sábado, 31 de agosto de 2013

Recursos e médias (31 de agosto de 1976)


Piada, esta:

No quartel. O sargento vê uma cadeira à entrada da porta da Casa das Ordens, impedindo o livre trânsito. Olha enfezado para o primeiro soldado que alí passa em serviço e pergunta:

- Quem foi o animal que deixou essa cadeira alí na entrada?

E o soldado, perfilado, respondeu:

- Foi o coronel, sargento.

No mesmo instante ia passando um tenente e o sargento, berrando nos ouvidos do soldado:

- Três dias de xadrez, por ter chamado o coronel de animal.

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Foi um recurso, uma saída, essa do sargento. Nada honesta, mas foi uma saída, porque ele ficou com a barra limpa perante o tenente, ficou com um falso defensor do coronel, à custa do pobre soldado, que teve que puxar três dias de xadrez.

Por um lado, o recurso. Por outro, a média.

É o que fazem muitos, por aí. Mesmo aquí em Marília.

O recurso, desde que não seja em prejuízo de outrem, é válido, denota presença de espírito, reflexo e inteligência.

O que não acontece com a média.

E tem gente mediando por aí, que é uma barbaridade!

Especialmente nesta época pré-eleitoral.

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Contou esta o radialista mariliense Osmar Santos, quando da realização do curso de noções de jornalismo, que a Sociedade Amigos da Cultura promoveu recentemente:

Maracanã lotado. Seleção brasileira enfrentando um selecionado estrangeiro.

Jogo emocionante. Estádio cheio. O Brasil todo acompanhando pela televisão e pelo rádio.

Foi quando surgiu o primeiro gol do Brasil.

Edson Leite, transmitindo a peleja, anunciou o gol: “Riveeeliiinooo”… Mario Moraes fez aceno negativo com a cabeça e Edson Leite gritou em seguida: “Garrrriiincha”… novo aceno negativo de Mario Moraes, soprando no ouvido de Edson Leite o autor do tento e o Edson Leite foi em frente: “…para Zito completar o primeiro gol do Brasil… Ziiiito…”

Foi um recurso simplesmente notável. A vacilação de Edson Leite deu um empolgamento diferente ao gol brasileiro, sem que os ouvintes percebessem a dúvida do narrador, na citação do nome do jogador, no momento exato em que se consumava o tento.

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A média já não é isso.

A média, di-lo bem o termo, hoje generalizado e facilmente interpretativo, embora seu significado não se conste em dicionário, representa o lado da sombra. O intento de estar de bem e agradando a gregos e troianos.

Pode ser a média seu sentido intrínseco de lealdade, mas nunca deixa de ter eivas de covardia ou acomodamento.

Em Marília tem gente que faz mais média do que as que se vendem nos cafés.

Isto é falta de personalidade, de firmeza.

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Vimos isso por ocasião da balburdia originada em torno do movimento que acabou por decretar o fechamento dos supermercados aos domingos.

Coluna esta manteve posição única, indesviável e irreversível.

O que não aconteceu com pessoas outras, que fizeram médias sobre médias, ora de um lado, ora de outro, numa falta de personalidade e num esbanjamento de coerências.

Extraído do Correio de Marília de 31 de agosto de 1976

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