redundância, sem pleonasmo). Só interessa de direito, a um grupo de boas vidas, não afeito ao “batente”, desconhecedor do “basquete”, ignorante da luta cotidiana pelo ganha pão do pobre, “boa vida” habituada ao “dolce far niente”, acostumada a dispor de milhões em bacanais e noitadas inúteis, sem tentar perceber a miséria que impera por todo o país, a fome negra, o cáos econômico. Porque quanto pior a situação para o pobre, melhor a condição do rico, uma vez que a inflação beneficia os potentados, valorizando seus patrimônios, os preços de produção, os gigantescos estoques.

O colunismo social, chega hoje a prejudicar até o pobre. Dita normas e norteia, cujos reflexos atingem tôda a nação. Determina a maneira do homem ou mulher (principalmente a mulher) vestirem-se. Escolhe na dura, sugerindo na aparência ou no conceito, os trajes diversos em face das estações do ano, das solenidades ou do local. Influi diretamente na vida geral do nosso povo.

Determina modêlos, padrões, espécies. Brincos, jóias, sapatos e até decotes, o colunismo social especifica com autoridade que êle mesmo se outorgou. E a gente é quem sofre com isso. No casamento, entra direta a opinião da “moda”, muitas vezes ditada por um sofisticado colunista social, cuja condição de bom homem há quem ponha em dúvida. E o resultado alastra-se como um óleo sôbre a correnteza de um rio. Tanto assim, que a maioria das noivas, preocupa-se hoje em dia mais com o vestido da cerimônia do que propriamente com o futuro, com o caráter do noivo, com o dia de amanhã. Gasta-se verdadeira fortuna, com o feitio de um vestido que será usado especificamente poucas horas e que do uso do mesmo só restará uma fotografia.

Os colunistas sociais, descrevendo e insinuando detalhe por detalhe da “toilette” da “Madame Abóbora” ou “Srta. Recalque”, registrando sencerimoniosamente, com “grande contentamento” ou “sincero desprazer” num espírito de observação que ultrapassou o “paralelo 38” da curiosidade natural, transformam-se em “Raio X” sôbre a espôsa e filha dos outros e em líderes absolutos e orientadores incontestes do que é exato.

E obtém os resultados, porque o número dos trouxas (e das trouxas, principalmente), é bem grandinho por aqui nestes Brasís.

Com êsse negócio todo, surgem absurdos em modêlos, chamados pelos que possuem “água de côco” na cabeça, de verdadeiras obras de arte.

Sentimos um certo asco ao lermos os noticiários a respeito... “A senhora Y, apresentando um vestido de organdí salpicado, com um sobrepôsto imitando um “V” a descer-lhe além da cintura, manga “raglam”, decote triangonal e aberto nas costas em forma de lozango, com dois brincos portugueses em estilo chinês, três colares, sendo um de pérolas naturais, um incrustado em brilhantes e outro, muito gracioso e delicado em ouro e platina. Nas mãos, cinco riquíssimos anéis, um relógio coberto de diamantes, um leque de finíssima confecção japonesa, sapatos de couro de castor, polvilhados com pequenas pedras de duas cores e lindíssimas meias de vidro nylon importadas dos Estados Unidos...”. Por aí já se viu que o colunista adivinhou até a roupa de baixo da senhora Y...

E o sofisticado colunista continua: “...acompanhada de seu esposo, o Comendador Balduino, que trajava um elegantíssimo costume de “frescotine” inglês legitimo, com camisa de gorgorão original da Itália e peitilho de linho do Panamá, gravada de seda japonesa, botões de ouro na camisa, cinta de legítimo crocodilo africano, sapatos de couro de castor dos Andes, meias de naylon inglês e legas filadas de ouro, fabricadas na Inglaterra...” Já se viu também: o colunista advinhou a marca, o número e côr das cuécas do focalizado!

