sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal, leitores! (25 de dezembro de 1957)

Nésta data magna da Cristandade, no dia em que comemoramos o transcurso do nascimento do Filho de Deus, vamos fazer uma pausa na variedade de assuntos habitualmente focalizados nésta coluna.

Ao assim procedermos, temos em mira, unicamente, o apresentar aos amáveis leitores do “Correio”, especialmente àqueles que nos distinguem com a leitura de nossos modestos escritos, os sinceros votos de um Feliz Natal.

Natal! Dia de alegria, de felicidade. Até a natureza procura cooperar com a satisfação das gentes em todos os 25 de dezembro. Os semblantes irradiam algum explendor, traduzindo nos abraços-amigos trocados entre os que se estimam. Um dia de alegria, que todos procuram comemorar com alegria. Um dia feliz, que todos tentam passar dentro da mais indestrutivel felicidade.

Nos últimos dias, vimos a cidade apresentando um movimento desusado. Gente, humilde ou abastada, nova ou velha, preta ou branca, ondulando as ruas, adquirindo alguma coisa ou não. Uns observando vitrines, outros comprando, outros simplesmente passeando.

A aproximação do Natal é sempre assim.

Ninguem consegue esconder uma satisfação que nasce internamente irradiando-se afinal.

Ninguem (principalmente aqueles que são cristãos) é capaz de permanecer indiferentes à majestade da grande data. Ninguem.

Nem todos, entretanto, por motivos de ordem pecuniária, conseguem passar um Natal como pretendem. Entretanto, todos se esforçam para tal. Todos fazem um sacrifício, por pequeno que seja, para que o Dia de Natal seja diferente, como de fato o é.

Os que melhores condições de vida desfrutam, conseguem realizar todos os intentos próprios da tradição. Ha os que se preocupam tambem com o próximo, socorrendo as dificuldades alheias. Nésta época, a mais bela do ano, mais se têm caracterizado o espírito altruí(s)tico do povo mariliense. Muita gente tem procurado pensar no próximo, prestando auxílios aos necessitados, numa demonstração inequívoca de solidariedade humana e cristã.

Oxalá isto continue a perpetuar-se, para que o preceito do próprio Evangelho prossiga a ser difundido e respeitado, conforme nos ensinou Nosso Senhor Jesús Cristo.

Hoje é um dia alegre. Roguemos a Deus para que proporcione meios a todos nós, desde o mais humilde e póbre até o mais rico e poderoso, para que vivamos um dia sagradamente feliz.

E nésta ocasião, em que se comemora a maior data da cristandade, peçamos tambem ao Todo Altíssimo, que nos inspire no sentido de melhor vivermos, de melhor nos compreendermos mutuamente, melhor nos auxiliarmos, sem ódios, sem vinganças, sem orgulhos vãos e tolos. Que Deus inspire tambem nossos chefes e governantes, para que apresentem, cada vez mais, os verdadeiros e sagrados intentos outorgados pelos próprios cargos, em pról da felicidade geral dos brasileiros.

Nêste ensejo, nos congratulamos com todos nossos amigos e leitores, abraçando-os e externando nossos votos de um Natal Feliz, que prenuncie um Ano Novo pleno de felicidades e duradouro eternamente de paz e alegria.

Feliz Natal, leitores!

Extraído do Correio de Marília de 25 de dezembro de 1957

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O Foguete Brasileiro (24 de dezembro de 1957)

Verdadeiramente, o lançamento do foguete brasileiro explodiu como uma bomba! Não pela incapacidade do nacional, mas pelo sigilo que envolveu as operações, pela modéstia dos trabalhos e pelas indiscutíveis deficiências técnicas de nossas arrojadas e necessárias indústrias.

É bom esclarecer devidamente a alusão sôbre “deficiências técnicas” acima. Falamos no sentido geral, em relação à equipagem de vulto nacional, cujo parque é falho e dependente do mercado exterior. Falamos do escasso material humano especializado, por falta de escolas capazes de ensinar, sem que tenhamos que recorrer a favores de nações amigas. Apenas isso.

Voltando ao foguete: Tudo deve ser encarado de modo proporcional. Se isto fizermos, não há dúvida que teremos que nos orgulhar e louvar os militares da Escola Técnica do Exército que trabalharam nesse mistér. Se atentarmos para a fraca equipagem que dispomos nêste sentido, os estudos relativamente iniciais, a falta de recursos financeiros adequados, a escassez da aparelhagem, etc., em relação ao poderio dêsse jaez, publicamente notório dos Estados Unidos, França, Inglaterra e Russia, é bom convir que o Brasil realizou uma verdadeira façanha.

O Foguete-114 custou apenas 8 mil cruzeiros, enquanto os “Sputniks”, os “Vanguards”, os “Baby Moons” e os “Atlas” custam milhares e milhares de rublos e milhares e milhares de dólares.

A maioria dos grandes inventos, conta-nos a própria história, é obra do acaso, de coincidência. No caso presente, tal não se deu. Existiram estudos a respeito. Queimaram-se pestanas. Fizeram-se das tripas, coração. Não saiu uma coisa gigantesca, caríssima, completa. Mas saiu o fruto de um despreendimento invulgar, louvável. Saiu um foguete que suplantou, guardadas as proporções anteriormente enumeradas, os próprios “Sputniks”.

De conformidade com o noticiário dos jornais, constatamos, como tôda gente, que o Foguete-114, de fabricação nacional, foi construído por material genuinamente brasileiro, pólvora especial fabricada em Piquete, por técnicos de nosso Exército e sem interferência de nenhuma outra nação. É motivo de orgulho.

É preciso agora, que o Exército e o próprio Govêrno se interessem pela questão. Que dispensem as verbas necessárias para o prosseguimento dessas pesquisas, amparando os cientistas da E. T. E.. É preciso, por outro lado, que os labutadores e timoneiros dessa empreitada, sejam imbuidos, cada vez mais, do verdadeiro sentimento de brasilidade, que não se “mascarem” e que prossigam com afinco na caminhada.

O acontecimento referido, embora tenhamos entre nós muitos céticos, muitos descrentes, traduz, sem sombra de dúvida, o maior empreendimento nacional dos últimos tempos.

Urge o estímulo, o apôio, a compreensão e confiança de todo.

O Brasil deu um grande passo, que, medido com o metro da sensatez, faz de nossa Pátria uma grande nação. Em relação a todos os recursos e adiantamentos dos próprios Estados Unidos, nêsse particular, conseguimos levar vantagem aos sobrinhos de Tio Sam. E, o motivo é de regozijo, pois é a primeira vez que isto acontece na História do Brasil, que, apesar de ter sido descoberto oito anos depois da América, vem arrastando um atraso de mais de 100 anos de progresso, em comparação aos norte-americanos.

Nossas congratulações, portanto, aos técnicos brasileiros, que executaram êsse empreendimento. E que o fato não sirva de endeusamento, mas, pelo contrário, de um estímulo dos mais poderosos, para a sequência dos trabalhos nêsse campo.

Oxalá o sr. Kubitschek pense como nós.

Extraído do Correio de Marília de 24 de dezembro de 1957

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Democracia X Monarquia (21 de dezembro de 1957)

Para o autor destas linhas, o pensamento encerra um sentido esdrúxulo. Cremos que para muita outra gente também.

O fato é que tenta-se, mais uma vez, o restabelecimento do regime monárquico no Brasil! Existe quem deseje (lutando ao mesmo tempo, pela instauração da monarquia), um Rei brasileiro.

O Movimento Patrianovista empenha-se agora numa luta de propagação de suas idéias acerca da implantação do regime monárquico no país, destituindo, em consequência, o atual sistema político. Teremos, se o número de adeptos da idéia fôr concreto, a luta entre as duas forças. Não cremos, no entanto, nessa possibilidade, como não acreditamos, de forma alguma, em probabilidade da modificação do regime democrático.

Declaram os partidários dêsse movimento, que, “sem rei, não há união nacional”. E acrescentam: “Só a doutrina monárquica salvará a Nação. Não há outra solução. Há 68 anos que nos impuseram viver dentro de um regime espurio. Há 68 anos que nos mentem, nos prometem, nos engodam, nos atrapalham, nos envergonham, nos deformam, nos empobrecem, nos tiranizam. Isto é república, legítima republica”(.)

O sr. Arlindo Veiga dos Santos, chefe geral do Movimento Patrianovista, afirma:

“Sem rei, sem imperador, não ha união nacional. Resta-nos a esperança da Hora de Deus, que eleve ao trono vazio da Imperial Nação Brasileira, o aniversariante do dia 13 de setembro – S. A. I. Dom Pedro Henrique de Bragança, Dom Pedro III, cujo acesso ao Poder renovará o milagre de seu bisavô D. Pedro II em 1840, para a demonstração concréta de que com rei haverá união nacional.”

No ról da História do Mundo, percebe-se que as nações que em mais curto espaço (de) tempo progrediram, são as que abandonaram o regime monárquico. Isto, fazendo uma exceção à Inglaterra, cujo reinado é aquilo que se poderia chamar pró-fórma apenas, uma vez que o poder monárquico só têm, praticamente, a função de sancionar.

O Brasil tambem constitui uma excessão nesse sentido, pelo seu lento progresso desde que aboliu o reinado. Suas causas, no entanto, são múltiplas e poliformes.

Estamos de acordo com o ponto de vista do Sr. Arlindo Veiga dos Santos, quando afirma que vivemos num clima de mentiras, promessas, engodos, atrapalhos, envergonhamentos, pobreza, etc.. mas não acreditamos que um rei póssa endireitar uma coisa que vem sendo torta desde os primórdios de nossos dias.

Achamos, como dissemos acima, a idéia esdrúxula. E absurda. E ficamos com “a pulga atrás da orelha”: O sr. Arlindo Veiga dos Santos, a julgar pelo nome, deve ser brasileiro. E como bom brasileiro, não poderia fugir à regra. Talvês esteja ele próprio interessado em algum título de duque, comendador ou cavaleiro.

Ou será que, entre nós, ainda existe alguem que “dá ponto sem nó”?

Extraído do Correio de Marília de 21 de dezembro de 1957

sábado, 19 de dezembro de 2009

Ser deputado é bom (19 de dezembro de 1957)

Póde parecer despeito ou inveja, mas não é.

Ser deputado é bom e bastante lucrativo, além de trazer incontáveis vantagens para quem usufrui essas qualidades.

O deputado desfruta daquilo que se chama “imunidade parlamentar”, isto é, um privilégio que de certo modo, contraria os próprios postulados do regime democrático, uma vez que situa um separativismo de desigualdade, frente aos demais cidadãos. Deputado vive cercado de “filhotes políticos” que o endeusam e dêle esperam empregos e apaniguacoes. Em troca, conquista esperançosos “cabos eleitorais”, recebe frangos e presentes, principalmente por ocasião das épocas de fins de anos. Desfruta de descontos especiais em muitos hotéis grã-finos. Goza de abatimentos em algumas companhias de transporte e tem “passe livre” em outras.

Ganha, honestamente, verdadeiras fortunas mensais. Isto sem contar-se com as oportunidades imorais que se lhe oferece, para consideráveis “mordidas” e ganhos “por baixo do pano”.

Agora, a própria Assembléia Legislativa de São Paulo, está também “colaborando” para encher os bolsos dos deputados paulistas. As sucessivas sessões extraordinárias dêstes últimos dias, estão propiciando aos ilustres parlamentares, quase o triplo dos ganhos normais. Dias existiram, em que o Palácio 9 de Julho realizou três sessões.

Argutos e curiosos observadores, já se deram ao trabalho de fazer cálculos, para saber quanto ganharão os deputados paulistas, nessas condições, durante o mês em vigência. E chegaram à conclusão de que o ordenado de cada parlamentar ultrapassará a casa dos cem mil cruzeiros!

Outra noite, acompanhávamos, através da irradiação de u’a emissora paulistanas alguns trechos dos trabalhos da Assembléia Legislativa. Para noa fugir à regra, oratórias inúteis, estéreis, em torno de assuntos de somenas importância. E um deputado, da tribuna, crucificava-se sozinho, chorando as mágoas pelo fato de ser deputado. Dizia das esperanças tolas – (concordamos) – que os eleitores depositam nos parlamentares, julgando-os capazes de resolver todos os assuntos, desde a “cavação” de um emprego, até a solvição de encrencas de um contrato de aluguel de casa. Alegava ainda, que no entender dos eleitores, o deputado “não pode falhar” e é obrigado a trabalhar sem descanço para resolver essas coisas, sendo tachado de incapaz, quando tal não acontece.

