sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Congelamento de preços (17 de dezembro de 1958)

O efeito da bomba que se esperava, no tocante ao congelamento de preços, aquí em Marília, até agora, não teve siquer o espoucar de um traque.

Se os comerciantes estão atarantados e incertos, como não estará o próprio povo, com respeito a esse problema, que, por antecipação, se apresentava como um paliativo esperançoso para a atenuação das agruras das bolsas póbres?

O certo é que o mariliense, até hoje, não sabe explicar o que é o congelamento de preços como tão-pouco não é capaz de dizer se o mesmo traz benefícios ou malefícios. Em nossa cidade, na prática, nenhuma medida existe em pról da economia popular nesse sentido. Alguns comerciantes, receiosos de quaisquer aborrecimentos, estão vendendo determinadas mercadorias sem aqueles saltos de preços fantásticos, por conta própria e baseados nas cotações divulgadas para a Capital.

Não temos nenhuma COMAP organizada (e isso há vários anos). Buscamos conhecer os membros do organismo próprio, aos quais estivesse aféta a responsabilidade dessa fiscalização e das providências necessárias, tão rijamente apregoadas pelo sr. Presidente da República e nada conseguimos apurar.

A situação, ao contrário, tende a piorar. Os pequenos comerciantes, especialmente aqueles que estão lutando com capital ínfimo, estão desesperados, alguns pensando até em mudança de ramo ou de profissão. E justificam a ameaça ou o pensamento, alegando que certas mercadorias, na cidade, são vendidas pelos atacadistas, aos preços constantes na lista oficial do congelamento imperante em São Paulo (que refere-se aos consumidores). Óra, é justo que se esses pequenos comerciantes adquirirem mercadorias aos preços tabelados pelo congelamento (que em Marília até agora não passa de uma utopia), não poderão vende-los, senão por preço superior, uma vez que terão que considerar os acréscimos naturais de impostos, carretos, lucros normais, etc.. E qual o comerciante sensato que irá adquirir uma mercadoria por um preço tabelado em seu této, para revende-la expedindo um(a) Nota Fiscal com uma cotação acima da tabela? Só um idiota, é claro.

Daí o perceber-se que se não se tomarem medidas esclarecedoras e providenciais com respeito ao fato, estaremos nós, os marilienses, sacrificados.

Por outro lado, o congelamento parcial, conforme foi declarado, é como um nocivo analgésico: engana que cura apenas, quando vicia e traz consequências piores. Como se isso não bastasse, verificamos nos últimos dias, um movimento altista incrível, no setor dos preços das mercadorias não tabeladas, especialmente no que diz respeito às latarias. Quer dizer, grandes comerciantes estão tirando uma “casquinha” por outro lado, compensando a diminuição dos lucros advindos dos produtos cotados na tabela do congelamento que em Marília ainda é um mito.

Em face disso, em vista da pusilanimidade da COMAP ou de outro organismo que se desincumba da missão conforme aguarda esperançoso o povo sacrificado, só mesmo parodiando uma oportuna piada de um jornalista amigo:

- Com esse negócio de congelamento os grandes comerciantes terão mesmo que se conformarem com um lucro de 300% e nem um tostão a mais!

Extraído do Correio de Marília de 17 de dezembro de 1958

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