quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O resto do feijão-com-arroz (31 de outubro de 1974)


Em termos de alimentação: resto de comida é uma coisa e sobra de comida é outra.

Sobra é o que deixou de ser consumido durante um período de refeição e é guardado para oportunidade outra. Subentende-se por resto as sobras geralmente deixadas no prato.

Isso, no entanto, não vem ao caso, embora essa tentativa de esclarecimentos de comparação venha a servir como preâmbulo para o conteúdo deste artiguete.

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Este caso é verídico e aconteceu há alguns anos.

Alguns amigos marcaram uma pescaria, que seria (e foi) realizada no córrego Kaingang, no município de Oriente.

Do plano dessa pesca fazia parte o “passar a noite”.

Não recordo-me bem de todos os pescadores. Mas fazia parte do grupo o Coércio Viajante, o Nicola Despachante e um mecânico de automóveis, conhecido por Angelim.

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Como sóe acontecer, cada “tarimbeiro” arrumou convenientemente seus apetrechos de pesca, iscas, lanternas, etc… E, logicamente, o lanche, além de agasalhos para o frio noturno.

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E é sobre o lanche que pretendo falar, porque a lembrança ocorreu-me ontem, por correlação numa informal e ocasional conversa política.

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Como saída iria processar-se num sábado após o almoço. O regresso estava previsto para o domingo antes do almoço. De minha parte levei um sanduíche reforçado, que seria o jantar e um pão-com-manteiga, acompanhado de meia garrafa de café, que representaria o desjejum da manhã seguinte.

A maioria levou também sanduíches para a janta, não havendo preocupado-se com o café matinal do dia imediato.

Mas o Angelim, mesmo tendo parecido o mais “grosso”, acabou provando ser o mais previdente: levou um caldeirão (boia fria) repleto de feijão-com-arroz, com um “teto” de ovos e batatinhas fritas. Como geralmente “os pescadores da cidade” não costumam levar “boia fria”, o fato foi até motivo de gozação por parte de alguns. O mecânico não se agastou.

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À margem do rio, todos se preocuparam ao chegar em localizar um ponto certo, para quando escurecesse e chegasse o momento de dormir. Depois veio a pescaria.

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Por volta das oito horas da noite, decidimos jantar. “Rodou” o clássico aperitivo, cada qual se acomodou como pode e teve início o “manjar”. Todos “atacaram” seus lanches e o Angelim “largou brasa” no feijão-com-arroz completamente frio. O mecânico comeu menos da metade do conteúdo da “boia fria”. Quando todos pensaram que ele iria jogar o resto de comida, o Angelim colocou a tampa no caldeirão, amarrando-a para que não caísse. E a seguir dependurou o mesmo num galho de árvore para evitar a presença de formigas.

O grupo voltou a pescar por mais algum tempo e depois cada qual tratou de “arrumar o leito” e “puxar o ronco”.

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Por volta das seis horas, a claridade do dia fez-se presente e os pescadores deixaram os “leitos”. Lavei o rosto nas águas do rio e buchechei com a mesma água, à guisa de escovar os dentes. Apanhei a “matula”, atacando o pão-com-manteiga acompanhado do café amanhecido e frio.

Angelim dependurou o caldeirão de “boia fria” e “largou o pau” no resto da janta da noite anterior.

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Ai aconteceu o imprevisto.

Depois que Angelim comeu, um dos pescadores perguntou se ele iria jogar o resto. A resposta foi afirmativa e o outro pediu: “Não jogue, deixe prá mim”. O mecânico passou-lhe o resto da comida e o Nicola atacou, quando um outro gritou: “Deixa um pouquinho prá mim também”.

E devoraram, ávidamente, o resto do feijão-com-arroz frio.

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Lembrei-me disso ontem (30/10/1974), ocasionalmente, no Óca Bar, ao tomar um cafézinho com o Anselmo, Felipe, Fittipaldi, Lúcio e Milton Mussi.

Lembrei-me do valor de ter o que desfrutar. Da previdência do Angelim, em guardar resto de feijão-com-arroz, que lhe encheu o estômago e saciou a fome de mais dois companheiros.

O fato em sí não teria importância nem antes e nem agora. Mas teve-a, na ocasião. Representou o “ter”, o “possuir”.

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O leitor, por certo, estará procurando entender o porque dessa estória (que é verídica).

Aqui está: a lembrança desse fato do passado, do resto do feijão-com-arroz, me foi despertada pela conversa do Milton Mussi, que irá votar em Sebastião Mônaco para deputado estadual. Uma pessoa dissera-lhe que ele perdera seu voto. E o Milton respondeu: “Posso perder, mas perco com o que é nosso”.

Entenderam, agora, o porque do “resto do feijão-com-arroz” e a importância de “poder” ter?

Extraído do Correio de Marília de 31 de outubro de 1974

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