sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Hoje, Dia do Médico (18 de outubro de 1974)


Decorria o ano de 1936, quando concluía eu o terceiro ano do curso primário, numa escola mista da zona rural. Para “fazer” o quarto ano e “tirar diploma”, seria necessário ingressar num grupo escolar, pois escolas rurais não ministravam o último ano primário e também não possuíam grupos escolares. Estes só existiam em cidades.

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Oito quilômetros de distância separavam o sitiozinho de meu pai da cidade de Cafelândia. Isto significa que para cursar o último ano em grupo escolar teria que caminhar, diariamente, um percurso de 16 quilômetros, entre ida e volta. E foi o que fiz durante o ano letivo de 1936.

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Dentre os amigos que fiz na classe, nutria eu “inveja” por dois deles: o Ivã, que era filho de um médico, o Dr. Gilberto, e o Ary, que era afilhado de outro médico, o Dr. Moss.

Ambos eram os mais bem vestidos e alimentados da classe, possuíam relógios de pulso, sapatos dos melhores e levavam sempre os melhores lanches escolares.

Eu não levava lanche no grupo, porque meu lanche constituía-se em “bóia fria”: um caldeirãozinho com feijão e arroz e às vezes um ovo frito. Andava quase sempre descalço, pois o tênis “pé-de-anjo”, que vez por outra o meu “velho” conseguia comprar-me, durava pouco. Antes de chegar à cidade, consumia a “boia-fria” e escondia no mato o caldeirãozinho, que apanhava no regresso. A verdade é que eu sentia vergonha de comer feijão com arroz no recreio, enquanto outros levavam pão com manteiga, pão com banana, pão com doces e outras coisas que eu não podia levar.

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O pai de Ary era sapateiro-remendão, mas todas as despesas referentes ao garoto eram custeadas pelo Dr. Moss – roupas, calçados, livros, lanches, cinemas, tudo.

O médico não tinha filhos homens e auto-adotara o Ary, com a intenção confessa de custear-lhe os custos, os estudos, para formá-lo médico, que viria a ser, em porvir, seu sucessor na clínica geral e cirúrgica que possuía

Após a conclusão do curso e depois de ter “tirado” diploma, voltei a fixar-me na lavoura. Enquanto isso, Ivã ia estudar em São Paulo e o Ary, às expensas do Dr. Moss, rumava para Lins, a-fim de cursar o ginásio.

O médico-padrinho do Ary deve ter sofrido decepção, pois ao invés de médico, o rapaz acabou formando-se contador, profissão que exerce até hoje (18 de outubro de 1974).

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Mais de uma vez escrevi aqui que minha vocação, desde a infância, sempre foi a medicina. Mesmo na zona rural e à luz de lamparina a querosene, muito lia em criança, sobre a ciência médica e sabia de cor os diagnósticos e os sintomas de muitos males, descritos numa publicação que se intitulava “O Médico do Lar”.

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Das trinta e duas profissões que aprendi a exercer, para o ganha-pão diário – comecei a trabalhar aos 7 anos – inclui-se a prática de farmácia e de enfermagem e por circunstâncias especiais e inesperadas, até partos auxiliei a fazer e fiz, sem que isso pudesse representar exercício ilegal da medicina.

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Pelo conteúdo que aqui está, manifesta-se de maneira indisfarçável minha grande admiração pela classe médica.

Ocorrendo hoje, a festa de São Lucas, o Médico do Evangelho, comemora-se também o Dia do Médico.

É esta minha homenagem a essa classe abnegada, à qual confiamos a esperança da preservação de nossa saúde e da cura de nossos males.

Meus respeitos à vontade compassiva dos médicos, à generosa paciência, que mesmo nos momentos dos maiores cansaços encontram tempo para socorrer o enfermo, que clama ansiosamente as presenças desses profissionais, ocasião em que a vida do doente passa inteiramente a ficar nas mãos do médico, que, mercê de seus estudos e capacidade profissional e humana, dá ao paciente o ânimo forte, a esperança e a força para a vida.

Aos médicos, esta pálida e sincera homenagem.

Extraído do Correio de Marília de 18 de outubro de 1974

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