quarta-feira, 21 de agosto de 2013

E agora, José? Quid prodest? (21 de agosto de 1976)


Quid prodest? – é uma locução latina que significa o mesmo do que “de que serve?” ou ainda “que adianta?”

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A partir de amanhã o comércio de Marília estará morto. A cidade amanhacerá triste, com um ar de abandono, sem aquela graça e aquela vibração que sempre Marília teve, desde que aquí aportaram os primeiros pioneiros de teu progresso.

Bento de Abreu iria ficar triste e aborrecido, com a cidade que ele tanto amou e que, nesta fase em que o Brasil vai para a frente, Marília, por vontade própria, vai para traz.

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Não se pode fazer prevalecer interesses de uma só parte. Não somos contra a honrada classe comerciária, mas não podemos compreender que se preocupe somente com esta, sem considerar a outra, que é a classe consumidora. E esta foi grandemente prejudicada.

As donas de casa estão prejudicadas. Os homens da lavoura estão prejudicados. Eles não compram em supermercados, mas compram em “Varejões”, no próprio Mercado, em armazéns de bairros de saldos e entradas da cidade.

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Nós podemos falar sem que o ponto de vista signifique posição contra os comerciários. O que somos é contra a medida, emanada de lei específica, que só analisou um lado, que pretendeu, através de alguns legisladores, ser favorável a uma classe, sem ter se detido em resultados e consequências.

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Particularmente, eu, encontro-me à cavaleiro para dissecar o assunto.

Foi (a minha) a primeira voz, em Marília, que se levantou para clamar pela necessidade de dotação de supermercados em nosso comércio.

Sou comerciário, também, como empregado assalariado, regisdo pela Consolidação das Leis Trabalhistas, além de subordinado à Lei de Imprensa.

Sou consumidor e me senti prejudicado ou contrariado em meus interesses e conveniências.

Fui diretor da Associação Comercial de Marília.

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Pede-se que se prestigie nosso comércio e fecha-se esse comércio.

Este jornal ombreou-se na campanha da ACM, criando o “slogan”: “Ponha o comércio de Marília no seu coração”.

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Pela divulgação da ACM permanecerão fechados aos domingos “os estabelecimentos comerciais de generos alimentícios, mercearias e supermercados”.

Mercado Municipal vende genertos alimentícios. Deverá estar fechado.

Quitandas vendem generos alimentícios.

Deverão fechar.

Açougueiros vendem generos alimentícios.

Restaurantes vendem alimentos e alimentos são generos alimentícios.

Bares vendem generos alimentícios também.

Devem fechar.

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Mesmo funcionando o Mercado, os bares, os açougues e os restarantes, estes não substituirão jamais os serviços inestimáveis que os supermercados Pastorinhom, Superbom, São João, Brasil, Pereira, Okamoto, Koga, etc., prestaram até aquí à população mariliense.

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As donas de casa estão aborrecidas com a medida.

Povos de cidades vizinhas estão admirados com esse regresso do progresso mariliense.

O comércio clandestino está estimulado, pois quem precisa de uma simples lata de extrato de tomate, ou um pacote de macarrão, ou mesmo um pedaço de sabão – todo mundo pode precisar disso num domingo, inclusive um dirigente de associação comercial ou até um gerente de supermercado – tem que procurar. E vai ao empório mais próximo, comprar mesmo pela porta da cozinha.

Isso redundará em atividades para a fiscalização e aplicação de multas contra os comerciantes.

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Eu estou preparado para que não falte nada em minha casa amanhã. Mas poderá acontecer um imprevisto, poderá ter acontecido um engano, ou mesmo um esquecimento, ou uma falha qualquer.

E eu irei até o fundo de um empório conhecido pedir que me vendam o produto que careço.

E farei isso com bastante aborrecimento, porque o vibrante comércio mariliense está morto.

Extraído do Correio de Marília de 21 de agosto de 1976

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