sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Não é questão de boa vontade... (7 de janeiro de 1959)

Não é mesmo questão de boa vontade. Temos a mais santa das boas vontades, no que tange ao desejo honesto de gostar e prestigiar ao mesmo tempo, o atual Govêrno da União.

Mas é uma coisa assim “que não vai bem”... por mais que nos esforcemos, não conseguimos encontrar razões plausíveis, para considerar o atual Presidente da República como um bom Govêrno.

Pode ser que venhamos ainda a mudar de pensar. Fazemos votos para isso. No entanto, até o momento, não vimos nenhum amontoado de justificativas, que pudesse igualar ou ultrapassar, em volume, o índice de motivos que nos dá o direito de pensar que o Brasil é um país mal governado.

O sr. Juscelino Kubitschek, pelo que percebemos, está se abstendo de cientificar-se das mais comezinhas ocorrências que tão de perto afligem o povo brasileiro, e, em consequência, relegando o plano que em função secundárias eleva-se ao cubo, no que concerne, à medidas providenciais para o bem estar geral de sessenta milhões de brasileiros; está deixando que o povo pereça, que os potentados enriqueçam mais depressa, que os ágios subam mais, que o mercado nacional seja sufocado, que a inflação angustie totalmente o país, contanto que seja construída a célebre Brasília.

Óra, se atribuímos, social, moral e mesmo policialmente ao pai de família, o desgovêrno de sua própria casa, sôbre os ômbros de quem recairá a culpa de um país que se aproxima do cáos?

A moeda, no Brasil, tem dualidade de representação: tem valor extraordinário de aquisição para o pobre e significado negativo para o emprego, tamanho é o índice inflacionário do país, que nos coloca hoje, no pejorativo lugar estatístico, de uma das nações do mundo onde a vida é mais cara e onde a inflação é mais acentuada.

Dois analgésicos de efeito ilusionário e consequências desastrosas, nos foram presenteados pelo atual Govêrno: o salário mínimo e o congelamento de preços. O primeiro, serviu de “sparring” aos desbrios dos potentados e dos “tubarões”, que melhor enchem suas burras, à custa do suor e do sangue do próprio povo; o segundo, discriminando pouco mais de uma dúzia de artigos, soltou o freio a centenas de outros, facultando mesmo que as elevações subissem mais do que os mais pirotécnicos engenhos de São João.

Três anos do atual govêrno, nos deram a certeza de que nunca tantos sofreram tanto. Mais de cinquenta bilhões de cruzeiros emitidos pelo sr. Juscelino Kubitschek em seu govêrno, sem contar-se uns trinta bilhões de cruzeiros, em letras do próprio Tesouro, são um atestado de cartório de que em finanças, o Brasil principia, moralmente, a mendigar.

Poderia parecer, ao menos avisado, no concernente à construção de Brasília, que existe oposição sistemática, pura e simples ao seu processo. De nossa parte, não; sempre louvamos a idéia da mudança da Capital do país, mas sempre condenamos o meio e a forma de sua execução. E continuaremos a pensar assim, até que alguém possa convencer-nos em contrário.

De qualquer maneira, não é questão de boa vontade, o fato de gostarmos do atual govêrno da União. Boa vontade não nos falta; o que não temos em nós, o que não cabe em nossas cabeças, é que não exista, dentro das atuais providências do atual Presidente da República, alguma coisa que tenha vindo diretamente em beneficio do povo, o eterno e sacrificado povo brasileiro.

Já experimentou o leitor analisar quanto custava uma receita médica, um par de calcados, um terno de roupa, uma camisa, uma passagem de trem, avião ou ônibus, antes do sr. J. K. toma posse do govêrno? E quanto custam agora?

E o leitor já tentou aquilatar, de todas as “providências” preconizadas e difundidas pelo atual govêrno, quantas se transformaram em realidade, em beneficio do povo, o sofredor povo brasileiro?

Confessamos que nos esforçamos. Nos esforçamos bastante, para gostar do atual govêrno da República; para ver no mesmo um homem íntegro, devotado inteiramente aos interêsses da população, à desdita de milhares de brasileiros, ao bem estar geral de nossa gente.

Não vimos isso, até agora. Pelo menos, ninguém nos convenceu a ver uma coisa que sabermos existir, cujos males, como facção do próprio povo, nós os experimentamos, sentindo-os na própria carne.

Disso redunda a desconfiança no próprio país, o descrédito no govêrno, na moéda nacional, até no café, a rubiácea-sangue do Brasil, que hoje agoniza, com preços baixos para o mercado importador e preços proibitivos para o mercado interno consumidor!

De nossa parte, temos, repetimos, a melhor boa vontade em gostar do Presidente da República, reconhecendo em suas tradições, um bom govêrno. Mas não é possível.

Não é questão de boa vontade...

Extraído do Correio de Marília de 7 de janeiro de 1959

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