sábado, 12 de dezembro de 2009

Todo excesso é prejudicial (12 de dezembro de 1957)

Lembramo-nos ainda. Um preto velho, carandeiro profissional, dêsses que “curam” qualquer moléstia, “desencostam” espíritos maus, benzem bicheiras de gado e já “conversaram” com milhares de assombrações, foi quem nos disse certa vez: “Todo excesso é prejudicial”.

O têrmo usado pelo “seu” Zé Maria não foi bem êste. Ele dissera, simplesmente: “Tudo que é dimais prijudica”.

Faz muitos anos, quando tal frase nos foi incutida, sem que disso nos déssemos conta. O decorrer do tempo veio corroborar a verdade filosófica alí contida. Efetivamente, todo excesso é prejudicial.

Exceder-se em política, futeból e mesmo religião, para não citarmos outros casos, expõe o fanático ao ridículo. O gesto comedido, é sempre o aconselhável. Aquele que se fanatiza por determinada paixão, torna-se incapaz de aquilatar até que gráu de normalidade pratica. Não enxerga ninguém, especialmente os que pensam ou agem em contrário aos seus modos de entender as coisas. Fatos semelhantes, vemos seguindamente em todas as partes do mundo. Inclusive em Marília.

É difícil, no entanto, o manter-se numa linha réta de compreensão e imparcialidade. É igualmente difícil, para o fanático, aperceber-se que está excedendo.

Nos ocorreu tal pensamento, da palestra que travamos ontem a tarde, com um cidadão mariliense. Boa pessôa, trabalhadeira, honesta. Só têm um defeito: é fanática, politicamente falando. Tão fanática, que chega a desconhecer tudo o mais que acontece nêsse campo, em todo o Brasil. E quando um acontecimento se verifica, em desacordo com o ponto de vista defendido por éssa pessoa, não passa de “basófa”, intrigas, inverdades, etc.

Por mais claros que sejam os assuntos discutidos, esse nosso amigo não consegue e nem se esforça por comprende-los. Tudo está errado, desde que se choque com o seu modo de pensar. Tudo, sem exceção. Só ele pensa direito, embora tenhamos nossas dúvidas, se, conscientemente, ele próprio acredite naquilo que procura dizer-nos.

Caso idêntico verifica-se agora com o “Baby Moon” norte-americano. Houve excesso. Excesso de propaganda. Ha tempos, anunciava-se a soltura de um satélite artificial da Força Aérea Americana. O mundo esperou, com disfarçável impaciência. E o satélite, cujo nome inicial fôra “Vanguard”, não subiu. Os russos, quietinhos, lançaram o “Sputinik”. Primeiro o nº 1; depois o nº 2, com uma tripulante – a cadelinha inocente, cujo nome verdadeiro não se sabe se é “Danka” ou “Laika”.

Pecaram os EE.UU. pelo excesso de propaganda. Tanto pecaram, que hoje torna ridículas, até certo ponto, todas as notícias divulgadas acerca do lançamento do satélite de Tio Sam. Quasi não se houve um programa de rádio, ou não se lê um órgão de imprensa, onde não esteja incluida uma “gozação” acerca do satélite norte-americano. De quem é a culpa? Simplesmente do excesso praticado. Excesso de publicidade.

Extraído do Correio de Marília de 12 de dezembro de 1957

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