E, na realidade, o Comendador Balduino e a Senhora Y, casados no civil e no religioso, são, em casa, como “cão e gato”...

Extraído do Correio de Marília de 25 de novembro de 1958

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Mundo de mentiras (22 de novembro de 1958)

Desde pequenos, todos ouvimos a mesma cantilena de fundo sinceramente doutrinário, de que “é feio mentir”. Nas aulas de catecismo, nos ensinaram também que “é pecado mentir”. Mais tarde, no Exército, incutiram-nos na “massa cinzenta” de que “o homem não mente”. E assim por diante.

Não foi preciso chegar à idade que temos, para perceber que todos fazem exatamente o contrário. Todos mentem, só que alguns mais descaradamente do que os outros.

O combate à mentira é um fato e deve ser velhinho. A mentira deve ser mais antiga ainda, pois originou êsse mesmo combate.

A criança mente quando faz uma travessura ou quando come um doce escondido, ou ainda, quando pratica uma peraltagem. Mente quando não estuda e mente quando “gazeteia” as aulas. Seja homem, seja mulher; o ser humano só não mente enquanto não fala e não raciocina.

Todos mentem.

O namorado mente à namorada e esta mente mais ainda ao candidato a sua mão – mão que traz um corpo para vestir, para tratar e uma boca para comer.

O dentista mente dizendo que “não vai doer nada”. O barbeiro mente, dizendo, com um sorriso todo especial, que “não vai demorar”. O negociante mente, dizendo que “é o preço de custo”.

Mente o corretor, dizendo-nos que é um “bom negócio”. Mente o motorista, quando diz que a “corrida” a 50 cruzeiros, mesmo que seja num percurso de três quarteirões, “dá prejuízo”. O açougueiro mente, quando nos diz que pescoço de vaca é filé “mignon”. Mente o médico, quando o paciente já está com as malas prontas “para embarcar”, dizendo que “não é nada”. Mente o gerente do cinema, afixando o cartaz de “um filme”. Mente o time de futebol, formado à base de “medalhões” e que se deixa “golear” por um time pequeno. Mentem o Hélio Gracie e o Waldemar Santana em suas “lutas livres”.

Os jornais mentem, as rádios mentem. Anunciam remédios miraculosos, que não passam de simples preparados inofensivos. Mentem as mulheres quando declaram a idade. Mentem os menores quando os cinemas exibem filmes “impróprios”.

Até para os pastores protestantes e para os padres os que se religiosos mentem. Mentem os “cardápios” dos hotéis chamando de “dourada” à mais comum e vulgar das abóboras.

Mentem as fábricas de “whisky escocês” e de “casimira englesa”. Mentem os manufaturadores de “cachaça pura”, oferecendo ao público u’a mistura de água, álcool, pimenta do reino e fumo de corda. Até o nosso pacato lavrador mente hoje. Já vende cachorro por cabrito, já aquece e “amadurece” a banana em estufa.

Todos mentem. Mas os políticos mentem mais!

E como sabem mentir!

Até o Presidente da República mente no Brasil. Disse que o país progrediria 50 em 5 anos. E o disse com tanta habilidade, com uma teatral sinceridade que quasí todo mundo acreditou.

“O sabonete “X” é usado pela artista tal”. “O jogador Beltrano comprou um terno na loja do João”. “A esposa do coronél Dito usa somente sapatos da Casa Sfolla”. E outras bobagens mais, que vão por aí afóra. Tudo mentira, mentira deslavada.

Remédios para calos, drogas para fígado, preparados para nascer o cabelo, para engordar, para emagrecer, para depilar, etc.

Até para “remoçar” as fórmas plásticas da mulher, inclusive “fazendo desaparecer” os “plissês” do rosto de quem é feia naturalmente e pretende ser bonita artificialmente!