Ficamos boquiabertos, ante tamanha baboseira e infantilidade. Cremos que exista ainda um regular número de eleitores, que assim pense ou assim venha agindo. No entanto, para ninguém é segredo que a grande maioria dos brasileiros, perdeu por completo a fé nos parlamentares do país. Por culpa dêles próprios, uma vez que é gigantesca a porcentagem que, nos parlamentos, nada mais soube fazer do que politicalha e demagogia. E no caso, não cabe censuras ao povo. Somente aos seus representantes, falando em tese.

O legislador citado, deixou claro que ser deputado hoje em dia é um posto de sacrifício, é uma coisa pouco compensadora, um trabalho extenuante e responsável. Mas o que êle deixou transparecer perfeitamente, foi a convicção de que, no próximo pleito, não conseguirá eleger-se. foi uma espécie de grito de alerta do próprio sub-consciente.

Ser deputado não é ruim como êle declarou. Absolutamente. Ser deputado é bom. E bom mesmo, a ponto de ser a objetivação de todos os políticos de nossos dias, quer sejam novos, quer sejam carcomidos.

É claro que existem exceções. Infelizmente, tão poucas.

Extraído do Correio de Marília de 19 de dezembro de 1957

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Natal dos póbres (18 de dezembro de 1957)

Se as manifestações de apreço e aplausos que chegaram até nós, com referência à um comentário que fizemos, sôbre o Natal das crianças pobres, tornarem-se efetivas, vai acontecer muita coisa boa êste ano.

Diversas pessoas nos telefonaram ou nos procuraram, para indagar os meios que deverão utilizar, a fim de que cheguem aos meninos e meninas da Filantrópica e do Lar da Criança, alguns brinquedos de Natal. Despertaram nessa intenção, depois de nosso modesto e despretencioso comentário. A todos, dissemos exatamente aquilo que escrevemos não há muito: que se ponham em contacto com as diretorias dos respectivos estabelecimentos assistenciais. O que fizemos, foi apenas um trabalho jornalístico, no qual condensamos uma idéia, considerada útil. Nada mais.

Agradecemos os aplausos que nos foram endereçados. Nenhum dêles é merecido, uma vez que apenas procuramos lembrar uma situação que deve ser lembrada. Realmente, muita gente pode dispender uma pequena parcela de seus orçamentos, para comprar um brinquedinho, pequeno que seja, que venha a alegrar os orfãozinhos que se encontram sob os tetos das associações referidas.

Por outro lado, muitos pais de família providenciarão a compra de novos brinquedos de Natal para seus filhos. Nêsses casos, os brinquedos considerados “velhos”, ao invés de ficarem relegados ao esquecimento ou abandonados, poderão ser encaminhados às instituições citadas. Lá poderão ter emprego condizente, alegrando coraçõe(s)zinhos inocentes, já habituados a viver da caridade pública, uma vez que desconhecem, por completo, o calor de um lar paterno.

Essa foi a idéia que lançamos. Alias, nesse sentido, diversas pessoas já agiram de modo idêntico no passado. Ninguém poderá avaliar, a satisfação, a alegria traduzida num simples sorriso de uma criança inocente, ao receber um brinquedo de Natal.

Pelo que pudemos avaliar, muita gente de Marília, que, antes jamais tivera a intenção de prestar essa colaboração aos pequeninos e pequeninas órfãos ou desamparadas, irá agora colaborar com essas crianças. Um brinquedo a mais ou a menos, para um chefe de família, redundará na mesma. Quem compra dois, poderá comprar três, colaborando assim, para que uma criança desconhecida, possa participar da felicidade e alegria dos próprios filhos.

Repetimos que nenhum interêsse ou responsabilidade temos com o caso. Apenas comentamos a questão, à guisa de colaboração espontânea com as direções dêsses dois estabelecimentos, tão nobres, que agasalham sob seus tetos, dezenas de crianças, crianças essas que, na maioria das vezes, inocentemente, expiam as culpas dos próprios pais.

Renovamos nosso apêlo: os que puderem e desejarem proporcionar essa felicidade aos garotinhos e garotinhas da Filantrópica e do Lar da Criança, que procurem os citados estabelecimentos, onde, estamos certos, serão recepcionados de braços abertos.

Extraído do Correio de Marília de 18 de dezembro de 1957

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Placas indicativas de ruas (14 de dezembro de 1957)

Nada como dar tempo ao tempo – diz um antigo brocardo.

Não há muito que o fato aconteceu. Uma “firma” invadiu a cidade, alugou salas num edifício local, mobiliou escritórios, contratou espetaculares “brotos” e ludibriou a boa fé da Prefeitura e da Câmara Municipal. Propunha-se instalar na cidade, placas indicativas dos nomes das vias públicas, a exemplo das que existiam em Nova Iorque, Rio, São Paulo etc..

Um comércio, sem dúvida. Acontece que tudo é comércio e desde que o comércio fosse legal, honesto e de resultados concretos, nenhuma oposição poderia surgir. Tudo, de início, correu às mil maravilhas. Os malandros conseguiram levar “no bico” muita gente boa de Marília. Apresentaram-se aos comerciantes e industriais com uma fenomenal bagagem de “referências”, sendo-lhes facil a obtenção de seus desideratos. Muita gente concordou em “colaborar” com a cidade, embelezando vias públicas proporcionando aos forasteiros um serviço indicativo e nominativo das ruas da cidade.

Sucede, que, desde as primeiras colocações, vimos nas placas referidas um serviço rudimentar, frágil, inseguro e de pouca durabilidade. “Levantamos a lebre” da questão. Procuramos chamar as atenções acerca do fato e das inconveniências de sua aplicação. Em certos pormenores, fomos mal compreendidos. Insinuaram mesmo, que encetamos uma campanha desmoralizadora contra a “firma” referida, que, outra coisa não era, senão um covil de malandros. Prova são os prejuizos sem conta que pesam hoje sôbre a gente mariliense.

Gritamos, repetidas vezes. Procuramos alertar o comércio, a indústria e as autoridades marilienses. Apontamos as inconveniências do processo e pusemos em dúvida a idoneidade moral da “firma” referida, apesar das “referências” exibidas na Câmara e na Prefeitura.

Temos agora a confirmação de nossas “brocas”. Para quem quiser ver, inclusive os mais céticos e os que defendiam os “honrados” e “dignos” componentes da citada “firma”. Sem citar as dívidas, os protestos, os cheques sem fundos e as outras demais bandalheiras, já de conhecimento da polícia, referimo-nos apenas ao estado em que se encontram as placas indicativas dos nomes das ruas de Marília. Uma verdadeira lástima. Destruidas, incompletas, pensas, esculhambadas. Tudo, devido a fragilidade inicial apresentada, cujo ponto foi por nós tocado seguidas vezes. Prejuizos para a estética da “urbe”, que apresenta hoje um panorama de desleixo nêsse particular, inédito em todo o mundo.

Estamos satisfeitos. Estamos satisfeitos, porque conseguimos fazer com que o próprio tempo provasse, para os olhos daqueles que nos interpretam mal, que a razão estava conosco.

Nossa agenda de acontecimentos e de nossas lutas tem ainda muito a registrar para o futuro. Por exemplo, a contenda que encetamos pela eleição de um deputado mariliense. Em época futura e oportuna voltaremos ao assunto. Com justificadas razões. Por isso, somos partidários do rifão citado no início desta crônica: Nada como dar tempo ao tempo.

Extraído do Correio de Marília de 14 de dezembro de 1957

domingo, 13 de dezembro de 2009

“Papai Noel” (13 de dezembro de 1957)

A “vinda” do bondoso velhinho de barbas brancas é uma tradição imutável, terna e cristã.

Representa alegria, quasi sempre significa presentes.

A garotada aguarda ansiosa, o dia magno da Cristandade; a maioria sem bem aperceber-se da grandeza da data. Os coraçõeszinhos infantis, distantes do aquilatamento da realidade dos fatos, exigem e esperam a ‘chegada’ do “Papai Noél”. Aqueles cujos pais encontram-se em condições – com sacrifícios ou não – de convocar a “vinda” do bom velhinho, são verdadeiramente felizes. Pódem ser contemplados com o clássico presente de Natal, seja grande e custoso, seja simples e pequeno. E os dos pais póbres? Daqueles que sendo chefes de família, mal pódem suportar as agruras da subsistência de um lar?

Muitas crianças, jamais tiveram a oportunidade de receber um presente do “Papai Noél”. Devem considera-lo um ingrato, um separatista, que faz diferença entre filhos de rico e de pobre. E tem razões.

A vida de hoje, caríssima e difícil, faz sofrer não só a classe chamada pobre. Até a denominada “média”, arca hoje em dia com dificuldades terriveis, na labuta cotidiana do ganha-pão diário.

Entretanto, todos os pais procuram não decepcionar os filhos no Dia de Natal. Sacrifícios sem conta são praticados, para que aqueles seres inocentes, que encantam os lares desde o mais humilde e miserável até o mais suntuoso e confortável, possam receber um presentinho do velho de barbas brancas e roupa vermelha.

Os órfãos, os abandonados ao léu do destino, muitas vezes mesmo os que se encontram recolhidos a casas assistenciais, piedosamente mantidas por entidades de classe ou por donativos particulares, nem sempre conseguem um presentinho de Natal.

Muita gente, tem em suas casas, brinquedos considerados velhos e que serão fatalmente abandonados pelos filhos, após o recebimento dos novos presentes de “Papai Noél”. Bom seria, que tais brinquedos fossem destinados aos meninos e meninas recolhidos a Associação Filantrópica e Lar da Criança, para alegrar um pouquinho essas criancinhas, já habituadas a merecer favores e deferências do bom público mariliense. Por outro lado, muita de nossa gente, que, vivendo pecuniariamente bem, tambem voltasse suas vistas para a meninada referida e para outros pobrezinhos que perambulam pelas ruas da cidade, oferecendo-lhes, na medida do possível, algum conforto a respeito.

Não estamos autorizados a falar pelas direções das duas casas citadas, porém, a julgar pelos exemplos públicos que pudemos observar nos anos passados, temos a certeza de que tais tipos de presentes só seriam bem recebidos, causando, por outro lado, inapreciáveis satisfações aos meninos e meninas beneficiados.

Se diversas famílias assim agissem, como outras já se habituaram a proceder no pretérito, o Natal dos Pobres internados nos Lar da Criança e na Associação Filantropica, seria bem mais ameno, bem mais aproximado da verdadeira amizade cristã. Não porque faltem tais cuidados aos aludidos internados, mas porque, as direções dos estabelecimentos mencionados, já lutam com dificuldades ingentes para a manutenção das referidas casas, e, despesas nêsse sentido, partidas das diretorias, não teriam outro caminho, senão passar à consideração de adiáveis.

Aquí fica o apêlo, dirigido aos marilienses.

Extraído do Correio de Marília de 13 de dezembro de 1957

sábado, 12 de dezembro de 2009

Todo excesso é prejudicial (12 de dezembro de 1957)

Lembramo-nos ainda. Um preto velho, carandeiro profissional, dêsses que “curam” qualquer moléstia, “desencostam” espíritos maus, benzem bicheiras de gado e já “conversaram” com milhares de assombrações, foi quem nos disse certa vez: “Todo excesso é prejudicial”.

O têrmo usado pelo “seu” Zé Maria não foi bem êste. Ele dissera, simplesmente: “Tudo que é dimais prijudica”.

Faz muitos anos, quando tal frase nos foi incutida, sem que disso nos déssemos conta. O decorrer do tempo veio corroborar a verdade filosófica alí contida. Efetivamente, todo excesso é prejudicial.

Exceder-se em política, futeból e mesmo religião, para não citarmos outros casos, expõe o fanático ao ridículo. O gesto comedido, é sempre o aconselhável. Aquele que se fanatiza por determinada paixão, torna-se incapaz de aquilatar até que gráu de normalidade pratica. Não enxerga ninguém, especialmente os que pensam ou agem em contrário aos seus modos de entender as coisas. Fatos semelhantes, vemos seguindamente em todas as partes do mundo. Inclusive em Marília.

É difícil, no entanto, o manter-se numa linha réta de compreensão e imparcialidade. É igualmente difícil, para o fanático, aperceber-se que está excedendo.

Nos ocorreu tal pensamento, da palestra que travamos ontem a tarde, com um cidadão mariliense. Boa pessôa, trabalhadeira, honesta. Só têm um defeito: é fanática, politicamente falando. Tão fanática, que chega a desconhecer tudo o mais que acontece nêsse campo, em todo o Brasil. E quando um acontecimento se verifica, em desacordo com o ponto de vista defendido por éssa pessoa, não passa de “basófa”, intrigas, inverdades, etc.

