terça-feira, 22 de outubro de 2013

Expedientes políticos (22 de outubro de 1974)


Em 1948, determinado deputado paulista fez-me presente de um cartão impresso, constando meu nome e função profissional. O referido documento dava-me o direito de “ingresso livre” no recinto da Assembleia Legislativa do Estado.

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Certa feita, indo à Capital e dispondo de tempo, pretendi conhecer o Palácio 9 de Julho e presenciar uma sessão ordinária da Assembleia Legislativa.

Lembrei-me do “ingresso livre” e isso mais animou-me a conhecer o parlamento.

Na entrada, exibi o cartão ao guarda civil que estava na porta e o policial nem siquer deu-se ao trabalho de examinar ou pelo menos atentar para o nome do portador. Mandou-me simplesmente adentrar.

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Já instalado nas galerias do plenário, estabeleci palestra com um cidadão e comentei o fato do documento. Disse-me o homem:

- Isso não vale nada, é uma demagogia muito barata. Esta é a parte destinada ao público e aqui toda pessoa entra e sai livremente, sem necessidade desse cartão. Mesmo que você necessita falar pessoalmente com um deputado, isso nada representa, porque quem atende primeiro é a secretária particular de cada um deles.

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Percebi e mais tarde constatei que essa formalidade não tem valor, pois, como cidadão comum, qualquer pessoa entra sem esse cartãozinho, na Assembleia, na parte destinada a assistência.

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Nestes últimos tempos, especialmente nesta era de campanha eleitoral, tendo recebido dezenas desses “ingressos livres”, remetidos por deputados candidatos à reeleição.

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O que a respeito causou-me espécie é o recebimento periódico desses “ingressos”, inclusive alguns com propaganda política no verso. Suponho que essas impressões tenham sido feitas aos milheiros e, nesse caso, está havendo milhares e milhares de pessoas “credenciadas” com o “livre ingresso” na Assembleia Legislativa.

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Os candidatos apegam-se a tudo e a todos, utilizando até armas escusas e processos idem.

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Quando da primeira eleição dos deputados estaduais para a Assembleia Constituinte de 1947, fui apresentado a determinado cidadão, que era candidato a deputação estadual.

A pedido deste e por solicitação simultânea de um mariliense, escrevi alguns motivos para discursos políticos do mesmo, com bases em dados me fornecidos. Minha participação foi somente a de redator e fi-la sem interesse qualquer.

Tanto isso é verdade que o aludido cidadão, após ter vencido o pleito e sagrando-se deputado, escreveu-me uma carta de agradecimento e pediu que lhe enviasse duas fotos minhas do tamanho 3 x 4.

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Se, saber a razão do pedido e sem alternativa, atendi o solicitado e enviei as fotografias.

Cerca de um mês após recebi pelo correio um envelope timbrado da Assembleia e um ofício do deputado, oferecendo-me uma carteira que me concedia “passe-livre” na Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

O que me surpreendeu foi que nessa cédula, com meu nome, fotografia e endereço, constava ser eu suplente de deputado em exercício!

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Fiquei chocado e entendi que jamais poderia aceitar aquela imoralidade.

Arranquei a foto da cédula e a devolvi ao deputado, com uma carta em que condensei a recusa e a censura ao método utilizado. Nunca mais o referido deputado lembrou de mim…

Extraído do Correio de Marília de 22 de outubro de 1974

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