Os políticos, quase todos, como dizíamos, são os que mentem mais. Mentem nas leis, mentem nos discursos, sentações, mentem nas promessas de empregos, mentem em tudo. São artistas para mentir. “Dona” Ivete prometeu-nos as Casas Populares, nu’a mentira descolorida e depois de levar os marilienses “no bico” durante quatro anos, ainda vem aqui e encontra mais de mil trouxas para votar nela! “Seu” Lucianinho, que nunca fez nada por Marília, arquiteta um projeto de lei de um tal de pontilhão e acaba arrancando centenas de votos de centenas de trouxas!

Qual! Isto é mesmo um mundo de mentiras!

Extraído do Correio de Marília de 22 de novembro de 1958

domingo, 21 de novembro de 2010

A questão de querer compreender... (21 de novembro de 1958)

Recebemos, há muitos dias, uma carta. Foi antes de interrompermos as nossas atividades, em virtude da mudança de endereço dêste jornal. A carta abordou alguns de nossos escritos, acêrca da administração do atual Presidente da República. Continuou a deixar-nos em dúvida: ou existem muitos fãs do sr. JK em Marília, ou existe um apenas, com a condição de teimoso, que se utiliza de todos os métodos, inclusive do disfarce, para nos contradizer.

Nós não somos contra o sr. Juscelino Kubitschek, repetimos. Somos contra o atual Govêrno da República, cargo e não homem.

Não somos estudiosos no assunto. Não somos matemáticos, financistas, observadores atinados. Somos apenas, uma pequena fração do povo. Sentimos como todos, os dissabores, as angústias, as decepções, o clima de insegurança, a ameaça do cáos moral e econômico. Sentimos que alguma coisa não está bem. Sentimos que essa “coisa que não está bem” é uma consequência direta da má rota do atual govêrno, ou melhor, do desgovêrno atual.

A carta que nos referimos é delicada. Bonita mesmo. Gentil, para sermos mais claros. Gostamos do seu teor, mas não concordamos com seu conteúdo. Não nos convenceu e acreditamos não nos convencerá.

Repetimos o que já dissemos: o sr. Juscelino Kubitschek foi, e está sendo, em nosso entender, o pior Govêrno que o Brasil já teve desde que usufruiu a condição de República; isto é, desde 1.889.

Não que tenhamos ojeriza pelo antigo prefeito de Belo Horizonte. Mas é uma coisa “que não entra”, como se diz vulgarmente. Não vimos um motivo sequer que nos autorizasse a pensar o contrário.

O que é o atual Govêrno do Brasil?

A construção de Brasília (que nós combatemos, não em sua idéia ou essência, mas no processo com que se pretendeu), é um absurdo. O povo terá um palácio, um aeroporto, cercado de choupanas, e misérias ao mesmo tempo.

A instabilidade financeira do país, com a “quebra” de diversos bancos, é o reflexo direto da má orientação governamental e a insegurança do patrimônio privado.

O reintegramento de um oficial que foi espião nazista, com os mesmos direitos daquêles que permanecem nas fileiras do Exército já 30 ou mais anos, é alguma coisa de desastroso, principalmente tendo-se em conta que sargentos da FEB não podem ser reincluidos e promovidos a oficial, para nos prejudicar antigos militares.

Os banquetes governamentais faustosos, num país onde o povo passa fome, organizados pelo próprio Presidente da República, são sinal indiscutível de desumanidade.

As viagens constantes (no mínimo vinte em cada mês), deixando ao abandono o leme da nação, não nos credenciam a aceitar o sr. JK como um bom e bem interessado Govêrno, afeito aos interêsses do povo brasileiro e auscultando e estudando suas misérias e suas necessidades.

Os movimentos grevistas, surgidos em diversos Estados, autorizam-nos a responsabilizar o próprio sr. Juscelino Kubitschek pela desordem, desarmonia e desorganização imperante.

Os aumentos inequânimes de funcionários públicos e militares, igualmente, nos dão o direito de crer que o atual Presidente da República, em que pese o têrmo preceitual da Constituição de 1946, não manda ou não quer mandar (democraticamente, bem entendido), no Brasil que Pedro Álvares Cabral descobriu por um simples acaso da própria sorte.