Por mais claros que sejam os assuntos discutidos, esse nosso amigo não consegue e nem se esforça por comprende-los. Tudo está errado, desde que se choque com o seu modo de pensar. Tudo, sem exceção. Só ele pensa direito, embora tenhamos nossas dúvidas, se, conscientemente, ele próprio acredite naquilo que procura dizer-nos.

Caso idêntico verifica-se agora com o “Baby Moon” norte-americano. Houve excesso. Excesso de propaganda. Ha tempos, anunciava-se a soltura de um satélite artificial da Força Aérea Americana. O mundo esperou, com disfarçável impaciência. E o satélite, cujo nome inicial fôra “Vanguard”, não subiu. Os russos, quietinhos, lançaram o “Sputinik”. Primeiro o nº 1; depois o nº 2, com uma tripulante – a cadelinha inocente, cujo nome verdadeiro não se sabe se é “Danka” ou “Laika”.

Pecaram os EE.UU. pelo excesso de propaganda. Tanto pecaram, que hoje torna ridículas, até certo ponto, todas as notícias divulgadas acerca do lançamento do satélite de Tio Sam. Quasi não se houve um programa de rádio, ou não se lê um órgão de imprensa, onde não esteja incluida uma “gozação” acerca do satélite norte-americano. De quem é a culpa? Simplesmente do excesso praticado. Excesso de publicidade.

Extraído do Correio de Marília de 12 de dezembro de 1957

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Dia do Reservista (10 de dezembro de 1957)

Regra geral, todo aquêle que cumpre a exigência militar que está sujeito, ao ingressar na Reserva do Exército, acredita-se completamente desobrigado para com a Pátria. É um êrro imperdoável. O reservista, em nosso país, até a idade limite de seu possível e viável aproveitamento militar, continua a apresentar um elemento suplementar das próprias Fôrças Armadas, que dêle poderão fazer uso em caso de necessidade pátria.

No próximo dia 16, veremos transcorrer o Dia do Reservista. Êste ano, todos os Oficiais e Aspirantes a Oficial R/2, bem como os Sub-tenentes e Sargentos da reserva (remunerada ou não), do Exército ou da Fôrça Pública, devem apresentar-se a Junta de Alistamento Militar de nossa cidade. Também os cabos e soldados, possuidores para promoção a Sargento, oriundos do Exército ou da Polícia Militar, que foram licenciados de 1927 para cá, estão também sujeitos a essa exigência.

Todos sabem que o Exército Brasileiro prepara-se, assim como tôdas as fôrças armadas do mundo, para eventualidades futuras. O porvindouro é uma incógnita que ninguém pode precisar. A pátria precisa estar sempre em condições de garantir a sua soberania e a sua liberdade, e, essa garantia só é possível com um Exército forte, unido, bem preparado.

No último conflito mundial, quando pela cabeça de ninguém passava a possibilidade de vir o Brasil a enviar ao além mar suas tropas, vimos que isto aconteceu. A maioria da Fôrça Expedicionária Brasileira foi constituida por elementos convocados, reservistas do passado. E souberam, por forças das circunstâncias, readaptar-se à nova vida, tendo, posteriormente, dado exemplos exuberantes de patriotismo, com a lavratura de ricas páginas de denodo e glórias a já rica História Militar do Brasil.

Isso é o que diz respeito a parte obrigatória, militarmente falando. Existe ainda outra face da questão, que é a necessidade do reservista apresentar sempre aquêle espírito de camaradagem, quer entre a classe, quer entre a classe, quer entre os militares da ativa. Urge um entrosamento mais aperfeiçoado, mais coeso, entre todos aquêles que já cumpriram o dever militar, mas que ainda se encontram em situações que poderão obrigá-lo a retornar ao Quartel. Marília possui mais de 20 oficiais da reserva, dezenas de sargentos, cabos e soldados. A condição é propicia, para êsse estreitamento de amizades.

Êste ano, ao par dessas exigências pátrias, o Delegado de Recrutamento Militar, Tenente Pedro Amado de Lyra, juntamente com o Presidente do Tiro de Guerra local, engenheiro Miguel Argolo Ferrão, organizou uma outra parte recreativa, representada por um campeonato de tiro de fuzil, entre oficiais e aspirantes da reserva e oficiais da ativa, do Exército e Fôrça Pública. Tal competição, inédita em nossa cidade, terá lugar às 10 horas do próximo dia 15, no “stand” do Tiro de Guerra local.

Extraído do Correio de Marília de 10 de dezembro de 1957

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Cavalos e cabritos (7 de dezembro de 1957)

A propósito de uma reclamação que nos foi dirigida por um leitor dêste jornal, lembramo-nos do susto que passamos u’a noite destas, quando quasi “atropelamos” um cavalo que se encontrava sobre um passeio, numa esquina escura da Rua Cel. Galdino.

Caminhavamos distraidamente, e, ao cruzar a esquina, por pouco não “colidimos” com o pacato animal. Confessamos, que, nas circunstâncias como se verificaram os fatos, levamos um susto regular.

Recordamo-nos ainda do “cavalo vira lata” citado por nós, ha muito. Hoje parece que desapareceu.

Mas, como iamos dizendo, um leitor nos procurou. Para formular uma queixa contra o serviço competente da municipalidade. Móra o aludido cidadão, no populoso bairro de Vila Palmital. Lá, conforme asseverações de nosso informante, cavalos, cabritos e outros animais, sem contar com as manilhas de cães sem dono, estão ponto em polvorosa e desassossego os moradores de Palmital.

Além do descaso na detenção desses animais, existem outros fatos que estão a reclamar as providências da Prefeitura e que dizem respeito a estagnação de águas fétidas em diversas ruas do mencionado bairro.

O informante nos confessava, com visível revolta, que se não residisse em casa própria, de ha muito teria se transferido de moradia. Não fomos verificar a veracidade das informações, porque acreditamos na pessoa que nos procurou. Álias, não é segredo para ninguém, as anomalias referidas, em diversos pontos da cidade. Apesar de que a autoridade municipal está atacando, dentro de suas intenções e das possibilidades de suas forças, o terreno da instalação de guias e sargetas e da extencao da rêde de água e esgoto, muitos pontos da “urbe” apresentam tais exigências.

Enquanto as providências a respeito não encontram solução final, bom seria que se tomassem medidas capazes de evitar-se a paralisação de águas servidas e empossadas nas ruas sem calçamento, acarretando uma fedentina incrivel e colocando em perigo a saúde da população.

Por outro lado, providencias acerca de cavalos e cabritos nas ruas dos bairros, devem tambem fazer-se concrétas, inclusive com punições aos desrespeitadores dos preceitos legais. Afinal, Marília é uma cidade moderna, civilizada, dinâmica. O forasteiro que perceorrer os bairros da periferia, por certo ha de pensar alguma coisa errada acerca das providenciais municipais, vendo o abandono de certas ruas e o “dolce far niente” de vários tipos de animais soltos.

Não ignoramos que o Sr. Prefeito Municipal tem inúmeros problemas de maior monta a resolver. No entanto, sabemos, por outro lado, que existem na municipalidade determinados órgãos auxiliares, que tem a responsabilidade de cuidar desses assuntos. À eles é que endereçamos a reclamação que nos foi dirigida.

Extraído do Correio de Marília de 7 de dezembro de 1957

domingo, 6 de dezembro de 2009

Variedade em denúncias (6 de dezembro de 1957)

Não há (como) negar, de que os mais curiosos casos de denúncias apresentadas em Juizo, fazem, inquestionavelmente, parte do grande rosário de processo de divórcios dos Estados Unidos.

Vez por outra, a imprensa nacional sente-se no dever de explorar tais acontecimentos, satir(iz)ando e temperando à gosto, assunto dêsse jaez, tão de agrado dos leitores brasileiro(s).

Efetivamente, temos conhecido casos que escapam às raias do absurdo. Óra é o marido que justifica o pedido de separação, porque sua “cara metade” roncou durante o sono. Outra vez, é a mulher que pede o divorcio, acusando o esposo de “crueldade mental”, porque êste impediu que o “luluzinho” dormisse na cama de ambos. E assim por diante.

Agora, lendo o confrade “Comércio da Franca”, edição de 1º do corrente, deparamos, sob a manchete “Denunciada a COMAP pela prática do curandeirismo”, a seguinte notícia:

“A Associação Profissional do Comércio Varejista de Franca, acaba de formular documentada denúncia, contra a COMAP local, ao Serviço de Fiscalização do Exercício Profissional, da Secretaria da Saúde do Estado.

“Fundamenta-se a queixa no fato de vir o órgão controlador de preços, distribuindo, em sua sede, à rua Marechal Deodoro, preparados farmacêuticos e aviando receitas, conforme o declarou, da tribuna da Câmara, o sr. Granduque José, fatos êsses também divulgados pelo órgão oficioso “Diário da Tarde”, do qual é diretor o dirigente da COMAP.

“Como se sabe, para exercer tais atividades, faz-se mistér o competente registro profissional, bem como a presença de um farmacêutico legalmente habilitado.

“A reportagem apurou, nos meios interessados, que farmacêuticos locais, segundando o procedimento da A. P. C. V., irão se dirigir às autoridades competentes, pedindo providências imediatas contra o abuso do exercício legal da Medicina, profissão regulamentada no país.

“Resta agora, apurar-se, para a definição de responsabilidade, se quem fazia as vezes de “puçanguaras” era o presidente da COMAP, ou algum preposto seu...”

Aí está mais esta curiosa denúncia, para figurar no ról das inúmeras já conhecidas.

Se a moda pegar...

Extraído do Correio de Marília de 6 de dezembro de 1957

sábado, 5 de dezembro de 2009

Enfermidade de Eisenhower (5 de dezembro de 1957)

Através do noticiário telegráfico internacional, ficou o mundo ciente de ter sido acometido de grave enfermidade, o presidente Eisenhower, dos EE. UU. da América do Norte.

Um mal súbito, que não deixou de acarretar aos povos do mundo civilizado uma certa apreensão, porque abalou um pouco a estrutura física de um homem, que, nos últimos anos, têm se destacado pelas suas ações político-administrativas internacionais. Verdadeiramente, é mistér que se reconheça, na pessoa de Eisenhower, uma capacidade política das mais elogiáveis do mundo. O atual presidente dos Estados Unidos assumiu a direção do país amigo, numa época das mais conspurcadas, dificeis e confusas. Quando a prudência fez-se sentir como estrela de primeira grandeza, numa série de ações, que, mesmo dentro de determinadas fronteiras poderiam repercutir em diversas nações do mundo, Eisenhower foi capaz de demonstrar éssa qualidade e um senso de responsabilidade incomuns. Delegado e participante de diversos congressos de estudos de paz, sua palavra sempre serviu de paradigma, pelos gestos comedidos como foi externada. Jamais pregando ódio, sempre foi capaz de mostrar-se humanamente superior tendo sempre encontrando uma palavra ou uma solução pacífica e conciliadora.

Sem receio de errar, poderemos dizer que se não fôra a atual política de cordialidade, fraternidade e sendo comum dos mais elevados que identificaram e identificam Dwigt Eisenhower, de ha muito, estariamos nós, os brasileiros, bem como diversos outros povos do mundo, sofrendo os reflexos e consequência indiretas de uma guerra russo-americana.

Apologista do bem estar social mundial, de paz permanente entre os homens da terra, Eisenhower têm demonstrado, à sociedade, um tirocínio e uma inteligência verdadeiramente dignas de admiração. Profundamente cristão, democrático por excelência, têm primado pelos princípios de consideração alheia.

Porisso, para todos aqueles, que, sem cores políticas ou interesses outros que não u’a análise razoável da personalidade do presidente norte-americano, a enfermidade de Eisenhower trouxe certas apreensões. Justificadas apreensões, convenhamos.

O eventual desaparecimento de Eisenhower do leme do governo norte-americano, poderá, como dissemos, servir de nova engrenagem para um ateamento de fogo no estopim da tensa situação internacional, onde figuram como principais participantes, os Estados Unidos e a Rússia. Ninguém poderá negar isso, depois de conhecer a conduta nobilíssima e perfeitamente elogiável que o mesmo vem imprimindo e demonstrando no seu govêrno.

