domingo, 30 de janeiro de 2011

As invenções... (30 de janeiro de 1959)

Apregoamos de boca cheia, como num gesto de menosprezo aos nossos pais e avos, que hoje vivemos num mundo diferente, graças a uma série de modernas invenções.

Acontece, que apesar de tanto progresso e tanta melhoria, ainda vivemos iludidos com muitas “maravilhosas” invenções deste século.

No setor eletrônico, de acordo com os cientistas, demos mais saltos do que cangúrus africanos. Entretanto, um radiozinho rudimentar que tenha 20 ou 25 anos, ainda é melhor, mais positivo e menos “enguiçador” do que altas fidelidades, transistores, etc...

Um “binga” daqueles de pedra lascada e chumaços de tecido, aprovam ainda mais do que isqueiros eletrônicos de centenas de cruzeiros.

O setor automobilístico, ainda temos o “pé de bóde”, de 1928, provando que braço é braço, para muitos “Cadillacs” e “Bel Airs”.

Agora, a chamada moderna “moda saco”, vem provar que nada mais se trata de u’a imitação alterada para pior, dos modelos de vestidos de mil oitocentos e tantos.

Os calcados modernos, são desconfortáveis, apesar do sustentado “conforto” que apresentam. As formas anatômicas de qualquer vestuários, impedem movimentos, prejudicam o transpirar normal do corpo humano.

Não que tenhamos regredido em tudo e por tudo; mas que muitas modernas invenções não passam de motivos ilusórios e de truques comerciais, isso não tenham dúvida. Nesse particular, ainda pensa melhor o caboclo brasileiro. Para ele, dentro de suas posses e facilidades, tenta aliar o bem estar e o conforto. Pouco se lhe dá se o chamam de caipira, porque enterra o chapéu no côco, sem tomar sól que nós, da cidade, apanhamos o dia inteiro. Pouco se lhe importa se é feio ou não usar lenço no pescoço; para todos os efeitos, é mais gostoso do que um colarinho engomado e uma gravata apertada dificultando os movimentos do “pomo de adão”.

Se ele gosta de cebola, como quanto quer e quando pôde, sem se importar, como nós, com o “bafo de gibóia”. Se gosta de sanduíche de mortadela, devora-o em qualquer lugar, o que não acontece conosco, que mesmo gostando, sentimo-nos pejados em encomendar um desses alimentos de póbre num bar da cidade.

As invenções, portanto, principalmente dessas chamadas modernas, ainda não supriram em tudo e portudo as peças rudimentares e originais. Mesmo o trator, muitas vezes, não faz os serviços de um simples arado “bico de pato” ou de um carro de bois. O melado, a rapadura e a aguardente, ainda continuam a ser superiores quando fabricadas pelos processos antigos. O café torrado na panela de barro, ainda é mais saboroso do que o preparado em torradores eletrônicos. O pão, assado em fornos de barro continua a ser mais apetitoso do que o cozido em forno moderníssimos. E assim por diante.

A gente compra uma caneta tinteiro caríssima, moderna. Esquece de verificar a carga de tinta e numa ocasião em que mais se precisa dele, “babáu”. Ou senão, mal tampada, derrama-se no interior do bolso. O mesmo acontece com o isqueiro moderno. Quando mais se necessita de seus serviços, o mesmo falha.

As espingardas “pica pau”, ainda continuam a ser mais positivas do que as cartucheiras modernas, com a munição já confeccionada, que hoje em dia falha mais do que a linha do Palmeiras.

E vamos por aí afóra.

E pensando nisso, pensamos com nossos botões: Será que progredimos mesmo de fato e muito no setor da modernização de nossas utilidades?

Extraído do Correio de Marília de 30 de janeiro de 1959

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