Sinceramente, até hoje, não vimos nada que nos convencesse a julgar o sr. JK como um bom govêrno. Talvez possamos ver êsse desejo ainda no futuro, porém, até agora êle se encontra “no tinteiro”.

A questão é querer compreender. Nós a compreendemos. Pena é que os fanáticos e apaixonados não pensem assim e como tal não a compreendam e nem tentem interpretá-la.

Fala-se agora da providência governamental, congelando e estabilizando o custo dos gêneros de primeira necessidade. Oxalá o sr. Kubitschek consiga fazer isso em pról do povo brasileiro.

Oxalá.

Extraído do Correio de Marília de 21 de novembro de 1958

sábado, 20 de novembro de 2010

Retornando... (20 de novembro de 1958)

Bom dia, leitores!

Depois de meio mês de ausência, aqui nos encontramos novamente. Estivemos com nosso jornal fóra de circulação durante o lapso de tempo dispensado durante os trabalhos de mudança de nossa redação e oficinas.

Encontramo-nos agora em novo endereço. Depois de permanência de cinco anos ali na Rua 9 de Julho, junto à “Casa das Novidades”, instalamo-nos agora no prédio n. 500 da Avenida Carlos Gomes.

Nosso jornal deixou de circular durante 15 dias. Meio mês ficamos, contra nossa vontade, sem difundir e divulgar as causas e coisas de Marília, sua corrida louca de progresso, sua vertigem de dinamismo, as ações de sua gente. Nem por isso, entretanto, deixamos de acompanhar o andamento da engrenagem dessa máquina fabulosa que se chama “Marília”. Ao par das atribuições dificílima de mudança de nosso diário, estivemos também observando e presenciando o desenrolar dos acontecimentos gerais. E isso tudo, damos um pequeno resumo dos principais fatos, dos primordiais cometimentos que não tivemos a oportunidade de divulgar em época hábil, pelo fato referido.

Para alguns, pode parecer estranho, que tanto tempo tenha urgido para essas providências. No entanto, aquêles que melhor conhecem fatos ligados aos serviços de imprensa e bem aquêles que têm noção das dificuldades oriundas da desmontagem, transporte, remontagem e regulamentação de máquinas complicadas e pesadas, facilmente desculparão essa interrupção.

Nosso jornal reinicia hoje seu ritmo normal, sua identidade trajetória de atividades em pról dos interêsses de Marília e seu povo.

Durante o período de nossa ausência de circulação, não estivemos parados. Os serviços do transporte de nossas máquinas demandaram sacrifícios insanos, exaustivos. Não foi sopa o transporte de uma impressora cujo peso calcula-se em treze toneladas. Difícil foi também a mudança do linotipo, sua nova instalação, regulagem e acerto. Igualmente o material coadjutor das oficinas, como as mesas, cavaletes, caixas de tipo, mesas de mármore e aço, coleções do jornal, papéis, arquivos, clichês, documentos, material de escritório, etc..

Como tôda a mudança, é difícil o acerto. Uma coisinha aqui, uma diferença ali, um objeto acolá, demandam tempo, tempo que a gente não vê passar.

Agora, tudo normal, tudo legal. Já retornamos às atividades. Já reencetamos nossa caminhada, cujo palmilhar iniciamos há cêrca de 31 anos.

Embora com um trabalho diferente executado durante êstes dias, em que todos os elementos que compõem a família do CORREIO DE MARÍLIA se uniram e trabalharam indistintamente, em serviços diversos de mudança e adaptação, estávamos com saudades de nosso labor normal, de nosso público leitor, amigo e prestigiador.

Animou-nos a confiança demonstrada por milhares de marilienses, que não soube esconder a simpatia pelo nosso jornal, cercando-nos nas vias públicas ou telefonando-nos, manifestando o sentimento saudoso da circulação de nosso matutino.