Extraído do Correio de Marília de 5 de dezembro de 1957

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Acerca de Escolas... (4 de dezembro de 1957)

Nossa despretensiosa crônica de ontem, trouxe-nos alguns comentários encomiosos. Talvez sem motivo, uma vez que não descobrimos nenhum “ovo de Colombo”, não desvendamos nenhum segrêdo.

Acontece que um leitor nos procurou para felicitar-nos e agradecer-nos o conteúdo do escrito. Declarou que nosso comentário “abriu-lhe os olhos”. E justificou a afirmativa dizendo, que, até aqui, nunca se preocupara com o estado de aproveitamento escolar de seus filhos e só voltava os olhos para o assunto, por ocasião dos exames finais, conhecendo os resultados do ano letivo. Achou que tínhamos razões no ponto de vista emitido, de que a preocupação de hoje, na maioria do mundo estudantil, resume-se naquilo que dissemos chamar-se “passagem de ano”. E citou-nos exemplos conhecidíssimos.

Efetivamente, o fato acontece conforme dissemos. O aproveitamento das aulas recebidas durante o ano letivo, regra geral, vem se apresentando pouco concreto. Algumas “recordações” em cima da hora dos exames e um pouco de sorte é tudo que grande parte dos estudantes de nossos dias almeja, sem maiores preocupações em possuir um diploma e saber honrá-lo condignamente. Prova disso é o grande número de detentores de pergaminhos (inclusive universitários), sem condições dignas de comprovar técnica ou cientificamente a conquista.

Preocupamo-nos com o problema do estudo no Brasil, por um motivo muito sério: porque não pudemos auferir os conhecimentos que pretendíamos. Daí, em relação àquilo que haurimos das luzes da ciência e nossas observações comparativas acerca de casos cotidianos que temos conhecimento, mais nos convencemos dos motivos anteriormente externados. Das falhas e deficiências que apresenta o ensino no Brasil – desde o primeiro (ano) até o (curso) universitário –, êsse pormenor é um fato de suma importância. Outro lado que inegavelmente contribue para o atual estado de coisas, é a deficiência de mestres especializados para ministrar os variados ramos da ciência escolar.

Por isso é que sempre fomos apologistas da causa do ensino em nossa cidade. Por isso que em 1945 escrevemos nossa primeira croniqueta acerca da criação de uma Faculdade em Marília, cujo título, se a memória não nos falha, foi: “Marília, cidade pobre de escolas”.

Verdadeiramente, os atuais métodos de ensino de nosso país, precisam passar por radical transformação. A rigor, revolucionária metamorfose. Urge que os estudantes de hoje se compenetrem melhor da conveniência e urgência de mais acurado aproveitamento das aulas recebidas durante o ano, abandonando o habito de “recordações” em épocas de pré-exames. Precisamos de um melhor selecionamento de mestres especializados, impedindo professores leigos de lecionarem matérias de folêgo, em prejuizo para eles próprios e para o futuro estudantil. Urge também que as escolas consigam preparar psicologicamente a mocidade de hoje, de formas a receber os impactos do futuro, incerto e difícil, abandonando-se aquelas idéias de louros do pretérito, as fases gloriosas do passado pátrio. Estas devem ser detalhadas com respeito, mas dentro da realidade e com as comparações verdadeiras de que certos fatos do acaso jamais poderão servir de exemplos futuros.

A mocidade estudantil deve bem perceber certas contingências existentes entre as casualidades de antanho e as viáveis realidades porvindouras. Deve aquilatar, dentro do sentido de razão, a equidistância e inaplicabilidade de determinados exemplos históricos.

Não que pretendamos, com êste ponto de vista, olvidar páginas de ouro de nossa história ou da vida de nossa gente. Absolutamente. Apenas entendemos que já é tempo de mutar-se o sistema de ensino no Brasil e que é dever dos que educam, colocar a mocidade hodierna, em condições capazes de receber o ricocheteamento da vida futura, sem fantasias ou ilusões exemplificadas no passado, por força das circunstâncias, ganhando agora a reta do obsoletismo.

Autoriza-nos tal assertiva, os exemplos que já passamos: uma série de instruções de determinadas matérias, jamais utilizadas na vida prática; por outro lado, a divergência existente e comprovada, acerca do patriotismo adquirido no calor dos bancos escolares, que, em verdade, foi muito diverso daquele patriotismo exigido na Itália, aos “pracinhas” brasileiros que cumpriram o dever pátrio.

Extraído do Correio de Marília de 4 de dezembro de 1957

Estudantes e “bombas” (3 de dezembro de 1957)

Estamos na época em que se desenvolvem os exames anuais escolares. Hoje de incontida ansiedade, de um lado para os estudantes bem intencionados e de outro, para os pais dos alunos. Hora tambem de preocupações para os próprios mestres, que, ao par da neutralidade que norteia seus átos educadores, não deixam tambem, como humanos, de “torcer”, pelo menos intimamente, para que aqueles que corresponderam aos ensinamentos durante o transcorrer do exercício, conquistem a necessária média de aprovação.

Uma coisa temos notado ultimamente, em especial na época de pré-exames escolares: Um despreendido interesse pelos estudos, por parte de muitos alunos. Nos quintais, nas salas, mesmo nas ruas, vê-se à miude, moças e rapazes com livros e cadernos abertos balbuciando teorias e ciências, verdadeiramente distanciados do resto do mundo.

Significa isso, sem negar, um certo descaso pelos próprios estudos, durante o transcurso do ano todo. Representa um aproveitamento apenas relativo das ministrações recebidas e, por outro lado, algumas médias duvidosas nos exames pretéritos.

Estamos vendo, uma maratona louca de estudos, chamados de “recordações”, sempre em cima da hora. A não ser que tenhamos nós sido diferentes dos estudantes de hoje, as coisas, no passado, não foram assim. Nós, pelo menos, por decorrência normal de trabalho de subsistência, jamais procedemos a estudos e “recordações” estafantes e velozes, apressadas, de ultima hora, nas épocas de pré-exames. Isto, pensamos, porque tentamos o aproveitamento das aulas nas devidas ocasiões.

Hoje em dia, quer nos parecer, os diversos cursos de ensino, resumem-se, no pensar da maioria da classe estudantil, exclusivamente no perigo dos exames parciais. Durante o restante do ano letivo, a frequência escolar, para muitos estudantes, têm sido uma coisa exclusivamente mecânica.

Entendemos errado esse pensamento e ação de grande parte do mundo estudantil de nossos dias. Pensamos que o integral aproveitamento das aulas hauridas durante o ano e a menor ausência possivel na frequência das escolas, resulta, para o futuro, em aproveitamento mais sólido para os próprios estudantes. Isto, porque, das maneiras que as coisas estão caminhando, a preocupação de grande parte da mocidade estudantil de hoje, é apenas o “passar de ano”. Nem sempre as “passagens de ano” nas circunstâncias citadas, colocam o formando em condições perfeitamente condizentes com o gráu da cultura recebida! A respeito, existem exemplos incontáveis, por ninguem ignorados.

Por outro lado, é de todo inenarrável, a decepção dos pais, antes as indesejáveis “bombas” sofridas pelos filhos. O aluno chamado “repetente”, tem sempre contra si, por ínfimo que seja, um resquício de indiferentismo e por vezes de escárnio, embora nem sempre manifestados.

A mocidade estudantil mariliense está, em sua maioria, integrada néssa “maratona” de “recordações”. As “bombas” estão devidamente estocadas e aparecerão inevitavelmente. As causas, em nosso entender, não podem ser outras que não as referidas.

Extraído do Correio de Marília de 3 de dezembro de 1957

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Liberdade para Prestes (30 de novembro de 1957)

Sem atinar verdadeiramente com os motivos, porém acreditando em boas intenções, aquí estamos para atender uma solicitação que nos foi formulada, escrevendo algumas linhas acerca da propalada luta óra em vigência, objetivando a liberdade do Sr. Luiz Carlos Prestes.

Em primeiro lugar, consideramos o lider comunista como um mau brasileiro (embora nada tenhamos contra ele e nos sintamos no dever de respeitar seus pontos de vista doutrinários). Consideramo-lo mau brasileiro e não podemos perdoá-lo, por mais humanos que sejamos, uma vez que ainda está viva em nossa lembrança a sua afirmativa de que lutaria o meso contra a Pátria, caso o Brasil viesse a guerrear contra a Rússia!

Existe mandato de prisão preventiva contra o mesmo e no entanto, gente de responsabilidade, que se fantasia de defensora do povo, pactua com o ato, desprestigiando a própria Justiça e tentando a liberdade do citado cidadão.

Propugnar pela liberdade de Carlos Prestes, é um direito que assiste a qualquer um, gesto merecedor de respeito. O que não se compreende (nós, pelo menos, não entendemos), é que se lute por éssa liberdade antes do sr. Carlos Prestes solver suas dívidas com a própria Justiça, defendendo ou justificando seus erros e excessos, cuja defesa lhe é assegurada pela própria Constituição.

O desenrolar dos acontecimentos, nos dão o direito de fazer mau juizo do atual Govêrno. Nos dão o direito em pensar na existencia de interesses escusos, uma vez que não compreendemos a inércia governamental a respeito e não conseguimos tambem entender como alguns pseudos representantes do povo, ao invés de defenderem aquele que é mandatário de uma ordem de prisão preventiva pelos meios legais e em Juizo, tentam uma defesa marginal, em desprezo flagrante aos próprios preceitos constitucionais e penais.

A liberdade (condicional ou não) do Sr. Carlos Prestes, pelos meios pretendidos, sem o atendimento ao curso dos processos existentes, traduz, de qualquer módo, um “pulo” fantástico às próprias leis do país, um “amolecimento” ou “engavetamento” ilegal do curso e da vigência dos processos-crimes óra existentes.

Estamos com o Sr. Carlos Prestes, em lutar pela sua defesa e não estamos com aqueles que tentam defende-lo, em virtude exclusivamente pelos meios que estão sendo utilizados.

Apenas isso pensamos sobre o assunto, atendendo assim ao convite que nos foi endereçado para que acerca da questão emitíssemos nosso fraco ponto de vista em torno da questão.

Extraído do Correio de Marília de 30 de novembro de 1957

sábado, 28 de novembro de 2009

Liberdade e violência (28 de novembro de 1957)

Não faz muito tempo, um famoso jornalista francês que visitou nosso país, teve a oportunidade de manifestar-se verdadeiramente abismado com a destemoridade da imprensa brasileira. “A imprensa do Brasil é a mais destemida e violenta do mundo” – declarou o citado profissional de imprensa, por sinal um nome de capacidade e projeção internacional.

Para nós, habituados já ao atual “modus vivendu” da imprensa nacional, a afirmativa em apreço deu-nos um pouco que pensar. Isto, porque, em nosso modo de ver as coisas, analisando os fatos sob o prisma de imparcialidade, neutralidade e independencia – bandeira norteadora da boa imprensa nacional – habituamo-nos a encarar a decorrência natural da vida de nossa imprensa, como perfeitamente normal e idêntica à de todo o mundo. Pelas declarações do diretor do “Paris Match”, no entanto, pudemos perceber que nem toda a imprensa nacional é aquilo que se póde e deve considerar como “boa imprensa”.

Ainda ontem (27/11/1957), um amigo nos exibia duas revistas da atualidade: “Maquis” e “Confidencial”. Numa vista d’olhos que passamos sobre algumas páginas dos citados órgãos, deparamos com algumas reportagens de arrepiar os cabelos!

Ao termos conhecimento dos citados escritos, nos ocorreu então a lembrança da afirmativa do diretor do “Paris Match” – “a imprensa do Brasil é a mais violenta do mundo”. Positivamente o é. Não toda, mas de módo geral. Conta-nos a própria história, uma infinidade de acontecimentos infaustos e mesmo crimes de morte, como consequência de determinadas publicações. Volta e meia dão entrada nas varas judiciais de diversas comarcas do país, pedidos de processamento de pessoas ou jornalistas, em virtude de conceitos emitidos e julgados injuriosos pela parte ofendida.

Não vai aquí (n)esta modesta crônica, nenhuma apreciação aos artigos citados e publicados em “Marquis” e “Confidencial”. Apenas, relembrando os conceitos emitidos pelo jornalista gaulês, ficamos com “a pulga atrás da orelha” – as assertivas do diretor do “Paris Match” pódem, até certo ponto, ser interpretadas como “desorganização”, para determinados órgãos de nossa imprensa. Tal pensamos, porque não podemos compreender o vocábulo “violência”, como adjetivo qualificativo numa verdadeira folha de informação pública.

Parece que o diretor do “Paris Match” tem alguma razão.

