quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O Foguete Brasileiro (24 de dezembro de 1957)

Verdadeiramente, o lançamento do foguete brasileiro explodiu como uma bomba! Não pela incapacidade do nacional, mas pelo sigilo que envolveu as operações, pela modéstia dos trabalhos e pelas indiscutíveis deficiências técnicas de nossas arrojadas e necessárias indústrias.

É bom esclarecer devidamente a alusão sôbre “deficiências técnicas” acima. Falamos no sentido geral, em relação à equipagem de vulto nacional, cujo parque é falho e dependente do mercado exterior. Falamos do escasso material humano especializado, por falta de escolas capazes de ensinar, sem que tenhamos que recorrer a favores de nações amigas. Apenas isso.

Voltando ao foguete: Tudo deve ser encarado de modo proporcional. Se isto fizermos, não há dúvida que teremos que nos orgulhar e louvar os militares da Escola Técnica do Exército que trabalharam nesse mistér. Se atentarmos para a fraca equipagem que dispomos nêste sentido, os estudos relativamente iniciais, a falta de recursos financeiros adequados, a escassez da aparelhagem, etc., em relação ao poderio dêsse jaez, publicamente notório dos Estados Unidos, França, Inglaterra e Russia, é bom convir que o Brasil realizou uma verdadeira façanha.

O Foguete-114 custou apenas 8 mil cruzeiros, enquanto os “Sputniks”, os “Vanguards”, os “Baby Moons” e os “Atlas” custam milhares e milhares de rublos e milhares e milhares de dólares.

A maioria dos grandes inventos, conta-nos a própria história, é obra do acaso, de coincidência. No caso presente, tal não se deu. Existiram estudos a respeito. Queimaram-se pestanas. Fizeram-se das tripas, coração. Não saiu uma coisa gigantesca, caríssima, completa. Mas saiu o fruto de um despreendimento invulgar, louvável. Saiu um foguete que suplantou, guardadas as proporções anteriormente enumeradas, os próprios “Sputniks”.

De conformidade com o noticiário dos jornais, constatamos, como tôda gente, que o Foguete-114, de fabricação nacional, foi construído por material genuinamente brasileiro, pólvora especial fabricada em Piquete, por técnicos de nosso Exército e sem interferência de nenhuma outra nação. É motivo de orgulho.

É preciso agora, que o Exército e o próprio Govêrno se interessem pela questão. Que dispensem as verbas necessárias para o prosseguimento dessas pesquisas, amparando os cientistas da E. T. E.. É preciso, por outro lado, que os labutadores e timoneiros dessa empreitada, sejam imbuidos, cada vez mais, do verdadeiro sentimento de brasilidade, que não se “mascarem” e que prossigam com afinco na caminhada.

O acontecimento referido, embora tenhamos entre nós muitos céticos, muitos descrentes, traduz, sem sombra de dúvida, o maior empreendimento nacional dos últimos tempos.

Urge o estímulo, o apôio, a compreensão e confiança de todo.

O Brasil deu um grande passo, que, medido com o metro da sensatez, faz de nossa Pátria uma grande nação. Em relação a todos os recursos e adiantamentos dos próprios Estados Unidos, nêsse particular, conseguimos levar vantagem aos sobrinhos de Tio Sam. E, o motivo é de regozijo, pois é a primeira vez que isto acontece na História do Brasil, que, apesar de ter sido descoberto oito anos depois da América, vem arrastando um atraso de mais de 100 anos de progresso, em comparação aos norte-americanos.

Nossas congratulações, portanto, aos técnicos brasileiros, que executaram êsse empreendimento. E que o fato não sirva de endeusamento, mas, pelo contrário, de um estímulo dos mais poderosos, para a sequência dos trabalhos nêsse campo.

Oxalá o sr. Kubitschek pense como nós.

Extraído do Correio de Marília de 24 de dezembro de 1957

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