Essas demonstrações de apreço, nos deram ainda a maior certeza de que conquistamos, mercê de nosso trabalho de 31 anos, a simpatia, o carinho, a confiança e o respeito de nosso bom e laborioso povo mariliense. Tais fatos nos obrigaram naturalmente, a apressar a volta de nosso jornal, a reencontrar a meta primordialmente iniciada pelo nosso saudoso fundador Alfredo Augusto de Araujo e continuada sabiamente pelo nosso atual diretor Raul Roque de Araujo.

E aqui estamos. Se Deus quiser, continuaremos a caminhada em pról dos motivos de divulgação de tudo e de todos os acontecimentos desta cidade que vimos crescer e que com ela crescemos.

Nossos agradecimentos às manifestações de confiança que tão a miude nos chegaram, durante êsse período de interrupção compulsória e justificada. Nossa gratidão, igualmente, a centenas de leitores, assinantes e anunciantes, que, com amigos sinceros, estiveram acompanhando nossos trabalhos de transferência e percebendo de perto a luta de nossa mudança.

Muito obrigado, leitores amigos.

Extraído do Correio de Marília de 20 de novembro de 1958

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

“Prata da Casa” (4 de novembro de 1958)

Nésta coluna, conforme sabido é, sempre tivemos a preocupação desinteressada de realçar e ressaltar tudo o que se refere à Marília e seu povo. Quando isto não sucede, focalizamos assuntos reputados de momento e de importância e interesse geral.

Não escondemos a predileção especial que nos imbui, quando se nos oferece a oportunidade de colocarmos em evidência fatos e coisas locais, objetivo que se casa perfeitamente com os propósitos de nossa missão e com os interesses de destaque das coisas citadinas.

Assim é que abordaremos hoje um fato sumamente auspicioso para nossa cidade, relativamente ao campo musical. Temos valores conhecidos em Marília dentro desse setor, como todos sabem. Sem menosprezo aos demais, justo é que se destaque a sensibilidade artística de um mariliense como o violonista e compositor Octávio Lignelli. O apreciado professor de violão, cuja arte todos apreciam pela maneira fácil, escorreita e penetrante como é difundida, acaba de marcar mais um belíssimo tente néssa sua caminhada artística. Escreveu, compôs e acaba de gravar duas páginas musicais bastante belas e sugestivas, nas quais se destaca a bela e pouco difundida música sul americana.

“Minha vida em suas mãos” e “Flôr do amôr”, as duas músicas óra lançadas ao mercado, através do acetato de renomada gravadora. Todos conhecem a harmonia da letra e a beleza da música constantes das páginas referidas, hoje difundidas em nossa cidade. Um outro valor apresentam as aludidas gravações, qual seja, a preocupação do professor Lignelli, em difundir as citadas melodias, através de gente mariliense. Clarice Sanches e Francisco dos Santos (o popular Chico Alves), são os responsáveis pelas vozes; Valdevino Dias e seu Conjunto respondem pela parte rítmica.

Assim, demonstrou o Sr. Octávio Lignelli, uma prova insofismável de prestígio aquilo que se chama de “prata da casa”, oferecendo oportunidade de aparecimento maior a gente de valor de nossa cidade. Este fato deve merecer atenção, pois o compositor poderia ter-se valido, se o quizesse, de orquestra ou regional de “cartaz” e da mesma maneira de cantores renomados. Preferiu, entretanto, destacar Marília e sua sensibilidade artística, fazendo com que as suas músicas referidas fossem interpretadas e gravadas por gente de nossa cidade.

Bonito gesto esse, digno, por todos os sentidos, de figurar no espaço que hoje ocupamos e que nos é reservado diariamente para que abordemos assuntos relacionados, de preferência, com Marília e sua gente.