Extraído do Correio de Marília de 28 de novembro de 1957

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Título Eleitoral (26 de novembro de 1957)

No próximo dia 31 de dezembro (de 1957) (e)xpirará o prazo de validade dos títulos de eleitor, presentemente chamados “antigos”. Depois dessa data, nenhum brasileiro maior de 18 anos estará em condições de requerer a expedição de qualquer documento ou exercer atividade dependente de apresentação de papéis necessários e oficiais, sem a posse do novo título eleitoral.

Por todos os meios possíveis, as autoridades eleitorais estão de há muito divulgando essa necessidade. Conforme escrevemos há alguns dias passados, parece-nos que o interêsse (e obrigação) geral está se apresentando um tanto “fria”, ou, mais precisamente, não correspondendo aos prognósticos inicialmente elaborados. Conforme dissemos, é bastante estranhável a atitude de grande parte dos nacionais, em não se interessar de pronto pela solvição dêsse compromisso de brasilidade.

A obtenção de carteiras profissionais, a inscrição em concursos para cargos públicos, etc., etc., será inviável e impraticável para qualquer cidadão em idade regulamentar, que descurar-se dêsse dever. Aos funcionários públicos, federais, estaduais, autárquicos ou municipais, inclusive os inativos, não serão pagos os vencimentos correspondentes, sem a apresentação do novo título eleitoral, a partir do próximo mês de janeiro (de 1958). O título é (indispensável) ainda para os interessados na obtenção de empréstimos hipotecários ou sob consignação em folha, através de caixas econômicas, institutos de providência ou caixas de aposentadoria, bem como para qualquer ato que o preceito legal exija quitação do serviço militar ou do imposto de renda.

Muita gente, no entanto, está dando pouca importância ao caso. Ignorância deve ser o fator principal dêsse estado de coisas, apesar de que a divulgação dessa carência tem sido feita a contento, em tôdas as partes do Brasil e por todos os meios possíveis.

Após o prazo fatal, estarão passíveis de multas, os infratores da lei eleitoral. Os que não trocaram o título antigo ou não se alistaram estando na idade exigida por lei, sofrerão, é óbvio, as consequências previstas pela lei, sem motivos para queixas.

Dessas exigências, só os brasileiros maiores de 70 anos, os inválidos, os estrangeiros, os nacionais residentes fóra do país e as mulheres que não trabalhem fóra de suas casas é que estão isentos.

Todos aqueles que ainda não solveram êsse compromisso e que não regularizaram suas situações a respeito, devem, sem demora, procurar o Cartório Eleitoral local, que funciona junto ao Forum da Comarca.

Extraído do Correio de Marília de 26 de novembro de 1957

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ruas, passeios e buracos (23 de novembro de 1957)

Sem nenhum negar, o atual Prefeito Municipal é um administrador de grandes realizações. A construção do Paço Municipal, por si só, recomenda seu govêrno, como um administrador dinâmico e bastante trabalhador. O prolongamento da rede de água e esgoto, a extensão da rede de iluminação, o aumento do calçamento da cidade e os planos de asfaltamento, são, sem sombra de dúvida, elogiáveis atividades do sr. Argolo Ferrão.

Sucede, conforme dissemos em outras ocasiões, que os problemas municipais são complexos variados e diversos. Ao par das grandes realizações, mistér é que se olhe também para pequenas questões, aparentemente fúteis. Os buracos de determinadas ruas, o desnível do calçamento em inúmeros pontos da cidade e os buracos dos passeios públicos, são também assuntos que devem merecer atenções da administração municipal.

Muitas reclamações nos chegam ao conhecimento, acerca de buracos nas ruas da cidade. Ponderamos aos reclamantes, que problemas de maior monta estão ocupando as atenções do Prefeito e que assuntos de pequena importância serão resolvidos em tempo oportuno. Isso temos feito, não em defesa do sr. Prefeito, mas unicamente em consonância com nosso espírito de compreensão. Um cidadão, no entanto, nos desarmou, numa ocasião em que lançamos mão dessa argumentação. Disse-nos que o Prefeito não iria mesmo ter a obrigação de, pessoalmente, estar correndo ruas da cidade, para verificar onde existem buracos, onde a rede de esgoto foi ligada e a terra não foi aplainada, onde os passeios (principalmente os de “petit-pavè”) estão em estado miserável, etc.. Para isso – justificou a pessoa em questão – a Prefeitura dispõe de órgãos auxiliares especializados, com pessoal próprio e responsáveis também.

Refletimos sôbre a argumentação em tela e achamo-lá razoável. De fato, muitas coisas dêsse porte, aparentemente insignificantes, poderiam merecer melhor atenção da Prefeitura, através dos departamentos responsáveis.

As ruas onde não existem calçamento, esgoto ou mesmo guias de sarjeta, apresentam estados contraditórios ao próprio progresso e importância de Marília. Quarteirões há em que pequenos trechos apresentam paralisado o progresso em virtude da falta de conclusão de poucos metros de rede de esgoto.

O pior, no entanto, diz respeito aos passeios esburacados. Em pleno centro da cidade, estamos percebendo trechos que dificultam o próprio trânsito pedestre, tal o abandono em que se encontram certos “pedaços” de passeios. O chamado “petit-pavè”, por exemplo, empregado em maioria nesses serviços, apresenta o inconveniente de desfazer-se facilmente, desde que uma única pedrinha seja deslocada de seu devido lugar. Em pouco, aquela pedrinha dará lugar a uma verdadeira “cratera”, que fica indefinitivamente irreparável, não sabemos se parte de providências da Prefeitura ou por descuido dos proprietários responsáveis pelos imóveis enquadrados nesse caso.

Urgem remendos em diversos passeios da cidade. Para sermos francos, em quase tôdas as ruas ou em tôdas as ruas de Marília.

Extraído do Correio de Marília de 23 de novembro de 1957

domingo, 22 de novembro de 2009

Voto de analfabetos (22 de novembro de 1957)

Continua em discussão o problema atualmente em foco na Câmara Alta, acerca da instituição do direito de votos para os analfabetos.

As opiniões são diversas. Ainda não se conseguiu apurar u’a maioria esmagadora pró ou contra a questão. Os pareceres daquêles que têm sôbre os ombros a missão de solucionar tão grave questão, divergem entre si, mas nenhuma parte conseguiu, de modo positivo e cabal, subjugar a parte contrária.

Entendemos, nós, que a instituição do direito de voto aos analfabetos representa uma verdadeira imprudência política. Reconhecemos nos brasileiros em geral, iguais direitos, menos êste. É verdade que estamos num regime democrático e que numa democracia não há lugar para distinção de preferências políticas, não se justificando o afastamento dessa órbita dos que não sabem ler e escrever. Mas também é verdade que o colegiado eleitoral brasileiro ainda está bastante “verde”, crú mesmo. Se estamos nessas condições, ao entendermos êsses direitos aos analfabetos, estaríamos, ao invés de aprimorar isso que poderia ser chamado de “educação eleitoral”, estaríamos contribuindo para o desvirtuamento (já existente) do sagrado voto livre. Estaríamos, por outro lado, contribuindo para a consignação em massa de votos ingênuos ou mal intencionados a elementos confusionistas e indignos de bem representar-nos. Se já apresentamos êsse fenômeno, que é sem dúvida alguma uma decorrência natural da pouca burilada “educação eleitoral” que presentemente usufruimos, motivada por um lado pela má fé de certos candidatos embusteiros e advogados de causa própria e por outro pela boa fé e pouca compreensão do atual eleitorado, a situação seria mil vezes pior e mais degradante.

Não vemos nenhum desprezo ou indiferença de nossa parte, em sermos contrário ao direito de votos dos analfabetos. Acontece que se nos parece contraproducente tal instituição e pensamos que todos aqueles que têm um pouco de senso estão conosco.

Aqui em Marília mesmo, os analfabetos tiveram direito ao voto, estamos certos e até apostaremos que muitos analfabetos serão conduzidos no próximo pleito eleitoral a poltronas na Câmara Municipal, na Assembléia e mesmo no Palácio Tiradentes. Reflitam os leitores sôbre o assunto, que não encerra nenhum absurdo como possa à primeira vista parecer.

Nosso ponto de vista afirma-se ainda mais, em virtude de que no Brasil, qualquer cidadão que sabe “rabiscar” o nome é considerado alfabetizado!

Extraído do Correio de Marília de 22 de novembro de 1957

sábado, 21 de novembro de 2009

Porteiras da paulista (21 de novembro de 1957)

Voltou-se a agitar a questão da necessidade de encontrar-se uma solução cabal e correspondente, para o problema verdadeiramente calamitoso que representa para Marília as “célebres” porteiras da Cia. Paulista.

Há longos anos êste jornal vem focalizando (o) fato, tendo provocado, inclusive, entendimento de autoridades municipais e associações de classe com os altos dirigentes da grande empresa ferroviária. O problema, no entanto, permaneceu insolúvel.

Recordamo-nos que no passado, sugerimos entendimentos diretor do sr. Prefeito Municipal (ainda antes do atual período de redemocratização nacional) com a direção da Paulista. Tais entendimentos foram levados a cabo, mas as providências até hoje não surgiram.

O dr. Jaime Cintra, já recebeu por diversas vezes emissários da cidade, que expuseram pormenorizadamente ao ilustre diretor da Paulista, os problemas e a necessidade de sua solução. S. S. não ignora, portanto, a urgência do fato, e, apesar das boas intenções anteriormente demonstradas a respeito, as providências continuam na estaca zero.

A Câmara Municipal, por sua legislatura atual e passada, já procurou contornar a situação por mais de uma vez. Os entraves são tão numerosos e tantos, que parece que a solução do problema demandará providências elevadíssimas, custosas e difíceis. Entretanto, parece-nos que melhor boa vontade da Paulista, essa empresa que tão bem serve (e tão bem cobra), poderá resolver em definitivo o problema.

Aguarda-se agora novo colóquio de marilienses com o dr. Jaime Cintra. As exposições que serão levadas ao conhecimento do ilustre dirigente ferroviário, nada mais serão do que a repetição de assuntos já conhecidíssimos de S. S.. Portanto, é de esperar-se alguma providência, alguma solução, alguma promessa, enfim, porque uma promessa do grande dirigente da Paulista, por certo será um compromisso solvível.

O progresso mariliense, verdade se diga, como se já não contasse com alguns motivos contrários à sua vertigem ascensional, depara com as porteiras da Cia Paulista, especialmente as das Ruas Paraná e 9 de Julho, uma barreira incrível.

Urge que a direção da Paulista, que tanto prestigio recebe do público mariliense, que tanto orgulha o povo que serve, se digne também a dispender u’a melhor atenção as reivindicações de nosso povo e nossa cidade, com respeito ao tormentoso e antigo problema de suas clássicas porteiras.

Extraído do Correio de Marília de 21 de novembro de 1957

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Mercado Municipal (20 de novembro de 1957)

Há muito tivemos a preocupação de escrever alguma coisa acerca da necessidade de remodelação total do atual Mercado Municipal de Marília. Ainda no govêrno do sr. Adorcino de Oliveira Lírio, martelamos o assunto por diversas vezes. Mais tarde, com a posse do sr. Argolo Ferrão, voltamos ao assunto, que fô(r)a anteriormente focalizado, quer na administração do sr. Neves Camargo e Adhemar de Toledo.

Agora, na última sessão da edilidade mariliense, o vereador dr. Fernando Mauro voltou a agitar a questão, dizendo em plenário da carência de Marília em face (da situa)ção total do atual Mercado.

Tem razão o edil pedecista, como também nós há muito tempo. O prédio do obsoleto Mercado Municipal, de há muito deixou de acompanhar o progresso e as necessidades marilienses. Tornou-se pequeno, acanhado, insuficiente para atender as suas reais finalidades. Até as condições da moderna higiene não encontram cabal acomodação dentro dêsse próprio, uma vez que a sua construção passou a figurar no ról das coisas antigas.

Um Mercado Municipal e não um jardim, conforme afirmam alguns, deve ser o cartão de visitas de uma cidade. E nós temos em mente o fato de que será das piores a impressão dos forasteiros que visitam Marília e conhecem o acanhado Mercado Municipal, incompleto e insuficiente para as atuais necessidades de Marília. Juntamente com os problemas da água, luz e esgôto, a construção de mercados municipais modêlos está sendo uma preocupação de todos os prefeitos dos grandes centros do interior. Marília não poderá, certamente, ficar indiferente ao fato em tela, maximé tendo a questão merecido anteriormente atenções e estudos, que, segundo nos consta, não puderam ser levados avante, por motivos vários.

