sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ossos do ofício, ainda (25 de outubro de 1974)


Comentei em artigo anterior (24/10/1974), motivos relacionados com aquilo que se convencionou chamar de “ossos do ofício”: as adversidades e o inesperado, que se chocam com a execução de atividades profissionais, constituindo o mesmo que um ônus inevitável da própria profissão.

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Por certo, não poderia constituir exceção à regra a função jornalística, que, além dos “ossos”, tem também seus “espinhos”.

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Para quem se dispõe manter uma coluna diária em jornal e quando essa coluna ultrapassou o tempo de vida do paralelo de “bodas de prata”, como é o caso de “De Antena e Binóculo”, muitos  “ossos” foram já “roídos” e “triturados” nesse longo espaço-tempo.

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O jornalista, tal como o ator, trabalhando em função de um grande público, não poderia, por certo, agradar indistinta e incondicionalmente a assirios e caldeus. Se critiva, ouve cânticos dos céus por parte dos que harmonizam análogos pensamentos. Mas, em compensação, sente cantilenas do inferno, por parte daqueles que criticados foram.

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Após a leitura de um trabalho jornalístico ou literário, comprovando que em cada cabeça há uma sentença, os leitores fazem julgamentos próprios ou criam versões pessoais, o que ;e válido e certo, pois que ninguém teria condições de cercear a maneira de pensar dos semelhantes, nem mesmo em países de regimes totalitários – embora em tais locais os pensamentos não possam ser exteriorizados com a mesma frequência, garantias e facilidades como entre nós.

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Além desse tipo de  “ossos do ofício”, um outro, igualmente “duro”, que se antepõe a quem escreve diariamente, caracteriza-se pela falta de inspiração.

Faltando essa condição, o escriba fica no mato sem cachorro e sem farofa.

E isso acontece, vez por outra, o que é natural.

Tem dias em que a gente senta defronte à máquina de escrever, chama a inspiração e esta não se dispõe a atender. Rebusca-se a “cachola” e nada se encontra.

Mas a coluna tem que ser escrita, tem que “sair”.

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O leitor não se interessa e nem quer saber se o escriba está ou não inspirado, se tem ou não capacidade para manter por mais de vinte e cinco anos seguidos, uma coluna diária em jornal. Ele paga a assinatura para ler o jornal, para ser informado, para conhecer opiniões.

Ele está certo. Está no seu legítimo direito.

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O editor responsável também não quer saber se o redator tem ou não inspiração. Se existe ou não motivação para o escriba desenvolver.

Ele quer a matéria escrita. Matéria que se coadune com o espírito norteador da coluna. Para isso, ele paga. Por isso, exige.

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Esse pormenor ocorre nos jornais, especialmente nos interioranos, onde a sistemática de trabalho difere dos grandes órgãos das Capitais. Nos grandes jornais, a editoria máxima condensa, compila e estabelece pautas de trabalho que os repórteres e redatores desincumbem  como uma espécie de tarefa. Na imprensa interiorana isso não ocorre. O profissional, especialmente se for redator, tem que “criar” ideias para produzir críticas ou matérias opinativas.

A exemplo de todas as profissões, os dois fatos apontados constituem-se nos  “ossos do ofício” mais “duros de roer” por parte dos profissionais da imprensa cabocla.

Extraído do Correio de Marília de 25 de outubro de 1974

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