Nossas congratulações, portanto, ao professor Octávio Lignelli e aos rapazes que tão bem se desobrigaram déssa missão, destacando tão magistralmente o nome artístico de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 4 de novembro de 1958

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dia dos Mortos (1 de novembro de 1958)

Hoje, Dia de Todos os Santos.

Amanhã, Dia dos Mortos, dobrarão os sinos à Finados. Contritamente deverão todos reverenciar a memória e a saudade de entes queridos e amigos saudosos, hoje desaparecidos.

Coroas, ciprestes, velas e flores...

Ao lado disso, corações apertados, rememorando a vida daqueles que partiram.

Finados!

Dia de respeito, de reverência, de saudade. Data de recordações, de visitas às campas onde repousam o sono eterno, aqueles que conviveram conosco ontem e cujas lembranças nos são tão caras.

Movimentos característicos da prosperidade da data, verificar-se-ão em todos os Campos Santos. Pelas ruas das cidades dos mortos, caminharão gente de todas as idades, sexos e posições sociais. Tôdas estarão igualadas em pensamentos, tôdas estarão equiparadas em idênticos propósitos, porque tôdas estarão prestando análoga homenagem a uma lembrança saudosa, a um nome querido.

Terços desfilarão, dedilhados por mãos ágeis ou dedos trêmulos. Rostos contritos não poderão esconder a tristeza e nem disfarçar a compenetração da respeitosa data. Velas acesas marcarão pontos cintilantes, lutando contra o vento ou a chuva, qual estrelas terrestres brilhando à luz do dia. Genuflexões. Gente pobre, gente rica, gente até miserável, misturar-se-á amanhã, no cemitério da Avenida da Saudade.

Tanto nas simples valas comuns, como nas suntuosas sepulturas, o aspecto será o mesmo, porque os corações não dissemeneiam ou não distribuem, como não diferenciam sentimentos de saudade por um morto querido. Todos se igualarão, porque todos aqueles que aqui não existem, igualaram-se na hora da morte, embora fossem distanciados em vida.

Finados!

Dia de respeito profundo, nos últimos anos com uma apresentação desvirtuada. Desvirtuada, em tese, porque, aparentemente menor tem sido o número de pessoas contritas e honestas (para consigo mesmas), em relação ao valor, significado e importância das visitas aos túmulos de parentes ou amigos. Desvirtuada em parte, porque as concentrações aos campos santos, já chegaram a servir de motivos para saudações efusivas e espalhafatosas, para conclusão ou entabolamento de negócios e para namoricos até!

Amanhã será o dia consagrado aos mortos. Mortos pobres ou ricos, mortos bons ou maus.

Cada túmulo, cada vala, cada capela, receberá a sua visita. Muitas permanecerão olvidadas, sem parentes, sem amigos, sem uma coroa, uma flor, uma vela.

Ao Cruzeiro da necrópole, acudirão também milhares de pessoas. As que renderão um preito ao morto distante, parente ou amigo. É outra forma de homenagem de memória, de rememoração de saudade, de reavivamento de uma lembrança.

Dobrarão os sinos à Finados. Dir-se-ão orações aos mortos. Queimar-se-ão velas em intenção da lembrança daquêles que desapareceram mas que continuam vivos na memória e na saudade das gentes. Flôres enfeitarão túmulos, coroas desenterrarão saudades.

Dia de Finados.

Dia dos Mortos.

Reverenciemos todos, indistintamente, a lembrança daqueles que nos foram caros. Olvidemos as atribuições cotidianas e a contenda pró subsistência. Esquecemos as dificuldades momentâneas, os problemas pessoais e particulares, os deveres comerciais. Dediquemos nossos pensamentos aos que são dignos dêles, principalmente no Dia de Finados.