Temos a impressão de que se os descobridores de Marília e seus primeiros administradores tivessem previsto o surpreendente progresso da cidade, o atual Mercado Municipal jamais teria sido construido num “pedaço” de quarteirão e sim num quarteirão interior. A reforma ou remodelação do atual, pouco ou nada resolverá, há não ser a aparência visual e as condições de higiene; o espaço vital, que é o primeiro fator da necessidade do novo Mercado, ficará na mesma. Urgem, portanto, estudos a respeito do caso.

O que é certo é que Marília não pode e não deve permanecer indiferente ao assunto referente à necessidade de possuir um Mercado Municipal à altura de seu progresso e de suas exigências.

Extraído do Correio de Marília de 20 de novembro de 1957

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Esporte e amor à Marília (19 de novembro de 1957)

Ainda está servindo de “prato do dia”, o acontecimento esportivo da última sexta-feira. Não a realização da peleja amistosa entre o Vasco da Gama e o Brasil Bandeirantes, propriamente dita, mas sim o rumo que as circunstâncias tomou.

Muitos pormenores e alguns nomes relacionados com o caso em téla são de todos conhecidos.

Existe, todavia, um fato que deve merecer atenções públicas. É o sentimento de zelo e amor à Marília, demonstrado na hora propícia por alguns cidadãos marilienses, muitos dos quais nem poderiam ser considerados esportistas em toda a extensão do vocábulo. Alguns cidadãos, numa demonstração de cuidado pela repercussão desfavorável que surgiria fatalmente em torno do nome de Marília, praticaram uma atitude salvadora, procurando e resolvendo o “impasse” criado pela decorrência de uma irreflexão (sem negar bem intencionada) de uma só pessoa.

O problema foi contornado de módo satisfatório, com a sua responsabilidade pesando sobre os ombros de duas outras pessoas “que nada tinham a ver com o peixe”. Ha quem diga que tais cidadãos fizeram mal e que deveriam ter deixado que “o pau quebrasse sobre os costados” do autor diréto do acontecimento. É um módo errôneo de pensar, uma vez que o reflexo do cometimento, as consequências do fato e a publicidade adversa que surgiriam fatal e inevitavelmente em redor da questão, não iriam destacar um nome ou um clube de futebol, mas sim pesar contra os marilienses em geral, suas autoridades em particular e contra o nome de Marília em especial.

Está certo de que ninguem fazer o papel de borracha, apagando os erros alheios. No entanto, existem circunstâncias, que, pelo modo com que se desenrolam, arrastam tambem, como as águas de um rio em enchente, pedras e vegetais que se encontram nas imediações do leito. Isto sucedeu com respeito ao acontecimento esportivo de sexta-feira última, quando, não por se encontrarem nas proximidades do palco desse desenrolar, mas sim por uma questão de amor e zelo ao nome de Marília e do povo mariliense, algumas pessoas deixaram-se ir no roldão, impedindo consequências mais graves e infautas.

Agora, duas pessoas estão arcando com um compromisso inesperado e sobremodo pesado, que contraria frontalmente seus interesses particulares. Fizeram-no movidos exclusivamente em defesa do bom nome da cidade e do povo mariliense e bom seria que o próprio povo reconhecesse as minúcias do que aconteceu, partilhando assim dêsse peso, aliviando um pouco aqueles que tiveram a iniciativa de enfrentar a questão. Seria um tanto ingrato para os próprios marilienses, especialmente para aqueles que pódem, o deixar nêsse sacrifício imprevisto, algumas pessoas. Sugeriríamos, então, por nossa livre iniciativa, que aqueles que sempre demonstraram amor por Marília e seu povo, olvidando o erro de um só cidadão, tivessem a iniciativa de vir estender tambem a mão aos marilienses que óra se encontram suportando esse fardo.

O assunto é digno de ser conhecido em toda a extensão de sua realidade e merecedor da consideração de muita gente. Seria injusto o indiferentismo e a apatia em relação ao caso, permitindo tamanho sacrifício à algumas, quando duas delas transportam sozinhas o maior peso.

Extraído do Correio de Marília de 19 de novembro de 1957

domingo, 15 de novembro de 2009

Miscelânea de Notícias (II) (15 de novembro de 1957)

A primeira “miscelânea” saiu somente “para variar de tempêro”. No entanto, alguns dos nossos amáveis leitores gostaram e pediram bís. Se sinceridade ou brincadeira, não sabemos; assim pois, com nossa costumeira bôa vontade, vamos atender os pedintes. Por isso, ésta “segundona”.

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Comemora-se hoje o 68.o aniversário da proclamação da República. Se o Marechal Deodóro da Fonseca fôra vivo e visse às quantas anda a “sua” República, por certo a “desproclamaria”.

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Dona Conceição da Costa Neves, ex-Conceição Santamaría, uma das integrantes da Comissão de Parlamentares que visitou ha pouco a Rússia, fez uma série de palestras através da Rádio Piratininga de São Paulo. E não disse nenhuma coisa adocicada. Falou “misérias” do regime soviético e do “pêso” da doutrina comunista! Coisas de arrepiar os cabelos!

Agora chegou a vez do deputado Lucioninho, outro integrante da aludida caravana. Vamos aguardar o que o mesmo disser, para, posteriormente, tendo já ouvido “dona” Conceição, formarmos tambem o nosso juizo...

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Por falar na tal de Comissão de Parlamentares brasileiros que esteve na URSS em missão observatório, bom é que se diga que a imprensa paulistana “deu a bronca” porque dentro dessa caravana foram incluidos tambem alguns “paraquedistas”, fantasiados de parlamentares.

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Os marilienses terão na tarde de hoje, o ensejo de ver em ação o Clube de Regatas Vasco da Gama. O grêmio cruzmaltino enfrentará o quadro de Antonio Luiz Fiorelli, o conhecido e “tradicional” “meia cancha”. Oxalá não chova, porque senão, as boas vontades do “Fiori” acarretarão ao mesmo um prejuizo bem grandinho!

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Todos sabem que o Prefeito Argollo Ferrão é um administrador de grandes realizações. Acontece que certos “buraquinhos” que existem nas ruas da cidade tambem merecem atenções da municipalidade.

Determinados trechos de ruas mais parecem queijos suissos – tantos são os buracos.

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Dizem as más linguas, que um eminente mariliense pretende “remover” u’a mulher suspeita, do “bas bond” para uma casa particular em zona residencial, mas não acreditamos.

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Transcorre hoje o aniversário do Conservatório Musical Santa Cecília, estabelecimento de instrução artística notável, um verdadeiro orgulho da cidade. No ensejo deste rápido registro, desejamos apresentar nossas congratulações ao Maestro Sílvio, professor Mário, “dona” Chiquinha e “dona” Oxide, bem como aos demais mestres e alunos do mencionado Conservatório.

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A “carrocinha” da Prefeitura esteve um dia destes dando umas “voltinhas” pela cidade. “Colheita” regular. Não foi melhor, porque muitos cachorros, inclusive “vira latas” (sem nenhum faro de “policial”), andam tão sabidos que quando a “carrocinha” aponta no começo de uma rua eles “se arrancam” para outra direção!

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Prossegue a campanha de saneamento de maus costumes empreendida pelo delegado de polícia adjunto, Dr. Severino. Muita coisa têm “entrado nos eixos” ultimamente. Parabéns, Dr..

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O reverendo Alvaro Simões, colaborador assíduo e eficiente do “Correio”, está empreendendo uma campanha das mais meritórias, visando criar um “Banco de Sangue” para Marília. Parece que nem todos interpretaram bem a nobilíssima intenção dêsse moço, o que é uma pena.

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Se não falharem os prognósticos de nossa observação política, teremos para breve o lançamento de mais dois nomes marilienses para concorrerem ao próximo pleito, como candidatos à deputado estadual! Ótimo.

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As torres da Matriz de Sto. Antônio estão “subindo” vertiginosamente. O padre César arregaçou as mangas e pretende concluir a estrutura da torre central dentro de poucos dias mais. Depois disso, a Prefeitura deverá construir um jardim na praça da mencionada Matriz. Oxalá tal logradouro seja feito nos moldes do Jardim Maria Isabel, isto é, com rapidês e sem muitas delongas.

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As obras do Paço Municipal caminham aceleradamente. Nossos votos para que o presente impulso não arrefeça em nada.

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Está de regresso de sua viagem ao Velho Mundo o Dr. Aniz Badra, Presidente da Câmara Municipal e Presidente da Associação Paulista de Municípios. Enquanto o referido dirigente da APM viajou, registrou-se um movimento de “apronto de cama” do mesmo.

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A tradicional “Revista” deste jornal, habitualmente dada à luz na época do Natal, este ano sofrerá alterações da data de sua divulgação. Será distribuída no dia 4 de Abril, o Dia do Município de Marília.

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Vai ser publicado um romance de nosso companheiro João Jorge. A Livraria José Olympio terá êsse encargo. O “escript” agradou em cheio aos editores e a nova obra estará circulando dentro de poucos meses.

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Breve nos encontraremos novamente neste cantinho. Até lá.

Extraído do Correio de Marília de 15 de novembro de 1957

sábado, 14 de novembro de 2009

Fiscalização de presos (14 de novembro de 1957)

Existem opiniões diversas quanto à reorganização da COMAP mariliense. Os que acreditam na possibilidade do mencionado órgão controlador e fiscalizador de preços ser dirigido por gente capaz e bem intencionada, são de parecer que sua existência e atividades só poderão trazer benefícios públicos. Os que, desanimados e desiludidos com exemplos pretéritos, vêem na vida do citado órgão, apenas a continuidade de uma inércia e uma pusilanimidade “tradicionais”, são, com razões, contrários à sua reestruturação.

Nós somos ainda dos que se enquadram no primeiro pensamento. Entendemos que a COMAP deve ser reorganizada para trabalhar com afinco e dentro dos princípios básicos de suas precípuas finalidades controladoras e fiscalizadoras.

Ultimamente o mariliense tem sido vítima de uma série de explorações das mais descabidas. Todo o mundo “tira a sua casquinha” na primeira oportunidade. Não que estejamos pretendendo baixas absurdas em determinados artigos e gêneros de primeira utilidade ou complementos dos mesmos. Não somos tão ingênuos assim. Apenas aspiramos, razoavelmente, um paradeiro a êsse rosário de explorações que se verifica à miúde. Os preços dos frangos, nesta vizinhança do Natal, já principiaram a pular como cangurús. De 60 a 70 cruzeiros na semana passada, já custam 80 a 90. Nêsse passo, pela data magna da cristandade, uma “penosa” atingirá e provavelmente ultrapassará a casa das 100 “pratas”.

Até as melancias e o milho verde custam os “olhos da cara”. Verdura, ovos, frutas, etc.. Coisas que nem sempre pagam imposto, porque existem determinadas isenções fiscais ou porque se verificam naturais sonegações.

Compreendemos perfeitamente, a situação de algum modesto vendedor, que já adquire na fonte de produção mercadorias por preços assustadores, não lhe cabendo culpa pela alta. O que não entendemos são as explorações de intermediários e que a respeito não se tomem providências cabíveis, contra essa maratona altista, cada vez maior e mais acentuada.

Talvez estejamos errados, nêsse ponto de vista; no entanto, pensamos que se existisse um órgão controlador, que bem se desincumbisse de suas primordiais finalidades fiscalizadoras, a situação tenderia a mudar para melhor.

Não há (como) negar, entretanto, que Marília ostenta plana de realce nesse sentido, mesmo em relação aos centros onde a vida é considerada caríssima.

O fenômeno existe e sua solução ou pelo menos atenuação visível, não é “bicho de sete cabeças”. A condição atual dessa referência é decorrência lógica e indiscutível do atual estado de coisas, motivado pela ausência absoluta (ou descuido) da fiscalização e tabelamento de preços de determinados produtos, necessário ao consumo público.

Essa é a verdade. Irretorquível verdade.

Extraído do Correio de Marília de 14 de novembro de 1957

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Miscelânea de Notícias (13 de novembro de 1957)

Clamava ainda ontem à tarde, determinado cidadão, queixando-se amargamente do tempo em Marília. “Veja você(“), explicava o homem, (“)se póde existir saúde bôa com um clima tão instável. Faz um calor dos diabos e duma hora para outra, o tempo muda, ventando, fazendo frio, chovendo e voltando o calor repentinamente(“).

Em verdade, o tempo tem estado verdadeiramente “camaleonesco” nos últimos dias. Acontece que todo o ser humano é, por si só, insatisfeito. Se chove, reclama. Se venta, reclama. Se faz frio ou calor, reclama tambem.

Reclamar é um mal de todos nós.

Acontece, que poucos minutos depois, deparavamos um outro cidadão, que mostrava-se infinitamente satisfeito com a chuvazinha da tarde e dos últimos dias. Motivo: o homem possue algumas dezenas de alqueires de terras semeadas de algodão.

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Não resta dúvidas de que no próximo ano funcionará a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília.

Trabalhos insanos vem sendo desenvolvidos pelas autoridades municipais e pela Comissão pró instalação dêsse curso oficial de ensino superior.

Entretanto, bom é que não se verifique nenhum descuido nas providências a respeito, porque o tempo, inexorável, caminha velozmente; 1957 vai se escoando com uma rapidês íncrivel e o mês de Março, para início das atividades da Faculdade, já está batendo às portas.

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Decidiu-se o Sr. Governador a amparar um “pracinha” da F.E.B. de nossa cidade. Trata-se de Augusto Gonzaga Moura, o popularíssimo “Donga”, que vai exercer agora o cargo de motorista na Delegacia Regional de Fazenda local.

É uma medida que deveria ter sido pósta em prática ha muito tempo, uma vez que assiste esse direito expresso em lei, para o amparo aos ex-combatentes. Por sinal, a legislação acerca dêsse assunto, entre nós, quer no âmbito federal, quer no estadual, é bastante vasta.

Pessoas de proeminente expressão política de nossa cidade, à cuja frente figurou o nome do Sr. Prefeito Municipal, empenharam-se no pedido de ha muito.

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Com grande rapidês e em perfeita ordem, os vereadores marilienses aprovaram em segunda discussão, na última quinta(-)feira, a proposta orçamentária para 1958. Foi u’a mostra de compreensão e de grande responsabilidade, mais uma vez demonstrada pelos legisladores da cidade.

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Sem decisão definitiva até o momento, a vergonhosa luta de diversos deputados federais, pela prorrogação de mandatos.

A confiança do público, repousa apenas no bom senso da maioria dos parlamentares, que deverá derrubar a citada imoralidade.

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Morreu a cadelinha russa que se encontrava no “Sputnik II”. Alguem declara que o animal foi sacrificado em pról da ciência. Nós pensamos que não e embôra nada entendendo de ciência e muito menos de veículos interplanetários, sabiamos de antemão, por uma lógica intuitiva muito natural, que o fim da “Laika” éra mesmo “esticar as canelas”.

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Choveu azul. Tão azul, que até manchou roupas brancas que se encontravam nos varáis. As informações dão conta disso, segundo a voz do Herón Dominguez, o “Reporter Esso”, da Rádio Nacional.

Se “ésso” não foi piada...

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Os “discos voadores” continuam aparecendo em diversos pontos do mundo. Em Amparo, segundo nosso companheiro João Jorge, que de lá regressou ontem, os “discos” são vistos por todo o mundo e quasi toda hora.

Será que nós não teremos tambem êsse privilégio?

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A respeito dos pedidos que temos recebido de vários marilienses, para que continuamos a alertar o eleitorado local, acerca de que possamos eleger um deputado por Marília, limitamos a responder como o “Jeca Tatu” do Monteiro Lobota: “Não paga a pena”.

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Após o pleito vindouro e depois de conhecermos o resultado das eleições, voltaremos ao assunto. Isto é, se não conseguirmos eleger ninguém.

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Assim como a cachaça, que é combatida por uns e apreciada por outros, a COMAP parece que está fazendo falta. Está existindo muita exploração por aí, com referência aos preços. Quem duvidar, que se dê ao cuidado de observar.

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Estávamos quasi sem assunto para a crônica de hoje. Sem assunto propriamente, não, porque cada tópico désta “salada” daria uma crônica completa. Acontece que preferimos variar hoje e “matar diversos coelhos com uma só cajadada”.

Extraído do Correio de Marília de 13 de novembro de 1957

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Parques Infantis (12 de novembro de 1957)

Na votação da proposta orçamentária municipal para 1958, aprovou a edilidade mariliense uma oportuníssima emenda de autoria do reverendo Álvaro Simões. A reconsignação de uma verba de um milhão de cruzeiros, destinada a construção de Parques Infantís em nossa cidade.

Como sabem todos, Marília possui um único Parque Infantil – diga-se de passagem, moderno e bem aparelhado. No entanto, insuficiente para atender as necessidades locais e difícil para muita gente interessada, uma vez que a densidade demográfica da “urbe” está de há muito a exigir novas localizações dêsse melhoramento imprescindível, em outros pontos da cidade.

Os parques infantis, hoje em dia, não são privilégios de filhos de ricos, como possa alguém assim pensar. Nesses recantos, tantos filhos de ricos como de pobres, pretos ou brancos, encontram um ambiente sadio e alegre, uma vida ao ar livre, a prática de esportes e a leitura de bons livros, ao lado de brinquedos adequados e uma alimentação suplementar sadia e bem dosada em calorias e vitaminas. As crianças aprendem a camaradagem entre sí, a respeitar as professôras e o contacto com gente estranha, o que não acontece com aqueles criados dentro de casa. Arejam as mentes e distraem o corpo, através de uma série de brinquedos próprios e seguros, sempre supervisionados pelas mestras atenciosas e orientadoras.

Aquêle que se der ao trabalho de passar algumas horas no atual Parque Infantil, poderá constatar o que estamos afirmando e sentirá, logicamente, uma satisfação agradecida o ter Marília um recanto dêsse porte, para folguedos necessários da petizada mariliense.

Nossas congratulações com o autor da mencionada emenda e com a edilidade em geral, pela compreensão demonstrada na votação da mesma. Isso prova que os legisladores marilienses compreendem perfeitamente a situação das crianças de hoje – os homens de amanhã –, voltando para o mundo infantil, tambem suas carinhosas providências.

Da formação e educação das mentes infantis dependem o brilho das ações dos homens do futuro.

Marília, como já dissemos, precisa de mais parques infantis. Em diversos pontos da cidade, para favorecer as crianças de variadas zonas residenciais.

A verba de um milhão de cruzeiros, no entanto, poderá ser insatisfatória, se tiver a municipalidade que adquirir terrenos para a construção de novos empreendimentos como o referido. Bom seria que alguns marilienses proprietários de grandes áreas da cidade, doassem ao município, para êsses fins, glebas próprias. Aliás, já temos um exemplo dêsse porte, executado pelo Comendador Dr. Cristiano Altenfelder Silva, o “Cidadão Mariliense de 1956”, uma vez que S. S. já doou um quarteirão de sua propriedade, na Vila Palmital.

Bauru, ao que nos consta, possui nada mais nada menos do que meia dúzia dêsses recantos, a maioria construida sob a atual administração da “cidade sem limites”. É um exemplo elogiável, sem dúvida.

O primeiro passo foi dado, graças a iniciativa do reverendo Álvaro Simões, com o apoio integral da totalidade da Câmara Municipal. Esperemos a possibilidade de uma colaboração particular tambem. As crianças marilienses merecem essa deferência.

Extraído do Correio de Marília de 12 de novembro de 1957

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um passado no presente (9 de novembro de 1957)

Curioso, como algum fato passado, enterrado nas gavetas do esquecimento normal, possa transportar uma pessoa a recordações pretéritas das mais vivas!

Assistimos na última quinta-feira, no Cine São Luiz, como “aperitivo” do estupendo filme de James Mason intitulado “Delírio da Loucura”, um interessante “short” colorido. A curta metragem referida, colocou em evidencia determinadas telas elaboradas por um artista do século XVII na Itália, cuja memória e arte hoje são consagradas em todo o mundo. Apresentou aquilo que se poderia chamar de uma história, um acontecimento natural numa vida: o retorno de um ex-combatente à legendária Itália, com o espírito de observar no presente, aquilo que êle vira por acaso no passado, numa época de guerra na qual participava.

O homem principal, que apareceu como soldado adentrando o local em apreço, retornou, conforme nos mostrou o filme, alguns anos depois, como um apreciador das artes do pincél.

Assistimos o filme e não conseguimos evitar a vibração de nossa lembrança, que, à revelia, nos transportou também para o ido ano de 1945, quando estivemos no mesmo local e apreciamos aquela maravilhosa coleção de pinturas célebres e famosas. A focalização da objetiva cinematográfica nos trouxe a certeza de uma filmagem “in loco”, sem qualquer artimanha ou “montagem”. Diversos ângulos da cidade, o famoso Rio Arno, as ruas apertadas e tradicionalmente européias, nos acarretaram uma saudade indiscritível. Chama-se Palácio Pitti o local focalizado, embora Ramos Gadelha, o narrador da película tivesse omitido o nome.

As recordações nos foram mais acentuadas e indeléveis, porque ali entramos por acaso, “fazendo hora” que estávamos, com dois dias de folga na retaguarda, instalados no “American Rest Camp” em Florença. Leigos que somos em matéria de pintura, não conseguimos apreciar artisticamente o valor da fenomenal coleção de quadros ali existente. No entanto, dentro de nossas observações apenas normais, ficamos verdadeiramente maravilhados com tudo aquilo que vimos e a lembrança da visita ao Palácio Pitti permaneceu conosco por muito tempo. Isto porque em matéria de arte, duas coisas sempre nos calaram mais profundamente na Itália: O Palácio Pitti com suas telas magistrais e a beleza do Cemitério de Gênova, o famoso “Campo Santo di Staglieno”.

Sentimo-nos, confessamos, como uma criança que se alça nas asas da fantasia, imaginando coisas impossíveis e irreais. Voltamos ao passado e enquanto o foco projetava na “panorâmica” as imagens daquelas maravilhas tôdas, recordávamos o nosso andar desajeitado dentro daquêle recinto maravilhoso, arrastando os pesados galochoes com barro e neve, boquiabertos ante tanta beleza artística. Lembramo-nos das explicações do “guida” (guia) do Palácio, atenciosas e precisas, tão minuciosas que nos confundiam. Recordamo-nos das exclamações de espanto de uma primeiro tenente enfermeira americana que tentava incutir-nos em nossa mente caipira, a apreciação dos ângulos das pinturas, explicando-nos nu’a mistura sofrível de inglês e italiano as partes técnicas da arte e os motivos primordiais de apreciações. Lembramo-nos ainda da inevitável admiração que externamos, ao sabermos dos preços em dólares de diversos daquêles quadros, embora os mesmos não fossem negociáveis.

Durante alguns minutos, ante-ontem (7/11/1957), no Cine São Luiz, vivemos um pouco do passado em pleno presente.

Há algum tempo atrás, conversando com o pintor Brás Alécio, fizemos menção ao Palácio Pitti e à sua maravilhosa coleção, tentando descrever com nossa fraca lembrança, tôda aquela beleza. Se Brás Alécio assistiu o filme referido, deve ter melhor compreendido aquela nossa conversação.

Por isso, repetimos aqui aquilo que dissemos na ocasião ao Brás: Ou porque somos caipiras, ou porque vimos naquela oportunidade tantas obras de arte, até hoje não conseguimos compreender isso que se chama “arte moderna”, que, para nós, sinceramente, significa uma verdadeira estupidez dentro da nobre e difícil arte da pintura.

Extraído do Correio de Marília de 9 de novembro de 1957

domingo, 8 de novembro de 2009

Prorrogação de Mandatos (8 de novembro de 1957)

A prorrogação de mandatos, óra pretendida por alguns parlamentares, eiva-se, sem sombra de dúvida, de uma verdadeira imoralidade. É um processo que denota temor indisfarçado de alguns deputados, que não souberam cumprir fielmente suas obrigações parlamentares e receiam a inevitável derrota nos próximos pleitos. Um meio, enfim, de continuar mais algum tempo dependurado às grossas tetas do herário público, mercê de um expediente condenável, onde se advoga em causa própria.

Gostaríamos que aquêles que são apologistas dêsse processo de prorrogação de mandatos, realizassem um plebiscito para auscultar a opinião pública a respeito.

Apesar de combatidos, os defensores dessa infeliz idéia tentam argumentar de modo infantil, as “necessidades” da questão, quando nenhuma necessidade existe e apenas conveniências pessoais que beneficiarão uns poucos, em prejuizo de muitos.