Extraído do Correio de Marília de 1 de novembro de 1958

domingo, 31 de outubro de 2010

Só dando com um gato morto... (31 de outubro de 1958)

Aborda-nos um cidadão ilustre de Marília. Depois dos cumprimentos, alguns “confetis” e palavras diversas, acaba por passar-nos uma “big” descompostura, deixando-nos a matutar sôbre suas palavras algo voluntariosas e pelo modo como defendeu um ponto de vista contrário daquilo que entendemos.

Censurou-nos êsse amigo, pelo fato de termos manifestado, em escritos anteriores, nosso ponto de vista de que o atual Presidente da República não está fazendo o govêrno que dêle esperávamos (como esperam milhares outros de brasileiros).

Sucede, porém, que discordamos da idéia de nosso leitor e amigo, discordância essa que mais se solidificou, quando solicitamos ao mesmo que nos expuzesse as razões pelas quais classifica o sr. Kubitschek como um bom govêrno. Perguntamos ainda se era a questão “Brasília” que o consagraria e quais as providências de fato e de direito palpável que poderiam ser apontadas como corroboração do dito. Não ficamos convencidos com a argumentação de nosso interlocutor, porque todas as suas palavras foram argüidas sôbre areia, sem nenhuma firmeza palpável.

Continuamos ainda, até que alguém nos prove em contrário, a ser conosco o pensamento de que o sr. Juscelino Kubitschek apresenta o pior govêrno da República, desde que o Brasil se incluiu nessa condição política.

Continuamos ainda a responsabilizar o atual Presidente, pelo cáos econômico e moral em que nos encontramos, pelos descontrôles e desgovêrnos que nos dominam.

Nada temos para elogiar o sr. JK porque nada de positivo e real, que correspondesse aos anseios do povo, vimos até agora. O homem prometeu fazer o Brasil progredir 50 em 5 anos, com tamanho descaramento, que, na ocasião, quase acreditamos. E o certo é que o país progrediu mesmo; apenas que um progresso abjeto, indesejável: progrediu no aumento do custo de vida, na senvergonhice, no setor inflacionário, no descontrôle das coisas; progrediu, enfim, exatamente naqueles campos que se não poderia progredir, deveria, pelo menos, estagnar.

A gente brasileira, hoje, encontra-se à mercê de uma situação intolerável, à margem de um precipício econômico sem precedentes na história; o viver, para a classe pobre, é um sacrifício incrível; alimentação, calçados, medicamentos, tudo, tudo enfim, são cotados da maneira que melhor consultem interêsses pessoais ou de grupos, em detrimento flagrante às necessidades da própria população, porque a própria indústria se encontra sem amparo e sem freios e o comércio, como consequência do parque manufatureiro, vê-se na contingência de ondular seus preços, mais do que o revolto Pacífico em dia de tempestade. Ninguém controla nada e dos costados do povo brasileiro continuam a sair tiras e mais tiras de couro, um couro anêmico, fraco, frágil.

Não venham, pelo amor de Deus, a pensar que somos mais brasileiros, ou revoltados. Apenas estamos relatando uma coisa que não é novidade para ninguém, que é por todos sabida: o atual Presidente da República, nesse particular, foi e está sendo a mais completa decepção que poderíamos esperar.

O homem não para no Catete. O homem vôa muito e como tal, deve forçosamente viver nas nuvens. Seus auxiliares diretos, aqueles que têm sobre os ombros, grande parcela de responsabilidade para com a nação e o povo em geral, parece que acompanham também o “dolce far niente” do cirurgião mineiro que, em má hora, ascendeu à magistratura máxima do país.

E, como “quando não está o gato folga o rato”, a situação justifica-se perfeitamente.

Discordamos de nosso amigo, repetimos. Igualmente discordamos dos que entendem ser o sr. Juscelino um bom govêrno. E discordaremos até a ocasião em que encontremos uma pessoa que nos prove o contrário, fazendo-nos compreender que estávamos errados e que de fato o homem é o tal.

Qual! Só dando com um gato morto...

Extraído do Correio de Marília de 31 de outubro de 1958