Os partidários da prorrogação dos mandatos, são, sem dúvida, os que poucas realizações de destaque conseguiram efetivar; a maioria valeu-se do cargo outorgado pela boa fé do eleitorado brasileiro, para tirar proveito próprio e para desfrutar, ao lado de uma centena de privilégios facultados por lei ou pelas circunstancias do título, aquilo que se chama “imunidades parlamentares”, qualidades desnecessárias para os que agem direito e sabem colocar-se no seu devido lugar, merecendo respeito público, como decorrência de seus próprios atos.

Hoje, como não poderia deixar de ser, as opiniões estão divididas com respeito ao interêsse em tela, da prorrogação de mandatos eletivos.

As ponderações dos favoráveis ao mencionado acontecimento já estão em palpos de aranha para argumentar convincentemente. As “razões” levantadas pelos partidários da imoral iniciativa não convenceram ainda. Os seus propugnadores tentam incutí-las no espírito público, como se fôsse um xarope que se dá às colheradas e sob promessas fantasiosas a uma criança. Acontece que a criança já percebeu o gosto do remédio e insinuações, promessas e mesmo ameaças não estão conseguindo os resultados necessários, uma vez que a recusa pela ingestão da droga está sendo um verdadeiro problema.

Não sabemos ainda o desfecho final dessa infausta luta que alguns parlamentares tão desbriadamente defendem. O que sabemos, é que a totalidade dos brasileiros alimenta muitas esperanças acerca da dignidade e bom senso da maioria dos deputados, esperando que essa maioria saiba, com a mão na razão, derrubar essa idéia imoral.

Extraído do Correio de Marília de 8 de novembro de 1957

sábado, 7 de novembro de 2009

Um Banco de sangue para Marília (7 de novembro de 1957)

Não há (como) negar, que nosso apreciadíssimo colaborador, reverendo Álvaro Simões, ao utilizar-se do espaço diário que prazerosamente lhe é reservado nêste jornal, do mesmo só se tem valido para patrocinar boas causas, em favor direto da coletividade, e, em especial, dos desamparados e necessitados sob qualquer forma.

Como se já não bastassem as inúmeras vitórias conquistadas nessa caminhada, em decorrência de sua brilhante e bem intencionada pena, o incansável cidadão, sempre preocupado com o bem estar comum, olvidando seus próprios interêsses, vem de encetar agora uma das mais nobres e dignas, campanhas – a criação de um Banco de Sangue para Marília.

Já dissemos anteriormente, repetidas vezes, que as intenções desta coluna diária objetivam o destaque de acontecimentos mais importantes da ocasião, relacionados preferencialmente com a cidade ou povo mariliense. Por isso, aqui estamos para colocar no devido relevo, essa elogiável iniciativa do mencionado articulista, paradigma como sempre, encomiosa como outras inúmeras campanhas hoje vitoriosas.

Efetivamente, a idéia, que agora toma corpo e atrai atenções, pela importância que representa, dentro do sentido verdadeiramente humano, deve merecer, como está merecendo, as atenções gerais. O significado da existência de um Banco de Sangue numa cidade, é alguma coisa de majestoso, pela importância representativa que ostenta, em relação com a própria vida humana, principalmente tendo em vista que só se recorre a estoques de plasma e sangue em casos extremos ou delicados, para salvamento de vidas humanas.

Nos conta a experiência médica e as circunstancias mais variadas, que muitas vidas já se perderam, devido a falta, em certas ocasiões, do precioso sangue destinado a alimentar organismos debilitados. Todos sabem, que o sangue é classificado em diversos tipos, os quais nem todos se casam entre si e que a transfusão só é praticável em obediência aos mesmos, isto é, sendo desaconselhável e perigoso a injeção de um tipo de sangue diferente no organismo de quem possui uma qualidade superior. Se tal não fosse, por certo, o problema das transfusões de sangue não significariam as dificuldades e os riscos que apresentam; bastava numa emergência dessas, uma transfusão qualquer e o assunto estaria clinicamente resolvido. Acontece que o selecionamento dos tipos de sangue demandam tempo e as circunstâncias das necessidades dêsse jaez, regra geral não podem esperar. Eis, como finalidade primordial, o desiderato do Banco de Sangue: a existência do estoque de plasma, devidamente classificado e pronto para uso urgente. Outro ponto, também importante, será a sua aplicação gratuita ou quase, aos necessitados e impossibilitados de realizar o pagamento devido. Para isso, devem os marilienses que podem e desejarem, constituírem-se em doadores gratuitos.

Se não houver coesão real e efetiva em torno de uma idéia como essa lançada pelo reverendo Simões, então, poderemos dizer que estamos verdadeiramente perdidos e que o sentimento de humanidade dos marilienses é um mito. Por isso, esperamos que a concretização da iniciativa seja um fato exemplar e digno, dentro de breves dias.

Extraído do Correio de Marília de 7 de novembro de 1957

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Finados que passou (6 de novembro de 1957)

O Dia de Finados, êste ano, parece que apresentou menor afluência pública ao Cemitério Municipal. A não ser que estejamos equivocados, foi menor a porcentagem das visitas ao Campo Santo de Marília êste ano do que nos anteriores.

Em proporção, o grosso do movimento humano verificado nas partes da manhã e da tarde do último sábado, deve ter sido bem menor daqueles movimentos dos últimos anos. Parece que está “caindo da moda” o visitar-se as necrópoles no Dia dos Mortos.

Não pretendemos dizer com isso que registrou-se pouco movimento, mas sim que nos pareceu menor. Nos anos anteriores, principalmente no período da tarde do mencionado dia, o próprio trânsito de pedestres no interior do Cemitério fôra bem mais acentuado, por vezes difícil, não pelo sentido de desorganização do movimento dos visitantes, mas sim pela menor afluência pública. Êste ano, a locomoção de um para outro lado foi relativamente mais fácil, levando-se a crêr o que estamos afirmando.

O trânsito motorizado, pareceu-nos que equiparou-se ao dos anos anteriores, com a vantagem de ter sido melhor e mais eficientemente organizado desta vez. A êsse respeito, justo é que lavramos um voto de louvor à garbosa Guarda Civil, incansável e precisa na orientação dêsse pormenor.

Uma coisa, no entanto, vem se perpetuando a cada ano que passa, no Dia de Finados: A tristeza habitual, necessária e tradicional, vai cedendo lugar, no entender de uma grande maioria, ao pensamento de que o Dia dos Mortos é um dia alegre, festivo. Isso deduzimos, depois de termos verificado algumas ações pouco condizentes com a importância do ato visitatório ao Cemitério, como brincadeiras, risadas (por vezes escandalosas) e um verdadeiro “footing” em algumas avenidas da necrópole.

Vimos em determinado ponto, um grupo de marmanjões, arrotando ares donjuanescos, dizendo “gracinhas” a senhoritas que por ali transitavam. E lamentamos sinceramente que o dr. Severino Duarte não estivesse por perto...

No passado, não muito remoto, as coisas eram diferentes. O Dia de Finados era um dia de compenetração, de respeito, de preces e de tristeza.

Não estamos dizendo que todos os que se locomoveram até a Avenida da Saudade tenham procedido da maneira censurável que estamos referindo. É claro que apenas uma parte, possuidora de mal educados sentimentos, assim agiu. Graças a Deus, apenas uma parte.

Presenciamos casualmente, uma conversa de dois “engraçadinhos” sôbre determinadas “aventuras”. E o faziam em altas vozes, com visíveis intenções de que fossem ouvidas pelas pessoas que se encontravam nas imediações.

Enquanto muitos, contritos e compenetrados da importância do transcurso oravam ou permaneciam ao lado das sepulturas de entes queridos, outros faziam do lugar e da oportunidade uma verdadeira festa, uma autêntica diversão. Isto está errado, embora vivamos num regime democrático. Principalmente quando a liberdade e o direito de um termina exatamente onde começam os direitos do próximos. Vimos, por exemplo, uma senhora protestar contra uma verdadeira corja de desocupados, que promovia algazarras ao lado do local onde a mesma se encontrava, envolta em saudosas recordações e rendendo um tributo de saudade a alguém que lhe fôra caro no passado.

A homenagem aos mortos vai, aos poucos, ganhando um aspecto diferente, revolucionário, festivo. Pelo menos para aquêles que não são fracos de sentimentos ou doentios de compreensão e respeito.

Extraído do Correio de Marília de 6 de novembro de 1957

terça-feira, 3 de novembro de 2009

José Arnaldo (3 de novembro de 1957)

José Arnaldo, nosso colega de trabalhos, que vem colaborando com o “Correio” desde 1944, quando, nos campos de luta da Itália já nos remetia apreciadas crônicas sobre a vida dos “pracinhas” brasileiros, acaba de demitir-se do quadro de locutores da Rádio Dirceu de Marília.

Na citada emissora José Arnaldo exercia as funções de Diretor do Departamento de Reportagens e Titular de Esportes.

José Arnaldo continuará na imprensa mariliense, acumulando as funções de reporter dêste jornal, conforme vem acontecendo ha doze anos.

Extraído do Correio de Marília de 3 de novembro de 1957

Homenagem a um municipalista (3 de novembro de 1957)

No próximo dia 9 de dezembro, serão tributadas sensíveis homenagens póstumas ao grande municipalista que foi Stelio Machado Loureiro.

O municipalista Stelio, um dos precussores da bandeira dos Municípios em todo o Brasil, como todos sabem, foi desditosamente tragado pelas águas do Rio Paraná, nas proximidades do Salto de Urubupugá.

À 9 do mês vindouro, deverão reunir-se no local, prefeitos e vereadores de diversos municípios do Brasil, para render êsse tributo de saudade e homenagem póstuma à memória do saudoso Stelio Machado Loureiro.

Defronte do local do desaparecimento do inditoso municipalista, foi erguida, pelo Prefeito da cidade de Castilho, uma capéla, em cujo local, no dia mencionado será celebrada Missa por intenção da alma daquele grande soldado do municipalismo.

Será u’a homenagem singela, das mais sinceras e reconhecidas. Render um preito de saudade à memória daquele que no passado, deixando em segunda plana as reivindicações das capitais e o conforto do asfalto, para voltar suas vistas aos problemas do interior, focalizando e lutando ardorosamente pelas causas das comunas, é um dever justo dos homens públicos interioranos.

O nome de Stélio Machado Loureiro é hoje uma bandeira, uma força de incentivo para os batalhadores déssa causa, que de um pensamento arrojado no início é hoje uma força viva e patente. Graças aos ideais de homens como Stélio Machado Loureiro, os municípios de hoje em dia estão encontrando seu verdadeiro lugar no conceito das mais diversas e divergentes esferas político-administrativas das capitais. A descentralização, ponto-chave da luta muncipalista, principía já a demonstrar seus verdadeiros frutos e convivências, embora contem todavia com a antecipação de idéias contrárias, que poderiamos tachar de possuidores de carater pejorativo.

Hoje, os homens do interior, principalmente os homens públicos, já possuem melhor identidade quando se acercam dos poderes centrais, tendo facil acesso aos órgãos administrativos e governamentais, onde suas reivindicações e clamores já são ouvidas. No passado, antes da luta municipalista, tais afirmativas éram uma contundente utopia.

Ninguem mais do que nós, os interioranos, é capaz de bem avaliar o trabalho do muncipalismo no Brasil, embora ainda dentro dos propósitos déssa contenda verdadeiramente digna e nobre, possa haver lugar para pequenas explorações demagógicas ou de interesses pessoais e políticos.

Se atentarmos para o lado bom, o lado verdadeiro e intencional da luta municipalista, outra coisa não nos cumpre fazer, a não ser partilhar com carinho e boa vontade, direta ou indiretamente déssa contenda que é, acima de tudo e sob todos os prismas, de exclusivo interesse das comunas brasileiras.

Aí está a razão porque achamos meritória e elogiável a homenagem póstuma que será tributada à memória do saudoso Stélio, no próximo dia 9 de Dezembro.

Marília, que é uma cidade que póde ser chamada “berço do municipalismo”, não poderá permanecer indiferente ao acontecimento mencionado, devendo, por isso mesmo, fazer-se representar ao áto citado, na Ilha Grande, no vindouro 9 de dezembro.

O nome de nossa cidade, mesmo que seja através de um único representante, deverá tambem ser desfraldado junto as bandeiras municipalista dos diversos rincões do Brasil, que, numa única coesão, renderão éssa homenagem póstuma à memória saudosa do grande e intransigente municipalista que foi Stélio Machado Loureiro. Principalmente tendo-se em conta que Stélio Machado Loureiro fôra, no pretérito, agraciado com o título de “Cidadão Mariliense”.

Extraído do Correio de Marília de 3 de novembro de 1957